30.11.10

100 anos de Nássara, o melhor caricaturista brasileiro do século 20?

 

Juscelino Kubitschek, por Nássara   Cartola, por Nássara

 

Por Cláudio de Oliveira, especial para o Blog dos Quadrinhos

                                                       *** 

O caricaturista carioca Antônio Nássara, o Nássara,  completaria 100 anos no último dia 11 de novembro. Morreu no dia 11 de dezembro de 1996, aos 86 anos , enquanto cochilava na sua cadeira da sala. Teve um infarto.

Seu primeiro trabalho foi publicado em "O Globo", em 1927.

Nos anos 1930, passou por vários jornais e revistas. O auge de sua carreira foi nos anos 1940 e 1950, quando trabalhou na mais importante revista brasileira de então, "O Cruzeiro", de Assis Chateaubriand, e na "Última Hora", o moderno diário de Samuel Wainer.

Depois de um certo ostracismo nos anos 1960, Nássara é resgatado por Jaguar, que o convida a publicar no "Pasquim", colaboração que vai de 1974 até o fechamento do semanário de humor, no início dos anos 1960.

Seria exagero considerar Nássara o melhor caricturista brasileiro do século passado?

Se não é o melhor, certamente está entre os grandes da caricatura nacional. Seu mérito maior está em radicalizar a economia de traços de uma caricatura.  

Para Nássara, a caricatura deveria ser uma logomarca da face do caricaturado. Desenvolveu tal estilo, segundo dizia, de uma maneira prosaica: publicava seus desenhos em pequenos espaços do jornal, o que lhe exigia um grande poder de síntese. 

Henfil era admirador de Nássara e criticava a caricatura-retrato ou mera destorção fotográfica. Sem entrar na polêmica e sem deixar de reconhecer os méritos artísticos daquelas escolas, na linha da caricatura-síntese Nássara foi o grande mestre, ao lado do também carioca J.Carlos e do paulista Belmonte. 

Nássara influenciou vários caricaturistas e, entre seus discípulos mais próximos, podemos destacar dois: Emílio Damiani, ilustrador da "Folha de S.Paulo", e Alvim, ilustrador de "O Globo" [imagens abaixo]. 



Amy Winehourse, por Emílio Damiani   César Maia, por Alvim




Quem quiser conhecer mai sobre Nássara, tanto como caricaturista, como também como compositor de sambas e marchas de carnaval de sucesso, pode procurar nas bibliotecas, sebos e livrarias as seguintes obras:
 

  • "Nássara, desenhista", de Cássio Loredano, edição da Funarte de 1985;
  • "Nássara, o perfeito fazedor de artes", Isabel Lustosa, edição da Relume Dumará, de 1999. 

Ou acessar a Enciclopédia Itaú Cultural das Artes Visuais neste link.

                                                         ***
 

Cláudio de Oliveira é jornalista, cartunista do jornal "Agora São Paulo" e autor do livro de charges "Pizzaria Brasil, da Abertura Política à Reeleição de Lula", da editora Devir. Site: http://chargistaclaudio.zip.net.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 11h08
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29.11.10

Brasileiros se destacam no Salão de Paraguaçu Paulista

 

1º lugar caricatura - Tiago Hoisel

 

 

 

 

 

 

 

Caricatura feita por Tiago Hoisel, que mora em São Paulo, ficou em primeiro lugar na categoria

 

 

 

 

 

 

 

 

Os brasileiros venceram três das cinco categorias do 6º Salão de Humor de Paraguaçu Paulista. Os autores nacionais ganharam em charge, tiras e caricatura.

Tiago Hoisel Ferraz, que havia sido o principal premiado do Salão Internacional de Humor de Piracicaba deste ano, ficou em primeiro em caricatura.

Elvis Nilson Israel de Oliveira ganhou no item charge. Caetano Cury Nardi, em tiras.

Ngai OO, de Myanmar, e Rumen Kostov Dragostinov, da Bulgária, ganharam respectivamente em cartum e cartum temático - o tema da categoria foi pecado.

                                                         ***

Os premiados foram divulgados na última sexta-feira na abertura do salão, em Paraguaçu Paulista, cidade do interior paulista que intitula o evento de humor.

Os primeiros colocados irão receber R$ 3 mil cada um. Os segundos lugares, R$ 2 mil. Os terceiros, R$ 1 mil.

A organização do salão recebeu, neste ano, 1.585 trabalhos vindos de 45 países. Desses, 250 foram selecionados.

Veja a seguir os desenhos que ficaram em primeiro e quem foram os demais premiados.

                                                          ***
 1º lugar cartum - Ngai OO

 

 

 

1º lugar cartum

Ngai OO - Myanmar

 

 

 

 

2º lugar - Leslie Ricciardi - Espanha

3º lugar - Rodrigo De Lira Minêu Rocha - Salvador (BA)

Menções honrosas - Jarbas Domingos de Lira Junior - Recife (PE)  
                                Seyran Caferli - Azerbaijão  
                                José Gonzalo San Martín Escobar - Peru 

 

1º lugar cartum temático - Rumen Kostov Dragostinov

 

 

 

 

 

 

 

 

1º lugar cartum temático

Rumen Kostov Dragostinov

 

 

 

 

 

 

 

 

2º lugar - Julio Angel Carrión Cueva - Peru

3º lugar - Ronaldo Cunha Dias - Vacaria (RS)

Menções honrosas - Huseyin Cakmak - Chipre
                                Oguz Gurel - Turquia
                                Valentin Georgiev - Bulgária

 

1º lugar charge - Elvis Nilson Israel de Oliveira

 

                                

 

1º lugar charge

Elvis Nilson Israel de Oliveira

 

 

 

 


2º lugar - Rodrigo de Oliveira Maia - Ananindeua (PA)

3º lugar - Makhmudjon Eshonkulov - Uzbequistão

Menção honrosa - João Bosco Jacó de Azevedo - Belém (PA)

 

1º lugar tiras - Caetano Cury

 

 

 

 

 

 

1º lugar tiras

Caetano Cury Nardi

 

 

 

 

 

 

2º lugar - Floreal Da Silva Andrade - Suzano (SP)

3º lugar - José Antonio Costa - Teresina (PI)

Menções honrosas - Valfrido Ricardo Martins - Manhuaçu (MG)
                                 Willian Antonio Hussar - Piracicaba (SP)

                                                         ***

Caricatura

1º lugar - Tiago Hoisel Ferraz - São Paulo (SP)

2º lugar - João Carlos Matias do Nascimento - Rio de Janeiro (RJ)

3º lugar - Carlos David Fuentes Hierrezuelo - Cuba

Menção honrosa - Fabrício Rodrigues Garcia - Garopaba (SC) 

                                                          ***

Nota: todos os trabalhos premiados podem vistos no site do salão.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h03
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25.11.10

Concentração de sessões de autógrafos nos próximos dias

Sexta-feira, sábado e domingo terão uma média de duas sessões de autógrafos por dia.

A maior parte será em São Paulo. Confira e agende-se:

Sexta-feira

  • "MSP + 50 - Mauricio de Sousa por Mais 50 Artistas", com Mauricio de Sousa e outros 16 autores do álbum. Horário: 19h30. Onde: livraria Saraiva do shopping Ibirapuera. Endereço: avenida Ibirapuera, 3.103, Moema, São Paulo. Quanto: R$ 59 (capa cartonada); R$ 98 (capa dura). Obs.: serão distribuídas cem senhas.
  • "Fiapo e La Peña", álbum de Danilo Fonseca. Horário: 17h. Onde: HQMix Livraria. Endereço: praça Roosevelt, 142, centro, São Paulo. Quanto: R$ 19,90.

Sábado

  • "Peixe Peludo", álbum de Rafael Moralez e Rodrigo Bueno. Horário: 19h30. Onde: Onde: HQMix Livraria. Endereço: praça Roosevelt, 142, centro, São Paulo. Quanto: R$ 24,90.
  • "Fanzines - Autoria, Subjetividade e Invenção de Si", livro com artigos de nove autores. Horário: 19h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: praça Roosevelt, 142, centro, São Paulo. Quanto: não informado.

Domingo

  • "Samba 2", revista independente com trabalhos de diferentes autores. Horário: 16h. Onde: Espaço Cultural da 508 Sul. Endereço: 508 Sul, Distrito Federal. Quanto: não informado.
  • "As Aventyras de Sir Charles Magadom e do Conde Euphrates de Açafrão", álbum dos irmãos Artur, Carlos e Rubens Matuck. Horário: 10h. Onde: padaria Rodésia. Endereço: rua Rodésia, 110, Vila Madalena, São Paulo. Quanto: R$ 99.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 16h23
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24.11.10

Minhas guerras, nossas conversas, minhas memórias

 

A Guerra de Alan - As Memórias do soldado Alan Ingram Cope. Crédito: editora Zarabatana

 

 

 

 

 

 

Capa de "A Guerra de Alan", álbum que narra a história real do ex-soldado norte-americano Alan Ingram Cope

 

 

 

 

 

 

 

 


Há um fascínio, próprio do ser humano, que é se envolver com os relatos das pessoas, sejam elas próximas ou não. A convivência se ancora muito nisso.

O francês Emmanuel Guibert encontrou esse fascínio na história de vida do norte-americano Alan Ingram Cope. O interesse foi tão grande que decidiu verter o relato em quadrinhos.

O resultado rendeu três volumes, agora compilados no Brasil num livro só, "A Guerra de Alan - As Memórias do Soldado Alan Ingram Cope" (Zarabatana; 336 págs.; R$ 49).

A arte narrativa de Guibert ajuda a valorizar a peculiar trajetória, acentuando até os pontos mais comuns. Mas cumpre o que promete, expor em quadrinhos as memórias do amigo.

