31.01.11

Este blog vai virar livro

Divido com o leitor informação que já havia sido antecipada no fim da semana passada pelo colega Telio Navega, no blog "Gibizada".

Parte do conteúdo deste Blog dos Quadrinhos vai ser reunida em um livro. A obra será publicada pela Devir. A conversa com a editora é para lançarmos já nos próximos meses.

O livro seleciona postagens desde abril de 2006, quando esta página virtual foi criada, até janeiro deste ano. Os textos foram divididos por assunto.

Cada capítulo terá um texto de abertura, para contextualizar o tema, e comentários no final das matérias, atualizando as informações e trazendo alguns dados inéditos.

                                                          ***

O livro parte da constatação de que houve uma série de mudanças na área de quadrinhos no Brasil neste século, em particular na segunda metade da década.

Da ida às livrarias à produção virtual. Da ebulição independente às narrativas gráficas nacionais. Das adaptações literárias às listas do governo. Dos heróis aos mangás.

A divisão por temas ajuda a compreender alguns fatos contemporâneos, que apareceram soltos uns dos outros aqui no blog.

As datas das postagens foram mantidas, para ajudar o leitor a entender a evolução cronológica daquele assunto ao longo dos meses e anos.

                                                         ***

O fato de reunir em capítulos ou temas as informações foi um dos argumentos que me convenceram a aceitar o desafio de fazer o livro.

Digo isso porque demorei para me convencer sobre a obra. O primeiro questionamento que me fiz é que o leitor encontraria os textos na internet. Para que, então, vertê-los em papel?

O primeiro contra-argumento que me convenceu foi o da reunião das postagens por tema, como já comentei. Isso ajuda a entender o contexto do assunto.

O segundo argumento foi que o livro seria um documento sobre o atual momento dos quadrinhos no Brasil. Ter dados assim é algo raro no país, embora mais do que necessário.

                                                          ***

Confesso que não tinha ideia das mudanças que iria testemunhar jornalisticamente quando criei o blog em 25 de abril de 2006. Nem que um dia ele seria vertido em livro.

Mas, se há algum mérito na publicação do livro, ele tem de ser dividido com o leitor.

Com comentários no espaço do blog ou por contatos pessoais ou via e-mail, o leitor ajudou a aprimorar os textos veiculados nesta página ao longo dos anos.

Fica aqui o meu agradecimento antecipado por toda essa ajuda.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 11h18
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29.01.11

Maratona do Dia do Quadrinho Nacional 2011

Eu havia me prometido não fazer mais a maratona de links para sites e blogs de autores brasileiros no Dia do Quadrinho Nacional, comemorado neste 30 de janeiro.

Cada maratona demanda mais ou menos três dias na frente do computador pondo no ar todos os links e imagens. Em 2010, o leitor se lembra, foram 181 postagens.

Mas tanta gente entrou em contato comigo nos últimos dias, por e-mail ou via Twitter, pedindo que repetisse a maratona, que fiquei com senso de culpa de não fazê-la.

Vamos, então, à quarta vez seguida da maratona. Mas com um novo formato, um meio termo entre as necessidades deste e as de todos os interessados em participar.

                                                         ***

Neste ano, vou dividir a tarefa de divulgar os links com os participantes.

Explico: quem vai colocar os links é o próprio autor, no espaço dos comentários desta postagem, logo abaixo. Como nos anos anteriores, peço que coloque:

  • nome
  • onde mora
  • título da série em quadrinhos ou da página virtual
  • endereço eletrônico para que todos possam visitar

Neste domingo, dia 30, pinço os links e reproduzo também no Twitter (http://twitter.com/blogpauloramos). Vamos testar esse novo formato para ver no que dá.

Já está valendo: pode inserir o link no espaço dos comentários e espalhar a maratona a outros autores de quadrinhos.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 13h17
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27.01.11

Quadrinhos brasileiros disputam prêmio francês de HQ

 

Jam. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

Capa de "Jam", uma das seis publicações brasileiras que concorrem no Festival Internacional de Histórias em Quadrinhos de Angoulême

 

 

 

 

 

 

Publicações independentes brasileiras disputam a categoria de obras alternativas do Festival Internacional de Histórias em Quadrinhos de Angoulême, na França.

Das 35 obras selecionadas na categoria, 6 são brasileiras. Cinco são revistas: "Café Espacial", "A3 Quadrinhos", "Consequências", "Top! Top!" e "Jam".

O grupo da "Café Espacial" concorre também pela criação do "Café Espresso", jornal ligado à publicação. Todos os trabalhos foram lançados em 2010.

O Angoulême é o principal prêmio de quadrinhos da Europa. Os vencedores serão divulgados no fim de semana. Edu Mendes, um dos autores de "Jam", já está no evento.

                                                         ***

Nota: o escritor brasileiro Wander Antunes também concorre no Angoulême pelo álbum "Toute la Poussière du Chemin". Leia mais na postagem de 17 de janeiro.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 19h29
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26.01.11

Álbum relança primeiras histórias de Agente Secreto X-9

 

Agente Secreto X9. Crédito: editora Devir

 

Um álbum vai reunir as primeiras tiras de Agente Secreto X-9, publicadas nos jornais norte-americanos na metade da década de 1930.

