31.12.10

Fim de 2010 foi promissor para quadrinhos independentes

 

Golden Shower 

 

 

 

 

 

Capa da publicação coletiva "Golden Shower", um dos lançamentos alternativos dos dois últimos meses 

 

 

 

 

 

 

 


Este 2010 seria um ano morno de publicações indenpendentes não fossem os dois meses finais do ano. Novembro e dezembro tiveram uma média de três obras novas por semana.

A maior parte dos trabalhos usou a Rio Comicon como base de lançamento dos trabalhos. O encontro de quadrinhos foi realizado na capital fluminense entre 9 e 14 de novembro.

Parte parte são trabalhos individuais ou feitos em parceria. Outra parte são reuniões de trabalhos de diferentes autores.

Como "Golden Shower", lançado no evento carioca.

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O projeto da "Golden Shower" vem desde o primeiro semestre, quando começaram os convites para participação na obra.

A idealizadora da revista, a quadrinista Cynthia B., conseguiu reunir um grupo eclético, de mais de 50 autores.

De nomes conhecidos como Allan Sieber, André Dahmer, Arnaldo Branco e Fabio Zimbres até gente mais nova, como a própria editora, que estuda medicina "nas horas vagas".

No final, ela agradece a todos os que ajudaram a tornar a proposta real. Inclusive quem bancou a revista, "oficialmente patrocinada pelo papai".

                                              ***

Quatro publicações coletivas ganharam novos números nestes últimos dois meses.

O segundo número da revista "Samba" reuniu 25 autores nesta sequência. A obra foi produzida e editada por Lucas Gehre, Gabriel Mesquita e Gabriel Góes.

Outra que chega ao segundo número é "Revista A3 Quadrinhos". A publicação traz nove histórias de ação. Entre os autores está o editor, Matheus Moura.

O projeto foi custeado com verba de incentivo cultural da cidade de Uberlândia (MG). O dinheiro bancaria duas edições. Há intenção para uma terceira, mas nada certo.

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Vai difícil encontrar a "Picabu 4&Meio" nas lojas de quadrinhos. Primeiro pela circulação restrita. Segundo por causa da capa, toda branca, sem até o logo da revista.

A publicação é feita por autores de Porto Alegre (RS). Traz histórias de Rafael Sica, Rodrigo Rosa, Nik Neves, Carlos Ferreira, Fabiano Gummo e outros.

O lançamento mais recente ocorreu neste mês, no interior paulista. Os editores Sergio Chaves e Lídia Basoli puseram encheram a oitava xícara da "Café Espacial".

A capa desta edição é de André Diniz, que assina também duas das histórias. Este foi o primeiro número da revista depois de ela ter se desligado do Quarto Mundo.

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O Quarto Mundo, coletivo que reúne autores independentes de todo o país, somou poucos lançamentos neste ano. O mais recente foi o terceiro número de "Pieces".

A revista traz contos em quadrinhos criados por Mario Cau. O tom das histórias são reflexões sobre relacionamentos, em suas diferentes contextos.

Outros três autores produziram individualmente novas publicações nesse período. André Caliman, de Curitiba, lançou "Rua", reunião de histórias curtas feitas por ele.

Erick Carjes publicou uma segunda edição de "Entidade", sobre os pré-julgamentos de um mendigo. E Pedro Franz lançou em papel uma sequência de suas narrativas virtuais.

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O nome da série de Franz é longo: "Promessas de Amor a Desconhecidos enquanto Espero o Fim do Mundo". O trabalho havia sido um dos destaques independentes de 2009.

Esta segunda parte traz um dos projetos editoriais mais diferenciados do ano: as páginas da revista estão soltas, não foram grampeadas. Cabe ao leitor montar a sequência.

"Ainda que o autor proponha uma ordem para sua leitura, o leitore é livre para reorganizá-las e encontrar, assim, novos textos para estas mesmas lâminas", explica Franz.

Há oito capítulos. As páginas aparecem inseridas em uma capa de papel. A obra foi impressa com verba de estímulo à cultura de Santa Catarina.

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Houve três trabalhos independentes feitos em dupla de novembro para cá. Um deles é "Atelier", dos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon.

A revista conta um pouco do processo de criação da dupla e funciona como um cartão de visitas para a produção deles. Foi escrita em inglês, francês, espanhol e português.

"Felinos", de Ricardo Vibranovski e Anderson B., narra uma história de amor envolvendo pessoas e gatos humanizados.

Outra narrativa sobre relacionamento é a bem-humorada "Drink". De S. Lobo e Rafael Coutinho, foi construída sem palavras. Embora publicada pela Barba Negra, a história de 15 páginas circulou como trabalho alternativo e integra um projeto maior da editora.

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Post postagem (03.01.01, às 12h07): Will, um dos integrantes do Quarto Mundo, faz uma ponderação no espaço dos comentários, logo abaixo, que entendo ser necessário subir para a própria postagem, de modo a dar maior visibilidade ao tema. Segue o comentário:

Preciso registrar que o Quarto Mundo não "somou" tão poucos lançamentos. Como nem todos são noticiados pela mídia especializada, fica-se sem essa referência de onde consultar, o que causa a impressão de falta de lançamentos novos, mas eles estão lá: 2 Camiño di Rato, 2 Café Espacial (eles fizeram parte do coletivo durante a maior parte do ano), JAM, Salomão Ventura, 5 edições do Subterrâneo, Rua, Pieces, Enquanto Isso..., Zine Sindromina, aqui já deu 16. Fora revistas que têm participação de membros do coletivo e que por isso acabam fazendo parte de nosso catálogo. Encaramos como natural essa redução no número de lançamentos por ano, a própria existência do coletivo trouxe novas configurações ao cenário independente, mesmo que alguns não queiram nos dar o crédito, fazendo com que os autores ligados ao movimento também reavaliassem seus projetos e o momento para os lançamentos destes. Sugiro uma entrada no site http://4mundo.com para ficar por dentro. Valeu!!!

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 14h16
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29.12.10

Diversidade marca obras sobre quadrinhos do semestre

 

Maria Erótica e o Clamor do Sexo. Crédito: editora Peixe Grande

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Maria Erótica e o Clamor do Sexo", um dos livros sobre a área publicados nos últimos seis meses 

 

 

 

 

 

 

 

 

Diversidade é a palavra que melhor define as obras sobre quadrinhos publicadas ao longo deste semestre. Nove foram publicadas. A maioria com pouco destaque.

A que conseguiu maior divulgação foi "Maria Erótica e o Clamor do Sexo - Imprensa, Pornografia, Comunismo e Censura na Ditadura Militar 1964/1985" (Peixe Grande; 496 págs.).

A obra foi escrita pelo jornalista Gonçalo Junior, autor de outras investigações sobre o passado editorial brasileiro. Os personagens centrais são Minami Keizi e Cláudio Seto.

Os dois estiveram à frente das editoras Edrel e Grafipar. Ambas publicaram quadrinhos eróticos durante o regime militar. Um deles era "Maria Erótica", que inspirou o título do livro.

                                                         ***

Gonçalo Junior assina também "Alceu Penna e as Garotas do Brasil - Moda e Imprensa - 1933 a 1975" (Manole; 352 págs.). É uma reedição da obra publicada pela CLUQ em 2004.

O livro esmiúça a trajetória profissional do desenhista, conhecido pela trabalho com os modelos femininos que criou para a imprensa. Penna também atuou na área de quadrinhos.

O passado da área é também o tema de "O Quadro nos Quadrinhos", do pesquisador Fabio Luiz carneiro Mourilhe Silva (Multifoco; 294 págs.).

A obra faz uma investigação exaustiva aos trabalhos pioneiros para reconstituir como o quadro se firmou na linguagem e no formato de muitos gêneros dos quadrinhos.

