31.03.08

Pesquisa lança olhar literário sobre os quadrinhos de Mutarelli

 

 

 

 

 

 

 

Mestrado defendido em Curitiba, no Paraná, estudou toda a produção de Lourenço Mutarelli, como a "A Soma de Tudo", álbum visto ao lado

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
É possível dar aos quadrinhos o mesmo tratamento dedicado à análise de uma obra literária. Essa é uma das novidades de um mestrado, que estudou toda a produção em quadrinhos de Lourenço Mutarelli.
 
A pesquisa, feita em Curitiba, no Paraná, investigou desde os primeiros trabalhos dele, produzidos no fim da década de 1980, até os último álbum dele, o autobiográfico "Caixa de Areia (ou Eu Era Dois em Meu Quintal", lançado pela Devir em 2006.
 
Depois dessa data, Mutarelli deixou os quadrinhos de lado.
 
Ele passou a investir na literatura -já havia lançado alguns livros-, ao teatro e ao cinema.
 
É dele o livro que "O Cheiro do Ralo", que inspirou o filme homônimo, exibido no ano passado.
 
O autor da pesquisa, o curitibano Liber Paz, de 33 anos, dividiu a produção quadrinística de Mutarelli em diferentes fases, como ocorre nas análises literárias:
 
  • início da carreira (de 1988 a 1990)
  • os quatro primeiros álbuns (de 1991 a 1996)
  • as histórias coloridas (de 1998 a 2000)
  • a triologia em quatro partes do detetive Diomedes: "O Dobro de Cinco", "O Rei do Ponto", "A Soma de Tudo" partes um e dois (de 1999 a 2000)
  • a "Caixa de Areia" (2006)
 
Algumas conclusões da pesquisa: a obra de Mutarelli reflete e refrata elementos sociais e tecnológicos, há uma tendência a abordar temas como solidão e melancolia, há uma fixação do autor por figuras deformadas.
 
O mestrado, de 260 páginas, foi defendido em fevereiro na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (é ético registrar ao leitor que fiz parte da banca).
 
Nesta entrevista, o professor e designer gráfico Liber Paz comenta mais sobre os bastidores e os resultados de seu estudo, que insere um olhar literário sobre a produção de quadrinhos.
 
                                                          ***
 
Blog - O que o motivou a escolher Lourenço Mutarelli para pesquisar?
Liber Paz - Foi uma questão pessoal e prática. Aquela história de "unir o útil ao agradável". Quando eu comecei a esboçar o projeto de mestrado, minha idéia era estudar algum autor de quadrinhos de que eu gostasse e que tivesse uma obra com proposta e conteúdo mais denso, dentro do qual eu pudesse desenvolver as questões sobre cultura e tecnologia [proposta do mestrado da Universidade Tecnológica Federal do Paraná]. Eu sempre gostei dos quadrinhos do Lourenço e o trabalho dele se encaixava direitinho dentro das minhas idéias para o projeto, por isso o escolhi.
 
Blog - O que procurou mostrar no trabalho?
Liber Paz - Eu fiz o mestrado através de um programa de pós-graduação que tem por prioridade o estudo da tecnologia e a questão da cultura e dos estudos interdisciplinares. Dentro da nossa sociedade, muito do que pensamentos, muito do modo como vemos e julgamos o mundo é construído com base nas nossas relações com outras pessoas e com a natureza ao nosso redor. E, como diz um dos autores que estudei, "a tecnologia acaba constituindo uma segunda natureza". A partir daí, pensei em procurar nas histórias em quadrinhos elementos que mostrassem como a tecnologia interage com a condição humana contemporânea. Procuro usar o trabalho de Lourenço Mutarelli para mostrar esses elementos. Eu também tinha interesse em mostrar histórias em quadrinhos por um viès mais "literário". Eu acredito que uma história em quadrinhos pode ser uma obra com valor estético, como um livro de Kafka, permitindo diversas leituras e releituras, discussões e novos significados. Espero ter conseguido mostrar isso no trabalho.
 
Blog - E qual foi sua conclusão?
Paz - A obra de Lourenço Mutarelli mostra como objetos do dia-a-dia acabam ganhando um significado muito maior por representar um modo de estender a permanência humana e manifestar a materialização de idéias e sentimentos às vezes inexprimíveis. Um dos maiores exemplos é a fotografia. No álbum "Mundo Pet", ela serve de suprote para o autor construir as histórias, pintando sobre fotografias. Mas, além disso, a fotografia serve como uma materialização da memória e como um modo de entrar em contato com as pessoas ausentes. A fotografia é um canal de contato e ganha um valor emocional gigantesco.
 
