17.11.12

O ponto de vista indígena

 

  • Álbum reconta histórias de tribos brasileiras sob o ponto de vista do índio
  • Obra é resultado de passagem do autor, Sérgio Macedo, por tribos de Mato Grosso
  • "Povos Indígenas em Quadrinhos" começa a ser vendido na semana que vem

 

Povos Indígenas em Quadrinhos. Crédito: Zarabatana Books

 

Um projeto antigo do quadrinista Sérgio Macedo sai do forno na semana que vem. Trata-se da história de tribos brasileiras narradas pelo ponto de vista do próprio índio.

"Povos Indígenas em Quadrinhos" (Zarabatana Books, 88 págs., R$ 51) é resultado de impressões e relatos coletados dos próprios protagonistas do álbum.

Macedo conviveu por alguns meses com índios da aldeia Kayapó Metyktire, localizada em Mato Grosso. Lá, entendeu melhor o papel e a realidade daqueles povos.

A experiência, vivida em 1987, somou-se a outros dados. A outros dados e às pesquisas visuais, que ajudaram na composição dos desenhos realistas, marca principal do autor.

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O álbum inicia com uma história universal do povos indígenas. Da Idade do Gelo até as aldeias atuais. Dos primeiros habitantes americanos à realidade brasileira contemporânea.

Os capítulos que se seguem recontam as histórias das tribos Yanomami, Xavante, Kayapó, Suruí e Panará. Tudo pelo viés do olhar indígena.

Este é o terceiro álbum que Macedo lança no Brasil. O primeiro, "O Karma da Gaargot", foi publicado em 1973. No ano seguinte, o autor se mudou para a Europa.

Na França, assinou 15 álbuns, alguns deles traduzidos nos Estados Unidos. Macedo se estabeleceu, depois, no Taiti, onde morou por mais de 25 anos. Retornou em 2007.

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Foi nessa volta ao Brasil que Macedo cometou pela primeira vez sobre o projeto de "Povos Indígenas em Quadrinhos". Na ocasião, aventou-se que seria lançado pela Devir.

A ligação com a Devir é porque foi a editora que lançou o segundo álbum do autor no país, "Xingu!", também em 2007. No mesmo ano, Macedo foi homenageado no Troféu HQMix.

As voltas para tornar a obra real são um dos temas desta entrevista com Macedo, feita por e-mail. As respostas foram escritas de Juiz de Fora (MG), onde cresceu e está atualmente.

Ele faz só um pedido: a cópia das respostas na forma como foram escritas. "Estou cansado de ter tido frases minhas transformadas e, consequentemente, distorcidas em relação ao sentido original." Seguem as respostas. Na íntegra.

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Blog - Começo justamente pelas dificuldades de publicar a obra no Brasil. Lembro-me de você tê-la comentado na última vez em que conversamos e que seria publicada, na ocasião, pela Devir. O que mudou?
Sérgio Macedo
- Sim, era esse o projeto inicial. Então, fui para a Bahia e me estabeleci no litoral, perto de Itacaré. Como tinha vivido décadas fora do Brasil, aproveitei para curtir as belezas do Patropi e, durante muito tempo, deixei de lado a HQ em geral. O surf de Itacaré é lixo (falo da qualidade das ondas) em comparação com o surf nas ilhas do Pacífico e suas ondas sobre bancadas de coral, mas a galera baiana é muito legal e, junto com o calor e a beleza natural da região, me diverti um bocado. A Bahia tem muita beleza e, longe dos centros urbanos, as pessoas são muito mais humanas, gentis, alegres e comunicativas. Quando recomecei a trabalhar, enviei mensagem ao Douglas [Quinta Reis, diretor editorial], da Devir, comunicando o projeto e perguntando a disponibilidade da editora para publicá-lo. Como não houve retorno, escrevi novamente. Mesmo resultado. A gente sabe que a net não é infalível, e tentei mais uma vez. Não tive resposta, me toquei que não havia interesse, e decidi procurar outra editora. Fui a Sampa, e um amigo desenhista me levou na editora DCL. O diretor, Raul Maia, foi muito legal e decidiu publicar o livro. Fechamos negócio, voltei para a Bahia, e continuei a desenhar as HQs do livro. Quando quase tudo estava pronto, a editora literária me comunicou que o livro não poderia ter imagens de índios nus... Quase um ano depois do contrato assinado e da equipe editorial ter visto uns 40 originais onde não faltavam índios nus. Ah, Brasil!... Isso desencadeou problemas consecutivos e, quando um grafista da editora modificou digitalmente várias imagens, decidi partir para outra. O que se seguiu foi uma série de contatos, envio dos arquivos do livro pela net, até que Claudio Martini, [editor da] Zarabatana Books, decidiu publicar o livro.
(Se você quiser, posso fazer um histórico da saga-editoras e das peripécias que rolaram, como quando na Abril Educação, após aprovação da diretoria, comitê editorial e etc, rolou um veto do setor jurídico logo antes que assinássemos o contrato, pois eu propus uma cláusula em que haveria uma contribuição financeira (como se passa agora com Zarabatana) do autor e do editor para os índios retratados na obra).
 
Blog -Quando exatamente você começou a produzir a obra e quando a terminou?
Macedo
- Nos anos 80. A página sobre a Hutukara Associação Yanomami [no final da obra], feita a pedido dos Yanomami, foi finalizada poucos dias antes da impressão do livro.
 
Blog - O livro mostra o lado dos índios e caracteriza como maus, por assim dizer, todos os invasores e políticos responsáveis por programadas indígenas. Isso não pode gerar algum questionamento de que o outro lado não teria sido ouvido?
Macedo
- Cuidado para não cair na armadilha maniqueísta judaico-cristã e seus conceitos de bom e mau. A TV e demais mídias brasileiros, instrumentos dos interesses econômicos das multinacionais e dos lobbies nos bastidores do governo, inculca na cabeça do povo noções absolutamente falsas e errôneas sobre os povos indígenas, e a infeliz política atual da Funai é coptar as lideranças indígenas a aceitar o jogo dos brancos, a enfraquecer sua cultura (a instalação de televisões nas aldeias é uma ferramenta para isso) a fins de que eles não oponham resistência à corrupção que impera na sociedade nacional. Convivi com garimpeiros, posseiros, caçadores, empregados de fazendas, aviadores que levavam garimpeiros nas terras indígenas, etc, conheço os dois lados e vejo bem que a grande maioria desses invasores está na necessidade e busca, antes de mais nada, a sobrevivência. Eles não têm noção correta do impacto de suas ações sobre o povo indígena. Quanto aos latifundiários, empresários e grupos econômicos que os manipulam, a realidade é outra, assim como a ausência de intervenção efetiva do governo, que tem, no mínimo, a obrigação de respeitar os direitos humanos. É claro, alguém que vive na cidade, mesmo com a maior dose possível de informação adquirida nos centros urbanos, não compreende nem de longe o que se passa na mata e nas terras indígenas.
 
Blog - Sérgio, para encerrar, queria saber o que o motivou a retornar ao Brasil e a se estabelecer em Juiz de Fora. E com quantos anos está hoje?
Macedo
- Após mais de 33 anos no exterior, eu ainda lembrava das maravilhas naturais do Brasil, e voltei para revivê-las. Nunca me estabeleci em Juiz de Fora, que é uma das cidades mais caretas e tristes desse planeta. No ano passado, vim a Juiz de Fora visitar minha mãe. Uma manhã, praticando corrida a pé numa trilha de fazenda, fui picado por uma cascavel. Estava longe de tudo, foram 4 horas até ser socorrido na cidade, e quase fui para o outro mundo. Mas vaso ruim não quebra à toa, e ainda continuo vivo. Mas a recuperação foi muito longa, e acabei ficando no sítio dos meus pais. Mas meu projeto é voltar para as ilhas do Taiti, cuja realidade é paradisíaca em comparação com a do Brasil. Mas tenho alguns projetos HQ a finalizar antes disso. Nasci no 8-4-51, tenho 61 anos (os dados biográficos estão no livro). Allright, Joe?

Escrito por PAULO RAMOS às 11h18
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14.12.11

FIQ no circuito internacional

 

  • Festival Internacional de Quadrinhos supera público de principal evento dos EUA
  • Número levou o encontro brasileiro a ser citado em site norte-americano
  • FIQ foi realizado em novembro, em Belo Horizonte, e reuniu 148 mil pessoas

 

FIQ 2011. Crédito: site do evento

 

O site norte-americano "Bleding Cool" fez uma comparação no início desta semana. Pôs lado a lado o público da principal convenção de quadrinhos de lá com o nosso FIQ.

Placar: a San Diego Comic-Con recebeu 130 mil pessoas. O Festival Internacional de Quadrinhos, realizado mês passado em Belo Horizonte, 148 mil. Dezoito mil a mais.

O site traz uma espécie de conclusão sobre o assunto no título da nota: "a maior convenção na América... é na América do Sul?".

A ser pautar pelos números, parece que sim.

                                                         ***

Há quem relativize esses dados. Um dos argumentos é que na San Diego a entrada é paga e no FIQ, não. Mas há também o contra-argumento: uma ocorreu nos EUA, outra no Brasil.

E, sabe-se, os norte-americanos têm uma indústria de quadrinhos bem mais consolidada que a nossa, que vê um ensaio disso apenas via Estúdios Mauricio de Sousa.

Para Afonso Andrade, coordenador do FIQ deste ano, o objetivo do festival não é ser o maior evento de quadrinhos. A proposta é que o encontro traga "boas consequências".

Um espaço acessível a crianças, velhos leitores, jovens talentos, artistas veteranos.  Na entrevista a seguir, feita por e-mail, ele detalha como vê essa repercussão fora do país.

                                                          ***

Blog - Como você viu os números comparativos da San Diego com os do FIQ?
Afonso Andrade -
Já sabíamos desses números. Comparações são difíceis e perigosas. São eventos bem diferentes. A San Diego Comic-Con é um evento da indústria do entretenimento, principalmente americana, com forte presença dos grandes estúdios e conglomerados. Seu foco está na divulgação dos produtos desta indústria. O FIQ é um evento de quadrinhos, gratuito, realizado por um órgão público (Prefeitura de Belo Horizonte),  com recursos púbicos, diretos ou através de incentivos. O festival busca trazer ao público uma mostra da produção de quadrinhos no Brasil e no mundo, apresentando diversos  subgêneros e estilos.

Blog - Os números ajudam de que forma na consolidação do festival?
Andrade -
Reafirmam a importância do festival para o setor de quadrinhos, como o grande "ponto de encontro" daqueles que produzem ou se interessam por essa área. Devemos lembrar que grande parte destas 148 mil pessoas que passaram pelo festival em seus cinco dias é composta por leitores não habituais ou mesmo quem não leem quadrinhos. A formação de leitores e a promoção da leitura dos quadrinhos são dois dos focos principais do FIQ. Outro ponto importante é que o evento começa a chamar a atenção fora do Brasil, favorecendo as possibilidades de intercâmbio.  
 
Blog - Isso de alguma forma faz vocês aventarem a possibilidade de o evento ser anual?
Andrade
- Dificilmente. Organizar um evento do porte do FIQ anualmente é inviável. Para que o evento aconteça com qualidade e com os recursos  financeiros adequados, precisamos de dois anos. A Prefeitura de Belo Horizonte, nos anos em que não acontece o FIQ, como agora em 2012, realiza outro grande festival internacional, o FIT - Festival Internacional de Teatro -, que, em 2010, teve um público de cerca de 150 mil pessoas em dez dias de evento. Realizar o FIQ anual também implicaria no festival acontecer em anos de eleições municipais, o que prejudica muito a divulgação e a realização de eventos públicos, em virtude das restrições da legislação eleitoral. Mas o 8º FIQ, em 2013, já está sendo planejado.

                                                          ***

Nota: entre uma postagem e outra, acompanhe o noticiário de quadrinhos pelo Twitter, no @blogpauloramos.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h45
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27.05.11

Vigor Mortis: terror, teatro e quadrinhos

 

  • "Vigor Mortis Comics" recria situações ambientadas inicialmente em peças de teatro
  • Obra foi produzida a seis mãos por José Aguiar, DW Ribatski e Paulo Biscaia
  • Álbum dialoga com gênero terror e tem lançamento neste sábado em São Paulo

 

Vigor Mortis Comics. Crédito: editora Zarabatana

 


Há um diálogo plural entre as linguagens do teatro e das histórias em quadrinhos em "Vigor Mortis Comics", álbum que tem lançamento neste sábado à tarde em São Paulo.

A obra faz criações livres baseadas em situações vividas inicialmente nos palcos pela companhia de teatro curitibana Vigor Mortis.

Dirigido por Paulo Biscaia, o grupo já flertava com as HQs desde 2004, ano em que produziu a peça "Morgue Story - Sangue, Baiacu e Quadrinhos" (já levada ao cinema).

O flerte virou namoro em montagens seguintes e, por fim, chegou a este casamento em papel, que funde um pouco das duas linguagens.

                                                        ***

A obra (Zarabatana, 112 págs., R$ 30) foi produzida por meio de verba de incentivo cultural e foi encabeçada por Biscaia e os quadrinistas José Aguiar e DW Ribatski.

A participação dos dois desenhistas é coerente com o passado da companhia. Foram deles as participações dos quadrinhos nas montagens da companhia teatral.

Foi DW quem imaginou o morto-vivo Osvald na peça de 2004. E veio de Aguiar a ambientação em quadrinhos de "Graphic", iniciada em 2006.

A seis mãos, o trio imaginou oito contos curtos sobre personagens ou cenas encenadas nos palcos. Em comum, o diálogo com as peças e o verniz de terror dado às histórias.

                                                         ***

O terror é visto nos personagens - caso específico de Osvald - e em parte das situações. Algumas, é verdade, chegam a extrair humor. Negro, mas ainda assim humor.

A leitura não exige um conhecimento prévio das peças de Biscaia para ser compreendida. Mas ter assistido a alguma delas ajuda a estabelecer as intenções referências com elas.

A arte é alternada por DW e Aguiar, já envolvidos com outros trabalhos: o primeiro finaliza um álbum para a Quadrinhos na Cia.; o segundo, uma adaptação de "Dom Casmurro".

A releitura do romance de Machado de Assis será feita para a novata editora Nemo, que guarda as imagens da obra a sete chaves (embora o blog tenha tentado, registre-se).

                                                         ***

O blog conversou com José Aguiar sobre a adaptação machadiana e a respeito de "Vigor Mortis Comics", que já teve um primeiro lançamento em Curitiba.

O desenhista comentou também sobre o Gibicon, encontro de quadrinhos que será realizado na capital paranaense em julho e do qual participa da organização.

A conversa, feita por e-mail, tem início com o assunto mais atual, o álbum sobre as peças dirigidas por Paulo Biscaia.

E também acerca do papel que teve nas encenações teatrais.

                                                         ***

Blog - Queria entender como começou seu relacionamento profissional com a companhia de Paulo Biscaia.
José Aguiar -
Eu conhecia o Biscaia de fama. Ele era professor na FAP, onde foi professor de minha esposa no curso de teatro. Assisti às suas primeiras peças e tínhamos amigos em comum. Um inclusive uma vez disse: "Vocês tem que se conhecer".  Mas só nos víamos de longe. Quando assisti a "Morgue Story - Sangue, Baiacu e Quadrinhos", em 2004, saí tão empolgado que escrevi para ele falando de como aquele espetáculo que misturava teatro com cinema, quadrinhos, música e vídeo rompera com o que eu achava ser possível no palco. Passamos a nos corresponder de vez em quando e, em 2006, ele me chamou para colaborar na peça Graphic. Em Graphic, surgiu o personagem Artie, um ex-aluno de oficina de quadrinhos que se tornou um frustrado desenhista de manual de instruções. Ele criou um personagem chamado de Homem-Sombra, um amontoado de clichês de quadrinhos de super-heróis. Eu fazia os desenhos dele, que eram projetados no palco. Nessa mesma peça o DW fazia os desenhos de outra personagem que frequentou a mesma oficina e acabou em meio a gráficos financeiros. Sem falar que ele já tinha criado Osvald – O Morto-Vivo para a peça "Morgue Story". Como ele era criação de uma quadrinista bem-sucedida, tínhamos uma oposição de personagens bem bacana e que dava base para um universo coeso. Biscaia já fazia isso sutilmente ao colocar referências comuns a lugares, personagens e situações em seus espetáculos. E decidimos lapidar isso juntos. A partir do sucesso desse espetáculo, passamos a discutir a ideia de migrar o elenco daqueles espetáculos para o papel. Chegamos à conclusão de que os quadrinhos poderiam ser uma maneira de mostrar um lado desse universo que seria impossível nos palcos. Uma maneira de dar sobrevida aos personagens.

 

Vigor Mortis Comics. Crédito: editora Zarabatana

 



Blog - E o de DW? Ainda sobre DW: ele foi um de seus alunos de desenho?
Aguiar
- O DW era uma figura folclórica na Gibiteca de Curitiba quando era adolescente. Fanzineiro que vivia lá o tempo todo com seus amigos hiperativos e produtivos. Eu dava aulas na Gibiteca e sempre conversava com ele e lia seus zines. Nessa época, ele ficava num sofá assistindo às minhas aulas à distância e, claro, sem se matricular. Até que um dia o chamei para ser meu assistente no curso. Como ele havia criado o Osvald - O Morto Vivo para a peça Morgue Story, era inevitavel que ele fosse parte do projeto dos quadrinhos. Ele foi uma presença que acrescentou muito, mesmo a distância, pois hoje ele mora em São Paulo. Mas, no fim do processo, passamos uma semana juntos trabalhando na última HQ do livro. Estilo de traços e métodos de trabalho completamente diferentes. Enfim, foi muito legal experimentar junto dele.  Creio que a soma de nossos estilos tão distintos é um dos charmes do livro.
 
Blog - O álbum registra que os roteiros são seus e de Biscaia. Como foi dividida a autoria das histórias?
Aguiar -
Biscaia e eu nos encontrávamos semanalmente para falar da vida, de filmes trash, quadrinhos, teatro para disso bolar ideias para os textos. Escrevíamos literalmente a quatro mãos. Quando um parava, outro assumia o lap top, reescrevia o que já havia sido feito. Foi um processo muito fluido. Mais tarde, DW acrescentou elementos nas HQs que desenhou: alterou frases, inseriu ou cortou quadros. Isso porque eu queria que não parecesse uma HQ de encomenda para ele, mas que fosse algo que ele se sentisse à vontade, porém desafiado a fazer. A única HQ que difere um pouco dessa lógica foi Ursula Unchained, em que criei toda a sequência narrativa antes do texto. Paulo [Biscaia] escreveu a primeira versão sobre as imagens e eu retrabalhei esse texto para a versão final. Enfim, o livro foi um processo muito livre de criação para todos.

Blog - O resultado final tem muito de terror. A proposta foi essa mesmo?
Aguiar -
Desde o início era o que queríamos. Em nossa primeira reunião, Paulo e eu listamos uma série de "medos modernos" que queríamos que fossem a base dos roteiros: solidão, estupro, fracasso, lendas urbanas... Não estávamos interessados em terror clássico. A não ser como referência. Queríamos algo contemporâneo, urbano. Inclusive a ideia de imprimir em vermelho e preto é uma alusão aos jornais sensacionalistas, aqueles que você "expreme e sai sangue". Mas creio que o livro não é só isso. Ele também é repleto de humor. Meio negro, claro.

 

Vigor Mortis Comics. Crédito: editora Zarabatana

 

 
Blog - José, é a segunda obra sua que leio - a primeira foi "Quadrinhofilia", da HQM - que fico espantado com a mudança de estilos que você apresenta em cada uma das histórias, como se fosse um camaleão do desenho. Como você transita entre um estilo e outro e qual a opção pelo uso de cada um? 
Aguiar -
Às vezes não sei se esse é um mérito, mas gosto de me adaptar ao que pede cada roteiro. Em "Vigor Mortis Comics", eu tinha a liberdade total (pois era meu próprio editor) e a responsabilidade de fazer o melhor livro possível com os recursos de um edital público. No caso das HQs com Artie e o Homem-Sombra, eu tinha dois mundos. O dele e o de sua imaginação, mais rico e dinâmico. Isso facilitava as escolhas estéticas. Mas, no fim, o que muda mais nesse livro não é tanto o traço, mas a forma de acabamanto dos desenhos.  Há o uso de texturas, retítulas, gradientes, variações de tonalidade. Em cada HQ, há uma pequena variante dessas soluções. Brinquei com as limitações de usar apenas duas cores. Tudo isso cria atmosferas. Inclusive é o que dá um puco da liga que une meus traços com os do DW. 
 
Blog - Noticiei na semana passada a nova leva de títulos da editora Nemo e lá consta sua participação na adaptação de Dom Casmurro. Em que etapa está a adaptação e como você pretende resolver visualmente o enigma sobre a suposta traição de Capitu?
Aguiar -
  Estamos trabalhando para lançar o livro no segundo semestre. E, sobre o enigma de Capitu, isso eu não posso contar. Mas confesso que essa danada esta me dando dor de cabeça. Sem falar que grande parte do mérito virá do texto do Wellington Srbek, que está fazendo uma bela homenagem ao texto original.

Blog - E o GibiCon? Já é possível dizer quais são os convidados nacionais e estrangeiros confirmados?
Aguiar -
A Gibicon está prestes a explodir. O site está em fase de teste e em breve iremos divulgar a programação. Será um evento rápido, porém intenso. Mas, como dependemos de alguns apoiois a serem confirmados, tenho que segurar as informações dos conviados e a programação até começo de junho. Depois, você irá ter informações a todo momento.

                                                         ***

Serviço - Lançamento de "Vigor Mortis Comics". Quando: sábado (28.05). Horário: a partir das 14h. Onde: loja Comix. Endereço: alameda Jaú, 1.998, São Paulo. Quanto: R$ 30. 

Escrito por PAULO RAMOS às 17h47
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26.05.11

Páginas de uma carreira bem-sucedida

 

  • Renato Guedes lança livro com ilustrações suas nesta sexta-feira em Porto Alegre
  • Obra foi produzida de forma independente pelo autor, especializado em super-heróis
  • Desenhista atua no mercado norte-americano e atualmente trabalha com Wolverine

 

Artbook de Renato Guedes. Crédito: imagem cedida pelo autor

 


Num encontro de quadrinhos no último sábado, em São Paulo, o nome de Renato Guedes foi mencionado numa das mesas.

O registro era que o desenhista paulistano pertencia a uma segunda geração de autores brasileiros que conquistaram espaço na disputada indústria norte-americana de quadrinhos.

De fato, Guedes chegou depois de Mike Deodato, Marcelo Campos e outros criadores daqui. Mas nem por isso deixou de ocupar espaço por lá.

Hoje, figura entre os principais nomes da arte de histórias de super-heróis dos Estados Unidos. Uma trajetória que relembra, agora, na forma de um livro com ilustrações suas.

                                                         ***

Nas palavras de Guedes, o livro tem "um pouco de tudo". Passa pelas capas de revistas norte-americanas, pelo processo de criação dos desenhos, por uma galeria com cénários.

O "artbook" une os leitores pela linguagem universal do desenho. Na parte verbal, no entanto, priorizou os que dominam o inglês, forma de viabilizar a publicação fora do país.

Tanto que o primeiro lançamento foi feito na Colômbia. Só então fez a segunda sessão de autógrafos, em São Paulo, no começo do mês. Com casa cheia, segundo ele.

O terceiro lançamento será nesta sexta-feira à noite em Porto Alegre (164 págs., R$ 40).

                                                         ***

O desenhista imprimiu 1.500 cópias, pagas do próprio bolso. Tem planos de fazer novas sessões de autógrafos na Argentina, na França e, talvez, em outras cidades brasileiras.

O eco de seu trabalho no exterior é consequência da popularidade conquistada com a arte em revistas de super-heróis.

As de maior projeção foram as da DC Comics, casa de Super-Homem, personagem que chegou a desenhar. Outras publicações ligadas ao herói também passaram por suas mãos.

Não é por acaso que a capa do livro ilustrado tenha o herói e a prima dele, Supermoça, como destaques.

 

Wolverine, por Renato Guedes. Crédito: imagem cedida pelo autor 

 

Em busca de novos ares, trocou a DC pela concorrente Marvel Comics, editora de Homem-Aranha e X-Men. Na nova empresa, desenha a revista mensal do popular Wolverine.

Guedes mantém um contrato de exclusividade por dois anos. Situação bem mais confortável que o começo nos EUA, em 2002, viabilizado pela agência Art & Comics. 

Ao longo dos anos, foi saltando de títulos secundários para os mais importantes da DC. E passou a deixar também sua marca neles, tanto no estilo quanto nas referências.

São comuns, em sua arte, desenhos de personalidades brasileiras. "Faço isso o tempo todo. Adoro fazer esse tipo de brincadeiras", diz. "Está cheio de mensagens submilinares."

                                                         ***

Nada subliminar - bem mais concreta, diga-se - é sua rotina de trabalho para manter o ritmo dos prazos apertados da indústria editorial de super-heróis.

"Essa é uma luta eterna de disciplina e procrastinação. Tento começar às 10 da manhã e termino quando termino a meta, que me proponho durante o dia."

"Mas geralmente são muitas horas de trabalho diário. Dificilmente menos de dez horas diárias!". Exceto nos dias de lançamento, quando dá voz a seu trabalho de outra forma.

"Eu sempre gostei muito de artbooks, tenho de vários artistas, de filmes, desenhos animados. Então pensei, ´se gosto tanto de artbooks, por que não fazer o meu?´".  

                                                         ***

Serviço - Lançamento de artbook de Renato Guedes. Quando: sexta-feira (27.05). Horário: 21h. Onde: Quanta Academia de Artes. Endereço: Rua Coronel Camisão, 100, bairro Higienópolis, Porto Alegre. Quanto: R$ 40. Onde encontrar: na Quanta e, on-line, via e-mail renatoguedesartbook@gmail.com (com Regina). 

Escrito por PAULO RAMOS às 17h17
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19.05.11

Nova editora de quadrinhos na praça

 

  • Nemo pretende lançar obras nacionais e álbuns europeus de Moebius e Hugo Pratt
  • Primeiros trabalhos da editora estão programados para a virada do semestre
  • Linha de quadrinhos é coordenada pelo roteirista e pesquisador Wellington Srbek

 

Corto Maltese - A Juventude. Crédito: editora Nemo

 

Ciranda Coraci. Crédito. editora Nemo

 


De quando em quando, surge alguma surpresa no meio editorial. A deste mês é o surgimento de uma nova editora de quadrinhos, a Nemo.

A notícia surgiu na última segunda-feira. No fim da manhã, a assessoria de imprensa apresentava o selo editorial por meio de um release, texto padrão divulgado à imprensa.

O e-mail listava mais de dez títulos, europeus e nacionais. Dos estrangeiros, marcava a volta da série italiana "Corto Maltese" e anunciava trabalhos do desenhista francês Moebius.

Os nacionais ajustavam o foco em adaptações literárias e em fatos e eventos históricos narrados na linguagem dos quadrinhos.

                                                         ***

Os releases, como dita o bom jornalismo, são apenas um pontapé inicial de uma reportagem. Um telefonema à assessoria da editora revelou mais alguns detalhes.

Os primeiros lançamentos estão programados para julho. O contato reforçou outra informação, já antecipada pelo e-mail: o nome de quem teria todas as informações.

A pessoa em questão é o mineiro Wellington Srbek, que irá atuar como editor da Nemo. Srbek deveria dispensar apresentações entre os leitores de quadrinhos.

Ele foi roteirista de uma série de trabalhos, entre eles o álbum "Estórias Gerais", desenhado por Flavio Colin. Doutor em educação, também tem livros publicados sobre quadrinhos.

                                                          ***

O agora editor Wellington Srbek confirma o conteúdo do release. A programação da Nemo irá se pautar em quatro coleções e duas séries.

Uma das séries, "Mitos Recriados em Quadrinhos", terá inicialmente dois trabalhos, "Ciranda Coraci" e "O Senhor das Histórias", ambos produzidos por Srbek e pelo desenhista Will.

A outra série será centrada nas histórias de "Corto Maltese", criadas pelo italiano Hugo Pratt (1927-1995) e publicadas pela última vez no país pela editora Pixel entre 2006 e 2008.

O álbum de estreia, "Corto Maltese - A Juventude", é inédito no Brasil.

                                                          ***

Um das quatro coleções também trará material europeu. Ela irá publicar histórias produzidas pelo francês Moebius, um dos nomes mais importantes dos quadrinhos europeus.

O primeiro álbum será "Arzach", um dos primeiros da editora que devem chegar ao mercado de livrarias e lojas de quadrinhos. O segundo, "Pesadelo Branco & Outras Histórias".

As demais coleções se dividem entre fatos históricos e adaptações literárias.

São duas áreas que tiveram um aumento no volume de publicações por conta das pomposas compras do governo federal via PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola).

                                                         ***

Entre as adaptações, algumas já têm os autores definidos. Srbek e José Aguiar assinam uma versão do romance "Dom Casmurro", de Machado de Assis (1839-1908).

A leitura do texto machadiano era um projeto que ele mantinha desde o ano passado, como o blog noticiou em postagem de 9 de fevereiro de 2010.

Os demais integram uma coleção à parte, baseada em versões de textos literários do inglês William Shakespeare (1564-1616).

A lista conta com adaptações de "Romeu e Julieta", "Sonho de uma Noite de Verão", "Otelo", "Hamlet", "Macbeth", "Rei Lear" e "A Tempestade".

                                                         

Arzach. Crédito: editora Nemo

 


Wellington Srbek confirma mais algumas informações. Uma delas é que há outros títulos europeus em pauta. Uns são de Moebius. Os demais, ele não revela quais são.

O álbum de Moebius e o nacional "Ciranda Coraci" devem encabelçar a lista de lançamentos na virada do semestre. Parte dos demais fica para os meses seguintes.

Outra novidade é que os trabalhos nacionais estarão disponíveis também em versão digital, para leitura nas plataformas iPad e iPhone.

Nesta entrevista, feita por e-mail, ele conta um pouco mais sobre o projeto da Nemo e como passou a ser o editor do catálogo, mantido pelo grupo editorial Autêntica.

                                                          ***

Blog - Como surgiu a oportunidade de atuar na editora? 
Wellington Srbek -
Resumindo, a editora de livros infantis do Grupo Autêntica, Sônia Junqueira, entrou em contato comigo para conversarmos sobre um livro, pois ela já conhecia meu trabalho de pesquisa e produção de quadrinhos. Comentei então sobre meu roteiro para a adaptação de "Dom Casmurro", que estava praticamente finalizado na época. Mandei as primeiras páginas do roteiro para a Autêntica e eles gostaram bastante. Então, fui chamado para uma reunião na editora, pois Rejane [Dias, diretora editorial] e Arnaud [Vin, diretor-executivo] já planejavam lançar uma editora de quadrinhos. Neste caso, para minha felicidade, eu estava no lugar certo, na hora certa.
 
Blog - Qual é a intenção da editora? 
Srbek
- A intenção é publicar e produzir quadrinhos de alta qualidade, com boa produção gráfica e a preços acessíveis. Queremos trazer para o mercado brasileiro obras de grandes nomes dos quadrinhos internacionais e também valorizar a produção nacional.
  
Blog - Vendo a lista de obras programadas, vê-se um diálogo com clássicos franceses de Moebius e do italiano Pratt e obras nacionais. As nacionais são voltadas a adaptações ou apresentam viés histórico. O olhar desses trabalhos sugere um interesse editorial nas listas do governo de compra de quadrinhos. Como foi a discussão desse assunto com a editora? 
Srbek -
No caso dos quadrinhos brasileiros, temos três coleções principais em produção: "História & Quadrinhos", com HQs sobre importantes momentos de nossa história, "Shakespeare em Quadrinhos", com as principais peças do autor inglês, e "Versão em Quadrinhos", que trará adaptações como Dom Casmurro, de Machado de Assis. Em todas elas, nosso objetivo principal é produzir quadrinhos de alta qualidade. Algo que foi uma demanda específica da editora foi a produção de quadrinhos infantis, que deu origem à série Mitos Recriados em Quadrinhos, que são álbuns de 20 páginas, fantasticamente desenhados pelo Will.
 
Blog - Sobre os títulos europeus, há outros interesses na lista?
Srbek -
Com certeza! A própria "Coleção Moebius" não terá apenas dois volumes. E temos muitos outros trabalhos europeus em nossos planos e sendo estudados no momento. Claro que não posso revelar agora o nome de mais nenhum autor ou título...
 
Blog - O objetivo é fazer as vendas onde, em livrarias/lojas de quadrinhos ou em bancas também? 
Srbek -
Neste primeiro ano, estamos lançando as bases de um projeto a longo prazo. Inicialmente, pelo próprio perfil “álbum”, os lançamentos da Nemo estarão à venda em livrarias, lojas de quadrinhos e, é claro, também pela Internet. Sendo que em breve os álbuns nacionais da editora estarão disponíveis em versão digital para iPad e iPhone. 

