30.04.09

Álbum de André Toral mostra relação histórica com os índios

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 


"Os Brasileiros", já à venda, traz sete histórias histórias sobre a questão indígena em diferentes épocas 

 

 

 

 

 

 



Há um ponto que une as sete histórias de "Os Brasileiros", álbum que tem dois lançamentos em São Paulo nos próximos dias (Conrad, 88 págs., R$ 38).

O elo é a presença dos povos indígenas. E da relação deles com o processo de colonização.

Não se trata de ver o índio como vítima. Mas de quais foram as decisões tomadas por eles dentro das circunstâncias históricas que tiveram de enfrentar.

As histórias da obra - escrita e desenhada por André Toral - mostram diferentes momentos ficcionais, tomando como pano de fundo dados reais.

                                                           ***

São tramas autônomas, produzidas por Toral em diferentes momentos. Vão de 1991 a 2008.

Algumas são reedições, como "O Negócio do Sertão", lançada em álbum em 1991.

As narrativas - umas curtas, outras mais longas; umas colorizadas, outras em preto-e-branco - podem ser lidas isoladamente.

Mas, se seguidas uma atrás da outra, formam um amplo panorama histórico, indo de 1560 aos dias de hoje.

                                                           ***

"Sou atraído pelo que há de curioso em pensar que o nosso espaço, o território que ora se chama ´brasileiro´, já foi ocupado por outras culturas absolutamente diferentes de nós mesmos", diz o autor paulistano, de 51 anos.

"E o que ficou desses homens e mulheres que viveram, se amaram por mais de 15 mil anos, aqui? Pouco, quase nada. Eles, como nós, somos passageiros na superfície da terra. Sou atraído pela precariedade na nossa condição."

Parte dessa influência histórica em sua obra vem também de sua formação acadêmica. Toral transita entre as áreas da antropologia e da história.

É formado em Ciências Socias pela Universidade de São Paulo, onde também doutorou-se em História Social. O mestrado foi em Antropologia Social, na Federal do Rio de Janeiro.

                                                           ***

O interesse acadêmico pautou também a escolha dos temas de seus trabalhos anteriores.

A primeira publicação, de 1986, tratava de "pesadelos paraguaios". Foi publicada na extinta revista "Animal".

Em 1992, lançou pela "General" - outra publicação cancelada - as duas partes de "O Caso dos Xis". A narrativa indígena é reunida neste novo álbum.

Mas é de 1999 seu trabalho mais conhecido: "Adeus, Chamigo Brasileiro: Uma História da Guerra do Paraguai". O roteiro foi vencedor de um HQMix, principal premiação de quadrinhos do país. A obra foi relançada no ano passado pela Cia. das Letras.

                                                          ***

"Acho que gosto mesmo é de história, num sentido mais amplo", diz. "Então eu penso: pena que eu vou morrer e levar tudo isso comigo. Tudo isso que eu vi, e que interessou." 

"Por isso, eu desenho o que gosto: pra deixar registrado o que eu vi, minhas imagens, pra onde foi o meu olhar."

Toral, hoje, divide os quadrinhos com aulas na FAAP, Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo. Lá, leciona história da arte no curso de comunicação.

Entre uma tarefa e outra, ele conversou com o blog, por e-mail. Na entrevista a seguir, ele diz que prepara outro trabalho e dá mais detalhes sobre este "Os Brasileiros".

                                                            ***

Blog - A história se pauta na relação mantida com os índios. Você defende um ponto de vista nessa relação? Os índios foram vítimas da colonização?
André Toral
É difícil falar de "índios" em geral porque são grupos indígenas muito diferentes entre si e que tomaram um sem número de atitudes frente ao branco, o que dificulta a possibilidade de resumir "uma" atitude dos "índios" frente ao contato. Eles tinham e têm estratégias diferenciadas. Não acredito, claro, na história de "vítimas da história" porque lhes rouba um protagonismo histórico que é fato. Por esse viés, os índios são tão incapazes que sua história anda a reboque da história da sociedade brasileira. Ao contrário, temos grupos com histórias de recuperação impressionantes e que deveriam ser conhecidas e não só ficarmos falando de índios do passado ou de um xingu sonhado e irreal. A história do índio no Brasil é uma história de vitórias e não só de derrotas. A população indígena aumenta, eram cerca de 170 mil na década de 1970, hoje são mais 400 mil, nunca tantos grupos tiveram terras legalmente asseguradas, nem nunca tantos jovens índios tiraram diplomas universitários etc. A situação indígena está melhor do que nunca foi na colônia ou no Brasil independente. Esta melhor não quer dizer que a situação é boa, é só ver o quadro de saúde ou a quantidade de terras invadidas. Mas não é a história baixo astral de extermínio. É uma história de conquistas e muitas vezes e o mérito é todo deles, os índios de mais de 200 grupos diferentes que vivem no Brasil.

Blog - Por que "brasileiros"?
Toral
Depois que terminei, vi que o álbum parecia reunir histórias que falam sobre o contato de dois povos e a formação de uma coisa nova, original e plural em termos culturais, que somos nós, os brasileiros. Somos tão diferentes entre nós como eu que vivo aqui em perdizes, em São Paulo, e um Xavante do Mato Grosso. Então é um brasileiro falando de outros. Espero ter mostrado as coisas de um jeito respeitoso e democrático em relação à opinião do "outro".

Blog - Demorou alguns anos para você produzir uma nova obra em quadrinhos? O que levou a esse intervalo?
Toral - Amo quadrinhos, mas não considero possível viver de quadrinhos. Poucos conseguem. Além disso, gosto de outras coisas importantes, como antropologia, história da arte e montar aviõezinhos. Entre a data de publicação do meu último álbum, "Adeus Chamigo Brasileiro", e hoje, aprendi a fazer litografia, fiz aquarelas e também fiz oito histórias novas, delas apenas algumas aparecem nesse álbum. Acho que se não fosse a aquarela e a litografia, o meu trabalho seria muito diferente. Li muito também e aprendi muito com Alberto Breccia e Germán Oesterheld, especialmente seus personagens Mort Cinder e Sherlock Time. Leio também e muito minha coleção de Pato Donald do mestre Carl Barks. Não sei se minha relação com quadrinhos é só como autor. Eu consumo muito também. Adoro ler os trabalhos dos outros. Acho que poderia fazer resenhas ou crítica de quadrinhos.

Blog - Você é um dos poucos autores da geração de 1980/90 que produziam bons álbuns nacionais com histórias mais longas. Daquele momento histórico para hoje, você percebe alguma mudança editorial na área de quadrinhos nacionais?
Toral - Em termos gerais? Acho que melhorou muito. É só ir a uma banca ou livraria e ver a quantidade de editoras brasileiras que republicam material importado ou buscam autores nacionais. Apesar da costumeira rotatividade de pequenas editoras de quadrinhos, as grandes editoras já tem núcleos que trabalham com quadrinhos e as que não tem estão tratando de criá-los, veja a Cia. das Letras. Finalmente os editores renderam-se à obviedade de que qualquer editora deve ter uma divisão dedicada aos quadrinhos simplesmente porque tem público. A inclusão dos quadrinhos em bibliografias de escolas fez com que as vendas aumentassem com tiragens inteiras pré-vendidas praticamente. Isso é bom. Repare também como "quadrinhos históricos" estão em alta. Todo mundo descobriu que os "jovens" gostam e podem aprender história de uma forma nova e com a qual se identificam. Eu vejo como meus alunos de artes plásticas gostam e fazem quadrinhos. Acho que vivemos um momento bom, nada de rojões porque, na minha opinião e de uma forma geral, o quadrinista ainda não é pago de forma correspondente. Os que trabalham para fora (do país) talvez, mas eu desconheço se ganham bem ou não.

Blog - Há planos de outros álbuns em quadrinhos?
Toral
Tenho um álbum em fase de finalização sobre um tema importantíssimo e muito atual, ainda que histórico.

                                                                       ***

Serviço - Lançamentos de "Os Brasileiros" em São Paulo.
Quando: sábado, 02.05. Horário: 19h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro.
Quando: segunda-feira (04.05). Horário: 19h. Onde: loja de artes da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Endereço: Avenida Paulista, 2.073.

Categoria: ENTREVISTA

Escrito por PAULO RAMOS às 12h05
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Pixel vai publicar quadrinhos de premiados em concurso da Fnac

A editora Pixel vai manter o acordo e irá publicar as histórias em quadrinhos feitas pelo autores que ficaram em segundo e terceiro lugares do Prêmio Fnac Novos Talentos.

A garantia é de Silvio Alexandre, organizador da premiação, realizada no ano passado.

"O fato de a Ediouro descontinuar a linha de quadrinhos da Pixel não afetará em nada a revista especial que será feita com os premiados", diz Alexandre, por e-mail.

"Trata-se de uma parte da premiação e isso não foi mudado. Tanto a Ediouro como a Fnac mantêm o combinado".                                                          

                                                          ***

A Ediouro é a proprietária do selo Pixel, que vive dias de incógnita. A empresa tornou público nesta semana que rescindiu o contrato com a linha adulta da DC Comics.

Os títulos da norte-americana DC - que publica séries como Sandman, Preacher e Fábulas - eram o carro-chefe da Pixel. 

Por isso, havia dúvidas quanto ao futuro dos trabalhos feitos pelos premiados no concurso.

Pelas regras, o segundo e terceiro colocados teriam quadrinhos lançados num especial da revista "Pixel Magazine". O título mensal foi cancelado com as mudanças.

                                                           ***

O segundo lugar do Prêmio Fnac ficou com Luendey Maciel de Aguiar, nascido no Amazonas e morador de Curitiba. O terceiro, com o paulista Victor Gáspari Canela.

Eles também receberam material de informática e R$ 3 mil e R$ 2 mil, respectivamente. O primeiro colocado foi o paranaense André Figueiredo Müller. Ele ganhou R$ 5 mil.

Segundo Silvio Alexandre, as histórias em quadrinhos feitas pela dois autores serão editadas por ele e por Cassius Medauar, ex-editor-chefe da Pixel.

"Essa publicação será lançada durante a festa de entrega do Troféu HQMix, no Sesc Pompeia", diz. A cerimônia está programada para julho, em São Paulo.

                                                           ***

Posta postagem (30.04, às 16h45):  o curador do prêmio, Silvio Alexandre, entrevistado nesta postagem, esclarece um ponto sobre a publicação dos trabalhos dos dois autores.

Segundo ele, quem vai manter o acordo é a Ediouro, e não a Pixel. Em outras palavras: significa que as histórias não serão lançadas necessariamente pelo selo editorial.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h04
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Registros rápidos

Dilbert - A L&PM começa a vender nesta virada de mês o quarto livro de bolso com tiras de Dibert, personagem de Scott Adams. "Dilbert : Trabalhando em Casa" integra a coleção de pockets da editora gaúcha. A série completa 20 anos de criação.

França no RJ - O quadrinista francês Benoît Peeters faz um bate-papo hoje, às 18h30, no Rio de Janeiro. Ele é também especialista na obra de Hergé, criador de Tintim. Na Mediateca da Maison France (av. Presidente Antônio Carlos, 58, Castelo).

Fan Trek 1 - O livro "Almanaque Jornada nas Estrelas" conta a trajetória do seriado, que se tornou uma fraquia de sucesso, inclusive nos quadrinhos. O lançamento da obra será sábado (02.05), às 14h no 1º FicSão Paulo (r. Sena Madureira, 298, São Paulo).

Fan Trek 2 - A Devir programa para breve o lançamento de outros álbuns em quadrinhos baseados na série. O primeiro foi lançado no ano passado. A editora se pauta no burburinho gerado pelo próximo filme da franquia.

Humor - O 26º Salão Internacional de Humor do Piauí recebe inscrições de cartuns até o dia 19. O tema é meio ambiente. O vencedor ganha R$ 10 mil. Detalhes no site do evento. O salão vai ocorrer entre 25 e 31 de maio. 

Lançamento - Christie Queiroz lança neste feriado de sexta-feira o álbum de tiras de Cabeça Oca: "Só Não Crio Juízo Porque Não Sei o que Ele Come". É a décima coletênea da série. Será às 15h, no Centro de Convenções de Goiânia.

Biografia - A editora Seoman vai publicar no Brasil a biografia "Schulz and Peanuts: a Biography", sobre o criador das tiras de Snoopy. Deve ficar pronta no segundo semestre. A informação foi antecipada hoje por Eduardo Nasi, do site "Universo HQ".

Votação - "Earthbuilders", história colorizada pelo brasileiro Felipe Sobreiro, concorre numa disputa virtual no site norte-americano Zuda Comics, da DC. A votação é livre é termina hoje. Se vencer, pode ser remunerado e até publicar pela editora. Link para votar. 

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 10h19
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29.04.09

Primeira obra da lei de incentivo paulista a HQs tem lançamento em SP

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 


Capa do álbum de tiras "Caroço no Angu", de Gilmar, que começa a ser vendida no próximo fim de semana

 

 

 

 

 

 


O desenhista Gilmar lança seu próximo álbum de tiras, "Caroço no Angu", no próximo sábado, em São Paulo. Foi uma obra produzida em tempo recorde.

Entre o recebimento da verba da lei paulista de incentivo à produção de quadrinhos - R$ 25 mil - e a impressão, foram três meses. Ajudou o fato de as tiras já estarem prontas.

O projeto é o primeiro do programa de apoio cultural a ficar pronto. Outros nove estão em produção. Houve mais de cem inscritos no edital, definido em dezembro passado.

A obra de 48 páginas foi editada por ele mesmo. "Conversei com uma editora, mas, para entrar na grade de publicação, leva-se muito tempo", diz, por e-mail.

                                                           ***

O desenhista de 43 anos espera ampliar a tiragem do álbum. Tem planos de firmar parceria com alguma editora para ajudar nesse processo. E para contornar a burocracia.

"Posso dizer que é mais cômodo lançar por uma editora, já que não precisamos bater cabeça com questões burocráticas de registro", diz.

Segundo ele, perde-se um bom tempo até descobrir "os caminhos das pedras".

"Com editora, que tem todos os caminhos, só precisamos nos preocupar com a produção do material, que é o nosso ofício."

 

Crédito: divulgação

                                                     

O formato do novo álbum ficou parecido com os dois outros que ele lançou pela Devir, "Para Ler Quando o Chefe Não Estiver Olhando" (2004) e "Pau Pra Toda Obra (2005).

A obra traz 180 tiras feitas por ele em diferentes publicações, de "Folha de S.Paulo" e "Jornal do Brasil" a revistas como a "Você S.A.".

"É uma miscleânea de temas como moda, etiqueta, teen, empreendedorismo, comportamento etc´", diz. "Por isso, o título ´Caroço no Angu´".

Gilmar tem outro trabalho na pauta da Devir. É uma coletânea de tiras do personagem Ocre.

                                                          ***                                                  

O desenhista hoje integra a equipe de ilustradores do jornal "Diário do Grande ABC", de Santo André, cidade onde mora.

Gilmar tem conquistado nos 20 anos de carreira diferentes prêmios. Foi escolhido melhor cartunista em 2002 no Troféu HQMix, o principal da área de quadrinhos no país.