                                                         ***

A Marca de Fantasia publicou três obras sobre quadrinhos entre agosto e este fim de ano. Como as demais do catálogo da editora, o mais amplo do setor, abordam temas plurais.

"O Roteiro nas Histórias em Quadrinhos", de Gian Danton (104 págs.), reúne a experiência do autor no ramo.

"Codinome V - O Herói em V de Vingança" (84 págs.) cumpre o que o título sugere: uma análise da minissérie de Alan Moore e David Lloyd e o impacto dela no gênero super-herói.

Assim como Victor S. Pinheiro, autor do livro, o pesquisador Edgard Guimarães também faz um trabalho ensaístico em "Estudos sobre História em Quadrinhos" (169 págs.). São leituras sobre a narrativa, a linguagem, a metalinguagem, o uso educacional.

                                                         ***

A aplicação didática dos quadrinhos é o tema de outro livro, "Ciência em Quadrinhos - Imagem e Texto em Cartilhas Educativas" (Bagaço; 290 págs.), de Márcia Mendonça.

O trabalho é resultado do doutorado da autora, produzido na Universidade Federal de Recife e premiado com a publicação em um processo seletivo interno.

A pesquisa investigou cartilhas em quadrinhos voltadas à prevenção da Aids e de outras doenças sexualmente transmissíveis.

A conclusão é que a linguagem quadrinizada ajuda a tornar o discurso científico bem menos árido e, por isso, mais acessível ao cidadão comum. Ganha-se clareza na informação.

                                                         ***

Duas outras publicações tangenciam aspectos da área. Os quadrinhos aparecem em dois capítulos de "Fanzines - Autoria, Subjetividade e Invenção de Si" (Edições UFC, 160 págs.).

Um dos artigos é dos professores universitários Elydio dos Santos Neto e Gazy Andraus. Os dois detalham o uso de fanzines autobiográficos em um curso de pós-graduação.

"A Presença do Animê na TV Brasileira" (Laços; 104 págs.) ajuda explicar por que os mangás passaram a ser aceitos no Brasil, após várias tentativas sem sucesso no passado.

A exposição da autora, a jornalista Sandra Monte, mostra que  investimento nos quadrinhos japoneses neste século teve muito a ver com a boa aceitação dos animês da TV.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 19h44
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27.12.10

Bando de Dois é melhor HQ de 2010, segundo jornalistas

 

Bando de Dois, de Danilo Beyruth. Crédito: editora Zarabatana

 

 

 

 

 

 

 

Álbum de Danilo Beyruth ficou em primeiro lugar em duas listas elaboradas 
por profissionais ligados à àrea de quadrinhos 

 

 

 

 

 

 

 

Duas listas de jornalistas especializados em quadrinhos escolheram "Bando de Dois", de Danilo Beyruth, como o melhor trabalho da área publicado no país neste ano.

O álbum nacional aparece nas relações feitas por duas páginas diferentes: a da revista virtual "O Grito!" e o blog "Gibizada", mantido por Telio Navega. A obra mostra a busca de dois cangaceiros pelas pessoas que mataram todo o bando de que faziam parte.

"Notas sobre Gaza", de Joe Sacco, o autobiográfico "Cicatrizes", de David Small, e o nacional "Cachalote", de Daniel Galera e Rafael Coutinho, dividiram as posições de segundo, terceiro e quarto lugares nas duas listas. 

Leia nestes links as relações completas de "O Grito!" e do "Gibizada".

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 13h52
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23.12.10

Governo Dilma mantém quadrinhos no PNBE

O PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) vai manter obras em quadrinhos nos lotes de livros comprados para escolas de todo o país.

O governo federal divulgou nesta semana o edital de seleção das obras. O texto menciona especificamente o interesse por quadrinhos.

Segundo o edital, aceitam-se "livros de imagens e livros e histórias em quadrinhos, dentre os quais se incluem obras clássicas da literatura universal, artisticamente adaptadas ao público dos anos iniciais do ensino fundamental".

O edital usa o mesmo texto para os ensinos médio e educação de jovens e adultos. Muda apenas as palavras finais, adequando à respectiva série.

                                              ***

O programa manteve a tendência de priorizar no texto do edital as adaptações literárias em quadrinhos. Cada compra varia entre 15 mil e 48 mil exemplares.

Na prática, significa que a troca de comando, com a saída de Luiz Inácio Lula da Silva e a entrada de Dilma Roussef na presidência, não alterou a política do PNBE.

O texto está disponível no site do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, que coordena o processo de seleção. O órgão é ligado ao Ministério da Educação.

As editoras têm até o dia 23 de janeiro para fazerem a pré-inscrição das obras. Os títulos selecionados serão distribuídos nas escolas em 2012.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h35
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21.12.10

Destaques de 2010 na área de quadrinhos

O UOL, portal que hospeda este blog, me convidou para elaborar uma lista dos melhores de 2010. Outros dois sites, Gibizada e O Grito!, também me pediram a mesma relação.

A pauta era elencar os dez destaques do ano na área de quadrinhos aqui no Brasil.

Adotei como critério selecionar obras inéditas em papel e, claro, a qualidade do trabalho.

Na minha leitura, os destaques do ano foram estes:

                                                         ***

1. Notas sobre Gaza (Joe Sacco / Quadrinhos da Cia.)

  • Conhecido por fazer grandes reportagens em quadrinhos, Joe Sacco recupera um sangrento confronto ocorrido entre soldados israelenses e civis palestinos na década de 1950. O trabalho híbrido – mescla de jornalismo e quadrinhos – figura entre os principais do autor. (link) 

2. Bando de Dois (Danilo Beyruth / Zarabatana)

  • Estreia bem-sucedida de Danilo Beyruth numa narrativa longa, traz para o Brasil algo comum no exterior: as histórias de ação. Dois cangaceiros têm de recuperar as cabeças decepadas dos demais integrantes do bando para que as vítimas possam descansar em paz no pós-vida. (link)

3. O Fotógrafo – Uma História no Afeganistão (Didier Lefèvre; E. Guibert / Conrad)

  • Terceiro e último volume do registro fotográfico de Didier Lefèvre no Afeganistão. Nesta parte final, ele mostra o perigoso e dramático périplo por que passou para retornar à França. As fotos se mesclam aos quadrinhos na narrativa, diferencial da série francesa, desenhada por Emmanuel Guibert. (link)

4. Kiki de Montparnasse (José-Louis Bocquet; Catel MullerGalera / Record)

  • Biografia da cantora e modelo Kiki de Montparnasse. Mostra a polêmica trajetória dela, da infância à maturidade, do foco das atenções ao quase esquecimento. Álbum premiado na França, teve a edição nacional arranhada pela tradução “cenário” para o trabalho do roteirista José-Louis Bocquet (link).

