11.06.08

Tese da USP mostra que quadrinhos estimulam crianças a ler

Há um conjunto de rótulos pejorativos sobre os quadrinhos, a maioria herdada de décadas anteriores. Um deles bate na jocosa tecla de que "quadrinhos são coisa de criança". 

Uma tese de doutorado da USP (Universidade de São Paulo) pôs a expressão à prova.

E mostrou que ela é verdadeira, sim. Mas não no sentido depreciativo.

A pesquisa chegou a basicamente duas conclusões: 1) quadrinhos estimulam as crianças a ler; 2) esse estímulo fomenta a migração para outras formas de leitura, como os livros.

A tese foi defendida -e aprovada- há pouco mais de um mês na ECA (Escola de Comunicações e Artes) da universidade.

A autoria é da paulistana Valéria Aparecida Bari, de 42 anos.

(É ético de minha parte registrar que integrei a banca de doutorado).

As conclusões foram possíveis por meio de entrevistas feitas com alunos da própria USP que tinham o hábito de ler quadrinhos. O levantamento foi feito entre 2001 e 2007.

A pesquisadora confrontou os resultados com a realidade observada na Espanha, onde fez parte do estudo.

O objetivo da viagem ao país europeu era perceber se a realidade brasileira é válida também em outro universo de leitores. Conclui que é.

E que a Espanha já desenvolve projetos de leitura com quadrinhos.

Nesta entrevista, feita por e-mail, Valéria Bari detalha um pouco mais sobre a tese, intitulada "O Potencial das Histórias em Quadrinhos na Formação de Leitores: Busca de um Contraponto entre os Panoramas Culturais Brasileiro e Europeu".

Para ela, a leitura de quadrinhos deve ser estimulada não só nas escolas, mas também pelos pais, dentro de casa, e nas bibliotecas públicas.

                                                        ***

Blog - Por que, no seu entender, sempre circulou um discurso contrário à idéia de que quadrinhos estimulam a leitura?

Valéria Bari - Como a posse da informação sempre representou uma forma de poder socialmente constituído, naturalmente é desinteressante para os detentores dessa informação que ela transite livremente. Como a linguagem dos quadrinhos sempre foi representativa na leitura infantil e das camadas populares, sua validade cultural é questionada por aqueles que preferem privilegiar linguagens, discursos e obras inacessíveis. 

 

Blog - Os pais, então, devem estimular a leitura dos quadrinhos?

Valéria - Se o interesse dos pais é a criação de filhos inteligentes e curiosos, que saberão buscar informações e conhecimentos com autonomia e competência, que terão habilidades para ler, escrever e se comunicar por meio de diversas outras linguagens, inclusive as digitais, é ótimo que disponibilizem histórias em quadrinhos para a leitura de seus filhos no lar. Permitam também que seus filhos pratiquem escambo com suas revistas em quadrinhos, para que conheçam outros amigos que gostam de ler e compartilhem o que estão aprendendo. Respeitem as coleções pessoais dos seus filhos, que são tão importantes para eles quanto os livros e papéis completamente insossos que nós adultos adoramos acumular e dar tanta importância. Uma criança adquire o gosto pela leitura em um ambiente no qual sua infância é respeitada, os seus gostos pessoais são respeitados e as atitudes dos adultos que o rodeiam denotem que a leitura é fonte de prazer e alegria.

 

Blog - O governo federal distribui quadrinhos às escolas do ensino fundamental desde 2006. Como você analisa esse programa [chamado PNBE, Programa Nacional Biblioteca na Escola]?

Valéria - O programa, assim como o elenco de políticas públicas que visam incentivar o gosto pela leitura e a formação do leitor, esbarra em uma limitação muito importante: a falta do acompanhamento do uso que o material disponibilizado recebe. Assim, as histórias em quadrinhos disponibilizadas recentemente aos estudantes, assim como outras amostras de leitura infanto-juvenil, não estão alcançando toda a sua potencialidade na formação do leitor.  É necessário que as políticas públicas contemplem a formação dos professores, a inserção da leitura como atividade-fim nas grades curriculares, a formação natural de espaços de leitura dentro e fora dos espaços escolares.