O ano de 2006 foi particularmente especial para ele. Destacou-se em três premiações.

Venceu a categoria charges do Prêmio Vladimir Herzog, o 14º Salão de Humor para a Imprensa e ficou em segundo lugar no Salão de Humor de Piracicaba daquele ano.

 

Crédito: divulgação 

 

Serviço - Lançamento do álbum de tiras "Caroço no Angu". Quando: sábado (02.05). Horário: 21h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo. Preço sugerido: R$ 23.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h01
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FIQ confirma mais estrangeiros para o festival de quadrinhos

Os coordenadores do 6º FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos - confirmaram mais oito artistas estrangeiros que irão participar da próxima edição do evento.

A maioria é da França. O motivo é que o festival integra a agenda oficial do ano da França no Brasil, intercâmbio cultural entre as duas nações.

Cinco autores virão do país europeu: Marc-Antoine Mathieu, Nicolas de Crecy, Christophe Blain, Cizo e Felder. São nomes pouco conhecidos dos brasileiros.

A lista de franceses pode aumentar, segundo os organizadores. Moebius é um dos que foram convidados. Ainda não confirmou presença.


                                                        ***

Os demais convidados confirmados se dividem entre diferentes países.

A exemplo da França, a maior parte é da Europa. Da Itália, Liberatore, criador do personagem Ranxerox, publicado no Brasil pela extinta "Animal", no fim dos anos 1980.

O espanhol Juan Díaz Canales também é conhecido dos leitores daqui. São dele os textos dos dois álbuns de "Blacksad" lançados pela Panini em 2006.

O nome do norte-americano Ben Templesmith também é familiar aos brasileiros. São dele os desenhos da série de terror "30 Dias de Noite", publicada pela Devir.

                                                           ***

Os outros estrangeiros já haviam sido noticiados pelo blog em fevereiro. São o canadense Guy Delisle, autor de "Crônicas Birmanesas", e o alemão Jens Harder.

Os nomes dos novos convidados externos foram divulgados no blog do festival. A página virtual tem trazido regularmente informações sobre o evento.

Mas, fora do blog, os organizadores sinalizam que a lista deverá ser maior, e não só com autores franceses.

A relação inclui dois argentinos, dois chineses, outro alemão, mais dois norte-americanos, outro espanhol e um africano.

                                                          ***

Vai haver brasileiros também. Mas, como ocorreu nas edições anteriores, os estrangeiros são confirmados primeiro para facilitar o transporte e a agenda.

Por enquanto, sabe-se que o desenhista brasileiro Joe Bennet terá uma exposição. Ele atua no mercado de quadrinhos dos Estados Unidos.

O homenageado desta sexta edição do festival, realizado a cada dois anos, é Renato Canini, criador de personagens como Kactus Kid e principal desenhista de Zé Carioca.

O FIQ vai ser realizado uma vez mais em Belo Horizonte (MG), entre 6 e 11 de outubro.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 09h56
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28.04.09

Panini diz que, no momento, não negocia selos adultos da DC

A editora Panini disse hoje, ao blog, que não ocorre, ao menos no momento, uma negociação para publicar as linhas Vertigo, ABC e Wildstorm, selos adultos da norte-americana DC Comics.

"O que existe até agora são consultas do mercado de histórias em quadrinhos no Brasil pela DC em função do bom relacionamento que a Panini mantém com eles", diz por e-mail Marcelo Adriano da Silva, coordenador de marketing da editora.

"Informaremos se eventualmente houver uma consulta no sentido de negócio dos selos Vertigo/Wildstorm."

A multinacional mantém contrato com a DC para publicação de histórias de super-heróis.

                                                          ***

A leitura que se faz é que o material adulto da DC está, uma vez mais, posto a leilão entre as editoras nacionais.

E que já ocorre uma sondagem - ou consulta - por parte da editora norte-americana.

A última a ter os direitos de publicação dos títulos da Vertigo, ABC e Wildstorm foi a Pixel, selo editorial da Ediouro.

Ontem, a empresa confirmou que rescindiu o contrato com a DC. Leia mais neste link.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 20h28
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Uma crônica sobre El Eternauta no metrô paulistano

Tenho recebido uma série de e-mails comentando a série especial sobre os quadrinhos argentinos, encerrada na postagem do último dia 21.

São relatos diversos. Um deles quis dividir com o leitor do blog. É uma mensagem em forma de crônica, escrita pelo colega jornalista Tiago Souza.

O curioso texto dele mostra que a série surtiu algum impacto em quem a leu.

E serve como um apêndice tardio.  

Segue o relato real de Tiago, vivido ontem (27.04) na capital paulista.

                                                            ***

Olha como é engraçada essa metrópole chamada São Paulo, mais especificamente seu metrô.

Nos últimos dias, por conta de seus artigos sobre os quadrinhos na Argentina, resolvi me aventurar a ler aquele para quem você dedicou um capítulo à parte: Oesterheld e seu Eternauta.

Aliás, só para ficar anotado, meus álbuns do El Eternauta (tenho três no total, comprados há um ano mais ou menos) foram comprados meio que sem querer na livraria HQ Mix, do Gual. E, se eu não me engano, pertenceram à coleção pessoal de Luiz Gê.

O fato de eu não os ter lido até hoje se explica por eu nunca ter tido um espanhol tão forte como agora (embora já tenha entrevistado um artista espanhol, Ángel de la Calle, e um outro argentino). Esperei, portanto, o momento certo para entender melhor esta obra.

Hoje me encontrava lendo parado entre o corredor e a porta do metrô na estação Brás (caminho que sempre faço quando vou da casa da minha namorada para o trabalho).
Eis que, atrás de mim, alguém cutuca meu braço:

- É Eternauta que você está lendo? - perguntou um homem mais alto que eu, de cabelos grisalhos, segurando a "Folha de S. Paulo" de hoje e uma jaqueta marrom.

Comecei a puxar conversa.
Descemos inclusive juntos na estação Sé dialogando sobre os quadrinhos argentinos, Breccia, Pratt e, lógico, Oesterheld e seu Eternauta. Citei várias vezes seus artigos.

Por fim, lembrei-me de fazer algo que quase sempre esqueço quando conheço uma pessoa nova: me apresentei.

- Foi um prazer conversar com você. Me chamo Tiago, você??

Maringoni, ele disse. E comentou que o conhecia.

Mais uma vez São Paulo dá mostras de como é uma cidade surpreendente.
 
E devo a você, seus artigos e a Oesterheld esta nova amizade, que acredito que será bastante frutífera (já recebi um convite para o lançamento do próximo livro dele).

                                                          ***

Duas informações, só para contextualizar.

O tal Maringoni é o jornalista, chargista e professor universitário Gilberto Maringoni.

Ele defendeu doutorado na Universidade de São Paulo sobre a obra de Angelo Agostini, pioneiro dos quadrinhos no Brasil.

A "HQMix, do Gual" é a Livraria HQMix, que fica no centro de São Paulo. É mantida pelo desenhista e arquiteto Gualberto Costa - o Gual - e pela esposa dele, Daniela Baptista.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 20h05
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Presença de Robin humaniza Batman em histórias de 1940

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Primeiras parcerias da dupla de heróis são relançadas em álbum, que começa a ser vendido neste fim de mês

 

 

 

 

 

 

 

 


Havia um quê do perfil sombrio do Batman de hoje nas primeiras histórias do homem-morcego, de 1939. Mas, no ano seguinte, ele já começava a perder esse ar misterioso.

O motivo foi a criação de Robin, seu parceiro-mirim. A transição do ethos do personagem fica mais evidente quando se leem as aventuras em sequência.

Isso pode ser comprovado no segundo volume de "Batman Crônicas", álbum de luxo que começa a ser comercializado neste fim de mês (Panini, 228 págs., R$ 54).

Em lojas especializadas em quadrinhos de São Paulo, a obra já está à venda.

                                                           ***

A mudança do modo de agir de Batman já podia ser percebida no volume anterior, lançado em outubro de 2007. O álbum terminava com a estreia de Robin, o menino-prodígio.

Até então, prevalecia o silêncio e a frieza com que o herói enfrentava o crime.

Numa das aventuras, ele dizia que o vilão, após ter caído num tanque de ácido, tivera um fim perfeito para a laia dele.

A presença de Robin, nas tramas seguintes, começou a exercer um efeito humanizante no personagem-título, criado por Bob Kane.

                                                           ***

Há dois bons sinais dessa transição de composição do herói. Um é observar o texto de abertura das histórias que iniciam este segundo álbum, com material de 1940.

Na primeira aventura, de maio daquele ano, Batman é apresentado ao leitor como uma "intrépida figura sombria". Nas duas tramas seguintes, o adjetivo muda para "poderoso".

Seguiu-se um destemido no início de outra história. Até que fosse apresentada somente como Batman, acompanhado de seu parceiro Robin. Sem adjetivos.

O lado sombrio se tornava paulatinamente iluminado. E, com a luz, vinha o bom humor, expresso no rosto sorridente dele.

                                                          ***

Nas histórias de estreia de Batman, imperava o silêncio. Nas lutas, ele pouco conversava.

Já nas aventuras compiladas neste segundo número de "Batman Crônicas", ele dialoga com os vilões, enaltecendo seus feitos.

"Este é o fim da linha para vocês! Feliz Aterrissagem!", diz o herói após chutar dois capangas para fora de um trem.

E se diverte sozinho também. Em outro trecho, de outra aventura, grita um "Iupii! Não faço isso desde que era criança!" ao escorregar por corrimão.

                                                           ***

Há um inegável valor histórico nessas histórias. São os primórdios de um dos personagens dos quadrinhos mais populares no mundo.

Há muita ingenuidade nas aventuras, extraídas das revistas "Detective Comics", "Batman" e "New York World´s Fair Comics", lançadas entre maio e novembro de 1940. 

Pode-se observar que é o início da trajetória da composição do personagem, que culminaria, décadas depois, na forma como foi levado para a TV em seriado próprio.

A versão interpretada por Adam West foi combatida nos quadrinhos nos anos seguintes. Buscou-se, de novo, o lado sombrio de 1939. É o perfil que tem predominado desde então.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 00h37
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27.04.09

Aqui jaz - de novo - a linha Vertigo no Brasil

Lamentamos informar o falecimento da mais recente tentativa de publicar a linha Vertigo no Brasil.

A editora Pixel, que pertence à carioca Ediouro, confirmou com atraso que não vai mais lançar revistas do selo adulto da norte-americana DC Comics, de Batman e Super-Homem.

A informação da morte veio a público nesta segunda-feira. O atestado de óbito foi divulgado pelo jornalista Sidney Gusman, do site "Universo HQ".

Ele ouviu diretamente do responsável pelo caso, Luiz Fernando Pedroso, diretor-geral da Ediouro, a confirmação sobre a falência múltipla.

                                                           ***

Pedroso diz na reportagem que a cirurgia na paciente não obteve sucesso. "A operação dava um prejuízo razoável", relatou ele, que acompanha a falecida há mais de três anos.

Ele disse também que os danos atingiram outros órgãos. A crise econômica afetou a desvalorização cambial e aumentou a taxa do organismo a ser paga.

"Como a editora não demonstrou interesse, chegou-se a um acordo e o contrato foi cancelado."

O contágio da doença terminal atingiu também dois outros pacientes adultos da DC, ambos lançados pela Pixel: as linhas ABC, de Alan Moore, e Wildstorm.

                                                           ***

A Pixel apresenta problemas de saúde desde dezembro do ano passado. Foi quando tornou público um enigmático câncer, que impedia a reprodução das células impressas.

A última - chamada "Fábulas Pixel" - foi gerada em janeiro deste ano. Depois dela, nada.

Embora os responsáveis pelo caso tenham optado pelo silêncio, desconfiava-se que o quadro havia piorado. Um dos motivos eram sinais de confusão entre ficção e realidade.

No início do ano, pessoas que cuidam do relacionamento da Pixel na internet informaram, no site Orkut, que nada tinha mudado e que era apenas um mal-estar passageiro.

                                                          ***

Já nessa época, comprovou-se que se tratava de delírio, mitomania ou outro mal similar.

O selo editorial não era mais visto nas bancas e nas livrarias, lugares que costumava frequentar, em geral bem vestido. Tinha sumido nos dois meses anteriores.

Este blog vinha tentando saber, mês a mês, informações sobre melhoras ou pioras.

A última cobrança foi feita, sem sucesso, no início deste mês.

                                                           ***

A doença contraída pela Pixel não é rara e já acometeu muitas outras vítimas editorias na história deste país. Infelizmente, ainda não foi encontrada uma cura.

A própria Ediouro tem insistido num modo de vida que, revela-se agora, não é muito saudável.

Ela tem comido muitos selos editoriais, todos de uma vez. E está tendo dificuldade na digestão de todos.

Partes dos ingredientes nutritivos da Desiderata e da Agir, duas editoras deglutidas pela Ediouro, tiveram rejeição e foram eliminados por conta própria.  

                                                          ***

Os familiares mais próximos da Pixel defendem a tese de que ela não morreu e que ainda permanece viva na mente dos entes queridos. Por isso, o enterro ainda não foi marcado.

Colegas que conheceram os selos adultos da Vertigo não foram encontrados para serem informados sobre o falecimento.

Um dos motivos é que Sandman, Preacher, Y - O Último Homem, John Constantine, Ex-Machina e tantos outros profissionais já não dão as caras no Brasil há alguns meses.

Nem mesmo os personagens de Fábulas, ligados ao mundo da fantasia, foram encontrados. Se fossem, é possível que desejassem um final feliz.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 22h41
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Walt Disney não tinha interesse por seus quadrinhos, diz biógrafo

"Disney investia as suas energias naquilo que realmente o interessava. Foi assim com Mickey, Branca de Neve e a Disneylândia. Ele não tinha absolutamente nenhum interesse pelos quadrinhos publicados sob seu nome."

A declaração é do jornalista estadunidense Neal Gabler, autor de "Walt Disney: O Triunfo da Imaginação Americana", mas recente biografia do pai de Mickey Mouse.

Tanto que, na obra, pouco se fala de quadrinhos. A maioria dos personagens lidos nas revistas veio da mente de Carl Barks, o verdadeiro criador de Tio Patinhas e companhia.

O livro procura mostrar as fantasias criadas por Disney, que incentivava a criação de uma mitologia própria. Nos bastidores, era autoritário e personalista.

                                                           ***

A biografia sobre Disney (1901-1966) começa a ser vendida no Brasil nesta segunda-feira, segundo noticia a edição de hoje da "Folha de S.Paulo".

O jornal antecipa a informação, em reportagem escrita por Raquel Cozer. É da entrevista concedida a ela a declaração de Gabler reproduzida nesta postagem.

A Folha traz também uma resenha da obra feira por Ruy Castro, um especialista em biografias. Segundo o jornalista, o livro de 944 páginas quebra muitos mitos sobre Disney.

Um deles seria o fato de o corpo dele ter sido congelado após a morte. Lenda. De acordo com a obra, Disney foi cremado e as cinzas, levadas a um cemitério de Los Angeles.