Escrito por PAULO RAMOS às 12h28
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28.03.11

Obra de realismo fantástico inaugura coleção com HQs argentinas

 

  • "Noturno" abre coleção de histórias argentinas publicadas na revista "Fierro"
  • Obra começou a ser vendida neste fim de mês em livrarias e lojas de quadrinhos
  • Álbum é escrito e desenhado por Salvador Sanz, dono de estilo hiper-realista


 

Noturno. Crédito: editora Zarabatana

 

 

O desenhista Salvador Sanz defende que sua melhor obra é sempre a mais recente. Não seria ela, então, "Noturno", seu penúltimo trabalho produzido na Argentina.

A trajetória do álbum, no entanto, contradiz as palavras do quadrinista. A história é, sem dúvida, seu trabalho mais (re)conhecido. Pelo menos até o momento.

Mede-se isso pela repercussão. Já chegou à Espanha, está pronta para aportar na Itália e chega neste fim de mês ao leitor brasileiro (Zarabatana, 144 págs., R$ 41).

O trabalho inaugura uma série de obras em quadrinhos impressas originalmente na revista "Fierro", a mais importante publicação de quadrinhos da Argentina na atualidade.

                                                          ***

Este número inaugural da "Coleção Fierro" mostra uma história de realismo fantástico, mostrada com uma arte hiper-realista, marcas da produção de Sanz.

O álbum narra os problemas de dois jovens, Lúcio e Lúcia, após descobrirem que são canais de entrada para estranhos seres na forma de enormes pássaros, os tais noturnos.

As enigmáticas aves se valem do corpo dos homens para passar à nossa dimensão. Os dois jovens descobrem, então, que para enfrentarem essa ameaça precisam se unir.

União que se desenhava desde o início da narrativa. Ambos participaram de um mesmo um show de magia. As metamorfoses começaram após a apresentação.

                                                         ***

"Noturno" foi publicada em capítulos na "Fierro", que é publicada mensalmente com quadrinhos de autores argentinos. A história teve início em maio de 2007.

Durou dois anos e dois meses para ser concluída. Foi compilada em álbum em 2009. E se tornou uma janela para o trabalho de Sanz.

Este morador de Buenos Aires, de 35 anos, é hoje um dos mais proeminentes autores da nova geração de quadrinistas argentinos.

Diferencia-se por seguir a escola da ficção científica, iniciada e popularizada nos quadrinhos do país pelo roteirista Héctor Germán Oestrehled, criador da série "El Eternauta".

                                                         ***

Os primeiros trabalhos de Sanz foram no circuito independente. Editou com colegas, durante seis anos, um fanzine chamado "Catzole". Depois, migrou para a animação.

Produziu alguns curtas, como "Gorgonas", outro representante de sua inclinação pelo realismo fantástico, e dois álbuns "Desfigurado" e "Legion".

Hoje, divide os quadrinhos com storyboards e aulas de desenho. Não vive de quadrinhos, como a maioria dos autores da Argentina. "Mas, sim, vivo do desenho", diz. Atualmente, produz outra série para a "Fierro", "Ángela Della Morte".

Às vésperas de ser pai de uma menina, ele arrumou algumas brechas de tempo para responder à entrevista a seguir, feita após uma série de trocas de e-mails.

 

Trecho de Noturno. Crédito: editora Zarabatana

 


Blog - Há um estilo hiper-realista em seus desenhos e uma temática fantástica em seus roteiros. Quando você descobriu essas características para a criação de histórias em quadrinhos?
Salvador Sanz
- Desde sempre gostei do gênero fantástico, é o gênero que sempre me interessou narrar. Ele tem um cenário real, um aspecto reconhecível que o leitor pode identificar. Gosto que a fantasia vá inundando a realidade aos poucos até transbordá-la. Sempre tratei de desenhar de forma realista, um estilo que esteja a serviço da história. Acredito que, em um estilo realista, o elemento fantástico contrasta ainda melhor. Trata-se de representar algo que não existe, desenhado da forma mais realista possível.

Blog - "Noturno" narra uma história entre dimensões. O que você procurou mostrar nessa história em quadrinhos?
Sanz
- Uma das coisas que me interessam no gênero fantástico é que se pode criar um mundo novo, e é algo a que me propus fazer em "Noturno". Imaginei uma estranha fauna de aves inteligentes e o lugar de onde vieram. E logo mostrei a interligação com a nossa realidade. Essa história foi se armando aos poucos na minha cabeça, fui descobrindo episódios e, à medida que os ia publicando, comecei a pensar [a trama] como um todo. Por isso, usei muito improviso no roteiro.

Blog - Você acredita que "Noturno", hoje, seja o seu melhor trabalho?
Sanz
- Em cada obra que trabalho, eu me envolve de forma completa, por isso é que gosto de fazer tudo, o roteiro e os desenhos, É algo muito pessoal e, enquanto faço, perco objetividade e sempre penso que estou produzindo minha obra-prima. No momento em que a vejo editada, posso ver os acertos e os erros do meu trabalho. Mas creio que sempre há uma evolução em meu trabalho, por isso que gosto mais do último. Diria a você que o meu melhor trabalho é "Ángela Della Morte", que é posterior a "Noturno".

Blog - Como é esse novo trabalho para a "Fierro" ["Ángela Della Morte"]? Há planos para ser compilado em livro?
Sanz
- "Ángela Della Morte" é uma nova série de ficção científica com algo de horror que estou publicando para a "Fierro". Trata de uma misteriosa organização que aprendeu a separar a alma do corpo e que pode mudar de corpos como se fossem roupas. Já tenho umas 80 páginas feitas e, em um mês, sai o primeiro livro na Argentina. A ideia é que haja um segundo livro desse personagem, que em breve vai continuar na "Fierro".

Blog - Qual a sua leitura do mercado argentino de quadrinhos de hoje? Está melhor que, digamos, o de dois anos atrás?
Sanz
- Que haja uma revista "Fierro" nas bancas todos os meses publicando os novos autores é algo significativo. Logo surgiram outras revistas mais independentes no formato antologia, como a "Comic.ar" e a "Murcielaga". Há também algumas editoras de narrativas gráficas com autores muito bons, três editoras que editam mangás e outra que lança Marvel e coisas americanas. Não é muito, mas estamos melhor do que os anos 1990.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h09
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17.01.11

Um passeio pela França, sem nunca ter ido lá

 

Todo el Polvo del Camino. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Capa da edição espanhola de "Toute la Poussière du Chemin", obra de Wander Antunes que concorre ao prêmio Angoulême 

 

 

 

 

 

 

 

 

O roteirista brasileiro Wander Antunes nunca foi à França. Mas os leitores de quadrinhos de lá sabem muito quem ele é.

O contato se deu por meio do álbum "Toute la Poussière du Chemin". A obra escrita por ele foi indicada em três premiações francesas, uma delas o Angoulême, a principal da Europa.

O trabalho foi publicado na França no ano passado pela editora Dupuis. Ganhou rapidamente versões na Espanha, Bélgica e Canadá. No Brasil, permanece inédita.

"É sempre bom quando um trabalho é bem recebido - no final das contas acho que uma indicação significa que os leitores, inclusive os jurados dos festivais, estão dizendo sim para o trabalho que leram", diz o roteirista, por e-mail.

                                                        ***

"Toute la Poussière du Chemin" narra a história de Tom, uma das vítimas da Grande Depressão norte-americana, iniciada em 1929 e continuada na década seguinte.

Ele aceita ajudar na busca de um garoto, filho de um homem que havia resgatado num acidente de carro. Ao ver a fotografia do menino, Tom se lembra de ter cruzado com ele quando ambos "roubaram" uma carona num trem.

O uso dos Estados Unidos como pano de fundo para a trama é um recurso já utilizado pelo roteirista em outros trabalhos. Segundo ele, trata-se de uma ligação com a literatura.

"John Steinbeck e Jack London são meus heróis literários, queria me ligar a eles de alguma maneira. ´Toute la Poussière du Chemin´ é uma espécie de homenagem a esses caras."

                                                          ***

Apesar da indicação à seleção oficial do Angoulême, ainda não será desta vez que irá conhecer a Europa. Pretende acompanhar o resultado em Cuiabá, onde mora com a esposa.

Goiano de Jataí, Antunes já teve outros roteiros publicados na França, país que tem um mercado de quadrinhos adultos bastante aquecido.

"Não é que eu produza para o mercado francês, é que eles me compram e editam", diz. "Tenho várias histórias prontas ou meio prontas e as apresento para vários editores, daqui e de lá e de outros países", diz.

"O que fiz, e por isso comecei a produzir para os franceses, foi apresentar minha produção também aos editores de lá. Os franceses dizem sim, basicamente é por isso."

                                                          ***

A seleção editorial não é a única dificuldade a ser superada por ele. Antunes não fala francês. Contorna o problema com o espanhol, língua com a qual escreve os roteiros. O texto, depois, passa por um tradutor. 

O domínio do castelhano ajudou no contato com autores de lá, algo que vem de anos atrás.

Quadrinistas espanhóis eram figuras recorrentes na revista "Canalha", que editou entre dezembro de 2000 e abril do ano seguinte.

A revista da Brainstore durou três edições. Ganhou uma sobrevida em 2003, numa edição especial lançada pela Opera Graphica.

 

O Corno que Sabia demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

"O Corno que Sabia Demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa", álbum lançado no Brasil em 2007 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A "Canalha" tinha como carro-chefe as histórias de "Zózimo Barbosa", detetive de casos extraconjugais criado pelo escritor e um dos motivos para a criação da revista.

As histórias que circularam na publicação - e outras, produzidas depois - foram reunidas em 2007 no álbum "O Corno que Sabia Demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa".

Foi a última aparição do personagem. O roteirista planeja o retorno dele no livro "Chanchada Noir". "Mas é prosa, como HQ o Zózimo acabou."

O álbum de Zózimo foi um dos poucos lançados por Antunes no Brasil. Ele havia publicado por aqui "Crônicas da Província", em 1999, e "A Boa Sorte de Solano Dominguez", em 2007. Ambos foram desenhados por Mozart Couto.

                                                          ***

O ano de 2011 marca um retorno dele aos álbuns nacionais. Antunes assina a adaptação do romance "Clara dos Anjos", de Lima Barreto (1881-1922).

A obra será publicada pela Companhia das Letras e é desenhada por Lélis, outro brasileiro que tem se inserido no mercado francês de quadrinhos.

O roteirista diz ter também outros textos que pretende apresentar a editoras. E um "projeto secreto", feito em parceria com outro brasileiro.

Nesta entrevista, ele comenta os trabalhos presentes, passados e futuros, e fala das parcerias, como a que teve com o espanhol Jaime Martin em "Toute la Poussière du Chemin".

                                                          *** 

Blog - No seu entender, a participação de Jaime Martin ajudou de alguma forma na repercussão do álbum na Europa?
Wander Antunes
- O Jaime é um nome já bastante conhecido, sobretudo na Espanha, ele é muito talentoso e é muito querido por lá - além de ser a pessoa mais fácil de lidar com quem já trabalhei. A participação dele foi determinante. Ah, importante, só realizei esse trabalho para a Dupuis porque o Jaime me convidou. Ele é que é o cara.

Blog - Como foi o convite de Jaime Martin para roteirizar o álbum? 
Antunes
- Ele havia feito seu primeiro álbum para a Dupuis, "Ce que le Vent Apporte", e queria relaxar um pouco de escrever e desenhar. Daí me convidou para desenvolver algumas ideias que já tínhamos esboçado nos dois últimos números de "El Víbora". Por isso esse caráter episódico de "Toute la Poussière du Chemin", com uma história principal, a do Tom buscando o menino, e os vários pequenos contos ao longo da busca. Eu tinha uma série de histórias curtas que se transformaram numa HQ longa.

Blog - No terceiro número da revista "Canalha", criada e editada por você, havia uma história dele. O contato surgiu daí?
Antunes
- Sim, meu contato com o Jaime vem desde os tempos da "Canalha". Desde então temos falado sobre um trabalho conjunto, chegamos a publicar duas histórias curtas nos dois últimos números de "El Víbora" [revista espanhola de quadrinhos].

 

Canalha 1. Crédito: reprodução   Canalha 2. Crédito: reprodução

 

Canalha 3. Crédito: reprodução   Canalha Especial. Crédito: reprodução


 

Blog - Por que a "Canalha" não deu certo naquele momento? Há planos de algo nesse sentido? 
Antunes
- Sei lá, talvez o tempo das revistas tenha passado. Se eu pretendo editar outra vez? Acho que não.
 
Blog - Ainda falando da "Canalha", você comenta na apresentação da primeira edição da revista, de dezembro de 2000, que o mercado brasileiro de quadrinhos de então "ia mal (vai mal!)". Dez anos depois, sua opinião permanece a mesma? 
Antunes
- Acho que o cenário ainda é ruim, talvez um pouco melhor que há dez anos. O fato novo são as compras governamentais, que tem ajudado a movimentar o setor. Enfim, segue um mercado difícil, mas em alguma medida melhorou.
 
Blog - Seu último trabalho no Brasil foi "A Boa Sorte de Solano Dominguez", pela Desiderata. Você tem outros planos para publicar o mercado brasileiro? Ou então de editar aqui obras já lançadas no exterior? 
Antunes
- Tenho sim. Finalizei ainda há pouco a adaptação de Clara dos Anjos para a Cia das Letras e já apresentei uma proposta de outro livro pro André Conti [editor da Companhia]. Agora é ver se eles dizem sim. Não sei de interesse editorial por minha produção francesa, andei cutucando aqui e ali, mas acho que não há interesse editorial por esse material. Ah, e estou trabalhando junto a um grande desenhista brasileiro num "projeto secreto". Estamos fazendo pra nós, por vontade de produzir o material, mas sem saber pra quem oferecer. Pode sair no Brasil ou em outro país, ainda não sabemos.
 
Blog - Ganha-se bem para produzir um álbum para o mercado europeu? 
Antunes
- Razoavelmente bem, ao menos para os meus padrões. Aprendi a viver com muito pouco, sou de baixa classe média, não consumo quase nada e nem vou a lugar nenhum.
 
Blog - É possível viver apenas disso hoje? Ou você faz outros trabalhos, em outras áreas? Se sim, quais?
Antunes
- Vivo de quadrinhos e faço, muito raramente, um ou outro house organ [publicação empresarial].
 
Blog - Na edição espanhola de "Toute la Poussière du Chemin", você comenta que entre a sinceridade da ficção e a biografia mentirosa você optou pela primeira. Como você enxerga os recentes trabalhos autobiográficos em quadrinhos, tanto nacionais quanto estrangeiros? 
Antunes
- Sou mentiroso e mentirosos tendem a não levar biografias e nem autobiografias muito à sério. Talvez eu ache que autobiografia seja apenas ficção travestida de realidade. Ou talvez não pense isso e não esteja dizendo isso. E se estiver, ou parecer que disse, eu nego. Essa minha fala que saiu na edição espanhola do livro teve a ver com o fato de eu ter contado um episódio da minha vida - em parte era verdade e em parte era mentira, acho que um por cento do que eu disse era verdadeiro ou era uma quase verdade ou apenas uma meia mentira - para um editor ou alguém próximo a um editor, não me lembro bem, e aí me propuseram algo do gênero e eu disse que não faria. Vivemos um tempo curioso, muitos editores parecem ter perdido o interesse em ficção. E muitos leitores também. Chegamos num ponto em que se eu contar um negócio qualquer e dizer que aquilo aconteceu a coisa parece ficar mais interessante, ganhar um valor adicional. Tem uma onda confessional rolando, e não é só na HQ, mas estou fora dela.

Escrito por PAULO RAMOS às 09h44
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04.12.10

@Bolinha_dePapel do Twitter era mantido por cartunista

 

Ilustração feita por Custódio especialmente para o blog

 

 

 

 

 


Perfil da rede social foi criado pelo desenhista Custódio e brincava com caso eleitoral envolvendo José Serra 

 

 

 

 

 

 

 


Um cartunista paulista ajudou a acentuar na internet um dos episódios mais polêmicos da última eleição presidencial, o do objeto jogado na cabeça do então candidato José Serra.

O artefato foi arremessado durante comício do tucano em no calçadão de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, no dia 20 de outubro.

As primeiras imagens mostravam Serra com a mão na cabeça e sendo socorrido num hospital, onde fez tomografia. Poucas horas depois, vídeos mostravam outras versões.

Uma delas é que o ex-governador havia sido atingido por uma bolinha de papel. Ficou a dúvida se foi esse o objeto que o teria machucado. A certeza é a polêmica que gerou.

                                                         ***

Em poucas horas, o caso já ecoava no Twitter. Estava entre os assuntos mais abordados do dia - e dos dias seguintes - na rede social.

O tom dos comentários era irônico: como uma bolinha de papel pode machucar tanto? Foi nesse espírito que o cartunista Custódio teve a ideia de criar o perfil @Bolinha_de Papel.

As frases de 140 caracteres - o limite imposto pelo Twitter - brincavam com o caso. Algumas abordavam os fatos eleitorais. Outras procuravam personalizar a tal bolinha.

Algumas delas: "Me amassa que eu gostcho"; "Não sou PT nem PSDB, sou Chamex PH neutro!"; "Aos meus detratores, aviso que meu passado é uma folha em branco".

                                                          ***

O perfil foi criado às 11h da manhã do dia seguinte do caso. Às 15h, já tinha cerca de dois mil seguidores. Foi notícia nos jornais "A Tarde", da Bahia, e "O Globo", do Rio de Janeiro.

"Quando vi o episódio da bolinha de papel, aquele circo todo, me espantou a mise en scene", diz o cartunista paulista, que viu no caso um "teatro armado".

Ele ainda mantém o perfil ativo. Registrava, na tarde deste sábado, 3.376 seguidores, muito mais do que as outras três bolinhas de papel criadas no Twitter, que têm, somadas, 566.

Hoje, a política se tornou apenas um dos temas abordados com humor na rede social. A Bolinha_dePapel brinca também com futebol, fatos internacionais, entretenimento.

                                                         ***

Custódio diz que pretendia votar nulo. O acirramento na disputa - e o caso da bolinha - o levaram a optar. "No 1º turno, votei na Dilma, sem muita convicção. No 2º, foi mais convicto."

"Depois de um presidente totalmente político e populista, uma entidade quase extracorpórea como o Lula, dois candidatos tecnicos seriam ótimas opções. ena que a campanha odiosa estragou a qualidade do debate."

O trabalho em quadrinhos mais recente de Custódio é uma biografia de Anita Garibaldi, obra custeada com verba de incentivo cultural do governo paulista e lançada neste ano.

Nesta entrevista, o desenhista de 43 anos comenta sobre os novos projetos e diz por que decidiu tornar público o perfil. A conversa começa sobre como ele interpretou o caso.

                                                          ***

Blog - No seu entender, houve fingimento ou supervalorização do candidato José Serra no caso?
Custódio
- Evidentemente. Eu tenho parafusos e pinos nas duas pernas por causa do futebol. Já vi um rapaz levar um soco de um goleiro em uma disputa de bola, sair como nariz totalmente deformado e torto, pegar o carro e ir pro hospital sozinho, e de lá pra mesa de cirurgia. Veja, não é um elogio à violência, nem prova de "macheza latina". É mais uma prova do caráter da  pessoa em certas situações adversas. Compare com a outra candidata, sendo torturada por três anos. Ou do vice-presidente José Alencar, que enfrenta situações difíceis com inacreditável galhardia. Ou com alguém que espera um ano pra fazer uma tomografia no SUS (Sistema Único de Saúde). Não calcularam nada disso, quiseram aproveitar uma oportunidade, sem perceber que caíam no ridículo. Fizeram a alegria de quem já via os dilmistas como vândalos selvagens, mas perderam eleitores que esperavam um homem forte e de postura altiva suficiente para comandar a nação. No contraste com esses exemplos, ficou nítido um dilema: ou é um homem frágil fisicamente, que não suporta um tranco de campanha, ou frágil moralmente, que usa disso para faturar. Acredito que o [Geraldo] Alckmin, o [Mário] Covas ou o próprio Fernando Henrique Carodos não seriam capazer daquele teatro. Sob esse aspecto, eles têm mais hombridade. A pesquisa três ou quatro dias depois mostrou a inversão de ascensão do Serra. Não duvido que foi consequência.

Blog - Por que revelar agora que se trata de você no perfil do Twitter?
Custódio
- Na verdade, como piada, ficou velha. Tenho uma quantidade grande de seguidores, gente pensante, pessoas surpreendentes, engraçadas e inteligentes, que me abasteceram de comentários ótimos nesse período. Alguns pediram para o perfil continuar. A tendência é, depois de passada a tensão da eleição, as coisas se afrouxarem e o perfil desparecer. O que fazer? Não sei se sabendo quem é o autor, vão continuar seguindo um twitter mais de humor do que de ataque a tucanos.

Blog - Qual o destino que você pretende dar ao perfil Bolinha_dePapel?
Custódio
- Não tenho muita certeza. São 3.500 seguidores, talvez eu mantenha enquanto eles me aturarem.

Blog - No seu entender, houve algum papel - sem nenhum trocadilho - do perfil criado por você nesse processo eleitoral?
Custódio
- Seria muito pretensioso. Mas a repercussão do caso em si, do qual meu perfil era só uma paródia, acredito que ajudou a cristalizar uma diferença  de votos que diminuía até então. Foi um erro crasso do comando da campanha. Até então minha posição era de quase neutralidade, embora eu tenha uma inclinação para votos mais à esquerda. A campanha era muito baixa. Mas a partir dali me pareceu que havia um lado para qual eu devia pender.
 
Blog - E qual o papel que as redes sociais, em particular o Twitter, exerceram nesse último pleito?
Custódio
- A hastag #serrarojas entrou nos TT mundiais. A #bolinha de papel também, entre outras coisas. Com o acirramento da campanha e a adoção de uma das candidaturas pela imprensa estabelecida, coisa que o próprio Claudio Lembo declarou, as redes sociais abasteceram aqueles que não concordavam com o jeito que a coisa estava sendo expostas pela imprensa. Claro que há extremismos dos dois lados, mas a internet mostrou um poder de reunir blocos e propagar informações (muitas vezes totalmente mentirosas) que deve se tornar mais substancial nos próximos anos. Os palmeirenses já fazem isso com a chamada "Mídia Palestrina", rede de sites e blogs que veiculam noticias do time, que costuma ser  mais maltratado pela mídia esportiva do que os outros dois coirmãos. Por outro lado, o acirramento e a desinformação promovido pela campanha levou à manifestações xonofóbicas logo  no dia seguinte ao pleito. Isso também faz parte das mídias sociais.

Blog - No âmbito dos quadrinhos, quais seus próximos projetos? Anita Garibaldi?
Custódio
- A gente sempre tem vários projetos autorais concomitantes, esperando que um dê certo. No momento estou fazendo um livro sobre empatia e comunicação em parceria com uma psicóloga. São os frilas e os "jobs" que nos sustentam. A segunda parte da Anita é prioridade, mas depende de alguns fatores pra eu ter condições de fazer. 

Escrito por PAULO RAMOS às 16h19
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22.11.10

Café Espacial se desliga do Quarto Mundo

 

Café Espacial 7. Crédito: site da revista

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do último número da revista independente, lançado em setembro deste ano 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os responsáveis pela revista "Café Espacial" decidiram se desligar do Quarto Mundo, grupo que reúne quadrinistas independentes de todo o país.

Segundo Sergio Chaves, um dos editores da publicação paulista, dois motivos pautaram a decisão: a migração para outros projetos e a falta de tempo para se dedicarem ao grupo. 

Com sete obras publicadas e mais uma programada para dezembro, a revista era um dos títulos de maior visibilidade do Quarto Mundo.

A "Café Espacial" venceu nos dois últimos anos o Troféu HQMix - principal premiação de quadrinhos do país - na categoria melhor publicação independente de grupo.

                                                         ***

É a segunda revista de destaque a se desligar do Quarto Mundo no prazo de um ano. Os autores mineiros da "Graffiti 76% Quadrinhos" deixaram o grupo em dezembro de 2009.

Os motivos da saída foram diferenças quanto ao modo de funcionamento do grupo. O modelo defendido pela Graffiti era o de uma profissionalização do setor.

A equipe via no molde adotado mais quantidade que qualidade. O Quarto Mundo soma hoje um dos maiores catálogos de publicações autorais do país.

Nesta entrevista ao blog, feita por e-mail, Sergio Chaves detalha os motivos que fizeram com que ele e Lídia Basoli, também editora da "Café Espacial", saíssem do Quarto Mundo.

                                                          ***

Blog - Por que a opção de se desligar do Quarto Mundo?
Sergio Chaves
- A decisão foi tomada para que possamos nos dedicar aos projetos editoriais da Café Espacial. Isso nos tomará muito do nosso tempo disponível (pois a produção da Café Espcial é feita, como todo ou quase todo quadrinhista independente, nas nossas horas de folga). O principal motivo, e quase que exclusivo, é a nossa pouca disponibilidade de tempo para acrescentarmos ao coletivo. O tempo está ficando cada vez mais escasso, e isso faria com que nosso rendimento dentro do coletivo diminuísse consideravelmente - o que seria injusto e intolerável por nós mesmo, por se tratar de um coletivo. A decisão que tomamos foi justamente para o desenvolvimento dos novos projetos editoriais da Café Espacial, que seguirá para outras áreas além dos quadrinhos também. Daí a decisão.

Blog - Vocês comentam no blog da revista que estariam de olho em novos projetos editoriais? Quais são eles?
Chaves
- Neste mês, em comemoração aos três anos da revista Café Espacial, demos início à publicação de nosso informativo, intitulado "Expresso Café Espacial" - que surge com a intenção de complementar o trabalho realizado com a revista impressa. Ainda neste ano, daremos início à nossa série de cartões postais, de sketchbooks e uma nova série de buttons - além do lançamento da nossa oitavaª edição, pra dezembro. E, para 2011, a continuidade de tudo isso e muito mais.
 
Blog - Os colegas da Graffiti, de Minas Gerais, também se desvincularam do coletivo. Vocês são o segundo grupo de destaque do grupo a se desligar. Há algum problema interno que impeça a individualidade de cada equipe ou que eventualmente barre o crescimento?
Chaves
- Desconheço a motivação do pessoal da Graffitti, visto que não presenciei nenhuma tentativa direta deles em possíveis melhorias dentro do coletivo antes mesmo de sua saída, então não poderei comparar. Mas, como disse, nossa motivação é exclusivamente para com a Café Espacial, e não tenho crítica ou reclamação alguma ao Quarto Mundo. Pelo contrário, nós devemos muito ao coletivo, pois sem ele não teríamos chegado aonde chegamos. Vejo no Quarto Mundo uma maneira de que as pessoas possam publicar e falar quadrinhos, divulgar sua produção etc. E, dentro do coletivo, cada autor tem total autonomia para sua própria produção. Não há barreiras, limitações ou empecilhos por parte do coletivo. O Quarto Mundo nunca interferiu na linha editorial de ninguém, nunca barrou ou limitou a produção de ninguém. Na verdade, o coletivo abre as portas para muitos autores, é um caminho superimportante para o quadrinhista. E, por se tratar de um coletivo, é necessário o quadrinhista pôr a mão na massa e trabalhar também, se movimentar, e não ficar esperando que alguém trabalhe por ele. Você pode perceber que quem reclama demais é quem menos se importa, menos se envolve. É muito fácil reclamar disso ou daquilo, mas o Quarto Mundo é o melhor exemplo de que a melhor resposta é produzir e fazer acontecer. E tem feito muito bem. Fico feliz por ter participado do coletivo desde o início, mas nossa decisão foi, como disse, para nos dedicarmos a outros caminhos.
 
Blog - Quais os planos para a Café Espacial para 2011?
Chaves
-
A próxima edição, a de número oito, será lançada em dezembro, cumprindo nosso cronograma de lançar três edições no ano (até o ano passado eram duas, apenas). Em 2011, desejamos lançar três edições (o que não será tarefa fácil se não fecharmos anunciantes, sabemos bem), três a quatro informativos (no mínimo), e formalizaremos nossas produções com a criação de uma associação homônima à revista em circulação, visando profissionalizar nossa atividade e ampliar nossas possibilidades. Para o próximo ano, temos alguns projetos engatilhados, não só de quadrinhos, mas ainda é cedo para divulgarmos.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h10
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20.11.10

Negro foi mal representado nos quadrinhos, segundo pesquisa

 

Nhô Quim, de Angelo Agostini

 


Mais de 200 cidades brasileiras celebram neste 20 de novembro o Dia da Consciência Negra, data criada para discutir o papel do negro na sociedade brasileira.

Esse papel se refletiu também nas histórias em quadrinhos, como mostra um doutorado desenvolvido na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

O estudo, feito pelo pesquisador Nobu Chinen, releva que o negro historicamente foi muito mal representado na produção nacional.

"Qualitativamente, os personagens eram quase sempre estereotipados e ocupavam papéis de pouco destaque. Quantitativamente, sempre foram muito poucos", diz.

                                                         ***

Segundo o mapeamento de Chinen, a primeira aparição de um negro nos quadrinhos brasileiros foi em "As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte".

Criada pelo ítalo-brasileiro Angelo Agostini, em 1869, a história trazia um negro como auxiliar do protagonista (imagem mostrada no início desta postagem).

Na primeira metade do século 20, outros nomes importantes se incorporariam ao rol de personagens negros: Lamparina, de J. Carlos, Azeitona, de Luiz Sá, o Gibi, da Globo.

Na leitura de Chinen, o cenário estereotipado vem mudando nos últimos anos. Mas ainda é pouco, se comparada proporção entre personagens assim e a população negra do país.

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A ideia da pesquisa surgiu em 2005, durante um curso sobre quadrinhos que Chinen fez na Gibiteca Henfil, no Centro Cultural São Paulo.

Inicialmente, tinha um pouco de receio de enfrentar o estudo. O medo é que uma abordagem mais séria sobre a área nublasse o prazer da leitura descompromissada.

O tema falou mais alto e se tornou um mestrado. Na qualificação, etapa que antecede a defesa do estudo, a banca sugeriu tornar a pesquisa num doutorado, e não num mestrado.

Assim foi feito. Desde junho do ano passado, vem finalizando a investigação do doutorado. A programação dele é defender até o final deste ano.

 

Gibi

 

Paulistano descendente de japoneses, Nobu Chinen trabalhou muito tempo na área de publicidade, sua formação universitária. Hoje, é professor universitário e redator.

Tem também uma atuação destacada nos bastidores de projetos editorias e de eventos sobre quadrinhos - é um dos integrantes da comissão organizadora do Troféu HQMix.

Nesta entrevista ao blog, o pesquisador, de 49 anos, antecipa as conclusões do estudo que tem feito na Universidade de São Paulo.

A conversa começa justamente com a reflexão proposta neste Dia da Consciência Negra, a forma como os negros foram tratados na sociedade brasileira.

                                                          ***

Blog - Como o negro foi - e ainda é - representado nos quadrinhos brasileiros?
Nobu Chinen
-
Como na totalidade das manifestações artísticas e culturais, o negro era representado como alguém inferior, boçalizado, ocupando funções socialmente pouco valorizadas. Invariavelmente era o serviçal, o menino de recados, o ajudante. Temos como exemplos do início do século 20 o Benjamin, criado por José Loureiro para a revista O Tico-tico; e Lamparina, do J. Carlos. Nas poucas vezes em que era protagonista de uma série, o negro ocupava os papéis nos quais lhe era permitido se destacar, como nos esportes. No aspecto gráfico-visual, também predominava uma estilização grotesca, estereotipada. Os lábios exagerados, os olhos esbugalhados e expressões simiescas. Aqui é preciso fazer uma ressalva e, como pesquisador, sinto que é uma arena delicada porque muitos quadrinhos, como expressão do humor gráfico, têm por característica o traço caricatural e exagerado, portanto, é complicado estabelecer o limite entre o que é o cômico e o ofensivo/preconceituoso. Sempre cito como exemplo o famoso trio Reco-reco, Bolão e Azeitona, criado por Luiz Sá, na década de 30 [imagem abaixo]. O autor retrata seus três personagens de forma exagerada e em situações que os mandamentos do politicamente correto certamente condenariam. Mas não vejo um preconceito específico contra um ou outro grupo social. O Luiz Sá esculachava todo mundo sem distinção.     

 


 

Azeitona, Reco-Reco e Bolão, de Luiz Sá



 
 

 

Blog - Houve, ao longo das décadas, alguma mudança nessa caracterização?
Chinen
-
Meu trabalho defende, justamente, que sim. Ocorreu uma evolução significativa na maneira como o negro vem sendo representado nos quadrinhos. Tomei como base um trabalho muito interessante, o livro "Black Image in the Comics", de Fredrick Strömberg, que aborda essa trajetória, transpondo, naturalmente, para a realidade brasileira. Tenho a sorte de viver em um momento privilegiado nesse aspecto. Nos últimos anos, foram publicadas várias histórias em quadrinhos que trazem negros como protagonistas, e posso citar como exemplos a personagem infantil Luana, uma iniciativa de Aroldo Macedo e realizada por vários autores; e Aú, o capoeirista, do Flávio Luiz. Também surgiram trabalhos em quadrinhos que resgatam a participação dos negros em episódios históricos como os álbuns "Chibata", de Hemeterio e Olinto Gadelha; "Revolta dos Alfaiates", do Mauricio Pestana; e "Balaiada", de Iramir Araújo, Ronilson Freire e Beto Nicácio. E há vários outros. Se tivesse feito meu projeto há quatro ou cinco anos, quando foi originalmente pensado, teria perdido a chance de incluir boa parte desse precioso material. 