A obra será publicada pela Devir e terá 216 páginas. A editora fará duas versões, uma em capa dura. O livro já está na gráfica. A venda está programada para o começo de fevereiro.

As histórias foram criadas pelo escritor Dashiell Hammett e desenhadas por Alex Raymond. A dupla estreou em 22 de janeiro de 1934 e produziu a série até o ano seguinte.

Depois, o personagem passou pelas mãos de diferentes autores e continuou sendo publicado nas décadas seguintes. No Brasil, a série passou por diferentes editoras.

                                                        ***

O Agente Secreto X-9 foi criado para fazer frente a outra série de investigação, criada três anos antes, Dick Tracy.

Raymond (1909-1956) havia criado duas outras tiras de sucesso, Flash Gordon e Jim das Selvas. As duas também eram para fazer concorrência. No caso, a Buck Rogers e Tarzan.

O desenhista abandonou o agente secreto para se dedicar às duas outras tiras. Hammett (1894-1961) migrou para o cinema, onde fez roteiros.

O escritor foi o autor de livros de mistério, como "O Falcão Maltês", sua obra mais conhecida. A última edição nacional foi publicada pela Companhia das Letras, em 2001.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 19h57
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24.01.11

Uma história sobre Bone, por ora sem final feliz

 

Bone 1. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do primeiro volume de Bone, lançado no Brasil em dezembro de 1998 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Tudo indica que não será em 2011 o adiado final da série Bone. A editora da série no Brasil, Via Lettera, informou que não tem quadrinhos programados para este ano.

A informação foi passada via Twitter, na sexta-feira passada, pelo jornalista Jota Silvestre, do blog "Papo de Quadrinho". Silvestre havia sondado a editora sobre lançamentos.

A série norte-americana foi iniciada pela Via Lettera em dezembro de 1998. Com o passar dos anos, aumentou o espaçamento entre um volume e outro. O último, 14, saiu em 2010.

Mais de uma vez, inclusive neste blog, a editora havia dito que as histórias seriam retomadas. Pelo que se lê, não será bem assim. Pelo menos não neste ano.

                                                         ***

Bone foi criada em 1991 pelo norte-americano Jeff Smith e foi uma das séries mais premiadas dos Estados Unidos nas duas últimas décadas.

As histórias giram em torno dos primos Fone Bone, Smiley e Phoney. O trio enfrenta diferentes aventuras num vale coberto de situações místicas.

Os três se perderam na região. Ficam por lá na esperança de encontrarem o caminho de volta à cidade de onde vieram, Boneville.

Jeff Smith encerrou a série no número 55, lançado em junho de 2004. Desde então, as histórias vêm sendo sistematicamente reeditas em diferentes formatos editoriais.

                                                          ***

As histórias integram o raro grupo de quadrinhos que podem ser lidos tanto por adultos quanto por leitores juvenis.  

Por ter essa peculiaridade, tornou-se o principal presente que dei a vários amigos e colegas em festas de aniversário e comemorações de final de ano desde a virada do século.

Somava-se o fato de haver poucos álbuns em quadrinhos, o que reforçava ainda mais a escola. Era uma época em que o setor de livrarias ainda era pouco explorado.

Os presenteados tinham pouco contato com quadrinhos. Em geral, surpreendiam-se com Bone. Um deles costumava sempre me agrader por tê-lo apresentado à série.

                                                         ***

Não sei se todos os amigos e colegas deram segmento à leitura da série. O intervalo entre o lançamento de um volume e outro é um argumento forte para dizer que não.

Desde o começo do século, optei por acompanhar as histórias de Bone no original, tanto nos encadernados quanto na série regular. Foi uma das poucas em que fiz isso.

Li a edição final, ainda em 2004. Mas sempre continuei comprando as versões nacionais, à espera de (re)ler uma vez mais o desfecho da série. Lamento pelos demais leitores.

Fica a esperança de que a Via Lettera reveja a decisão, neste ou no próximo ano. Ou que outra editora se interesse pela série. A se pautar pelo presente, melhor outra editora.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 09h24
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21.01.11

Blogs: as janelas virtuais das tiras em quadrinhos

A primeira década deste século iniciou com uma tal de internet e com as promessas revolucionárias que ela iria trazer.

De fato, mudou. Hoje, não se enxerga alguém sem e-mail. Nos quadrinhos, as mensagens virtuais ajudaram a reduzir a distância entre os autores.

A facilitação das ferramentas de manuseio dos blogs também permitiu que os autores usassem o recurso virtual para produzir conteúdo exclusivo para a rede.

A segunda metade da década popularizou o recurso. As tiras, em particular, encontraram nos blogs um locus propício, a ponto de se destacarem mais que as dos jornais impressos.

                                                         ***

Já há uma geração de tiristas que surgiram na internet. Não se trata de uma revolução. Mas é talvez uma das mudanças mais contundentes que a internet impôs à área.

Para Marco Oliveira, criador do blog "Overdose Homeopática", a principal vantagem que a internet trouxe aos desenhistas foi o poder de divulgação.

"O artista pode, a qualquer momento, criar sua vitrine virtual e mostrá-la ao mundo todo. O longe ficou perto e o difícil se tornou prático."

