Super-Homem, meu velho, é aqui a gente se separa

 

 

 

 

Caro Super-Homem.

Sei que é um herói ocupado e que tem pouco tempo de ler cartas abertas como esta. Por isso, tentarei ser o mais objetivo possível.

Chega por estes dias aqui no Brasil (de onde escrevo) o número 18 de sua revista mensal, publicada pela editora Panini.

Não vou comprar. É aqui que a gente se separa.

Dado que se trata de uma ruptura, gostaria que tivesse ciência, real motivo destas linhas.

A ruptura a que me refiro é o fato de ser seu leitor de longa data. Tenho acompanhado suas aventuras desde julho de 1984, data em que você começou a ser publicado pela Abril.

Tenho colecionado suas revistas mensais desde então. Nacionais e estrangeiras. Tenho cá comigo quase duas décadas dos títulos norte-americanos.

Nesse tempo, li muita coisa boa. As histórias de John Byrne, a trama sobre sua morte e seu retorno, capitaneada por Dan Jurgens, os trabalhos mais recentes de Geoff Johns.

Mas, justiça seja feita, li muito mais narrativas ruins do que boas. Lembra-se de que quando o transformaram em um ser composto por eletricidade? Horrível, não?

Mesmo assim, eu resisti. Sempre apostei que, após alguma intervenção editorial malsucedida, poderia vir algo de bom depois da "próxima crise". Vez ou outra funcionava.

O problema é que, agora, a mudança foi brusca demais, mais até do que aquela versão elétrica a que sujeitaram você nos anos 1990.

A DC Comics - você sabe, a empresa que publica suas histórias nos Estados Unidos - alterou sua personalidade, tanto como herói quanto na versão civil, Clark Kent.

Essa reformulação, batizada por aqui de "reboot da DC", tirou sua essência. Assim, fica difícil de se identificar com as marcas centrais que o tornaram o personagem que é.

Soma-se outro ponto: suas histórias estão ruins. Ruins como nunca havia visto. Destruíram o(s) personagem(ns), contando neles a dupla Super-Homem/Clark Kent.

Numa das edições, você, em sua identidade secreta, faz a Kimmy Olsen um gesto de "vida e longa e próspera", próprio do Sr. Spock, do seriado "Jornada nas Estrelas".

Isso não é atualização de sua persona. É a destruição dela, por mais que eu aprecie muito a série criada por Gene Roddenberry (1921-1991).

Seguindo a analogia a seriados de TV, diria que você está mais para um arremedo de Sheldon, o nerd carismático de "Big Bang Theory".

Os primeiros sinais vinham logo do número de estreia da nova fase, lançado em junho de 2012, pela Panini. Havia naquela edição duas narrativas suas, em momentos distintos.

Numa, você aparecia mais jovem, com calça jeans (!!) e capa. Noutra, estava um pouco mais velho, já com o uniforme, porém sem o tradicional calção vermelho por fora da calça.

As duas histórias não se ligavam. Soube depois que o roteirista George Perez, um dos escritores, não sabia do conteúdo feito pelo outro, Grant Morrison.

Nem precisaria saber desse bastidor. Leitor das antigas, já aprendi a farejar de longe quando uma história de super-heróis é boa ou má.

As suas atuais aventuras são más. Não dá mais para acompanhar. 

Que fique claro que não se trata de um estranhamento face a um novo contexto editorial. Já vi vários outros ao longo desses 30 anos de leitura, tempo que me dá algum crédito.

Tenho comigo que o problema é mais amplo. Você e vários outros heróis estão sendo vitimados por uma espécie de kryptonita midiática.

O cinema se tornou hoje a grande janela das histórias de super-heróis, que consegue reproduzir na tela o mesmo sabor que as histórias de super-heróis tinham décadas atrás.

Com produções carísimas e efeitos especiais à altura, elas têm conseguido levar os feitos dos heróis a um público bem maior que o do papel. E com faturamento equivalente.

Como se trata de um negócio lucrativo, que gera outros negócios igualmente rentáveis em efeito dominó, as histórias impressas foram colocadas num segundo plano.

Elas vão continuar existindo. Mais para manter a base da franquia e para testar a aceitação de ideias para roteiros futuros para a tela grande.

Em caminho contrário, é o cinema que ditará algumas das regras do que se vê e lê nas revistas em quadrinhos.

Ou será que foi uma coincidência seu calção ser sacado justo quando estava prevista para estrear a nova versão cinematográfica de seu filme, "Homem de Aço"?

Vai haver ainda uma ou outra história que valha a pena ser lida, ou da DC Comics ou da Marvel Comics, editora concorrente e dona de Homem-Aranha, X-Men e Vingadores.

Mas lamento dizer que o gênero impresso dos super-heróis ruma a um ofuscamento ante a mídias com maior visibilidade e muito mais rentáveis, casos do cinema e dos games.

O que poderia manter o interesse dos leitores seriam as boas histórias. Sinto muito as suas não se enquadrarem mais nesse rol. E que tenham perdido este leitor das antigas.

Encerro relembrando uma de suas histórias da década de 1990, "Metropolis Mailbag". Escrita por Dan Jurgens e desenhada por Jackson Guice, chegou a ser publicada por aqui.

Não havia nela um supervilão. O mote era retratar as inúmeras cartas que você recebia no final de ano, por conta das festas de Natal e de Ano Novo.

Muitos dos autores das cartas dividiam dramas pessoais com você. Alguns você conseguia atender, como era mostrado naquela história, que teve até uma sequência depois.

Não quero que esta carta aberta tome o tempo de outros que realmente necessitam de seus préstimos.

Quero apenas que tome ciência de que uma de minhas decisões para 2014 é a de não dar segmento à minha coleção da revista "Super-Homem/Superman", mantida há décadas.

Penso em futuramente escrever algo sobre essa vitimização a que você se sujeita atualmente. Mas será na forma de livro. Por ora, é apenas projeto.

Poderia pedir para que mande lembranças a Míriam/Lois Lane. Mas, nesta nova fase, você nem mesmo é mais casado com ela. Outra mudança da tal kryptonita midiática.

Sua coleção fica. As memórias dela também.

Desejando boas histórias, embora um tanto cético quanto a elas,

Paulo Ramos.