   
 

Blog - Há caracterizações recorrentes na literatura em quadrinhos brasileira, como o escravo, para ficar em um caso. Houve mudanças na forma de representação dessas personagens ao longo do tempo?
Chinen
-
Esse é um ponto interessante porque só é possível fazer juízo de valor de um fenômeno se existe massa crítica. É muito difícil estabelecer se houve uma mudança quando se dispõe de um universo limitado, uma vez que não existiram muitos personagens negros. O que posso dizer é que quase sempre os personagens negros tinham papéis subalternos, de criados e empregados. E isso prevaleceu durante décadas. Tomando como referência a série Nhô Quim, de Angelo Agostini, que muitos estudiosos consideram a primeira história em quadrinhos no Brasil, já na primeira vinheta, de 1869, aparece um personagem negro, o Benedito, que é o criado do Nhô Quim. Isso seria “natural”, considerando que ainda vivíamos na época anterior à abolição. Mas esse padrão se repete nos personagens do início do século 20 e vai se manter até recentemente. É mais ou menos como ocorreu com as telenovelas em que, até poucos anos atrás, os negros só tinham papel de empregados, cozinheiras e motoristas. Felizmente isso mudou muito. 

Blog - Na sua leitura, ocorreram casos de preconceito em relação ao modo como o negro foi representado nos quadrinhos?
Chinen
-
Sem dúvida. Ao relegar o negro a papéis inferiores, como já havia citado, os quadrinhos e a mídia de modo geral também ajudavam a alimentar um sistema discriminatório. Na minha opinião, o exemplo mais chocante é a personagem Lamparina, representada quase como um animal [imagem abaixo]. E olha que eu sou um grande admirador do trabalho do J. Carlos, um dos maiores artistas gráficos que este país já teve. Muitas vezes, para defender casos como esse, usa-se a desculpa de que “mas naquela época era assim que se fazia”. Esse é um sintoma (acho que esse termo é apropriado porque preconceito não deixa de ser um câncer social) do quanto a nossa sociedade é preconceituosa. Numa das disciplinas da pós-graduação, pude conhecer autores que tratam bem dessa questão e um deles alerta que o grande perigo é passarmos a achar natural uma representação nitidamente preconceituosa, disseminada pela classe dominante.  



 

Lamparina, de J. Carlos

 

 

Blog - Há algum personagem mais marcante ao longo dessa trajetória?
Chinen
-
Segundo os estudiosos que pesquisei, o personagem negro mais importante e de maior sucesso foi o Pererê, do Ziraldo. Teve revista própria nos anos 1960, ganhou álbuns de coletâneas em anos posteriores e virou até série de TV com atores. O curioso é que o Pererê simboliza o que chamo de primeiro paradoxo do negro nos quadrinhos brasileiros porque trata-se de uma entidade folclórica, um ser mítico, ainda que as histórias do Ziraldo o tenham humanizado.  Ou seja, o negro já figura pouco nos quadrinhos e quando aparece é um ser que não existe. Apenas para completar: o segundo paradoxo é o Gibi, o mascote que batizou uma publicação que fez tanto sucesso que se tornou sinônimo de revista em quadrinhos, mas que nunca apareceu como personagem. Gibi, etimologicamente, significa menino negro. É importante não confundir esse Gibi com o Giby, o primeiro personagem negro dos quadrinhos brasileiros, criado pelo incansável J. Carlos, em 1907. Aparentemente, não existe relação entre um e outro.

 

Blog - O fato de você ser descendente de japoneses - outro grupo étnico, tal qual o negro - tem alguma relação com o tema escolhido para a pesquisa?
Chinen
-
Não. A última coisa que gostaria de dar ao meu trabalho é um caráter político ou ideológico. Não que eu seja contra, pelo contrário, mas não é a minha linha. Já tinha decidido que ia trabalhar com um tema brasileiro e já me incomodavam os dois paradoxos que apontei. Acho que isso já direcionou o meu trabalho. Só que uma coisa que não dá para negar é que se existe uma etnia injustiçada, uma vez que a nossa raça é a humana, são os negros. Fazer um trabalho que permitisse a reflexão sobre essa injustiça já por si, seria um motivo bem legal. A professora Sonia Luyten, uma das primeiras pessoas no mundo a estudar os mangás, disse que enfrentou muitas barreiras porque os japoneses estranhavam uma “gaijin” se dedicando a um tema que pretensamente era deles e me encorajou nesse aspecto. Ela me disse “se uma loira ítalo-brasileira como eu pode estudar mangás, por que um japonês não pode estudar os negros nos quadrinhos?”. Foi um incentivo e tanto.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h52
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08.11.10

HQM prepara retomada da série Os Mortos-Vivos

 

Os Mortos-Vivos: a Melhor Defesa. Crédito: editora HQM

 

 

 

 

 

 

 

Quinto volume da série de terror, "A Melhor Defesa", está programado para dezembro 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A editora HQM programa para dezembro o lançamento do quinto volume de "Os Mortos-Vivos". O álbum trará os números 25 a 30 da série norte-americana de terror.

"A Melhor Defesa", título da obra, marca a retomada da série aqui no Brasil. O último álbum, "Desejos Carnais", havia sido publicado no fim de outubro de 2009.

Segundo a editora, o intervalo de um ano se deveu principalmente a problemas de licenciamento. Problema sanado, a HQM programa acelerar os lançamentos.

A editora trabalha com a ideia de publicar em 2011 pelo menos mais quatro volumes da série, que mostra a resistência de um grupo ao domínio em massa dos mortos-vivos.

                                                          ***

A HQM não poderia escolher hora melhor para retomar as histórias do título, escritas por Robert Kirkman e desenhadas por Charlie Adlard.

A revista foi adaptada para a TV, o que garantiu uma janela muito maior para a série.

Veículos de imprensa brasileiros, que nunca noticiaram o título, deram na última semana um bom destaque para o seriado, que estreou na semana passada no canal a cabo Fox.

Nesta entrevista ao blog, feita por e-mail, o editor-chefe da HQM, Carlos Costa, comenta o que adiou a volta da série e fala dos planos para "Os Mortos-Vivos" em 2011.

                                                          ***

Blog - Por que o intervalo entre um volume e outro foi tão largo?
Carlos Costa
- Devido a diversos motivos. Um dos mais graves foi a mudança de licenciante, que desde que a série está conosco, já mudou por seis vezes. No ano passado, por exemplo, vários títulos da Image [editora que publica a série nos Estados Unidos] estavam sob responsabilidade da editora francesa Delcourt, que atrasou bastante as negociações. Agora, desde o anúncio do seriado, todo o material do Robert Kirkman está com um novo licenciante, normalizando toda a situação. A partir deste quinto volume, diminuiremos consideravelmente o prazo de lançamento de uma edição para outra.


Blog - Com a série, a editora espera uma nova janela de visibilidade para os álbuns?
Costa
- Com certeza. A estreia do seriado alavancou as vendas dos álbuns já lançados. O volume um, por exemplo, que continua nas comic shops, livrarias e lojas virtuais, chegará novamente às bancas ainda este mês devido à estreia da adaptação televisiva.

Blog - O empurrão comercial dado pelo seriado vai mudar os planos para a série em 2011? Vai haver outros álbuns?
Costa
- Sim, vai haver. Para 2011, já estão programados quatro volumes da série. Dependendo das vendas, poderão sair mais volumes ainda em 2011, fora os quatro programados (volumes 6, 7, 8 e 9).

                                                         ***

Leia resenhas do blog das edições anteriores da série: volume 2, volume 3 e volume 4.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h15
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03.11.10

Por dentro dos sonhos escritos por Neil Gaiman

 

Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman. Crédito: editora Kalaco

 

 

 

 

 

 

Trajetória do escritor é detalhada no livro "Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman", do jornalista Heitor Pitombo 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O chavão seduz dizer que parece que foi ontem a estreia de Sandman no Brasil.

A realidade revela, no entanto, que já faz 21 anos, comemorados neste mês de novembro, que o primeiro número da série começou a ser publicado nas bancas pela editora Globo.

Fato que o livro "Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman" ajuda a (re)lembrar os leitores de ontem e a apresentar à nova geração de hoje (Kalaco, 192 págs. R$ 39).

A obra, escrita pelo jornalista Heitor Pitombo, começou a ser vendida no mês passado nas lojas de quadrinhos e tem lançamento agendado para esta quinta-feira, no Rio de Janeiro.

                                                         ***

Pitombo teve o primeiro contato com os roteiros de Neil Gaiman também em 1989, mas poucos meses antes do número inaugural da série no Brasil.

Foi via "Orquídea Negra", minissérie publicada naquele ano também pela Globo. O jornalista se somou aos vários leitores que passaram a apreciar os textos do escritor.

Embora Gaiman tenha migrado para os romances e os livros infantis - caso de "Coraline", já adaptado para o cinema -, Sandman ainda é sua obra mais lembrada.

Durante participação na Festa Literária Internacional de Parati, no Rio de Janeiro, sua produção literária foi ofuscada por filas enormes de fãs das histórias do mestre dos sonhos.

                                                         ***

A produção de Gaiman é ampla e diversificada. A maior parte dela já foi traduzida para o português, por mais de uma editora. Sandman, o carro-chefe, já teve mais de uma edição.

Pitombo recupera todas elas no livro, inclusive as inéditas. O destaque, claro, é para Sandman, da norte-americana DC Comics, a mesma de Batman e Super-Homem.

Ele faz também uma análise da trajetória de Gaiman e traz uma entrevista com ele, feita em visita ao Brasil em 2001, cinco anos após ele encerrar a série com o mestre dos sonhos.

Nesta entrevista, feita por e-mail, o jornalista carioca, de 46 anos, diz o que o levou a escrever o livro e faz uma análise sobre o papel de Neil Gaiman nos quadrinhos.

                                                          ***

Blog - Por que um livro sobre a obra de Neil Gaiman, em particular Sandman?
Heitor Pitombo
- Creio que qualquer livro que se escreva sobre quadrinhos no Brasil é procedente, mesmo falando de artistas estrangeiros. Temos uma bibliografia ainda muito limitada no que diz respeito ao tema e penso que qualquer obra que venha a ser lançada é bem-vinda nesse contexto. Resolvi investigar a obra de Neil Gaiman porque já havia começado esse trabalho em outra oportunidade e acho de fundamental importância que a história editorial de autores estrangeiros no nosso país seja levantada e analisada. Ainda mais em se tratando do criador de Sandman, um título que ajudou bastante a renovar o tipo de leitor que hoje se interessa por quadrinhos, não só aqui no Brasil como no resto do planeta.
 
Blog - Quando surgiu a ideia do projeto e quanto tempo demorou para ser finalizada?
Pitombo
- Originalmente, essa pesquisa que fiz sobre a obra de Neil Gaiman não partiu de um projeto pessoal e, sim, de uma encomenda do editor Franco de Rosa, que pretendia lançar uma revista sobre o tema por volta de 2001. Na época, Sandman já era uma série cultuada e poderia render uma publicação com algum potencial de vendas. A tal revista acabou sendo cancelada, o projeto foi refeito e o Franco me encomendou mais textos para uma outra edição. Alguns anos mais tarde, depois de um novo cancelamento, o Franco aventou a possibilidade daquele material dar origem a um livro. Em 2007, eu já tinha o conteúdo de "Entes Perpétuos" basicamente definido e um projeto gráfico criado pelo Laboratório Secreto, do meu amigo Marcelo Martinez. O projeto saiu das mãos do Franco e rodou por diversas editoras. Quis o destino que ele voltasse para as mãos do meu caríssimo editor e se tornasse o primeiro lançamento original da Kalaco Editorial [que é de Franco de Rosa].
 
Blog - A leitura do livro traz várias marcas de que se trata de uma obra direcionada a quem já conhece os personagens da DC Comics e também o trabalho de Gaiman, ou ao menos parte dele. Isso não restringe o livro a um público específico?
Pitombo
- Concordo e discordo. As listas de referência, ao mesmo tempo em que parecem servir de guia apenas para quem aprecia a obra de Gaiman, também orientam quem nunca leu um só gibi que ele tenha escrito. E os textos de análise, a entrevista e os depoimentos dão um apanhado não só dos trabalhos dos artistas focalizados, como abordam suas posturas, seus pontos de vista e seu lado mais humano. Nada que seja voltado, necessariamente, para um público muito específico.
 
Blog - O uso de adjetivações no texto - antológicas, brilhantemente, revolucionário - revela um lado fã em relação ao trabalho de Gaiman. Uma foto sua, no final, com Neil Gaiman reforça essa leitura. O quanto desse fã pautou o livro?
Pitombo
- Acho que o fã esteve presente na vontade que tive de apurar as informações com o máximo de precisão. O livro foi meticulosamente revisado e tenta disponibilizar um conteúdo para ninguém botar defeito. Por outro lado, não tive a preocupação de escrever "a obra definitiva sobre Neil Gaiman" e quis lançar um trabalho mais leve, despretensioso. Meu livro funciona como um almanaque, com todas as suas subdivisões de conteúdo. O espaço para análises mais profundas da obra de Gaiman está, naturalmente, aberto para quem quiser se aventurar.
 
Blog - A entrevista com Neil Gaiman, embora inédita, é de uma passagem dele pelo Brasil em 2001. Houve intenção de atualizar a conversa?
Pitombo
- Acho que a entrevista captura um momento específico da carreira de Gaiman, que eu pude testemunhar in loco, e sua inclusão dentro do livro, da maneira que fiz, faz todo o sentido em se tratando do projeto específico de "Entes Perpétuos". Também considerei que, há alguns anos, a HQ Maniacs lançou o "Passeando com o Rei dos Sonhos", um livro que trazia apenas entrevistas com Neil e vários de seus colaboradores. Por isso, optei por dar ênfase a um outro tipo de conteúdo no meu livro.
 
Blog - Na sua leitura, qual o melhor trabalho dele no seu entender e, olhando em perspectiva, qual foi o papel que o escritor exerceu nos quadrinhos?
Pitombo
- A obra de Gaiman que mais me cativa pessoalmente nunca foi lançada no Brasil. Trata-se de "Signal to Noise", uma série que saiu em capítulos na revista "The Face" e que, depois, foi compilada numa edição encadernada que foi lançada nos Estados Unidos pela [editora] Dark Horse. O texto é de um lirismo ímpar e, na minha modesta opinião, nunca a arte do Dave McKean me pareceu tão deslumbrante quanto nesse trabalho. Gaiman, aliás, é responsável por impor esse tipo particular de lirismo ao quadrinho mainstream norte-americano. Mais do que conterrâneos e contemporâneos como Alan Moore, Jamie Delano ou Garth Ennis, que têm seu quinhão de importância dentro da história recente do quadrinho britânico, ele soube colocar um elemento feminino em seus roteiros, a ponto de chamar a atenção do "sexo frágil" para uma cultura que, em grande parte, só diz respeito aos homens.
 
Blog - Há algum outro projeto de livro em pauta?
Pitombo
- Claro que sim, mas prefiro não entrar em detalhes...

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman". Quando: quinta-feira (04.11). Horário: 20h. Onde: livraria Baratos da Ribeiro. Endereço: rua Barata Ribeiro, 354, loja D, Rio de Janeiro. Quanto: R$ 39.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h50
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24.05.10

Lelis: de Minas para o Brasil, do Brasil para a Europa - I

 

Clara dos Anjos. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

 

 

 

 

 

 

 

Desenhista divide tempo entre adaptação do romance "Clara dos Anjos" (página ao lado) e segundo álbum para o mercado francês

 

 

 

 

 

A imprensa daqui costuma dar um generoso espaço aos autores nacionais que conquistam trabalhos nos EUA. Costumam deixar de lado, no entanto, quem publica na Europa.

É na França, um dos principais polos mundiais de produção de quadrinhos, que um mineiro começa a se destacar. Já lançou um álbum por lá, em 2009, e já faz os esboços do segundo.

Marcelo Eduardo Lelis de Oliveira, ou somente Lelis, como ele assina suas produções, prepara também dois livros em quadrinhos para o mercado brasileiro.

Um é uma adaptação de "Clara dos Anjos", romance de Lima Barreto (1881-1922). O outro é uma reedição de "Saino a Percurá", reunião de contos regionais em quadrinhos.

                                                          ***

A primeira versão de "Saino a Percurá" havia sido publicada em 2001. A nova edição sairá no segundo semestre pela Zarabatana e trata histórias não incluídas no original.

A adaptação da obra de Lima Barreto será publicada pelo Quadrinhos na Cia., da Companhia das Letras. E editora espera lançar o trabalho no final do ano.

"Clara dos Anjos" tem roteiro de Wander Antunes, outro brasileiro que encontrou espaço no mercado francês.

O escritor teve mais de um álbum publicado na Europa. O mais recente é "Toute la Poussière du Chemin", lançado neste ano. A arte é do espanhol Jaime Martin.

                                                         ***

A entrada de Lelis na França se deu por meio de seu blog, o "Aqualelis", mantido desde 2006. Foi lá que foi descoberto pelo roteirista Antoine Ozanam.

O escritor entrou em contato com o desenhista mineiro e propôs a parceria.

Os dois fizeram o álbum "Last Bullets", ambientado nos Estados Unidos do fim do século 19. A história é uma mistura de faroeste com realismo fantástico.

Ozanam já acertou um segundo projeto com Lelis, "Gueules Noires" (bocas negras). O desenhista já rascunha as páginas do novo álbum, ainda sem data para lançamento.

                                                         ***

Nascido em Montes Claros, Lelis trocou o interior mineiro pela capital, Belo Horizonte, por conta da profissão: trabalha como ilustrador no jornal o "Estado de Minas".

Aos 42 anos, divide o expediente da redação - onde vai diariamente - com as ilustrações de livros, os trabalhos com quadrinhos e as plantas, uma de suas paixões.

Casado com uma psicóloga e pai de Beatriz, de cinco anos, é dono de um jeito cortês, acessível e humilde, que contrasta com a grandiosidade de seu desenho, feito em aquarela.

Nesta entrevista, feita após uma série de trocas de e-mail e dividida em duas postagens, Lelis detalha os novos projetos, fala da experiência no exterior e sobre o início da carreira.

 

Clara dos Anjos. Crédito: imagem cedida pelo autor

                                                    

Blog - Começo com "Clara dos Anjos". Como surgiu a ideia de fazer a adaptação. Foi uma iniciativa sua ou um convite da Companhia das Letras?
Marcelo Lelis
- O André Conti, [editor] da Companhia, me procurou. A minha resistência inicial era com relação aos prazos. Negociei com o André durante um tempo para acertarmos um prazo um pouco mais longo. Por fim me deram 15 meses ao invés de 12, como é usual.

Blog - Você já havia lido a obra? E outros romances de Lima Barreto?
Lelis
- Não, nunca havia lido nada do Lima.

Blog - Como o Wander Antunes entrou no projeto? A participação dele foi prevista desde o início?
Lelis
- Inicialmente o André me propôs fazer todo o trabalho ou seja, roteiro e arte. De cara declinei. Primeiro porque não sei se daria conta de transformar um romance de um autor consagrado em um quadrinho potencialmente comercial. E segundo porque não haveria tempo hábil para as duas tarefas. O André então disse que tinha alguns nomes para o roteiro, mas não me disse quais. Aí eu citei o Wander, que é um cara que ensaiamos trabalhar juntos algumas vezes e, por um motivo ou por outro, nunca fizemos nada. Achei que ele seria o cara perfeito. Ele é craque. O André, que já o conhecia, achou boa a idéia e cá estamos. O Wander é muito tranquilo. Ele saca demais esse negócio de quadrinhos e amarra bem demais a trama.

Blog - Houve alguma orientação para tornar a obra mais acessível ou didática, de modo a vender o projeto para listas do governo?
Lelis
- Não. Em nenhum momento houve por parte da editora qualquer tipo de interferência. Pelo contrário, eu e o Wander estamos tendo liberdade total para criar. Da nossa parte, é claro, temos alguns limites que achamos pertinentes e, de comum acordo, procuramos fazer um livro que seja o mais acessível possível.

Blog - Quando a obra fica pronta e há previsão de quando seja lançada?
Lelis
- Fiz um contrato de 15 meses que se iniciou em outubro. Espero terminar antes desses 15 meses previstos. Se isso acontecer, acho que haverá tempo hábil para a Companhia lançá-lo ainda em 2010.

Blog - Queria uma opinião sua sobre esse momento das adaptações literárias em quadrinhos. Uma editora grande o contrata para que você adapte a obra de um romancista, mas não uma obra autoral sua. Como você enxerga isso?
Lelis
- Mas eu nunca apresentei nenhum projeto de quadrinhos à Companhia das Letras ou a qualquer outra editora brasileira. E outra, sou um quadrinista sazonal, não é? De "Saino a Percurá" pra cá são dez anos de hiato. Às vezes nem eu sei como ainda me consideram um quadrinista. Talvez algum outro autor mais profícuo teria mais a reclamar. Mas também penso que isso tudo é um processo. Quando uma editora cria um selo para o segmento dos quadrinhos significa que ela já descobriu que temos um mercado crescente por aqui. Por consequência, as próprias editoras perceberão com o tempo que, além de programas de governo, temos leitores ansiosos por consumirem muito mais do que adaptações.

 

Saino a Percurá. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagem da capa do álbum "Saino a Percurá", que terá uma nova edição neste ano
















Blog - Você tinha uma conversa com a editora Zarabatana para relançar "Saino a Percurá". A conversa avançou para algo concreto?
Lelis
- Sim, sai este ano. O Cláudio [Martini, editor da Zarabatana], muito paciente, aguarda que eu envie as imagens pra ele. É que eu redigitalizei todo o livro e estou terminando de fechar os arquivos. As cores agora estarão mais fiéis aos originais porque a tecnologia dos scanners hoje em relação a 2001 mudou muito. E com meu próprio equipamento posso controlar mais a qualidade. "Last Bullets", por exemplo, eu mesmo digitalizei. Olhando os originais não há muita diferença na impressão final.

Blog - "Saino a Percurá" foi seu único álbum em quadrinhos lançado no Brasil. E no exterior?
Lelis
- Na Espanha a editora De Ponent fez uma edição de Saino a Percurá que lá se chama "Yendo a Buscar: historietas de Lelis".

                                                         ***

A entrevista com Lelis continua na postagem abaixo.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h01
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Lelis: de Minas para o Brasil, do Brasil para a Europa - II

 

Gueules Noires. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

Blog - De um projeto para outro. Você comenta em seu blog que tem pautado um segundo álbum em parceria com Antoine Ozanam. Do que se trata? Para quando é?
Marcelo Lelis
- O Antoine é um bom amigo e um excelente roteirista. Nunca me encontrei com ele e arriscamos uma vez um contato telefônico que não foi muito inteligível. Mas, depois do nosso primeiro livro, ele me apresentou algumas histórias que pensava em publicar. Dentre essas histórias, gostei muito de Gueules Noires, ou Bocas Negras, numa tradução literal. É a história de um mineiro do norte da França que, cansado da vida dura nas minas de carvão, decidiu tentar a vida em Paris. A história é muito bonita, cheia de reviravoltas e de personagens fortes. Mas demoramos para acertar alguns detalhes e já havia escrito a ele dizendo sobre a possibilidade de fazer o livro da Companhia da Letras. A [editora francesa] Casterman gostou do projeto, mas resolvi pedir a ele para não fazermos um contrato ainda porque aí não conseguiria entregar dois livros no mesmo ano. Assim, vamos trabalhando nas páginas com calma, para amadurecermos as escolhas gráficas e outros detalhes.

Blog - Vocês estiveram juntos em "Last Bullets". Como foi a experiência de desenhar uma história em quadrinhos para o mercado francês?
Lelis
- Realmente foi estupenda. O mercado europeu de quadrinhos sempre me interessou. Mais até que o norte-americano. Uma das coisas que ficaram nessa minha experiência é o quanto eles levam a sério o quadrinho. Não é só uma forma de expressão. É algo muito maior que fica até difícil pra gente aqui no Brasil entender. Sabe aquele negócio do gringo que chega aqui e vê um menino fazendo embaixadinha até com uma laranja? A comparação parece exdrúxula, mas confere. Assim como o futebol está em todo lugar aqui, lá podemos dizer que o quadrinho está no sangue deles. Se simplificamos dizendo que eles têm mais condições financeiras do que nós, erramos se compararmos os países europeus, tão ou mais ricos que os franceses e que nem por isso têm uma produção equivalente. Pelo contrário. A Alemanha, que tem uma economia mais pujante não produz 1% do que eles fazem. Então a resposta é outra. Fazer parte dessa engranegem, publicando em uma das 5 maiores editoras franco-belgas foi muito motivador. Você abre um novo horizonte. Se não dá pra viver só de quadrinhos hoje, dá pra projetar a médio prazo viver dele mais do que vivo hoje. E isso é revigorante. Me motiva a criar, a escrever novamente, a focar mais em minha carreira de quadrinista.

Blog - Como surgiu o convite para o projeto?
Lelis
- O Antoine viu meu blog e me escreveu.

 

Last Bullets. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Página de "Last Bullets", álbum desenhado por Lelis, lançado ano passado na França
















Blog - Você sente um tratamento diferente entre as editoras de fora e as de cá?
Lelis
- Se falamos de quadrinhos, lá como aqui eu sou considerado autor, mesmo que eu não seja também o roteirista do álbum. Mas no mercado editorial brasileiro, um ilustrador não tem os mesmos direitos de quem escreve a obra, ao contrario de lá. Por aqui a minha contribuição, digamos, pictórica, se encerra na primeira edição de um livro sem qualquer participação caso a obra ganhe outros rumos. Acho que isso está mudando, principlamente por causa das associações de ilustradores, como a SIB por exemplo, que tem sistematicamente debatido com as editoras essa questão.
Blog - Ainda na comparação entre editoras: não precisa me dizer quanto, claro, mas paga-se muito mais por um álbum no exterior?
Lelis
- São economias e mercados muito distintos né, Paulo? Não podemos comparar um quadrinho institucionalizado como o franco-belga com o do mercado brasileiro. Lá o governo banca muita coisa. Bande dessinée lá é estratégica. Há décadas eles entenderam isso. Depois é pura matemática. Se eles tem um mercado super aquecido, ávido por coisas novas, com cerca de 3.500 novos títulos por ano, com feiras o ano inteiro, a consequência é que o pedaço do bolo é sempre mais generoso. É um sgmento econômico como qualquer outro por lá.

Blog - Além de quadrinista, você tem uma carreira de destaque na área da ilustração. Você tem somados quantos livros já ilustrou?
Lelis
- Ah, perdi a conta. Com certeza mais de 70. Mas o número exato eu não sei.

Blog - Queria entender melhor a sua rotina de produção. Trabalha no jornal "Estado de Minas" todos os dias, na redação ou em casa?
Lelis
- Trabalho todos os dias das 14 às 21h. Tenho que ir lá diariamente, bater ponto, etc. Um emprego formal, enfim.

Blog - Quando - em que horário do dia - sobra tempo para as ilustrações e os quadrinhos?
Lelis
- Hahaha! Essa foi sua pergunta mais difícil. Não sobra tempo, Paulo. Nem sei como faço tudo isso. Acordo todos os dias às 06:00h para adiantar o que posso. Quando chego em casa, à noite, nem olho para a prancheta. Mas ainda produzo. Acabei de escrever um álbum de 56 páginas. Rafeei umas 25 e assim que der uma brecha começo a finalizar. Não sei o destino dele e nem estou pensando nisso por isso nem dá pra falar muito sobre ele ainda. Só sei que estou curtindo fazer cada página.

Blog - E para as plantas? Li em seu blog que você tem um carinho especial pelo assunto.
Lelis
- Ah, sim. Tenho no lote que estou construindo minha casa/ateliê quatro pés de jatobá, um de pequi (árvove típica do cerrado) e algumas outras que ainda estou identificando. Enchi a paciência da arquiteta para que ela harmonizasse isso tudo. Um amigo me deu uma muda de ipê amarelo. Também gosto de hortas, galinhas, cachorros e cavalos. Enfim, nunca tirei os pés da roça.

 

Crédito: imagem cedida pelo autor

 

Blog - Queria entender o seu início de carreira. Li uma entrevista sua em que você menciona que desenhava desde os tempos de escola, nas aulas. É isso mesmo? Quando o interesse se tornou profissão?
Lelis
- Que eu me lembre, comecei ainda no antigo primário (atual ensino fundamental). Uma vez resgatei um caderno repleto de caubóis e jogadores de futebol. Era praticamente um fossil de tão velho. Nas férias escolares, sempre ia para a fazenda do meu avô. Lá pegava uns cadernos e ficava horas desenhando. Me sentava na cerca do curral e enquanto os vaqueiros ordenhavam as vacas eu não desgrudava do caderno. Era muito divertido. Gostava muito também de acompanhar os vaqueiros quando eles levavam o gado para outro pasto ou até mesmo outra fazenda distante. Era uma espécie de viagem a la Guimarães Rosa. Foi um período muito importante e decisivo na minha vida. Tanto que, quando fui fazer "Saino a Percurá", eu nem sabia que faria um livro sobre histórias do sertão. Sabia apenas que tinha um projeto aprovado pela lei de incentivo cultural da prefeitura de Belo Horizonte e que obrigatoriamente teria que entregá-lo num prazo máximo de um ano. Em duas tardes, escrevi todo o livro. Parece que todos os personagens que cruzei na época das minha ferias de infância na roça me visitaram naquelas duas tardes. Sobre o início, quando terminei o segundo grau, fui trabalhar em jornais de Montes Claros. Eram jornais rudimentares com aquele velho processo de impressão tipográfica com aquelas linotipos enormes e usando ainda o chumbo derretido para compor os tipos. Primeiro me colocaram como assistente de repérter policial. Sabiamente viram que meu negócio era outro. A partir daí passei a fazer charges, ilustrações e montar anúncios para o departamento de publicidade. Foi uma grande escola, sem dúvida.

Blog - E o uso de aquarela? É sua marca principal?
Lelis
- 100% das veszes que me procuram pra que eu ilustre um livro, já esperam que eu faça em aquarela. Ainda não sei se isso é bom ou ruim.

Blog - Você nasceu e cresceu em Montes Claros, confere? Quando se mudou para Belo Horizonte e como se deu sua passagem por São Paulo?
Lelis
- Nasci em Montes Claros e fiquei por lá até os 24 anos. Em 1992, meu pai queria vir para Belo Horizonte e me chamou para vir com ele. Nem titubeei. Chegando aqui o primeiro lugar que levei meus desenhos foi o jornal "Estado de Minas". No dia seguinte, já publicava lá. Foi aí que me tornei realmente profissional da ilustração. Em Montes Claros, por motivos óbvios, além de ilustrar, eu desempenhava muitas outras funções. No "Estado de Minas" não. Havia o cargo de ilustrador. Achei engraçado aquilo porque nem sabia que existia essa profissão. Mas foi ali, no dia a dia, ao lado de grandes profissionais, que aprendi muito, Ali comecei a colocar cor nos meus desenhos pela primeira vez. Em 1997, a editora de artes da "Folha de São Paulo" viu meu portfolio através do Osvaldo Pavanelli e me convidou para trabalhar. Não havia internet estável ainda. Os ilustradores enviavam o trabalho através de modem. Era um horror. A conexão caía durante o envio. Então decidi me mudar para São Paulo e trabalhar dentro da redação. Acho que foi uma boa decisão. Além de publicar em um dos maiores jornais do país e fazer grandes amzades, foi legal ficar um tempo em Sampa. Aproveitei para fazer muitos contatos. Mas, quando fui, sabia que seria por um tempo. Sabia que seria o tempo da estabilização da internet. E foi o que aconteceu. No final de 98, negociei com a Folha para trabalhar on-line de Belo Horizonte. A distância não fez a menor diferença. Tecnicamente, é claro. Trabalhava on-line nos chamados pescoções da sexta-feira e nunca deixei o editor de arte na mão. Pelo contrário. Quando alguém estava com problemas, o pessoal da arte me ligava e eu cobria.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h37
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10.02.10

Álbum em quadrinhos de Dom Casmurro terá 200 páginas

 

Adaptações machadianas - 2

 

Página da adaptação de Dom Casmurro. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma das páginas da obra, adaptada por Felipe Greco e Mario Cau 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era para ele desenhar apenas um capítulo. Surgiu mais um, depois mais outro. E Mario Cau acabou responsável por toda a arte da adaptação do romance machadiano "Dom Casmurro".

Tradução em números da tarefa que ele tem: precisa finalizar mais cem páginas do álbum, de um total de cerca de 200. A primeira metade já está concluída. Falta apenas a arte-final.

Cau acredita que termine a arte neste ano. Se pudesse, diz, faria apenas a adaptação. Mas os trabalhos remunerados falam mais alto na hora de pagar as contas.