"Você possui uma vitrine com um belo material exposto, há pessoas atrás de bom material, todo mundo ganha."

 

Overdose Homeopática

 

Overdose Homeopática

 

O quadrinista, de 27 anos, criou o blog em novembro de 2009. Segundo ele, tem conquistado comentários bastante positivos e uma boa quantidade de leitores assíduos.

"No Twitter, por exemplo, vejo quando uma pessoa acaba de descobrir o Overdose e já sai indicando a vários amigos, que também se identificam e indicam a outros."

"É bem bacana quando há esse tipo de repercussão, ainda mais quando não é esse o principal objetivo."

O principal objetivo, diz, é expor as tiras e trabalhar com a experimentação, processo construído em São Carlos, no interior paulista, onde nasceu e mora, e amplificado pela rede.

                                                          ***

As tiras se baseiam em situações inusitadas, sempre uma diferente da outra. Ele diz que dificilmente para para ter a ideia da tira. É o contrário: a ideia é que o leva ao desenho.

"Antes das tiras, eu não enxergava possibilidade em lugar nenhum, hoje, vejo uma pomba voando e ´Opa! Eis uma ideia´.

"Anoto e estudo a melhor maneira de representá-la linguistica e graficamente, para que o leitor enxergue exatamente o que eu pretendo mostrar."

Ele faz planos de reunir as tiras numa publicação independente, dividida com outro autor de tiras, Marcelo Saravá. Nunca se conheceram. Os contatos foram feitos via internet.

 

Overdose Homeopática

 

Vitor Caffaggi, mineiro de Belo Horizonte de 32 anos, recebeu três propostas de trabalhos por conta da repercussão do blog que mantém, o "Puny Parker".

Ele fez histórias para os álbuns "MSP 50 - Mauricio de Sousa por 50 Artistas" e "Pequenos Heróis" e recebeu o convite para produzir uma tira semanal em "O Globo".

O contato do jornal foi feito por e-mail, no dia de seu aniversário, no ano passado. "Eu não tinha nada, mas perguntei pra ele quanto tempo eu teria para criar alguma coisa."

"Ele me disse, na época, que era urgente, que em pouco tempo, eles iriam mudar todas as tiras do jornal e que procuravam alguma coisa no estilo das tiras do Puny. Três dias depois, toda a história do Valente já estava criada e suas cinco primeiras tiras já estavam chegando, pelo correio, no jornal."

 

Valente

 

Ele define a série, protagonizada por Valente, como "a história de um jovem cachorro à procura do amor da sua vida."

"No final, Valente é uma série de tiras sobre as garotas que encontramos em nossas vidas antes de encontrarmos A garota de nossas vidas."

As tiras e os álbuns são um sinal concreto de que valeu a pena a aposta profissional feita três anos antes.

Cafaggi largou o cargo de diretor de arte de uma grande empresa para se dedicar aos quadrinhos. Desde então, alia os desenhos a aulas e a trabalhos como free lancer.

                                                          ***

Formado em design gráfico pela Universidade do Estado de Minas Gerais, ele tinha o sonho desde criança de desenhar para a editora Marvel Comics, de Homem-Aranha e X-Men.

"Eu ainda quero desenhar pra Marvel. Mas, por mais pretensioso que possa parecer, eu quero que seja do meu jeito, desenhando, escrevendo e fazendo as histórias que eu quero fazer, histórias que digam alguma coisa para as pessoas, histórias sinceras, feitas de coração."

"Histórias que mudem as vidas das pessoas que as lerem. Ia ser o máximo fazer isso em uma revista da Marvel, mas hoje eu sei que eu não preciso estar na Marvel pra fazer isso."

O universo da Marvel é um dos panos de fundo de Puny Parker, série que intitula o blog dele. As tiras contam histórias de um jovem Peter Parker, alter-ego do Homem-Aranha.

 

Puny Parker

 

Cafaggi não sabe dizer exatamente de onde surgiu a ideia da série. Mas sabe que é uma mescla de influências dos gostos de infância, vividos nos anos 80.

"Eu lia as revistas do Homem-Aranha, as tirinhas do Calvin no Globo, assistia ao desenho do Charlie Brown na TV, ia ao cinema para ver De volta para o Futuro, Os Goonies e os filmes do Stallone... acho que a ideia não surgiu... ela sempre esteve aqui comigo."

"E, quando eu decidi que queria fazer quadrinhos, comecei por ele, que era um tipo de desenho mais simples, que eu me sentia capaz de fazer na época."

"Histórias mais complexas e com desenhos mais elaborados não dariam certo pela minha falta de experiência."

                                                         ***

A primeira janela das tiras foi o site de relacionamentos Orkut. Era uma forma de ele se obrigar a fazer uma produção semanal das histórias.

Um amigo indicou a outro e este a mais outro e se criou o que a internet faz melhor: divulgação. O blog surgiu daí.

"Com o blog, mais gente conheceu a tira e alguns meses depois eu já comecei a receber convites para outros projetos."