 

Blog - Como os quadrinhos deveriam ser tratados pelo governo?

Valéria - Os quadrinhos deveriam ser tratados como um material bibliográfico relevante à formação dos leitores. Atualmente, as bibliotecas públicas estão desenvolvendo acervos de histórias em quadrinhos, pois esta nova forma de ver as histórias em quadrinhos já está ocorrendo. Porém, mais e mais crianças e jovens que são egressos de famílias completamente iletradas estão sendo escolarizados, o que significa que toda a sociedade tem de fazer esforços redobrados, para que a formação desses novos leitores não fique perdida pelo caminho. A mobilização da sociedade sobre a questão da leitura é essencial para o êxito da escolarização universalizada, e as histórias em quadrinhos certamente têm muito a contribuir para a evolução desse preocupante quadro social.

 

Blog - E qual o papel das bibliotecas – escolares ou não – nesse processo?

Valéria - As bibliotecas públicas e escolares, por sua proximidade social com os leitores novatos, também têm o papel de atuar no desenvolvimento do gosto pela leitura. Ocorre que, apesar da recente melhora na qualidade e quantidade dos acervos, este papel ainda não está sendo desempenhado como deveria. Para tal desempenho, é necessária uma mudança de mentalidade e uma disposição dos profissionais envolvidos em assumir esta nova responsabilidade.   

 

Blog - Sua tese comparou a realidade brasileira com a espanhola? Quais as diferenças e o que há em comum?

Valéria - Para compreender melhor o problema da leitura no Brasil, fiz uma viagem de estudos à Espanha. Entre espanhóis e brasileiros, existem muitas coisas em comum, quando se trata do letramento e da formação do leitor. Em ambos os casos, a cultura das famílias não enfatizava a leitura doméstica até datas recentes, assim como o nível de escolarização era heterogêneo. A principal diferença entre os dois povos está na inovação rápida das políticas públicas e na mentalidade dos profissionais, no caso espanhol, que estão aplicando exemplarmente o potencial dos quadrinhos. Porém, o Brasil tem a possibilidade de difundir o gosto pela leitura por toda a sociedade, apesar das severas restrições orçamentárias, caso invista criteriosamente na formação de seus profissionais e na disponibilização de acervos estrategicamente desenvolvidos, sempre com a presença das histórias em quadrinhos.

 

Blog - Qual o papel dos quadrinhos na formação das pessoas?

Valéria - As necessidades individuais não se restringem à alimentação e o abrigo. O ser humano chega a um estado social de dignidade se lhe é dado o direito de sonhar, de se alegrar, de compartilhar suas experiências e fantasias com outras pessoas e ser compreendido. As histórias em quadrinhos estabelecem uma relação leitora que, além da natural carga de informação do texto escrito, investe muito no onírico, no sonho, de forma individual e social. Pela leveza e articulação da linguagem dos quadrinhos, a sua leitura é relaxante, mesmo quando os temas e enredos abordados são mais sérios e pertencem à temáticas adultas. A leitura em quadrinhos é naturalmente atrativa e, além de preparar o cérebro para apropriar toda a natureza de linguagens complexas, ajuda a enfatizar a imaginação e fomentar os sonhos, o que é importantíssimo para todas as pessoas, sejam crianças ou adultos.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h56
[comente] [ link ]

06.06.08

Pixel lança nova revista mensal e prepara mais encadernados

Capa aberta do primeiro número de "Fábulas Pixel", título que começou a ser vendido nesta semana 

 

Dos formatos tateados pela Pixel do ano passado para cá, o que surtiu mais receptividade, de acordo com a editora, foi o da chamada revista mix, que reúne diferentes personagens.

"Pixel Magazine", publicada desde 2007, tem esse molde. Espelhada nela, a editora lança nesta semana um segundo título mensal, "Fábulas Pixel" (100 págs., R$ 10,90).