                                                         ***

Na leitura, fica evidente que Cope passou por diferentes guerras. A primeira, e mais evidente, foi a participação na Segunda Guerra Mundial.

Alistou-se ainda jovem. Subiu de posto de forma rápida. Logo, estava na Europa. França, Alemanha. Seguindo o relato, a presença dele no front não foi das mais marcantes.

O fim do conflito, próximo, contribuiu para tornar a passagem bem menos bélica. Mas uma participação numa guerra, mesmo que mínima, ainda é algo que se leva para toda a vida.

Isso fica claro no relato. A maior parte das memórias se ambienta no conflito. O primeiro capítulo mostra o treinamento. O segundo, a vida na guerra. São os mais interessantes.

                                                         ***

A terceira parte da obra mostra a vida pós Segunda Guerra. O fim do conflito levou Cope a alguns trabalhos burocráticos e à decisão de sair dos Estados Unidos e viver na França.

O gosto pela Europa, ironicamente, teve sua raiz justamente no período de combate nas terras do Velho Continente.

Apesar da decisão, o relato toma o cuidado de se centrar nos pontos que o ex-soldado queria. Muito do lado pessoal, como os diferentes casamentos, são pouco abordados.

Não é algo que comprometa. Mas é algo deixado de lado, não aprofundado. Nesse sentido, a amizade de ambos parece ter sido a voz mais presente na forma de compor o relato.   

                                                         ***  

Os dois se conheceram em 1994 na França, país que Cope adotou após combater na Segunda Guerra Mundial. O ex-soldado tinha, então, 69 anos.

O desenhista diz no prefácio que se encontraram por acaso, num pedido de informações. Foi a fagulha da amizade, que durou até 1999, data da morte do ex-soldado.

Foi nas conversas de ambos que Guibert descobriu o passado de guerras plurais de Cope. Convidou o amigo para transpor as memórias em imagens impressas. 

Os contatos entre os dois foram a base da narrativa, relatada em primeira pessoa. Houve uma apropriação consentida das memórias do amigo, pautadas nas conversas comuns. 

                                                          ***

Guibert explica que foram vários os contatos até que as palavras dele se vertessem na história em quadrinhos. O resultado ora se aproximava mais das memórias, ora menos.

"Algumas vezes meus desenhos guardavam uma vaga semelhança com o que ele havia vivido; o ambiente ou as pessoas não eram representações da realidade", diz no prefácio.

"Outras vezes, ele ficava admirado que uma cena que ele havia descrito para mim apenas em linhas gerais se encaixava até nos mínimos detalhes com suas lembranças."

Segundo o desenhista, Cope gostou do resultado "em todos os casos". Menos na terceira e última parte, feita postumamente, com base nos relatos já colhidos.

                                                         ***

Um dos recursos usados pelo artista francês para contornar a falta de precisão foi optar por cenários de fundo completamente brancos - durante o dia - ou pretos - à noite.

Guibert já havia se valido da estratégia em outro relato real levado para os quadrinhos: a experiência de Didier Lefèvre no Afeganistão, narradas nos três álbuns de "O Fotógrafo".

O trabalho, no entanto, tinha o diferencial de se pautar nas imagens tiradas por Lefèvre. Em "Guerra de Alan", houve um menor detalhamento visual, mas é nítido o esforço de pesquisa.

As memórias de Cope são o ponto central do álbum. Mas o sabor do relato só é conseguido graças ao eficiente tempero narrativo de Guibert. A arte dele cresce o passado do amigo.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 20h00
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Uma tira do dia que merece registro

 

Macanudo, de Liniers. Crédito: versão on-line da Folha de S.Paulo

 

Da série "Macanudo", de Liniers, na edição desta quarta-feira da "Folha de S.Paulo".

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 10h46
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22.11.10

Café Espacial se desliga do Quarto Mundo

 

Café Espacial 7. Crédito: site da revista

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do último número da revista independente, lançado em setembro deste ano 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os responsáveis pela revista "Café Espacial" decidiram se desligar do Quarto Mundo, grupo que reúne quadrinistas independentes de todo o país.

Segundo Sergio Chaves, um dos editores da publicação paulista, dois motivos pautaram a decisão: a migração para outros projetos e a falta de tempo para se dedicarem ao grupo. 

Com sete obras publicadas e mais uma programada para dezembro, a revista era um dos títulos de maior visibilidade do Quarto Mundo.

A "Café Espacial" venceu nos dois últimos anos o Troféu HQMix - principal premiação de quadrinhos do país - na categoria melhor publicação independente de grupo.

                                                         ***

É a segunda revista de destaque a se desligar do Quarto Mundo no prazo de um ano. Os autores mineiros da "Graffiti 76% Quadrinhos" deixaram o grupo em dezembro de 2009.

Os motivos da saída foram diferenças quanto ao modo de funcionamento do grupo. O modelo defendido pela Graffiti era o de uma profissionalização do setor.

A equipe via no molde adotado mais quantidade que qualidade. O Quarto Mundo soma hoje um dos maiores catálogos de publicações autorais do país.

Nesta entrevista ao blog, feita por e-mail, Sergio Chaves detalha os motivos que fizeram com que ele e Lídia Basoli, também editora da "Café Espacial", saíssem do Quarto Mundo.

                                                          ***

Blog - Por que a opção de se desligar do Quarto Mundo?
Sergio Chaves
- A decisão foi tomada para que possamos nos dedicar aos projetos editoriais da Café Espacial. Isso nos tomará muito do nosso tempo disponível (pois a produção da Café Espcial é feita, como todo ou quase todo quadrinhista independente, nas nossas horas de folga). O principal motivo, e quase que exclusivo, é a nossa pouca disponibilidade de tempo para acrescentarmos ao coletivo. O tempo está ficando cada vez mais escasso, e isso faria com que nosso rendimento dentro do coletivo diminuísse consideravelmente - o que seria injusto e intolerável por nós mesmo, por se tratar de um coletivo. A decisão que tomamos foi justamente para o desenvolvimento dos novos projetos editoriais da Café Espacial, que seguirá para outras áreas além dos quadrinhos também. Daí a decisão.

Blog - Vocês comentam no blog da revista que estariam de olho em novos projetos editoriais? Quais são eles?
Chaves
- Neste mês, em comemoração aos três anos da revista Café Espacial, demos início à publicação de nosso informativo, intitulado "Expresso Café Espacial" - que surge com a intenção de complementar o trabalho realizado com a revista impressa. Ainda neste ano, daremos início à nossa série de cartões postais, de sketchbooks e uma nova série de buttons - além do lançamento da nossa oitavaª edição, pra dezembro. E, para 2011, a continuidade de tudo isso e muito mais.
 
Blog - Os colegas da Graffiti, de Minas Gerais, também se desvincularam do coletivo. Vocês são o segundo grupo de destaque do grupo a se desligar. Há algum problema interno que impeça a individualidade de cada equipe ou que eventualmente barre o crescimento?
Chaves
- Desconheço a motivação do pessoal da Graffitti, visto que não presenciei nenhuma tentativa direta deles em possíveis melhorias dentro do coletivo antes mesmo de sua saída, então não poderei comparar. Mas, como disse, nossa motivação é exclusivamente para com a Café Espacial, e não tenho crítica ou reclamação alguma ao Quarto Mundo. Pelo contrário, nós devemos muito ao coletivo, pois sem ele não teríamos chegado aonde chegamos. Vejo no Quarto Mundo uma maneira de que as pessoas possam publicar e falar quadrinhos, divulgar sua produção etc. E, dentro do coletivo, cada autor tem total autonomia para sua própria produção. Não há barreiras, limitações ou empecilhos por parte do coletivo. O Quarto Mundo nunca interferiu na linha editorial de ninguém, nunca barrou ou limitou a produção de ninguém. Na verdade, o coletivo abre as portas para muitos autores, é um caminho superimportante para o quadrinhista. E, por se tratar de um coletivo, é necessário o quadrinhista pôr a mão na massa e trabalhar também, se movimentar, e não ficar esperando que alguém trabalhe por ele. Você pode perceber que quem reclama demais é quem menos se importa, menos se envolve. É muito fácil reclamar disso ou daquilo, mas o Quarto Mundo é o melhor exemplo de que a melhor resposta é produzir e fazer acontecer. E tem feito muito bem. Fico feliz por ter participado do coletivo desde o início, mas nossa decisão foi, como disse, para nos dedicarmos a outros caminhos.
 
Blog - Quais os planos para a Café Espacial para 2011?
Chaves
-
A próxima edição, a de número oito, será lançada em dezembro, cumprindo nosso cronograma de lançar três edições no ano (até o ano passado eram duas, apenas). Em 2011, desejamos lançar três edições (o que não será tarefa fácil se não fecharmos anunciantes, sabemos bem), três a quatro informativos (no mínimo), e formalizaremos nossas produções com a criação de uma associação homônima à revista em circulação, visando profissionalizar nossa atividade e ampliar nossas possibilidades. Para o próximo ano, temos alguns projetos engatilhados, não só de quadrinhos, mas ainda é cedo para divulgarmos.

Categoria: ENTREVISTA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h10
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21.11.10

Registros rápidos

 

Nos cinemas e nas bancas

 

Red - Aposentados e Perigosos. Crédito: editora Panini

 

 

 

 

 

 

 


Capa de "Red - Aposentados e Perigosos", série em quadrinhos que serviu de base para a adaptação cinematográfica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os cinemas e as bancas exibiram nesta semana "Red - Aposentados e Perigosos". A obra em quadrinhos, base do filme homônimo, foi publicada em 2003, nos Estados Unidos. A edição nacional, até então inédita, reúne as três partes da minissérie, escrita por Warren Ellis e desenhada por Cully Hamner (Panini; 76 págs.; R$ 7,90).