5. Bonjour (Liniers / Zarabatana)

  • Lançado neste mês de dezembro, reúne as primeiras tiras criadas pelo argentino Liniers. Com temática solta, os temas trabalham de forma bem-humorada cenas do cotidiano e da cultura pop. “Bonjour” deu os primeiros passos para o que seria, anos depois, a série “Macanudo”, também do autor. (link)

6. Cicatrizes (David Small / Leya Cult; Barba Negra)

  • Trabalho autobiográfico, mostra o drama vivido por David Small na infância por conta de um câncer, que comprometeu parte de suas cordas vocais. O problema esconde outra cicatriz, além da física: a difícil relação com os pais. Primeiro álbum estrangeiro da parceria entre Leya e Barba Negra. (link)

7. O Quilombo Orum Aiê (André Diniz / Galera Record)

  • Na Salvador de 1835, três escravos aproveitam uma rebelião para fugir. Eles se unem a um senhor de meia idade, branco, e partem rumo a um quilombo de que ouviram falar, um lugar de paz, sem doenças, guerras e violência. Destaque é o desfecho surpreendente do bom roteiro de André Diniz. (link)

8. Yeshuah – O Círculo Interno o Círculo Externo (Laudo Ferreira Jr. / Devir)

  • Segunda parte da trilogia que mostra a vida de Jesus Cristo baseada em textos apócrifos e canônicos. O álbum mostra a fase adulta dele e o início de seus milagres. É o trabalho mais autoral de Laudo Ferreira Jr., que se consolida como um dos principais quadrinistas brasileiros contemporâneos. (link)

9. SIC (Orlandeli / Conrad)

  • Reunião de tiras em formato maior, tem como diferencial o experimentalismo gráfico e temático feito por Orlandeli. As histórias são construídas como se fossem crônicas feitas em quadrinhos. O talento do autor ajuda a obter resultados bastante interessantes. (link)

10. A Guerra de Alan – As Memórias do Soldado Alan Ingram Cope (Emmanuel Guibert / Zarabatana)

  • Relato gráfico das memórias de Alan Ingram Cope, que atuou como soldado em parte da Segunda Guerra Mundial e depois trocou os Estados Unidos pela Europa. As lembranças são acentuadas pela qualidade do trabalho de Emmanuel Guibert, autor também de “O Fotógrafo”. (link)

                                                         ***

Não são somente dez títulos que resumem a qualidade dos lançamentos do ano.

Há obras que se destacaram em outros aspectos:

  • Projeto editorial: MSP + 50 – Mauricio de Sousa por Mais 50 Artistas (Vários autores / Panini) (link)
  • Reedição estrangeira: Flash Gordon: No Planeta Mongo / No Reino das Cavernas (Alex Raymond / Kalaco) (link)
  • Reedição nacional: As Cobras – Antologia Definitiva (Luis Fernando Verissimo / Objetiva) (link)
  • Edição independente de grupo:  Golden Shower (Diferentes autores)
  • Edição independente de autor: Taxi (Gustavo Duarte) (link)
  • Adaptação literária: Os Sertões – A Luta (Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa) (link)
  • Revelação do ano: João Montanaro (Cócegas no Raciocínio / Folha de S.Paulo)

                                                         ***

As capas e as fichas técnicas das obras podem ser vistas num quadro, elaborado pelos colegas da editoria de Entretenimento do UOL (link).

                                                         ***

Continuo por aqui, mas aproveito para antecipar ao leitor meus votos de um santo Natal, de uma virada de ano de muita paz e de um 2011 realizador.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 17h31
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18.12.10

Um jornalismo - e não o jornalismo - em quadrinhos

 

Notas sobre Gaza. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

Capa de "Notas sobre Gaza", trabalho mais recente de Joe Sacco, autor que constrói reportagens em quadrinhos

 

 

 

 

 

 

 

 

Há um senso comum em torno do trabalho do jornalista e desenhista maltês Joe Sacco. Costuma-se apregoar a ele o surgimento do diálogo entre jornalismo e quadrinhos.

O assunto costuma vir à tona em congressos de comunicação, anualmente em trabalhos de conclusão de curso de jornalismo ou quando há um novo trabalho dele.

É o que ocorre com o lançamento de "Notas sobre Gaza" (Quadrinhos na Cia., 420 págs., R$ 55), reportagem sobre o passado da relação tensa entre israelenses e palestinos.

Sacco, na obra, busca esclarecer um massacre de civis por tropas israelenses na década de 1950. O assunto se resumia, até então, a notas de rodapé nos livros de história.

                                                         ***

"Notas sobre Gaza" é seguramente um dos melhores do autor. Ele se enfronha na região da Faixa de Gaza de hoje para recuperar relatos dos fatos de ontem.

Mescla uma narrativa que transita entre o presente e o passado e que reproduz o estilo de reportar desenvolvido pelo desenhista, radicado nos Estados Unidos.

Para contornar a dificuldade de expor os fatos na linguagem dos quadrinhos, Sacco se torna um dos protagonistas da reportagem.

Os bastidores da apuração se confundem com a matéria em si. Intencional e assumidamente subjetivo, ele impregna a exposição com suas impressões e sentimentos.

                                                          ***

Esse processo de condução da reportagem aproxima o trabalho de alguns gêneros caros ao jornalismo. O mais evidente é a grande reportagem, no caso a narrada no suporte livro.

Outro é o chamado jornalismo gonzo, popularizado pelo norte-americano Hunter Thompson (1937-2005).

Thompson se envolvia a fundo com as fontes da história e contava os fatos da forma mais subjetiva e pessoal possível. Como faz o autor de "Notas sobre Gaza".

O uso da imagem, característica dos quadrinhos, aproxima o jornalismo de Sacco de algumas matérias de TV, em que o repórter se mostra tanto quanto a notícia em si.

                                                         ***

Híbrido de tudo isso, o jornalismo feito por Joe Sacco não deixa de ser inovador. Foi o primeiro a narrar um fato - em quadrinhos - ao longo de páginas e páginas de um livro.

Por estar umbilicalmente vinculado a esse modo de reportar, do qual é o principal representante, costuma-se atribuir a ele o pioneirismo da relação jornalismo e quadrinhos.

Trata-se de um dogma que, de tão reproduzido, adquire ares de fato. Não é. As charges, que para alguns constituem gêneros jornalísticos, já serviriam como contraponto.

A relação entre jornalismo e quadrinhos vem de muito longe. Pelo menos, desde o século 19. Inclusive no Brasil.

                                                         ***

Os jornais brasileiros ainda encontravam um rumo dois séculos atrás. Sabia-se que a caricatura funcionava bem. Delas para as charges foi um passo.

Mas limitar o diálogo entre os dois campos apenas às charges seria outro equívoco. Uma investigação aos jornais da época confirma isso.

Um recurso usado então era o de desenhar os fatos, como uma história em quadrinhos. Um dos que faziam isso era o ítalo-brasileiro Angelo Agostini (1843-1910).

Um exemplo foi quando reproduziu um acidente com um trem. O leitor podia ver, no(s) dia(s) seguinte(s), a cena por meio da representação visual do desenhista.

                                                        ***

Esse método de desenhar cenas persistiu no século 20 e foi (re)descoberto pela imprensa brasileiro nas últimas décadas.

Julgamentos famosos que proíbem a entrada de fotógrafos costumam ser reportados com a presença de um ilustrador do jornal na plateia, pondo no papel os momentos chave.

Casos de crimes ou acidentes também são narrados em quadrinhos.

Os jornais e revistas usaram o recurso à exaustão no crime da menina Isabella Nardoni, assassinada pelo pai e pela madrasta em março de 2008.

                                                         ***

Especialistas na área gráfica, inclusive de outros países, têm recomendado aos jornais o uso da linguagem dos quadrinhos para tornar os fatos mais acessíveis aos olhos do leitor.

Parte da imprensa brasileira tem se valido do recurso nos últimos anos. Sites noticiosos também. Isso, não custa reforçar, é fazer jornalismo em quadrinhos.

O que Joe Sacco faz é um jornalismo em quadrinhos, e não o jornalismo em quadrinhos. Mas ele guarda o mérito de ter popularizado o recurso e a forma de narrar em livro.

Trata-se de um reportar, assumidamente subjetivo. É um molde. Há outros, inclusive no Brasil. São fazeres do jornalismo. No plural mesmo, e não no singular.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 17h21
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16.12.10

Noitada de lançamentos de quadrinhos em São Paulo

 

Os Sertões - A Luta. Crédito: editora Desiderata

 

 

 

 

 

 


Capa de "Os Sertões - A Luta", um dos lançamentos deste sábado à noite na capital paulista 

 

 

 

 

 

 

 

 


Será uma noite eclética. Do circuito editorial ao independente, do roteiro inédito à adaptação, do humor à ação. O que une todos é o dia, o horário e o local do lançamento.