A revista já está à venda nas bancas e lojas especializadas em quadrinhos.

A proposta da publicação é reunir títulos ligados a fantasia e magia.

"Fábulas", série que empresta nome à revista, é o carro-chefe.

A obra faz uma versão adulta e modernizada dos contos de fadas.

As duas histórias de "Fábulas" deste número de estréia, ambas inéditas, mostram o surgimento de Chapeuzinho Vermelho e a candidatura do Príncipe Encantado ao cargo de prefeito dos seres fictícios.

A trama continua do ponto onde parou a Devir, que iniciou a publicação da série no Brasil. A Devir lançou três álbuns. O primeiro foi reeditado pela Pixel.

A revista traz ainda "Astro City", série escrita por Kurt Busiek, "Histórias do Amanhã", com texto de Alan Moore, e "Sandman Apresenta".

Os títulos pertencem das linhas Vertigo, Wildstorm e ABC, que publicam material voltado a um leitor adulto. Os três selos estão vinculados à editora norte-americana DC Comics, a mesma de Super-Homem e Batman.

A Pixel começou a publicar esse material com exclusividade no ano passado (mais aqui).

Desde então, tem testado o mercado com especiais, revistas e publicações encadernadas de obras inéditas ou já lançadas meses atrás.

Os primeiros encadernados com republicações começaram a ser vendidos no mês passado.

Houve reedição de especiais de "100 Balas" e de "Astro City".

Pelo menos dois outros estão em pauta.

Um com "Promethea" e outro com "Planetary", ambos já publicados na "Pixel Magazine".

A Pixel programa, também para este ano, um álbum nacional.

Na entrevista a seguir, feita por e-mail, o editor-chefe da Pixel, Cassius Medauar, dá mais detalhes sobre a nova publicação, fala sobre os encadernados e comenta a respeito de novos lançamentos. 

                                                               ***

 

Blog - A ”Fábulas Pixel” estava prevista para abril. O que levou ao adiamento?

Cassius Medauar - Foram diversos fatores. Os principais foram o atraso no envio de arquivos por parte da DC Comics e a discussão com a gráfica por um orçamento melhor.

 

Blog – “Fábulas”, como o título da revista indica, será o carro-chefe da publicação. Como será formado o restante do título. Haverá histórias de “Astro City” e “Sandman Apresenta” todos os meses? Algum outro título?

Medauar - Sim, teremos “Astro City” pelo menos quatro meses seguidos e “Sandman Apresenta” nos primeiros cinco meses, quando acaba a minissérie “Fúrias”. Depois dela, virá outra míni de “Sandman Apresenta” que estamos definindo. A revista ainda terá “Livros da Magia: Life During War Time” e “Promethea”, que entrarão mais pra frente. E aqui e ali teremos “Histórias do Amanhã”.

 

Blog - Muda algo em 'Pixel Magazine'?

Medauar – Sim. “Y - O Último Homem” entra na revista na edição 16. Na 15, deste mês, teremos mais uma história de “Freqüência Global”. E estamos estudando o que virá a seguir.

 

Blog - A Pixel tem demonstrado um canal muito forte de abertura com o leitor, principalmente por meio do blog da editora. Até que ponto o leitor realmente pauta os lançamentos?

Medauar - Olha, posso dizer que as enquetes que fazemos e as opiniões dadas lá nos ajudam bastante a escolher lançamentos e mudanças de direção. Como leitor, colecionador e fã, acho muito importante sabermos a opinião do nosso publico alvo pra saber que caminhos seguir. Lançar Monstro do Pântano colorido e lançar o especial Spawn Godslayer foram algumas coisas que fizemos depois de ver o que os leitores achavam.  

 

Blog - No ano passado, André Forastieri [um dos sócios da Pixel] dizia que as histórias então publicadas seriam relançadas num segundo momento na forma encadernada (link). Isso de fato começou a ocorrer neste ano. Já houve uma edição de “100 Balas” e outra de “Astro City” (capa ao lado). Qual o objetivo?  Venda nas livrarias?