Cafaggi trabalha em paralelo com outro projeto, "The Cute Teens and The Lame Zombies", uma história em quadrinhos sobre duas garotas que vivem em uma cidade onde os zumbis fazem parte do cotidiano das pessoas.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 10h28
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17.01.11

Um passeio pela França, sem nunca ter ido lá

 

Todo el Polvo del Camino. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Capa da edição espanhola de "Toute la Poussière du Chemin", obra de Wander Antunes que concorre ao prêmio Angoulême 

 

 

 

 

 

 

 

 

O roteirista brasileiro Wander Antunes nunca foi à França. Mas os leitores de quadrinhos de lá sabem muito quem ele é.

O contato se deu por meio do álbum "Toute la Poussière du Chemin". A obra escrita por ele foi indicada em três premiações francesas, uma delas o Angoulême, a principal da Europa.

O trabalho foi publicado na França no ano passado pela editora Dupuis. Ganhou rapidamente versões na Espanha, Bélgica e Canadá. No Brasil, permanece inédita.

"É sempre bom quando um trabalho é bem recebido - no final das contas acho que uma indicação significa que os leitores, inclusive os jurados dos festivais, estão dizendo sim para o trabalho que leram", diz o roteirista, por e-mail.

                                                        ***

"Toute la Poussière du Chemin" narra a história de Tom, uma das vítimas da Grande Depressão norte-americana, iniciada em 1929 e continuada na década seguinte.

Ele aceita ajudar na busca de um garoto, filho de um homem que havia resgatado num acidente de carro. Ao ver a fotografia do menino, Tom se lembra de ter cruzado com ele quando ambos "roubaram" uma carona num trem.

O uso dos Estados Unidos como pano de fundo para a trama é um recurso já utilizado pelo roteirista em outros trabalhos. Segundo ele, trata-se de uma ligação com a literatura.

"John Steinbeck e Jack London são meus heróis literários, queria me ligar a eles de alguma maneira. ´Toute la Poussière du Chemin´ é uma espécie de homenagem a esses caras."

                                                          ***

Apesar da indicação à seleção oficial do Angoulême, ainda não será desta vez que irá conhecer a Europa. Pretende acompanhar o resultado em Cuiabá, onde mora com a esposa.

Goiano de Jataí, Antunes já teve outros roteiros publicados na França, país que tem um mercado de quadrinhos adultos bastante aquecido.

"Não é que eu produza para o mercado francês, é que eles me compram e editam", diz. "Tenho várias histórias prontas ou meio prontas e as apresento para vários editores, daqui e de lá e de outros países", diz.

"O que fiz, e por isso comecei a produzir para os franceses, foi apresentar minha produção também aos editores de lá. Os franceses dizem sim, basicamente é por isso."

                                                          ***

A seleção editorial não é a única dificuldade a ser superada por ele. Antunes não fala francês. Contorna o problema com o espanhol, língua com a qual escreve os roteiros. O texto, depois, passa por um tradutor. 

O domínio do castelhano ajudou no contato com autores de lá, algo que vem de anos atrás.

Quadrinistas espanhóis eram figuras recorrentes na revista "Canalha", que editou entre dezembro de 2000 e abril do ano seguinte.

A revista da Brainstore durou três edições. Ganhou uma sobrevida em 2003, numa edição especial lançada pela Opera Graphica.

 

O Corno que Sabia demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

"O Corno que Sabia Demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa", álbum lançado no Brasil em 2007 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A "Canalha" tinha como carro-chefe as histórias de "Zózimo Barbosa", detetive de casos extraconjugais criado pelo escritor e um dos motivos para a criação da revista.

As histórias que circularam na publicação - e outras, produzidas depois - foram reunidas em 2007 no álbum "O Corno que Sabia Demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa".

Foi a última aparição do personagem. O roteirista planeja o retorno dele no livro "Chanchada Noir". "Mas é prosa, como HQ o Zózimo acabou."

O álbum de Zózimo foi um dos poucos lançados por Antunes no Brasil. Ele havia publicado por aqui "Crônicas da Província", em 1999, e "A Boa Sorte de Solano Dominguez", em 2007. Ambos foram desenhados por Mozart Couto.

                                                          ***

O ano de 2011 marca um retorno dele aos álbuns nacionais. Antunes assina a adaptação do romance "Clara dos Anjos", de Lima Barreto (1881-1922).

A obra será publicada pela Companhia das Letras e é desenhada por Lélis, outro brasileiro que tem se inserido no mercado francês de quadrinhos.

O roteirista diz ter também outros textos que pretende apresentar a editoras. E um "projeto secreto", feito em parceria com outro brasileiro.

Nesta entrevista, ele comenta os trabalhos presentes, passados e futuros, e fala das parcerias, como a que teve com o espanhol Jaime Martin em "Toute la Poussière du Chemin".

                                                          *** 

Blog - No seu entender, a participação de Jaime Martin ajudou de alguma forma na repercussão do álbum na Europa?
Wander Antunes
- O Jaime é um nome já bastante conhecido, sobretudo na Espanha, ele é muito talentoso e é muito querido por lá - além de ser a pessoa mais fácil de lidar com quem já trabalhei. A participação dele foi determinante. Ah, importante, só realizei esse trabalho para a Dupuis porque o Jaime me convidou. Ele é que é o cara.