Morte de novo

A Panini anunciou o segundo volume de "A Morte do Superman" (400 págs.; R$ 87) - o primeiro havia sido publicado no ano passado. A obra mostra o desfecho da história sobre a morte e o retorno do Homem de Aço, lançada na década de 1990. A editora incluiu o álbum, produzido em capa dura, entre os lançamentos deste mês de novembro.

Magias no papel

A série virtual "Magias e Barbaridades" vai ser publicada em papel. A informação foi dada pelo autor das tiras, Fabio Ciccone, via Twitter. Segundo o desenhista, a obra será publicada por conta própria e  vai ser vendida por meio da internet.

Tiras de Letra

"Tiras de Letra Nota Dez", novo livro da coleção de tiras, será finalizado nesta semana. A organização, uma vez mais, é do desenhista e professor universitário Mário Mastrotti. A obra da editora Virgo reúne trabalhos de 27 autores de todo o país.

Amor felino

Uma discussão sobre amor e gatos. É esse o mote de "Felinos", revista independente que começou a ser vendida neste mês (16 págs., R$ 3). A história foi escrita por Ricardo Vibranovski e desenhada por Anderson B. A obra é vendida via e-mail: contato.andersonb@gmail.com (é acrescido o valor da postagem).

Volta das assinaturas

A Editora Abril voltou a fazer assinaturas das revistas Disney. O pacote inclui "Pato Donald", "Zé Carioca", "Mickey" e "Tio Patinhas" e pode ser feito pelos prazos de um ou dois anos. Neste mês, a editora lançou duas novas revistas da franquia: "Pura Risada com o Mickey" (64 págs., R$ 7,95) e "Minnie Pocket Love" (160 págs, R$ 7,95).

Metade do preço

A 12ª Festa do Livro da USP ocorre nesta semana. Participam 133 editoras, inclusive algumas de quadrinhos, como Conrad, Via Lettera, L&PM e Companhia das Letras. Todas têm de vender os produtos com pelo menos 50% de desconto.  A feira será nos dias 24, 25 e 26, das 9h às 21h, no prédio da História e Geografia da USP.

Garotas do Alceu

O jornalista e pesquisador Gonçalo Junior lança nesta segunda-feira, às 19h30, uma nova edição de "Alceu Penna e as Garotas do Brasil" (Amarilys; 318 págs., R$ 49). Os autógrafos serão na Livraria Cultura do Bourbon Shopping, em São Paulo. A primeira edição do livro havia sido publicada pelo Cluq (Clube dos Quadrinhos), em 2004.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 17h04
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20.11.10

Negro foi mal representado nos quadrinhos, segundo pesquisa

 

Nhô Quim, de Angelo Agostini

 


Mais de 200 cidades brasileiras celebram neste 20 de novembro o Dia da Consciência Negra, data criada para discutir o papel do negro na sociedade brasileira.

Esse papel se refletiu também nas histórias em quadrinhos, como mostra um doutorado desenvolvido na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

O estudo, feito pelo pesquisador Nobu Chinen, releva que o negro historicamente foi muito mal representado na produção nacional.

"Qualitativamente, os personagens eram quase sempre estereotipados e ocupavam papéis de pouco destaque. Quantitativamente, sempre foram muito poucos", diz.

                                                         ***

Segundo o mapeamento de Chinen, a primeira aparição de um negro nos quadrinhos brasileiros foi em "As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte".

Criada pelo ítalo-brasileiro Angelo Agostini, em 1869, a história trazia um negro como auxiliar do protagonista (imagem mostrada no início desta postagem).

Na primeira metade do século 20, outros nomes importantes se incorporariam ao rol de personagens negros: Lamparina, de J. Carlos, Azeitona, de Luiz Sá, o Gibi, da Globo.

Na leitura de Chinen, o cenário estereotipado vem mudando nos últimos anos. Mas ainda é pouco, se comparada proporção entre personagens assim e a população negra do país.

                                                         ***

A ideia da pesquisa surgiu em 2005, durante um curso sobre quadrinhos que Chinen fez na Gibiteca Henfil, no Centro Cultural São Paulo.

Inicialmente, tinha um pouco de receio de enfrentar o estudo. O medo é que uma abordagem mais séria sobre a área nublasse o prazer da leitura descompromissada.

O tema falou mais alto e se tornou um mestrado. Na qualificação, etapa que antecede a defesa do estudo, a banca sugeriu tornar a pesquisa num doutorado, e não num mestrado.

Assim foi feito. Desde junho do ano passado, vem finalizando a investigação do doutorado. A programação dele é defender até o final deste ano.

 

Gibi

 

Paulistano descendente de japoneses, Nobu Chinen trabalhou muito tempo na área de publicidade, sua formação universitária. Hoje, é professor universitário e redator.

Tem também uma atuação destacada nos bastidores de projetos editorias e de eventos sobre quadrinhos - é um dos integrantes da comissão organizadora do Troféu HQMix.

Nesta entrevista ao blog, o pesquisador, de 49 anos, antecipa as conclusões do estudo que tem feito na Universidade de São Paulo.

A conversa começa justamente com a reflexão proposta neste Dia da Consciência Negra, a forma como os negros foram tratados na sociedade brasileira.

                                                          ***

Blog - Como o negro foi - e ainda é - representado nos quadrinhos brasileiros?
Nobu Chinen
-
Como na totalidade das manifestações artísticas e culturais, o negro era representado como alguém inferior, boçalizado, ocupando funções socialmente pouco valorizadas. Invariavelmente era o serviçal, o menino de recados, o ajudante. Temos como exemplos do início do século 20 o Benjamin, criado por José Loureiro para a revista O Tico-tico; e Lamparina, do J. Carlos. Nas poucas vezes em que era protagonista de uma série, o negro ocupava os papéis nos quais lhe era permitido se destacar, como nos esportes. No aspecto gráfico-visual, também predominava uma estilização grotesca, estereotipada. Os lábios exagerados, os olhos esbugalhados e expressões simiescas. Aqui é preciso fazer uma ressalva e, como pesquisador, sinto que é uma arena delicada porque muitos quadrinhos, como expressão do humor gráfico, têm por característica o traço caricatural e exagerado, portanto, é complicado estabelecer o limite entre o que é o cômico e o ofensivo/preconceituoso. Sempre cito como exemplo o famoso trio Reco-reco, Bolão e Azeitona, criado por Luiz Sá, na década de 30 [imagem abaixo]. O autor retrata seus três personagens de forma exagerada e em situações que os mandamentos do politicamente correto certamente condenariam. Mas não vejo um preconceito específico contra um ou outro grupo social. O Luiz Sá esculachava todo mundo sem distinção.     

 


 

Azeitona, Reco-Reco e Bolão, de Luiz Sá



 
 

 

Blog - Houve, ao longo das décadas, alguma mudança nessa caracterização?
Chinen
-
Meu trabalho defende, justamente, que sim. Ocorreu uma evolução significativa na maneira como o negro vem sendo representado nos quadrinhos. Tomei como base um trabalho muito interessante, o livro "Black Image in the Comics", de Fredrick Strömberg, que aborda essa trajetória, transpondo, naturalmente, para a realidade brasileira. Tenho a sorte de viver em um momento privilegiado nesse aspecto. Nos últimos anos, foram publicadas várias histórias em quadrinhos que trazem negros como protagonistas, e posso citar como exemplos a personagem infantil Luana, uma iniciativa de Aroldo Macedo e realizada por vários autores; e Aú, o capoeirista, do Flávio Luiz. Também surgiram trabalhos em quadrinhos que resgatam a participação dos negros em episódios históricos como os álbuns "Chibata", de Hemeterio e Olinto Gadelha; "Revolta dos Alfaiates", do Mauricio Pestana; e "Balaiada", de Iramir Araújo, Ronilson Freire e Beto Nicácio. E há vários outros. Se tivesse feito meu projeto há quatro ou cinco anos, quando foi originalmente pensado, teria perdido a chance de incluir boa parte desse precioso material. 

   
 

Blog - Há caracterizações recorrentes na literatura em quadrinhos brasileira, como o escravo, para ficar em um caso. Houve mudanças na forma de representação dessas personagens ao longo do tempo?
Chinen
-
Esse é um ponto interessante porque só é possível fazer juízo de valor de um fenômeno se existe massa crítica. É muito difícil estabelecer se houve uma mudança quando se dispõe de um universo limitado, uma vez que não existiram muitos personagens negros. O que posso dizer é que quase sempre os personagens negros tinham papéis subalternos, de criados e empregados. E isso prevaleceu durante décadas. Tomando como referência a série Nhô Quim, de Angelo Agostini, que muitos estudiosos consideram a primeira história em quadrinhos no Brasil, já na primeira vinheta, de 1869, aparece um personagem negro, o Benedito, que é o criado do Nhô Quim. Isso seria “natural”, considerando que ainda vivíamos na época anterior à abolição. Mas esse padrão se repete nos personagens do início do século 20 e vai se manter até recentemente. É mais ou menos como ocorreu com as telenovelas em que, até poucos anos atrás, os negros só tinham papel de empregados, cozinheiras e motoristas. Felizmente isso mudou muito. 