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 23h07
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25.04.09

Blog dos Quadrinhos: três anos no ar

Este blog completa hoje, 25 de abril, três anos de existência.

Divido a data com o leitor, co-autor desta página.

Agradeço a todos pelo privilégio desta longa convivência virtual.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 00h45
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Registros rápidos

 

Crédito: divulgação

 

Lançamento 1 - Samuca, chargista do "Diário de Pernambuco", lança neste sábado, às 18h, o livro "Sem Palavras". São 90 cartuns, que têm em comum o tema da obra. Vai ser na Livraria Cultura de Recife (no Paço Alfândega). É de Samuca o cartum acima.

Lançamento 2 -  Marcela Godoy autografa neste sábado, às 18h30, em São Paulo, o livro "Liah e o Relógio", da Devir. As ilustrações são de Weberson Santiago. Marcela escreve para este ano o álbum em quadrinhos "Fractal". O lançamento é na Fnac da Av. Paulista.

Revista digital - Entrou no ar nesta semana a "Quadrinhos em Ação", revista dedicada a relembrar super-heróis brasileiros. Editada por Carlos Henry, a publicação foi feita para ser lida na internet. Pode ser baixada no blog , que leva o mesmo nome da revista.

Humor - Começaram as inscrições para o 22º Salão de Humor de Volta Redonda. Vão até 15 de junho. São cinco categorias: charge, cartum, caricatura, quadrinhos e um prêmio especial para o tema "crise econômica". Mais no site do salão.

Independente - Já faz algumas semanas que Wellington Srbek lançou uma edição de Solar, herói que criou em 1994 e que ganha agora novo verniz. A revista tem 52 páginas e arte de Rubens Lima. O blog de Srbek traz outros detalhes, inclusive sobre como comprar.

Edgar Franco 1 - O professor universitário e quadrinista Edgar Franco lança o terceiro número de Artlectos e Pós-Humanos, agora pela Marca de Fantasia. A obra futurista dialoga com novas tecnologias. As compras são feitas somente por meio do site da editora.

Edgar Franco 2 - O desenhista é tema de outra publicação da Marca de Fantasia: a revista/fanzine "Top! Top". Cada número destaca um autor brasileiro. "Top! Top!" é editada por Henrique Magalhães, responsável pela Marca de Fantasia.

No RJ - Integrantes do grupo independente Quarto Mundo invadem o Rio de Janeiro neste sábado. Will, Daniel Esteves, Jozz e Laudo fazem palestra na Impacto Quadrinhos, em Botafogo (r. Mena Barreto, 35). Vai das 13h às 16h.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 23h20
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24.04.09

Mestrado da USP faz biografia de Renato Canini em quadrinhos

 

Crédito: reprodução

 

A sequência acima é uma das 20 páginas de uma biografia em quadrinhos que narra a trajetória do desenhista Renato Canini. A autoria da história é do quadrinista e pesquisador Eloar Guazzelli. 

A biografia é um dos sete capítulos do mestrado que Guazzelli defende nesta sexta-feira à tarde na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

O estudo se aprofunda na obra de Canini. Duas produções dele são analisadas mais pormenorizadamente: as tiras de Zé Candango e as histórias de Zé Carioca, da Disney.

A hipótese da pesquisa é que o desenhista conseguiu construir um identidade nacional nas duas séries, tanto no estilo quanto na superação de condições adversas.

                                                           ***

A adversidade enfrentada em Zé Candango era a conquista de um mercado inexistente.

A tira integrava a CETPA (Cooperativa Editora de Trabalhos de Porto Alegre), criada em 1961 com ajuda financeira do então governador Leonel Brizola (1922-2004).

Candango era um cangaceiro baixinho que enfrentava personagens estrangeiros em defesa da produção nacional. As principais vítimas eram os super-heróis.

Foram produzidas mais de cem tiras. Os textos eram de Canini, de Luiz Saidenberg e de José Geraldo, que idealizou o anti-herói.

A série terminou junto com a cooperativa, meses após o Golpe de 64.

 

Tira de Zé Candango. Crédito: reprodução

 

O outro Zé abordado na pesquisa, o Carioca, entrou na vida de Canini em 1971. Desenhou histórias do personagem para a Editora Abril pelos cinco anos seguintes.

Havia uma orientação dos estúdios Disney para que houvesse uma padronização no traço das narrativas em quadrinhos.

Canini relata no mestrado que tentou se enquadrar. Mas não conseguiu.

O resultado é que impôs um traço autoral ao papagaio carioca. Autoral demais.

                                                           ***

A matriz norte-americana pediu que o desenhista fosse posto de lado.

Canini produziu, então, roteiros para outros personagens Disney. Ficou na Abril até 1981.

A adversidade, segundo o mestrado, é que o desenhista gaúcho conseguiu se destacar dentro das condições padronizadas da indústria de massa.

Nacionalizou o que deveria ser visto como estrangeiro.

                                                          ***

O tom brasileiro podia ser percebido no traço sintético de Canini e nas "assinaturas" que deixava nas histórias que fazia.

Era comum ver o nome dele em algum canto. Ou então o desenho de um caramujo com uma antena.

Segundo Canini, em entrevista concedida a Guazzelli e reproduzida no mestrado, tratava-se de "pura bagunça". "Ou era pra dizer que o Walt Disney não desenhava todas as histórias." 

A redação da Abril deixou passar as marcas pessoais. A matriz, não. "Os colegas diziam que tava muito ´Dis-Nini´. E deu no que deu", diz o desenhista, que hoje mora em Pelotas.

                                                           ***

O mestrado de Eloar Guazzelli traz também um histórico dos quadrinhos gaúchos e argentinos. E duas constatações. A primeira é a dificuldade de encontrar o material de pesquisa sobre o assunto.

A segunda é que ainda existe um olhar pejorativo a pesquisas sobre o tema. Guazzelli relata que foi alvo de comentários irônicos quando o viam pesquisando as pilhas de revistas em quadrinhos de Canini.

"Afinal, uma pilha de gibis costumam ser associada aos dias de folga, em especial às leituras de férias", diz no texto de introdução.

"Ao longo do tempo, foi se cristalizando a impressão de que ainda hoje persiste certa desconfiança quanto à seriedade dos trabalhos de pesquisa nesta área."

                                                           ***

O mestrado foi iniciado em 2006 e é concluído, por coincidência, no mesmo ano que Canini será homenageado.

O desenhista será lembrado na próxima edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), a ser realizado no segundo semestre em Belo Horizonte (MG).

A defesa de "Canini e o Anti-Herói Brasileiro: Do Zé Candango ao Zé - Realmente - Carioca", nome do estudo, será nesta sexta, às 14h, na Escola de Comunicações e Artes da USP.

A sessão é aberta ao público.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 00h49
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23.04.09

João Montanaro: 12 anos e já faz tiras de gente grande

 

Crédito: reprodução de João Blog

 

Há quase um mês, um e-mail trazia anexada a tira acima, acompanhada desta frase:

"oi meu nome é João eu costumo mandar tiras pro adão e ele me mandou te mostrar essa..."

O Adão é o mesmo que tem o sobrenome Iturrusgarai, desenhista brasileiro que hoje mora na Argentina e que, de lá, produz as tiras de Aline para o jornal "Folha de S.Paulo".

A mensagem virtual trazia também um link para o "João Blog". A curiosidade instigou o clique. Mais do que uma página aberta, aparecia ali um personagem interessantíssimo.

                                                          ***

O blog trazia tiras e um curto resumo do autor. "Nasci em 1996. Já publiquei em algumas revistas, dentre elas a revista ´MAD´."

Conta rápida: o desenhista tem 13 anos. O detalhe é que o conteúdo lido ali era de adulto.

Descobri depois que João está com 12 anos. Faz 13 em maio. Detalhe. Já havia informações suficientes para justificar uma matéria.

Foi o início de uma troca de e-mails nos dias e nas semanas seguintes que culminou na necessária conversa telefônica. A ligação foi feita à noite. De tarde, estava na escola.

 

Crédito: reprodução de João Blog

 

João tem voz, jeito, brincadeiras de criança na pré-adolescência. Mas tem papo de adulto. Pelo menos quando o assunto é desenho e histórias em quadrinhos.

Segundo ele, começou a desenhar mais ou menos aos seis anos. Copiava da TV. 

Antigas edições da revista "Chiclete com Banana", de Angeli, foram outro passo rumo aos quadrinhos. A coleção é do pai, uma das poucas que sobreviveram ao tempo.

Leu ainda um livro de charges de 1985, também do pai. Passou a mesclar, então, humor político com tiras. Estas passaram a ser mais frequentes desde o ano passado.

                                                          ***

As influências, hoje, vêm da série argentina "Macanudo" e de Adão, com quem troca e-mails. Foi desse contato que surgiu o e-mail que ajudou a pautar esta postagem.

O interesse pelo trabalho de Liniers, autor de "Macanudo", acentuou-se no ano passado, quando o desenhista visitou o Brasil. João foi falar com ele e mostrou seus trabalhos.

"[Liniers] Falou um portunhol, eu também", conta João. "Muy bueno", teria dito o argentino.

Foi um muito bom, bem brasileiro, que o levou o jovem desenhista a expor na sede da Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro. O convite foi por esta charge:

 

Crédito: reprodução João Blog 

 

João - na verdade João Pedro Montanaro Barbosa - viajou à capital carioca ao lado do pai, constante incentivador. Foi o pai quem dirigiu o carro de São Paulo até o Rio.

"Meu pai é meu leitor e meu pai crítico", diz João.

Mário Sérgio Barbosa, o pai, confirma. "Eu deixo ele livre. O que eu critico é o que julgo não pertinente."

Na charge mostrada no salão, Mário Sérgio garante que não deu nenhuma dica. "Eu não movo uma palha. Ele se mexe, ele vai atrás."

                                                           ***

Mário Sérgio, um ex-publicitário de 46 anos que hoje atua no ramo editorial, brinca é a "mãe da miss": "Eu levo e ele que leva a fama".

E que fama. Na passagem pelo Rio, foi anunciado como o mais novo chargista brasileiro.

João foi pedir um autógrafo a Luis Fernando Verissimo, cronista e criador das tiras de "As Aventuras da Família Brasil" e de "As Cobras". Mas foi Verissimo quem pediu autógrafo.

A foto ao lado do pai registrou o dia especial:

 

Crédito: reprodução de João Blog 

 

Essa postura de se mexer, como o pai diz, tem levado João a manter contato com diferentes autores. Conversa por e-mail com Adão, já visitou o estúdio de Orlando Pedroso.

Foi de Orlando que aprendeu a técnica de desenhar com aquarela. Com ela, faz uma média de três tiras por semana. Produz em papel. Depois, escanei e posta no blog.

O horário de produção é à noite. "De manhã, eu faço lição de casa. À noite, umas oito horas, eu faço as tiras. Termino às 9h, 9 e meia."

À tarde, como já dito, cursa a oitava série do Colégio Alcance, em São Paulo.

                                                           ***

Foi o espírito fuçador que o levou a publicar em três edições da nova fase da revista de humor "Mad", quando ainda era editada por Ota.

João enviou um e-mail a ele. O editor gostou e pediu material para a publicação seguinte. A estreia foi no número quatro. Depois, emplacou nas edições seis e sete.

A saída de Ota o levou a se desligar da revista. Desligar talvez não seja o termo exato, já que não ganhou pelo serviço.

"Achava que não era para receber", diz João. "Mas nunca tinha falado com ele sobre isso."

 

Crédito: reprodução do João Blog

 

Para fechar, faltou uma informação: o link para o blog dele. Segue agora.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 23h27
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22.04.09

Convite aos gaúchos

Esta é para os leitores do Rio Grande do Sul.

Lanço "A Leitura dos Quadrinhos" em Porto Alegre nesta quinta-feira, às 19h.

Será na Livraria Bamboletras, que fica no Shopping Nova Olaria (r. Gen. Lima e Silva, 776).

Fica o convite.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 17h48
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21.04.09

A inexplicável barreira brasileira aos quadrinhos argentinos

 

Muito Além de Mafalda - Parte final / Série especial sobre os quadrinhos argentinos

 

Crédito: reprodução

 

A tira que abre esta postagem é da série "Macanudo", de Liniers. Foi publicada na edição desta terça-feira do jornal portenho "La Nacion" e sintetiza a ideia desta série especial.

Os argentinos - assim como os brasileiros - veem com fartos elogios as histórias de Mafalda e têm Quino, o criador dela, no mais alto conceito. A tira evidencia isso com precisão.

A repercussão é percebida de outra maneira também. Mafalda, tal qual o tango, tornou-se um cartão de visitas para o turista estrangeiro que passeia pelas ruas de Buenos Aires.

Ela estampa um rol amplo de produtos, de chaveiros a camisetas. Nas livrarias, "Toda Mafalda" é item obrigatório. É encontrada também nos quioscos, nome das bancas de lá.

A personagem pode ser sinônimo dos quadrinhos argentinos para quem vê de fora a produção local. É a mais famosa, sem dúvida. Mas a rainha menina não reina sozinha.

                                                            ***

Ouvi pela primeira vez que o reinado dos quadrinhos argentinos era dividido com outros nobres em 2004. O alerta foi dado pelo pesquisador e quadrinista Eloar Guazzelli.

Na época, Guazzelli era colega de turma de uma disciplina sobre quadrinhos ministrada na pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

Ele dividia com a sala, com convicente empolgação, o estranhamento de o Brasil ignorar a produção do país vizinho. Via nisso resquícios de um histórico atraso cultural.

Recordo-me de ele destacar as qualidades de "El Eternauta", de Hector Oesterheld. E de comentar como a ditadura foi severa com o escritor, morto pelos militares.

                                                           ***

As cutucadas de Guazzelli incomodavam, pelo menos em mim. Principalmente porque ele tinha razão. Eu desconhecia quase por completo o que a Argentina produzia.

A exceção, claro, era Mafalda. E, algum tempo depois, Maitena e suas "Mujeres Alteradas", que também aportaram com sucesso aqui no Brasil.

Forçando mais um pouco a memória, talvez soubesse que Boogie, personagem de Fontanarossa, havia sido publicado em um dos álbuns da L&PM décadas atrás.

Mas não havia muito mais do que isso a saber em solo brasileiro.

                                                           ***

Sabia do que se podia saber dos quadrinhos brasileiros, até então pautados no humor, no público infantil e em sucessivas tentativas alternativas.

Sabia das produções norte-americanas das editoras de super-heróis Marvel e DC Comics. E de alguns outros selos estadunidenses que chegavam ao Brasil.

Sabia de produções europeias, ao menos as publicadas pelas editoras de cá. E sabia dos mangás, que, enfim, foram descobertos pelos nossos leitores.

Mas não sabia explicar o que era produzido no segundo país mais importante da América Latina, berço de Mafalda. Sei que não era o único. Guazzelli tinha toda razão.

                                                           ***

O incômodo persistiu e se acentuou por conta das inexistentes versões brasileiras para os quadrinhos argentinos. Salvo, reforço, Maitena e Mafalda. E Um pouco de Fontanarossa.

Havia, de fato, uma barreira invisível das editoras à produção argentina. Era algo sumariamente ignorado.