Blog - Como foi o convite de Jaime Martin para roteirizar o álbum? 
Antunes
- Ele havia feito seu primeiro álbum para a Dupuis, "Ce que le Vent Apporte", e queria relaxar um pouco de escrever e desenhar. Daí me convidou para desenvolver algumas ideias que já tínhamos esboçado nos dois últimos números de "El Víbora". Por isso esse caráter episódico de "Toute la Poussière du Chemin", com uma história principal, a do Tom buscando o menino, e os vários pequenos contos ao longo da busca. Eu tinha uma série de histórias curtas que se transformaram numa HQ longa.

Blog - No terceiro número da revista "Canalha", criada e editada por você, havia uma história dele. O contato surgiu daí?
Antunes
- Sim, meu contato com o Jaime vem desde os tempos da "Canalha". Desde então temos falado sobre um trabalho conjunto, chegamos a publicar duas histórias curtas nos dois últimos números de "El Víbora" [revista espanhola de quadrinhos].

 

Canalha 1. Crédito: reprodução   Canalha 2. Crédito: reprodução

 

Canalha 3. Crédito: reprodução   Canalha Especial. Crédito: reprodução


 

Blog - Por que a "Canalha" não deu certo naquele momento? Há planos de algo nesse sentido? 
Antunes
- Sei lá, talvez o tempo das revistas tenha passado. Se eu pretendo editar outra vez? Acho que não.
 
Blog - Ainda falando da "Canalha", você comenta na apresentação da primeira edição da revista, de dezembro de 2000, que o mercado brasileiro de quadrinhos de então "ia mal (vai mal!)". Dez anos depois, sua opinião permanece a mesma? 
Antunes
- Acho que o cenário ainda é ruim, talvez um pouco melhor que há dez anos. O fato novo são as compras governamentais, que tem ajudado a movimentar o setor. Enfim, segue um mercado difícil, mas em alguma medida melhorou.
 
Blog - Seu último trabalho no Brasil foi "A Boa Sorte de Solano Dominguez", pela Desiderata. Você tem outros planos para publicar o mercado brasileiro? Ou então de editar aqui obras já lançadas no exterior? 
Antunes
- Tenho sim. Finalizei ainda há pouco a adaptação de Clara dos Anjos para a Cia das Letras e já apresentei uma proposta de outro livro pro André Conti [editor da Companhia]. Agora é ver se eles dizem sim. Não sei de interesse editorial por minha produção francesa, andei cutucando aqui e ali, mas acho que não há interesse editorial por esse material. Ah, e estou trabalhando junto a um grande desenhista brasileiro num "projeto secreto". Estamos fazendo pra nós, por vontade de produzir o material, mas sem saber pra quem oferecer. Pode sair no Brasil ou em outro país, ainda não sabemos.
 
Blog - Ganha-se bem para produzir um álbum para o mercado europeu? 
Antunes
- Razoavelmente bem, ao menos para os meus padrões. Aprendi a viver com muito pouco, sou de baixa classe média, não consumo quase nada e nem vou a lugar nenhum.
 
Blog - É possível viver apenas disso hoje? Ou você faz outros trabalhos, em outras áreas? Se sim, quais?
Antunes
- Vivo de quadrinhos e faço, muito raramente, um ou outro house organ [publicação empresarial].
 
Blog - Na edição espanhola de "Toute la Poussière du Chemin", você comenta que entre a sinceridade da ficção e a biografia mentirosa você optou pela primeira. Como você enxerga os recentes trabalhos autobiográficos em quadrinhos, tanto nacionais quanto estrangeiros? 
Antunes
- Sou mentiroso e mentirosos tendem a não levar biografias e nem autobiografias muito à sério. Talvez eu ache que autobiografia seja apenas ficção travestida de realidade. Ou talvez não pense isso e não esteja dizendo isso. E se estiver, ou parecer que disse, eu nego. Essa minha fala que saiu na edição espanhola do livro teve a ver com o fato de eu ter contado um episódio da minha vida - em parte era verdade e em parte era mentira, acho que um por cento do que eu disse era verdadeiro ou era uma quase verdade ou apenas uma meia mentira - para um editor ou alguém próximo a um editor, não me lembro bem, e aí me propuseram algo do gênero e eu disse que não faria. Vivemos um tempo curioso, muitos editores parecem ter perdido o interesse em ficção. E muitos leitores também. Chegamos num ponto em que se eu contar um negócio qualquer e dizer que aquilo aconteceu a coisa parece ficar mais interessante, ganhar um valor adicional. Tem uma onda confessional rolando, e não é só na HQ, mas estou fora dela.

Categoria: ENTREVISTA

Escrito por PAULO RAMOS às 09h44
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13.01.11

Meu filho em minhas tiras

Houve uma surpresa após o trabalho de parto de Márcia Valéria. A notícia veio pela pediatra. A mãe estava bem. Mas havia algo mais sobre o filho.

"Bem... o Logan nasceu com síndrome de Down, sr. Flavio. Nós precisamos fazer alguns exames e entãonaguhrnd, d,ddm,m sjimmnsksijkal...".

Foi assim que o pai, Flavio Soares, sintetizou o que ouviu num blog, criado nove meses depois, em 19 de agosto de 2005. A expressão "síndrome de Down" fez tudo parar.