O dia: sábado. O horário: das 18h30 em diante. O local: HQMix Livraria, no centro de São Paulo. Resumindo: será uma noitada de lançamentos de quadrinhos, tudo no mesmo lugar.

Das obras, a mais aguardada é a versão em quadrinhos de "Os Sertões", obra mor de Euclides da Cunha (1866-1909) sobre a Guerra de Canudos.

Os autores - Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa - haviam entregado o trabalho à editora há dois anos. Desde então, o grupo Ediouro tem adiado a edição. Sai agora pela Desiderata.

                                                          ***

"Tiras de Letra Nota 10", como o título sugere, é o décimo livro da série. A marca desta edição é a mesma das anteriores: reunir tiras de 27 autores de diferentes partes do país.

A obra sai pela Editora Virgo e é organizada, uma vez mais, por Mário Mastrotti. A coleção teve início em 2003 e é publicada em sistema de cooperativa entre os participantes.

Outro lançamento traz um título diferenciado: "Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo - Volume 2 - Underground", de Pedro Franz.

O formato também é diferente: traz as folhas soltas. "O leitor é livre para reorganizá-las e encontrar, assim, novos textos para estas mesmas lâminas", registra a obra.

                                                         ***

O primeiro volume do trabalho de Franz foi um dos destaques do circuito independente recente. Se a livraria tiver a edição de estreia, também vale conferir.

O quarto lançamento, na verdade, já está à venda desde o mês passado. Trata-se de um segundo lançamento de "Contos e Cantos do Maraska - Pscircodelia".

De M. Maraska e Ricardo Sasaki, narra os relatos ficcionais de um palhaço e de sua banda de Maraskas. O álbum traz encartado um CD com as músicas que aparecem na obra.

O título foi publicado pela Devir e foi um dos dez projetos selecionados em 2009 pelo edital paulista de publicação de histórias em quadrinhos.

                                                          ***

Serviço - Lançamentos de "Os Sertões - A Luta", "Tiras de Letra Nota 10", "Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo - Volume 2 - Underground" e "Contos e Cantos do Maraska - Pscircodelia". Quando: sábado (18.12). Horário: a partir das 18h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 23h12
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15.12.10

Bonjour: a descoberta das primeiras tiras de Liniers

 

Bonjour, de Liniers. Crédito: editora Zarabatana

 


No princípio, era "Bonjour". Depois, veio "Macanudo". No Brasil, ocorreu o inverso. Primeiro os leitores daqui conheceram a série argentina "Macanudo". E , só agora, "Bonjour".

A coletânea traz as primeiras tiras feitas por Liniers e já está à venda em lojas especializadas em quadrinhos (Zarabatana, 128 págs., R$ 51).

O "bom dia" gráfico era lido logo cedo pelos argentinos no suplemento "No", que circulava uma vez por semana no jornal "Página/12", de Buenos Aires.

A estreia, em setembro de 1999, mostrava um homem especializado em fazer traduções de filmes. O inusitado eram os nomes que escolhia, pouco fieis aos originais.

                                                           ***

A tira inicial já dava o tom de como seria "Bonjour". Ao contrário da maioria das séries argentinas de então, não trazia personagens regulares. Havia uma situação nova a cada vez.

O recurso - novo no país - era acentuado pelo próprio autor, que desenhava a si próprio em algumas das narrativas.

Ele brincava que a piada daquele dia não tinha funcionado e que os dias dele no jornal estariam contados. E estavam mesmo. Mas de uma outra maneira.

Liniers encerrou a série em 27 de junho de 2002. Trocou de casa. Passou a integrar o rol de autores diários do concorrente "La Nacion". Lá, criou "Macanudo". E estourou no país.

                                                         ***

"Macanudo" tem ganhado desde então uma coletânea por ano. Todas, com tiragens altas e vendas fartas. Os últimos números se esgotaram em questão de dias.

O fenômeno Liniers - hoje o quadrinista contemporâneo mais badalado da Argentina - ganhou força com a nova série de tiras. Mas os primeiros ensaios estavam em "Bonjour".

A arte de se autoretratar - ainda não na forma de coelho de óculos -, os pinguins, as aves, os homens de chapéu, as situações cotidianamente surreais. Tudo já aparecia lá.

O diferencial entre as duas séries está em outro aspecto. Há, nesse trabalho inicial, um diálogo mais forte com elementos da cultura pop, dos seriados ao universo musical.

                                                         ***

"Bonjour" ganhou uma coletânea lá, reproduzida fielmente nesta edição nacional, só depois da reunião das primeiras tiras de "Macanudo". Nesse ponto, foi como cá.

Desde 2008, já saíram três livros de "Macanudo", o último neste ano. Todos foram lançados pela Zarabatana. A série é publicada também no jornal "Folha de S.Paulo".

Para quem aprecia o trabalho do desenhista, a curiosidade de "Bonjour" está na (re)descoberta de suas primeiras tiras e dos temas que seriam retomados por ele anos depois.

Quem não conhece a série pode encontrar no livro uma porta de entrada para as criações de Liniers. Algumas das tiras são ainda melhores que as de "Macanudo".

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 23h33
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14.12.10

Abril vai publicar quadrinhos de desenhos da DC

 

Batma - The Brave and the Bold

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa norte-americana de versão em quadrinhos de animação de Batman

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Abril vai publicar revistas baseadas nas animações dos personagens da DC Comics exibidas pelo canal a cabo Cartoon Network.

Segundo a editora, serão quatro revistas: "Superman", "Batman", "Liga da Justiça" e "Jovens Titãs". A programação é lançar as revistas em março do ano que vem.

Os títulos vão ser trimestrais, com 112 páginas, nos mesmo formato das demais revistas infantis da linha Disney - o chamado formatinho.

A informação foi passada pela editora na tarde de hoje, por e-mail. A Abril publicava os heróis regulares da DC até 2002, quando os direitos passaram para a editora Panini.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 21h34
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09.12.10

Uma década de transições na área de quadrinhos no Brasil

A longa estrada dos quadrinhos no Brasil continua sendo percorrida e ainda há muito a ser trilhado. Sabe-se que não é a ideal. Os condutores precisam dirigir com cuidado.

Mas é, sem dúvida, um caminho com menos buracos e curvas que antes, rodado por veículos dos mais diferentes modelos, muitos deles nacionais, uma novidade.  

O cenário do passeio também é mais atraente, mais eclético, diversificado, com mais opções a serem apreciadas.

Para entender como se chegou ao hoje, é necessário olhar para trás e ver com cuidado o rastro de fumaça deixado na estrada dos últimos dez anos. Uma década de transições.

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A trilha dos quadrinhos transitou em diferentes aspectos nesta década inicial de século 21.

Das bancas às livrarias. Do "fim" das bancas para o retorno triunfal a elas. Da Abril e da Globo para a Panini. Das poucas opções editoriais ao surgimento de uma gama de logos.

Das editoras tradicionais à venda delas. Das poucas às muitas pesquisas. Dos super-heróis à esmagadora presença dos mangás. Dos jovens aos adultos.

Da quase ausência dos quadrinhos no ensino para a inclusão em gordas listas governamentais. Do espaço raro na grande mídia para as reportagens recorrentes.

Do comercial ao independente. Do papel para a internet. E da internet de volta para o papel.

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A década começou com um discurso herdado do século anterior, talvez um eco do tal "bug do milênio". Falava-se com convicção do declínio de vendas nas bancas.

Uma aposta disso era a publicação de álbuns pela Via Lettera, Conrad, Opera Graphica e Devir - e outras que se perderam pelo caminho. As obras se distinguiam pelo formato livro.