A obra é feita em parceria com o escritor Felipe Greco, que assina o roteiro. Concluída, a obra será oferecida às editoras. Segundo os autores, ainda não há nenhuma definida.

                                                         ***

O roteiro de Greco para essa versão em quadrinhos da obra de Machado de Assis (1839-1908) já previa a quebra em capítulos, que deveriam ser feitos por desenhistas diferentes.

Ter uma única pessoa responsável pela arte permitiu a Mario Cau uma visão maior do conjunto da obra. O que ajuda também no processo de composição visual.

Nascido há 25 anos em Campinas, no interior paulista, o criador da série "Pieces" pretende construir um tom gradativamente mais sombrio à medida que o protagonista envelhece.

O romance, publicado em 1889, mostra o ponto de vista de Bentinho sobre um eventual adultério de Capitu. Como quem narra os fatos é Bentinho, não se sabe se houve a traição.

 

Trecho de Dom Casmuro. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

 

 

 

 

 

 

Álbum vai mostrar o protagonista Bentinho mais sombrio à medida que envelhece

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O labirinto verbal construído por Machado de Assis na obra joga com a dualidade fidelidade/traição. Intencionalmente, o escritor deixa em aberto o comportamento de Capitu.

Como resolver a ambiguidade narrativa numa adaptação em quadrinhos?

Esse é um dos temas da entrevista feita com Mario Cau e Felipe Greco após uma série de trocas de e-mail entre o jornalista e os autores e entre roteirista e desenhista.

A conversa feita em três vozes inicia com os motivos que levaram à concepção do projeto.

                                                         ***

Blog - Como surgiu a ideia de adaptar um romance? E por que especificamente "Dom Casmurro"?
Felipe Greco
- No ínício, foi uma encomenda de uma amiga editora. Porém o projeto foi ganhando contornos e dimensões que acabaram ultrapassando a proposta inicial. Particularmente, recebi a ideia de adaptar "Dom Casmurro" como uma provocação. Na idade em que fui forçado a ler Machado, ainda não tinha maturidade para compreender a importância nem a profundidade da obra (adolescentes ainda não têm maturidade para compreender temas complexos como adultério). Reler e estudá-la para este trabalho significou enfrentar antigas (e arraigadas) antipatias. Continuo não sendo machadiano, porém não posso mais ignorar sua maestria como prosador.
Mario Cau - Para mim, foi uma surpresa. Desde que comecei a perceber essa nova onda de adaptações de obras literárias para HQ, pensei em fazer uma. Minha vontade inicial era de adaptar Memórias Póstumas, também do Machado, mas naqule momento eu não teria condições de me dedicar tanto assim a um projeto desse porte. Depois, pensei em "Angústia", do Graciliano Ramos, mas de novo deixei de lado. Fui convidade pelo [desenhista] Bira Dantas para o projeto que, na época, contava com ele, Felipe e Mário César. Sempre gostei de Machado de Assis e principalmente de Dom Casmurro. Mas, com o tempo, o projeto foi mudando, até essa última "formação", eu e o Felipe.

Blog - A quantas anda o projeto? Começou quando e deve estar concluído mais ou menos quando?
Felipe Greco
- O roteiro está pronto desde o início de abril de 2008. As ilustrações ainda estão sendo produzidas.
Mario Cau - Estou no projeto desde junho de 2008, e ele mudou um bocado de lá pra cá. De uma equipe de três desenhistas, sobrou só eu mesmo para dar conta. Como é uma obra extensa, estou indo aos poucos, capítulo por capítulo. Na época que entrei, fiquei responsável pelo capítulo três. Depois, mudamos, e eu faria os três primeiros. Depois, os dois últimos. No final, vou fazer tudo mesmo. 
 
Blog - Você trabalha com a ideia de que deve ficar com quantas páginas?
Felipe Greco
- O roteiro previa 192 páginas, mas devemos ultrapassar um pouco esta quantidade por conta da própria demanda da narrativa visual.
Mario Cau - Com o aval do Felipe, pude destrinchar mais alguns trechos que precisavam de uma narrativa mais lenta, mais detalhada. E pude também resumir alguns outros trechos que estavam segurando um pouco, resumindo-os em menos páginas. Com a contagem atual, já estamos em 200 páginas.

 

Trecho de Dom Casmurro. Crédito: imagem cedida pelo autor

Blog - Há uma ambiguidade no romance de Machado sobre a infidelidade de Capitu. Nos quadrinhos, como vocês relatarão esse aspecto? As imagens não podem comprometer o que o autor manteve dúbio?
Felipe Greco
- Toda adaptação (assim  como a tradução de um texto) é uma interferência, uma leitura baseada nos referências de quem está fazendo o trabalho, isto é, o "intruso". Na adaptação, buscamos o noir (tanto no texto quanto nas ilustrações). Há uma carga maior na sensualidade - na minha opinião, implícita nesta obra do Machado. Claro que vamos conservar a "grande dúvida" sobre a suposta traição de Capitu. No entanto, ao dar um pouco mais de voz ao universo interior do protagonista-narrador, talvez esta questão se torne menos importante do que a traição de Dom Casmurro consigo mesmo. Explico: Bento, por não ter tido "grandes" referenciais masculinos na infância e adolescência, apega-se ao amigo Escobar (que, no livro, ganha mais linhas para descrever seus atributos psicológicos e físicos do que a própria Capitu). Tanto, que na fase "adulta" do personagem, Escobar tem mais destaque do que a mulher de Bento. Portanto, a "traição", nessa concepção, vai bem mais além... Com o afogamento de Escobar, Bento, antes de ser um marido traído, sente-se enganado pela idealização do masculino que ele personificou no amigo (que, no fundo, era tudo que ele gostaria de ser). Tudo isso é muito sutil e simbólico, entende? Vamos ver se conseguiremos passar esses "subtextos" por meio de imagens.
Mario Cau - É realmente complicado transpor para imagens coisas tão sutis quanto um olhar, um toque, um movimento. Estou dando o meu melhor para dar aos personagens não só uma cara, mas também, um clima, uma personalidade física, um gestual. Isso vai além do texto, em quadrinhos precisamos aliar as duas coisas. De nada adiantaria, por exemplo, uma Tia Justina ,que fala à sua maneira e tem suas intenções (será?), e não mostrá-la agindo como tal. Algumas coisas se perdem, outras se potencializam.

                                              ***

O roteirista Wellington Srbek também tem um roteiro pronto para levar "Dom Casmurro" aos quadrinhos.

Ele também participa da adaptação de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", com desenhos de J. B. Melado, na pauta da editora Agir, do grupo Ediouro.

Foi o tema da primeira reportagem da série sobre adaptações machadianas, que pode ser lida na postagem abaixo.

Escrito por PAULO RAMOS às 16h53
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27.01.10

Menthalos traz história sadomasoquista pautada por referências

 

Menthalos. Crédito: capa cedida pelo autor

 

 

 

 

 

 

 

Capa do álbum nacional, que tem lançamento em São Paulo nesta quinta-feira 

 

 

 

 

 

 

 

 


"Menthalos", que tem lançamento nesta quinta-feira em São Paulo, marca duas estreias. No campo editorial, representa a entrada da Annablume na área dos álbuns nacionais. Na parte autoral, traz o primeiro roteiro em quadrinhos de Antonio Vicente Seraphim Pietroforte.

Professor de Linguística e Semiótica na Universidade de São Paulo, ele construiu neste primeiro trabalho uma narrativa sadomasoquista permeada por referências de várias ordens.

Da Filosofia aos estudos da linguagem, dos quadrinhos à literatura, as citações englobam diferentes campos teóricos e ajudam a moldar a história de 80 páginas.

O sadomasoquismo, uma das referências centrais da obra, também já havia sido explorado por ele: organizou em 2008 uma antologia sobre o tema em parceria com Glauco Mattoso.

                                                          ***

A tradução visual dos temas ficou a cargo de Jorge Zugliani, que assina como Jozz.

Este é o primeiro álbum dele desde "O Circo de Lucca", publicado em 2008 pela Devir. Nesse intervalo, os quadrinhos de Jozz tem sido publicados no circuito independente.

Na leitura dele, "Menthalos" dialoga com o lado literário de Pietroforte, autor de romances e poemas publicados por diferentes editoras. Nesses livros, as referências também dão o tom.

"Acho que o leitor se identifica com uma garota comum em foco e fica mais interessante ver como ela chega a constatações, reflexões e imagens aparentemente absurdas, mas partindo de hábitos simples do meio social", diz o desenhista.

                                                         ***

Paulistano de 45 anos, Pietroforte está na USP desde 2002. Ele foge do estereótipo do professor tradicional da universidade. Destoa nos temas, no visual, no uso de acessórios.

O envolvimento com os quadrinhos vem desde criança. Como pesquisador, já abordou o tema em mais de um livro teórico com estudos sobre o processo de leitura das imagens.

A última obra foi lançada no fim do ano passado, também pela Annablume: "Análise Textual da História em Quadrinhos - Uma Abordagem Semiótica da Obra de Luiz Gê". 

A Annablume, editora onde publicou muitos de seus livros, pediu a ele que pense em outros trabalhos para compor uma coleção de álbuns nacionais.

 

Página de Menthalos. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

O embrião do selo de quadrinhos da Annablume é um dos temas desta entrevista com Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, feita após sucessivas trocas de e-mail.

As referências vistas em "Menthalos" pautam também as respostas. Com erudição, mas sem perder a clareza própria de um docente, ele detalha suas influências para a obra.

                                                          ***

Blog - Do que trata o álbum?
Antonio Vicente Seraphim Pietroforte
- Antes de tudo, trata-se de uma novela gráfica sadomasoquista, cuja influência principal é George Pichard, com ênfase na podolatria, influenciada, nesse tópico, por Franco Saudelli e Dennis Cramer. Contudo, como Menthalos e suas companheiras são anti-super-heróis, o diálogo com Stan Lee e a Marvel Comics é evidente. Contudo, não se trata apenas disso, há, em Menthalos, pelo menos uma tematização mítico-religiosa, quase esotérica, nas citações de Cornélios Agrippa e Robert Fludd; uma tematização musical, nas diversas citações de instrumentos musicais e músicos de jazz, em especial, do álbum Song X, de Pat Metheny e Ornette Coleman; e uma tematização metalingüística, quando os quadrinhos falam dos próprios quadrinhos, mas, ainda, quando são citados temas da semiótica, das teorias da linguagem e da lingüística moderna, como frases dos lingüistas mais importantes do século 20, Noam Chomsky e Ferdinand de Saussure – este último aparece como personagem da HQ no capítulo 6. Em síntese, o álbum trata da construção do sentido e da projeção da subjetividade erótica nesse processo.
 
Blog - É seu primeiro roteiro de quadrinhos, não? O que o levou a ele?
Pietroforte
- Gosto de transitar por várias linguagens, por isso, mesmo na área de Letras, estudei Semiótica, que me permite não me concentrar apenas em questões de língua e literatura. Depois de haver escrito romances, contos e poesias – trabalhos em linguagem verbal – resolvi fazer roteiros de HQs e, atualmente, estou envolvido em dois projetos: um com o Cleyton Fernandes, Maurício DeBonis, Marcus Pereira, Rodrigo Procknov e o mestre Willy Correia, todos músicos eruditos, em uma proposta de dar forma musical a poemas da literatura brasileira contemporânea; outro com a poetisa Ana Cristina Joaquim, o fotógrafo Lucas Kiler e a performer Milze K., na elaboração de um livro que combine fotos e poemas sadomasoquistas. 
 
Blog - Você tem trabalhos de análises semióticas de histórias em quadrinhos em mais de um livro. Uma pergunta dividida em duas: 1) você sente na USP e fora dela algum olhar torto sobre o tema?;  2) como acha que será visto pelos pares agora que é roteirista de quadrinhos? 
Pietroforte
- Não sinto, não, a universidade está aberta a estudar canções populares, histórias em quadrinhos, cinema, etc; o preconceito contra essas linguagens já acabou faz tempo. Meus pares, meus amigos continuarão me vendo como sempre viram. A universidade é habitada por todos os tipos de pessoas, o professor sisudo e mergulhado apenas nas gramáticas e no cânone literário conservador é apenas um estereótipo. Os poetas Horácio Costa e Jaa Torrano são professores da USP, basta ler os livros de poemas "Homoeróticas e Paulistanas", do Horácio, e "A Esfera e os Dias", do Torrano, para confirmar o quanto eles podem ser bem "malucos".
   
Blog - Qual a sua leitura do momento atual dos quadrinhos nas universidades brasileiras?
Pietroforte
- O que eu noto, às vezes, por parte dos alunos interessados no tema, é certo desconhecimento da história da história em quadrinhos e uma concentração em quadrinhos americanos de super-heróis e mangás. Como é quase só isso que circula nas bancas, fica bem difícil acessar artistas como Winsor Maccay, Goerge Herriman, Andrea Pazienza, Vuillemin; no erotismo, o mercado está bastante restrito ao Milo Manara, falta material do George Pichard e do Franco Saudelli, até mesmo do Guido Crepax, muita coisa está esgotada; no quadrinho nacional, pouca gente se lembra de Jayme Cortez, Júlio Shimamoto, Flávio Colin, Luiz Gê.

 

Página dupla de Menthalos. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

Blog - Há algum outro projeto semelhante em pauta?
Pietroforte
- Tenho mais três roteiros de histórias em quadrinhos, estou tentando convencer o Jozz para desenhar o segundo. Além disso, eu e o Jozz estamos coordenando a coleção "Em quadrinhos", do selo [e]xperimental, da editora Annablume, cujo projeto é editar os novos autores do quadrinho brasileiro.

Blog - Queria que aprofundasse sobre do que se trata o selo “Em quadrinhos". Como funciona na prática a seleção das obras e o que foi conversado com a editora?
Pietroforte
- Dentro da Annablume, os selos Demônio Negro e [e]xperimental cuidam de divulgar a literatura contemporânea – o selo Demônio Negro edita escritores com mais tempo de carreira, como o Augusto de Campos, o Horácio Costa e o Glauco Mattoso; o selo [e]xperimental, escritores mais recentes – dentro dessa proposta de divulgação da literatura contemporânea, surgiu a idéia, até em função da publicação de Menthalos, de fazer também um selo que editasse quadrinhos da nova geração. O Vanderley Mendonça, responsável pelo Demônio Negro, já foi editor de quadrinhos; o Zé Roberto, editor da Annablume, está dando bastante força para o projeto; o Jozz, que está no selo “[e]m quadrinhos” junto comigo, conhece bastante a nova geração de quadrinistas brasileiros. Por enquanto, temos apenas projetos para o futuro; queremos lançar, pelo menos, um álbum por semestre. 

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Menthalos". Quando: nesta quinta-feira (28.01). Horário: 19h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h20
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19.11.09

Um Adão, duas Alines e um seriado no meio

 

     

 

Numa tacada só, as livrarias e lojas especializadas em quadrinhos começaram a vender na última semana duas coletâneas de tiras de Aline publicadas por editoras diferentes.

O apelo dos dois lançamentos é o mesmo: aproveitar a popularidade do seriado homônimo da TV Globo, que adapta para a tela a criação de Adão Iturrusgarai.

Não é por acaso que "Aline + Otto + Pedro" (Devir, 64 págs., R$ 29) divide o título da obra com os dois namorados da personagem. Ambos têm papel de destaque na série.

Um selo no plástico que envolve a capa também explicita o diálogo com o programa de TV: "O quadrinho que deu origem ao seriado da Rede Globo. Para adultos."

                                                          ***

O cuidado de direcionar a obra para adultos tem a ver com o conteúdo. Não só pelo fato de a personagem ser viciada em sexo.

Além das tiras, o álbum traz uma série de pins-ups da Aline em posições bem provocantes. Explicitamente provocantes. Os desenhos também são reedições.

O diálogo com o leitor adulto é percebido também no título de "Aline - Finalmente Nua!!!" (LP&M, 128 págs. R$ 11), quarto livro de bolso dela pela editora gaúcha. 

A tal nudez faz menção a uma série de tiras que mostram o antes, o durante e o depois de Aline ter aceitado fazer fotos sem roupa. Posou para a fictícia "Baby Dolls".

                                                         *** 

As duas coletâneas têm também outro ponto comum. Mostram um momento em que Adão desenhava a série com um traço mais arredondado, abandonado depois.

O triângulo entre os dois álbuns e o seriado, que fez um outro público descobrir quem é Aline, é um dos assuntos da entrevista que o blog fez com o desenhista.

As respostas foram dadas por e-mail direto da Patagônia, na Argentina, onde mora com a esposa e os dois filhos. O caçula, Camilo, acabou de nascer.

Adão comenta também sobre os planos no país vizinho, onde também tem publicado.

                                                          ***

Blog - As tiras das obras da L&PM e da Devir são de que época? Algum dos livros tem material inédito?
Adão Iturrusgarai
- As tiras da L&PM seguem a sequência de publicação em jornal [foi publicada na "Folha de S.Paulo]. A edição se restringe em cortar algumas tiras, as mais ruins, as menos engraçadas, as nada geniais. São de 1998, por aí, acho eu, putz, faz tanto tempo... Já o álbum da Devir tem algumas novidades. Tem 16 páginas a mais. Tem cinco páginas por página ao invés de quatro. E uma das séries (Aline - garota de programa) é de publicação mais recente. Esta série (uma das minhas preferidas) é de mais ou menos 2005. Uma vez um rapaz da arte da "Folha de S.Paulo" me disse que essa série fez o maior sucesso lá na redação. As pessoas ficavam todos os dias esperando ansiosamente a "chegada" da Aline. Esta série faz parte de uma fase mais moderna do meu trabalho no qual deixei o pincel redondinho de lado e passei a desenhar mais solto. Uma volta às origens, ao "Iturrusgarai selvagem".
 
Blog - A seleção do material foi sua ou das editoras?
Adão
- Minha. 
 
Blog - As duas obras apostam no lado sexy da personagem. A L&PM deu um título que salienta a nudez e a Devir traz pin-ups ainda mais explícitas dela. Será que o recurso não põe as tiras em segundo plano?
Adão
- Eu dei também os títulos pros álbuns. Foi uma tentativa de atrair milhões de curiosos potenciais compradores do livro. Agora, falando muito sério... a Aline é uma personagem muito sexuada e tem várias séries que tratam do tema "treinamento de procriação". No pocket da L&PM tem a história dela posar nua pra uma revista e no da Devir tem essa série de desenhos que fiz pra revista "Simples". Acho que as tiras não ficam em segundo plano, por que ninguém compra uma revista da Aline pra bater punheta. Só se for um sujeito bastante depravado. 
 
Blog - Foi sua a ideia de desenhar Aline em posições eróticas no álbum da Devir?
Adão
- Essa série saiu na revista "Simples". O Ale Fajardo (editor) me encontrou na rua e me disse: "por que você não faz um ensaio da Aline nua pra revista?" Eu tava cheio de trabalho na época e desconversei. Mas depois valeu a pena o esforço. Adoro esses desenhos. Ela acabou saindo na capa como se fosse um ensaio de revista de mulher pelada. Agora, escrevendo estas linhas, acho que na época eu devia estar fazendo a série da Aline querendo posar nua pruma revista, talvez por isso o convite. Possivelmente. Seguro.
 
Blog - Duas editoras diferentes publicam a mesma personagem. Não há problemas de concorrência entre elas?
Adão
- Acho que os formatos se complementam. O pocket é fundamental para o leitor brasileiro. Por causa do preço e tal. E o álbum tem a qualidade (e cor) que o pocket não tem.  
 
Blog - Houve uma espécie de renascimento de Aline por conta da série da Globo. Você já sentiu se, por causa disso, há algum interesse de novos leitores para as suas tiras?
Adão
- Sim. No meu blog tem um monte de gente que está entrando. Gente que não conhecia o meu trabalho no papel mas que a Globo popularizou. O legal é que elas acabam conhecendo mais coisas do meu trabalho, outros personagens e tal. O lado mais selvagem, digamos. 
 
Blog - Você havia falado bem do piloto da série, exibido em dezembro do ano passado. Você chegou a assistir aos primeiros episódios? O que achou?
Adão
- Eu achei legal. Tenho uma preferência pelos episódios da separação dos pais dela. Eu acho que eles fizeram uma ótima adaptação televisiva da personagem. Mas é uma adaptação. São coisas meio diferentes. 
 
Blog - Novidades profissionais, tanto aqui no Brasil quanto na Argentina?
Adão
- Estou contactando editoras aqui para começar a publicar coisas em espanhol. Na argentina, continuo publicando na revista "Fierro". Eles estão abrindo cada vez mais páginas pra mim. Comecei com meia e na próxima edição me reservaram três. Se continuar nesse ritmo, em 10 anos a "Fierro" vai trocar de slogan. Vai ser algo assim: FIERRO, LA HISTORIETA DE ITURRUSGARAI. 

Escrito por PAULO RAMOS às 11h26
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13.11.09

Piauí publica charge com crítica a concurso da revista

 

Charge de Spacca publicada na revista Piauí deste mês

 

 

 

 

 

Desenho foi feito por Spacca e aparece na edição deste mês da publicação

 

 

 

 

 

 

 

O pinguim-símbolo da "Piauí" foi usado para dar uma cutucada em um concurso de desenhos promovido pela própria revista. A charge foi publicada na edição deste mês.

O trabalho, feito por Spacca, aparece discretamente no alto da página 77. Mostra o pinguim dando peixe a desenhistas, como em apresentações com animais aquáticos.

A charge faz alusão às regras do concurso. A "Piauí" dá como prêmio a publicação nas páginas da revista e uma estátua do pinguim de porcelana. Em troca, usa o desenho.

A "Piauí" registrou a crítica em um texto que acompanhava o trabalho de humor. E incluiu um agradecimento ao autor: "Obrigadão, Spacca!".

                                                         ***

A revista já renovou o convite para uma nova rodada de desenhos do concurso, intitulado "Traços e Rabiscos". As inscrições vão até o dia 20 deste mês. O prêmio é o mesmo.

Spacca planeja ir ao escritório comercial da revista, em São Paulo, para retirar o seu pinguim de porcelana. Foi lá que indicaram a ele para pegar a estátua.

Antes que o próximo vencedor seja escolhido, o desenhista conversou por e-mail com o blog sobre o que pensa das regras do concurso e o que o levou a se inscrever.

"Queria que eles tomassem conhecimento", diz Spacca, que publicou por anos na "Folha de S.Paulo" e hoje tem se dedicado à criação de quadrinhos para a Companhia das Letras.

                                                          ***

Blog - Foi uma surpresa ver que seu desenho - uma crítica ao concurso - foi escolhido pela revista para ser publicado?
Spacca
- Surpresa foi, porque eu não tinha visto meu desenho no site da "Piauí" entre os selecionados, mas não totalmente inesperado. O normal é que os órgãos mais importantes ou visíveis, poderosos ou cult, ignorem solenemente. Havia, porém, a possibilidade de a "Piauí "ser mais descolada e, pelo menos, selecionar também os cartuns críticos. Foi um teste para a "Piauí".
 
Blog - Por que você decidiu inscrever o desenho na publicação?
Spacca
- Quando criei, fiz muito rápido, achei o desenho bem sacado. Gostei inclusive da solução gráfica, que não costumava usar, que usa recursos do Angeli: fazer uma base de tons em preto e cinza, e colorir por cima. Mesmo os desenhistas nadando têm um olho de peixe morto que o Angeli gosta. E, quando um desenho fica bom, dá "cosquinha", a gente quer mostrar a molecagem que acabou de fazer enquanto está quente, dá um assanhamento. Imediatamente, mandei para a lista dos ilustradores da SIB [Sociedade dos Ilustradores do Brasil], que frequento todo dia. Quando alguns me sugeriram mandar para o concurso, eu já havia tomado a decisão de enviar. Pelo mesmo motivo: queria que eles tomassem conhecimento. Quando fazia charge na Folha, é óbvio que eu queria que os políticos vissem as charges que os criticavam.
 
Blog - Seu desenho é eloquente e já responde, mas a pergunta é necessária: como você avalia concursos como esses feitos pela "Piauí"?
Spacca
- Meu desenho pega um concurso apresentado como bacana, uma chance de ficar famoso, e subverte, mostra uma proposta meio humilhante. Mas é preciso considerar que a "Piauí" contrata ilustradores e, segundo me disseram, paga direitinho. A charge na verdade se aplica mais a concursos feitos por empresas de grande porte, para ter à sua disposição designers e ilustradores supostamente ávidos para trabalhar em troca de divulgação. E eu também não gosto de patrulhar colega: quer colaborar de graça, colabore. A revista "Bundas", do Ziraldo, fez muito isso e ninguém chiou. O José Simão recebe colaboração de muita gente.
 
Blog - O fato de servir como janela para o desenhista, mesmo que sem prêmio em dinheiro, não é um recurso válido?
Spacca
- É uma tendência do novato querer aparecer de qualquer jeito. Se bobear. o sujeito até pagaria por isso, especialmente se for jovem, solteiro e se não tiver contas pra pagar. E as mídias mais famosas se aproveitam, exploram. Porém, o profissional uma hora precisa parar com isso. Senão, ele vai divulgar para o próximo cliente, que também vai oferecer divulgação em troca... Onde acaba isso? O desenhista vive de brisa? Por outro lado (minhas respostas sempre têm outro lado...), reconheço o valor da divulgação. Por exemplo, já dei entrevistas em programas de TV, onde me pediram para fazer caricatura de um outro entrevistado. Fazendo isso, fiquei mais uns minutos no ar e vendi mais o meu peixe. Recentemente, no programa do João Gordo, ele entrevistando o compositor Arlindo Cruz, viu na casa dele essa caricatura, e eles falaram de mim. Então esse troço rende, repercute.
Dentro de certos limites, a troca é proveitosa para os dois lados.
 
Blog - Mesmo com a crítica vindo de um quadrinista de destaque, a revista vai repetir o concurso. A cutucada não funcionou, a seu ver?
Spacca
- Não quis, nem quero impedir o concurso. Seria atribuir muito poder à charge se eu achasse que a "Piauí", vendo, botasse a "mão na consciência" e viesse a público pedir desculpas, se retratar... E seria muito sem graça também. O que eles fizeram foi muito mais inteligente e elegante, souberam absorver o impacto, e estava dentro das possibilidades que eu antevia. E estamos nos promovendo mutuamente, não é? Isso vale um peixinho :)

Escrito por PAULO RAMOS às 06h26
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03.11.09

Novo álbum de Mortos-Vivos marca retorno da HQM

 

Os Mortos-Vivos - Desejos Carnais

 

 

 

 

 

 

Obra, lançada nas últimas semanas, é o primeiro título da editora depois de meses sem novas publicações 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


O quarto volume da série "Os Mortos-Vivos" marca a volta da HQM às obras em quadrinhos. A editora programa um título nacional, "Necronauta", até o fim do ano, e o retorno às bancas da revista "Senninha", com periodicidade bimestral ou trimestral.

O termo "volta" se justifica porque a HQM ficou meses sem lançar títulos. O jejum teve início meses depois de a editora anunciar uma longa lista de publicações.

A relação incluía este álbum de "Os Mortos-Vivos - Desejos Carnais", lançado no fim do mês passado. A obra mostra um grupo de pessoas ilhadas em meio a zumbis.

A série é escrita por Robert Kirkman e desenhada por Charlie Adlard e tem conseguido sucessivas indicações a prêmios norte-americanos da área. No Brasil, ganhou um HQMix.

                                                          *** 

A lista de lançamentos, divulgada pela editora no fim de julho de 2008, relacionava também obras nacionais e estrangeiras, algumas voltadas às bancas, e mangás.

Nesse intervalo, algumas migraram para outras editoras. Um caso é "Yeshuah", sobre a vida de Jesus Cristo feita por Laudo Ferreira Jr e Omar Viñole. A obra foi para a Devir.

A programação da HQM para este ano e para 2010 é um dos assuntos desta entrevista do blog com o editor-chefe da HQM, Carlos Costa.

Feita em diferentes trocas de e-mail, a conversa começa sobre as razões que levaram a editora a ficar meses sem pôr no mercado novas obras em quadrinhos. 

                                                         ***

Blog - A HQM teve um intervalo na publicação de novos títulos, quebrado em outubro com o quarto volume de "Mortos Vivos". O que levou a esse jejum de lançamentos?
Carlos Costa
- Devido ao investimento no ano passado com "Violent Cases", "Senninha", os dois livros teóricos ("A Era de Bronze" e "Passeando com o Rei dos Sonhos") e a entrada no mercado nacional com "Leão Negro" e "Quadrinhofilia", tivemos que dar uma pausa para recuperar parte do investimento, pois, caso contrário, não conseguiríamos seguir em frente. Somado a isso, a crise financeira mundial também nos abalou. Como consequência, tivemos que protelar toda a nossa programação, aguardando o momento certo para reiniciar novamente com os lançamentos. 

Blog - No ano passado, a editora havia divulgado uma longa lista de publicações. Elas ainda estão nos planos da editora?
Costa
- Sim, a maioria da lista ainda está. Os únicos que não estão são o "Yeshuah", do Laudo e Omar, que agora sairá pela Devir; as biografias de Álvaro de Moya e Rodolfo Zalla, organizadas pelo jornalista Gonçalo Junior, que deverão sair de formas independentes; e "Cogumelos ao Entardecer", de Jonatas Tobias, que, após sua seleção pelo Proac [programa de incentivo à produção de quadrinhos do governo paulista], resolveu também transferir o projeto para a Devir. Em contrapartida, entraram outros lançamentos na lista, como "Retro City", de Mauricio Dias, Daniel HDR e o pessoal do Dinamo Studio; "Little Heroes", de Estevão Ribeiro, desenhado por vários autores, como Fernanda Chiela, Ric Milk, David Calil, entre outros; "Necronauta", de Danilo Beyruth, que está programado ainda para este ano, entre outros. A publicação do Studio Seasons, que planejamos inicialmente como uma revista mix, foi alterada para o formato tankohon. Ou seja, cada série sairá em edições únicas, em formato parecido ao dos mangás convencionais.
 
Blog - As publicações nacionais - tanto álbuns quanto mangás - continuam na pauta da HQM?
Costa
- Sim, continuam, apesar de sabermos que, ao menos ainda por enquanto, o material nacional vende menos que o material internacional. Porém, ainda acreditamos no material nacional, devido à qualidade dos produtos que escolhemos para publicação, que são de primeira linha.

Blog - "Yeshuah", de Laudo Ferreira Jr., integrava essa lista. Mas, sabe-se agora, migrou para a Devir. O que levou à troca de editora?
Costa
- Creio que devido à nossa pausa nas publicações, ele tenha preferido passar para uma outra editora. Na verdade, como ficamos sem nos falar por algum tempo, a decisão do Laudo também foi surpresa para nós. Creio que houve uma falta de diálogo maior entre nós e o autor. 
 
Blog - O que ocorreu com a revista mensal de "Senninha"? Volta às bancas? E as assinaturas?
Costa
- As assinaturas continuam, porém novas só são processadas quando está para sair uma nova edição. Em novembro sai a edição oito. A publicação deixa de ser mensal e deverá continuar bimestralmente ou trimestralmente. 
 
Blog - A ideia de uma outra revista voltada para as bancas continua de pé? E a da Turma do Xaxado, de Antônio Cedraz?
Costa
- Sim, em parceria com a Editora Cedraz, está programado para este ano o lançamento de duas edições da Turma do Xaxado. Para o ano que vem, estamos planejamento o lançamento de uma revista de informação e outra que publicará talentos nacionais em bancas.

Blog - Como serão as duas revistas da Turma do Xaxado e a outra voltada às bancas, com talentos nacionais, como você definiu?
Costa
- As revistas do Xaxado serão no estilo da revista do Senninha. A parceria inicial com Antônio Cedraz planeja o lançamento, no início, de duas edições. Se as vendas forem satisfatórias, programaremos mais edições. A outra revista será algo no estilo Graphic Talents (publicação da Editora Escala que foi descontinuada há algum tempo) - cada uma dedicada a um único autor nacional. Ainda estamos estudando qual o melhor formato físico para publicação.
 
Blog - Até o final do ano, a HQM programa algum outro lançamento?
Costa
- Para este ano estão programados o relançamento do volume dois da série "Os Mortos-Vivos", que se encontra esgotada, e do "Necronauta - Volume 1", de Danilo Beyruth. Temos intenção de lançar ainda este ano "Zoo", de Nestablo Ramos, porém, este, não sabemos se dará tempo. No mais tardar, deverá sair no início de 2010. Mesmo caso da continuidade do "Leão Negro", de Cynthia Carvalho, que se não sair um novo volume este ano, sairá no início do ano que vem.
 
Blog - E para 2010? Já há um planejamento do que deve ser publicado?
Costa
- Por enquanto, não. Somente para os próximos meses. Como somos uma editora pequena e dependemos das vendas de cada título para continuidade de todo o planejamento editorial, não há como termos uma programação fixa. No entanto, para o ano que vem já está certo "Santuário", o novo volume de Estranhos no Paraíso; "Kickback", de David Lloyd; "Who Fighter", mangá de Seiho Takizawa; "I Luv Halloween", de Keith Giffen e Ben Rowan; "Retro City"; "Aventuras em Oz", de Eric Shanower; novos volumes de "Leão Negro"; as revistas que citei anteriormente entre outras novidades, como projetos para o Instituto Ayrton Senna e para o Instituto Ética nos Negócios (este último, em parceria com o cartunista Bira Dantas), que estamos desenvolvendo.

