29.05.08

Livro traz nova coletânea de Malvados, de André Dahmer

 

 

 

 

 

Seqüência da tira cômica, criada pelo desenhista fluminense em 2001

 

 

 

 

 

 

O desenhista André Dahmer tem nas plantas e no cultivo delas um de seus hobbies, exercitado em seu sítio, na serra fluminense.

A atividade extra não fez florescer o visual dos protagonistas da tira "Malvados", criada por ele e compilada num álbum homônimo, lançado neste mês (Desidetara, 114 págs., R$ 29,90).

Os personagens parecem girassóis. Mas só parecem, segundo Dahmer.

"Eu nunca disse que eram girassóis, mas também não me importo."

O termo, diz, foi herança de uma reportagem, feita anos atrás. "Pegou e ficou."

Plantas ou não, os personagens caíram no gosto dos leitores. Primeiro entre os internautas.

A série surgiu num site, criado pelo desenhista em 2001 e mantido até hoje.

O boca a boca, ou o link a link, ajudou a difundir as piadas feitas por ele.

A tira migrou para o impresso –é publicada no "Jornal do Brasil"- e ganhou uma primeira coletânea em 2005, pela Editora Gênese.

Há algumas tiras do primeiro livro nesta nova coletânea, embora a maioria seja dos dois últimos anos.

"Achei importante colcoar algumas delas porque queria um livro que representasse toda essa trajetória", diz o desenhista, nascido em Botafogo, em 1974.

"Esse livro é mais completo porque agora, ao contrário de 2005, tenho um trabalho mais sólido e organizado."

Os temas variam. Assim como o tempo de produção de cada história.

"Algumas tiras faço em cinco minutos, outras demoram três dias. Não há uma regra, infelizmente".

O que há, segundo ele, é um prazer na criação das tiras.

Esse seria, no seu entender, um dos motivos da repercussão de Malvados.

"Aprendi com meu pai que trabalho é feito para dar prazer, não o contrário", diz.

"Acho que todo trabalho feito com amor tem grande chance de reconhecimento. E se mesmo assim não houver reconhecimento, você o fez com amor e, por isso, já basta."

O desenhista tem planos de produzir uma história em quadrinhos mais longa.

Mantém projetos no âmbito pessoal também.

Casado há três anos, pretende ter um filho e adotar outro nos próximos dois ou três anos.

 

 

Nesta entrevista, feita por e-mail, André Dahmer fala sobre o trabalho em Malvados e como vê o papel da internet na produção de tiras hoje no país.

                                                           ***

Blog - "Malvados" é um exemplo bem-sucedido de tira que migrou do meio virtual para o papel. Como você vê hoje o papel da internet na produção de tiras brasileiras?
André Dahmer - Acho que a internet foi fundamental para toda essa geração de novos quadrinistas, gente que ainda não está no tal mercado, jovens com poucas opções para divulgar seus trabalhos na mídia impressa. Na verdade, sabemos que são tempos difíceis para todos os trabalhadores de maneira geral. Mesmo assim, acho que a rede ainda vai revelar muitos grandes profissionais na área. Vejo todo mês coisas novas, muita gente fazendo da web um lugar para divulgar quadrinhos, alguns deles realmente de alto nível.

Blog - Mesma pergunta, mas focada em outro meio de divulgação: qual o papel dos jornais, hoje, na difusão das tiras, no seu entender?
Dahmer - Hoje é, infelizmente, um papel pouco importante. A maior parte dos grandes jornais não desempenha mais o papel de divulgador de novos talentos nacionais nos quadrinhos há muito tempo. Há anos eles preferem comprar pacotes de tiras americanas, que sai bem mais em conta do que pagar um quadrinista nacional. É a lógica do lucro, mas por outro lado a mentalidade está mudando. Tenho visto pequenos movimentos no sentido oposto, ainda que raros. Mesmo assim, os jornais estão perdendo leitores dia após dia, passam por um processo de corte de custos e pessoal característicos dos tempos bárbaros em que vivemos. Se eu estivesse começando, não contaria com eles para divulgar e viver do meu trabalho. O caminho é mesmo a rede e a produção de livros independentes, se não houver editora que pague o necessário para um quadrinista trabalhar com dignidade.

 

 

Blog - Você já mencionou mais de uma vez que começou a fazer "Malvados" por puro prazer, tanto que produzia as tiras em baixa resolução. Hoje, a tira cresceu, é publicada também em jornal e em mais de uma coletânea em livro. O prazer na produção das histórias se mantém ou já se tornou um negócio?
Dahmer - Faço com imenso prazer até hoje, não sou bobo de burocratizar ou sacrificar meu trabalho em nome de qualquer dinheiro. Não sou desses que odeia dinheiro, mas meu trabalho (e meu prazer em trabalhar) estão muito acima dessa questão.

Blog - A propósito: por que "Malvados"? De onde surgiu o nome?
Dahmer - Eu não tenho uma explicação para o nome, nem como ele surgiu. Ajudou o fato de ter apenas oito letras, sem acentos ou cedilha. Queria um domínio na rede fácil de escrever e de lembrar.