Blog - Na sua leitura, ocorreram casos de preconceito em relação ao modo como o negro foi representado nos quadrinhos?
Chinen
-
Sem dúvida. Ao relegar o negro a papéis inferiores, como já havia citado, os quadrinhos e a mídia de modo geral também ajudavam a alimentar um sistema discriminatório. Na minha opinião, o exemplo mais chocante é a personagem Lamparina, representada quase como um animal [imagem abaixo]. E olha que eu sou um grande admirador do trabalho do J. Carlos, um dos maiores artistas gráficos que este país já teve. Muitas vezes, para defender casos como esse, usa-se a desculpa de que “mas naquela época era assim que se fazia”. Esse é um sintoma (acho que esse termo é apropriado porque preconceito não deixa de ser um câncer social) do quanto a nossa sociedade é preconceituosa. Numa das disciplinas da pós-graduação, pude conhecer autores que tratam bem dessa questão e um deles alerta que o grande perigo é passarmos a achar natural uma representação nitidamente preconceituosa, disseminada pela classe dominante.  



 

Lamparina, de J. Carlos

 

 

Blog - Há algum personagem mais marcante ao longo dessa trajetória?
Chinen
-
Segundo os estudiosos que pesquisei, o personagem negro mais importante e de maior sucesso foi o Pererê, do Ziraldo. Teve revista própria nos anos 1960, ganhou álbuns de coletâneas em anos posteriores e virou até série de TV com atores. O curioso é que o Pererê simboliza o que chamo de primeiro paradoxo do negro nos quadrinhos brasileiros porque trata-se de uma entidade folclórica, um ser mítico, ainda que as histórias do Ziraldo o tenham humanizado.  Ou seja, o negro já figura pouco nos quadrinhos e quando aparece é um ser que não existe. Apenas para completar: o segundo paradoxo é o Gibi, o mascote que batizou uma publicação que fez tanto sucesso que se tornou sinônimo de revista em quadrinhos, mas que nunca apareceu como personagem. Gibi, etimologicamente, significa menino negro. É importante não confundir esse Gibi com o Giby, o primeiro personagem negro dos quadrinhos brasileiros, criado pelo incansável J. Carlos, em 1907. Aparentemente, não existe relação entre um e outro.

 

Blog - O fato de você ser descendente de japoneses - outro grupo étnico, tal qual o negro - tem alguma relação com o tema escolhido para a pesquisa?
Chinen
-
Não. A última coisa que gostaria de dar ao meu trabalho é um caráter político ou ideológico. Não que eu seja contra, pelo contrário, mas não é a minha linha. Já tinha decidido que ia trabalhar com um tema brasileiro e já me incomodavam os dois paradoxos que apontei. Acho que isso já direcionou o meu trabalho. Só que uma coisa que não dá para negar é que se existe uma etnia injustiçada, uma vez que a nossa raça é a humana, são os negros. Fazer um trabalho que permitisse a reflexão sobre essa injustiça já por si, seria um motivo bem legal. A professora Sonia Luyten, uma das primeiras pessoas no mundo a estudar os mangás, disse que enfrentou muitas barreiras porque os japoneses estranhavam uma “gaijin” se dedicando a um tema que pretensamente era deles e me encorajou nesse aspecto. Ela me disse “se uma loira ítalo-brasileira como eu pode estudar mangás, por que um japonês não pode estudar os negros nos quadrinhos?”. Foi um incentivo e tanto.

Categoria: ENTREVISTA

Escrito por PAULO RAMOS às 13h52
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19.11.10

Iraniano e brasileiro vencem 2º Salão BH de Humor

 

Caricatura feita por Jarbas Júnior. Crédito: organização do Salão BH de Humor

 

Caricatura feita pelo brasileiro Jarbas Júnior, que ficou em primeiro lugar no evento

 

 

Cartum de Sajad. Crédito: organização do Salão BH de Humor

 

Desenho do iraniano Sajad, vencedor na categoria cartum do Salão BH de Humor

 

                                                         ***

Um iraniano, Sajad, e um brasileiro, Jarbas Júnior, foram os principais premiados do 2º Salão Internacional de Humor Gráfico de Belo Horizonte.

Os vencedores foram divulgados nesta semana. Cada um vai receber R$ 10 mil em dinheiro pela premiação.

Os desenhos deles ficaram em primeiro lugar nas duas categorias do evento de humor, cartum temático - sobre trânsito e transporte - e caricatura.

Os segundos e terceiros lugares nas categorias irão receber, respectivamente, R$ 3 mil e R$ 1 mil. Os demais trabalhos premiados podem ser vistos a seguir.

                                                         ***

 

2º lugar - caricatura

 

2º lugar caricatura - Frata Soares - Brasil

 

3º lugar caricatura

 

3º lugar caricatura - André Leão - Brasil

 

2º lugar cartum

 

2º lugar cartum - Elias Monteiro - Brasil

 

3º lugar cartum

 

3º lugar cartum - Ba Biling - China

 

                                                          ***

O 2º Salão Internacional de Humor Gráfico de Belo Horizonte é promovido pela Fundação Municipal de Cultura e pela Cartuminas (Cartunistas Mineiros Associados).

Os trabalhos selecionados no salão ficarão expostos até 12 de dezembro na Casa do Baile, em Belo Horizonte (avenida Otacílio Negrão de Lima, 751, na Pampulha). 

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h11
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17.11.10

Milo Manara participa de eventos em Santos e São Paulo

 

Trecho de Kama Sutra, de Milo Manara. Crédito: editora Conrad

 

O italiano Milo Manara faz duas paradas paulistas neste meio de semana. Hoje, participa de encontro em Santos, no litoral sul. Nesta quinta-feira, estará em São Paulo.

Em Santos, o desenhista italiano irá às 20h no teatro do Sesc. Em São Paulo, o encontro será na Oficina Cultural Oswald de Andrade, a partir das 19h.

Ele participa de um bate-papo, inaugura uma exposição com trabalhos seus e, na sequência, autografa obras.

A programação paulista encerra a passagem do artista pelo Brasil. Na semana passada, ele participou do Rio Comicon, encontro carioca de quadrinhos e cultura pop.

                                                          ***

Manara é conhecido pelos trabalhos eróticos. Possui um largo catálogo no gênero, a maior parte já publicado e reeditado no Brasil, por diferentes editoras.

O lançamento mais recente, guardado para esta passagem dele pelo país, é "Kama Sutra" (Conrad, 72 págs., R$ 44,90). É de lá a imagem que abre a postagem.

O álbum mostra os desafios que duas amigas têm de enfrentar, provas baseadas no famoso livro sobre comportamento sexual, que intitula a obra em quadrinhos.

"Kama Sutra" é uma nova edição do trabalho de Manara. O álbum já havia sido publicado pela editora gaúcha L&PM em 1998.

                                                          ***

Serviço
Manara em Santos - Quando: hoje (17.11). Horário: 20h. Onde: teatro do Sesc. Endereço: rua Conselheiro Ribas, 136. Quanto: de graça.
Manara em São Paulo - Quando: quinta-feira (18.11). Horário: a partir das 19h. Onde: Oficina Cultural Oswald de Andrade. Endereço: rua Três Rios, 363 (perto da estação Tiradentes do metrô). Quanto: de graça.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 10h39
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16.11.10

Álbum narra cicatrizes físicas e psicológicas do autor

 

Cicatrizes. Crédito: Leya Cult

 

 

 

 

 

 

Obra de David Small mostra infância do desenhista, que foi vítima de um câncer e que, por isso, perdeu a voz 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há um modismo em torno das autobiografias em quadrinhos. Editorialmente, parece ser uma boa aposta. Tais narrativas têm um ar dramático, próprio para chegar a outros públicos.

A tendência tem ganhado corpo no exterior e pautado editoras daqui também, com alguns bons resultados. Caso de "Cicatrizes", lançado neste mês (Leya Cult, 336 págs., R$ 39,90).

O autor, o norte-americano David Small, descreve na obra a infância diferenciada que teve.

Vítima de um câncer no pescoço, passou por uma série de cirurgias que lhe retiraram o tumor e parte das cordas vocais. Sem voz, limitou-se por anos a sussuros para se comunicar.

                                                          ***

O teor da narrativa aproxima o livro a um drama. É o que justifica a escolha certeira do título, no plural. Não se trata apenas da cicatriz física, mas psicológica também.

A superação, segundo o autor descreve no álbum, veio apenas aos 15 anos. Foi quando começou a consultar um psicólogo, que o ajudou a enfrentar seus fantasmas pessoais.

E não foram poucos os traumas. O câncer só foi revelado a ele anos depois da cirurgia. O cisto no pescoço, indicador do mal, foi administrado sem muito cuidado pelos pais.

O pai, especificamente, teve a ver com a moléstia. Outra descoberta tardia, como se revela no final do livro.

                                                          ***

"Cicatrizes" alia o drama pessoal do autor com o entorno familiar. Relação difícil, vivia numa casa em que o diálogo era tímido. Ao contrário dos segredos, eloquentes.

Como em outras obras autobiográficas em quadrinhos, o álbum retoma o que parecer ser um tema recorrente no gênero: a convivência difícil com os pais e com a família.

E também a coragem de expor tais relacionamentos numa narrativa gráfica, técnica que o autor domina muito bem.

A falta de diálogo em casa, por exemplo, é representada pelo silêncio nos quadrinhos, quebrado apenas pelas onomatopeias próprias a cada um dos familiares.

                                                         ***

David Small tem um currículo largo. Divide os quadrinhos com ilustrações de livros, inclusive infantis. Mas "Cicatrizes" é, seguramente, seu trabalho mais pessoal.

A obra foi lançada nos Estados Unidos em 2009. Concorreu neste ano ao Eisner Awards e ao Harvey Awards, dois dos principais prêmios de quadrinhos dos Estados Unidos.

A repercussão no exterior - justificada - reforça a opção de usar o livro para estrear os lançamentos estrangeiros da Leya Cult, parceria entre as editoras Leya e a Barba Negra. 