Blog - Como será essa parceria com Instituto Ética nos Negócios?
Costa
- A parceria com o Instituto Ética nos Negócios é a reformulação de um personagem criado por Bira Dantas para a empresa, o Ético. O Bira cuidou da concepção inicial e nós fizermos a reformulação visual do personagem. O próximo passo é a produção de histórias em quadrinhos e outros materiais relacionados ao Ético. Neste meio tempo em que pausamos os lançamentos, tentamos firmar parcerias com várias editoras do mercado, porém não obtivemos retorno esperado. Assim, resolvemos seguir ainda sozinhos. No entanto, não desistimos ainda de uma boa parceria, que possa render bons frutos para ambos os lados.

Escrito por PAULO RAMOS às 09h46
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08.10.09

Ilustrador prepara livro sobre histórias Disney de Renato Canini

 

Ilustração de Zé Carioca feita por Rentato Canini

 

Na mesma semana em que Renato Canini é homenageado no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em Belo Horizonte, o desenhista se torna notícia por um outro motivo: ele é tema de uma pesquisa sobre seu trabalho, programada para virar livro.

O estudo é feito pelo ilustrador Fernando Ventura e detalha a passagem de Canini pela redação de quadrinhos Disney da Editora Abril.

O desenhista ficou conhecido por criar um visual mais malandro e abrasileirado das histórias de Zé Carioca publicadas na década de 1970 e reeditadas até hoje. Ele trocou o paletó, o guarda-chuva e o chapéu por uma camiseta e calças amarrotadas.

O humor das tramoias criadas pelo personagem também mudou. Pobretão, estava sempre endividado. Tanto que existia até uma entidade só de quem levou calote dele, a Anacozeca, Associação Nacional dos Cobradores do Zé Carioca.

                                                          ***

Nascido em 1980, Fernando Ventura teve o primeiro contato com essas histórias quando elas começaram a ser relançadas no país. Anos depois, toraram-se interesse de pesquisa.

Já faz alguns anos que ele faz o levantamento de tudo o que Canini para a Disney na Abril. Parte dos resultados já está disponível para consulta no site "Inducks", catálogo virtual sobre quadrinhos Disney em diferentes países, entre eles o Brasil.

Os desenhos de Canini pararam depois que ele foi demitido em 1976 ou 1977 - a data não é precisa - por orientação da matriz estadunidense.

Segundo Ventura, a explicação dada a ele, na época, foram baixas vendas. O real motivo só veio a público anos depois: o personagem havia ganhado destaque próprio nas mãos dele.

                                                          ***

Foi algo semelhante ao que ocorreu com as aventuras de Pato Donald, Tio Patinhas e companhia criadas pelo norte-americano Carl Barks. Este criava, Disney levava a fama.

O primeiro reconhecimento da Abril ao trabalho de Canini se deu em 2005, num dos números da coleção "Mestres Disney". O álbum era todo dedicado a ele e trazia uma história sua feita para a publicação, cheia de menções cifradas ao seu desligamento.

O autor foi tema também de um mestrado, defendido na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. A pesquisa foi desenvolvida pelo quadrinista Eloar Guazzelli.

Mas nenhum dos dois casos - o álbum e o mestrado - fazia um raio-x da carreira dele na Abril. O livro de Ventura se propõe a fazer.

 

Trecho de história de Zé Carioca feita por Fernando Ventura

 

Ventura ainda não tem editora definida, nem data certa para publicação. Mas sabe a história em quadrinhos com que pretende abrir a obra.

É uma narrativa de cinco páginas que escreveu e desenhou para a edição de "Mestres Disney" dedicada a Canini, que hoje mora em Pelotas, no Rio Grande do Sul, de onde faz charges para jornais da região. Parte da história de Ventura é mostrada acima.

A narrativa não foi incluída na edição. Cedeu espaço a outra, feita de próprio punho por Canini, que, após deixar os desenhos de Zé Carioca, permaneceu por mais alguns anos na editora apenas como roteirista.

É esse segundo momento dele na Abril um dos nós que adia a finalização do livro. Como as histórias não eram assinadas por quem as fazia, fica difícil saber quais Canini realmente fez.

                                                           ***

A dificuldade em concluir o levantamento é um dos temas da entrevista que o blog fez nesta semana com Fernando Ventura, um paulistanode 29 anos formado em design gráfico.

Outro sinal de que a finalização do livro deve ser acelerada foi a morte de Ivan Saidenberg, no último dia 30 de setembro.

Saidenberg foi um dos roteiristas das histórias de Zé Carioca desenhadas por Canini. Também criou personagens ligados a Peninha, como Morcego Vermelho e Pena Kid.

A conversa com Ventura começa com a concepção do projeto e de como ele passou a olhar de um outro jeito os quadrinhos produzidos por Renato Canini.

                                                          ***

Blog - Como surgiu a ideia de fazer um livro sobre o trabalho de Canini?
Fernando Ventura
- A ideia surgiu quando eu ainda era aluno de desenho do Waldyr Igayara. Iga brindava semanalmente seus alunos com histórias maravilhosas sobre sua vida e carreira nos quadrinhos e sempre falava com muito carinho sobre Canini. Ele me mostrou os trabalhos de Canini na revista "Recreio" e contou sobre a pressão americana para que Canini mudasse seu estilo ou deixasse o personagem. Em paralelo, eu começava minha carreira como roteirista e desenhista e iniciava minha colaboração com o Arthur Faria Jr. no "Inducks" (base de dados mundial dos quadrinhos Disney). Esses primeiros estudos resultaram em uma monografia de especialização em design gráfico na Faculdade de Belas Artes de São Paulo (hoje Centro Universitário Belas Artes) intitulada "Zé Carioca no Traço do Canini", defendida em 2004. 
 
Blog - A obra vai abranger apenas a passagem dele pela Abril? Ou vai considerar outros trabalhos dele?
Ventura
- O foco da obra é a carreira Disney de Canini. Mostro quem eram os roteiristas por trás das histórias, os bastidores e em alguns casos até quem eram os letristas e coloristas. Contextualizo, sem esgotar o assunto, tanto o Zé Carioca antes e depois do Canini, quanto o Canini antes e depois do Zé Carioca, para que fique claro ao leitor a importância que um teve na carreira do outro e o que motivou a Disney na época a considerar o trabalho de Canini tão fora do padrão. A estrutura é parecida com o a do livro Romano Scarpa - "Sognando la Calidornia", dos autores italianos Becattini, Boschi, Gori e Sani.
 
Blog - Qual a sua leitura do trabalho de Canini à frente de Zé Carioca?
Ventura
- Nasci em 1980, portanto só conheci o trabalho de Canini nas páginas do "Disney Especial". Quando criança considerava as histórias esquisitíssimas! Adorava e relia dezenas de vezes. Acho o trabalho de Canini especial porque seu estilo gráfico brasileiríssimo sugeria continuidade, mesmo ilustrando histórias de vários roteiristas diferentes. Boa parte do estilo brasileiro, solto e divertido, de Disney dos anos 1980 e 90 é reflexo do trabalho de Canini e de um outro desenhista pouco conhecido, Kimura, que também fez maluquices com os patos no final dos anos 1970.
 
Blog - O que falta para o livro ficar pronto?
Ventura
- Desde que a monografia foi apresentada, novos dados vieram à tona. Em termos Disney, o mais importante foi a listagem das histórias dos principais coautores de Canini, Júlio de Andrade e Ivan Saidenberg (falecido recentemente), e o lançamento do "Mestres Disney", que o homenageou em 2005. Nesse período, Canini foi redescoberto pelo público e por uma nova geração. É preciso, portanto, re-estruturar e atualizar o texto. Existe também um buraco na minha pesquisa. Depois que Canini foi demitido como desenhista, ele continuou colaborando com a Abril escrevendo argumentos Disney. Conhecemos algumas dessas histórias, mas não todas. Canini não as possui em sua coleção, mas me disse ser capaz de identificá-las. Gostaria que colegas colecionadores me auxiliassem a xerocar as histórias desse período, as quais eu organizaria e enviaria a Canini, que não possui internet. Portanto, é preciso que as cópias sejam físicas. Os colecionadores interessados podem entrar em contato comigo por e-mail, para saber mais detalhes: fernandopventura@uol.com.br.
 
Blog - Tem editora definida e ideia, ao menos aproximada, de quando a obra deve ficar pronta?
Ventura
- Não tenho editora definida. A re-estruturação e atualização da obra deve durar no máximo até o final deste ano, quando começarei o trabalho de diagramação e apresentarei um capítulo-piloto para a Disney e a Editora Abril, solicitando o uso das imagens. Publicarei periodicamente no blog http://disneymadeinbrazil.blogspot.com/ o desenvolvimento do trabalho para os interessados acompanharem. Espero conseguir permissão para abrir o livro com a HQ inédita que fiz em homenagem à Canini, escrita originalmente para a edição do Mestres Disney. Continuo pesquisando as histórias em quadrinhos Disney brasileiras, não somente de Canini, mas de todos os outros autores. Portanto, qualquer espécie de colaboração é sempre bem recebida.

Escrito por PAULO RAMOS às 09h31
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07.10.09

Chega ao Brasil série de Gabriel Bá premiada nos EUA

 

The Umbrella Academy - Suíte do Apocalipse. Cre´dito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "The Umbrella Academy - Suíte do Apocalipse", álbum que tem lançamentos nesta semana em São Paulo e Belo Horizonte 

 

 

 

 

 

 

Gabriel Bá reprisa neste mês uma trajetória comum entre quadrinistas argentinos. Estes publicam histórias no exterior, em particular na Europa, e depois de algum tempo veem a obra chegar ao país de origem.

No caso do desenhista brasileiro, o périplo começou nos Estados Unidos. Agora, dois anos depois, "The Umbrella Academy" é traduzida para o português pela editora Devir.

A obra tem lançamentos hoje em São Paulo e sexta-feira em Belo Horizonte durante o FIQ, Festival Internacional de Quadrinhos, que será realizado até o dia 12 na capital mineira.

O álbum é uma coletânea dos números iniciais da série, que ajudou a firmar o nome de Bá entre os principais autores hoje do mercado norte-americano de quadrinhos.

                                                           ***

Pela arte feita na série, ele conquistou uma sucessão de prêmios de destaque em 2008, do qual se destaca o Eisner Awards, o principal da indústria de quadrinhos estadunidense.

Teve novas indicações no Eisner deste ano como melhor desenhista e autor de capas (por outro título, "Casanova"). E concorre ao Harvey Awards como melhor desenhista e série contínua ou minissérie.

Ele e o irmão gêmeo, o também desenhista Fábio Moon, disputam uma terceira categoria no Harvey: melhor antologia pelo número de estreia de "Pixu", produzido em parceria com Vasilis Lolos e Becky Cloonan.

A história de terror, outro título que foi publicado primeiro nos Estados Unidos, também será lançada neste mês pela Devir, com a presença dos quatro autores.

                                                         ***

Bá e Moon se destacaram também no Brasil no ano passado.

Venceram um dos prêmios Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, pela adaptação do conto "O Alienista", de Machado de Assis, lançada pela Agir (1839-1908).

Um ano antes, foram o destaque do Troféu HQMix, o principal da área de quadrinhos do país. Venceram em quatro categorias.

Paralelamente aos trabalhos no exterior, Bá e Moon têm produzido desde o ano passado a tira "Quase Nada", publicada uma vez por semana na "Folha de S.Paulo". Sai aos sábados.

                                                          ***

"The Umbrella Academy", que agora chega ao Brasil, destoa das produções anteriores de "Dez Pãezinhos", série de histórias criadas com o irmão e publicadas aqui no Brasil em mais de um álbum.

O foco não está tanto nos relacionamentos humanos. A série norte-americana é uma história de super-heróis, todos irmãos, que formam a equipe Umbrella Academy.

Cada um dos integrantes possui dons diferentes. Foram adotados de berço pelo criador da equipe, o eclético Sir Reginald Hargreeves. O grupo atua junto desde pequenos.

Com o tempo, o a equipe se desfaz. Até que são unidos novamente para o funeral de Hargreeves. E para enfrentarem juntos, mesmo com indisfarçáveis conflitos pessoais, a amaeaça da suíte do apocalipse, música que tem poder para destruir o mundo.

                                                          ***

A série foi escrita por Gerard Way, da banda My Chemical Romance. O trabalho da dupla rendeu uma sequência e tem outra prevista.

Way não vem ao Brasil para os lançamentos, que tornarão ainda mais apertada a agenda de Gabriel Bá. Entre uma página e outra, entre um comprimisso e outro, ele arrumou um tempo para conversar com o blog, por-email.

Na entrevista, ele comenta seu atual momento profissional e dá detalhes sobre a nova série "Daytripper", feita com o irmão para Vertigo, selo adulto da DC Comics, mesma editora de Batman e Super-Homem. "Daytripper" será ambientada no Brasil.

E, claro, fala sobre "The Umbrella Academy", assunto que inicia a conversa.

                                                          *** 

Blog - A que você credita a boa repercussão que "The Umbrella Academy" teve no exterior?
Gabriel Bá
- Acho que grande parte da expectativa em cima do Umbrella se deu pelo fato de o Gerard ser o vocalista do My Chemical Romance, uma banda com uma grande legião de fãs e com uma forte assinatura visual em todos os clipes. Só isso já gerou muita repercussão em cima do projeto antes mesmo de sair qualquer coisa. Uma vez lançado o gibi, a verdade é que ele tem uma história muito bem contada, com personagens cativantes, grandes vilões e uma história cheia de elementos bizarros, usando de maneira  excelente quase todos recursos que a linguagem dos quadrinhos oferece, como páginas duplas, flashbacks, narrativas e grandes diálogos. Não é uma revolução cheia de ideias geniais, mas traz um sentimento de frescor que o cenário dos quadrinhos de super-heróis estava precisando. Desta mesma forma, este é um motivo pelo qual o gibi tem um grande apelo para um público maior que somente o leitor de super-heróis, além de apelo internacional. Se fosse pra comparar, aos invés de compará-lo ao Watchmen, acho que compararia ao Os Incríveis, filme da PIXAR. Você já viu tudo aquilo em um milhão de gibis, mas eles reuniram tudo e usaram de forma inteligente e contaram uma história de maneira nova e original. O Umbrella faz a mesma coisa. Pra completar, nós ganhamos o Eisner Award, Harvey Award, Scream Award, além de outros prêmios, o que ajudou a chamar mais atenção de quem ainda não tinha ouvido falar do gibi.

 
Blog - "The Umbrella Academy" e "Pixu" saíram primeiro nos Estados Unidos e somente agora no Brasil. Você acha que o fato de uma obra ser publicada primeiro no exterior ajuda na aceitação dela aqui no mercado nacional?
- Acho que pode ajudar, mas não garante o sucesso de um livro. Assim como literatura e cinema, quadrinhos têm vários gêneros diferentes e cada um deles tem seu público, além de compartilharem um público genérico. Assim, se você faz uma HQ medieval que teve enorme aceitação na França porque o público pra esse tipo de história é grande por lá, isso não vai garantir que faça sucesso aqui, onde o público pra isso é muito menor. O Umbrella e o PIXU são livros muito diferentes. Um é uma história de super-heróis, divertida e bizarra, com um toque de violência, mas que atinge um público mais amplo, desde adolescentes até leitores mais velhos que tenham esse sentimento de nostalgia. O outro é uma HQ de terror psicológico, sombrio e pesado. Os dois trabalhos são muito diferentes do que o público costuma encontrar nos 10 Pãezinhos, mas é isso que acredito ser um mérito desses trabalhos, mostrar a variedade de gêneros e histórias que podemos contar nos quadrinhos. Pra mim, não devia importar de onde você é ou onde você publicou. O mais importante é a história. Uma boa história é boa em qualquer língua e atingirá públicos diferentes em vários lugares.

Blog - As premiações de 2008 ajudaram você e seu irmão a consolidarem uma elogiada carreira também fora do país. Como você planeja os próximos passos de sua carreira: ruma para o mercado externo ou para o interno? Qual deles permite a você contar melhor suas histórias?
- Nós sempre tomamos as decisões basaeadas nos projetos, independentemente de onde será feito. Se gostamos da história o suficiente para querer fazer, é o que importa mais. Se temos uma ideia boa para contar, podemos desenvolvê-la. Gosto de acreditar que contamos histórias um tanto universais por tratarem de questões mais humanas, então não importa muito onde ela será publicada primeiro, pois sempre existirá a chance de ela ser publicada em outro país. Estamos produzindo esta série para a Vertigo, chamada Daytripper, que se passa no Brasil e tem vários elementos que só serão percebidos pelo leitor brasileiro. Não influenciam na história, mas dão estofo e enriquecem a ambientação. Mesmo que estejamos produzindo pra publicar lá, mal posso esperar pra saber como ela será recebida aqui. O que mais sinto falta do mercado nacional é escrever em português. Nós vamos continuar publicando aqui, mesmo que independentemente como já fizemos tantas outras vezes.

Blog - Queria que você antecipasse como será a série "Daytripper", feita com seu irmão. Do que se trata? Serão quantas edições?
- Daytripper conta a história de um sujeito chamado Brás, que trabalha escrevendo obituários num jornal em São Paulo, mas seu grande sonho é ser escritor. No entanto, seu pai já é um grande escritor de renome e Brás tem que lidar com este fardo de ter um trabalho que não gosta e viver à sombra do pai o tempo todo. A série terá dez capítulos onde vamos acompanhar a vida desse personagem em diferentes momentos, que irão formando sua personalidade e influenciando suas decisões e os caminhos que ele tomou ou tomará. É muito difícil falar sobre essa série, mas é definitivamente a melhor coisa que já fizemos.

Blog - Para finalizar: quais outros projetos vocês têm para 2010? Algum já pode ser antecipado?
- Temos muitas propostas e convites, tanto nacionais quanto internacionais, mas por enquanto estamos focando em terminar o Daytripper. Só depois teremos cabeça pra decidir.

                                                          ***

Serviço - Lançamentos de "The Umbrella Academy - Suíte do Apocalipse"
Em São Paulo. Quando: hoje (07.10). Horário: 19h. Onde: Fnac Pinheiros. Endereço: Avenida Pedroso de Moraes, 858.
Em Belo Horizonte. Quando: sexta-feira (09.10). Horário: 19h. Onde: FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos). Endereço: Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG). Endereço: Avenida Afonso Pena, 1.537.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h59
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22.07.09

Fabio Zimbres lança coletânea de tiras e prepara volta da miniTonto

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 


Capa de "Vida Boa", que traz tiras da série publicada pela "Folha de S.Paulo" entre 1999 e 2001 

 

 

 

 

 

Este ano tem um quê de volta ao passado para o desenhista e ilustrador Fabio Zimbres. Ele retoma uma antiga série e prepara a volta das edições da coleção miniTonto.

A série são as tiras de "Vida Boa", reunidas numa coletânea (Zarabatana, 166 págs., R$ 39). As histórias haviam sido publicadas pela "Folha de S.Paulo" entre 1999 e 2001.

O álbum traz quase todas as tiras. Quase porque algumas foram cortadas por serem muito datadas. Parte do material foi refeita durante a revisão das histórias.

"Reescrevi algumas para melhorar a piada", diz o desenhista, de 49 anos. "Fiz uma intensa revisão, mudei alguns desenhos e frases."

                                                           ***

A série narra a vida de Hugo, uma espécie de Cândido, de Voltaire, mas sem o otimismo. Desempregado, passa o tempo refletindo as mazelas que a vida trouxe a ele.

Lidas em sequência, as tiras formam uma história maior. Do começo ao fim, o leitor tem contato com dois dias da vida de Hugo.

"Foi uma oprtunidade de fazer uma espécie de romance, quando, normalmente, só se trabalha no formato de conto", diz o desenhista, que também é ilustrador e designer.

Algumas das tiras são inéditas. Foram feitas especialmente para encerrar a trajetória do protagonista. As novas histórias aparecem no final do último capítulo e no epílogo.

                                                           ***

"Vida Boa" foi criada para um concurso de tiras feito pelo jornal paulista. Laerte era um dos jurados. A série venceu e passou a ser publicada no caderno de cultura, em 1999.

Dois anos antes, Zimbres inaugurava outro projeto: a coleção miniTonto. A proposta era publicar pequenas edições, de 32 páginas, em formato de bolso.

A  coleção teve 16 revistas e trouxe histórias de autores como Lourenço Mutarelli, Allan Sieber e Eloar Guazzelli. O próprio Zimbres lançou uma, "O Apocalipse Segundo Dr. Zeug".

A série estava parada há alguns anos. Zimbres diz que pretende retomar a linha de revistas. Diz já ter um pronto, de Rafael Sica, e outros seis encomendados.

                                                           ***

Os títulos em produção, segundo ele, são de Chiquinha, do peruano Jorge Perez-Ruibal, de Eloar Guazzelli, Diego Medina, do argentino Ernan Ciriani e de MZK.

"Tenho um crédito numa gráfica e quero usar pra imprimir mais quatro pelo menos, se não der tenho que procurar mais uma parceria", diz.

"É algo que não vai morrer nunca, quer dizer, nunca vou assumir que vou parar, mas vai ter que ir no meu ritmo, preciso de dinheiro, tempo e ajuda dos amigos pra fazer."

O catálogo eclético da coleção é reflexo da experiência diversificada dele na área de quadrinhos. Publicou em diferentes revistas, tanto nacionais como estrangeiras.

                                                         ***

A experiência autoral e editorial de Fabio Zimbres põe uma natural lupa em suas opiniões. 

Na leitura dele, o atual mercado brasileiro tem sido bastante promissor. "Estou tentado a dizer que nunca esteve melhor." Um dos diferenciais seria a variedade de títulos e gêneros.

A produção brasileira foi um dos temas abordados nesta entrevista com ele, feita após uma série de trocas de e-mail.

Zimbres fala também sobre a série "Vida Boa". É ela que inicia a conversa.

                                                          ***

Blog - "Vida Boa" é um dos poucos casos de tiras cômicas que contam uma história maior, em capítulos diários. Quando você imaginou a série, já tinha ideia de que seria assim?
Fabio Zimbres - Não. Na verdade não tinha nenhuma ideia do que seria a tira, tirando o fato de o título "Vida Boa" ser irônico desde o princípio, tudo estava em aberto. A ideia de continuidade foi sendo criada aos poucos até que eu aceitei como uma das características. Acho que começou porque eu nunca fazia as tiras uma a uma, eu sempre me sentava pra fazer todas as da semana e sempre ficava mais interessante ficar explorando e fazendo variações num tema que ficar fazendo piadas sobre assuntos aleatórios.

 

 

Blog - Como foi a seleção da série no concurso da "Folha de S.Paulo"? Quantas tiras tiveram de ser inscritas? Elas foram reaproveitadas depois no início da série? Com quantos candidatos a tira concorreu?
Zimbres
- Não me lembro dos detalhes, quantos candidatos etc. Só me lembro que o Laerte e a Maria Eugênia (ela julgava ilustração, acho). Mas me lembro que o Arnaldo Branco ficou em segundo com Mundinho Animal. Sempre que me encontro com ele brinco que a Folha deve se arrepender até hoje. Pelo menos ele é mais engraçado. Mandei acho que três tiras e foram exatamente as rês primeiras que saíram publicadas. Nessa altura ainda não sabia que o personagem iria sofrer tanto. E também não tinha me dado conta que o Laerte já tinha um personagem chamado Hugo. Fiquei tempos sem usar o nome dele e tentando uma solução (mudar o nome dele pra Vitor Hugo, por exemplo), mas deixei pra lá.

Blog - Fica claro na leitura que uma mesma cena se mantém por várias tiras. Essa manutenção da situação também era intencional? Extraía-se o humor até quando rendia?
Zimbres
- Mais ou menos isso. Eu gosto de fazer diálogos, é mais ou menos como numa peça de teatro, você cria uma situação, uma paisagem e deixa as coisas interagirem. O humor na verdade era secundário, digamos que é uma obrigação que eu me impunha. A visão é sempre cômica, mas o que me interessava mais eram as sensações e as reflexões que certas situações podem sugerir. Quando me dei conta de que a continuidade da tira podia ser seguida à risca, acabei estruturando os eventos futuros em torno das necessidades do personagem: dormir, comer, arrumar dinheiro etc. E cada situação, por mais insignificante, se você se der ao trabalho, pode sugerir milhões de coisas. Na verdade, é como se o personagem parasse a cada momento pra pensar sobre o que estava acontecendo com ele ou qual o sentido daquilo que ele estava fazendo. E, assim, todo o ritmo fica muito lento, cada ação gera centenas de pensamentos. Tinha a sensação de ficar esticando um segundo da vida do personagem em vários minutos ou horas. Cada um daqueles pensamentos dele provavelmente são flashes instantâneos que nós todos temos e eu acabava desdobrando em várias tiras. Publiquei a tira por mais de um ano e no final se passaram dois dias na vida dele. 

 

 

Blog - A passagem da série na Folha foi relativamente curta em comparação com outras publicadas pelo jornal. O que houve?
Zimbres - Acho que não era uma tira muito querida. Conheci muita gente que gostava dela que me escrevia na época e me escrevem até hoje mas de fato não era uma tira de "massa" e nunca tive a intenção de fazer algo assim. As tiras da Folha, e acho que no Brasil em geral, têm esse hábito de visitarem muitos universos, são vários personagens e habitats que compartilham da mesma tira. Uma coisa meio esquizofrênica que tem muitas explicações pra ser assim, mas digamos que é algo completamente contrário ao que acontece nas tiras sindicalizadas americanas. Nunca fui adepto da linguagem mainstream, sempre fui mais chegado ao underground e nesse sentido as tiras brasileiras são mais pra underground que sindicato, há mais liberdade. Mas eu quis experimentar com as restrições e manter a tira nos trilhos sem grandes viagens. Mais uma ironia da tira. E, no caso, ela terminou tão claustrofóbica e depressiva que acabava afastando as pessoas. A tira saiu antes que eu mesmo me cansasse e fizesse como os outros cartunistas e inventasse outros personagens pra aliviar a barra do Hugo e do leitor um pouco, mas eu fico contente com o tempo que tive pra escrever até onde escrevi e fechar esses dois dias na vida do Hugo.                                                       

Blog - Você tem uma experiência ampla no mercado de quadrinhos brasileiros. Como você analisa o atual momento nacional?
Zimbres
- Olha, estou tentado a dizer que nunca esteve melhor. Se nos anos 1950 e parte dos 60 havia uma indústria e, antes disso, havia os quadrinhos infantis (indústria que nunca chegou ao que era na Argentina, é verdade), agora temos tudo isso e mais. Quem quer indústria trabalha pros EUA, Europa e Mauricio. E temos muitas editoras, dá pra dizer que se você quer publicar é fácil publicar, seja com autoedição ou através de editoras. Mas é certo também que isso tudo é meio pequeno e não sabemos aonde vai chegar, se o interesse das editoras vai acabar quando o governo parar de comprar livros. Continua ridiculamente difícil distribuir no Brasil e a banca de revistas é um território quase que exclusivamente estrangeiro. Quadrinhos no Brasil sempre foi uma montanha-russa, altos e baixos e sempre vemos a moda anterior ser substituída pela moda mais recente, então não dá pra fazer previsão. Mas o que eu gosto da situação de hoje é que tem muita gente nova fazendo quadrinhos e publicando e há vários tipos de quadrinhos, de humor a romances, históricos, experiências que não se definem entre mainstream ou underground, coisas pop, há de tudo e isso é bem estimulante.

                                                          ***

Nota: a editoria de cultura do UOL fez um álbum virtual com algumas tiras da série "Vida Boa". O material pode ser visto neste link.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h41
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22.05.09

Adão volta ao Brasil para lançar dois álbuns de tiras

 

Crédito: reprodução  Crédito: reprodução

 

O leitor diário das tiras cômicas de Adão Iturrusgarai na "Folha de S.Paulo" talvez não saiba. Mas o desenhista produz da Argentina as piadas publicadas no jornal.

A rotina já dura dois anos, quando se mudou para Buenos Aires. Há oito meses, trocou a capital argentina pela fria Patagônia. Mora num vilarejo chamado Playa Union.

"Uma praia pequenininha, com sete mil habiantes", diz o quadrinista gaúcho. Há tanto tempo fora do Brasil, é bem possível que ele estranhe a passagem por São Paulo.

Ele lança neste sábado à noite, na capital paulista, duas coletâneas de tiras suas: "No Divã com Adão" e "Aline - Viciada em Sexo".

                                                          ***

"No Divã com Adão" (Planeta, 160 págs., R$ 34,90) está à venda desde setembro do ano passado. Não foi lançada oficialmente ainda por ele morar fora do país.

O álbum faz uma coletânea de tiras publicadas entre 2005 e 2008 no jornal "Folha de S.Paulo". Quinze delas são inéditas.

A estrutura das histórias é semelhante. Adão desenha diferentes situações cotidianas imaginando, para cada uma delas, uma forma de punição.

O tamanho do flagelo é medido em anos de análise, aves-marias, tempo no inferno. O último traz sempre a punição mais exagerada. 

                                                           ***

"Aline - Viciada em Sexo" (L&PM, 128 págs., R$ 11) também reúne tiras já veiculadas na Folha. A diferença é que a obra começou a ser vendida neste ano.

É a terceira coletânea de bolso lançada pela editora gaúcha, dentro da linha "Pocket". O material é de 1998, segundo o autor.

São tiras de uma fase em que Adão fazia um desenho mais "bonitinho", como ele mesmo diz. Os personagens tinham um traço mais arredondado.

Na virada do século, ele voltou a seu estilo inicial, da primeira metade da década de 1990. Era um traço mais solto e despreocupado, que o acompanha até hoje.

                                                            ***

Para o grande público, este livro de bolso de Aline tem outro apelo. A personagem que divide um apartamento com dois amantes, agora, não está apenas nos quadrinhos.

Ela foi levada para a TV aberta num especial de fim de ano da Globo. Segundo Adão, vai virar série e entrará na grade da emissora.

Na entrevista a seguir, possível pela distância encurtada com a ajuda da tela do computador, o desenhista de 44 anos diz que a negociação com a Globo não foi nada fácil.

E começa dizendo o que o levou a morar na Patagônia. Ou quem o motivou. Ela atende pelo nome de Laura. E gerou um outro amor: a filha Olívia. O casal espera outro filho.

                                                            ***

Blog – O que o levou à Argentina?
Adão Iturrusgarai
- Me apaixonei por uma argentina e me mandei pra lá. Assim, bem simples. Saí do Rio de Janeiro e fui morar em Buenos Aires. Por que fui à Patagônia? Bom, minha mulher é da Patagônia e gostei do pedaço e, com a vinda de um filho, achamos melhor criá-lo num lugar pequeno. Mas lá tem supermercado e quase tudo que uma cidade normal tem. Só nã tem engarrafamento.

Blog - Por mais que a internet reduza a distância, estar fora do país não dificulta a sua atuação por aqui?
Adão
- Se eu trabalhasse com charge política, talvez ia me complicar um pouco. Aí eu acho que você tem que estar mergulhado no país do qual você está escrevendo. Mas meu humor é mais de comportamento. Meu cérebro é tipo um HD de muitos gigas lotados de experiências. 11 anos em Porto Alegre, nove anos em São Paulo, sete no Rio. Mesmo morando num vilarejo, tenho um montão de material pra piadas. Mas, falando em distância, internet, acho que hoje em dia a internet afastou um pouco as pessoas. Vejo hoje muitos colegas ilhados em seus estúdios. Então, tanto faz você estar aqui ou acolá.

Blog - Você se inseriu bem no mercado argentino. Participa da "Fierro", chegou a desenhar recentemente uma tira de "Macanudo", de Liniers. Como foi sua recepção por lá?
Adão
- Até agora eu publico somente na revista "Fierro". O que já acho grande coisa. Bom, não sei se é um pouco de influência minha, mas também de outros desenhistas argentinos de humor, a "Fierro" está tendendo pro humor. Antes, ela não era assim. Era mais quadrinhos de aventura, histórias de continuação. Mas a idéia é expandir minha invasão na Argentina. Lançar algum livro em espanhol ou entrar em algum jornal está nos meus planos. Tanto que tenho uma versão do meu blog em espanhol. O Liniers, que é gente finíssima, diz que quer que "iturrrusgarai" seja um nome famoso na argentina.

Blog - Houve algum tipo de preconceito por ser brasileiro?
Adão
- Nenhum. Eles adoram brasileiros por lá. Mas, no caso da "Fierro", fiquei com pé atrás porque o slogan da revista é "historieta argentina". Mas eles abriram exceção pra mim quando mostrei o meu documento de "residência precária", primeiro passo pra virar residente argentino. 