Alguns teóricos do jornalismo costumam dizer que uma informação só acontece quando é noticiada. Do contrário, ela simplesmente não "existe" aos olhos do público.

A máxima vale para as criações de nossos hermanos. Para nós, elas não existiam.

                                                           ***

 A oportunidade de me aprofundar nos quadrinhos de lá surgiu por meio de quatro viagens feitas a Buenos Aires de 2007 para cá. A última ocorreu na semana final de 2008.

Cada passagem pelo solo portenho trouxe uma peça a mais na formação do quebra-cabeças. E a descoberta de onde encontrar as peças.

Parte dos quadrinhos é vendida nos quioscos. Os jornais catapultam a produção, ora publicando tiras com destaque, ora vendendo obras de forma promocional.

Os principais pontos de venda são as livrarias e as comiquerias, nome das lojas especializadas no setor.

                                                           ***

Mais do que pontos de venda, pude ter contato com a farta produção de lá. Do outro lado da barreira invisível, há obras de todos os gêneros, criadas há quase 80 anos.

Na década de 1930, já havia revista infantil vendida nas bancas. O caso de maior sucesso era o índio Patoruzu, publicado ainda hoje.

Vinte anos depois, em 1950, começou a produção de histórias voltadas a um leitor situado entre o adolescente e o adulto. "El Eternauta" é dessa época. E há muitas outras.

Isso exige uma revisão urgente de quem escreve a história da história em quadrinhos. A Argentina produzia tramas adultas antes mesmo da Europa. O dado nunca é mencionado.

                                                            ***

Os quadrinhos norte-americanos e os mangás - sucesso por lá também - são encontrados na lojas de quadrinhos. Mas não se perde o foco nos autores nacionais.

A maioria das histórias é sistematicamente reeditada. Os argentinos, ao contrário dos brasileiros, produzem narrativas mais longas há cerca de 50 anos.

Novas editoras apostam em novos autores. As tiras ocupam a página final dos dois principais jornais portenhos. Só nacionais. As livrarias vendem álbuns de autores de lá.

Traduzindo em outros termos: há uma cultura de valorizar a produção do país.

                                                           ***

Também merece ser registrado: o valor das obras é mais barato do que o das vendidas aqui.

Pode-se argumentar que o argentino lê mais. Por isso, as tiragens por lá são maiores, o que reduz o preço final. É verdade. Mas há outro fator a ser considerado.

Ao contrário dos brasileiros, o acabamento final da maioria dos livros e das revistas não é com papel especial ou com capa dura. Algumas obras foram até feitas em papel jornal.

A preocupação - parece - é com o conteúdo, e não com a forma. E com o preço.

                                                          ***

Temos muito a aprender com a produção e o mercado argentino de quadrinhos.

A barreira - inexplicável - camufla o desconhecimento do que é feito no país vizinho.

E, do que não se conhece, não se comenta. E não se edita no Brasil. E não se lê.

Esta série especial - que se encerra com esta postagem - tentou, de forma modesta, revelar o que há do outro lado desse muro invisível. E corrigir uma injustificável falha histórica.

                                                           ***

Os quadrinhos argentinos vão muito, muito além de Mafalda. Esta série mostrou isso.  

Como leitor, a produção de lá me fisgou. Pretendo retornar a Buenos Aires pelo menos uma vez por ano. Pelo menos até que o câmbio permaneça atraente em relação ao real.

Obrigado pela cutucada, Guazzelli.

Até breve Argentina.

                                                          ***

Leia a série especial completa a partir deste link.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 22h01
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Cedraz lança mais um álbum com a Turma do Xaxado

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 


Personagens infantis voltam no tempo e presenciam luta de Zumbi dos Palmares 

 

 

 

 

 


Um mês, dois lançamentos. O baiano Antonio Cedraz põe à venda mais um álbum com os personagens da Turma do Xaxado, série infantil que completa dez anos de criação.

A nova publicação é "Resistência e Coragem: a História de Zumbi dos Palmares". A obra mescla a narrativa dos quadrinhos com a dos livros ilustrados.

Segundo o autor, Xaxado e seus amigos se juntam ao Saci Pererê e retornam no tempo. Em 1696, o grupo se alia a um guerreiro que luta ao lado de Zumbi dos Palmares.

Cedraz vai autografar o álbum todos os dias na Bienal do Livro da Bahia, que termina no próximo domingo. A feira está no Centro de Convenções da Bahia, em Salvador.

No mesmo local, o visitante pode encontrar a outra obra da Turma do Xaxado lançada neste mês. É um álbum com mil tiras dos personagens sertanejos (saiba mais aqui).

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 23h46
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20.04.09

Uma tira que merece registro

 

De Laerte:

 

Crédito: reprodução

 

Fonte: edição de sábado do jornal "Folha de S.Paulo".

E, daqui a alguns dias, no blog "Manual do Minotauro", que traz as tiras diárias de Laerte.

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 10h41
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17.04.09

Álbum com reedições de Samurai faz homenagem póstuma a Seto

 

Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

"Flores Manchadas de Sangue", nome da obra, começou a ser vendida nesta semana 

 

 

 

 

 

 

 

Era para ser uma homenagem em vida.

Claudio Seto selecionou as cinco histórias da edição, fez textos de apresentação para cada uma, reviu o material antes de ser impresso.

Mas o desenhista não viu a versão final, que começou a ser vendida neste final de semana em lojas de quadrinhos de São Paulo (Jacaranda / Devir; 128 págs., R$ 28).

O álbum com as histórias de samurai feitas por ele no Brasil há quase 40 anos transformou-se involuntariamente numa lembrança póstuma à memória do artista.

                                                          ***

Por isso, há duas leituras deste álbum em preto-e-branco. Uma são as histórias fictícias que ele traz. Outra são as histórias reais que a obra também apresenta.

As narrativas ficcionais reunidas em "Flores Manchadas de Sangue" foram produzidas entre 1970 e 1972. Todas foram publicadas em revista da extinta editora Edrel.

Foi pela editora que Seto estreou suas sagas de samurai, em 1968. As histórias ganharam título próprio, "O Samurai", embora não houvesse personagem fixo.

O escritor e desenhista se preocupava em narrar situações vividas por samurais. Cada conto em quadrinhos ajustava o foco em um deles.

                                                           ***

O motivo da escolha das histórias é justificado por Seto antes de cada uma delas. A de abertura, por exemplo, "O Sósia", é por ter definido o estilo de desenho das demais.

Mais do que expor motivos para a seleção, ele esmiúça como as espadas eram espiritualmente nomeadas e revela um profundo conhecimento sobre a cultura japonesa.

Essa bagagem de referências era transposta para as aventuras, algo que muito provavelmente passou despercebido de quem as leu quando foram lançados décadas atrás.

As histórias eram adultas, violentas, produzidas na forma do que hoje conhecemos como mangá, o quadrinho japonês. Era algo que destoava do que era produzido à época.

                                                           ***

Nesse ponto, destacam-se as histórias reais que o álbum traz.

Uma delas é Seto ter sido o pioneiro na produção de mangás no Brasil.

Embora as histórias se assemelhem muito às da série japonesa "Lobo Solitário", já lançada no Brasil, o samurai de Seto foi criado dois anos antes.

A associação de que teria copiado o trabalho de Kazuo Koike e Goseki Kojima seria uma das mágoas que o desenhista guardava. O álbum corrige isso, mesmo que postumamente.

                                                          ***

Há outras histórias, contadas por quem conviveu com Seto. O jornalista Franco de Rosa relata o espanto que teve ao ler na infância a violência nos quadrinhos da série.

O editor deste projeto, Toninho Mendes (o mesmo da revista "Chiclete com Banana"), descreve o primeiro encontro que teve com o desenhista para discutir a seleção.

O encontro foi na casa de Seto, em Curitiba, cidade que adotou como morada nas décadas finais de vida.

O texto de Mendes é tão saboroso quanto as histórias de bastidores de Seto.

                                                           ***

Diversos revezes levaram Claudio Seto a abandonar os quadrinhos nos anos 1980. 

Na última edição do HQMix, principal premiação de quadrinhos do país, seu samurai serviu de molde para o troféu entregue aos vencedores.

A cerimônia ocorreu no dia 23 de julho no teatro do Sesc, em São Paulo. Seto, no palco, emocionou-se. Foi a última homenagem que teve em vida.

A morte brusca em 15 de novembro, após tanta vitalidade, supreendeu a todos. Foi vítima de AVC, acidente vascular cerebral.

                                                          ***

A cerimônia do HQMix e este álbum trouxeram Seto de volta ao circuito dos quadrinhos.

A maioria não o conhecia. As revistas de samurai e suas outras publicações em quadrinhos são raras. Estão guardadas em coleções imprenetráveis ou nas memórias de poucos.

O desenhista produziu mangás no Brasil quando o gênero ainda era algo vago em todo o Ocidente. Hoje, o mercado tem nos quadrinhos japoneses um de seus pontos fortes.

Dizer que Seto estava na vanguarda ainda é pouco para fazer jus a seu trabalho. Era um visionário. Fez o que se lê hoje nos mangás com 40 anos de antecedência.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 22h55
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Revista Prego chega ao 3º número com tiragem maior

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa da revista independente, que começa a ser vendida neste mês

 

 

 

 

 

 

 

 

A cada nova edição, a revista independente "Prego" cresce. Não só na numeração. No volume de páginas também. Este terceiro número terá tiragem de mil exemplares.

São 300 cópias a mais que edição dois. E o dobro da de estreia, lançada em 2007, já esgotada.

As 64 páginas trazem histórias de diferentes colaboradores, de Rafael Sica, autor das tiras de "Quadrinho Ordinário", a Alex Vieira, que acumula o papel de divulgador.

"Esta revista se diferencia das outras duas no conteúdo, que acho que está um pouco melhor resolvido e relacionado entre si como um conjunto", diz Vieira, por e-mail.
 
                                                          ***
A publicação traz também um encarte intitulado "PIB". É um material da década passada, produzido pelo artista plástico Julio Tigre. Estava engavetado desde então.

"O editor desta publicação ["PIB"] entrou em contato comigo, me entregou tudo em fotolito, eu digitalizei e lancei como um filhote da Prego 3", diz Vieira.

A proposta do grupo era manter duas edições por ano. Não deu. Tem saído uma. A expectativa é que isso se reverta neste 2009, embora ainda não se possa bater o martelo.

A revista, por enquanto, é vendida por pedidos enviados por e-mail. Custa R$ 6, mais R$ 3 de frete. O endereço eletrônico é revistaprego@gmail.com.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 22h50
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História de Cebolinha e Cascão brinca com intertextualidade

 

Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 


Cebolinha e Cascão são desenhados em diferentes personagens dos quadrinhos, como Calvin e Haroldo, Charlie Brown e Asterix

 

 

 

 

 

 



Há diferentes acepções para o termo "intertextualidade". Duas delas: 1) diálogo explícito com outros textos; 2) diálogo estilístico com trabalhos de outros criadores.

Existem essas duas visões na história de abertura da edição deste mês da revista "Cebolinha" (Panini, 68 págs., R$ 3,20).

A narrativa é vivida por Cebolinha e Cascão. Eles usam um lápis mágico para entrar em outras realidades dos quadrinhos e das animações. É aí que surge a intertextualidade.

A cada passagem, há um diálogo com outros personagens. Isso é percebido por meio do estilo do autor em questão, mostrado na forma como a dupla é desenhada.

                                                           ***

Logo na primeira transição, Cebolinha e Cascão são redesenhados à forma e semelhança de personagens da tira cômica Snoopy. Inclusive com a tradicional casinha do cão.

Novo salto e eles entram nas tiras de Calvin e Haroldo, mostrados no mesmo estilo do traço de Bill Watterson. E no dos Simpons. Dos Flintstones. De Asterix. De Luluzinha.

Em dado momento, a brincadeira é com eles próprios. Após uma das transições, adquirem o traço de como eram nas primeiras histórias desenhadas por Mauricio de Sousa.

Seria uma forma de auto-intertextualidade. Caberia ao leitor acionar o baú mental de referências, o que pode interessar mais às crianças de ontem do que às de hoje.

                                                           ***

A intertextualidade não é um recurso novo nas histórias criadas pelos Estúdios Mauricio de Sousa. É usada há décadas, em geral com bons resultados.

O mesmo pode ser dito da metalinguagem, vista desde as primeiras tiras feitas pelo desenhista e empresário. É muito usada como gancho para piadas.

Apesar de não ser novo, o instrumento pode render bem se usado com criatividade.

"A Fuga pelos Infinitos Gibis", nome dado à história intertextual, é um bom exemplo disso.

                                                           ***

Ainda sobre os personagens da Turma da Mônica, merece menção o lançamento do "Almanaque Piteco & Horácio", dois personagens que costumam atrair os leitores adultos.

Doze histórias das duas criações pré-históricas de Mauricio de Sousa foram relançadas na revista, programada para ser semestral (Panini, 76 págs., R$ 3,80).

Faz tempo que os dois personagens - Horácio em particular - não têm um tratamento tão diferenciado. É caso de aproveitar. Nova chance só daqui a seis meses.

Isso se a edição não atrasar, como ocorreu com este almanaque. O expediente traz data de março. A revista começou a ser vendida nesta semana.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 23h48
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Revista traz história em quadrinhos sobre lenda orixá

 Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

Sequência da narrativa, mostrada na revista "Orixás", à venda nas bancas

 

 

 

 

 

 

 

Registro rápido.

O número 15 da revista "Orixás", à venda nas bancas, explica a lenda de como Oxalá separou o céu da Terra. Atribui-se à entidade a criação do mundo e dos seres vivos.

A narrativa tem nove páginas. Na história, um avô explica a lenda aos netos.

O texto é de Alex Mir e os desenhos, de Caio Majado e Omar Viñole. Os três integram o movimento de autores independentes Quarto Mundo.

"Orixás" é publicada pela editora Minuano a cada dois meses. Esta edição custa R$ 7,90.

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 23h15
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16.04.09

Álbum faz diário de viagem em quadrinhos sobre Myanmar

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Capa da edição nacional de "Crônicas Birmanesas", que mostra passagem do desenhista Guy Delisle pelo país asiático 

 

 

 

 

 

 

 

Não é a primeira vez que este blog comenta que a realidade faz bem aos quadrinhos. O uso de fatos não ficcionais costuma gerar trabalhos acima da média.

Ou bem acima da média, como é caso de "Crônicas Birmanesas", à venda em livrarias e lojas especializadas em quadrinhos (Zarabatana, 272 págs., R$ 48).

O álbum mostra a passagem do autor, o desenhista e animador canadense Guy Delisle, por Myanmar, nome adotado pela Birmânia após 1989.

O resultado se aproxima do gênero dos diários de viagem, que relatam o passeio em primeira pessoa. Só que, neste caso, feito com a linguagem dos quadrinhos.

                                                            ***

Não é a primeira vez que Delisle faz isso. Ele usou o recurso em "Pyongyang - Uma Viagem à Coreia do Norte", lançado no Brasil em 2007, também pela Zarabatana.

Na ocasião, havia ido ao país para trabalhar com animação, área em que, por enquanto, deixou de atuar.