Medauar - São vários objetivos. Ter mais encadernado para as livrarias, ter mais encadernados pros fãs que só gostam de encadernado, e é também um meio de otimizar nossas vendas, afinal, a venda em banca no Brasil diminui a cada ano.

 

Blog - O material que saiu na 'Pixel Magazine', caso de Planetary, por exemplo, também sairá em formato encadernado?

Medauar - Sim, mas aos poucos e vamos ver se dá certo. Começaremos com “Planetary” e “Promethea” e veremos qual a aceitação do público.  

 

Blog - A existência da “Pixel Fábulas” vai inibir um pouco a quantidade de especiais?

Medauar - Na verdade, não vai inibir. Isso é uma mudança de linha editorial, já que os especiais lançados no ano passado não tiveram um bom histórico de vendas.

 

Blog - A linha Vertigo, ABC e Wildstorm está com a Pixel já há mais de um ano. A editora testou vários formatos e públicos nesse período. Que saldo você faz? O que funcionou e o que não deu muito certo? 

Medauar - Ainda é cedo para termos um resultado. Como disse acima, os especiais não foram como a gente esperava, acabamos descobrindo que a revista mix é o que funciona no Brasil. E o mercado de encadernados é um mercado difícil. As livrarias ainda não tem uma cultura de quadrinhos e é complicado fazê-las pedir e expor direito o seu produto.

 

Blog - No ano passado, houve a saída do então editor-chefe Odair Braz Junior e a informação de que o diretor André Forastieri  sairia do dia-a-dia dos quadrinhos publicados pela Pixel. Muitos tiveram a sensação de que a editora passava por algum tipo de turbulência. Divido a pergunta em duas. Primeira: houve mesmo essa turbulência?

Medauar - Não foi bem uma turbulência, foi a hora de avaliar o que tinha sido feito até ali e que caminho tomar a seguir.

 

Blog - Segunda parte da pergunta: hoje, como anda a saúde da Pixel?

Medauar - Isso quem poderia responder é o departamento financeiro. Pelo que eu sei, vai indo tudo bem, na medida do possível nesse mercado complicado de quadrinhos.

 

Blog - Em maio, foi lançado um álbum com “Invisíveis”, obra muito esperada no Brasil (capa ao lado).

Que outras novidades a editora terá até o fim do ano?

Medauar - Por enquanto ainda não estamos revelando muita coisa porque estamos fazendo o planejamento do segundo semestres, mas com certeza teremos o “Sandman” e mais um álbum do “Constantine”.

 

Blog - E sobre outros títulos? Haverá mais Corto Maltese? Algum material nacional em pauta?

Medauar - Queremos lançar mais um álbum nacional este ano. Sobre Corto Maltese, o próximo deve sair apenas no começo do ano que vem.

 

                                                                *** 

 

Nota: o último álbum de Corto Maltese, "As Etiópicas", foi lançado no mês passado.

 

Neste mês, a editora programou outro trabalho europeu: "Emmanuelle", de Guido Crepax.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h00
[comente] [ link ]

05.06.08

Livro faz raio-x do terror nos quadrinhos e em outras artes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"Enciclopédia dos Monstros", assinada pelo jornalista Gonçalo Junior, começa a ser vendida nas livrarias neste fim de semana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A existência da "Enciclopédia dos Monstros", escrita pelo jornalista e pesquisador Gonçalo Junior, já tinha sido antecipada por este blog em dezembro do ano passado.

 

A novidade é que a obra está pronta e começa a chegar às livrarias neste encerramento de semana (Ediouro, 304 págs., R$ 59,90).

 

O livro foi produzido nas cores preta e vermelha e mostra as várias formas do terror em diferentes gêneros artísticos, inclusive nos quadrinhos, área em que o autor tem vários livros publicados.

 

O mais conhecido é "Guerra dos Gibis", lançado pela Companhia das Letras.

 

Gonçalo Junior tem uma trajetória muito ligada aos quadrinhos de terror.