Blog - E a entrada na "Fierro"? Você procurou a revista? Como foi esse contato inicial?
Adão
- Fui lá com minha mesma cara de pau de sempre. Procurei o Lautaro Ortiz, que edita a revista. Muito simpático, me recebeu muito bem. Me perguntou se eu estava bem em Buenos Aires, ofereceu ajuda. Pegou meu material, mas disse que tinha esse problema de eu ser brasileiro. Mas falou que tinha gostado muito do meu trabalho e que ia conversar com o [Juan] Sasturain, que é editor também. Em uma semana, ele me ligou e falou que queria me publicar já. Eu comecei com duas tiras por edição e, agora, estou com duas páginas. 

Blog - Aline ganha novo impulso agora por conta do especial exibido na Rede Globo. Como se deu a negociação? Você procurou a emissora ou ela o contatou?
Adão
- Foi um amigo, Mauro Wilson, que sempre quis adaptar o personagem. Passaram anos, achei que não ia rolar e, justamente quando fui morar na Patagônia, o Mauro me ligou dizendo que estava tudo certo, se encaminhando. Foi uma negociação complicadíssima e só acabei aceitando em prol do meu amigo. Parece estranho, mas o que aconteceu foi isso mesmo. Se não fosse por ele, o especial não teria ido pro ar. Negociar com a Globo não é nada fácil. Bom, no início fiquei super pé atrás com o projeto, mas acabei adorando o especial. Incrivelmente não tenho nenhum senão. Gostei de tudo que vi. E parece que agora acabaram decidindo que vai virar seriado. Vão começar gravando dez capítulos. Eu estou feliz, porque vou poder continuar trabalhando com mais tranquilidade. E é importante frisar aqui que a Aline da Globo passa a ser da Globo, do Mauro Wilson e do Mauricio Farias [diretor do especial]. Não se deve confundir a Aline do papel com a da TV. Mas o especial ficou igual às minhas tiras. Todas as minhas piadas estão lá.

Blog – Em "No Divã com Adão", você comenta que fazia análise. Continua fazendo no novo país?
Adão
- Eu fiz um tempo, mas parei. Se você chutar uma moita em Buenos Aires, salta um montão de analistas. E desenhistas também. Agora, estou com uma filhinha de um ano e minha mulher está novamente grávida. Ou seja, não tenho mais tempo pro divã. Acho que estou na Patagônia pra povoar o pedaço, que é muito desértico.

Blog - Como vê a diferença entre o mercado de quadrinhos e lá e o de cá?
Adão
- A diferença maior que vejo entre nosso país e a Argentina é a seguinte: lá, eles leem mais que nós, brasileiros, mas tem uma economia mais complicada e menos habitantes. O Brasil tem uma economia mais sólida, mas se lê menos por aqui. O que salva o Brasil é' nossa população. Muita gente, muito consumo. Cabe explicar que Buenos Aires é' completamente diferente do resto da Argentina. Dizem que a Argentina é' um gigante com a cabeça (Buenos Aires) muito grande. As províncias [como são chamados os estados] todas têm uma rixa com o portenho. Você vê Buenos Aires parecida com uma cidade europeia. Mas o resto da Argentina é bem mais simples. As pessoas também.

Blog - Para finalizar, você tem planos de voltar ao Brasil?
Adão
- Sim, tenho planos de voltar pro Brasil. Não sei se vamos querer criar filhos no frio tremendo de lá. Mas não quero morar numa cidade grande. Vamos morar numa praia, acho. Só vou sentir saudades do vinho e da carne argentina. Chuif.

                                                           ***

Serviço - Lançamento de "No Divã com Adão" e "Aline- Viciada em Sexo". Quando: sábado (23.05). Horário: a partir das 19h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo. Quanto: R$ 34,90 e R$11, respectivamente.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h22
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20.05.09

Organizador de Dez na Área vê engano na seleção do álbum

O organizador do álbum "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol", Orlando Pedroso, vê um "engano" na escolha da obra, que seria levada a estudantes paulistas do terceiro ano do ensino fundamental.

"Há claramente aqui um engano", disse o ilustrador, que trabalha na "Folha de S.Paulo". Segundo ele, o trabalho, publicado por ocasião da Copa de 2002, foi feito para adultos.

"Mas isso não quer dizer que um pai ou uma mãe não possam sentar com seu filho e se divertirem com essa ou aquela história como fazem com a TV, com o cinema ou alguns tipos de revistas."

                                                            ***

A obra foi comprada pelo governo de São Paulo para ser distribuída a alunos do terceiro ano, com idade média de nove anos. Parte do conteúdo traz conteúdo sexual e palavrões.

Menções ao PCC (Primeiro Comando da Capital) também motivaram o recolhimento da obra, segundo noticiou a "Folha de S.Paulo" nesta quarta-feira.

O álbum foi recolhido. O governador José Serra disse que os responsáveis pela seleção serão punidos. Serra também avaliou a obra como de "muito mau gosto".

                                                            ***

Orlando Pedroso - ou somente Orlando, como assina seus trabalhos - é um dos lados da polêmica ainda não ouvido pela grande imprensa.

A entrevista a seguir, realizada entre ontem e hoje de manhã, dá voz a ele.

                                                             ***

Blog - Como você analisou a compra de Dez na Área para estudantes paulistas do ensino fundamental?
Orlando Pedroso - Há claramente aqui um engano. O álbum foi concebido e produzido para um público adulto às vésperas da copa de 2002. Tanto eu quanto os artistas escolhidos por mim tiveram plena liberdade na escolha do enfoque dos temas e roteiros assim como na produção do material. Acho que o governo estadual e o federal têm feito um grande trabalho na escolha dos títulos de livros a serem adotados na rede pública de ensino. Contrariando o que eu achava, livros arrojados, com enfoques e linguagem moderna, alguns sem texto foram e são adotados. No caso do Dez na Área, houve realmente um equívoco.

Blog - A "Folha de S.Paulo" noticiou hoje que referências ao PCC também motivaram o recolhimento do álbum. Como você avalia essa questão?
Orlando - Quando vi a matéria hoje cedo na Folha fiquei chocado. Peladas dentro de presídios fazem parte do cotidiano dos detentos assim como nos campos de várzeas na periferia. Em nenhum momento o trabalho do Lélis faz apologia ao crime ou ao PCC. Ele retratou a rotina de um grupo confinado que tem, sim, características particulares e de domínio público. Quem condenaria o livro "Carandiru" ou o filme simplesmente por existirem? Ninguém. Pode-se gostar ou não deles, mas daí a dizer que são de mau gostou ou "um horror" há uma distância. Todo o erro está numa adoção equivocada da publicação para um público infantil não na existência da obra.

Blog - No seu entender, as pessoas que selecionaram o álbum leram a obra?
Orlando
- Não gostaria de entrar nesse mérito. Acho que pode ter havido um engano. Às vezes como o livro ir pro montinho errado. Foi pro dos aprovados quando deveria ter ido pro dos rejeitados. Não quero crer que essas pessoas não façam seu trabalho seriamente e erros acontecem.

Blog - O governador José Serra classificou a obra de "muito mau gosto". Como você analisa essa afirmação?
Orlando
- Essa é definitivamente a declaração mais infeliz de todas. Ele não leu o álbum. Alguém apontou dois ou três quadrinhos onde havia palavrões ou desenhos mais atrevidos e a partir daí ele tem que dizer que vai punir os responsáveis. Ele é o governador do estado, está com uma batata quente no colo e quer se ver livre dela. Seria honesto ele dizer que houve um engano na avaliação, que a sindicância vai apurar, mas que o erro é que o álbum é inadequado àquela faixa de idade, e não que a publicação é um horror. Você tem ali profissionais consagrados como o Spacca, o Lélis, Maringoni e o Caco Galhardo. Alguns estavam começando a despontar como era o caso do Allan Sieber, do Leonardo, Samuel Casal e dos gêmeos Fábio [Moon] e Gabriel [Bá]. Não dá pra falar tão mal e muito menos da qualidade dos desenhos.

Blog - Você acredita que esse caso tenha provocado um olhar mais cauteloso sobre os quadrinhos por parte de educadores e do governo?
Orlando - O mal não é a existência da publicação, mas o contexto onde ela foi colocada. Acredita-se que quadrinhos sejam só para crianças e esse pode ser um bom ponto de partida para uma discussão evitando que haja um retrocesso na adoção ou no enfoque de quadrinhos e literatura dentro da sala de aula. Eu não sei se a gente deveria usar a palavra cautela, mas zelo me parece mais adequada. As editoras têm produzido, através de novos selos ou novas empresas, uma quantidade monstruosa de títulos justamente tentando atender essa demanda do governo que, como todos sabem, é o maior comprador de livros do mundo e que tem feito muitos olhos brilharem. Ora, quantidade nunca foi sinônimo de qualidade e as bancas de avaliação precisam estar cada vez mais espertas com o que recebem em mãos. No caso do Dez na Área, há um erro claro de avaliação ou um deslize que Murphy pode explicar.

                                                            ***

Leia mais sobre o caso nas postagens abaixo.

E acompanhe também no twitter: www.twitter.com/blogpauloramos

Escrito por PAULO RAMOS às 12h07
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18.05.09

Série Magias & Barbaridades completa 500 tiras on-line

 

Crédito: reprodução do blog Magias & Barbaridades

 

A tira brasileira vive dois mundos. O primeiro é nos cadernos de cultura dos jornais impressos. O segundo é em blogs e sites.

Os jornais são ainda a principal janela. Mas já se pode dizer com segurança que a internet possui volume e qualidade à altura ou até superior ao que se lê em papel.

É nesse mundo virtual que surgiu "Magias & Barbaridades", de Fábio Ciccone. A série completa nesta segunda-feira 500 tiras veiculadas on-line.

A tira comemorativa, mostrada acima, foi feita em tamanho maior e em cores. A história dá sequência ao capítulo 12 da série, intitulado "A Dinastia Nan".

                                                           ***

"Magias & Barbaridades" mescla humor e aventura. Mostra as aventuras do trio Oc, Remmil e Ilana.

O primeiro é um bárbaro amante de Shakespeare. Remmil é um mago que sempre se envolve em enrascadas. Ilana é a corajosa integrante feminina da trupe.

O diferencial da série é que é produzida num gênero pouco visto hoje no país, o da tira cômica seriada, mescla de tira cômica com tiras seriadas ou de aventuras (como as de Fantasma e Madrake, para ficar em dois exemplos).

Cada tira traz uma piada. Mas faz parte de uma narrativa maior, contada em capítulos.

                                                            ***

Fábio Ciccone diz que se sente confortável no formato. Ele criou a série em julho de 2003. Inicialmente, chamava-se "O Tomo de Edmund", nome que foi revisto.

"Me foi sugerido que esse nome não dizia muito sobre a tira, já que ninguém sabe quem é Edmund e pouca gente sabe o que é um tomo", diz Ciccone, por e-mail.

"Assim, criei o nome ´Magias & Barbaridades´ no ano seguinte."

Desde então, a série é mantida num site, que passou por diferentes roupagens. O formato atual está no ar desde a metade do ano passado.

 

Crédito: reprodução do blog Magias & Barbaridades

 

A série quase foi reunida numa coletânea em papel. O álbum deveria ser publicado no fim de 2006 pela Com-Arte, editora vinculada à Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo), onde se formou em publicadade e propaganda.

Segundo o desenhista, hoje com 27 anos, o projeto não vingou por diferenças pessoais e profissionais. Prefere não detalhar para, nas palavras dele, não criar polêmica.

Se no papel a série ainda não teve sua chance, na internet ela ganha repercussão. É uma das mais votadas no site "Top 100 Webcomics Brasil", que lista páginas de quadrinhos.

A votação teve uma forcinha. Ciccone pôs no site um desenho da personagem Ilana com uma sugestiva toalha. Se a votação fosse expressiva, ela mostraria o corpo.

                                                            ***

A votação foi expressiva. A série aparece em segundo lugar na listagem virtual.

Nesta segunda-feira, junto com a tira 500, Ilana jogou a toalha. De um jeito diferente. Mas pode-se considerar a promessa cumprida.

Essa é uma das atrações comemorativas que Ciccone criou para marcar as cinco centenas de tiras. Outra é a chance de o leitor criar um personagem para o próximo capítulo.

Ciccone também apresenta uma nova tira, diferente da anterior: "O Robô de Euclides".

 

Crédito: reprodução do blog Magias & Barbaridades

 

Carioca de nascimento, criado no interior paulista e na capital do Estado desde 2001, Ciccone divide a produção das tiras com o trabalho de designer gráfico.

Nesta entrevista, ele dá mais detalhes sobre a série, diz como é seu processo de criação e fala sobre a importância da internet na difusão de "Magias & Barbaridades".

                                                           ***

Blog - Como teve a ideia de criar Magias?
Fábio Ciccone
- Ela surgiu na época da faculdade. Eu já estava fazendo quadrinhos lá, junto com meus amigos Roberto Wolvie e David Donato, e distribuindo por e-mail para os colegas. Então, juntamos mais alguns amigos e começamos a pensar em fazer meio que uma comunidade de tiras on-line, na qual cada um publicaria sua própria série. Em uma das reuniões, eu tive a ideia de fazer uma sátira com fantasia medieval e, no fim das contas, só eu é que continuei com o projeto.

Blog - Você faz uma tira cômica seriada, que mescla aventura com a estrutura da tira cômica, com uma piada no fim. É um gênero pouco trabalhado no país e de difícil construção. Como você trabalha esse processo de criação?
Ciccone - Bem, por incrível que pareça, para mim essa é forma de criação que vem mais naturalmente. No começo, imaginava fazer tiras separadas, com histórias mais longas de no máximo cinco ou seis tiras, inspirado por Bill Watterson e Laerte. Então comecei o capítulo 2 e, quando vi, ele já estava com dez, quinze, vinte tiras, e foi aí que percebi que o que estava fazendo estava mais próximo às webcomics do que com as tiras de jornal. O que acontece é que, quando começo um capítulo, sei o que quero que aconteça e tenho algumas ideias de tiras para ele, mas vou contando a história de forma orgânica, uma tira por vez, sem necessariamente ter um roteiro prévio. Assim eu tenho liberdade para dosar a história e as piadas, e, sinceramente, eu não aguentaria ter que esperar uma história inteira ficar pronta antes de mostrar às pessoas. Escrever em forma de tiras, tendo feedback frequente dos leitores, é o que mais me estimula.

Blog - Que papel a internet tem exercido para a condução da série? Seria diferente se fosse lançada em papel?
Ciccone
- Imagino que a série seria totalmente diferente se fosse em papel, especialmente quanto ao formato. Não vejo uma cultura forte de tiras seriadas no mercado de quadrinhos brasileiro, e acredito que o mercado exigiria ou tiras isoladas, como se vê em jornais, ou álbuns com histórias grandes e fechadas, como nas livrarias. Desta forma, a internet não só me inspirou como viabilizou produzir da forma que mais se adapta ao meu perfil.

 

Crédito: reprodução do blog Magias & Barbaridades

 

O blog "Magias & Barbaridades" pode ser acessado neste link.

Na página, há arquivo com as tiras de todos os 12 capítulos da série.

Escrito por PAULO RAMOS às 01h14
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30.04.09

Álbum de André Toral mostra relação histórica com os índios

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 


"Os Brasileiros", já à venda, traz sete histórias histórias sobre a questão indígena em diferentes épocas 

 

 

 

 

 

 



Há um ponto que une as sete histórias de "Os Brasileiros", álbum que tem dois lançamentos em São Paulo nos próximos dias (Conrad, 88 págs., R$ 38).

O elo é a presença dos povos indígenas. E da relação deles com o processo de colonização.

Não se trata de ver o índio como vítima. Mas de quais foram as decisões tomadas por eles dentro das circunstâncias históricas que tiveram de enfrentar.

As histórias da obra - escrita e desenhada por André Toral - mostram diferentes momentos ficcionais, tomando como pano de fundo dados reais.

                                                           ***

São tramas autônomas, produzidas por Toral em diferentes momentos. Vão de 1991 a 2008.

Algumas são reedições, como "O Negócio do Sertão", lançada em álbum em 1991.

As narrativas - umas curtas, outras mais longas; umas colorizadas, outras em preto-e-branco - podem ser lidas isoladamente.

Mas, se seguidas uma atrás da outra, formam um amplo panorama histórico, indo de 1560 aos dias de hoje.

                                                           ***

"Sou atraído pelo que há de curioso em pensar que o nosso espaço, o território que ora se chama ´brasileiro´, já foi ocupado por outras culturas absolutamente diferentes de nós mesmos", diz o autor paulistano, de 51 anos.

"E o que ficou desses homens e mulheres que viveram, se amaram por mais de 15 mil anos, aqui? Pouco, quase nada. Eles, como nós, somos passageiros na superfície da terra. Sou atraído pela precariedade na nossa condição."

Parte dessa influência histórica em sua obra vem também de sua formação acadêmica. Toral transita entre as áreas da antropologia e da história.

É formado em Ciências Socias pela Universidade de São Paulo, onde também doutorou-se em História Social. O mestrado foi em Antropologia Social, na Federal do Rio de Janeiro.

                                                           ***

O interesse acadêmico pautou também a escolha dos temas de seus trabalhos anteriores.

A primeira publicação, de 1986, tratava de "pesadelos paraguaios". Foi publicada na extinta revista "Animal".

Em 1992, lançou pela "General" - outra publicação cancelada - as duas partes de "O Caso dos Xis". A narrativa indígena é reunida neste novo álbum.

Mas é de 1999 seu trabalho mais conhecido: "Adeus, Chamigo Brasileiro: Uma História da Guerra do Paraguai". O roteiro foi vencedor de um HQMix, principal premiação de quadrinhos do país. A obra foi relançada no ano passado pela Cia. das Letras.

                                                          ***

"Acho que gosto mesmo é de história, num sentido mais amplo", diz. "Então eu penso: pena que eu vou morrer e levar tudo isso comigo. Tudo isso que eu vi, e que interessou." 

"Por isso, eu desenho o que gosto: pra deixar registrado o que eu vi, minhas imagens, pra onde foi o meu olhar."

Toral, hoje, divide os quadrinhos com aulas na FAAP, Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo. Lá, leciona história da arte no curso de comunicação.

Entre uma tarefa e outra, ele conversou com o blog, por e-mail. Na entrevista a seguir, ele diz que prepara outro trabalho e dá mais detalhes sobre este "Os Brasileiros".

                                                            ***

Blog - A história se pauta na relação mantida com os índios. Você defende um ponto de vista nessa relação? Os índios foram vítimas da colonização?
André Toral
É difícil falar de "índios" em geral porque são grupos indígenas muito diferentes entre si e que tomaram um sem número de atitudes frente ao branco, o que dificulta a possibilidade de resumir "uma" atitude dos "índios" frente ao contato. Eles tinham e têm estratégias diferenciadas. Não acredito, claro, na história de "vítimas da história" porque lhes rouba um protagonismo histórico que é fato. Por esse viés, os índios são tão incapazes que sua história anda a reboque da história da sociedade brasileira. Ao contrário, temos grupos com histórias de recuperação impressionantes e que deveriam ser conhecidas e não só ficarmos falando de índios do passado ou de um xingu sonhado e irreal. A história do índio no Brasil é uma história de vitórias e não só de derrotas. A população indígena aumenta, eram cerca de 170 mil na década de 1970, hoje são mais 400 mil, nunca tantos grupos tiveram terras legalmente asseguradas, nem nunca tantos jovens índios tiraram diplomas universitários etc. A situação indígena está melhor do que nunca foi na colônia ou no Brasil independente. Esta melhor não quer dizer que a situação é boa, é só ver o quadro de saúde ou a quantidade de terras invadidas. Mas não é a história baixo astral de extermínio. É uma história de conquistas e muitas vezes e o mérito é todo deles, os índios de mais de 200 grupos diferentes que vivem no Brasil.

Blog - Por que "brasileiros"?
Toral
Depois que terminei, vi que o álbum parecia reunir histórias que falam sobre o contato de dois povos e a formação de uma coisa nova, original e plural em termos culturais, que somos nós, os brasileiros. Somos tão diferentes entre nós como eu que vivo aqui em perdizes, em São Paulo, e um Xavante do Mato Grosso. Então é um brasileiro falando de outros. Espero ter mostrado as coisas de um jeito respeitoso e democrático em relação à opinião do "outro".

Blog - Demorou alguns anos para você produzir uma nova obra em quadrinhos? O que levou a esse intervalo?
Toral - Amo quadrinhos, mas não considero possível viver de quadrinhos. Poucos conseguem. Além disso, gosto de outras coisas importantes, como antropologia, história da arte e montar aviõezinhos. Entre a data de publicação do meu último álbum, "Adeus Chamigo Brasileiro", e hoje, aprendi a fazer litografia, fiz aquarelas e também fiz oito histórias novas, delas apenas algumas aparecem nesse álbum. Acho que se não fosse a aquarela e a litografia, o meu trabalho seria muito diferente. Li muito também e aprendi muito com Alberto Breccia e Germán Oesterheld, especialmente seus personagens Mort Cinder e Sherlock Time. Leio também e muito minha coleção de Pato Donald do mestre Carl Barks. Não sei se minha relação com quadrinhos é só como autor. Eu consumo muito também. Adoro ler os trabalhos dos outros. Acho que poderia fazer resenhas ou crítica de quadrinhos.

Blog - Você é um dos poucos autores da geração de 1980/90 que produziam bons álbuns nacionais com histórias mais longas. Daquele momento histórico para hoje, você percebe alguma mudança editorial na área de quadrinhos nacionais?
Toral - Em termos gerais? Acho que melhorou muito. É só ir a uma banca ou livraria e ver a quantidade de editoras brasileiras que republicam material importado ou buscam autores nacionais. Apesar da costumeira rotatividade de pequenas editoras de quadrinhos, as grandes editoras já tem núcleos que trabalham com quadrinhos e as que não tem estão tratando de criá-los, veja a Cia. das Letras. Finalmente os editores renderam-se à obviedade de que qualquer editora deve ter uma divisão dedicada aos quadrinhos simplesmente porque tem público. A inclusão dos quadrinhos em bibliografias de escolas fez com que as vendas aumentassem com tiragens inteiras pré-vendidas praticamente. Isso é bom. Repare também como "quadrinhos históricos" estão em alta. Todo mundo descobriu que os "jovens" gostam e podem aprender história de uma forma nova e com a qual se identificam. Eu vejo como meus alunos de artes plásticas gostam e fazem quadrinhos. Acho que vivemos um momento bom, nada de rojões porque, na minha opinião e de uma forma geral, o quadrinista ainda não é pago de forma correspondente. Os que trabalham para fora (do país) talvez, mas eu desconheço se ganham bem ou não.

Blog - Há planos de outros álbuns em quadrinhos?
Toral
Tenho um álbum em fase de finalização sobre um tema importantíssimo e muito atual, ainda que histórico.

                                                                       ***

Serviço - Lançamentos de "Os Brasileiros" em São Paulo.
Quando: sábado, 02.05. Horário: 19h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro.
Quando: segunda-feira (04.05). Horário: 19h. Onde: loja de artes da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Endereço: Avenida Paulista, 2.073.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h05
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21.02.09

A hora e a vez de Rodrigo Rosa nos quadrinhos

 

Crédito: blog de Rodrigo Rosa

 

 

 

 

 

 

Trecho da adaptação de "O Cortiço", obra feita pelo desenhista gaúcho, com lançamento programado para o segundo semestre 

 

 

 

 

 

 

Não foi intencional. Mas, nos últimos anos, o desenhista gaúcho Rodrigo Rosa se tornou um ímã de convites editoriais para adaptar obras da literatura brasileira.

Recebeu quatro propostas ao todo. Duas não vingaram. Foram pilotos para "Capitães de Areia", de Jorge Amado (1921-2001), e "Vidas Secas", de Graciliano Ramos (1892-1953).

Ambos foram feitos para a Editora Globo e tiveram apenas em algumas páginas produzidas.

                                                           ***

Rosa teve melhor sorte com as outras duas adaptações.

Finalizou no ano passado para a Agir uma versão em quadrinhos de "Os Sertões", de Euclides da Cunha (1866-1909), ainda inédita.

Neste mês, termina a adaptação de "O Cortiço", de Aluísio de Azevedo (1857-1913).

                                                            ***

A adaptação integra uma coleção de obras literárias brasileiras em quadrinhos produzidas pela Ática, como o blog noticiou nesta sexta-feira (leia mais na postagem abaixo).

Segundo a editora, o álbum deve ser lançado no começo do segundo semestre.

O texto ficou a cargo de Ivan Jaf, escritor de livros infanto-juvenis e autor de antigos quadrinhos de terror.

                                                           ***

Rosa - que completa 37 anos em junho - vê nos dois álbuns a concretização de um desejo antigo, o de ter condições financeiras melhores para se dedicar aos quadrinhos.

Ele diz que ficou uns 20 anos - nas palavras dele - idealizando a ideia de tornar os quadrinhos uma profissão. 

Tem se dedicado mais intensamente à área no último ano. Até então, a ilustração para livros rendia mais.  

                                                           ***

A adaptação de "Os Sertões", feita em parceria com Carlos Ferreira, já deveria ter sido lançada. Está parada na editora Agir, onde o material foi entregue em março de 2008.

Nesta entrevista, resultado de diferentes trocas de e-mail, Rodrigo Rosa comenta sobre a demora na publicação da obra de Euclides da Cunha e comenta sobre "O Cortiço".

O desenhista - que nasceu e vive em Porto Alegre - fala também sobre a necessidade de tempo para pesquisar o que vai pôr no papel.

Algo que, segundo ele, parte das editoras não vê.

 

                                                          ***

Blog - É a segunda adaptação literária sua em curto prazo de tempo. É uma coincidência de propostas ou é um desejo profissional investir nesse ramo?
Rodrigo Rosa
- Meu interesse é, antes de tudo, fazer quadrinhos e esse filão das adaptações literárias foi o que as editoras acharam pra tentar fazer as tão cobiçadas vendas para o governo federal. Foi aí que alguns editores me acharam e fechei esses dois trabalhos - houve mais outros dois que não passaram do piloto. Eu espero sinceramente que essa linha de pensamento dos editores seja apenas a porta de entrada dentro dessa novidade que é editar álbuns de quadrinhos por aqui e que, logo adiante, comecem a pensar em editar boas histórias em quadrinhos com cara de Brasil, sem
necessariamente ter de continuar na linha dos clássicos literários.

 

Crédito: blog de Rodrigo Rosa



Blog - Como surgiu a oportunidade - ou a proposta? - de fazer "O Cortiço" pela Ática?
Rosa
- Fui procurado pela Ática depois que eles viram algumas páginas d'Os Sertões. Fizeram a proposta mais justa economicamente que recebi até agora, porque já teve editora grandona que me apareceu com proposta simplesmente ridícula.

Blog - Queria insistir sobre quais editoras eram e quais as propostas foram feitas.
Rosa
- Não vou falar especificamente de valores pois isso é um assunto privado e também acho pouco profissional. Não falaria se estivesse recebendo grandes somas, tampouco citarei valores que considero baixos. Até porque, nessa segunda hipótese, isso poderia me queimar com editoras com as quais trabalho e infelizmente não tenho condições de dizer "tô cagando pra eles"... ainda não. Possivelmente, nunca. Mas, via de regra, os valores oferecidos pelas editoras pra fazer quadrinhos oscilam entre o "estapafúrdio" (adoro essa palavra) e o "ok, eu me aperto um pouquinho, mas dá pra levar". Aí se trabalha. Mas o que me deixou muito chateado com essa proposta que não aceitei é que eu tinha (tenho) muita vontade de fazer esse projeto, pois acho a linha editorial desse selo de quadrinhos muito boa. A melhor pensada pro nosso mercado até agora, uma verdadeira aposta no quadrinho autoral brasileiro. Eu tinha, inclusive, informação que essa gente fechou parcerias com excelentes artistas novos e com muito boa remuneração. Mas, quando me procuraram – o que me deixou a princípio muito animado – ofereceram um valor que mal dá pra pagar meu aluguel (isso que eu moro num apê barato, de um quarto) e a conta do telefone, e isso por um trabalho que me levaria cerca de um ano pra fazer, pelo grande volume de páginas. Esse tipo de coisa é muito frustrante! Eu sou um apaixonado por quadrinhos, faço muito com o coração, mas não consigo trabalhar sem me sentir minimamente valorizado profissionalmente.

 

Crédito: blog de Rodrigo Rosa

 

Blog - Outra pergunta: vi em seu blog que foi feito um processo de estudo visual da época. Como foi feita essa pesquisa e de que modo ela se refletiu no produto final?
Rosa
- A pesquisa é fundamental dentro de qualquer trabalho artístico que registre um momento histórico, seja passado ou presente. É essa pesquisa que vai transportar o leitor pro período no qual se passa sua história, dando sentido à trama nos seus mínimos detalhes. Esse é outro problema que em geral temos na relação editor/artista: via de regra, os editores não prevêem que os artistas necessitem de algum tempo pra essa tarefa essencial da pesquisa nos seus cronogramas de produção de uma obra. Isso deveria ser encarado como uma fase de pré-produção do livro. E é algo que leva algum tempo, é um trabalho de formiguinha: Vai aqui, vai ali, acha-se coisas no museu tal, depois num outro, na internet, etc. E como acontece geralmente? O editor te passa o roteiro quase sempre prevendo um tempo mínimo que seja o de já sair desenhando as páginas de hq pra entregar no prazo acertado. Aí o artista tem que sair fazendo tudo ao mesmo tempo, pesquisando e já desenhando as páginas junto. É como colar numa prova: responde-se a questão, mas não se sabe com segurança qual é a resposta. E sinceramente, dentro dessa correria a gente até tem conseguido sair-se bem, sem grandes mancadas de desenhar algum elemento não tenha nada a ver com o período em que estamos lidando. Enganamos bem. No O Cortiço, assim como n'Os Sertões, a pesquisa está em tudo: na arquitetura das casas, na geografia, na roupa de cada personagem, nos cortes de cabelo, em cada objeto presente na cena, tudo tem algo ver com o final do século dezenove, época descrita nos livros. Nos dois casos, nós viajamos (por conta própria) pra ir aos lugares onde se passam as histórias. Entrevistamos pessoas, buscamos outros livros,
sentimos o clima do lugar. Esse envolvimento foi especialmente emocionante no caso d'Os Sertões, quando o Carlos Ferreira e eu fomos à região de Canudos, subimos nos morros onde aconteceram as batalhas, falamos com netos de conselheiristas, tomamos banho no lago onde está submerso o arraial. Tudo isso, de algum modo, mais prático ou mais sutil, está no quadrinho.

 

Crédito: blog de Rodrigo Rosa

 

Blog - Por falar na obra de Euclides da Cunha, a quantas anda? O que a editora diz aos autores?
Rosa
- Nós entregamos o trabalho em março e os caras demoraram meses pra dizer algo. Disseram depois de um tempão que iriam pedir umas mudanças – nossa versão leva o livro em conta, mas é muito livre e aberta, também. Depois o editor que cuidava do álbum saiu da Agir, que depois reorganizou toda sua agenda de lançamentos por causa da compra da Desiderata. Enfim... brinco com o Carlos [Ferreira, escritor da obra] dizendo que nosso álbum teve o mesmo destino do arraial de Canudos: está submerso.

Escrito por PAULO RAMOS às 03h38
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10.02.09

Mangá de Speed Racer está programado para julho

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma das páginas da história em quadrinhos japonesa, que será lançada no Brasil pela NewPOP

 

 

 

 

 

 

 

 

Go, Speed, Go! Ou na versão dublada: vai, Speed, vai! E o jovem corredor foi.

Saiu das páginas dos quadrinhos japoneses, conquistou a TV e subiu até o pódio em diferentes telas espalhadas pelo planeta. No Brasil,a animação foi exibida e reexibida mais de uma vez, com mais de versão em português.

Como num circuito oval de corrida, Speed Racer e seu multifuncional Match 5, após a corrida, retornam ao ponto de partida.

O mangá que deu origem à série será lançado no Brasil neste ano pela NewPOP. A editora programou dois volumes. O primeiro, no fim de julho. O outro, em setembro.

                                                            ***

A história que será mostrada nos dois álbuns foi publicada no Japão entre junho de 1966 e maio do ano seguinte. A série foi escrita e desenhada por Tatsuo Yoshida.

É nela que o leitor é apresentado a Speed Racer, o jovem e audaz piloto de corridas, que quer se firmar como um dos melhores do mundo.

O piloto é assessorado diretamente perto pela família e "desassessorado" pelo atrapalhado irmão caçula Gorducho e o macaco dele, Zequinha (virou Zezinho na redublagem).

São basicamente as mesmas informações vistas em 2008 na versão cinematográfica.

 

Crédito: divulgação

 

O leitor brasileiro já teve contato com mais de uma versão em quadrinhos da série animada. Speed Racer já percorreu bancas pelas editoras Abril e Conrad.

A Conrad lançou parte da versão japonesa em um álbum de 158 páginas, publicado em 2002. A versão da NewPOP mostra pela primeira vez a história original na íntegra.

Cada um dos álbuns deve ter em torno de 300 páginas. Será, segundo a editora, semelhante a "Persépolis Completo", publicado pela Companhia das Letras.