A editora entrou no mercado de quadrinhos neste segundo semestre e tinha no catálogo, até então, livros de bolso com tiras nacionais - casos de "Vó" e "Mundinho Animal".

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 15h58
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15.11.10

Coletâneas ajudam a entender tiras argentinas

 

Tira de Éden. Crédito: editora Zarabatana

 

 

 

 

 

Tira de "Éden", de Kioskerman, série que teve coletânea lançada no Brasil 

 

 

 

 

 

 

Duas coletâneas, lançadas neste mês, ajudam a entender como é o momento atual de produção de tiras na Argentina, país que ainda tem em Mafalda sua criação mais famosa.

"Éden", de Kioskerman (120 págs., R$ 41), de "Batu", de Tute (96 págs., R$ 33), são frutos dos dois principais meios de circulação de tiras no país vizinho: a internet e os jornais.

Independentemente do local onde foram veiculadas, ambas convergem depois para o papel, na forma de antologias.

São essas antologias que chegam agora ao Brasil, traduzidas pela editora Zarabatana.

                                                          ***

"Éden" é o exemplo mais famoso do eco que uma produção virtual pode causar. Criada para a internet, ganhou repercussão suficiente para migrar para um álbum, lançado lá em 2009.

A página virtual surgiu em 2004 com outra série, "Señor del Kiosko", criada pelo jornalista e desenhista Pablo Holmberg, também conhecido como Kioskerman.

O nome surgiu meio por acaso. Como não podia usar o acento da letra "ñ" no nome do site, Holmberg optou pela palavra "kioskerman" para batizar a página. Colou.

"Naturalmente, ocorreu que as pessoas começassem a me chamar assim. Eu deixei acontecer", explicou no livro "Bienvenido - Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos".

                                                          ***

Holmberg produziu "Señor del Kiosko" até 2006. "Éden" surgiu no mesmo ano e foi produzida até o ano passado. O autor diz gostar desse processo cíclica de séries.

As tiras de "Éden", que agora chegam ao Brasil, são ambientadas numa vila com ares medievais e mágicos. O lugar é comandado pelo Rei do Bosque, um dos personagens fixos.

Apesar da presença dele, as situações mostram outros seres do bosque, como animais falantes, fadas e seres apaixonados. Nem todas as tiras trazem a tradicional piada no fim.

O autor havia anunciado no começo do ano que iria abandonar a página virtual para se dedicar a quadrinhos mais longos. Meses depois, voltou atrás e deu sequência às tiras.

 

Tira de Batu. Crédito: editora Zarabatana

 

"Batu" circula no diário "La Nacion" desde dezembro de 2007, mês em que todas as tiras do jornal passaram a ser nacionais - o periódico já publicava "Macanudo", de Liniers.

A série foi criada por Tute, nome como é conhecido o desenhista Juan Matías Loiseau. Ele é filho do cartunista Caloi, autor de "Clemente", uma das tiras mais famosas da Argentina.

A tira é direcionada ao leitor mais jovem - o que não quer dizer que não possa agradar também os mais velhos.

O personagem-título é um menino, dono de uma larga cabeleira ruiva. O humor é criado em torno das situações diárias vividas por ele, pelo seu cão azul, Tútum, e pelo amigo Boris.

                                                         ***

Muitas das piadas se ancoram em cenas ingênuas, infladas pela imaginação do menino. Uma das cenas recorrentes é a aparição de um monstro imaginário, de quem tem medo.

"Batu" já teve uma segunda coletânea lançada neste ano na Argentina. Ao contrário do Brasil, a reunião em livro é quase uma regra no país para as séries publicadas nos jornais.

O que ajuda muito nesse processo é que as tiras são muito famosas por lá e, por causa do jornal, chegam não só a leitores de quadrinhos. 

As coletâneas costumam ser anuais. Nos últimos anos, as mais famosas têm sido as de "Macanudo", série também publicada no Brasil pela Zarabatana e pela "Folha de S.Paulo".  

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h12
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Falta pouco...

 

Geraldão, de Glauco. Crédito: versão on-line da Folha de S.Paulo

 

"Geraldão", de Glauco, na edição desta segunda-feira do jornal "Folha de S.Paulo".

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 10h53
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13.11.10

Editora lança biografia em quadrinhos de Lula

 

Lula - Luiz Inácio Brasileiro da Silva. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

"Lula - Luiz Inácio Brasileiro da Silva" inaugura coleção sobre personalidades brasileiras 

 

 

 

 

 

 


A trajetória pessoal de Lula, de menino pobre a presidente da república, foi narrada num álbum em quadrinhos, que começou a ser vendido nesta semana em bancas de todo o país.

"Lula - Luiz Inácio Brasileiro da Silva" (Sarandi, 48 págs, R$ 4,95) teve tiragem de 37 mil exemplares e inaugura uma coleção sobre personalidades brasileiras.

Segundo a editora, a proposta é publicar uma média de quatro volumes por ano. Os próximos serão sobre Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Giuseppe Garibaldi.

Este número de estreia foi escrito por Toni Rodrigues e teve a arte do veterano Rodolfo Zalla, argentino que desenhou de tudo um pouco no Brasil, de terror a livros didáticos.

                                                          ***

A obra narra a vida de Lula numa ordem cronológica. Mostra a infância pobre em Garanhuns, em Pernambuco, a migração para São Paulo, os primeiros serviços, o acidente que o levou a perder um dos dedos da mão, a vida sindical, as greves.

O álbum abordou também alguns temas delicados, como a  convivência difícil com o pai e a filha Lurian, fruto de um relacionamento com a enfermeira Míriam Cordeiro.

O assunto Lurian foi explorado à exaustão na eleição presidencial de 1989, ano em que Lula disputou o cargo pela primeira vez. O pleito foi vencido por Fernando Collor de Mello.

O lado político, no entanto, foi pouco aprofundado. As candidaturas presidenciais, a primeira vitória, em 2002, e a reeleição, em 2006, foram resumidas nas três páginas finais.

                                                          ***

A obra termina com uma mensagem de Lula, com data de 10 de agosto deste ano, feita especialmente para a publicação. A presença da carta é destacada, inclusive, na capa.

No texto, ele diz que o álbum em quadrinhos narra "a história anônima de milhões de brasileiros e brasileiras que enfrentam incontáveis adversidades e conseguiram vencer".

O presidente também agradece a todos os que o ajudaram a chegar onde chegou. E finaliza com um ar de fim de mandato.

"Apesar do muito que ainda falta ser feito, vou concluir o mandato com a sensação do dever cumprido", diz.

                                                          ***

A mensagem foi ideia de Lula, segundo a editora. A Sarandi havia enviado a biografia a Brasília com o intuito de conseguir permissão para publicação. Conseguiu a meta e a carta.

"Ele não só não vetou como achou que seria interessante se manifestar na obra", diz Aloma Carvalho, ex-professora e uma das sócias da empresa.

A biografia de Lula é o primeiro trabalho em quadrinhos da Sarandi. A editora tem um catálogo voltado a obras ligadas ao ensino.

"É uma ideia que a há muito tempo nos persegue: incorporar a linguagem dos quadrinhos nos nossos livros didáticos", diz.

                                                          ***

A ideia se tornou real quando Aloma e o sócio, o também ex-professor Francisco Arruda Sampaio, foram contatados pelos autores, com o projeto da coleção.

Segundo ela, também foi dos quadrinistas a proposta de estrear com a biografia de Lula, que já teve a história contada em livro e no filme "Lula, o Filho do Brasil", de Fábio Barreto.

Os próximos volumes terão texto de Toni Rodrigues, mas não serão desenhados necessariamente por Zalla. A ideia é haver um rodízio de autores na arte.

Não é a primeira vez que uma coleção narra a vida de figuras históricas em quadrinhos. O tema já foi objeto de série publicada pela extinta editora Ebal.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 20h36
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11.11.10

Que venham os quadrinhos nacionais

 

Contos e Cantos do Maraska: Pscircodelia. Crédito: editora Devir

 

 

 

 

 

 

Capa de "Contos e Cantos do Maraska - Piscircodelia", um dos quatro álbuns brasileiros lançados pela editora Devir neste mês 

 

 

 

 

 

 

 

A dupla M. Maraska e Ricardo Sasaki lança nesta quinta-feira à noite, em São Paulo, o álbum "Contos e Cantos do Maraska - Pscircodelia".

A obra narra os relatos ficcionais de um palhaço e de sua banda de Maraskas e envolve o lançamento de um CD também, cujas músicas aparecem na publicação.

A ideia multimídia, uma das vencedoras do edital paulista de incentivo à produção de quadrinhos, é apenas um dos trabalhos nacionais que a Devir lançou neste novembro.

A editora paulista concentrou no último mês e meio uma série de títulos produzidos por autores nacionais, que tem nas histórias circenses o lançamento mais recente.

                                                         ***

Na primeira semana do mês, a Devir pôs à venda três outros álbuns. Dois deles - "Zetz" e "Fiapo e La Peña" - são inéditos e dialogam prioritariamente com o leitor juvenil.

"Zetz" (80 págs., R$ 33) foi idealizado pelo quadrinista Marcelo Campos, criador do personagem Quebra-Queixo e mantenedor da academia de desenho Quanta.

A obra traz uma série de histórias curtas sobre os personagens-título. Na primeira, Mel descobre que seu tio e seus primos são todos extraterrestres. Assim como ela.

Cada um é dono de um poder especial. As aventuras seguintes giram em torno do dia-a-dia da trupe, com foco maior em um ou outro super-ser juvenil.