O susto deu lugar a uma série de pensamentos e estes, ao contato inicial com Logan. Mamava bem, chorava, sorria, como qualquer criança. O choque cedeu à aceitação.

                                             ***

O blog, intitulado "A Vida com Logan" foi uma forma de conviver melhor com o filho e com o Down, alteração genética que pode causar mudanças cognitivas e físicas. 

"Era uma forma de eu colocar pra fora alguns medos e também de mostrar que, diferente de muitas histórias que ouvi, um filho com síndrome de Down não é o fim do mundo. Pelo contrário: é uma mudança radical de mundo e, em minha opinião, pra melhor", diz Flavio.

"De alguma forma, também, eu acreditava que relatar as minhas experiências poderia ajudar alguém que estivesse na mesma situação."

De início, ele postava apenas textos. Desenhista, se flagrou mais de uma vez rascunhando esboços do filho. Decidiu transformar em tiras. Tiras sobre a vida com Logan.

 

A Vida com Logan. Crédito: Flavio Soares

 

Os quadrinhos começaram com uma nova página, criada em março de 2009. Um domínio próprio, não mais um blog. As tiras dividem espaço com os textos. Aparecem uma vez por semana.

A série e o site repercutiram. Foi procurado para entrevistas e as tiras ganharam espaço semanal no jornal "Agora", do Rio Grande do Sul, e na revista digital "Inclusive".  

Outro termômetro é o retorno de quem lê a página. Flavio diz ser contatado "o tempo todo". Nãó só por pessoas com experiência parecida, mas também por leitores de suas tiras.

"Essa troca é maravilhosa. Eu gosto muito de conversar com essas pessoas, ouvir suas opiniões, trocar experiências sobre filhos e a síndrome de Down. Tem um casal que se tornou amigo, de frequentar a casa, através do A Vida com Logan. É uma experiência fantástica."

                                                          ***

Nas histórias, Flavio transforma sua família e a si próprio em personagens. Pergunto a ele o quanto das situações narradas de fato aconteceram.

"Eu acredito que seria correto te dizer que uns 60% aconteceram mesmo. Na verdade, todas as histórias partem de uma situação real que eu vou extrapolando até o limite máximo."

Logan, hoje com seis anos, passa a maior parte do tempo com a mãe. Foi ela quem ficou com a guarda após o divórcio.

Os contatos de Flavio com Logan são mais concentrados no fim da semana. Todas as sextas-feiras, é o pai quem o leva à fonoaudióloga e à terapia ocupacional.

 

A Vida com Logan. Crédito: Flavio Soares

 

A Vida com Logan. Crédito: Flavio Soares

 

"Quando ele está por aqui, tentamos fazer o pouco tempo valer ao máximo."

"Então brincamos de esconde-esconde com ele pela casa, vamos ao parque, vemos vídeos, visitamos os avós, brincamos no quarto."

Um cuidado que Flavio tem é estimular a convivência de Logan com Max, filho de seu segundo casamento. A história do nascimento também foi mostrada nas tiras.

A exposição da própria vida, mesmo que com verniz cômico, preocupou o quadrinista por algum tempo. "Hoje preocupa menos."

                                                         ***

"Eu percebi que, apesar de usar uma abordagem mais leve, a honestidade e a exposição também têm que estar presentes no meu trabalho. As pessoas sabem quando você está escondendo algo e, no momento em que isso acontece, acaba o diálogo."

"A proposta incial que trouxe o A Vida com Logan até aqui foi a de ampliar o diálogo e o debate e, pra que isso continue acontecendo, tenho que nos manter ´expostos´."

A transparência aparece também nas respostas. Paulistano, faz 38 anos em fevereiro. Trabalha na área gráfica como free-lancer. Acredita que as tiras podem virar diárias, em jornais.

Só mantém um segredo: a escolha do nome do primeiro filho. "Você quer mesmo acabar com a magia?" Fica, então, mantida a magia, Flavio.

 

A Vida com Logan. Crédito: Flavio Soares

 

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 09h04
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12.01.11

Bando de Dois vence Prêmio Angelo Agostini

O álbum "Bando de Dois", de Danilo Beyruth, foi escolhido o melhor lançamento de 2010 no 27º Prêmio Angelo Agostini.

A organização divulgou os premiados na noite desta terça-feira. O troféu é organizado pela AQC (Associação dos Quadrinistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo).

A votação foi feita pelo público. Alguns dos indicados fazem até campanha.

Os vencedores foram:

  • Melhor Desenhista – Hélcio Rogério
  • Melhor Roteirista – Marcos Franco
  • Melhor Cartunista – Marcio Baraldi
  • Melhor Lançamento – Bando de Dois (Editora Zarabatana)
  • Melhor Lançamento Independente – Lucas da Vila de Sant´anna da Feira
  • Melhor Fanzine – QI (Edgard Guimarães)
  • Troféu Jayme Cortez – José Salles (Editora Júpiter II)
  • Mestres do Quadrinho Nacional: Dag Lemos, Eduardo Vetillo, E.C. Nickel, Elmano Silva e Novaes

A cerimônia de premiação será no dia 5 de fevereiro, um sábado, a partir das 13h, no Instituto Cervantes (Avenida Paulista, 2439, em São Paulo). A entrada é franca.