Blog - Você comenta no livro que tem receio de ser rotulado como o "autor de Malvados". Mas seu trabalho não caminha um pouco nesse sentido?
Dahmer - Tenho imenso prazer em desenhar Malvados, mas também tenho o direito de estar livre para fazer o que bem quiser na minha vida, sem patrulha de ninguém. Tenho outros caminhos para trilhar e outras coisas a experimentar em desenho de quadrinhos ainda. Tenho só 33 anos e estou aprendendo, experimentando. Realmente não devo me preocupar com o que os outros querem e nem devo viver de uma fórmula qualquer, se ela não me der prazer.

Blog - Quais seus próximos projetos em quadrinhos?
Dahmer - Pretendo publicar uma história em quadrinhos longa, um livro inédito. Está em meus planos e já tenho algo para um roteiro, mas não sei quando farei ou mesmo se farei. No momento, prefiro ter calma para pensar em meu trabalho de maneira mais arejada. Após o lançamento do livro, entro de férias e devo sair um pouco do Rio de Janeiro.
  

                                                           ***

"Malvados" é o segundo livro de Dahmer pela Desiderata e o primeiro de quadrinhos da editora carioca após ser comprada pela Ediouro (leia mais aqui).

No ano passado, ele lançou uma coletênea de tiras sem personagens fixos.

Leia mais sobre "O Livro Negro de André Dahmer" neste link.

Escrito por PAULO RAMOS às 19h10
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21.05.08

Editora Nacional lança cinco adaptações em quadrinhos

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto, obra adaptada por Laison de Holanda Cavalcanti

 

 

 

 

 

 

 

O gênero literatura em quadrinhos continua em alta no mercado brasileiro. E tem atraído novas editoras.

A Companhia Editora Nacional lançou neste mês, de uma tacada só, cinco adaptações.

Três delas são de obras estrangeiras: "Moby Dick", de Herman Melville (1819-1891), "A Ilha do Tesouro", de Robert Louis Stevenson (1850-1894), e "Viagem ao Centro da Terra", de Júlio Verne (1828-1905).

Cada uma custa R$ 18. As três foram produzidas no exterior.

Os desenhos são de Penko Gelev e os textos de Sophie Furse e Fiona Macdonald.

Os outros dois lançamentos são da literatura brasileira: "Memórias de um Sargento de Milícias" (R$ 18), do romance de Manuel Antônio de Almeida (1831-1859), e "Triste Fim de Policarpo Quaresma" (R$ 23), do escritor Lima Barreto (1881-1922).

As duas adaptações foram feitas pelo recifense Lailson de Holanda Cavalcanti.

Foi dele também a versão em quadrinhos de "O Alienista", de Machado de Assis (1939-1908).

A obra, lançada em março, inaugurou a linha de adaptações literárias da Companhia Editora Nacional (leia mais aqui).

O desenhista diz que a idéia de produzir as obras foi conjunta.

Surgiu enquanto ele fazia o álbum "Lusíadas 2500", lançado pela editora em 2006. O trabalho fazia uma leitura futurista da obra do português Luís Vaz de Camões.

"Policarpo Quaresma era um desejo antigo meu", diz Cavalcanti, por e-mail.

"O Alienista era um clássico tão óbvio que não poderia ficar de fora. E o Sargento de Milícias surgiu naturalmente como a terceira obra."

O desenhista, hoje com 55 anos, diz que demorou em média três meses para produzir cada uma das adaptações.

Na entrevista abaixo, ele fala um pouco sobre o processo de adaptação das obras literárias.

E sobre como vê o fato de haver tantas versões em quadrinhos de "O Alienista" (foram lançadas três de 2006 para cá).

                              ***

Blog - Já houve duas adaptações recentes de "O Alienista". Não há o risco de haver uma "overdose" dessa obra?

Lailson de Holanda Cavalcanti - Não, não acho. São como adaptações teatrais ou cinematográficas. Cada autor irá interpretar a obra à sua maneira, com sua visão estética e de conteúdo. No final das contas, comparando as três obras, pode-se ver subjetividades que escaparam a um ou a outro. Caberá ao  leitor (ou ao educador, se for o caso) fazer a sua escolha. Como digo nos textos que constam dos álbuns, onde relato o processo de adaptação que usei, minha preocupação primeira foi situar a obra no seu contexto temporal. No Alienista, por exemplo, já vi adaptações em diferentes mídias, além dos quadrinhos, onde ele é a cara de Freud: barba, óculos, paletó, gravata, coisas que são incongruências em relação à obra original, pois se o leitor prestar atenção, verá que a história se passa no tempo do Vice-Rei. E já no primeiro parágrafo, Machado diz que as crônicas de Itaguaí falam que "em tempos remotos", viveu ali o Dr. Simão Bacamarte. Considerando que a obra original foi publicada em 1882, isso nos leva a colocar o tempo narrativo no final do século 18, entre a Revolução Francesa e a vinda da Família Real para o Brasil. A arquitetura, então, é colonial e o vestuário não inclui gravatas modernas nem rostos barbados. É o período Napoleônico e a moda dominante era de rostos raspados, com suíças, calções, meiões, jaquetas de três cortes atrás, coletes, cartolas, laços no pescoço, vestidos femininos de busto descoberto e mangas longas, de cintura alta. Itaguaí, obviamente, seria uma cidadezinha de nada, mas aí usei a licença poética para criar uma "versão cenográfica" (ou "quadrinhográfica"!), para valorizar o cenário. A cidade tornou-se uma cidade ideal dos tempos coloniais, dando um pano de fundo para que a mesma possa ser compreendida mesmo em traduções para outros idiomas.