                                                         ***

Com experiência de duas décadas no desenho, Campos desta vez cuidou só do roteiro, dois deles divididos com Marcela Godoy e Artur Fujita. A arte é feita por diferentes autores.

Campos explica no prefácio que a ideia surgiu anos atrás quando pensava uma série animada para a TV Bandeirantes. O projeto não vingou. A história em quadrinhos, sim.

"Sempre tive a consciência de que não queria estruturar nenhuma material denso, ´adulto´, mas sim um que antes de tudo tinha a pretensão de divertir, direcionado para um público mais novo", diz o autor, no prefácio da obra.

"Queria tentar recriar, de certa maneira, o espírito de alguns dos meus cartoons favoritos, sobretudo clássicos como a própria Família Adams."

                                                          ***

Outro álbum que dialoga com o leitor mais jovem é "Fiapo e La Peña", do animador e ilustrador gaúcho Danilo Fonseca (56 págs., R$ 19,90).

Os dois personagens centrais começaram a ser esboçados há uma década e procuram reproduzir - intencionalmente - a ingenuidade das histórias de heróis de décadas passadas.

O investigador latino La Peña foi influenciado pelo visual das animações de Batman. Fiapo, em Ébano, parceiro mirim de "Spirit", série criada na década de 1940 por Will Eisner.

A obra traz seis histórias curtas da dupla. A maior parte trata de temas urbanos, com prioridade para a violência urbana e o abandono de menores (Ébano mora numa Ong).

                                                        ***

O quarto lançamento nacional da Devir deste mês - que não chegou ainda nem na metade - é o relançamento de "Fawcett" (42 págs., R$ 13,50).

O trabalho foi escrito por André Diniz e desenhado pelo veterano Flavio Colin (1930-2002) e havia sido publicado pela primeira vez em 2000 pela Nona Arte, editora de Diniz.

A obra imagina o que teria ocorrido com o inglês Percy Harrison Fawcett durante expedição em selvas brasileiras em 1925. Ele buscava a cidade lendária de Eldorado.

Fawcett nunca retornou da busca. Nem ele nem o filho, que o acompanhava na empreitada. A história fictícia, mas baseada numa premissa real, propõe um desfecho.

                                                         ***

Em outubro, a Devir publicou outros dois álbuns álbuns nacionais: "Cogumelos ao Entardecer" e "Zeladores". Leia mais na postagem de 20.10

                                                         ***
Serviço - Lançamento de "Contos e Cantos do Maraska - Pscircodelia", de M. Maraska e Ricardo Sasaki. Quando: hoje (11.11). Horário: 19h. Onde: Livraria da Vila. Endereço: rua Fradique Coutinho, 915, São Paulo.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 07h48
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09.11.10

Lançamentos marcam programação paralela do Rio Comicon

 

Off Comicon. Crédito: site Ambrosia

 

 

 

 

 

 Cartaz do Off Comicon, evento paralelo à Rio Comicon, encontro de quadrinhos que tem início nesta terça-feira 

 

 

 

 

 

 

 

Os convidados nacionais e internacionais são a principal do Rio Comicon, encontro de quadrinhos que tem início nesta terça-feira no Rio de Janeiro.

Mas a programação de palestras será ladeada por uma agenda farta de lançamentos, tanto de autores brasileiros quanto de fora do país.

As sessões de autógrafos irão ocorrer dentro do evento, realizado na Estação Leopoldina, no centro, como em outros pontos da cidade.

O circuito externo foi organizado por duas livrarias e pelos mantenedores do site "Ambrosia". Batizado de "Off Comicon", terá encontros diários até o próximo domingo.

                                                          ***

O domingo, dia 14, coincide com a data de encerramento do Rio Comicon. Nas duas programações, há lançamentos na pauta.

Dos nacionais, há obras já em circulação nas livrarias e lojas de quadrinhos e outras, que começam a ser vendidas especificamente nesta semana, por conta do evento.

Integram a lista de novidades os independentes "Atelier", de Gabriel Bá e Fábio Moon, e novos números das revistas "Samba" e "Beleléu".

No circuito editorial, há "Candyland", "Nós - Dream Sequence Revisited", de Mario Cau, "O Monstro Souza", de Bruno Azevêdo, "Ninguém Muda Ninguém", de André Dahmer, "Revista Golden Shower", com diferentes autores, e uma parceria entre S. Lobo e Rafael Coutinho.

                                                          ***

Os lançamentos acompanham a presença dos autores brasileiros convidados e que irão integrar as mesas deste Rio Comicon. O mesmo ocorre com quem vem de fora.

A Conrad deixou para lançar no evento o álbum "Kama Sutra", de Milo Manara. O desenhista italiano, conhecido por suas obras eróticas, é um dos destaques.

Outro autor estrangeiro que terá obras lançadas é o francês Killoffer.

Foram traduzidos dois álbuns dele: "676 Aparições de Killoffer", pela editora Barba Negra, e "Quando Tem Que Ser", pela Marca de Fantasia.

                                                         ***

A Rio Comicon ocorre na Estação Leopoldina, no centro do Rio (av. Francisco Bicalho, s/n). A programação de mesas e oficinas pode ser lida no site do encontro.

Para o circuito paralelo do evento, o Off Comicon, a programação pode ser vista no site "Ambrosia", que encabeça o circuito alternativo.

Leia aqui quais são os convidados internacionais do evento. E aqui os nacionais.

                                                         ***

Nota: em encontros assim, é difícil somar todos os lançamentos. Sempre algum fica de fora. Se faltou algum título, agradeço muito se deixar registrado no espaço dos comentários.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 16h43
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08.11.10

HQM prepara retomada da série Os Mortos-Vivos

 

Os Mortos-Vivos: a Melhor Defesa. Crédito: editora HQM

 

 

 

 

 

 

 

Quinto volume da série de terror, "A Melhor Defesa", está programado para dezembro 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A editora HQM programa para dezembro o lançamento do quinto volume de "Os Mortos-Vivos". O álbum trará os números 25 a 30 da série norte-americana de terror.

"A Melhor Defesa", título da obra, marca a retomada da série aqui no Brasil. O último álbum, "Desejos Carnais", havia sido publicado no fim de outubro de 2009.

Segundo a editora, o intervalo de um ano se deveu principalmente a problemas de licenciamento. Problema sanado, a HQM programa acelerar os lançamentos.

A editora trabalha com a ideia de publicar em 2011 pelo menos mais quatro volumes da série, que mostra a resistência de um grupo ao domínio em massa dos mortos-vivos.

                                                          ***

A HQM não poderia escolher hora melhor para retomar as histórias do título, escritas por Robert Kirkman e desenhadas por Charlie Adlard.

A revista foi adaptada para a TV, o que garantiu uma janela muito maior para a série.

Veículos de imprensa brasileiros, que nunca noticiaram o título, deram na última semana um bom destaque para o seriado, que estreou na semana passada no canal a cabo Fox.

Nesta entrevista ao blog, feita por e-mail, o editor-chefe da HQM, Carlos Costa, comenta o que adiou a volta da série e fala dos planos para "Os Mortos-Vivos" em 2011.

                                                          ***

Blog - Por que o intervalo entre um volume e outro foi tão largo?
Carlos Costa
- Devido a diversos motivos. Um dos mais graves foi a mudança de licenciante, que desde que a série está conosco, já mudou por seis vezes. No ano passado, por exemplo, vários títulos da Image [editora que publica a série nos Estados Unidos] estavam sob responsabilidade da editora francesa Delcourt, que atrasou bastante as negociações. Agora, desde o anúncio do seriado, todo o material do Robert Kirkman está com um novo licenciante, normalizando toda a situação. A partir deste quinto volume, diminuiremos consideravelmente o prazo de lançamento de uma edição para outra.


Blog - Com a série, a editora espera uma nova janela de visibilidade para os álbuns?
Costa
- Com certeza. A estreia do seriado alavancou as vendas dos álbuns já lançados. O volume um, por exemplo, que continua nas comic shops, livrarias e lojas virtuais, chegará novamente às bancas ainda este mês devido à estreia da adaptação televisiva.

Blog - O empurrão comercial dado pelo seriado vai mudar os planos para a série em 2011? Vai haver outros álbuns?
Costa
- Sim, vai haver. Para 2011, já estão programados quatro volumes da série. Dependendo das vendas, poderão sair mais volumes ainda em 2011, fora os quatro programados (volumes 6, 7, 8 e 9).

                                                         ***

Leia resenhas do blog das edições anteriores da série: volume 2, volume 3 e volume 4.

Categoria: ENTREVISTA

Escrito por PAULO RAMOS às 17h15
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05.11.10

Registros rápidos

 

Reedição estrangeira

 

Preacher - Às Portas do Inferno. Crédito: editora Panini

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Preacher - Às Portas do Inferno", oitavo encadernado da série, programado para este mês

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O oitavo volume de "Preacher" está programado para este mês, segundo o site da Panini dedicado aos títulos da Vertigo (selo adulto da DC Comics). O álbum será em capa dura. O preço não foi informado. As histórias de "Preacher - Às Portas do Inferno" já haviam sido lançadas pela Brainstore. O nono volume encerra a série. O desfecho é inédito no Brasil.

Reedição nacional 

Começa a chegar às lojas de quadrinhos neste finzinho de semana o livro "Fawcett" (R$ 13,50), de André Diniz e Flavio Colin (1930-2002). A história se passa nas selvas brasileiras da década de 1920. A primeira edição havia sido publicada pelo selo Nona Arte.