A Conrad, em particular, construiu um trabalho de formiguinha de convencer livrarias tradicionais a vender os produtos em quadrinhos. O processo, vê-se hoje, foi bem sucedido.

A série Sandman ajudou muito nesse processo. Reeditada em formato de luxo, costumava atrair bons comentários da grande imprensa e chegava aos não leitores da área.

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. A seção de quadrinhos das bancas não morreu. A das livrarias cresceu, em particular a partir de 2006. Em algumas, o aumento anual foi de 30%.

A questão das bancas, vista então em estado comatório, estava muito influenciada pelas publicações de super-heróis, entre as mais comentadas da década final do século 20.

A Editora Abril, que na época detinha os direitos dos principais super-heróis norte-americanos, tentava se reinventar para atingir leitores mais maduros, com maior poder aquisitivo.

Uma das estratégias foi a linha Premium, revistas de mais de 150 páginas, com papel especial e mais caras. Não tiveram o retorno esperado. E antecederam a troca de editora.

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A multinacional Panini tinha força até então no setor de álbuns de figurinhas. Ainda tem, registre-se. A empresa procurou diversificar os investimentos na última década. Funcionou.

O olhar se direcionou para o mercado de quadrinhos. Primeiro, adquiriu os direitos de publicação dos heróis da Marvel, dona de Homem-Aranha, Hulk e X-Men, então na Abril.

Em janeiro de 2002, lançou os primeiros títulos, inicialmente num tamanho maior, depois no chamado formato americano, o mesmo usado hoje. Foi um baque para a Abril.

A editora criada por Victor Civita tentou se reinventar mais uma vez. Radicalizou: relançou as revistas de heróis de que ainda tinha direito no formato infantil. Duraram cinco números.

Em poucos meses, a Panini adquiria os direitos de publicação dos demais heróis da Abril. Super-Homem, Batman e outras criações da DC Comics estrearam ainda no final de 2002.

A mudança abalou a histórica seção de quadrinhos da Abril, que se limitou às tradicionais revistas dos personagens Disney. E, mesmo assim, com sinais de cansaço.

A Panini, ao contrário, passou a engordar os espaços que podia nas bancas. E mirava os outros concorrentes, como a linha infantil da Globo, que publicava a Turma da Mônica.

A multinacional firmou em 2006 contrato com Mauricio de Sousa e tirou da Globo todas as revistas dele. Dois anos depois, a concorrente abandonava os quadrinhos de banca.

Na nova casa, o empresário e desenhista se reinventou editorialmente. Criou produtos para adultos e o fenômeno da década, Turma da Mônica Jovem: 400 mil exemplares por mês.

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Nos últimos anos, a Panini procura ocupar dois outros filões.

Um deles é o dos mangás. Conseguiu, até com um pouco de sorte. Uma das rivais, a Conrad, passou a rarear os títulos.

A Conrad iniciou o século como líder no segmento. Uma das séries, Dragon Ball e sua sequência, Dragon Ball Z, venderam muito, viraram febre. Outros mangás vieram no embalo.

A JBC era, então, a principal concorrente. E permanece nessa posição com o sensível aumento no número de títulos de mangás da Panini. A Conrad ainda não retomou o setor.

Novas entraram na disputa por uma fatia das obras japonesas: HQM, NewPOP, On-Line. Uma das apostas é nos mangás feitos no Brasil.

O outro filão flertado pela Panini são as livrarias. Lançou álbuns de super-heróis, de hoje e de ontem, mirando o leitor mais maduro. A linha adulta da DC, a Vertigo, reforçou a aposta.

A Vertigo, aliás, é um tópico à parte. Custou para se firmar no país. Basta observar um dos títulos, Preacher.

Preacher iniciou o século na extinta Brainstore. A poucos números do fim da série, a revista foi cancelada. Retornou em 2006, na Devir, na forma de álbum. Do início, de novo.

Nova mudança de editora. Passou para a Pixel, tentativa frustrada da Ediouro de ingressar no segmento. No ano passado, foi retomado pela Panini.

Opera Graphica e Pixel, duas das editoras que lançaram o selo adulto, estão entre as que encerraram as atividades nesta década. O mercado de livrarias, ao contrário, ficou.

Se for enumerado um grupo de editoras de quadrinhos, a maioria hoje investe em livrarias. O retorno das vendas é a médio e longo prazo, ao contrário da velocidade das bancas.

Junto com o novo ponto de vendas, veio uma diversidade de títulos adultos, de diferentes países, nunca vista na história deste país, como costuma dizer o presidente Lula.

Estados Unidos e Europa ainda são as principais fontes do material publicado. Mas já começa a haver sinais de diversificação. Um deles são os títulos argentinos, via Zarabatana.

E há o retorno da gaúcha L&PM aos quadrinhos, filão que explorou em 1970 e 80. Primeiro, incluindo coletâneas de tiras na linha de livros de bolso. Depois, tateando outros formatos.

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Outro setor bastante explorado pelas editoras - tradicionais no ramo ou não - são as adaptações literárias, fenômeno que ganhou fôlego nos últimos quatro anos.

O aumento de adaptações está diretamente ligado à compra de quadrinhos pelo governo federal via PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola).

A relação de obras selecionadas passou a incluir a partir de 2006 histórias em quadrinhos, no formato livro. As compras variam entre 15 mil a 40 mil exemplares de cada título.

Para as editoras - que têm tiragens entre mil e dois mil exemplares e que, quando muito, conseguem vender tudo -, ter uma venda gorda dessas é um negócio atraente.

Como o governo tende a enxergar nas adaptações em quadrinhos um caminho para a obra original, foi onde as editoras miraram. Neste 2010, o número beira duas dezenas.

O mercado de adaptações fez com que editoras grandes, que não costumavam investir no setor, passassem a abrir espaço para autores nacionais.

Luiz Gê, Eloar Guazzelli, Rodrigo Rosa, Fábio Moon e Gabriel Bá - premiadíssimos nos EUA -, Edgar Vasques. A lista é longa. Todos passaram pelas adaptações. Mais de uma até.

A transição para trabalhos mais pessoais já começou. Os últimos dois anos em particular tiveram um volume ímpar de narrativas longas nacionais.

Boa parte foi viabilizada por meio de lei de incentivo. Destaque para o edital paulista de produção de quadrinhos, que bancou 20 obras desde 2008 e outras dez para o ano que vem.

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Mais obras nas livrarias fez acordar alguns setores. Um deles foi a chamada grande imprensa. Jornais que costumavam ignorar os quadrinhos passaram a tê-los como pauta.

Na dificuldade de entender a história gráfica, com temática adulta, na forma de quadrinhos, houve ensaios, bem mais de um, de ver no produto uma obra literária.

Essa visão ainda está no ar e reaparece de quando em quando, principalmente em entrevistas feitas com quadrinistas e pesquisadores. Bem-intencionada, é fruto de desinformação.

As idas dos quadrinhos para o cinema também ajudaram. Histórias ignoradas por parte da imprensa ganharam destaque após irem para a tela grande. Watchmen é apenas um caso.

Quem também acordou para o tema foi a academia. Mais pesquisadores conseguiram inserir seus estudos em universidades de todo o país. Muitos ainda enfrentando preconceito.

Números da Universidade de São Paulo ajudam a dar uma dimensão disso.

A quantidade de mestrados e doutorados sobre quadrinhos na instituição, nesta década, foi mais que o dobro de tudo o que se estudou na área na USP durante todo o século 20.

A percepção que se tem é que outros cursos de pós-graduação também passam pelo mesmo processo. Trabalhos de Conclusão de Curso também. Os livros idem.

O jornalista Gonçalo Junior, em particular, elevou a abordagem sobre os quadrinhos a um novo patamar com o livro "Guerra dos Gibis", lançado pela Companhia das Letras.