Nestas "Crônicas Birbanesas", o mote da viagem é outro. Ele vai acompanhar a esposa, Nadège, que vai a trabalho. O casal e o filho Louis ficam um ano em Myanmar.

Nedège atua na Médicos sem Fronteiras. A organização presta serviço a regiões pouco assistidas. Enquanto a esposa trabalha na entidade, ele cuida do filho e conhece o país.

                                                           ***

O álbum mostra as diferentes experiências presenciadas por ele em pequenos capítulos.

São pílulas reais que podem ser lidas uma a uma, em sequência, ou em doses esparsas. As duas leituras levam ao desconhecido e curioso dia a dia da nação asiática.

Descobre-se, por exemplo, que os moradores têm costumes próprios, como mascar uma semente chamada noz de bétel (os dicionários registram o sinônimo noz-de-areca).

Segundo o desenhista, é um hábito nacional. Mascar, cuspir. E ter como efeito colateral o escurecimento dos dentes.

                                                            ***

Outra descoberta é o clima, quente em excesso. Vive-se com o ar condicionado ligado todo o tempo. Ou quase. É que há constantes quedas de energia.

Isso afeta não só o sistema de refrigeração, como o uso de equipamentos eletrônicos. O computador corre o risco de ter o sistema desconectado a qualquer momento.

Os e-mails são vigiados pelo governo, comandado por uma junta militar. A censura é vista na imprensa também. Há o jornal oficial, só com notícias sobre conquistas nacionais.

As publicações estrangeiras também passam pelo crivo censor. Reportagens contra o país são recortadas antes de chegarem aos leitores.

                                                           ***

Apesar do clima de censura e de pobreza, na leitura de Delisle reina a pacividade entre os moradores. E a simplicidade.

O cenário traçado pelo desenhista ajuda o leitor a construir uma clara imagem de como é o país. Conhecem-se seus costumes, sua cultura, muito mais do que o véu oficial esconde.

Um diário de viagem em quadrinhos é uma narrativa difícil de ser construída, ainda mais por ser em primeira pessoa.

Mas o canadense é hábil em usar os ilimitados recursos da linguagem dos quadrinhos. Encontra soluções mais criativas até do que as vistas no trabalho anterior.

                                                          ***

Delisle, hoje, vive em Israel com a esposa. Ela novamente foi a serviço. O desenhista pensa em elaborar um álbum sobre uma história ouvida lá, a de um estrangeiro sequestrado.

O autor é um dos nomes esperados para o próximo FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), a ser realizado no semestre que vem em Belo Horizonte (MG).

É um convidado que tem muito a contar. E a mostrar, como prova mais este diário de viagem. Delisle se tornou o principal representante desse gênero de quadrinhos.

O ano não terminou e seria precipitada uma classificação dos "melhores álbuns". Mas não é incorreto dizer que já é um dos lançamentos mais destacados deste 2009.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 23h48
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15.04.09

Minissérie Invasão Secreta chega ao Brasil

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do primeiro número, que chega nesta semana às bancas

 

 

 

 

 

 

 

 


Imagine que você descubra que as pessoas à sua volta - parentes, amigos, colegas de trabalho - podem ser alienígenas. E você não sabe dizer com precisão quem e quem não é.

É exatamente esse clima, inspirado num tema clássico da ficção científica, que a minissérie "Invasão Secreta" tenta recriar no universo dos super-heróis da Marvel Comics.

O primeiro número começa a ser vendido nesta semana nas bancas (Panini, 60 págs., R$ 7). Nas lojas de quadrinhos, o título chegou no fim da semana passada.

A minissérie tem oito partes e foi o principal evento da editora norte-americana em 2008. O último número está programado para novembro deste ano.

                                                           ***

A trama é publicada no Brasil dez meses depois de ter sido lançada nos Estados Unidos. Tem desenhos de Leinil Yu e texto de Brian Michael Bendis, principal escritor da Marvel.

Este número de estreia inicia, de forma oficial, os acontecimentos que vinham sendo narrados nos títulos mensais. Os heróis descobrem que há alienígenas entre eles.

O primeiro a ser desvendado foi o que se passava pela mercenária Elektra, personagem que já teve uma adaptação para o cinema.

O alien foi revelado numa história do supergrupo "Os Vingadores". O ser pertence à raça dos Skrulls, tradicionais vilões interplanetários do universo da editora estadunidense.

                                                           ***

A partir de então, tem início um clima de desconfiança entre os heróis. De Homem-Aranha a Homem de Ferro, fica um quê de dúvida se há outros Skrulls infiltrados.

A capa desta edição nacional da série sugere exatamente isso. A história inicia com a autópsia do que seria Elektra. E com a investigação de uma nave Skrull que caiu na Terra.

A trama, a exemplo das demais do gênero, tem parte dos acontecimentos narrada nas revistas mensais da Marvel. Há uma lista de leitura na página dois da minissérie.

A Panini lançou também, um pouco antes, um especial sobre "Invasão Secreta". A obra explica os eventos que levaram à série. É redundante para quem já os conhece.

                                                           ***

Para registro: outra forma de se inteirar sobre o assunto é visitar um site dedicado a "Invasão Secreta", mantido pela Panini. Pode ser acessado neste link

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 12h37
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13.04.09

Mês tem três lançamentos de tiras infantis nacionais

Coincidiu. Ou então alguns dos personagens infantis em pauta que apresente uma justificativa lúdica melhor.

Mas este abril tem num curto espaço de tempo três lançamentos de livros com tiras infantis nacionais. Um deles já na noite desta segunda-feira.

Outro dado curioso: nenhuma das criações integra o eixo Rio-São Paulo, tido como principal janela de publicações do gênero no país. Isso, claro, não significa menor qualidade.

"Mariazinha", no Espírito Santo, "Cabeça Oca", em Goiás, "Turma do Xaxado", na Bahia.

É deles que esta matéria vai falar.

 

 

Dos três personagens, Mariazinha é a caçula. Foi criada no ano passado no Espírito Santo. Este é seu primeiro livro de tiras. E a obra de estreia da roteirista, Claudia Gomes.

Ela define a personagem como uma "menina órfã, criada pelos avós, faz do seu dia-a-dia uma constante e divertida homenagem à literatura".

O tema das piadas aborda o entorno literário, como a mostrada acima. As histórias são feitas em parceria com Fabio Turbay, co-criador e responsável pelos desenhos.

Claudia Gomes diz que a ideia surgiu quando ambos iam a uma padaria. Viram ou falaram sobre algo "fofinho". Daí, a conversa enveredou para a criação da personagem.

                                                           ***

Inicialmente, seria Maria, adulta. Depois, a conversa voltou o relógio do tempo e o nome da personagem ganhou o sufixo diminutivo. E as características próprias.

A literatura dialoga com a trajetória da autora. Já ganhou dois prêmios literários.

Claudia diz ter outros roteiros de Mariazinha prontos. E na manga uma obra de poemas com ilustrações da menina literata.

Este primeiro livro de tiras viajou para ser lançado. Saiu do Espírito Santo e aportou no Rio de Janeiro. O evento será nesta segunda-feira à noite, na Livraria Diversos.

 

 

O goiano Christie Queiroz lança neste mês o décimo volume de tiras de "Cabeça Oca".

A série mostra as confusões vividas pelo personagem-título, um menino, e sua irmã, Mariana. A menininha foi inspirada na filha do desenhista.

Mariazinha começa a ganhar carreira própria. Antes deste novo álbum, ela é a estrela principal de três livros infantis, que têm lançamento também nesta segunda à noite.

As obras serão vendidas juntas, numa "Maletinha Divertida da Mariana". Os personagens começam a ser vistos também como franquia, estampados em outros produtos.

                                                          ***

Cabeça Oca é muito popular em Goiás. É publicado no jornal "O Popular", que tem projeto de vender os álbuns aos domingos. Tocantins e Rio Grande do Sul também a leem.

Oitenta escolas adotam as tiras, segundo o autor.

Queiroz já tem engatado o 11º livro: "O Fabuloso Retorno do Super-Cabeça Oca".

E trabalha no roteiro de uma história longa com o personagem: "Cabeça Oca e os Elfos de Terra Ronca". A aventura vai abordar o complexo de cavernas de Goiás.

 

 

A Turma do Xaxado é uma das principais criações baianas na área de quadrinhos. Mérito de seu autor, o também baiano Antonio Cedraz.

Os personagens - que vivem com bom-humor o duro cenário da seca - completam neste dez anos de criação. Um novo livro e uma exposição marcam a data.

O livro é "1000 Tiras em Quadrinhos", que traz, como o título diz, mil piadinhas de Xaxado e seus amigos. A obra terá lançamento no dia 21, na Bienal do Livro da Bahia.

No evento comemorativo, também vai haver uma exposição itinerante. Diferentes autores dão sua versão gráfica da Turma do Xaxado.

                                                           ***

Serviço 1 - Lançamento de "Mariazinha". Quando: hoje (13.04). Horário: a partir das 20h30. Onde: Livraria Diversos. Endereço: av. Érico Verissimo, 843, loja A, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

Serviço 2 - Lançamento de "Maletinha Divertida da mariana". Quando: hoje (13.04). Horário: a partir das 19h. Onde: Buffet Infantil O Gato de Botas. Endereço: av. Portugal, St. Oeste, Goiás.

Serviço 3 - Lançamento de "1000 Tiras em Quadrinhos - A Turma do Xaxado". Quando: 21.04. Onde: Bienal do Livro da Bahia. Endereço: Centro de Convenções da Bahia, av. Simon Bolívar, sem número, Salvador, Bahia. A exposição itinerante com a Turma do Xaxado vai de 17 a 26 de abril.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 12h00
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12.04.09

As livrarias de Buenos Aires

 

Muito Além de Mafalda - Parte 8   /  Série especial sobre os quadrinhos argentinos


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É comum dizer que as grandes metrópoles brasileiras têm uma farmácia a um, dois quarteirões. Não deixa de ser verdade.

No centro turístico de Buenos Aires, o comum é encontrar os tradicionais cafés. E livrarias. Dependendo da rua, há até mais de um ponto de venda de livros.

Não é algo que deveria espantar. Os hermanos argentinos leem muito mais do que nós.

Uma pesquisa, divulgada em 2006 e um pouco desatualizada, dá uma dimensão disso.

                                                         ***

Os entrevistadores aferiram quantos livros as pessoas haviam lido nos últimos seis meses.

Respostas: 39,2%, de um a três; 15,7%, de quatro a cinco; 11%, de seis a dez; 5,1%, mais de dez. Note que 71% apresentam hábitos regulares de leitura.

A pesquisa revela também que o argentino tem lido menos do que há dez anos. Um dos motivos seria o preço dos livros (que são mais baratos do que os brasileiros).

A grande oferta de livrarias é um reflexo desse interesse pela leitura. A maioria - 52%, segundo a mesma pesquisa - prefere as obras narrativas. E quadrinhos são narrativas.

                                                            ***

As livrarias portenhas costumam dedicas pelo menos uma estante - grande ou médio - para as histórias em quadrinhos.

Mas não pergunte por historietas. Procure um vendedor e peça onde fica a seção de humor gráfico. É lá que geralmente ficam agrupados os quadrinhos, não só de humor.

Lá é mais ou menos como aqui. Há livrarias pequenas e as grandes redes. Prefira estas. As chances são maiores de encontrar material diversificado.

Há pelo menos quatro redes na região central de Buenos Aires: Musimundo, Cuspide, Distral e El Ateneu. Há mais de uma de cada na rua Florida. Bom lugar para começar.

 

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A Florida é roteiro obrigatório dos turistas. Na rua, não passam carros. É inteira dedicada a pedestres. Fica lotada durante o dia e início da noite. O comércio agradece.

Vale dedicar um dia para fazer esse roteiro. O ponto de início depende de onde está hospedado. Se puder escolher, comece por uma das extremidades.

Uma delas inicia na Catedral da cidade, na mesma praça onde fica a Casa Rosada, sede do Estado. Ambas merecem visita. 

Aproveite e pare numa cafeteria bem em frente à igreja, numa esquina, do outro da praça. Peça um café e uma "torta de manzana" (de maçã). É enorme. Vale um almoço.

                                                           ***

De lá, pega-se um dos comecinhos da Florida. A rua tem lojas dos dois lados. No meio, quioscos, as bancas de jornal de lá. As compras vão depender do interesse de cada um.

Para as mulheres, há roupas femininas, lãs, botas e cintos de couro. O couro argentino é muito tradicional. Para os homens, também a farta opção de vestuário.

Em meio a tudo isso, encontram-se as livrarias. Com tempo, vale visitar cada uma delas.

Sem tempo, com a agenda mais apertada, uma boa sugestão é ir direto a El Ateneu.

                                                          ***

A El Ateneu é a rede de megalivrarias mais tradicional de Buenos Aires. Há duas na Florida - nos números 340 e 629. Entre nas duas. Costuma haver diferenças mínimas no catálogo.

Nas duas lojas - bem como nas demais - há dois caminhos para encontrar os quadrinhos. O primeiro é ir à seção de humor gráfico, como comentado. O segundo é na infantil.

A seção dedicada a crianças tem algumas obras em quadrinhos. É fácil encontrar livros de tiras dos personagens infantis dos jornais. Destacam-se "Yo, Matias" e "Gaturro".

Há volumes de publicações com as duas criações, em diferentes formatos. Prefira o garoto "Yo, Matias" do que "Gaturro". Procure as edições em formato horizontal, as melhores.

 

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O lugar da seção infantil varia de loja para loja. Na unidade do El Ateneu da rua Santa Fé, fica no subsolo. É a melhor da rede El Ateneu. E a mais famosa.

O motivo do destaque é que a loja foi montada num antigo teatro. Na entrada, avista-se o palco, ao fundo. Lá, foi feito um atrativo café. Parte das cadeiras fica no tablado.

A seção de humor gráfico fica bem em frente a esse café. Sente sem pudor no chão e olhe com calma. Pegue uma pilha e leve ao café, a alguns passos dali.

Olhando para cima, vê-se o teto artesanal do teatro-livraria. A arquitetura foi mantida. Valeria só pela visita. Mas há a inegável vantagem de que ali funciona uma livraria.

                                                           *** 

Na prateleira de humor gráfico, há, claro, obras de humor. Em quadrinhos e em forma de piadas ou contos cômicos. Gaste um tempo ali. Desfolhe as obras sem pressa.

É comum ler com calma os títulos nas livrarias do centro portenho. Ninguém olha feio. Se tiver dúvida, faça uma pilha e leve ao café da El Ateneu. Beba enquando decide o que levar.

Normalmente, o que o comprador encontra são livros álbuns de clássicos argentinos - como a biografia "Che", que ilustra esta postagem - e obras que reúnem tiras de jornais.

No caso das tiras, a rotatividade das obras é grande. Mas é possível encontrar coletâneas de Macanudo, La Nelly e de Rep. E de "Mafalda", claro. Sempre.

 

Crédito: reprodução

 

Há algumas obras que fogem às duas classificações acima. Títulos estrangeiros em inglês - poucos - ou traduzidos para o castelhano - novamente, poucos. E outras mais autorais.