Parte das páginas será colorida, como na versão da década de 1960. E vai manter a leitura de trás para a frente, como ocorre nos demais mangás lançados atualmente no Brasil.

                                                           ***

A NewPOP entrou no mercado há exatos dois anos. Especializada em mangás, tem posto no mercado títulos mais voltados a um leitor adolescente.

Neste ano, lançou á série "Vampire Kisses - Laços de Sangue", sobre os perigos enfrentados por uma jovem, Raven, no relacionamento amoroso com uma vampiro, chamado Alexander.

Speed Racer é o primeiro título mais conhecido junto ao grande público.

Outro nesses moldes está na lista para este ano: uma versão de "Os Caça-Fantasmas".

 

Crédito: divulgação

 

O blog conversou por e-mail com Junior Fonseca, editor da NewPOP.

A conversa tem início exatamente sobre esse apelo que a série tem com o grande público.

                                                            ***

Blog - Esse parece ser o lançamento de maior destaque da NewPOP junto ao leitor que tradicionalmente não lê quadrinhos. Há outros materiais assim programados?
Junior Fonseca
- Sem dúvidas, esse é o lançamento de maior destaque da NewPOP diante do publico de mangás e também entre os que não têm tanto contato com esse universo. Speed Racer vai além dos quadrinhos e acerta em cheio no publico saudosista que assistiu ao animê na TV e também nos jovens, que cresceram ouvindo comentários a respeito do Mach 5 de seus pais. Fugindo ao estilo de Speed Racer, também já licenciamos a versão em quadrinhos de Os Caças-Fantasmas.

Blog - Quais outros tí­tulos a editora deve lançar ao longo do ano?
Fonseca
- Já licenciamos cerca de oito séries novas que só serão lançadas e trabalhadas depois que finalizarmos "Doors of Chaos", "Dark Metrô" e "Ark Angels" (os dois primeiros estamos aguardando o material do Japão). Mas já temos novidades. Além de Speed Racer e Os Caça-Fantasmas, licenciamos nosso primeiro light novel, baseado no bem-sucedido "Tarot Café", e "Kanpai!", um mangá em dois volumes da mesma autora de "Gravitation". Porém, trata-se de um shounen [gênero direcionado a jovens do sexo masculino].

Escrito por PAULO RAMOS às 22h36
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10.10.08

Mídia especializada interfere na forma como público vê quadrinhos

A mídia especializada em quadrinhos -jornalística ou não- interfere na maneira como o leitor enxerga determinada obra em quadrinhos. A interferência teria reflexos também nas vendas e na produção dos trabalhos.

Essa leitura é de Diego Figueira, pesquisador da Universidade Federal de São Carlos, no interior de São Paulo. Ele desenvolve lá um mestrado ligado à área de quadrinhos.

"A mídia especializada, como formadora de opinião, é responsável por consolidar valores sobre o que é uma boa história em quadrinhos e quais são as obras e autores importantes", diz, por e-mail.

"Hoje, uma historiografia e um cânone dos quadrinhos são definidos muito mais pela mídia do que pelos estudos acadêmicos. E isso tem influência artística e econômica na produção."

                                                              ***

Figueira aborda no mestrado na área de Lingüística o que chama de "cultura do fã".

O estudo busca saber como as opiniões que circulam na mídia especializada e em veículos mantidos por fãs têm interferido na criação de histórias de super-heróis calcadas na metalinguagem.

É o caso de "DC - A Nova Fronteira", seu principal objeto de estudo na dissertação.

A história, já lançada no Brasil pela editora Panini, põe os super-heróis em confronto com situações reais conhecidas pelos colecionadores de quadrinhos norte-americanos.

                                                             ***

Natural de Jaú, também no interior paulista, Diego hoje mora na mesma cidade onde faz a pesquisa. E onde vai qualificar o estudo -um estágio anterior à defesa final- no dia 17.

A relação com quadrinhos vem de anos atrás. Em 2004, começou a colaborar com resenhas sobre a área para o "Universo HQ, site especializado em quadrinhos.

Dois anos depois, criou uma página virtual própria, o "Pop Balões", mantida em parceria com Zé Oliboni, amigo de infância.

Paralelamente, desenvolve o mestrado e publica artigos, em livro ou em congressos.

                                                              ***

Um dos estudos, "O Papel do Autor nas Histórias em Quadrinhos", também lança uma reflexão sobre a área. O texto integra o livro "O Espelho de Bakhtin", lançado no ano passado pela editora Pedro & João.

No artigo, ele ensaia uma aproximação entre os quadrinhos e a leitura que Antonio Candido faz sobre a formação da literatura brasileira.

Na interpretação do professor emérito da Universidade de São Paulo, a literatura se forma por meio de um sistema formado entre autor, leitor e obra, unida por elementos estéticos e sócio-históricos (caso do arcadismo, por exemplo). Caberia à crítica literária articular esse processo.

Para Figueira, tanto o mercado atual de quadrinhos do Brasil quanto a produção da área em si poderiam estar passando por esse sistema, devidamente adaptado.

                                                              ***

O contato com Diego Figueira, de 24 anos, teve início numa série de conversas informais durante um congresso de Lingüística, realizado em julho deste ano em São José do Rio Preto, no interior paulista.

O contato verbal se verteu em trocas virtuais e estas, na entrevista a seguir:.

                                                              ***

Blog - No artigo, você cita, de forma rápida, um trecho de Antonio Candido. Você vê hoje no mercado de quadrinhos brasileiro o mesmo raciocínio feito por ele para a literatura como sistema?

Diego Figueira - A idéia de sistema literário apresentada por Antonio Candido refere-se a um estágio da produção literária de um país, por exemplo, em que as obras começam a ser articular a ponto de constituir uma tradição, um conjunto reconhecido como um todo orgânico. Trata-se mais de uma forma de percepção pública desse conjunto do que características inerentes às obras. Acredito que o modelo de Candido pode explicar a produção de quadrinhos em geral, pois hoje já existe, nos diferentes gêneros de quadrinhos, essa "consciência" de que a temática de uma obra ou o estilo de um autor tem semelhanças e diferenças com outros. Também podemos usar esse raciocínio para o mercado nacional, mesmo que aqui predominem obras produzidas em outros países, com um contexto artístico e econômico diferente.

 

Blog – Na sua leitura, qual é o papel da mídia especializada nesse processo?

Figueira - A mídia especializada, entre outras coisas, tem feito o papel da crítica literária nos quadrinhos. Isso é importante para estabelecer os laços entre obras e autores na memória dos leitores. Uma obra como Sandman ou a fase de Frank Miller no Demolidor não se torna um "clássico" sozinha, mas depende de um público que a legitime como tal e para isso o espaço da crítica é importante. No caso dos super-heróis, fica difícil pensar os usos que os roteiristas têm feito da cronologia sem a colaboração da mídia especializada para construir a memória dos quadrinhos.

 

Blog - Quando você menciona mídia especializada, refere-se a qual mídia especificamente? A virtual ou a impressa?
Figueira - Com certeza a mídia que fala de quadrinhos prosperou muito mais na Internet nos últimos dez anos, tanto no Brasil como em outros países. O número de sites sobre quadrinhos é muito maior do que o de revistas e o público da Internet também é muito maior. A internet também é mais diversificada, pois muitos veículos são blogs (como este) e até fóruns de discussão, em que o leitor pode interagir com o articulista. Na minha pesquisa, porém, eu abordo bastante a mídia impressa em diferentes momentos, desde os anos 70 com a explosão dos fanzines sobre quadrinhos. Além de serem a semente da mídia que temos hoje, estes fanzines foram o caminho para fãs que se tornaram profissionais de quadrinhos e esse novo perfil de autor trouxe muitas mudanças sentidas até hoje no mercado. Em sua origem, a mídia que falava de quadrinhos era praticamente a voz do fã. Isso contribuiu para deixar essa indústria mais sofistica e mudar a percepção públicas das HQs em vários aspectos.

 

Blog - Até que ponto a mídia especializada influencia na compra de uma obra, no seu entender?

Figueira - Primeiramente, boa parte da divulgação dos quadrinhos hoje é feito pela mídia especializada. Como só existem propagandas de gibis dentro de outros gibis, os anúncios de lançamento e previews são um veículo importante para atrair leitores, ainda se limitem àquele público específico que já é colecionador. Logo em seguida vêm os reviews e as críticas, que podem interferir na aceitação de uma revista. Mas creio que o maior poder que a mídia especializada conseguiu foi poder ditar a moda na indústria, criando um interesse muito maior em determinados autores, personagens ou mesmo em determinados gêneros de história. Assim, a sua influência não se dá apenas sobre as vendas no mercado, mas também na produção, quando autores e editores decidem que tipo de obra levar ao leitor. 

 

Blog - Em que estágio está seu mestrado? A que conclusões chegou até agora?

Figueira - O exame de qualificação de meu mestrado está marcado para outubro. Após isso, espero concluí-lo e defendê-lo entre o final de 2008 e início de 2009. Neste trabalho, estudo como uma "cultura de fã" sobre os quadrinhos, que circula na mídia especializada e outros veículos em que os colecionadores se expressam, tem favorecido a produção de obras marcadas pela metalinguagem e pela criação de alegorias com a própria história das histórias em quadrinhos, como "Reino do Amanhã", "Planetary", "Promethea" e "DC: A Nova Fronteira". É sobre essa última que trato mais detalhadamente na dissertação. Além da confirmação desta hipótese inicial, a principal conclusão a que cheguei é que justamente por não se inserir na cronologia oficial da DC, esta série pode oferecer de forma mais clara para qualquer leitor a imagem da grandeza que este universo possui e só é percebido pelos colecionadores fanáticos, pois existe de forma muito abstrata, nos textos que circulam as revistas em quadrinhos e que compõem a mídia especializada de forma geral.  

Escrito por PAULO RAMOS às 00h31
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04.07.08

Para onde caminha o quadrinho independente brasileiro?

Autores de quadrinhos independentes vão participar no próximo domingo, em São Paulo, do 16º EIRPG, evento especializado em RPG (role-playing game).

 

Eles farão durante toda a tarde oficinas de roteiro, de fanzines e uma jam session de quadrinhos, uma marca do grupo.

 

É mais um espaço que o movimento procura ocupar.

 

É algo que tem se tornado constante desde que os autores criaram em setembro do ano passado o 4º Mundo, um selo que reúne quadrinistas nacionais de diferentes partes do país (mais aqui).

 

Os autores já conversam sobre participar da Bienal do Livro, talvez em parceria com alguma editora.

 

                                                            ***

 

O primeiro evento de que o grupo participou foi o FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), realizado em outubro, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

 

Os autores alugaram um estande e dividiram os custos entre eles.

 

A presença dos independentes foi um dos destaques do festival (reveja aqui).

 

Desde então, o 4º Mundo tem alcançado mais projeção, diversificado o catálogo de títulos e trilhado dois caminhos: o virtual e o impresso.

 

Uma parte tem publicado em revistas e outra parte em sites pessoais ou no blog do grupo (link). E há quem trabalhe paralelamente nos dois flancos.

 

Há a idéia de traduzir algumas das histórias virtuais para atingir o público estrangeiro e aumentar o volume de leitores.

 

Até este momento, há 26 disponíveis no blog, como a mostrada abaixo, "Os 303 de Esparta", de Marlon Tenório.

 

 

 

 

 

                                                                          

 

Mas e mais à frente? Para onde caminha o 4º Mundo?

 

Segundo Cadu Simões, um dos organizadores do movimento, há muita conversa sobre isso no Quinto Mundo, nome dado à lista de discussão do grupo.

 

“A principal questão da discussão está relacionada à distribuição”, diz Simões, por e-mail.

 

“O nosso modelo de trocas de revistas entre os integrantes não está mais dando conta do atual volume de publicações e vendas do 4º Mundo.”

 

O problema tem levado a algumas propostas.

 

Uma delas é negociar com distribuidoras profissionais.

 

“Outro ponto de discussão que está rolando no momento é sobre a formalização do 4º Mundo numa fundação, ou até mesmo numa empresa”, diz Simões, criador do personagem Homem-Grilo.

 

“Tem uma série de ações que ficamos impedidos de fazer pela falta de CNPJ e, se o 4º Mundo fosse uma empresa, isso seria resolvido.”

 

                                                            ***

 

Simões dá outras informações sobre os rumos do movimento independente nesta entrevista, feita em dois momentos diferentes.

 

Blog - Estamos perto de comemorar um ano de 4º Mundo. Qual avaliação você faz desse período?
Cadu Simões
- Nesse quase um ano, acredito que o 4º Mundo conseguiu cumprir algumas das suas metas, como fomentar a produção de quadrinhos independentes, divulgar esses quadrinhos na grande mídia e dar saída à produção já existente, atingindo um novo público-leitor através de canais de venda alternativos como festas, shows e feiras populares (público esse que as editoras não conseguem atingir nas bancas, livrarias ou comic shops). E, principalmente, estamos formando o nosso próprio público-leitor. Ainda que seja um número pequeno, já existe um grupo de leitores que não era leitor habitual de quadrinhos e que começou a ler por causa das publicações do 4º Mundo.

Blog - Há uma tendência entre os integrantes do movimento independente de construir histórias curtas. Existe algo planejado para criação de álbuns mais longos, como ocorre, por exemplo, na França? Ou não há interesse nisso?
Simões
- Bem, os quadrinistas começam fazendo histórias curtas, pois, com elas, é mais fácil treinar suas habilidades técnicas e artísticas e também são bem mais fáceis de se produzir. Mas uma vez que ele já sinta que possui um bom domínio do processo de construção de histórias em quadrinhos, vai querer tentar fazer histórias maiores. E é o que já vem acontecendo com alguns quadrinistas independentes. Eu mesmo, a partir do próximo número da [revista independente] “Garagem Hermética”, começarei a publicar uma história seriada mais longa. O [Daniel] Esteves também está fazendo histórias seriadas com a “Nanquim Descartável”. Outro exemplo é a Avenida, cujas as histórias também possuem uma certa continuação e desenvolvimento.

 

Blog - A proposta do 4º Mundo agora é pôr mais material na internet? Essa estratégia caminha em paralelo às produções em papel?

Simões - Sim, a proposta é publicar também na internet através do blog do coletivo, tanto histórias em quadrinhos que já foram publicadas em revistas impressas quanto ainda inéditas. Assim, com a publicação das histórias em quadrinhos on-line,  atingimos um público maior do que apenas com as revistas impressas e, ao mesmo tempo, serve como um tipo de propaganda para essas revistas.

 

Blog - Como se dá a seleção das histórias do site e de quando em quando é a atualização?

Simões - Não há bem uma seleção das histórias. Assim como não tem um editor ou uma linha editorial. Cada membro do 4º Mundo tem liberdade para publicar seus quadrinhos no blog do coletivo sem precisar da aprovação dos outros membros. Também aceitamos colaborações dos quadrinistas que não pertencem ao 4º Mundo. Nesse caso, ele deve submeter a sua história no nosso fórum, o Quinto Mundo, e é a comunidade do fórum que irá decidir se será publicada ou não através de votação. As atualizações são diárias, sempre com a publicação de uma página por dia. E, terminando de publicar uma história em quadrinhos, já começamos a publicar outra logo em seguida.

 

Serviço - 4º Mundo no 16º EIRPG. Quando: domingo. Horário: a partir das 12h. Onde: Colégio Marista Arquidiocesano. Endereço: rua Domingos de Morais, 2.565, Vila Mariana, São Paulo.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h01
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11.06.08

Tese da USP mostra que quadrinhos estimulam crianças a ler

Há um conjunto de rótulos pejorativos sobre os quadrinhos, a maioria herdada de décadas anteriores. Um deles bate na jocosa tecla de que "quadrinhos são coisa de criança". 

Uma tese de doutorado da USP (Universidade de São Paulo) pôs a expressão à prova.

E mostrou que ela é verdadeira, sim. Mas não no sentido depreciativo.

A pesquisa chegou a basicamente duas conclusões: 1) quadrinhos estimulam as crianças a ler; 2) esse estímulo fomenta a migração para outras formas de leitura, como os livros.

A tese foi defendida -e aprovada- há pouco mais de um mês na ECA (Escola de Comunicações e Artes) da universidade.

A autoria é da paulistana Valéria Aparecida Bari, de 42 anos.

(É ético de minha parte registrar que integrei a banca de doutorado).

As conclusões foram possíveis por meio de entrevistas feitas com alunos da própria USP que tinham o hábito de ler quadrinhos. O levantamento foi feito entre 2001 e 2007.

A pesquisadora confrontou os resultados com a realidade observada na Espanha, onde fez parte do estudo.

O objetivo da viagem ao país europeu era perceber se a realidade brasileira é válida também em outro universo de leitores. Conclui que é.

E que a Espanha já desenvolve projetos de leitura com quadrinhos.

Nesta entrevista, feita por e-mail, Valéria Bari detalha um pouco mais sobre a tese, intitulada "O Potencial das Histórias em Quadrinhos na Formação de Leitores: Busca de um Contraponto entre os Panoramas Culturais Brasileiro e Europeu".

Para ela, a leitura de quadrinhos deve ser estimulada não só nas escolas, mas também pelos pais, dentro de casa, e nas bibliotecas públicas.

                                                        ***

Blog - Por que, no seu entender, sempre circulou um discurso contrário à idéia de que quadrinhos estimulam a leitura?

Valéria Bari - Como a posse da informação sempre representou uma forma de poder socialmente constituído, naturalmente é desinteressante para os detentores dessa informação que ela transite livremente. Como a linguagem dos quadrinhos sempre foi representativa na leitura infantil e das camadas populares, sua validade cultural é questionada por aqueles que preferem privilegiar linguagens, discursos e obras inacessíveis. 

 

Blog - Os pais, então, devem estimular a leitura dos quadrinhos?

Valéria - Se o interesse dos pais é a criação de filhos inteligentes e curiosos, que saberão buscar informações e conhecimentos com autonomia e competência, que terão habilidades para ler, escrever e se comunicar por meio de diversas outras linguagens, inclusive as digitais, é ótimo que disponibilizem histórias em quadrinhos para a leitura de seus filhos no lar. Permitam também que seus filhos pratiquem escambo com suas revistas em quadrinhos, para que conheçam outros amigos que gostam de ler e compartilhem o que estão aprendendo. Respeitem as coleções pessoais dos seus filhos, que são tão importantes para eles quanto os livros e papéis completamente insossos que nós adultos adoramos acumular e dar tanta importância. Uma criança adquire o gosto pela leitura em um ambiente no qual sua infância é respeitada, os seus gostos pessoais são respeitados e as atitudes dos adultos que o rodeiam denotem que a leitura é fonte de prazer e alegria.

 

Blog - O governo federal distribui quadrinhos às escolas do ensino fundamental desde 2006. Como você analisa esse programa [chamado PNBE, Programa Nacional Biblioteca na Escola]?

Valéria - O programa, assim como o elenco de políticas públicas que visam incentivar o gosto pela leitura e a formação do leitor, esbarra em uma limitação muito importante: a falta do acompanhamento do uso que o material disponibilizado recebe. Assim, as histórias em quadrinhos disponibilizadas recentemente aos estudantes, assim como outras amostras de leitura infanto-juvenil, não estão alcançando toda a sua potencialidade na formação do leitor.  É necessário que as políticas públicas contemplem a formação dos professores, a inserção da leitura como atividade-fim nas grades curriculares, a formação natural de espaços de leitura dentro e fora dos espaços escolares.

 

Blog - Como os quadrinhos deveriam ser tratados pelo governo?

Valéria - Os quadrinhos deveriam ser tratados como um material bibliográfico relevante à formação dos leitores. Atualmente, as bibliotecas públicas estão desenvolvendo acervos de histórias em quadrinhos, pois esta nova forma de ver as histórias em quadrinhos já está ocorrendo. Porém, mais e mais crianças e jovens que são egressos de famílias completamente iletradas estão sendo escolarizados, o que significa que toda a sociedade tem de fazer esforços redobrados, para que a formação desses novos leitores não fique perdida pelo caminho. A mobilização da sociedade sobre a questão da leitura é essencial para o êxito da escolarização universalizada, e as histórias em quadrinhos certamente têm muito a contribuir para a evolução desse preocupante quadro social.

 

Blog - E qual o papel das bibliotecas – escolares ou não – nesse processo?

Valéria - As bibliotecas públicas e escolares, por sua proximidade social com os leitores novatos, também têm o papel de atuar no desenvolvimento do gosto pela leitura. Ocorre que, apesar da recente melhora na qualidade e quantidade dos acervos, este papel ainda não está sendo desempenhado como deveria. Para tal desempenho, é necessária uma mudança de mentalidade e uma disposição dos profissionais envolvidos em assumir esta nova responsabilidade.   

 

Blog - Sua tese comparou a realidade brasileira com a espanhola? Quais as diferenças e o que há em comum?

Valéria - Para compreender melhor o problema da leitura no Brasil, fiz uma viagem de estudos à Espanha. Entre espanhóis e brasileiros, existem muitas coisas em comum, quando se trata do letramento e da formação do leitor. Em ambos os casos, a cultura das famílias não enfatizava a leitura doméstica até datas recentes, assim como o nível de escolarização era heterogêneo. A principal diferença entre os dois povos está na inovação rápida das políticas públicas e na mentalidade dos profissionais, no caso espanhol, que estão aplicando exemplarmente o potencial dos quadrinhos. Porém, o Brasil tem a possibilidade de difundir o gosto pela leitura por toda a sociedade, apesar das severas restrições orçamentárias, caso invista criteriosamente na formação de seus profissionais e na disponibilização de acervos estrategicamente desenvolvidos, sempre com a presença das histórias em quadrinhos.

 

Blog - Qual o papel dos quadrinhos na formação das pessoas?

Valéria - As necessidades individuais não se restringem à alimentação e o abrigo. O ser humano chega a um estado social de dignidade se lhe é dado o direito de sonhar, de se alegrar, de compartilhar suas experiências e fantasias com outras pessoas e ser compreendido. As histórias em quadrinhos estabelecem uma relação leitora que, além da natural carga de informação do texto escrito, investe muito no onírico, no sonho, de forma individual e social. Pela leveza e articulação da linguagem dos quadrinhos, a sua leitura é relaxante, mesmo quando os temas e enredos abordados são mais sérios e pertencem à temáticas adultas. A leitura em quadrinhos é naturalmente atrativa e, além de preparar o cérebro para apropriar toda a natureza de linguagens complexas, ajuda a enfatizar a imaginação e fomentar os sonhos, o que é importantíssimo para todas as pessoas, sejam crianças ou adultos.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h56
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06.06.08

Pixel lança nova revista mensal e prepara mais encadernados

Capa aberta do primeiro número de "Fábulas Pixel", título que começou a ser vendido nesta semana 

 

Dos formatos tateados pela Pixel do ano passado para cá, o que surtiu mais receptividade, de acordo com a editora, foi o da chamada revista mix, que reúne diferentes personagens.

"Pixel Magazine", publicada desde 2007, tem esse molde. Espelhada nela, a editora lança nesta semana um segundo título mensal, "Fábulas Pixel" (100 págs., R$ 10,90).

A revista já está à venda nas bancas e lojas especializadas em quadrinhos.

A proposta da publicação é reunir títulos ligados a fantasia e magia.

"Fábulas", série que empresta nome à revista, é o carro-chefe.

A obra faz uma versão adulta e modernizada dos contos de fadas.

As duas histórias de "Fábulas" deste número de estréia, ambas inéditas, mostram o surgimento de Chapeuzinho Vermelho e a candidatura do Príncipe Encantado ao cargo de prefeito dos seres fictícios.

A trama continua do ponto onde parou a Devir, que iniciou a publicação da série no Brasil. A Devir lançou três álbuns. O primeiro foi reeditado pela Pixel.

A revista traz ainda "Astro City", série escrita por Kurt Busiek, "Histórias do Amanhã", com texto de Alan Moore, e "Sandman Apresenta".

Os títulos pertencem das linhas Vertigo, Wildstorm e ABC, que publicam material voltado a um leitor adulto. Os três selos estão vinculados à editora norte-americana DC Comics, a mesma de Super-Homem e Batman.

A Pixel começou a publicar esse material com exclusividade no ano passado (mais aqui).

Desde então, tem testado o mercado com especiais, revistas e publicações encadernadas de obras inéditas ou já lançadas meses atrás.

Os primeiros encadernados com republicações começaram a ser vendidos no mês passado.

Houve reedição de especiais de "100 Balas" e de "Astro City".

Pelo menos dois outros estão em pauta.

Um com "Promethea" e outro com "Planetary", ambos já publicados na "Pixel Magazine".

A Pixel programa, também para este ano, um álbum nacional.

Na entrevista a seguir, feita por e-mail, o editor-chefe da Pixel, Cassius Medauar, dá mais detalhes sobre a nova publicação, fala sobre os encadernados e comenta a respeito de novos lançamentos. 

                                                               ***

 

Blog - A ”Fábulas Pixel” estava prevista para abril. O que levou ao adiamento?

Cassius Medauar - Foram diversos fatores. Os principais foram o atraso no envio de arquivos por parte da DC Comics e a discussão com a gráfica por um orçamento melhor.

 

Blog – “Fábulas”, como o título da revista indica, será o carro-chefe da publicação. Como será formado o restante do título. Haverá histórias de “Astro City” e “Sandman Apresenta” todos os meses? Algum outro título?

Medauar - Sim, teremos “Astro City” pelo menos quatro meses seguidos e “Sandman Apresenta” nos primeiros cinco meses, quando acaba a minissérie “Fúrias”. Depois dela, virá outra míni de “Sandman Apresenta” que estamos definindo. A revista ainda terá “Livros da Magia: Life During War Time” e “Promethea”, que entrarão mais pra frente. E aqui e ali teremos “Histórias do Amanhã”.

 

Blog - Muda algo em 'Pixel Magazine'?

Medauar – Sim. “Y - O Último Homem” entra na revista na edição 16. Na 15, deste mês, teremos mais uma história de “Freqüência Global”. E estamos estudando o que virá a seguir.

 

Blog - A Pixel tem demonstrado um canal muito forte de abertura com o leitor, principalmente por meio do blog da editora. Até que ponto o leitor realmente pauta os lançamentos?

Medauar - Olha, posso dizer que as enquetes que fazemos e as opiniões dadas lá nos ajudam bastante a escolher lançamentos e mudanças de direção. Como leitor, colecionador e fã, acho muito importante sabermos a opinião do nosso publico alvo pra saber que caminhos seguir. Lançar Monstro do Pântano colorido e lançar o especial Spawn Godslayer foram algumas coisas que fizemos depois de ver o que os leitores achavam.  

 

Blog - No ano passado, André Forastieri [um dos sócios da Pixel] dizia que as histórias então publicadas seriam relançadas num segundo momento na forma encadernada (link). Isso de fato começou a ocorrer neste ano. Já houve uma edição de “100 Balas” e outra de “Astro City” (capa ao lado). Qual o objetivo?  Venda nas livrarias?

Medauar - São vários objetivos. Ter mais encadernado para as livrarias, ter mais encadernados pros fãs que só gostam de encadernado, e é também um meio de otimizar nossas vendas, afinal, a venda em banca no Brasil diminui a cada ano.

 

Blog - O material que saiu na 'Pixel Magazine', caso de Planetary, por exemplo, também sairá em formato encadernado?

Medauar - Sim, mas aos poucos e vamos ver se dá certo. Começaremos com “Planetary” e “Promethea” e veremos qual a aceitação do público.  

 

Blog - A existência da “Pixel Fábulas” vai inibir um pouco a quantidade de especiais?

Medauar - Na verdade, não vai inibir. Isso é uma mudança de linha editorial, já que os especiais lançados no ano passado não tiveram um bom histórico de vendas.

 

Blog - A linha Vertigo, ABC e Wildstorm está com a Pixel já há mais de um ano. A editora testou vários formatos e públicos nesse período. Que saldo você faz? O que funcionou e o que não deu muito certo? 

Medauar - Ainda é cedo para termos um resultado. Como disse acima, os especiais não foram como a gente esperava, acabamos descobrindo que a revista mix é o que funciona no Brasil. E o mercado de encadernados é um mercado difícil. As livrarias ainda não tem uma cultura de quadrinhos e é complicado fazê-las pedir e expor direito o seu produto.

 

Blog - No ano passado, houve a saída do então editor-chefe Odair Braz Junior e a informação de que o diretor André Forastieri  sairia do dia-a-dia dos quadrinhos publicados pela Pixel. Muitos tiveram a sensação de que a editora passava por algum tipo de turbulência. Divido a pergunta em duas. Primeira: houve mesmo essa turbulência?

Medauar - Não foi bem uma turbulência, foi a hora de avaliar o que tinha sido feito até ali e que caminho tomar a seguir.

 

Blog - Segunda parte da pergunta: hoje, como anda a saúde da Pixel?

Medauar - Isso quem poderia responder é o departamento financeiro. Pelo que eu sei, vai indo tudo bem, na medida do possível nesse mercado complicado de quadrinhos.

 

Blog - Em maio, foi lançado um álbum com “Invisíveis”, obra muito esperada no Brasil (capa ao lado).

Que outras novidades a editora terá até o fim do ano?

Medauar - Por enquanto ainda não estamos revelando muita coisa porque estamos fazendo o planejamento do segundo semestres, mas com certeza teremos o “Sandman” e mais um álbum do “Constantine”.

 

Blog - E sobre outros títulos? Haverá mais Corto Maltese? Algum material nacional em pauta?

Medauar - Queremos lançar mais um álbum nacional este ano. Sobre Corto Maltese, o próximo deve sair apenas no começo do ano que vem.

 

                                                                *** 

 

Nota: o último álbum de Corto Maltese, "As Etiópicas", foi lançado no mês passado.

 

Neste mês, a editora programou outro trabalho europeu: "Emmanuelle", de Guido Crepax.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h00
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05.06.08

Livro faz raio-x do terror nos quadrinhos e em outras artes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"Enciclopédia dos Monstros", assinada pelo jornalista Gonçalo Junior, começa a ser vendida nas livrarias neste fim de semana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A existência da "Enciclopédia dos Monstros", escrita pelo jornalista e pesquisador Gonçalo Junior, já tinha sido antecipada por este blog em dezembro do ano passado.

 

A novidade é que a obra está pronta e começa a chegar às livrarias neste encerramento de semana (Ediouro, 304 págs., R$ 59,90).

 

O livro foi produzido nas cores preta e vermelha e mostra as várias formas do terror em diferentes gêneros artísticos, inclusive nos quadrinhos, área em que o autor tem vários livros publicados.

 

O mais conhecido é "Guerra dos Gibis", lançado pela Companhia das Letras.

 

Gonçalo Junior tem uma trajetória muito ligada aos quadrinhos de terror.

 

Iniciou a coleção ainda criança. Comprava revistas do gênero publicadas pela editora Bloch.

 

Depois, migrou para outras publicações, entre elas as da D-Arte.

 

A extinta editora lançava revistas hoje clássicas, como "Calafrio" e "Mestres do Terror".

 

"Tornei-me fanático", diz o jornalista baiano, que há alguns anos mora em São Paulo.

 

"Enquanto isso, descobria o cinema de horror e, principalmente, a literatura gótica dos séculos 18 e 19. Tanto que 99% das imagens do livro vieram de meu acervo particular."

 

Ele diz que, do convite à finalização, demorou um ano e meio para compor a obra.

 

Nesse período, houve alguns ajustes. Um deles foi o nome.

 

Deixou de ser "Livro dos Monstros" e incluiu a palavra "enciclopédia" no título.

 

Outra alteração foi no número de páginas. Caiu de 360 para 304.

 

Isso o obrigou a enxugar parte do conteúdo, inclusive na parte de quadrinhos.

 

Gonçalo Junior tem outra obra de terror em finalização. É um roteiro de quadrinhos.

 

O álbum, desenhado por Leônidas Grego, transforma cangaceiros em zumbis (leia aqui).

 

Ele tem também outras três obras prontas, de cunho biográfico, e uma terceira em revisão, sobre os quadrinhos eróticos publicados no Brasil durante o período militar (mais aqui).

 

Na entrevista a seguir, feita por e-mail, o jornalista fala um pouco mais sobre esses trabalhos -dois deles já têm editora definida- e detalha o conteúdo do novo livro.

 

Leia a entrevista na próxima postagem.

Escrito por PAULO RAMOS às 09h00
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Livro faz raio-x do terror nos quadrinhos e em outras artes - 2

Blog - O livro aborda quais temas ou gêneros do terror?

Gonçalo Junior – O enfoque é mais cultural, o monstruoso no imaginário popular (que inclue as artes em geral). Trata dos monstros no cinema, nos quadrinhos, nas artes plásticas, na literatura, no rock, na TV etc. Por causa do gigantismo que rendeu, tive de tirar alguns tópicos menos relevantes, como os monsters trucks (aqueles carros com rodas gigantes), monstros nas tatuagens, serial killers, no cordel etc.

 

Blog - Na última vez em que conversamos (link), você mencionou que a obra teria por volta de 360 páginas e se chamaria "Livro dos Monstros". O site da editora mostra que a versão final ficou com 304 páginas e teve o nome alterado para "Enciclopédia dos Monstros". O que ocorreu?