Outro discurso importado do século passado era sobre o papel da internet. Muito se dizia que a rede mundial iria revolucionar o mercado e a linguagem dos quadrinhos.

A linguagem, um pouco. O mercado, com certeza, a começar pelas vendas de obras via computador e a redução da distância entre autor e editora, encurtada pelo e-mail.

A tecnologia também ajudou a dar uma nova cara à produção independente. Ficou graficamente mais profissional, feita por gente que não espera e faz acontecer, com bons resultados.

Na internet, após tentativas de mesclar quadrinhos com animações, algo na pauta da primeira metade da década, os autores tenderam a voltar aos formatos tradicionais em papel.

Ter um blog para reproduzir trabalhos ou para apresentar produção inédita tornou-se regra entre os quadrinistas. A internet se tornou uma enorme janela, pronta a ser aberta.

O que este ano e o passado parecem sinalizar é que a ida para o computador retorna na publicação em papel. É como um bumerangue. Arremessado, volta ao ponto de origem.

Orlandeli, João Montanaro - descoberto na internet e hoje chargista da "Folha de S.Paulo" -, Estevão Ribeiro e, neste mês, Rafael Sica são alguns exemplos. Relançaram-se em álbum.

Outra tendência parece ser a de priorizar formatos mais curtos na internet, talvez reflexo da leitura mais rápida, acentuada em suportes como celular ou em redes como o Twitter.

As tiras tendem a ser as mais exploradas. Em particular as de humor. As melhores, hoje, estão na internet. Mesmo as dos jornais são depois reproduzidas na rede. Mudança radical.

                                                          ***

Os anos finais desta década dão outro sinal: o de procurar atingir outros públicos leitores, comportamento que a reedição de Sandman pela Conrad já havia explorado e iniciado.

Ter uma mesa de quadrinhos na Festa Literária de Paraty e nela receber Robert Crumb são apenas dois exemplos. Enxerga-se no leitor de livros um leitor de quadrinhos em potencial.

A presença dos quadrinhos nas escolas é outro indício. Constrói-se hoje um novo leitor de quadrinhos. Os frutos disso, se houver, serão percebidos nesta próxima década.

Mas já há um bom resultado: o menino paulista, que venceu nesta semana da Olimpíada de Língua Portuguesa, feita em todo o país.

Fábio venceu com um poema. Ele diz ter criado gosto pela leitura com quadrinhos.

De forma simples, a premiação dá uma resposta tardia, e concreta, a todos os que ainda resistem a enxergar nos quadrinhos uma forma válida de leitura.

Escrito por PAULO RAMOS às 00h55
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Cabra macho, sim, senhor

 

O Cabra. Crédito: editora Papel 2 Texto & Arte

 

 

 

 

 

 

 

Álbum nacional de Flávio Luiz foi impresso em formato gigante e tem lançamento nesta sexta-feira à noite em São Paulo 

 

 

 

 

 

 

 

 


"O sertão vai virar mar, dá no coração, o medo que algum dia o mar também vire sertão. Pois é, virou."

A releitura da música "Sobradinho", da dupla brasileira Sá e Guarabyra, abre o álbum "O Cabra", que tem lançamento nesta sexta-feira, em São Paulo (Papel 2; 56 págs.; R$ 38).

Mais do que isso, a canção dá o tom da narrativa: mais de mil ano no futuro, o deserto toma conta do planeta; água é raridade, um privilégio apenas dos coroneis e do clero.

É aí que surge o Cabra, nome como Severino Crispim dos Santos é conhecido. Com facão e armas a laser, ele tem de enfrentar o coronelado para resgatar a esposa, dada como morta.

                                                         ***

O baiano Flávio Luiz teve a ideia da história a partir de um desenho de cangaceiro, redescoberto na mudança de Salvador para São Paulo, há pouco mais de dois anos.

Para fugir do lugar-comum, arriscou algo novo, o futuro. Foi a base para o álbum, produzido em tamanho gigante, 25 cm por 38 cm, algo raro no mercado brasileiro.

"Acho que pra publicar quadrinhos hoje, você precisa propor algo diferenciado", diz o desenhista de 46 anos, que soma pares de prêmios em salões de humor.

"Estamos competindo com novos formatos ´tecnológicos´ e que agradam mais rapidamente as novas geraçoes, tipo Ipad."

                                                         ***

A decisão de optar pelo formato maior surgiu por acaso, numa conversa na agência de publicadade em que trabalhava.

"Andando pra cima e pra baixo, com as páginas originais de ´O Cabra´, ouvi um amigo perguntar: Vai ser deste tamanho? Aí bateu o clic: e por que não?"

A viabilização do projeto foi simples, já que a obra foi publicada pela editora que ele mantém em parceria com a esposa, Lica de Souza.

"Achamos que, criando nossa própria editora, estaríamos nos profissionalizando mais, cuidando melhor das questões como distribuição, impressão etc."

                                                        ***

A proposta do casal é publicar outros títulos, e não só de Flávio Luiz. O desenhista começou nos quadrinhos de forma independente.

Primeiro, com um álbum de tiras cômicas dos personagens Jab e Rota 66. Depois, com a personagem bombada Jayne Mastodonte, eleito melhor lançamento independente de 1999.

A estreia nas narrativas longas foi com o álbum "O Messias", lançado em 2006 pela pera Graphica. O diferencial do roteiro, do jornalista Gonçalo Jr., é ser uma trama sem palavras.

A segunda incursão no formato álbum foi com "Aú, o Capoerista". Lançado em 2008, foi adotado em escolas e vendeu 7 mil exemplares. Um segundo volume já está em pauta.

                                                         *** 

Serviço - Lançamento de "O Cabra", de Flávio Luiz. Quando: sexta-feira (10.12). Horário: 19h. Onde: Livraria da Vila. Endereço: alameda Lorena, 1.731, Jardim Paulista, São Paulo. Quanto: R$ 38.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 18h30
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08.12.10

Uma tira do dia que merece registro

 

Piratas do Tietê, de Laerte. Crédito: edição on-line da Folha de S.Paulo

 

Bom (re)ver o humor tradicional na série "Piratas do Tietê", de Laerte.

A tira é publicada na edição desta quarta-feira do jornal "Folha de S.Paulo".

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h00
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04.12.10

@Bolinha_dePapel do Twitter era mantido por cartunista

 

Ilustração feita por Custódio especialmente para o blog

 

 

 

 

 


Perfil da rede social foi criado pelo desenhista Custódio e brincava com caso eleitoral envolvendo José Serra 

 

 

 

 

 

 

 


Um cartunista paulista ajudou a acentuar na internet um dos episódios mais polêmicos da última eleição presidencial, o do objeto jogado na cabeça do então candidato José Serra.

O artefato foi arremessado durante comício do tucano em no calçadão de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, no dia 20 de outubro.

As primeiras imagens mostravam Serra com a mão na cabeça e sendo socorrido num hospital, onde fez tomografia. Poucas horas depois, vídeos mostravam outras versões.

Uma delas é que o ex-governador havia sido atingido por uma bolinha de papel. Ficou a dúvida se foi esse o objeto que o teria machucado. A certeza é a polêmica que gerou.

                                                         ***

Em poucas horas, o caso já ecoava no Twitter. Estava entre os assuntos mais abordados do dia - e dos dias seguintes - na rede social.

O tom dos comentários era irônico: como uma bolinha de papel pode machucar tanto? Foi nesse espírito que o cartunista Custódio teve a ideia de criar o perfil @Bolinha_de Papel.

As frases de 140 caracteres - o limite imposto pelo Twitter - brincavam com o caso. Algumas abordavam os fatos eleitorais. Outras procuravam personalizar a tal bolinha.