 

Blog - As adaptações parecem ter um cuidado didático, como as edições da Ática voltadas à literatura brasileira e portuguesa. Isso, de certa forma, pautou o modo como as adaptações foram feitas?

Cavalcanti - Sim, esta foi uma das minhas principais preocupações e da editora também. Meu primeiro livro publicado pela Companhia Editora Nacional/IBEP, que é "Pindorama - A outra História do Brasil" [de 2004], eu considero muito útil para uma compreensão do desenrolar sócio-político brasileiro; mas é uma obra onde a sátira está muito presente, há um viés meu muito particular na interpretação dos fatos. As crianças teriam dificuldades em perceber essas sutilezas se ele fosse usado como um livro didático. Então, ele é uma obra paradidática, e não, didática. Nestas adaptações agora, a preocupação foi fazer com que elas cumprissem realmente uma função de dar a melhor base possível para que um jovem entre em contato com os clássicos da literatura brasileira e, a partir daí, busque conhecer melhor os originais. Por isso, ao final de cada adaptação, existe um glossário, uma biografia do autor da obra, uma linha do tempo sobre ele, um texto meu sobre os critérios que usei para a adaptação e uma biografia minha.

 

Blog - Você procurou ser bastante fiel às obras originais. Como se deu esse processo de passar o texto para a linguagem dos quadrinhos?

Cavalcanti - Minha preocupação foi manter a adaptação o mais próxima possível do texto original, adaptando-o para facilitar a sua compreensão pelo leitor atual, sem perder o seu valor literário original. Fiz apenas modificações de tempo verbal e transformei em diálogos muitas descrições de cena. O que o texto não descreve, as imagens mostram e o que elas não podem mostrar, está no texto. Ao invés de colocar uma legenda repetindo o óbvio, dramatizei a narrativa, mantendo as palavras originais do autor. Não existem palavras minhas nas adaptações, todas são originais dos autores. Acho que a narrativa gráfica, a arte seqüencial, é isso, essa síntese entre imagem e texto onde cada parte pode ser apreciada separadamente, mas o conjunto deve formar um todo coerente, sem redundâncias.

 

Blog - Como você vê essa retomada do gênero literatura em quadrinhos? Trata-se de um modismo voltado às compras de quadrinhos pelo governo federal ou algo mais consolidado?

Cavalcanti - A coleção "Classic Illustrated" foi uma das minhas favoritas na infância, junto com as Edições Maravilhosas da EBAL. Sempre houve no Brasil e no mundo esse interesse em tornar acessíveis as obras da Literatura aos jovens, mas a metodologia também sempre esbarrou numa fórmula muito didática, que afastava o leitor médio de quadrinhos. Aqui no Brasil tentava-se dar uma seriedade que destoava. E o produto final acabava muito mais uma narrativa ilustrada e não uma obra de narrativa gráfica seqüencial. Além do mais, durante muito tempo as HQ ficaram com o "Estigma do Dr. Werthan" [psiquiatra norte-americano que criticava os quadrinhos na década de 1950] e eram consideradas uma literatura nociva à juventude. O fato de o MEC ter decidido aceitá-las como processo didático abriu grandes possibilidades e creio que todas as editoras viram seu interesse neste nicho de mercado. Se soubermos trabalhar isso e se a produção mantiver padrões de qualidade, creio que seja uma forma de educação cultural permanente e não apenas uma moda passageira.

 

Blog - Há outros projetos em quadrinhos em pauta? Quando virá a seqüência de Lusíadas 2500?

Cavalcanti - O segundo volume dos Lusíadas 2500 deverá ser lançado no final deste ano ou no princípio do próximo. Tive que atrasá-lo por conta dessas adaptações. E para retomar o ritmo, levou algum tempo. A coleção "Quadrinhos Nacional" deve ser ampliada, mas os novos títulos ainda estão em estudo. Aqui em Pernambuco continuo desenvolvendo trabalhos educativos em quadrinhos para o trânsito, educação, saúde, consciência ambiental e consciência fiscal. A Turma do Fom-Fom, por exemplo, que criei para o Detran de Pernambuco, foi uma das campanhas educativas mais bem sucedidas já vistas, com tiragens de revistas em quadrinhos na casa de 200 mil exemplares em cada edição. Para o futuro, continuo trabalhando nessas áreas. 

Escrito por PAULO RAMOS às 20h20
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