Gonçalo – Adequação de mercado. Foi preciso deixar tudo muito enxuto para se fazer um livro que o máximo de pessoas pudessem adquiri-lo. Por exemplo: os dráculas do cinema: são dezenas, mas precisei selecionar meia dúzia. O mesmo vale para os quadrinhos. Dos 53 dráculas, deixei seis ou sete. Claro que, com isso, corro o risco de ser criticado por esquecido algum monstro, pois sempre aparece um pentelho para aproveitar e mostrar que ele sabe mais que tudo mundo. Faz parte da vida. Mas fiquei feliz com o resultado, não me violentei em nenhum momento por ter de cortar textos e imagens. Tudo foi feito com extrema gentileza por Pedro Almeida [editor da Ediouro], que sabe ver o lado comercial das coisas, mas é extremamente respeitoso com o autor. Um editor raro.

 

Blog - Na mesma entrevista, você dizia que o livro teria um terço do conteúdo relacionado a quadrinhos. Isso se manteve?

Gonçalo – Quadrinhos e cinema ocupam espaços mais ou menos do mesmo tamanho, o que dá mais da metade do livro. Cortei muita coisa de quadrinhos – pelos meus cálculos, ocupariam 600 páginas. De modo geral, porém, os textos introdutórios dão um panorama mais completo do que planejei inicialmente, o que torna a obra menos passível de críticas quanto à sua profundidade. Além disso, preservei a idéia inicial de oferecer ao leitor um passeio visual pelo mundo do horror. As crianças vão adorar nesse aspecto.

 

Blog - O que da área de quadrinhos você aborda na obra?

Gonçalo – Optei por duas partes: uma seleção dos mais importantes monstros de todas as editoras nacionais – La Selva, Outubro, Taika, Ebal, RGE, Vecchi, Grafipar, Press, D-Arte, Nova sampa etc) e outra com subgêneros: vampiros, dráculas, lobisomens, múmias, crianças-monstros, vilões-monstros, monstros japoneses, monstros infantis, monstros do pântano etc. O mesmo vale para cinema e TV.

 

Blog - Quanto do material abordado no livro é de quadrinho nacional e quanto é de publicações estrangeiras?

Gonçalo – Não me preocupei com isso. Tentei abraçar ao máximo tudo que foi publicado, com ênfase em descobrir criaturas esquecidas e sem deixar de fora as mais populares. No ítem "Monstros do Pântano", por exemplo, encontrei quase 20, desde 1950. Mas a parte nacional está mais completa, creio, porque o Brasil tem uma tradição de terror só comparável aos Estados Unidos. Em número de títulos, acho que somos o número um do mundo em todos os tempos.

 

Blog - O Brasil tem esse histórico de publicações de terror em quadrinhos. Da década de 1980 para a seguinte, sumiram. Você conseguiu mapear o motivo disso?

Gonçalo – Boa pergunta. Resposta complexa. A última editora atuante de terror foi a D-Arte, que encerrou suas atividades em 1993. De lá para cá, revoluções aconteceram no mercado com as graphic novels e os mangás, principalmente. O Brasil se profissionalizou também, os artistas foram para os quadrinhos mais autorais, undergrounds no sentido da crítica social e de comportamento, ou partiram para produzir super-heróis. E o terror, que já dava sinais de saturamento, desapareceu. Acho que os editores não apostam mais em sua viabilidade. Há um vácuo de uma geração aí e a molecada não cresceu lendo esse gênero, o que reflete a falta de interesse. O terror está sendo renovado no cinema com a tecnologia digital e isso ainda não refletiu nos quadrinhos. Embora o Brasil tenha tradição, cá entre nós, produzimos muito lixo, muito plágio descarado dos quadrinhos da EC Comics nos anos de 1950 e 1960 (a renovação só veio com Spektro, criada em 1977). Esse é um aspecto que precisa ser desmistificado. No dia em que um acadêmico parar para ler e estudar essas histórias, ficará com vergonha, com raríssimas exceções. Na verdade, nós idolatramos nossos artistas pelo desbravamento e coragem e não pelo conteúdo em si do que fizeram. Só sairemos do atraso no dia em que isso for revisto.

 

Blog - E suas outras obras? A biografia de Álvaro de Moya [pesquisador de quadrinhos], o livro sobre as editoras de revistas eróticas da década de 1970. A quantas andam?

Gonçalo – As biografias de Moya e Rodolfo Zalla [um dos mais antigos desenhistas com atuação no Brasil]– que fiz em 2005 e 2003, respectivamente - sairão até o fim do ano por uma editora de São Paulo que respeito muito pela ética e boa conduta no mercado, pela relação que tem com os autores. Sairão com os nomes deles como autores. Apenas colhi suas maravilhosas histórias e botei no papel. A Guerra dos Gibis 2 (sobre revistas eróticas) está concluída, mas preciso dar umas mexidas – e sem qualquer pressa para publicação, se isso acontecer um dia. Tem ainda uma microbiografia de Colin que deve sair pela Marca de Fantasia e um livro sobre a revista O Grilo, ainda sem editor (e não vou correr atrás de nenhum). Essas são as minhas saideiras do mundo da pesquisa dos quadrinhos. São coisas que estão na gaveta faz tempo. Depois, vou sair completamente desse meio. Quero me dedicar a pesquisas em outras áreas (aliás, o que já estou fazendo).

 

                                                                   ***

 

Nota: o blog apurou qual é a editora paulista que vai publicar as obras sobre Álvaro de Moya e Rodolfo Zalla.

 

Não é mais a Opera Graphica, editora que iria inicialmente lançar as obras.

 

A fonte confirmou a publicação dos dois livros, mas pediu sigilo sobre o nome da editora.

 

Leia mais sobre os livros aqui e aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 08h50
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29.05.08

Livro traz nova coletânea de Malvados, de André Dahmer

 

 

 

 

 

Seqüência da tira cômica, criada pelo desenhista fluminense em 2001

 

 

 

 

 

 

O desenhista André Dahmer tem nas plantas e no cultivo delas um de seus hobbies, exercitado em seu sítio, na serra fluminense.

A atividade extra não fez florescer o visual dos protagonistas da tira "Malvados", criada por ele e compilada num álbum homônimo, lançado neste mês (Desidetara, 114 págs., R$ 29,90).

Os personagens parecem girassóis. Mas só parecem, segundo Dahmer.

"Eu nunca disse que eram girassóis, mas também não me importo."

O termo, diz, foi herança de uma reportagem, feita anos atrás. "Pegou e ficou."

Plantas ou não, os personagens caíram no gosto dos leitores. Primeiro entre os internautas.

A série surgiu num site, criado pelo desenhista em 2001 e mantido até hoje.

O boca a boca, ou o link a link, ajudou a difundir as piadas feitas por ele.

A tira migrou para o impresso –é publicada no "Jornal do Brasil"- e ganhou uma primeira coletânea em 2005, pela Editora Gênese.

Há algumas tiras do primeiro livro nesta nova coletânea, embora a maioria seja dos dois últimos anos.

"Achei importante colcoar algumas delas porque queria um livro que representasse toda essa trajetória", diz o desenhista, nascido em Botafogo, em 1974.

"Esse livro é mais completo porque agora, ao contrário de 2005, tenho um trabalho mais sólido e organizado."

Os temas variam. Assim como o tempo de produção de cada história.

"Algumas tiras faço em cinco minutos, outras demoram três dias. Não há uma regra, infelizmente".

O que há, segundo ele, é um prazer na criação das tiras.

Esse seria, no seu entender, um dos motivos da repercussão de Malvados.

"Aprendi com meu pai que trabalho é feito para dar prazer, não o contrário", diz.

"Acho que todo trabalho feito com amor tem grande chance de reconhecimento. E se mesmo assim não houver reconhecimento, você o fez com amor e, por isso, já basta."

O desenhista tem planos de produzir uma história em quadrinhos mais longa.

Mantém projetos no âmbito pessoal também.

Casado há três anos, pretende ter um filho e adotar outro nos próximos dois ou três anos.

 

 

Nesta entrevista, feita por e-mail, André Dahmer fala sobre o trabalho em Malvados e como vê o papel da internet na produção de tiras hoje no país.

                                                           ***

Blog - "Malvados" é um exemplo bem-sucedido de tira que migrou do meio virtual para o papel. Como você vê hoje o papel da internet na produção de tiras brasileiras?
André Dahmer - Acho que a internet foi fundamental para toda essa geração de novos quadrinistas, gente que ainda não está no tal mercado, jovens com poucas opções para divulgar seus trabalhos na mídia impressa. Na verdade, sabemos que são tempos difíceis para todos os trabalhadores de maneira geral. Mesmo assim, acho que a rede ainda vai revelar muitos grandes profissionais na área. Vejo todo mês coisas novas, muita gente fazendo da web um lugar para divulgar quadrinhos, alguns deles realmente de alto nível.

Blog - Mesma pergunta, mas focada em outro meio de divulgação: qual o papel dos jornais, hoje, na difusão das tiras, no seu entender?
Dahmer - Hoje é, infelizmente, um papel pouco importante. A maior parte dos grandes jornais não desempenha mais o papel de divulgador de novos talentos nacionais nos quadrinhos há muito tempo. Há anos eles preferem comprar pacotes de tiras americanas, que sai bem mais em conta do que pagar um quadrinista nacional. É a lógica do lucro, mas por outro lado a mentalidade está mudando. Tenho visto pequenos movimentos no sentido oposto, ainda que raros. Mesmo assim, os jornais estão perdendo leitores dia após dia, passam por um processo de corte de custos e pessoal característicos dos tempos bárbaros em que vivemos. Se eu estivesse começando, não contaria com eles para divulgar e viver do meu trabalho. O caminho é mesmo a rede e a produção de livros independentes, se não houver editora que pague o necessário para um quadrinista trabalhar com dignidade.

 

 

Blog - Você já mencionou mais de uma vez que começou a fazer "Malvados" por puro prazer, tanto que produzia as tiras em baixa resolução. Hoje, a tira cresceu, é publicada também em jornal e em mais de uma coletânea em livro. O prazer na produção das histórias se mantém ou já se tornou um negócio?
Dahmer - Faço com imenso prazer até hoje, não sou bobo de burocratizar ou sacrificar meu trabalho em nome de qualquer dinheiro. Não sou desses que odeia dinheiro, mas meu trabalho (e meu prazer em trabalhar) estão muito acima dessa questão.

Blog - A propósito: por que "Malvados"? De onde surgiu o nome?
Dahmer - Eu não tenho uma explicação para o nome, nem como ele surgiu. Ajudou o fato de ter apenas oito letras, sem acentos ou cedilha. Queria um domínio na rede fácil de escrever e de lembrar.

Blog - Você comenta no livro que tem receio de ser rotulado como o "autor de Malvados". Mas seu trabalho não caminha um pouco nesse sentido?
Dahmer - Tenho imenso prazer em desenhar Malvados, mas também tenho o direito de estar livre para fazer o que bem quiser na minha vida, sem patrulha de ninguém. Tenho outros caminhos para trilhar e outras coisas a experimentar em desenho de quadrinhos ainda. Tenho só 33 anos e estou aprendendo, experimentando. Realmente não devo me preocupar com o que os outros querem e nem devo viver de uma fórmula qualquer, se ela não me der prazer.

Blog - Quais seus próximos projetos em quadrinhos?
Dahmer - Pretendo publicar uma história em quadrinhos longa, um livro inédito. Está em meus planos e já tenho algo para um roteiro, mas não sei quando farei ou mesmo se farei. No momento, prefiro ter calma para pensar em meu trabalho de maneira mais arejada. Após o lançamento do livro, entro de férias e devo sair um pouco do Rio de Janeiro.
  

                                                           ***

"Malvados" é o segundo livro de Dahmer pela Desiderata e o primeiro de quadrinhos da editora carioca após ser comprada pela Ediouro (leia mais aqui).

No ano passado, ele lançou uma coletênea de tiras sem personagens fixos.

Leia mais sobre "O Livro Negro de André Dahmer" neste link.

Escrito por PAULO RAMOS às 19h10
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21.05.08

Editora Nacional lança cinco adaptações em quadrinhos

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto, obra adaptada por Laison de Holanda Cavalcanti

 

 

 

 

 

 

 

O gênero literatura em quadrinhos continua em alta no mercado brasileiro. E tem atraído novas editoras.

A Companhia Editora Nacional lançou neste mês, de uma tacada só, cinco adaptações.

Três delas são de obras estrangeiras: "Moby Dick", de Herman Melville (1819-1891), "A Ilha do Tesouro", de Robert Louis Stevenson (1850-1894), e "Viagem ao Centro da Terra", de Júlio Verne (1828-1905).

Cada uma custa R$ 18. As três foram produzidas no exterior.

Os desenhos são de Penko Gelev e os textos de Sophie Furse e Fiona Macdonald.

Os outros dois lançamentos são da literatura brasileira: "Memórias de um Sargento de Milícias" (R$ 18), do romance de Manuel Antônio de Almeida (1831-1859), e "Triste Fim de Policarpo Quaresma" (R$ 23), do escritor Lima Barreto (1881-1922).

As duas adaptações foram feitas pelo recifense Lailson de Holanda Cavalcanti.

Foi dele também a versão em quadrinhos de "O Alienista", de Machado de Assis (1939-1908).

A obra, lançada em março, inaugurou a linha de adaptações literárias da Companhia Editora Nacional (leia mais aqui).

O desenhista diz que a idéia de produzir as obras foi conjunta.

Surgiu enquanto ele fazia o álbum "Lusíadas 2500", lançado pela editora em 2006. O trabalho fazia uma leitura futurista da obra do português Luís Vaz de Camões.

"Policarpo Quaresma era um desejo antigo meu", diz Cavalcanti, por e-mail.

"O Alienista era um clássico tão óbvio que não poderia ficar de fora. E o Sargento de Milícias surgiu naturalmente como a terceira obra."

O desenhista, hoje com 55 anos, diz que demorou em média três meses para produzir cada uma das adaptações.

Na entrevista abaixo, ele fala um pouco sobre o processo de adaptação das obras literárias.

E sobre como vê o fato de haver tantas versões em quadrinhos de "O Alienista" (foram lançadas três de 2006 para cá).

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Blog - Já houve duas adaptações recentes de "O Alienista". Não há o risco de haver uma "overdose" dessa obra?

Lailson de Holanda Cavalcanti - Não, não acho. São como adaptações teatrais ou cinematográficas. Cada autor irá interpretar a obra à sua maneira, com sua visão estética e de conteúdo. No final das contas, comparando as três obras, pode-se ver subjetividades que escaparam a um ou a outro. Caberá ao  leitor (ou ao educador, se for o caso) fazer a sua escolha. Como digo nos textos que constam dos álbuns, onde relato o processo de adaptação que usei, minha preocupação primeira foi situar a obra no seu contexto temporal. No Alienista, por exemplo, já vi adaptações em diferentes mídias, além dos quadrinhos, onde ele é a cara de Freud: barba, óculos, paletó, gravata, coisas que são incongruências em relação à obra original, pois se o leitor prestar atenção, verá que a história se passa no tempo do Vice-Rei. E já no primeiro parágrafo, Machado diz que as crônicas de Itaguaí falam que "em tempos remotos", viveu ali o Dr. Simão Bacamarte. Considerando que a obra original foi publicada em 1882, isso nos leva a colocar o tempo narrativo no final do século 18, entre a Revolução Francesa e a vinda da Família Real para o Brasil. A arquitetura, então, é colonial e o vestuário não inclui gravatas modernas nem rostos barbados. É o período Napoleônico e a moda dominante era de rostos raspados, com suíças, calções, meiões, jaquetas de três cortes atrás, coletes, cartolas, laços no pescoço, vestidos femininos de busto descoberto e mangas longas, de cintura alta. Itaguaí, obviamente, seria uma cidadezinha de nada, mas aí usei a licença poética para criar uma "versão cenográfica" (ou "quadrinhográfica"!), para valorizar o cenário. A cidade tornou-se uma cidade ideal dos tempos coloniais, dando um pano de fundo para que a mesma possa ser compreendida mesmo em traduções para outros idiomas.

 

Blog - As adaptações parecem ter um cuidado didático, como as edições da Ática voltadas à literatura brasileira e portuguesa. Isso, de certa forma, pautou o modo como as adaptações foram feitas?

Cavalcanti - Sim, esta foi uma das minhas principais preocupações e da editora também. Meu primeiro livro publicado pela Companhia Editora Nacional/IBEP, que é "Pindorama - A outra História do Brasil" [de 2004], eu considero muito útil para uma compreensão do desenrolar sócio-político brasileiro; mas é uma obra onde a sátira está muito presente, há um viés meu muito particular na interpretação dos fatos. As crianças teriam dificuldades em perceber essas sutilezas se ele fosse usado como um livro didático. Então, ele é uma obra paradidática, e não, didática. Nestas adaptações agora, a preocupação foi fazer com que elas cumprissem realmente uma função de dar a melhor base possível para que um jovem entre em contato com os clássicos da literatura brasileira e, a partir daí, busque conhecer melhor os originais. Por isso, ao final de cada adaptação, existe um glossário, uma biografia do autor da obra, uma linha do tempo sobre ele, um texto meu sobre os critérios que usei para a adaptação e uma biografia minha.

 

Blog - Você procurou ser bastante fiel às obras originais. Como se deu esse processo de passar o texto para a linguagem dos quadrinhos?

Cavalcanti - Minha preocupação foi manter a adaptação o mais próxima possível do texto original, adaptando-o para facilitar a sua compreensão pelo leitor atual, sem perder o seu valor literário original. Fiz apenas modificações de tempo verbal e transformei em diálogos muitas descrições de cena. O que o texto não descreve, as imagens mostram e o que elas não podem mostrar, está no texto. Ao invés de colocar uma legenda repetindo o óbvio, dramatizei a narrativa, mantendo as palavras originais do autor. Não existem palavras minhas nas adaptações, todas são originais dos autores. Acho que a narrativa gráfica, a arte seqüencial, é isso, essa síntese entre imagem e texto onde cada parte pode ser apreciada separadamente, mas o conjunto deve formar um todo coerente, sem redundâncias.

 

Blog - Como você vê essa retomada do gênero literatura em quadrinhos? Trata-se de um modismo voltado às compras de quadrinhos pelo governo federal ou algo mais consolidado?

Cavalcanti - A coleção "Classic Illustrated" foi uma das minhas favoritas na infância, junto com as Edições Maravilhosas da EBAL. Sempre houve no Brasil e no mundo esse interesse em tornar acessíveis as obras da Literatura aos jovens, mas a metodologia também sempre esbarrou numa fórmula muito didática, que afastava o leitor médio de quadrinhos. Aqui no Brasil tentava-se dar uma seriedade que destoava. E o produto final acabava muito mais uma narrativa ilustrada e não uma obra de narrativa gráfica seqüencial. Além do mais, durante muito tempo as HQ ficaram com o "Estigma do Dr. Werthan" [psiquiatra norte-americano que criticava os quadrinhos na década de 1950] e eram consideradas uma literatura nociva à juventude. O fato de o MEC ter decidido aceitá-las como processo didático abriu grandes possibilidades e creio que todas as editoras viram seu interesse neste nicho de mercado. Se soubermos trabalhar isso e se a produção mantiver padrões de qualidade, creio que seja uma forma de educação cultural permanente e não apenas uma moda passageira.

 

Blog - Há outros projetos em quadrinhos em pauta? Quando virá a seqüência de Lusíadas 2500?

Cavalcanti - O segundo volume dos Lusíadas 2500 deverá ser lançado no final deste ano ou no princípio do próximo. Tive que atrasá-lo por conta dessas adaptações. E para retomar o ritmo, levou algum tempo. A coleção "Quadrinhos Nacional" deve ser ampliada, mas os novos títulos ainda estão em estudo. Aqui em Pernambuco continuo desenvolvendo trabalhos educativos em quadrinhos para o trânsito, educação, saúde, consciência ambiental e consciência fiscal. A Turma do Fom-Fom, por exemplo, que criei para o Detran de Pernambuco, foi uma das campanhas educativas mais bem sucedidas já vistas, com tiragens de revistas em quadrinhos na casa de 200 mil exemplares em cada edição. Para o futuro, continuo trabalhando nessas áreas. 

Escrito por PAULO RAMOS às 20h20
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31.03.08

Pesquisa lança olhar literário sobre os quadrinhos de Mutarelli

 

 

 

 

 

 

 

Mestrado defendido em Curitiba, no Paraná, estudou toda a produção de Lourenço Mutarelli, como a "A Soma de Tudo", álbum visto ao lado

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
É possível dar aos quadrinhos o mesmo tratamento dedicado à análise de uma obra literária. Essa é uma das novidades de um mestrado, que estudou toda a produção em quadrinhos de Lourenço Mutarelli.
 
A pesquisa, feita em Curitiba, no Paraná, investigou desde os primeiros trabalhos dele, produzidos no fim da década de 1980, até os último álbum dele, o autobiográfico "Caixa de Areia (ou Eu Era Dois em Meu Quintal", lançado pela Devir em 2006.
 
Depois dessa data, Mutarelli deixou os quadrinhos de lado.
 
Ele passou a investir na literatura -já havia lançado alguns livros-, ao teatro e ao cinema.
 
É dele o livro que "O Cheiro do Ralo", que inspirou o filme homônimo, exibido no ano passado.
 
O autor da pesquisa, o curitibano Liber Paz, de 33 anos, dividiu a produção quadrinística de Mutarelli em diferentes fases, como ocorre nas análises literárias:
 
  • início da carreira (de 1988 a 1990)
  • os quatro primeiros álbuns (de 1991 a 1996)
  • as histórias coloridas (de 1998 a 2000)
  • a triologia em quatro partes do detetive Diomedes: "O Dobro de Cinco", "O Rei do Ponto", "A Soma de Tudo" partes um e dois (de 1999 a 2000)
  • a "Caixa de Areia" (2006)
 
Algumas conclusões da pesquisa: a obra de Mutarelli reflete e refrata elementos sociais e tecnológicos, há uma tendência a abordar temas como solidão e melancolia, há uma fixação do autor por figuras deformadas.
 
O mestrado, de 260 páginas, foi defendido em fevereiro na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (é ético registrar ao leitor que fiz parte da banca).
 
Nesta entrevista, o professor e designer gráfico Liber Paz comenta mais sobre os bastidores e os resultados de seu estudo, que insere um olhar literário sobre a produção de quadrinhos.
 
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Blog - O que o motivou a escolher Lourenço Mutarelli para pesquisar?
Liber Paz - Foi uma questão pessoal e prática. Aquela história de "unir o útil ao agradável". Quando eu comecei a esboçar o projeto de mestrado, minha idéia era estudar algum autor de quadrinhos de que eu gostasse e que tivesse uma obra com proposta e conteúdo mais denso, dentro do qual eu pudesse desenvolver as questões sobre cultura e tecnologia [proposta do mestrado da Universidade Tecnológica Federal do Paraná]. Eu sempre gostei dos quadrinhos do Lourenço e o trabalho dele se encaixava direitinho dentro das minhas idéias para o projeto, por isso o escolhi.
 
Blog - O que procurou mostrar no trabalho?
Liber Paz - Eu fiz o mestrado através de um programa de pós-graduação que tem por prioridade o estudo da tecnologia e a questão da cultura e dos estudos interdisciplinares. Dentro da nossa sociedade, muito do que pensamentos, muito do modo como vemos e julgamos o mundo é construído com base nas nossas relações com outras pessoas e com a natureza ao nosso redor. E, como diz um dos autores que estudei, "a tecnologia acaba constituindo uma segunda natureza". A partir daí, pensei em procurar nas histórias em quadrinhos elementos que mostrassem como a tecnologia interage com a condição humana contemporânea. Procuro usar o trabalho de Lourenço Mutarelli para mostrar esses elementos. Eu também tinha interesse em mostrar histórias em quadrinhos por um viès mais "literário". Eu acredito que uma história em quadrinhos pode ser uma obra com valor estético, como um livro de Kafka, permitindo diversas leituras e releituras, discussões e novos significados. Espero ter conseguido mostrar isso no trabalho.
 
Blog - E qual foi sua conclusão?
Paz - A obra de Lourenço Mutarelli mostra como objetos do dia-a-dia acabam ganhando um significado muito maior por representar um modo de estender a permanência humana e manifestar a materialização de idéias e sentimentos às vezes inexprimíveis. Um dos maiores exemplos é a fotografia. No álbum "Mundo Pet", ela serve de suprote para o autor construir as histórias, pintando sobre fotografias. Mas, além disso, a fotografia serve como uma materialização da memória e como um modo de entrar em contato com as pessoas ausentes. A fotografia é um canal de contato e ganha um valor emocional gigantesco.
 
Blog - Você conseguiu identificar quais as características estilísticas que compõem Mutarelli como autor de quadrinhos?
Paz - A respeito das questões formais, Mutarelli usou pouquíssimas onomatopéias e linhas de movimento durante toda a sua produção. Podemos dizer que há um constante e pesado silêncio em suas histórias. Suas histórias também apresentam poucas seqüências de ação, exceção maior feita à série do Detetive Diomedes, a "Trilogia do Acidente". Mutarelli emprega muitas cenas de diálogo, com o quadrinho passando de um rosto a outro. O modo como "edita" suas cenas parece evocar uma passagem de tempo mais lenta, demorada. Isso também pode ser verificado no cuidado com que Mutarelli desenha os detalhes de seus quadros, que pedem uma observação mais contemplativa, sem pressa. Ler um álbum de Mutarelli requer uma desaceleração do ritmo cotidiano. Essas características formais interagem com os temas principais de Lourenço Mutarelli, como a instrospecção e a melancolia.
 
Blog - Você dividiu a produção em períodos. Quais foram os critérios para o início de cada um deles?
Paz - A divisão em períodos acabou acontecendo naturalmente. Está muito vinvulada ao desenvolvimento do trabalho do autor, com relação a sua narrativa e temáticas. Temos um primeiro momento com um flerte com o humor nas histórias curtas publicadas ao final da década de 1980. Com o lançamento de "Transubstanciação" [ao lado, a capa da segunda edição], começa uma fase completamente distinta, a dos álbuns, que inclui "Desgraçados", "Eu Te Amo Lucimar" e "A Confluência da Forquilha". Percebemos como temas principais nessas obras a angústia e o grotesco apresentados de maneira visceral ao leitor. São álbuns impactantes, em que o autor se expressa de maneira espontânea e intensa. Após esses álbuns, ele faz uma pausa em sua produção de quase um ano. Retoma com a produção de algumas histórias curtas e começa a desenvolver o álbum "O Dobro de Cinco", que daria origem à "trilogia de quatro partes" do detetive Diomedes e a uma nova fase. Nos álbuns de Diomedes, ainda estão presentes a melancolia, a angústia e o grotesco, mas de uma maneira mais refinada. O autor está mais maduro e apresenta seus temas ordenados na forma da história de detetive. Em paralelo com a produção de Diomedes, Mutarelli produz histórias curtas e coloridas para o site Cybercomix (depois publicadas em "Mundo Pet"). Tanto nessas histórias curtas quanto em Diomedes, Mutarelli lapida sua narrativa, desenvolve sua poética e começa a abordar novos temas, como a questão da representação. Em "A Caixa de Areia", seu último e, na minha opinião, melhor trabalho, ele leva essa questão do real e da ficção ao extremo. Todos os álbuns precedentes tinham suas histórias se psassando em um universo fictício comum, com elementos que se tocavam, como o "Grande Circo", que é mencionado em "Transubstanciação" e também na trilogia de Diomedes. "A Caixa de Areia" não participa desse universo fictício. Mutarelli procura em uma linha narrativa apresentar uma "reprodução" fiel da realidade e em outra uma situação completamente absurda e impossível. A partir de um jogo de metalinguagem, ele faz reflexões bem interessantes sobre as limitações do "quadrinho autobiográfico" e mesmo das formas de representação em geral. Considero "A Caixa de Areia" sua obra-prima.
 
Blog - Você entrevistou Mutarelli para compor a pesquisa. O que ele revelou sobra a obra dele? E por que decidiu desistir de produzir quadrinhos?
Paz - Dos encontros que tive com Lourenço Mutarelli, ficou muito evidente para mim a atitude e posicionamento do autor com relação a seu trabalho. Mutarelli tem um respeito profundo pelos quadrinhos. Seus trabalhos são feitos com esmero, priorizando aspectos estéticos e literários. A respeito da desistência da produção de quadrinhos., não posso falar com propriedade a respeito de suas razões particulares. A meu ver, Mutarelli cansou-se do descaso e da falta de reconhecimento que existe em relação aos quadrinhos.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h47
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20.03.08

Guia dos Quadrinhos: um ano e 4.500 capas depois

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Primeiro número da revista "O Pato Donald", de 1950, é uma das 4.500 capas disponíveis para consulta na página virtual
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A página de abertura do "Guia dos Quadrinhos" revela a proposta ambiciosa do site: "catalogar todos os quadrinhos que foram publicados no Brasil".
 
O projeto começou com 600 capas. Hoje, chega a 4.500. 
 
E há outras 2.000 na fila de espera. Fora as edições catalogadas, mas sem capa.
 
Algumas das imagens já colocadas no site são raras, caso da capa do primeiro número de "O Pato Donald", de 1950. Ou da edição de estréia da revista do Homem-Aranha, de 1969.
 
O site foi criado pelo designer gráfico carioca Edson Diogo, de 39 anos.
 
É ele que banca todos os custos da página.
 
Diogo diz que a idéia existe desde 2001. Mas só tomou forma no ano passado, quando a página virtual entrou no ar, no dia 5 de março.
 
Nesse primeiro ano, o site se tornou um dos principais acervos virtuais sobre quadrinhos publicados no Brasil.
 
Parte do que se vê na tela veio do acervo pessoal dele. O designer diz que sua coleção soma 8.000 obras em quadrinhos.
 
O restante do material vem de pesquisas e de colaborações de internautas.
 
Além das capas, ele põe também uma ficha técnica de cada obra, inclusive com os nomes das histórias que a revista tem.
 
Nos títulos de super-heróis, há também a data em que foram publicadas nos EUA.
 
O trabalho é feito em São Paulo, onde mora há 16 anos. Diz gastar quatro horas diárias no processo de atualização do banco de dados virtual.
 
Nesta entrevista, feita por e-mail, Edson Diogo dá outros detalhes sobre como elabora o site e quais são seus planos para este segundo ano de vida da página virtual.
 
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Blog - Qual era o seu objetivo quando criou o site, há um ano? A meta foi cumprida nesses primeiros doze meses?
Edson Diogo
- O objetivo era cativar o maior número possível de amantes de quadrinhos para que pudessem ajudar na formação do banco de dados. Um ano depois, o site já conta com 2.700 participantes e o número de visitantes cresce a cada dia, então acho que posso dizer que esse meta foi cumprida.

Blog - Como surgiu a idéia de criar a página virtual?
Diogo - A idéia de construir um grande catálogo, em forma de livro, surgiu pela primeira vez em 1996, quando eu fazia o guia de preços da revista "Wizard", na editora Globo. Depois comecei a pensar na possibilidade de lançá-lo em CD-ROM. Somente em 2001 surgiu a idéia de criar um site. Como eu não sabia nada sobre o assunto, comprei vários livros e fiz muitas pequisas para encontrar o melhor formato. Em 2006, quando já estava tudo pronto, mostrei para um grande amigo, Ricardo Soneto [jornalista especializado em música e artes narrativas], que sugeriu que o site funcionasse como a Wikipedia. Como todo o sistema do site foi desenvolvido por mim, demorei mais sete meses para criar a parte de cadastramento e envio de capas.
 
Blog - Acredito que seja uma dúvida corrente: como você faz para ter acesso a tantas obras? São de arquivo pessoal, de contribuições ou de ambos?
Diogo - Muitas informações eu já tinha da época que fazia o guia de preços da "Wizard". Uma parte é da minha própria coleção e restante foi resultado de pesquisa com colecionadores e nas editoras. Bem, isso só as primeiras 15.000 edições. As outras 42 mil foram cadastradas pelos internautas.
 
Blog - Seu arquivo pessoal físico tem quantas revistas? O interesse começou quando?
Diogo
- Atualmente, eu devo ter umas 8.000 revistas. Comecei a comprar quadrinhos ao 13 anos porque queria desenhar os personagens. Até ver um anúncio do "Heróis da TV" número 37, com a estréia de Warlock [publicada em julho de 1982, pela editora Abril]. Achei legal e passei a comprar todos os meses. Depois de certo tempo, eu nem desenhava mais, só lia.
 
Blog - Por curiosidade: quantas horas por dia ou por semana você dedica à página? Ela é bem visitada?
Diogo
- Mais ou menos umas quatro horas por dia, ou melhor, por noite. Tempo usado para responder e-mails, corrigir erros, tratar as capas e fazer mudanças na programação. Atualmente, o Guia tem 20 mil visitantes por mês ou 10 mil visitantes únicos.
 
Blog - Qual sua meta para este segundo ano?
Diogo - Agilizar o processo de colocação das capas no ar, descentralizar algumas funções, fazer parcerias com outros sites e consegui alguma forma para custeia as despesas do site.
 
Para acessar a página, clique aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h03
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