História em charges

Santiago lança nesta sexta-feira, às 19h30, o livro "Retroscópio". A obra da L&PM mostra fatos dos últimos 40 anos resumidos em charges. A sessão de autógrafos será na 56ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Homenagem a Seto

Um festival de cultura nipo-brasileira, em Curitiba, vai homenagear o quadrinista Claudio Seto, morto em novembro de 2008. A memória do desenhista será marcada em diferentes momentos do evento, que ocorre neste sábado e domingo, das 11h às 21h, na Praça do Japão (av. Sete de Setembro, sem número). Seto foi o pioneiro dos mangás no Brasil.

Quadrinhos com desconto

A loja da Devir, em São Paulo, faz nesta sexta e sábado uma promoção de venda de quadrinhos - e RPGs - com 40% de desconto (em 2009, eram 50%). A loja de quadrinhos fica na rua Teodureto Souto, 642, e fica aberta das 9h30 às 19h30.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 09h10
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04.11.10

Memória de Elefante faz reality comic autobiográfico

 

Memória de Elefante. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Álbum de Caeto mostra a trajetória do quadrinista e a difícil relação mantida com o pai

 

 

 

 

 

 

 


Associar algo a um reality show pode soar pejorativo, dada a resistência de muitos ao gênero televisivo. Não é o caso e não é esse o ponto que interessa aqui.

O ponto que parece relevante é que tais programas usam a mediação eletrônica - TV, internet - para expor a vida de um grupo de pessoas a uma gama enorme de brasileiros.

Há um quê desse processo em "Memória de Elefante", álbum nacional à venda em livrarias e lojas de quadrinhos (Quadrinhos na Cia., 232 págs., R$ 37,50).

O autor, Caeto, faz uma autobiografia em que expõe muito mais do que a própria vida. Parentes e amigos são mostrados também. Tudo mediado pela linguagem dos quadrinhos.

                                                          ***

Trabalhos autobiográficos em quadrinhos não são algo novo. O fato de haver uma superexposição pessoal e familiar também não.

"Fun Home - Uma Tragicomédia em Família", de Alison Bechdel, já havia se enfronhado na vida da autora e da relação dela com o pai. A obra foi lançada no Brasil em 2007. 

O que há de novo é o fato de o gênero ser explorado por um quadrinista brasileiro, e numa obra de fôlego - a narrativa passa das 200 páginas.

É um realitty comic autobiográfico, feito sem concessões. Tudo está à mostra. Como um selo colado na capa já avisa, a vida de Caeto é assunto "só para adultos". 

                                                         ***

No álbum, o autor rememora fragmentos de suas três décadas de vida. O nível de detalhamento faz jus ao título da obra. O quadrinista, de fato, revela precisão nos fatos.

Caetano Melo dos Santos, real nome do autor, divide a autobiografia em dois momentos bem nítidos. No primeiro, mostra a difícil arte de ser quadrinista e de morar em São Paulo.

Nascido em Assis, no interior paulista, migrou para a capital e passou a depender apenas de si. No processo, criou uma banda e participou do fanzine "Sociedade Radioativa".

Nos bastidores, fazia bicos para ganhar dinheiro e a vida. E gastava muito do que recebia com bebida, vício que o acompanhou por anos, segundo relata.

                                                          ***

O segundo momento autobiográfico talvez seja o ponto nevrálgico da obra: a difícil e distante relação com o pai. Homossexual, o pai contraiu HIV e vivia sozinho no interior paulista.

A temática da relação pai/filho ganha corpo do meio do álbum para o fim, mesmo que o autor não tivesse planejado isso inicialmente.

Caeto dá a entender que construiu o relato sem saber direito o final e que narrava enquanto vivia. Isso fica claro num diálogo com a então namorada, Luana, mostrado na página 142.

Na sequência, reproduzida a seguir, o quadrinista apresenta a ela o esboço do álbum.

                                                          ***

- "Essas são as três primeiras páginas do álbum de quadrinhos que estou escrevendo sobre a minha vida. Acho que vai ter mais de cem páginas", diz Caeto.

- "Legal. Você já escreveu toda a história? Sabe como vai terminar?", pergunta Luana.

- "Não escrevi toda a história, nem sei como vai terminar. As coisas ainda estão acontecendo..."

- "Legal!"

- "Quem sabe você não vira uma personagem do livro?"

                                                          ***

Luana virou personagem. Ela e o entorno das pessoas que conviviam com Caeto. E o pai, promovido a ator coadjuvante ao longo da narrativa, com papel central no poético desfecho.

Embora autobiográfica, parte das situações da obra foi adaptada, até com toques ficcionais, de modo a tornar mais interessante e bem-humorado o relato.

Um caso disso é o cachorro Júlio, mascote que mantinha com o colega de quarto, Ulisses Garcez. Em muitas das passagens, Caeto mostra o que o cão estaria pensando.

Mas isso não fragmenta o pacto narrativo autobiográfico firmado com o leitor. Caeto cumpre a meta de se expor por completo via quadrinhos. E torna sua vida interessante de ser lida.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 16h08
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03.11.10

Por dentro dos sonhos escritos por Neil Gaiman

 

Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman. Crédito: editora Kalaco

 

 

 

 

 

 

Trajetória do escritor é detalhada no livro "Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman", do jornalista Heitor Pitombo 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O chavão seduz dizer que parece que foi ontem a estreia de Sandman no Brasil.

A realidade revela, no entanto, que já faz 21 anos, comemorados neste mês de novembro, que o primeiro número da série começou a ser publicado nas bancas pela editora Globo.

Fato que o livro "Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman" ajuda a (re)lembrar os leitores de ontem e a apresentar à nova geração de hoje (Kalaco, 192 págs. R$ 39).

A obra, escrita pelo jornalista Heitor Pitombo, começou a ser vendida no mês passado nas lojas de quadrinhos e tem lançamento agendado para esta quinta-feira, no Rio de Janeiro.

                                                         ***

Pitombo teve o primeiro contato com os roteiros de Neil Gaiman também em 1989, mas poucos meses antes do número inaugural da série no Brasil.

Foi via "Orquídea Negra", minissérie publicada naquele ano também pela Globo. O jornalista se somou aos vários leitores que passaram a apreciar os textos do escritor.

Embora Gaiman tenha migrado para os romances e os livros infantis - caso de "Coraline", já adaptado para o cinema -, Sandman ainda é sua obra mais lembrada.

Durante participação na Festa Literária Internacional de Parati, no Rio de Janeiro, sua produção literária foi ofuscada por filas enormes de fãs das histórias do mestre dos sonhos.

                                                         ***

A produção de Gaiman é ampla e diversificada. A maior parte dela já foi traduzida para o português, por mais de uma editora. Sandman, o carro-chefe, já teve mais de uma edição.

Pitombo recupera todas elas no livro, inclusive as inéditas. O destaque, claro, é para Sandman, da norte-americana DC Comics, a mesma de Batman e Super-Homem.

Ele faz também uma análise da trajetória de Gaiman e traz uma entrevista com ele, feita em visita ao Brasil em 2001, cinco anos após ele encerrar a série com o mestre dos sonhos.

Nesta entrevista, feita por e-mail, o jornalista carioca, de 46 anos, diz o que o levou a escrever o livro e faz uma análise sobre o papel de Neil Gaiman nos quadrinhos.

                                                          ***

Blog - Por que um livro sobre a obra de Neil Gaiman, em particular Sandman?
Heitor Pitombo
- Creio que qualquer livro que se escreva sobre quadrinhos no Brasil é procedente, mesmo falando de artistas estrangeiros. Temos uma bibliografia ainda muito limitada no que diz respeito ao tema e penso que qualquer obra que venha a ser lançada é bem-vinda nesse contexto. Resolvi investigar a obra de Neil Gaiman porque já havia começado esse trabalho em outra oportunidade e acho de fundamental importância que a história editorial de autores estrangeiros no nosso país seja levantada e analisada. Ainda mais em se tratando do criador de Sandman, um título que ajudou bastante a renovar o tipo de leitor que hoje se interessa por quadrinhos, não só aqui no Brasil como no resto do planeta.
 
Blog - Quando surgiu a ideia do projeto e quanto tempo demorou para ser finalizada?
Pitombo
- Originalmente, essa pesquisa que fiz sobre a obra de Neil Gaiman não partiu de um projeto pessoal e, sim, de uma encomenda do editor Franco de Rosa, que pretendia lançar uma revista sobre o tema por volta de 2001. Na época, Sandman já era uma série cultuada e poderia render uma publicação com algum potencial de vendas. A tal revista acabou sendo cancelada, o projeto foi refeito e o Franco me encomendou mais textos para uma outra edição. Alguns anos mais tarde, depois de um novo cancelamento, o Franco aventou a possibilidade daquele material dar origem a um livro. Em 2007, eu já tinha o conteúdo de "Entes Perpétuos" basicamente definido e um projeto gráfico criado pelo Laboratório Secreto, do meu amigo Marcelo Martinez. O projeto saiu das mãos do Franco e rodou por diversas editoras. Quis o destino que ele voltasse para as mãos do meu caríssimo editor e se tornasse o primeiro lançamento original da Kalaco Editorial [que é de Franco de Rosa].
 
Blog - A leitura do livro traz várias marcas de que se trata de uma obra direcionada a quem já conhece os personagens da DC Comics e também o trabalho de Gaiman, ou ao menos parte dele. Isso não restringe o livro a um público específico?
Pitombo
- Concordo e discordo. As listas de referência, ao mesmo tempo em que parecem servir de guia apenas para quem aprecia a obra de Gaiman, também orientam quem nunca leu um só gibi que ele tenha escrito. E os textos de análise, a entrevista e os depoimentos dão um apanhado não só dos trabalhos dos artistas focalizados, como abordam suas posturas, seus pontos de vista e seu lado mais humano. Nada que seja voltado, necessariamente, para um público muito específico.
 