Blog - Você conseguiu identificar quais as características estilísticas que compõem Mutarelli como autor de quadrinhos?
Paz - A respeito das questões formais, Mutarelli usou pouquíssimas onomatopéias e linhas de movimento durante toda a sua produção. Podemos dizer que há um constante e pesado silêncio em suas histórias. Suas histórias também apresentam poucas seqüências de ação, exceção maior feita à série do Detetive Diomedes, a "Trilogia do Acidente". Mutarelli emprega muitas cenas de diálogo, com o quadrinho passando de um rosto a outro. O modo como "edita" suas cenas parece evocar uma passagem de tempo mais lenta, demorada. Isso também pode ser verificado no cuidado com que Mutarelli desenha os detalhes de seus quadros, que pedem uma observação mais contemplativa, sem pressa. Ler um álbum de Mutarelli requer uma desaceleração do ritmo cotidiano. Essas características formais interagem com os temas principais de Lourenço Mutarelli, como a instrospecção e a melancolia.
 
Blog - Você dividiu a produção em períodos. Quais foram os critérios para o início de cada um deles?
Paz - A divisão em períodos acabou acontecendo naturalmente. Está muito vinvulada ao desenvolvimento do trabalho do autor, com relação a sua narrativa e temáticas. Temos um primeiro momento com um flerte com o humor nas histórias curtas publicadas ao final da década de 1980. Com o lançamento de "Transubstanciação" [ao lado, a capa da segunda edição], começa uma fase completamente distinta, a dos álbuns, que inclui "Desgraçados", "Eu Te Amo Lucimar" e "A Confluência da Forquilha". Percebemos como temas principais nessas obras a angústia e o grotesco apresentados de maneira visceral ao leitor. São álbuns impactantes, em que o autor se expressa de maneira espontânea e intensa. Após esses álbuns, ele faz uma pausa em sua produção de quase um ano. Retoma com a produção de algumas histórias curtas e começa a desenvolver o álbum "O Dobro de Cinco", que daria origem à "trilogia de quatro partes" do detetive Diomedes e a uma nova fase. Nos álbuns de Diomedes, ainda estão presentes a melancolia, a angústia e o grotesco, mas de uma maneira mais refinada. O autor está mais maduro e apresenta seus temas ordenados na forma da história de detetive. Em paralelo com a produção de Diomedes, Mutarelli produz histórias curtas e coloridas para o site Cybercomix (depois publicadas em "Mundo Pet"). Tanto nessas histórias curtas quanto em Diomedes, Mutarelli lapida sua narrativa, desenvolve sua poética e começa a abordar novos temas, como a questão da representação. Em "A Caixa de Areia", seu último e, na minha opinião, melhor trabalho, ele leva essa questão do real e da ficção ao extremo. Todos os álbuns precedentes tinham suas histórias se psassando em um universo fictício comum, com elementos que se tocavam, como o "Grande Circo", que é mencionado em "Transubstanciação" e também na trilogia de Diomedes. "A Caixa de Areia" não participa desse universo fictício. Mutarelli procura em uma linha narrativa apresentar uma "reprodução" fiel da realidade e em outra uma situação completamente absurda e impossível. A partir de um jogo de metalinguagem, ele faz reflexões bem interessantes sobre as limitações do "quadrinho autobiográfico" e mesmo das formas de representação em geral. Considero "A Caixa de Areia" sua obra-prima.
 
Blog - Você entrevistou Mutarelli para compor a pesquisa. O que ele revelou sobra a obra dele? E por que decidiu desistir de produzir quadrinhos?
Paz - Dos encontros que tive com Lourenço Mutarelli, ficou muito evidente para mim a atitude e posicionamento do autor com relação a seu trabalho. Mutarelli tem um respeito profundo pelos quadrinhos. Seus trabalhos são feitos com esmero, priorizando aspectos estéticos e literários. A respeito da desistência da produção de quadrinhos., não posso falar com propriedade a respeito de suas razões particulares. A meu ver, Mutarelli cansou-se do descaso e da falta de reconhecimento que existe em relação aos quadrinhos.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h47
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20.03.08

Guia dos Quadrinhos: um ano e 4.500 capas depois

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Primeiro número da revista "O Pato Donald", de 1950, é uma das 4.500 capas disponíveis para consulta na página virtual
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A página de abertura do "Guia dos Quadrinhos" revela a proposta ambiciosa do site: "catalogar todos os quadrinhos que foram publicados no Brasil".
 