Algumas delas: "Me amassa que eu gostcho"; "Não sou PT nem PSDB, sou Chamex PH neutro!"; "Aos meus detratores, aviso que meu passado é uma folha em branco".

                                                          ***

O perfil foi criado às 11h da manhã do dia seguinte do caso. Às 15h, já tinha cerca de dois mil seguidores. Foi notícia nos jornais "A Tarde", da Bahia, e "O Globo", do Rio de Janeiro.

"Quando vi o episódio da bolinha de papel, aquele circo todo, me espantou a mise en scene", diz o cartunista paulista, que viu no caso um "teatro armado".

Ele ainda mantém o perfil ativo. Registrava, na tarde deste sábado, 3.376 seguidores, muito mais do que as outras três bolinhas de papel criadas no Twitter, que têm, somadas, 566.

Hoje, a política se tornou apenas um dos temas abordados com humor na rede social. A Bolinha_dePapel brinca também com futebol, fatos internacionais, entretenimento.

                                                         ***

Custódio diz que pretendia votar nulo. O acirramento na disputa - e o caso da bolinha - o levaram a optar. "No 1º turno, votei na Dilma, sem muita convicção. No 2º, foi mais convicto."

"Depois de um presidente totalmente político e populista, uma entidade quase extracorpórea como o Lula, dois candidatos tecnicos seriam ótimas opções. ena que a campanha odiosa estragou a qualidade do debate."

O trabalho em quadrinhos mais recente de Custódio é uma biografia de Anita Garibaldi, obra custeada com verba de incentivo cultural do governo paulista e lançada neste ano.

Nesta entrevista, o desenhista de 43 anos comenta sobre os novos projetos e diz por que decidiu tornar público o perfil. A conversa começa sobre como ele interpretou o caso.

                                                          ***

Blog - No seu entender, houve fingimento ou supervalorização do candidato José Serra no caso?
Custódio
- Evidentemente. Eu tenho parafusos e pinos nas duas pernas por causa do futebol. Já vi um rapaz levar um soco de um goleiro em uma disputa de bola, sair como nariz totalmente deformado e torto, pegar o carro e ir pro hospital sozinho, e de lá pra mesa de cirurgia. Veja, não é um elogio à violência, nem prova de "macheza latina". É mais uma prova do caráter da  pessoa em certas situações adversas. Compare com a outra candidata, sendo torturada por três anos. Ou do vice-presidente José Alencar, que enfrenta situações difíceis com inacreditável galhardia. Ou com alguém que espera um ano pra fazer uma tomografia no SUS (Sistema Único de Saúde). Não calcularam nada disso, quiseram aproveitar uma oportunidade, sem perceber que caíam no ridículo. Fizeram a alegria de quem já via os dilmistas como vândalos selvagens, mas perderam eleitores que esperavam um homem forte e de postura altiva suficiente para comandar a nação. No contraste com esses exemplos, ficou nítido um dilema: ou é um homem frágil fisicamente, que não suporta um tranco de campanha, ou frágil moralmente, que usa disso para faturar. Acredito que o [Geraldo] Alckmin, o [Mário] Covas ou o próprio Fernando Henrique Carodos não seriam capazer daquele teatro. Sob esse aspecto, eles têm mais hombridade. A pesquisa três ou quatro dias depois mostrou a inversão de ascensão do Serra. Não duvido que foi consequência.

Blog - Por que revelar agora que se trata de você no perfil do Twitter?
Custódio
- Na verdade, como piada, ficou velha. Tenho uma quantidade grande de seguidores, gente pensante, pessoas surpreendentes, engraçadas e inteligentes, que me abasteceram de comentários ótimos nesse período. Alguns pediram para o perfil continuar. A tendência é, depois de passada a tensão da eleição, as coisas se afrouxarem e o perfil desparecer. O que fazer? Não sei se sabendo quem é o autor, vão continuar seguindo um twitter mais de humor do que de ataque a tucanos.

Blog - Qual o destino que você pretende dar ao perfil Bolinha_dePapel?
Custódio
- Não tenho muita certeza. São 3.500 seguidores, talvez eu mantenha enquanto eles me aturarem.

Blog - No seu entender, houve algum papel - sem nenhum trocadilho - do perfil criado por você nesse processo eleitoral?
Custódio
- Seria muito pretensioso. Mas a repercussão do caso em si, do qual meu perfil era só uma paródia, acredito que ajudou a cristalizar uma diferença  de votos que diminuía até então. Foi um erro crasso do comando da campanha. Até então minha posição era de quase neutralidade, embora eu tenha uma inclinação para votos mais à esquerda. A campanha era muito baixa. Mas a partir dali me pareceu que havia um lado para qual eu devia pender.
 
Blog - E qual o papel que as redes sociais, em particular o Twitter, exerceram nesse último pleito?
Custódio
- A hastag #serrarojas entrou nos TT mundiais. A #bolinha de papel também, entre outras coisas. Com o acirramento da campanha e a adoção de uma das candidaturas pela imprensa estabelecida, coisa que o próprio Claudio Lembo declarou, as redes sociais abasteceram aqueles que não concordavam com o jeito que a coisa estava sendo expostas pela imprensa. Claro que há extremismos dos dois lados, mas a internet mostrou um poder de reunir blocos e propagar informações (muitas vezes totalmente mentirosas) que deve se tornar mais substancial nos próximos anos. Os palmeirenses já fazem isso com a chamada "Mídia Palestrina", rede de sites e blogs que veiculam noticias do time, que costuma ser  mais maltratado pela mídia esportiva do que os outros dois coirmãos. Por outro lado, o acirramento e a desinformação promovido pela campanha levou à manifestações xonofóbicas logo  no dia seguinte ao pleito. Isso também faz parte das mídias sociais.

Blog - No âmbito dos quadrinhos, quais seus próximos projetos? Anita Garibaldi?
Custódio
- A gente sempre tem vários projetos autorais concomitantes, esperando que um dê certo. No momento estou fazendo um livro sobre empatia e comunicação em parceria com uma psicóloga. São os frilas e os "jobs" que nos sustentam. A segunda parte da Anita é prioridade, mas depende de alguns fatores pra eu ter condições de fazer. 

Categoria: ENTREVISTA

Escrito por PAULO RAMOS às 16h19
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03.12.10

Santos sedia mostra nacional de fanzines

A cidade de Santos, no litoral sul de São Paulo, tem uma tradição de servir de ponto focal para discussões sobre produções autorais, como os fanzines, inclusive de quadrinhos.

O município segue a tradição e inaugura neste sábado, às 18h, a 4ª Mostra Nacional de Fanzines e Publicações Autorais. 

A abertura dá início também a uma programação de debates, oficinas e exibição de filmes, que vai até o próximo dia 12. Amanhã, às 19h30, há mesa sobre o futuro dos quadrinhos.

Integram a mesa Sônia Luyten, Gazy Andraus, Alexandre Barbosa, José Alberto Lovetro, o JAL, Renato Guedes, Celso Menezes e Emílio Baraçal, sob mediação deste jornalista.

                                                          ***

Serviço - Abertura da 4ª Mostra Nacional de Fanzines e Publicações Autorais. Quando: sábado (04.12). Horário: 18h. Onde: Pinacoteca Benedito Calixto. Endereço: av. Bartolomeu de Gusmão, 15, em Santos. Obs.: a programação dos outros dias será na Gibiteca Marcel Rodrigues Paes, no posto 5 da orla da praia. A programação completa pode ser lida no site da mostra.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 20h56
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Mauricio de Sousa: cadeira 24 da Academia Paulista de Letras

 

Mauricio de Sousa durante entrega do Troféu HQmix, em outubro deste ano

 


Mauricio de Sousa passará a ocupar a cadeira de número 24 da Academia Paulista de Letras, feito inédito a um autor de quadrinhos.

