Versão completa de reportagem minha publicada em 24.10 na "Folha de S.Paulo"

 

 

A obra “Estórias Gerais” foi rebatizada de “Le Brigand du Sertão”. “Morro da Favela” se tornou “Photo de la Favela”. “Cachalot” perdeu o “e” final. O título de “Copacabana” foi mantido do mesmo jeito na versão editada na França, país onde os quatro álbuns brasileiros estão sendo publicados.

É algo novo e um feito ao mesmo tempo. Novo: trabalhos nacionais até então não eram considerados pelas editoras de lá – no máximo, autores daqui eram contratados para escrever ou desenhar algum álbum. Um feito: trata-se de um mercado editorial gigantesco e de difícil penetração.

Os números falam por si. No ano passado, foram lançadas na França 5.159 obras, segundo levantamento da Associação dos Críticos e Jornalistas de Histórias em Quadrinhos, entidade mantida no país. Pouco mais da metade – 3.882 – trazia material inédito.

“Copacabana” será um dos trabalhos novos deste ano a engrossar as estatísticas do mercado francês de quadrinhos. O álbum começou a ser vendido em setembro, publicado pela Warum. A capa e os dados da versão francesa já constam no site da editora.

Lançada no Brasil em 2009 pela Desiderata e ambientada no Rio de Janeiro, a obra mostra fragmentos da vida de prostitutas e de figuras urbanas do bairro de Copacabana. Os desenhos são de Odyr Bernardi. O roteiro foi assinado pelo gaúcho S. Lobo, 44, responsável pelo contato com a editora francesa, intermediado por uma conhecida.

Na leitura de Lobo, a produção nacional alcançou um nível de qualidade internacional. A inserção no mercado europeu seria uma consequência natural disso. Mas o fato de a história ser ambientada no bairro carioca com maior apelo turístico fora do país teria ajudado a fechar o negócio.

“Tenho certeza de que isso foi decisivo. Pensei muito nisso antes de dar nome ao álbum, queria um título que melhorasse as possibilidades dele no exterior”, diz. “Mas me parece que o mercado francês se interessa por temas sociais, como prostituição, favela e afins, o que ajudou bastante.”

A publicação de “Morro da Favela”, de André Diniz, 39, ajuda a comprovar a tese. Ambientado numa das favelas cariocas, o álbum faz uma biografia em quadrinhos do fotógrafo Maurício Hora. Publicado no Brasil em 2011, ganhou versão francesa há dois anos. O trabalho foi apresentado à editora por e-mail.

A obra conseguiu boa repercussão na mídia europeia. As resenhas, reportagens, entrevistas e vídeos sobre o livro são sistematicamente citados no site da francesa Des Ronds dans l´O Éditions, que publicou o trabalho. O autor foi convidado a divulgar o álbum no país. Ganhou até exposição.

A passagem pelo exterior exigiu também um esforço pessoal. Diniz usou parte da venda de um carro e de um apartamento para investir num curso de língua francesa e numa viagem à Europa. Deu resultado: já tem apalavrada uma segunda publicação, uma versão em quadrinhos de “O Idiota”, do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881).

“A França é o oposto dos Estados Unidos”, diz o quadrinista. “Eles [os editores franceses] estão realmente interessados pelo que se faz e pelo que se vive fora do país.” Coincidência de datas, poucos meses depois de “Photo de la Favela”, a editora Cambourakis publicou o álbum “Cachalote”, da dupla Daniel Galera e Rafael Coutinho.

No primeiro semestre deste ano, chegou ao mercado francês a tradução de “Estórias Gerais”, trabalho roteirizado pelo mineiro Wellington Srbek, 39, com arte de Flavio Colin (1930-2002). Ambientada no sertão brasileiro, a história retrata o conflito armado entre grupos rivais de jagunços.

“Estórias Gerais” teve três edições no Brasil, a primeira delas independente. Srbek reforça a ideia de que o regionalismo brasileiro ajudou a atrair a atenção para a obra. Não por acaso, a editora do álbum, Sarbacane, destaca em seu site a proximidade da história com elementos dos romances de Jorge Amado (1912-2001).

“É o reflexo de um interesse renovado pelo Brasil e pelas particularidades de nosso país no exterior. Reflexo também da alta qualidade das histórias em quadrinhos que produzimos por aqui e que têm sido descobertas pelas editoras locais e agora estrangeiras.”