Um caso é o livro "Conejo de Viaje", de Liniers, criador da série "Macanudo".

Cada vez que o autor viaja, ele desenha histórias num caderno de viagens. A obra reúne as impressões em forma de arte de vários desses diários impressos.

Outras publicações que fogem às amarras classificatórias são as de Roberto Fontanarrosa.

                                                            ***

Ao lado de Quino, Fontanarrosa é um dos mais importantes autores do humor gráfico de lá.

Numa tentativa de analogia - que nunca são precisas -, pode-se ver nele aspectos de Ziraldo, Henfil e Millor. Deles mantém o traço político e o diálogo com a imprensa e a literatura. 

El Negro, apelido do argentino, era conhecido tanto por seus trabalhos jornalísticos, como por ser escritor e quadrinista. Morreu no dia 19 de julho de  2007, aos 62 anos.

No dia do falecimento, o site do "Clarín" pôs a notícia em destaque. Foi a segunda chamada do dia. A primeira era a decisão de Cristina Kirschner de concorrer à presidência.

                                                           ***

Dias depois, o mesmo "Clarín" publicou um suplemento de 12 páginas dedicado a Fontanarrosa. Dele ficou a obra, sistematicamente reeditada. As livrarias são o locus onde elas são mais facilmente encontradas.

A maioria é da Ediciones de la Flor, tradicional editora argentina de humor gráfico. Há os álbuns de tradicionais personagens dele, como Inodoro Pereyra e Boogie, el Aceitoso.

As histórias curtas de Inodoro são relançadas em álbuns em formato quadrado. São vários. O humor se baseia muito na tradição dos gaúchos argentinos.

O violento Boogie já teve um álbum lançado por aqui pela L&PM. Por lá, também é reeditado em álbuns quadrados. E num especial, em capa dura, com toda sua obra.

 

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Tanto Boogie quanto Inodoro são criações de Fontanarossa que começaram a ser publicadas na revista "Hortensia", de 1972. Foi onde o autor se fez mais conhecido.

Passou a publicar charges, tiras e cartuns no jornal "Clarín". E manteve histórias em revistas em quadrinhos, como a "Fierro", da década de 1980.

Lá, ele publicou algumas de suas crônicas de futebol em quadrinhos. O narrador é um jornalista, daqueles repórteres bem tradicionais e experientes.

Um álbum em 2008 - "Semblanzas Deportivas", da de la Flor - reuniu várias delas.

                                                           ***

Um dos "causos" esportivos figura entre as melhores histórias em quadrinhos que tive oportunidade de ler até hoje. Já a havia descoberto numa das edições da "Fierro".

Um jogador, ainda em início, tem no pai seu principal apoiador e torcedor. É o pai quem o levava aos treinos.

Aos poucos, com o tempo, o atleta se revela um craque.

Marcava gol com frequência. Tornou-se ídolo entre os torcedores.

                                                           ***

De uma hora para outra, deixou de fazer gols.

Um jogo após o outro. Nada. A torcida ficou atônita.

Dado dia, ele decide tomar a bola, dribla todo o time adversário e marca, enfim, o adiado golaço. Minutos depois, uma voz se ouve no estádio: o pai dele havia morrido.

A inaptidão era para evitar a morte do pai por emoção. O estádio inteiro cai em choro.

 

Crédito: reprodução

 

Há outros trabalhos de Fontanarrosa publicados na Argentina. São fáceis de achar.

Há também obras de outros autores. Mais material nacional do que de fora do país. Essa é a diferença básica entre as redes de livrarias lá e as de cá.

Valorizam-se as antigas e novas produções nacionais, e não somente as norte-americanas. 

E a valores mais baixos do se vende por aqui.

                                                           ***

Próxima postagem, no fim de semana que vem, a última da série: 

a inexplicável barreira brasileira aos quadrinhos argentinos

                                                           ***

Leia as outras postagens da série:

Introdução, Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5, Parte 6, Parte 7

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 18h50
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11.04.09

Lançado álbum de luxo com primeiras histórias de Demolidor

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Volume integra a coleção "Biblioteca Histórica Marvel" e publica as 11 aventuras iniciais do herói cego 

 

 

 

 

 

 

 

O primeiro volume da coleção "Biblioteca Histórica Marvel" dedicado ao Demolidor começou a ser vendido nesta semana nas livrarias e lojas de quadrinhos (252 págs., R$ 57).

A obra foi lançada um pouquinho depois do previsto. A editora, Panini, havia anunciado o álbum de luxo para março. Mas, pela primeira vez, esse atraso foi providencial.

É que casou com o exato mês da publicação da primeira história do herói cego. A estreia ocorreu em revista própria, lançada nos Estados Unidos em abril de 1964.

Ao longo desses 45 anos, o personagem foi sendo sucessivamente reinventado e vivendo tramas mais profundas e adultas. O contrário do que se lia nas aventuras iniciais.

                                                            ***

As histórias, como as demais da época, eram voltadas ao público juvenil. Os heróis tinham de derrotar supervilões e realizar feitos incríveis. E bota incríveis no caso de Demolidor.

Para começar, o herói é cego. Ainda jovem, teve um líquido radioativo derramado sobre o rosto enquanto salvava um pedestre de ser atropelado.

O produto tirou a visão de Matt Murdock, mas ampliou os demais sentidos dele. Tanto que, vestido com o super-uniforme, consegue se portar como se nem parecesse cego.

E o roteirista Stan Lee, pai de tantos outros personagens da Marvel Comics, parecia fazer questão de mostrar nessas primeiras tramas que o herói podia fazer tudo o que os demais faziam. Ou até mais.

                                                           ***

Na segunda aventura, o Demolidor é enviado ao espaço. Consegue adaptar os controles da nave para retornar à Terra, a tempo de bater no vilão que o havia mandado para fora.

Na mesma história, anda a cavalo, pendura-se num helicóptero e salta. A queda livre foi milimetricamente calculada para cair exatamente no prédio onde o inimigo estava.

No sétimo número, sai num mano a mano com Namor, o Príncipe Submarino. Detalhe: Namor voa e tem força equivalente à do Incrível Hulk.

Como dito, bota incrível nessas aventuras.

                                                           ***

Mas pode-se ler também nas histórias iniciais do Demolidor a construção dos alicerces que acompanhariam o enredo do personagem nos anos seguintes.

Muitos desses elementos perduram até hoje, embora reinventados.

O uniforme vermelho escuro foi adotado na edição sete, mostrada no álbum da Panini. Nas seis aventuras anteriores, o traje dividia o vermelho com o preto e o amarelo.

A justificativa para a mudança editorial quem dá é o próprio herói: "Trabalhei em segredo por meses pra redesenhar meu traje... torná-lo mais confortável... inconfundível!"

                                                           ***

Há também todo o universo em torno do personagem. A criação do escritório de advocacia, uma sociedade entre os advogados Murdock e Foggy Nelson, seu melhor amigo.

Os primeiros flertes com Karen Page, a secretária. O surgimento do bastão que acompanha o personagem nas lutas. Os vilões: Coruja, Touro, Homem-Púrpura, Metaloide.

Este volume de "Biblioteca Histórica Marvel" - série que relança as histórias clássicas dos heróis da editora Marvel Comics - reúne as 11 primeiras histórias de Demolidor.

O material foi lançado em edições bimestrais entre abril de 1964 e dezembro do ano seguinte. Os desenhos são de Bill Everett, Wallace Wood, Joe Orlando e Bob Powell.

                                                           ***

Quem lê as aventuras do Demolidor publicadas atualmente no Brasil - também pela Panini - não espere neste álbum o mesmo conteúdo dramático.

O herói narra mentalmente cada ação que vai tomar. Chega até a cansar a leitura. O bordão "isso só pode significar que...", após alguma dedução, é usado à exaustão.

Vale mais como curiosidade e valor histórico. E pela briga com Namor, a melhor da obra.

A Panini pretende lançar ainda neste ano outros álbuns da coleção, entre eles novos volumes de Homem-Aranha, X-Men, Vingadores e Quarteto Fantástico. Saiba mais aqui.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 18h18
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10.04.09

Revistas relançam quadrinhos de Shimamoto e Colonnese

 

Crédito: reprodução  Crédito: reprodução

 

De quando em quando, as bancas e as lojas de quadrinhos trazem algumas surpresas. Há agora duas delas, que começaram a ser vendidas neste início de mês.

Duas revistas relançam quadrinhos desenhados por Júlio Shimamoto e Eugênio Colonnese (1929-2008). Ambos são veteranos na arte de revistas em quadrinhos nacionais.

"Samurai" (EM Editora, 196 págs., R$ 9,90) reúne 15 histórias com o traço de Shimamoto. Ele também assina o roteiro de algumas delas.

A edição não informa quando cada uma foi publicada. Há registro apenas de que a maioria é da década de 1980. Em duas páginas, Shimamoto assina com os anos 1976 e 1980.

                                                          ***

A EM Editora é um selo da Mythos. O mesmo que lançou há dois anos dois outros álbuns com histórias antigas de Shimamoto: "Lendas de Musashi" e "Lendas de Zatoichi".

A revista que relança material de Eugênio Colonnese também é da Mythos. A obra é propícia para esta época do ano: "A Vida de Jesus em Quadrinhos" (192 págs., R$ 9,90).

O título já explica o conteúdo da obra. O roteiro é de outro veterano da área, Osvaldo Talo.

A exemplo de "Samurai", a editora não informa a data em que a história de Colonnese foi publicada pela primeira vez no Brasil.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 19h11
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09.04.09

Especialistas em literatura selecionam quadrinhos do PNBE

Havia um mistério sobre quem selecionava as obras em quadrinhos do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), do governo federal. O dado não era público.

Fim do mistério: quem faz a triagem dos títulos de histórias em quadrinhos são representantes de diferentes universidades. Todos são ligados à área de literatura.

A informação consta na última edição da "Educação", à venda nas bancas. A revista traz uma reportagem sobre o uso dos quadrinhos no ensino.

O PNBE compra lotes de livros literários e os distribui a escolas do ensino básico (fundamental e médio). Desde 2006, a seleção inclui obras de histórias em quadrinhos.

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O blog havia abordado o assunto no último dia 3. Na postagem, foram questionados os critérios adotados para a seleção de quadrinhos para compor a próxima lista.

O edital de inscrição de obras prevê, para as histórias em quadrinhos, os mesmos critérios de escolha de obras literárias. A ponderação é que quadrinhos não são literatura.

No caso específico dos quadrinhos, havia um adendo, que sinalizava uma generalização sobre o que seriam as HQs e sugeria um critério subjetivo para a seleção delas:

  • "Nos livros de imagens e quadrinhos, também será considerada como critério a relação entre texto e imagem e as possibilidades de leitura das narrativas visuais".

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Segundo a reportagem de "Educação", a responsável por coordenar a escolha das obras - literárias e de quadrinhos - é a professora universitária Aparecida Paiva.

Ela integra o Ceale (Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita), ligado à Universidade Federal de Minas Gerais.

Aparecida Paiva detalhou os critérios de seleção dos quadrinhos à repórter Rachel Bonino, autora da matéria da revista "Educação".

O blog reproduz a seguir os trechos da entrevista ligados a histórias em quadrinhos.

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- Como se explica o aumento dos títulos de quadrinhos no PNBE? Há alguma orientação nesse sentido?
- A explicação é simples: consta no edital do MEC (divulgado no site) a chamada para a categoria quadrinhos e, como os segmentos avaliados na edição passada foram os anos finais do ensino fundamental e ensino médio, em que a produção editorial nesse gênero é maior, o número de inscritos cresceu.

- Quais foram os critérios para a seleção dos títulos de quadrinhos?
- Os mesmos estabelecidos para qualquer outro gênero em avaliação, com atenção às especificidades desse tipo de linguagem: qualidade textual; qualidade temática; qualidade gráfica.

- Quantos professores participaram da seleção dos títulos da lista 2009?
- Participaram da seleção 72 avaliadores (mestres e/ou doutores na área), vinculados a instituições de ensino superior (preferencialmente públicas) de 14 estados brasileiros, agrupados em quatro sub-coordenações, submetidas a uma coordenação geral e uma consultoria. As deliberações finais sobre os acervos foram submetidas a um colegiado de 12 pesquisadores, representantes de cinco núcleos consolidados de pesquisa e pós-graduação na área de teoria literária e ensino de literatura, instância da qual fizeram parte, também, técnicos do MEC.

- Como a senhora recebeu as críticas à escolha de muitas obras adaptadas?
- As críticas, muito provavelmente, fundamentam-se em posições mais conservadoras sobre o texto literário, pouco voltadas para a recepção do leitor pretendido, para a possibilidade de mobilizá-lo com uma linguagem que lhe seja mais atraente. Isso não significa abrir mão do texto original, ou barateá-lo, como supõem alguns; pelo contrário, foram selecionadas e defendidas excelentes obras em sua versão original. As obras adaptadas, pelo menos as selecionadas, preservam o valor estético da obra original, agregam valores oriundos de uma outra linguagem e pressupõem uma porta de entrada para futuras leituras do mesmo texto.

- O professor sabe trabalhar livros de HQs em sala de aula?
- As mesmas dificuldades encontradas para trabalhar esse gênero em sala de aula se aplicam aos demais. Está clara a necessidade de se investir no "uso" dos acervos do PNBE como um todo. As pesquisas demonstram claramente quanto ainda é fundamental investir na formação do leitor-professor para que ele esteja em condições de exercer uma boa mediação de leitura, independente mente do gênero trabalhado.

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A reportagem completa de "Educação" está disponível para leitura on-line no site da revista.

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 22h59
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Feira em São Paulo vende livros e quadrinhos pela metade do preço

Vale registrar esta dica antes de o feriadão da Páscoa começar.

A unidade da USP (Universidade de São Paulo) que fica na zona leste da capital paulista vai realizar uma feira com livros e quadrinhos pela metade do preço.

A 2ª Feira de Livros EACH/USP, nome do evento, vai ser realizada nos dias 14, 15 e 16 da semana que vem, das 9h às 21h. Não paga nada para entrar.

A organização não forneceu o nome de todas as editoras presentes. Informou apenas que serão mais de 50. A maioria das que foram divulgadas publica livros teóricos.

                                                           ***

Na área de quadrinhos, a Conrad confirmou participação. Segundo a editora paulista, o catálogo será vendido com os exigidos 50% mínimos de desconto.

A loja Comix, de São Paulo, especializada em quadrinhos, também vai ter um estande na feira. Mas, segundo informou ao blog agora à tarde, não terá lançamentos.

A Comix vai levar o material de estoque, vendido com pelo menos 50% a menos.

Estão nessa lista títulos da extinta editora Opera Graphica, alguns mangás da Conrad e álbuns da Marvel já lançados pela Panini, como "1602" e "As Tiras do Homem-Aranha".

                                                           ***

Serviço - 2ª Feira de Livros da EACH/USP. Quando: 14, 15 e 16 de abril. Horário: das 9h às 21h. Onde: USP da zona leste. Endereço: av. Arlindo Bettio, 1000 (quem for de carro, o acesso fica na saída anterior à do Aeroporto de Cumbica, na Rodovia Ayrton Senna).