Categoria: NOTÍCIA

Escrito por PAULO RAMOS às 00h18
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10.01.11

Álbum faz dupla homenagem: a Spirit e a Eisner

 

The Spirit - As Novas Aventuras. Crédito: Devir

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "The Spirit - As Novas Aventuras", que traz histórias do herói feitas por diferentes autores 

 

 

 

 

 

 

 

O Spirit sempre foi um herói diferenciado. Suas histórias traziam contos em quadrinhos, que não raras vezes punham o protagonista em segundo plano.

Ele também não era propriedade de uma grande editora, que, nas décadas seguintes, alternaria o grupo de escritores e desenhistas para manter a linha de produção narrativa.

Não. Spirit, como dito, era diferente. Os direitos pertenciam a seu criador, o quadrinista Will Eisner (1917-2005). Por isso mesmo, custou a trocar de mãos. Eisner não queria.

O tempo tornou a regra flexível e o pai do personagem aceitou deixar o filho passear com outros autores. O resultado chega agora ao Brasil em "The Spirit - As Novas Aventuras".

                                                          ***

O álbum, lançado em dezembro (Devir, 128 págs.), reúne os quatro primeiros números da revista "The Spirit - The New Adventures", publicada nos Estados Unidos durante 1998.

A proposta da série era entregar o personagem à nova safra de autores da indústria norte-americana de quadrinhos: Neil Gaiman, Kurt Busiek, Eddie Campebell, David Lloyd.

Logo na história de estreia, que também abre o álbum, reunia Alan Moore e Dave Gibbons, criadores da badalada minissérie "Watchmen".

A dupla recontou a origem do personagem, mas do ponto de vista dos personagens secundários da história.

                                                         ***

A primeira história de Spirit foi publicada nos Estados Unidos em 2 de junho de 1940. A história de estreia mostrava como o detetive Denny Colt se tornou o herói. O vilão da vez era o Dr. Cobra. O cientista era procurado pela polícia. Colt descobre onde está escondido.

Quando tenta capturá-lo, é atacado e dispara contra um enorme frasco. O tiro libera um líquido, que atinge o detetive. Imediatamente, entra em estado de animação suspensa. Dado como morto, é enterrado no cemitério Wildwood, em Central City.

Danny Colt, surpreendentemente, acorda, foge do túmulo e captura Cobra. Prefere que todos pensem que está morto Adota a persona de Spirit e passa a ajudar a polícia.

                                                         ***

Eisner conseguiu dar uma cara própria à série, que sempre iniciava com o nome do herói apresentado de forma estilizada na cena de abertura. O recurso é repetido no álbum.

A repetição estilística ajuda a recriar o ambiente das narrativas originais. Isso dá ao álbum um ar de homenagem. Dupla homenagem: ao herói em si e ao criador dele.

A série teve outros quatro números até ser cancelada com o fim da editora, a Kitchen Sink Press. A história é recontada pelo editor, Denis Kitchen, no prefácio da obra.

São histórias interessantes, sem dúvida. Mas não substituem as originais, que não são reeditadas no Brasil há mais de uma década.

                                                          ***

Nota: a Devir publicou a obra em dois formatos. Um, em capa dura, custa R$ 53. Outro, com capa cartonada e um pouco menor, sai por R$ 41. O conteúdo é o mesmo.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 08h42
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06.01.11

As boas fases dos filmes e dos quadrinhos nacionais

Dá o que pensar uma das reportagens dessa quarta-feira (05.01) da "Folha de S.Paulo". O jornal trouxe uma lista dos dez filmes de maior bilheteria do ano no Brasil.

No topo da lista, "Tropa de Elite 2". Outras duas produções nacionais, "Nosso Lar e "Chico Xavier", figuravam entre os dez mais. Veja na lista:

  1. Tropa de Elite 2
  2. Avatar
  3. Shrek para Sempre
  4. Eclipse
  5. Alice no País das Maravilhas
  6. Toy Story 3
  7. Alvin e os Esquilos 2
  8. Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1
  9. Nosso Lar
  10. Chico Xavier

É difícil fazer a mesma lista para a área de quadrinhos. As editoras brasileiras não têm o hábito de divulgarem suas "bilheterias".

Mas dá para traçar um paralelo com outras relações, como as feitas por profissionais da área. A título de comparação, pinço a do blog "Gibizada", divulgada no mês passado:

  1. "Bando de dois"
  2. "Cicatrizes"
  3. "Cachalote"
  4. "Notas sobre Gaza"
  5. "MSP + 50"
  6. "Kiki de Montparnasse"
  7. "Xampu - Lovely losers"
  8. "O que aconteceu ao homem mais rápido do mundo?"
  9. "SIC"
  10. "Logicomix" / "Bordados" (empatados)

Ao todo, 21 profissionais participaram da relação. Metade dos títulos são nacionais. Inclusive o mais votado, "Bando de Dois", o nosso "Tropa de Elite" dos quadrinhos de 2010.

Se servir de comparação uma lista com a outra, é algo para se pensar.

Um dos argumentos contrários a leis de reserva de mercado para a produção nacional é que editoras e jornais iriam ocupar a quota sem uma necessária preocupação com a qualidade.