 

Iniciou a coleção ainda criança. Comprava revistas do gênero publicadas pela editora Bloch.

 

Depois, migrou para outras publicações, entre elas as da D-Arte.

 

A extinta editora lançava revistas hoje clássicas, como "Calafrio" e "Mestres do Terror".

 

"Tornei-me fanático", diz o jornalista baiano, que há alguns anos mora em São Paulo.

 

"Enquanto isso, descobria o cinema de horror e, principalmente, a literatura gótica dos séculos 18 e 19. Tanto que 99% das imagens do livro vieram de meu acervo particular."

 

Ele diz que, do convite à finalização, demorou um ano e meio para compor a obra.

 

Nesse período, houve alguns ajustes. Um deles foi o nome.

 

Deixou de ser "Livro dos Monstros" e incluiu a palavra "enciclopédia" no título.

 

Outra alteração foi no número de páginas. Caiu de 360 para 304.

 

Isso o obrigou a enxugar parte do conteúdo, inclusive na parte de quadrinhos.

 

Gonçalo Junior tem outra obra de terror em finalização. É um roteiro de quadrinhos.

 

O álbum, desenhado por Leônidas Grego, transforma cangaceiros em zumbis (leia aqui).

 

Ele tem também outras três obras prontas, de cunho biográfico, e uma terceira em revisão, sobre os quadrinhos eróticos publicados no Brasil durante o período militar (mais aqui).

 

Na entrevista a seguir, feita por e-mail, o jornalista fala um pouco mais sobre esses trabalhos -dois deles já têm editora definida- e detalha o conteúdo do novo livro.

 

Leia a entrevista na próxima postagem.

Escrito por PAULO RAMOS às 09h00
[comente] [ link ]

Livro faz raio-x do terror nos quadrinhos e em outras artes - 2

Blog - O livro aborda quais temas ou gêneros do terror?

Gonçalo Junior – O enfoque é mais cultural, o monstruoso no imaginário popular (que inclue as artes em geral). Trata dos monstros no cinema, nos quadrinhos, nas artes plásticas, na literatura, no rock, na TV etc. Por causa do gigantismo que rendeu, tive de tirar alguns tópicos menos relevantes, como os monsters trucks (aqueles carros com rodas gigantes), monstros nas tatuagens, serial killers, no cordel etc.

 

Blog - Na última vez em que conversamos (link), você mencionou que a obra teria por volta de 360 páginas e se chamaria "Livro dos Monstros". O site da editora mostra que a versão final ficou com 304 páginas e teve o nome alterado para "Enciclopédia dos Monstros". O que ocorreu?

Gonçalo – Adequação de mercado. Foi preciso deixar tudo muito enxuto para se fazer um livro que o máximo de pessoas pudessem adquiri-lo. Por exemplo: os dráculas do cinema: são dezenas, mas precisei selecionar meia dúzia. O mesmo vale para os quadrinhos. Dos 53 dráculas, deixei seis ou sete. Claro que, com isso, corro o risco de ser criticado por esquecido algum monstro, pois sempre aparece um pentelho para aproveitar e mostrar que ele sabe mais que tudo mundo. Faz parte da vida. Mas fiquei feliz com o resultado, não me violentei em nenhum momento por ter de cortar textos e imagens. Tudo foi feito com extrema gentileza por Pedro Almeida [editor da Ediouro], que sabe ver o lado comercial das coisas, mas é extremamente respeitoso com o autor. Um editor raro.

 

Blog - Na mesma entrevista, você dizia que o livro teria um terço do conteúdo relacionado a quadrinhos. Isso se manteve?

Gonçalo – Quadrinhos e cinema ocupam espaços mais ou menos do mesmo tamanho, o que dá mais da metade do livro. Cortei muita coisa de quadrinhos – pelos meus cálculos, ocupariam 600 páginas. De modo geral, porém, os textos introdutórios dão um panorama mais completo do que planejei inicialmente, o que torna a obra menos passível de críticas quanto à sua profundidade. Além disso, preservei a idéia inicial de oferecer ao leitor um passeio visual pelo mundo do horror. As crianças vão adorar nesse aspecto.