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 18h15
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08.04.09

Convite aos fluminenses

Registro rápido.

Lanço o livro "A Leitura dos Quadrinhos" no Rio de Janeiro na próxima segunda-feira, dia 13.

Antes, vai haver uma mesa-redonda sobre a evolução da linguagem dos quadrinhos.

Divide a mesa comigo Carlos Patati, um dos autores de "Almanaque dos Quadrinhos".

O pesquisador Moacy Cirne foi convidado, mas ainda não deu certeza.

A mediação será de Telio Navega, do blog "Gibizada", ligado ao portal de "O Globo".

O bate-papo e o lançamento começam às 19h30.

Vai ser na Livraria Travessa do Shopping Leblon. A loja fica no segundo piso.

Fica o convite.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 18h44
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Gabriel Bá tem três indicações ao Eisner Awards

 

Crédito: reprodução do flickr de 10 Pãezinhos

 

 

 

 

 

 

 

Capa de uma das edições da série "The Umbrella Academy", feita pelo desenhista brasileiro 

 

 

 

 

 

 

 

O desenhista brasileiro Gabriel Bá foi indicado em três categorias do Eisner Awards, principal premiação norte-americana de quadrinhos. É uma espécie de Oscar da área.

Ele concorre como melhor desenhista, pela série "The Umbrella Academy", e como melhor autor de capas. Nesta, foi incluído também o trabalho em outro título, "Casanova".

Uma edição de luxo do arco "The Umbrella Academy - Apocalypse Suite", também desenhada por Bá, foi indicada na categoria melhor reimpressão de álbum.

Bá e seu irmão, Fábio Moon, concorrem indiretamente em uma quarta categoria, a de melhor antologia, por "My Space Dark Horse Presents". Ambos têm histórias na obra.

                                                           ***

O crédito da descoberta das indicações é de Telio Navega, do blog sobre quadrinhos "Gibizada". Hoje, o blog de Bá e Moon, o "Dez Pãezinhos", já ecoa a notícia.

Os vencedores serão divulgados em julho em uma convenção de quadrinhos realizada na cidade de San Diego - a San Diego Comic-Con.

É a segunda vez seguida que Gabriel Bá é indicado. No ano passado, ele ganhou em duas categorias: melhor série, "The Umbrella Academy", e melhor antologia, por "5".

O prêmio pela independente "5" foi dividido com os outros autores, entre eles Bá e Rafael Grampá. "The Umbrella Academy" ganhou outro prêmio, o Harvey. E Bá, o Scream Awards.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h30
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Big Guy & Rusty: arte de Darrow se sobrepõe a texto de Frank Miller

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Álbum, à venda desde o início do mês, mostra luta de dois robôs contra monstro que ataca o Japão

 

 

 

 

 

 

 

Houve uma época em que o nome de Frank Miller na capa de um álbum ou minissérie em quadrinhos era motivo de furor entre os leitores. E sinal de vendas para as editoras.

Miller já não tem mais esse toque de Midas. Perdeu o ar áureo por conta própria. Fez uma sucessão de histórias fracas, que nem mesmo sua reputação conseguiu contornar.

"Big Guy & Rusty, o Menino-Robô", álbum que começou a ser vendido no Brasil neste início de mês (Devir, 80 págs., R$ 38,50), não é um dos piores trabalhos de Miller.

Mas também não figura entre os melhores. É uma narrativa simples em tom de homenagem, que só cresce e se destaca por conta da qualidade da arte de Geof Darrow.

                                                           ***

Miller e Darrow já haviam feito uma parceria na minissérie "Hard Boiled", lançada em volume único no ano passado pela mesma Devir. O tom deste novo álbum é bem menos violento.

"Big Guy & Rusty", um dos poucos trabalhos de Miller ainda inéditos no Brasil, faz uma homenagem aos antigos seriados japoneses e aos desenhos norte-americanos.

As referências vão depender da memória de cada leitor. Há quem possa ver, por exemplo, as figuras de Frankstein Jr. e de Bob Conroy, da animação da Hanna-Barbera.

No desenho, um robô gigante e "do bem" vivia salvando o dia ao lado do jovem Conroy. Por anos, foi exibido à exaustão aqui no Brasil, dublado pela  AIC-SP na década de 1960.

                                                           ***

Tal qual o personagem de Hanna e Barbera, Big Guy é um robô. É uma arma do governo norte-americano a ser usada em situações extremas.

O herói de metal é acionado quando um monstro destrói o Japão. A relação intertextual, aí, é mais explícita. O leitor pode enxergar qualquer um dos seriados dos heróis japoneses.

Antes de Big Guy, outro robô, o pequeno Rusty, mantido pelo governo nipônico, não conseguiu deter o monstro. O cartunizado Rusty seria a versão Bob Conroy da história.

O tom da narrativa é visivelmente construído para homenagear as antigas produções. Conserva a mesma ingenuidade, apesar de apresentar cenas de destruição explícita.

 

Crédito: divulgação

 

O que torna a trama mais atraente são os desenhos de Darrow. Detalhista, dá ao roteiro o realismo não imaginado pelo texto de Miller. E transforma o irreal em algo convincente.

As cenas de destruição do monstro nas ruas japonesas são para serem observadas com calma, dado o volume de minúcias visuais ali representadas.

Costuma-se dizer que um bom roteiro consegue se salvar mesmo se tiver um desenhista aquém do conteúdo. E que a recíproca não seria verdadeira.

Este "Big Guy & Rusty, o Menino-Robô" consegue provar o contrário. A arte de Geof Darrow é que se destaca. Cresce e dá mais vida ao texto simples assinado por Frank Miller.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 00h01
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06.04.09

Blog detalha produção de álbuns nacionais

Entrou no ar nesta semana um blog que tem a proposta de fazer um making of de sete álbuns nacionais em processo de produção.

O que une os projetos é que todos integram a lei de incentivo cultural do Estado de São Paulo, mais conhecida como PAC 23, mesmo nome da página virtual.

O governo paulista concedeu a cada um dos autores verba de R$ 25 mil para tocarem os trabalhos. Em dezembro, dez projetos foram selecionados entre os mais de cem inscritos.

Os autores têm prazo de oito meses para concluírem os álbuns. Por isso, a previsão de lançamento de todas as histórias é no segundo semestre deste ano.

                                                           ***

A ideia de detalhar os projetos de forma pública foi de um dos selecionados, o escritor Celso Menezes. Ele divide a autoria com o desenhista Felipe Massafera.

O álbum que eles produzem têm o título provisório de "22 de Abril". Aborda a participação da Força Aérea Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Vai ser lançado pela Zarabatana.

Segundo ele, mostrar o passo-a-passo dos álbuns é uma forma de valorizar o edital de apoio cultural e mostrar ao poder público que o incentivo não foi em vão.

"Quero que os responsáveis pelo edital tomem conhecimento dessa importância para que este não tenha sido apenas um edital ´experimental´, mas, sim, o primeiro dos editais de quadrinhos e que, ano que vem, uma nova geração de vencedores possa assumir o blog e ir assim perpetuando essa tradição", diz, por e-mail.
                                                           
                                                          ***

Os contatos com os demais autores foram feitos virtualmente. Três não responderam: o dos projetos "Uira e os Filhos de Eco", "Joquempô" e "Estação Luz".

"De qualquer forma, os três estão convidados a participar do blog no momento que quiserem", diz Menezes.

Por enquanto, a página faz uma apresentação dos sete trabalhos e detalha por qual editora serão publicados, qual o formato previsto e em que mês  devem ser lançados.

Veja a seguir como deve ser cada um dos álbuns, segundo o "PAC 23". Parte das imagens também é do blog. A outra parte é das páginas virtuais mantidas pelos autores.



 

22 de Abril (nome provisório)
Autores: Celso Menezes e Felipe Massafera
Assunto: participação da Força Aérea Brasileira na 2ª Guerra Mundial
Editora: Zarabatana
Páginas previstas: 100

 



Caroço no Angu
Autor: Gilmar
Assunto: coletânea de tiras sobre assuntos variados
Editora: não definida
Páginas previstas: 48





Anita Garibaldi, uma Biografia em Quadrinhos (nome sujeito a alteração)
Autor: Custódio
Assunto: biografia de Anita Garibaldi
Editora: independente, por enquanto
Páginas previstas: 64






Lina (título provisório)
Autores: Cristina Veiga Judar e Bruno Auriema 
Assunto: menina sem perspectiva tem rumo de sua vida alterado
Editora: Estação Liberdade
Páginas previstas: 80, mas pode chegar a 100

Fractal
Autores: Marcela Godoy e Eduardo Ferigato
Assunto: investigação de crime que envolve fractais e elementos místicos
Editora: Devir
Páginas programadas: 64


O Mistério da Mula sem Cabeça
Autores: Alex Mir, Laudo Ferreira Júnior e Omar Viñole
Assunto: detetive investiga aparições da mula sem cabeça no Amazonas
Editora: Via Lettera
Páginas programadas: 40



 

Loucas de Amor
Autores: Fido Nesti e Gilmar Rodrigues
Assunto: aborda a paixão de mulheres por assassinos em série, maníacos e estupradores
Editora: em negociação
Páginas programadas: 60

                                                           ***

Como já comentado, todas as obras têm lançamento programado para o segundo semestre.

O blog "PAC 23" traz o link para páginas de cada um dos projetos.

Para acessar o blog, que deve ser atualizado regularmente, clique aqui.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 22h30
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05.04.09

O novo quadrinho argentino

 

Muito Além de Mafalda  - Parte 7  /  Série especial sobre os quadrinhos argentinos


 

Crédito: reprodução

 

A crise econômica que antecedeu e sucedeu a virada do século na Argentina reduziu o número de lojas de quadrinhos e a produção nacional.

Na leitura de alguns vendedores portenhos, os editores preferiam não arriscar. Com dinheiro curto, optavam por reedições de quadrinhos já testadas no país.

Isso inibiu a aposta no trabalho de novos autores. As produções inéditas - até onde se pôde apurar - se restringiam aos jornais diários e às revistas semanais. E à internet.

Uma das páginas é o blog "Historietas Reales", que traz histórias virtuais feitas por diferentes autores.

                                                           ***

O blog foi criado em 2005. Em março do ano passado, migrou do suporte Blogspot para o Wordpress. No novo endereço, reúne trabalhos de 25 desenhistas e escritores.

As atualizações são diárias e feitas em sistema de revezamento. De segunda a sexta-feira, são postadas três novas histórias a cada dia. Nos fins de semana, quatro.

Não há regra. O material pode ser uma tira ou uma narrativa maior, de várias páginas.

A mostrada abaixo é deste domingo. É a primeira página, de um total de seis, da história "Regreso a Perséfone". Foi feita por Kwaichang Kráneo.

 

Crédito: blog Historias Reales 

 

Cada um dos autores do "Historias Reales" mantém páginas próprias. Os links ficam no canto direito do blog.

Algumas das histórias virtuais migraram para o papel, em forma de álbuns. Um caso é o da série de humor "Indecentemente Cursi!", de Carochinaski, mostrada no início da postagem.

Outro é o de "Yo Conmigo", de Fabian Zalazar. São tiras duplas que abordam situações cotidianas. A obra foi lançada em 2008, pela Domus, de Buenos Aires.

A editora já publicou outros sete títulos do blog. E criou um selo próprio para essa linha de publicações. É hoje uma das que mais publica novos autores argentinos.

                                

Crédito: reprodução 

 

A Domus surgiu em meados de 2006. Ela mantém hoje oito selos editoriais de quadrinhos.

Um dos selos é para livros sobre quadrinhos. Outros dois para clássicos argentinos e estrangeiros. Os demais são para novos autores, inclusive de mangás e de heróis juvenis.

Além do "Historias Reales", destacam-se dois outros selos: "Colección Nueva Historieta Argentina" e "Colección Aventuras Dibujadas".

O primeiro traz obras autorais de diferentes autores. Todas são prefaciadas por nomes importantes do quadrinho argentino, como Liniers, Sendra, Juan Sasturain e Carlos Trillo.

 

Crédito: reprodução  Crédito: reprodução

 

A coleção já soma oito títulos. Os primeiros foram publicados em 2006: "El Oficial Yuta", de J. J. Rovella; "Exesos", de Mr. Exes; "Animal Urbano", de Guillermo Grillo e Edu Molina.

O quarto título que iniciou a coleção é "Estupefacto", de Lucas Varela. A obra traz algumas histórias do inusitado Paolo Pinoccio, um dos personagens criados pelo quadrinista.

Paolo Pinoccio é um boneco "que mente descaradamente e recebe o que merece", resume o subtítulo de uma das narrativas. É baseado, claro, nas aventuras de Pinóquio.

O personagem de Varela já teve histórias publicadas também na "Fierro". A revista mensal, vendida com o jornal "Página/12", é outro berço de novos autores.

 

Crédito: reprodução 

 

Outro selo da Domus que merece destaque é o "Colección Aventuras Dibujadas". Cada número traz uma história voltada ao público infanto-juvenil.

É a linha de títulos da editora que mais teve obras publicadas, dez até agora.

Alguns dos títulos são produzidos por nomes famosos do quadrinhos argentino, como Carlos Trillo.

O escritor fez o texto de dois dos volumes: "Martin Holmes" e "El Cuerno Escarlata".

 

  Crédito: reprodução

 

Os livros da Domus são facilmente encontrados nas "comiquerias", nome das lojas especializadas em quadrinhos da Argentina. Elas foram tema da última postagem da série.

É nas "comiquerias" que se encontram também outros trabalhos do novo quadrinho argentino, ressurgido de 2005 para cá, quando a saúde econômica do país melhorou (embora a inflação ainda seja um problema real).

Há produções independentes. A maior parte, no entanto, é de editoras novas. Algumas tão novas que possuem uma, duas obras. Mesclam reedições com material inédito.

A Domus é a que tem o maior catálogo. Depois dela, duas outras merecem registro: A Thalos e a Deux.

 

Crédito: reprodução  Crédito: reprodução

 

A Thalos fica em San Isidro, cidade da província de Buenos Aires. Província é como os argentinos chamam os estados do país. São 23 ao todo, mais a capital federal.

A editora ainda tem um catálogo pequeno, formado desde 2006. Há material estrangeiro, relançamentos e histórias inéditas. Salvo exceções, há preferência por histórias de ação.

A Deux, de Buenos Aires, tem perfil semelhante. Um dos lançamentos mais recentes é "King Cop".

A história mostra um detetive que, na caça a um bandido, tem a mente transferida para a de gorila enorme. O policial mantém seu perfil, porém no corpo do animal.

 

Crédito: reprodução      Crédito: reprodução

 

Pode-se ver um renascimento do quadrinho argentino. Nas tiras dos jornais, na revista "Fierro", nas novas publicações.

A cada visita às comiquerias do país - foram quatro passadas nos dois últimos anos -, há um volume relativamente bom de novos títulos. E de reedições.

Os relançamentos ainda têm um espaço especial, inclusive de editoras que optam apenas por essas obras, já "testadas" pelo público-leitor (em geral, são muito boas).

Mas há empresas como a Thalos, Deux e, principalmente, a Domus, que têm dado espaço a uma nova geração de autores. E com lançamentos regulares, ao contrário daqui.