A informação foi confirmada pelo próprio desenhista e empresário ontem, via Twitter.

"Sou informado de que fui eleito para a Academia Paulista de Letras. Com 30 votos (de 36). Vivaa!!!", escreveu Mauricio, paulista de Santa Isabel.

A eleição ocorreu ontem. Segundo o site da academia, a inscrição foi feita pelo criador da Turma da Mônica. Ele ocupa a vaga deixada pelo poeta Geraldo de Camargo Vidigal.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h09
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02.12.10

Procuram-se narrativas gráficas nacionais

A editora Barba Negra deu início nesta semana a um concurso para selecionar projetos de narrativas gráficas. O autor da melhor ideia vai receber R$ 20 mil e terá o álbum publicado.

O dinheiro será um adiantamento dos direitos autorais. O ganhador terá direito também a uma exposição em 2011 na segunda edição da Rio Comicon, parceira no concurso.

Outras propostas consideradas interessantes pela editora também serão selecionadas para publicação. Os autores, nesse caso, receberão adiantamento de R$ 5 mil cada um.

As propostas deverão ser entregues com 30 páginas roteirizadas e quatro finalizadas para impressão. O álbum todo deverá ter no mínimo 96 páginas. O envio é até 23 de janeiro.

                                                         ***

"Já foi o tempo em que roteiristas eram artigo de luxo", diz S. Lobo, editor da Barba Negra. "Apostar concurso é poder premiar um bom quadrinho, valorizar o autor."

Lobo soma uma boa experiência com álbuns em quadrinhos nacionais no período em que esteve à frente da Desiderata. O desinteresse da editora pelo setor levou à saída dele.

A Barba Negra entrou no mercado de quadrinhos neste ano, numa parceria com o grupo português Leya. Os primeiros lançamentos ocorreram nos últimos meses.

Os lançamentos de estreia foram quatro livros de bolso de humor, dois deles com tiras. Nesta entrevista, Lobo dá mais detalhes sobre o concurso e os rumos da Barba Negra.

                                                          ***

Blog - Qual a expectativa com o concurso?
S. Lobo
- Nossa expectativa é agitar ainda mais as ondas do mercado de quadrinhos. Vivemos um momento ótimo, existem muitos editais que promovem a criação e produção de quadrinhos, com prêmios maiores e melhores que o nosso. Mas percebemos que muitos dos trabalhos vencedores não têm uma boa performance no mercado, devido à falta de um trabalho editorial em sua gênese. Nossa proposta é fazer diferente, auxiliar o autor durante todo o processo de criação, produção, comercialização e divulgação. Ou seja, além do prêmio, o vencedor tem todo apoio da editora e de um evento das proporções do Rio Comicon.


Blog - Um ponto nas regras não ficou claro e queria uma ajuda. Há um trecho que diz "Os demais vencedores receberão um adiantamento de direitos autorais no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) e um contrato de publicação da obra com a editora Barba Negra, uma editora associada ao Grupo Leya". Quantos serão os "demais vencedores"?
Lobo
- Tantos quantos forem bons ou tantos quantos pudermos pagar.

Blog - Queria entender para onde caminha a editora. Houve livros de bolso nacionais, alguns trabalhos estrangeiros. A prioridade será produções daqui ou estrangeiras no próximo ano?
Lobo
- Neste ano produzimos seis publicações nacionais contra três estrangeiras. O desenhista brasileiro e o mercado brasileiro são a nossa prioridade. Temos, neste exato momento, muitos livros sendo produzidos que serão lançados nos próximos três anos. Como se sabe, a produção de quadrinho autoral é lenta, portanto é necessário fazer um mix com estrangeiros. Mas só acredito em uma editora brasileira que valorize o autor nacional.

Blog - Numa entrevista ao blog em 31 de março, você comentava que a editora iria publicar ainda este ano "Cicatrizes", "Zahra´s Paradise" e os nacionais "A Balada de Johnny Furacão", de Eduardo Felipe, o Sama; "Mix Tape", com a Menina Infinito de Fábio Lyra; um roteiro de Mário Bortolotto; uma adaptação de Plínio Marcos. Apenas o primeiro foi impresso até agora. Qual o destino ou previsão de publicação dos demais?
Lobo - Todos estão em curso, uns mais adiantados que outros, mas todos saem nos próximos dois anos. Exceto "A Balada de  Johnny Furacão", pois o Sama e eu, durante o processo de edição do livro, discordamos quanto alguns pontos do roteiro e decidimos então não levar o projeto adiante.

Blog - Especificamente sobre os álbuns nacionais, o que está em produção além dos já mencionados?
Lobo
- Paulo, temos muitos projetos em andamento, mas não gostaria de comentar agora pra não gerar expectativa quanto ao lançamento.

Blog - Para 2011, quais os planos da editora que já podem ser adiantados?
Lobo
- Lançaremos o "Zumbis - O Livro dos Mortos", do Jamie Russel, e também o "Livro de Receitas do Maravilhoso Mundo de Larica Total" [do programa de TV "Larica Total"].

                                                         ***

Leia mais sobre o regulamento e como enviar as propostas no site da editora Barba Negra.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 14h27
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01.12.10

A volta da genitália desnuda de Geraldão

 

Geraldão, de Glauco. Crédito: versão on-line da Folha de S.Paulo

 


A edição desta quarta-feira do jornal "Folha de S.Paulo" republicou um momento histórico das tiras no Brasil: a exibição da genitália desnuda de Geraldão, de Glauco Villas Boas.

A importância é pelo fato de o personagem aparecer completamente sem roupa na seção de quadrinhos de um dos jornais de maior circulação do país.

A tira cômica foi impressa pela primeira vez na edição de 12 de junho de 1992 e, até onde a vista alcança, foi a primeira vez que isso ocorreu no Brasil.

Mais do que um sinal claro de ousadia, a atitude do autor foi um contundente murro contra a parede da censura militar, que ainda fazia sombra nos meios de comunicação.

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Hoje, fica mais fácil de perceber os passos dados por Glauco no sentido de testar até onde poderia ir com seu personagem drogadito - as drogas já eram outro sinal de ousadia.

Como um malabarista, testava os movimentos para verificar se a liberdade que dividia com Angeli e Laerte nas revistas da Circo Editorial poderia ser aplicada também na imprensa.

Geraldão começou vestido na tira de estreia, em 4 de outubro de 1983. O vestuário, depois, foi reduzido a uma samba-canção, que ele ficava sempre segurando para não cair.

Glauco, por fim, tirou toda a roupa do personagem. A ousadia - porque era uma ousadia, ainda mais num jornal diário - foi contornada com uma tarja preta na genitália.

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O que os leitores da Folha puderam (re)ler nesta quarta-feira é o fim da tarja e o surgimento, enfim, depois de anos, do bimbolover de Geraldão, como o personagem batizou a área.

Hoje, talvez uma tira assim ainda choque os mais conservadores ou os politicamente corretos, entre os quais estão incluídas algumas autoridades ligadas à educação.

Mas, sem dúvida, é algo bem mais comum de se ver, inclusive na grande imprensa. É algo que tem de ser creditado a Glauco na história das tiras e dos quadrinhos no Brasil.

As tiras dele têm sido reeditadas na Folha desde 17 de março deste ano, cinco dias após o assassinato dele em Osasco, na grande São Paulo. 

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Nota: estava marcada para as 19h desta quarta-feira, na Câmara Municipal de São Paulo, uma cerimônia para conceder a Glauco o título póstumo de cidadão paulistano.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 19h29
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Uma tira do dia que merece registro

 

Mundo Monstro, de Adão iturrusgarai. Crédito: edição on-line da Folha de S.Paulo

 

Da série "Mundo Monstro", de Adão Iturrusgarai, na edição de hoje da "Folha de S.Paulo".

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h05
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