Blog - O uso de adjetivações no texto - antológicas, brilhantemente, revolucionário - revela um lado fã em relação ao trabalho de Gaiman. Uma foto sua, no final, com Neil Gaiman reforça essa leitura. O quanto desse fã pautou o livro?
Pitombo
- Acho que o fã esteve presente na vontade que tive de apurar as informações com o máximo de precisão. O livro foi meticulosamente revisado e tenta disponibilizar um conteúdo para ninguém botar defeito. Por outro lado, não tive a preocupação de escrever "a obra definitiva sobre Neil Gaiman" e quis lançar um trabalho mais leve, despretensioso. Meu livro funciona como um almanaque, com todas as suas subdivisões de conteúdo. O espaço para análises mais profundas da obra de Gaiman está, naturalmente, aberto para quem quiser se aventurar.
 
Blog - A entrevista com Neil Gaiman, embora inédita, é de uma passagem dele pelo Brasil em 2001. Houve intenção de atualizar a conversa?
Pitombo
- Acho que a entrevista captura um momento específico da carreira de Gaiman, que eu pude testemunhar in loco, e sua inclusão dentro do livro, da maneira que fiz, faz todo o sentido em se tratando do projeto específico de "Entes Perpétuos". Também considerei que, há alguns anos, a HQ Maniacs lançou o "Passeando com o Rei dos Sonhos", um livro que trazia apenas entrevistas com Neil e vários de seus colaboradores. Por isso, optei por dar ênfase a um outro tipo de conteúdo no meu livro.
 
Blog - Na sua leitura, qual o melhor trabalho dele no seu entender e, olhando em perspectiva, qual foi o papel que o escritor exerceu nos quadrinhos?
Pitombo
- A obra de Gaiman que mais me cativa pessoalmente nunca foi lançada no Brasil. Trata-se de "Signal to Noise", uma série que saiu em capítulos na revista "The Face" e que, depois, foi compilada numa edição encadernada que foi lançada nos Estados Unidos pela [editora] Dark Horse. O texto é de um lirismo ímpar e, na minha modesta opinião, nunca a arte do Dave McKean me pareceu tão deslumbrante quanto nesse trabalho. Gaiman, aliás, é responsável por impor esse tipo particular de lirismo ao quadrinho mainstream norte-americano. Mais do que conterrâneos e contemporâneos como Alan Moore, Jamie Delano ou Garth Ennis, que têm seu quinhão de importância dentro da história recente do quadrinho britânico, ele soube colocar um elemento feminino em seus roteiros, a ponto de chamar a atenção do "sexo frágil" para uma cultura que, em grande parte, só diz respeito aos homens.
 
Blog - Há algum outro projeto de livro em pauta?
Pitombo
- Claro que sim, mas prefiro não entrar em detalhes...

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman". Quando: quinta-feira (04.11). Horário: 20h. Onde: livraria Baratos da Ribeiro. Endereço: rua Barata Ribeiro, 354, loja D, Rio de Janeiro. Quanto: R$ 39.

Categoria: ENTREVISTA

Escrito por PAULO RAMOS às 18h50
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02.11.10

Mulher lê quadrinhos, sim, senhor

 

Logo do site Lday´s Comics. Crédito: Lu Cafaggi

 

Há um discurso que sempre rodeou os quadrinhos aqui no Brasil, o de que essa forma de arte seria mais lida pelos homens, e não pelas mulheres. Vivem-se outros tempos.

Na mesma semana em que uma mulher ocupa pela primeira vez a presidência do Brasil, um blog completa dois meses abordando outro tabu: a faceta feminina nos quadrinhos.

A proposta do "Lady´s Comics" é sintetizada logo na página de abertura: "falar das mulheres que estão presentes (ou que já se foram) no universo da Banda Desenhada".

"Viemos pra falar das personagens, das autoras, das desenhistas e do que há de novo feito por Lady´s Comics", finaliza o texto.

                                                          ***

O verbo no plural - "viemos" - evidencia a autoria coletiva da página virtual. É mantida por três mulheres, que têm conseguido manter as postagens com assiduidade.

As postagens e a tarefa de manter o blog no ar. O trio se reúne toda sexta-feira, às 19h, no Shopping Pátio Savassi, em Belo Horizonte, para uma reunião de pauta.

A capital mineira é o epicentro que permitiu o encontro, meio por acaso, entre Luciana Cafaggi, 22, Mariamma Fonseca, 23, e Samanta Coan, 22.

De trajetórias pessoais diferentes, elas se viram unidas por meio do gosto pelos quadrinhos e pelos novos contatos gerados por meio da internet.

                                                         ***

Mariamma tem dois "m" mesmo no nome, o que pacientemente explica a cada pessoa nova que conhece. Não foi diferente na entrevista dada ao blog, num shopping mineiro.

Nascida em Eunápolis, cidade a 60 quilômetros de Porto Seguro, chegou a Belo Horizonte acompanhando o pai. O emprego dele havia levado toda a família à capital de Minas Gerais.

Quando o serviço permitiu o retorno, os pais foram, ela ficou. Formou-se em jornalismo e trabalha hoje como assessora de imprensa. 

A internet é um hobby. Hobby que permitiu o encontro com Samanta no Luluzinha Camp, evento só com autoras de páginas virtuais. Unidas, ironicamente, por um mangá.

                                                          ***

O encontro de internautas sorteou um quadrinho japonês. Duas se interessaram. As duas, claro. Quando surgiu Mariamma teve a ideia do blog, logo se lembrou da colega.

Samanta também veio de outro estado para estudar em Belo Horizonte - nasceu em Criciúma (SC). Está no sexto semestre do curso de Designer Gráfico.

Foi num estágio num site de música que conheceu Lu Cafaggi. Os turnos diferentes faziam com que nunca se vissem. O destino deu um jeitinho: uma tirou a outra num amigo secreto.

Foi esse contato que fez Samanta acionar a então colega de empresa quando perceberam que o blog precisava de uma identidade visual. Tarefa que coube à arte de Lu.

                                                         ***

Lu Cafaggi é a única mineira do trio. Nasceu e mora em Belo Horizonte, onde cursa jornalismo. A vontade de desenhar vem desde pequena, mas ganhou novo fôlego em 2009.

Após assistir ao FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), realizado na capital mineira, ela teve um clique de dar maior visibilidade às suas produções quadrinísticas.

Criou neste ano o blog "Los Pantozelos" e tem posto lá seus quadrinhos. O nome - pantozelos - vem de uma brincadeira de anos atrás, com um colega de escola.

Uma de suas professoras tinha uma perna tão reconchuda que não permitia saber onde terminava a panturrilha e começava o tornozelo. A região foi apelidada de pantozelo.

 

Los Pantozelos. Crédito: Lu Cafaggi

 

Lu herdou o gosto pelos quadrinhos do irmão mais velho, Enzo. Mesmo roteiro seguido pelo outro irmão, Vitor, autor do blog "Punny Parker" e das tiras de "Valente",de "O Globo".

Mônica foi leitura fartamente visitada durante a infância. Dos 9 aos 14 anos, passou por uma fase mangá. Hoje, diversificou os interesses, ecletismo compartilhado com as parceiras.

Mariamma cita a influência das tiras de jornal e do gosto atual pelas graphic novels e pelo jornalismo em quadrinhos. Samanta, pelos mangás e pelas graphic novels eróticas.

Dos gostos de leitura surgem os textos do "Lady´s Comics". As postagens já passaram por Marjane Satrapi, autora de "Persepolis", às garotas desenhadas por Alceu Penna.

                                                          ***

Cada postagem explicita a pesquisa feita antes de o conteúdo ser vertido em palavras. A investigação sobre a área foi um dos motivos para a gênese do blog.

"A gente que explorar uma pauta que a gente não vê", diz Samanta. "Como não tem nada na internet nesse sentido, eu vou pesquisar eu mesma", acrescenta Mariamma.

O dado curioso é que pôr a mulher em foco não significa que a página seja lida e apreciada apenas pelo público feminino. São os homens os donos da maior parte dos comentários.

É Samanta quem dá uma possível explicação. "Hoje, há muita mulher lendo [quadrinhos]. Mas ela não fica comentando muito. Ela guarda para si."

                                                         ***

Guardado para si ou não, acanhado ou não, o trio deixa claro que a experiência pessoal com os quadrinhos é compartilhada com outras leitoras. Falam sobre isso com autoridade.

"Os super-heróis foram feitos para homens. Por isso, acho que as mulheres se sentiram intimidadas", diz Mariamma. "Com tiras, Mônica e Mafalda, houve mais identificação."

"Quando eu comecei a ler a Turma da Mônica, nunca tive a visão de que a mulher não é forte", completa Lu. "Sempre senti os homens e as mulheres do mesmo jeito."

"Os quadrinhos japoneses conseguem criar personagens psicologicamente mais fortes. Acho que isso atrai as mulheres", finaliza Samanta.

                                                           ***

A leitura feminina sobre os quadrinhos ultrapassou os limites da internet. Sete dias depois de criada a página, ela já havia sido mancionada em reportagem do jornal "O Globo".

Hoje, dois meses depois, elas continuam colhendo boas repercussões.

Na semana passada, foram convidadas publicamente durante um debate em Belo Horizonte para participarem do próximo FIQ, no ano que vem.

"Eu sinceramente não sei para onde isso vai. Mas serve como incentivo", diz Mariamma. O recado, pelo menos, já está mais do que dado: mulher lê quadrinhos, sim, senhor.

                                                         ***

Links: "Lady´s Comics" (aqui); "Los Pantozelos", de Lu Cafaggi (aqui).

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 16h18
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