O projeto começou com 600 capas. Hoje, chega a 4.500. 
 
E há outras 2.000 na fila de espera. Fora as edições catalogadas, mas sem capa.
 
Algumas das imagens já colocadas no site são raras, caso da capa do primeiro número de "O Pato Donald", de 1950. Ou da edição de estréia da revista do Homem-Aranha, de 1969.
 
O site foi criado pelo designer gráfico carioca Edson Diogo, de 39 anos.
 
É ele que banca todos os custos da página.
 
Diogo diz que a idéia existe desde 2001. Mas só tomou forma no ano passado, quando a página virtual entrou no ar, no dia 5 de março.
 
Nesse primeiro ano, o site se tornou um dos principais acervos virtuais sobre quadrinhos publicados no Brasil.
 
Parte do que se vê na tela veio do acervo pessoal dele. O designer diz que sua coleção soma 8.000 obras em quadrinhos.
 
O restante do material vem de pesquisas e de colaborações de internautas.
 
Além das capas, ele põe também uma ficha técnica de cada obra, inclusive com os nomes das histórias que a revista tem.
 
Nos títulos de super-heróis, há também a data em que foram publicadas nos EUA.
 
O trabalho é feito em São Paulo, onde mora há 16 anos. Diz gastar quatro horas diárias no processo de atualização do banco de dados virtual.
 
Nesta entrevista, feita por e-mail, Edson Diogo dá outros detalhes sobre como elabora o site e quais são seus planos para este segundo ano de vida da página virtual.
 
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Blog - Qual era o seu objetivo quando criou o site, há um ano? A meta foi cumprida nesses primeiros doze meses?
Edson Diogo
- O objetivo era cativar o maior número possível de amantes de quadrinhos para que pudessem ajudar na formação do banco de dados. Um ano depois, o site já conta com 2.700 participantes e o número de visitantes cresce a cada dia, então acho que posso dizer que esse meta foi cumprida.

Blog - Como surgiu a idéia de criar a página virtual?
Diogo - A idéia de construir um grande catálogo, em forma de livro, surgiu pela primeira vez em 1996, quando eu fazia o guia de preços da revista "Wizard", na editora Globo. Depois comecei a pensar na possibilidade de lançá-lo em CD-ROM. Somente em 2001 surgiu a idéia de criar um site. Como eu não sabia nada sobre o assunto, comprei vários livros e fiz muitas pequisas para encontrar o melhor formato. Em 2006, quando já estava tudo pronto, mostrei para um grande amigo, Ricardo Soneto [jornalista especializado em música e artes narrativas], que sugeriu que o site funcionasse como a Wikipedia. Como todo o sistema do site foi desenvolvido por mim, demorei mais sete meses para criar a parte de cadastramento e envio de capas.
 
Blog - Acredito que seja uma dúvida corrente: como você faz para ter acesso a tantas obras? São de arquivo pessoal, de contribuições ou de ambos?
Diogo - Muitas informações eu já tinha da época que fazia o guia de preços da "Wizard". Uma parte é da minha própria coleção e restante foi resultado de pesquisa com colecionadores e nas editoras. Bem, isso só as primeiras 15.000 edições. As outras 42 mil foram cadastradas pelos internautas.
 
Blog - Seu arquivo pessoal físico tem quantas revistas? O interesse começou quando?
Diogo
- Atualmente, eu devo ter umas 8.000 revistas. Comecei a comprar quadrinhos ao 13 anos porque queria desenhar os personagens. Até ver um anúncio do "Heróis da TV" número 37, com a estréia de Warlock [publicada em julho de 1982, pela editora Abril]. Achei legal e passei a comprar todos os meses. Depois de certo tempo, eu nem desenhava mais, só lia.
 
Blog - Por curiosidade: quantas horas por dia ou por semana você dedica à página? Ela é bem visitada?
Diogo
- Mais ou menos umas quatro horas por dia, ou melhor, por noite. Tempo usado para responder e-mails, corrigir erros, tratar as capas e fazer mudanças na programação. Atualmente, o Guia tem 20 mil visitantes por mês ou 10 mil visitantes únicos.
 
Blog - Qual sua meta para este segundo ano?
Diogo - Agilizar o processo de colocação das capas no ar, descentralizar algumas funções, fazer parcerias com outros sites e consegui alguma forma para custeia as despesas do site.
 
Para acessar a página, clique aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h03
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