Pois bem, parte da produção nacional dos quadrinhos já trabalha com essa qualidade.

Qual o próximo passo?

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 00h38
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04.01.11

Ao coração da tempestade editorial de hoje

 

No Coração da Tempestade (Abril, 1996) Ao Coração da Tempestade (Quadrinhos na Cia, 2010)

 

"Ao Coração da Tempestade" se ancora em uma metáfora. A tempestade do título é o ponto de chegada do trem que leva soldados norte-americanos ao campo de batalha.

Na trajetória que leva o grupo à Segunda Guerra Mundial, em 1942, a janela do vagão funciona como uma válvula de escape para a chegada no conflito.

As cenas externas observadas durante a viagem ajudam a rememorar fatos passados da vida do protagonista, Willie. O soldado é o próprio autor, Will Eisner (1917-2005).

Ele relembra a infância, a adolescência, o interesse pelos desenhos, a decisão de ingressas no conflito, o modo de ser do pai e da mãe, o preconceito por serem judeus.

                                                          ***

A intolerância presenciada por ele e pelos pais, em diferentes situações e épocas, são vistas pelo autor como pequenos movimentos do que se tornaria o grande conflito mundial.

A autobiografia de Eisner foi relançada pelo Quadrinhos na Cia. (216 págs., R$ 42). Ironicamente, começou a ser vendida no fim da primeira década deste século.

A ironia é porque a obra guarda em si outra metáfora, distinta da vista na narrativa em si. O álbum tem papel semelhante à janela do trem retratada pelo desenhista norte-americano.

O trabalho é uma das âncoras que ajudam a perceber o quanto o mercado editorial brasileiro mudou em comparação com a década anterior, a última do século 20.

                                                        ***

O álbum foi produzido para ser vendido prioritariamente em livrarias. As grandes redes hoje possuem um farto e destacado espaço reservado às histórias em quadrinhos.

É um cenário bem distinto do visto quando o álbum foi publicado no Brasil pela primeira vez, em 1996, pela Editora Abril.

A obra foi direcionada na época às bancas de jornal, então o principal ponto de venda de quadrinos no país. Para baratear o preço, a história foi dividida em dois volumes quinzenais.

As capas eram as mesmas. Para distinguir um volume do outro, a editora mudou a cor do título da obra, então chamada de "No Coração da Tempestade".

                                                           ***

A Abril produziu mil exemplares de uma outra versão, em capa dura, volume único e autografada por Eisner, que era vendida apenas sob encomenda e enviada pelo correio.

A editora paulista vivia naquele 1996 um momento mais tímido no tocante às publicações adultas. A redação destas havia sido unificada com a infanto-juvenil, vítima do Plano Collor.

"De repente, as vendas de revistas despencaram e nossas apostas, que eram custosas em comparação com os títulos da Marvel, da DC, da Disney e de outros licenciantes, deixaram de ser viáveis do ponto de vista de faturamento", diz Marcelo Alencar, na época editor-chefe da área de quadrinhos.

"Estamos falando de uma época em que, se uma revista vendesse menos de 50 mil exemplares, era sumariamente cancelada. Hoje as expectativas, de modo geral, são bem mais modestas."

                                                          ***

Alencar havia sido contratado pela Abril em 1989 para cuidar da publicação de graphic novels, nome que ainda era novo no Brasil.

A editora Globo também havia criado na mesma época uma redação para cuidar de obras assim. É dessa época a publicação das minisséries "V de Vingança" e "Moonshadow".

Até o Plano Collor, houve uma ebulição de obras, voltadas ao leitor adulto. Todas direcionadas para bancas e, no máximo, a lojas de quadrinhos que então surgiam.

A Abril, nesse período, chegou a publicar dois outros trabalhos de Will Eisner: uma revista mensal do "Spirit" e a graphic novel "Um Sinal do Espaço".

                                                          ***

Alencar hoje edita livros educativos para a Fundação Padre Anchieta. Mas ainda mantém vinculo com os quadrinhos. Colabora para a Abril e integra a comissão do Troféu HQMix.

O jornalista acredita que, hoje, seria difícil vender o álbum em bancas. "Por um lado o fato me entristece, pois muita gente dos rincões do país deixa de ter acesso ao material."

"Por outro, me alegra, pois boa parte dos fãs de gibis, que antes só frequentavam jornaleiros, hoje são habituées de livrarias e têm o costume de consumir quadrinhos mais sofisticados."

Tal qual a janela do trem criada por Eisner, o mercado de hoje pode ser rememorado por meio da reedição de uma de suas obras e comparado com o de ontem. Muita coisa mudou. E não foi só a preposição do título do álbum do quadrinista. Vive-se hoje uma outra tempestade editorial. Diferente, mas não necessariamente pior.

Categoria: RESENHAS

Escrito por PAULO RAMOS às 11h38
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02.01.11

Uma charge do dia que merece registro

 

Charge de Cláudio de Oliveira para o Agora São Paulo

 

De Cláudio de Oliveira, na edição deste domingo do "Agora São Paulo".

Categoria: NA MÍDIA

Escrito por PAULO RAMOS às 12h01
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