                                                           ***

Próxima parada, no fim de semana que vem: as livrarias de Buenos Aires

                                                           ***

Leia as outras postagens da série:

Introdução, Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5, Parte 6 

Escrito por PAULO RAMOS às 22h42
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03.04.09

Edital do PNBE 2010 sinaliza preferência por adaptações literárias

As editoras brasileiras têm até as 18h desta sexta-feira, dia 3, para inscrever obras na lista do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), do governo federal.

O programa tem o objetivo de democratizar o acesso a livros. A cada ano, compra lotes de títulos e os distribui a escolas dos ensinos fundamental e médio.

Este novo edital seleciona exemplares a serem levados às escolas em 2010. O interesse é em obras literárias. Inclusive adaptações de clássicos em quadrinhos.

O texto sinaliza uma clara preferência pelo gênero literatura em quadrinhos. Isso indica um passo atrás na forma como o Ministério da Educação enxerga os quadrinhos.

                                                           ***

Antes de seguir a argumentação, é preciso dar um rápido passeio por algumas questões.

O enfoque do PBNE é na literatura. No entender do MEC, "a literatura é um patrimônio cultural a que todos os cidadãos devem ter acesso".

A iniciativa é elogiável, principalmente se os acervos puderem ser consultados não só pelos alunos, mas também pela comunidade onde a escola está inserida.

Também não se questiona a oportunidade de os estudantes brasileiros terem acesso a obras literárias. É algo necessário e insubstituível, sob diferentes aspectos.

                                                           ***

Em 2006, o programa incluiu obras em quadrinhos na lista de livros selecionados. A visão do governo era a de que esses títulos poderiam servir de estímulo à leitura.

A premissa é válida. Mas traz subentendida uma visão instrumental.

Os quadrinhos não seriam vistos como leitura per si. Seriam, por outro lado, uma ferramenta para outras formas de leitura, entre as quais se destaca a literária.

Essa interpretação não aborda os quadrinhos como leitura autônoma e válida, como efetivamente são, por mais bem-intencionada que fosse a intenção de incluí-los na lista.

                                                           ***

Seguramente foi por esse mesmo motivo que adaptações literárias em quadrinhos figuraram entre os títulos selecionados naquele ano.

O próprio texto do edital enxergava os quadrinhos como uma "forma de literatura". O uso do termo "forma" explicita e evidencia um desconhecimento sobre a área.

Essa preferência acentuou a corrida editorial por clássicos em quadrinhos. Chegou-se até ao exagero de adaptar quatro vezes em dois anos o conto machadiano "O Alienista".

Uma consequência é que ajudou o mercado a "descobrir" os quadrinhos. Mesmo que parte das grandes editoras não faça muita ideia do que está publicando.

                                                          ***

Os mesmos problemas foram percebidos no edital do PNBE do ano seguinte. Um avanço ocorreu no texto de 2008, que selecionou obras para serem distribuídas neste 2009.

O governo pedia obras literárias e obras em quadrinhos, sem uso de qualquer outro adjetivo.

Essa visão sinalizava dois pontos:

  1. quadrinhos estavam dissociados da literatura;
  2. quadrinhos eram vistos como leitura autônoma.

A seleção confirmou isso.

                                                           ***

Os quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá são um bom exemplo. Eles tiveram duas obras incluídas na lista: uma adaptação de "O Alienista" e um álbum de autoria deles.

Não se priorizou apenas a literatura narrada em quadrinhos. Priorizou-se também as histórias narradas em quadrinhos, como manifestação artística autônoma.

Foi um avanço em relação aos editais anteriores e no tocante à seleção das obras. Tanto que as adaptações foram minoria entre os 21 quadrinhos selecionados.

O edital deste ano, por outro lado, indica um retrocesso. É como um bumerangue jogado longe. Avançou no ar. Mas fez uma curva voltou ao ponto de partida.

                                                           ***

Este texto do PNBE seleciona obras para o ensino fundamental - inclusive pré-escola - e médio - parte do acervo é para educação de adultos. O edital inclui:

  • "livros de imagens e livros de histórias em quadrinhos, dentre os quais se incluem obras clássicas da literatura universal, artisticamente adaptadas ao público de educação de jovens e adultos (ensino fundamental e médio)".

O fato de destacar que entre as obras em quadrinhos incluem-se as adaptações indica uma atenção especial a esse gênero.

Soma-se o fato de que há uma explícita preferência por obras literárias em todo o texto do edital e uma generalização no critério de seleção de quadrinhos.

                                                           ***

O PNBE adota três critérios de seleção do material inscrito:

  1. qualidade do texto literário;
  2. adequação temática;
  3. projeto gráfico.

Ponderações, item por item.

                                                          ***

Qualidade é um termo abstrato e subjetivo. Quem determina que um livro seja qualitativamente melhor que o outro?

A crítica e a academia - partindo do princípio de que ambas gozem de autoridade social para determinar o que seja bom ou não - já se debruçaram sobre todas as obras inscritas, inclusive as contemporâneas?

Quem selecionar - seja quem for - lerá todas os livros?

Outro ponto: texto literário, em tese e em teoria, exclui os textos não literários, entre os quais os quadrinhos se incluem.

                                                          ***

No tocante aos quadrinhos especificamente, o texto diz:

  • "Nos livros de imagens e quadrinhos, também será considerada como critério a relação entre texto e imagem e as possibilidades de leitura das narrativas visuais"

Trata-se de uma generalização, fruto de desconhecimento.

As histórias em quadrinhos se fundamentam na relação entre imagem e palavra. Por isso, compõem narrativas visuais.

Esse critério é amplo e óbvio demais. Todos os títulos inscritos, por esse raciocínio, deveriam ser aceitos.

Reitera-se: isso evidencia desconhecimento sobre a área de quadrinhos.

                                                           ***

É correto o critério de adequação temática.

Desde que não enxergue os quadrinhos como forma de leitura apenas para crianças.

                                                          ***

O projeto gráfico é válido para quem inicia o ensino fundamental. Obras mais atrativas podem chamar a atenção das crianças.

O manuseio do livro por mais de um aluno exige também uma edição reforçada.

Isso traz uma consequência difícil de ser contornada: exclui as revistas em quadrinhos e dita às editoras um forte investimento em quadrinhos no formato de livro.

                                                            ***

O PNBE é um programa iniciado na gestão Fernando Henrique Cardoso e continuado na do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Levar literatura a jovens da rede pública democratiza a leitura e torna universal um patrimônio restrito a poucos até então.

Também é válida a política de incentivo à leitura. E a literatura deve ser estimulada. Ao máximo.

Mas hoje o próprio governo entende que as obras literárias não são as únicas manifestações de leitura. Os Parâmetros Curriculares Nacionais, do governo, registram isso.

                                                          ***

O resultado deste edital sai no segundo semestre deste ano. Por isso, não se pode dizer quais serão as obras em quadrinhos incluídas. A torcida é para que haja surpresas.

Mas, a se pautar pelo texto seletivo, há uma hierarquia entre obras literárias e as feitas em quadrinhos, sendo estas vistas a reboque daquelas.

Esse olhar sugere o discurso de que quadrinhos não sejam uma forma de leitura qualitativamente autônoma, passível de prestígio, ao contrário do edital passado.

Só seriam válidas se adaptassem clássicos literários. Um retrocesso, portanto.

                                                           ***

E - pior - o edital explicita uma generalização nos critérios de seleção, resultado de claro desconhecimento sobre a área. E isso de quem dita a política de ensino.

Escreve-se o óbvio. Mas não se enxerga o óbvio.

Não no tocante aos quadrinhos e a seu papel no ensino e como manifestação válida e autônoma de leitura.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 00h01
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02.04.09

História pioneira dos quadrinhos está disponível on-line

 

Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Juca e Chico - História de Dois Meninos em Sete Travessuras", obra alemã traduzida pelo poeta Olavo Bilac

 

 

 

 

 

 

 

A história infantil "Juca e Chico - História de Dois Meninos em Sete Travessuras" está disponível para leitura na internet. A obra é um dos trabalhos pioneiros dos quadrinhos.

O material está num site sobre literatura infantil publicada no Brasil entre 1880 e 1910. O acervo virtual é mantido pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Na página virtual, que pode ser acessada neste link, constam todas as travessuras do título e o fatídico desfecho.

Cheguei a comentar sobre o livro alemão em 16 de dezembro de 2006.

Reproduzo a seguir o texto daquela postagem.

                                                          ***

Hans e Fritz, os protagonistas de "Os Sobrinhos do Capitão", foram inspirados em Max und Moritz, do alemão Wilhelm Busch (1832-1908), um dos pioneiros da linguagem dos quadrinhos.

A obra era algo parecido com o que hoje entendemos por livro infantil. Havia uma narrativa, ilustrada por imagens dos garotos travessos.

No Brasil, a história foi traduzida pelo poeta Olavo Bilac, que batizou a dupla de Juca e Chico. O livro se chamou "Juca e Chico – História de Dois Meninos em Sete Travessuras".

                                                          ***

Na derradeira traquinagem, os garotos fazem buracos em sacos de trigo. São descobertos e colocados moinho, que os tritura vivos.

Ambos, evidentemente, morrem e viram comida para dois gansos esfomeados.

É a lição de moral para as crianças nunca aprontarem, mas levada às últimas conseqüências.

                                                          ***

A cena final foi traduzida assim por Olavo Bilac (o texto é da 11ª edição, editada pela Livraria Francisco Alves; mantenho a grafia original):

                                                          ***

Ai de ti, ó súcia arteira! / Vai ser esta a derradeira! / Também, por que é que nos sacos / Foram abrir dois buracos?... / Aí vem o dono do trigo, / E leva os sacos consigo. /

Porém, mal começa a andar, / Começa o trigo a escapar... / E êle: "Oh, diabo! Êste saco / Deve ter algum buraco! / E violta-se: e num instante / Apanha os dois em flagrante. /

Olá! Que boa colheita! / Não me escapais desta feita! / Lá vão êles, a caminho / Da morte... isto é: do moinho. /

- Mestre moleiro, bom-dia! Tragolhe a mercadoria / Mais cara que há no mercado! / Quero isto já bem passado! / Quero já isto bem moído! /

- Pois não! Já vai ser servido! / Raque... raque... a trabalhar, / Põe-se o moinho a rodar... / E aí tendes os dois meninos, / Em grãos tão finos, tão finos, / Que são logo devorados... /

- E os dois gansos esfaimados / Nunca em tôda a sua vida / Viram tão boa comida!

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 19h58
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Lançamentos e exposição no fim de semana paulista

 

Crédito: divulgação

 

A autoria da imagem acima é do quadrinista e professor universitário Gazy Andraus. A ilustração integra uma exposição que ele abre nesta sexta em Santos, no litoral paulista.

A mostra marca seus 22 anos de carreira. Sua marca é a produção do que se convencionou chamar de quadrinhos poéticos ou filosóficos. Edgar Franco é outro representante.

A exposição abre nesta sexta à noite, às 19h30, e pode ser visitada até o fim de abril.

Fica na Gibiteca Municipal Marcel Rodrigues Paes, no Posto 5, na orla da praia.

                                                           ***

Subindo a serra que separa o litoral da capital paulista, há duas sessões de autógrafos. Ambas ocorrem no sábado à tarde e já tiveram lançamentos em outras datas.

Uma é a revista "Pieces", de Mário Cau. A obra traz contos curtos sobre relacionamentos. A segunda sessão de lançamento será a partir das 14h na Comix (al. Jaú, 1.998).

O outro evento é um lançamento paulistano da "Samba", publicação independente de Brasília. O título reúne diferentes autores.

O grupo faz duas sessões. A primeira das 12h às 20h na loja Cachalote (r. Min. Ferreira Alves, 48). A segunda é a partir das 20h na Mercearia São Pedro (r. Rodésia, 34).

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 19h22
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01.04.09

Pixel completa dois meses sem lançamentos e explicações

Terminado março, já são dois meses sem nenhum lançamento da Pixel, um dos selos editoriais do grupo Ediouro.

A última publicação, "Fábulas Pixel", ocorreu em janeiro, com dois meses de atraso.

Desde então, nada nas bancas nem nas livrarias.

A Ediouro também ainda não se pronunciou oficialmente à imprensa ou aos leitores.

                                                           ***

A última informação circulou no site Orkut e foi colocada pela empresa Frog, que cuida do relacionamento virtual da empresa.

Na ocasião, a nota registrava que o selo passava por mudanças administrativas para garantir a continuidade dos lançamentos.

O texto encerra dizendo que no início de 2009 colocaria "novos produtos à disposição de nossos clientes".

Como se vê hoje, os novos produtos não foram publicados.

                                                          ***

A incerteza sobre os rumos da Pixel veio a público em 11 de dezembro, em nota escrita pelo ex-editor-chefe, Cassius Medauar.

No blog da editora, ele justificou sua saída por conta dos novos rumos tomados. 

"Começaram a ser bem diferentes dos planos que tínhamos no começo e eu acabei não me encaixando mais nos planos da empresa."

No texto, ele dizia que continuaria a ser consultor na parte editorial. De lá para cá, os leitores viram à venda apenas o quarto número de "Fábulas Pixel".

                                                           ***

A Pixel entrou no mercado no início de 2006, numa parceria entre as empresas Futuro Comunicação e Ediouro. O carro-chefe era a série europeia Corto Maltese.

Um ano depois, a empresa conseguiu os direitos de publicação no Brasil, com exclusividade, dos selos adultos da editora norte-americana DC Comics, a mesma de Batman e Super-Homem.

A acordo incluía histórias da Vertigo, da Wildstorm e da ABC. O material tinha séries de prestígio, como "Sandman", "Preacher" e as revistas escritas pelo inglês Alan Moore.

A editora pôs à venda, em bancas, lojas de quadrinhos e livrarias, uma série de revistas, minisséries e álbuns. Com o tempo, as revistas mensais passaram a ser privilegiadas. A principal era "Pixel Magazine".

                                                           ***

No ano passado, a Pixel venceu o Troféu HQMix, o principal do país na área de quadrinhos, como editora do ano.

Semanas antes da premiação, André Forastieri formalizava sua saída e a da Futuro da sociedade. A Ediouro, então, tornou-se a única proprietária.

Em 23 setembro de 2008, o superintendente da Ediouro, Luís Fernando Pedroso, disse ao blog que considerava razoável o retorno nas livrarias e sofrível o visto nas bancas.

Na mesma entrevista, ele dizia manter o interesse na área de quadrinhos, desde que fosse rentável.

                                                           ***

Hoje, impera a incerteza.

Para acentuar a falta de informações, o link da Pixel, no site da Ediouro, não leva à página da editora. O clique leva a uma página com a frase "objeto não encontrado".

No portal, os demais selos da Ediouro - Agir, Desiderata, Guinness, Nova Aguilar, Nova Fronteira e Thomas Nelson - conduzem às páginas virtuais das respectivas editoras.

O blog da Pixel permanece, mas sem atualização. No ar, consta a última postagem, de 11 de dezembro de 2008, sobre a saída de Cassius Medauar.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 17h13
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