 

Blog - O que da área de quadrinhos você aborda na obra?

Gonçalo – Optei por duas partes: uma seleção dos mais importantes monstros de todas as editoras nacionais – La Selva, Outubro, Taika, Ebal, RGE, Vecchi, Grafipar, Press, D-Arte, Nova sampa etc) e outra com subgêneros: vampiros, dráculas, lobisomens, múmias, crianças-monstros, vilões-monstros, monstros japoneses, monstros infantis, monstros do pântano etc. O mesmo vale para cinema e TV.

 

Blog - Quanto do material abordado no livro é de quadrinho nacional e quanto é de publicações estrangeiras?

Gonçalo – Não me preocupei com isso. Tentei abraçar ao máximo tudo que foi publicado, com ênfase em descobrir criaturas esquecidas e sem deixar de fora as mais populares. No ítem "Monstros do Pântano", por exemplo, encontrei quase 20, desde 1950. Mas a parte nacional está mais completa, creio, porque o Brasil tem uma tradição de terror só comparável aos Estados Unidos. Em número de títulos, acho que somos o número um do mundo em todos os tempos.

 

Blog - O Brasil tem esse histórico de publicações de terror em quadrinhos. Da década de 1980 para a seguinte, sumiram. Você conseguiu mapear o motivo disso?

Gonçalo – Boa pergunta. Resposta complexa. A última editora atuante de terror foi a D-Arte, que encerrou suas atividades em 1993. De lá para cá, revoluções aconteceram no mercado com as graphic novels e os mangás, principalmente. O Brasil se profissionalizou também, os artistas foram para os quadrinhos mais autorais, undergrounds no sentido da crítica social e de comportamento, ou partiram para produzir super-heróis. E o terror, que já dava sinais de saturamento, desapareceu. Acho que os editores não apostam mais em sua viabilidade. Há um vácuo de uma geração aí e a molecada não cresceu lendo esse gênero, o que reflete a falta de interesse. O terror está sendo renovado no cinema com a tecnologia digital e isso ainda não refletiu nos quadrinhos. Embora o Brasil tenha tradição, cá entre nós, produzimos muito lixo, muito plágio descarado dos quadrinhos da EC Comics nos anos de 1950 e 1960 (a renovação só veio com Spektro, criada em 1977). Esse é um aspecto que precisa ser desmistificado. No dia em que um acadêmico parar para ler e estudar essas histórias, ficará com vergonha, com raríssimas exceções. Na verdade, nós idolatramos nossos artistas pelo desbravamento e coragem e não pelo conteúdo em si do que fizeram. Só sairemos do atraso no dia em que isso for revisto.

 

Blog - E suas outras obras? A biografia de Álvaro de Moya [pesquisador de quadrinhos], o livro sobre as editoras de revistas eróticas da década de 1970. A quantas andam?

Gonçalo – As biografias de Moya e Rodolfo Zalla [um dos mais antigos desenhistas com atuação no Brasil]– que fiz em 2005 e 2003, respectivamente - sairão até o fim do ano por uma editora de São Paulo que respeito muito pela ética e boa conduta no mercado, pela relação que tem com os autores. Sairão com os nomes deles como autores. Apenas colhi suas maravilhosas histórias e botei no papel. A Guerra dos Gibis 2 (sobre revistas eróticas) está concluída, mas preciso dar umas mexidas – e sem qualquer pressa para publicação, se isso acontecer um dia. Tem ainda uma microbiografia de Colin que deve sair pela Marca de Fantasia e um livro sobre a revista O Grilo, ainda sem editor (e não vou correr atrás de nenhum). Essas são as minhas saideiras do mundo da pesquisa dos quadrinhos. São coisas que estão na gaveta faz tempo. Depois, vou sair completamente desse meio. Quero me dedicar a pesquisas em outras áreas (aliás, o que já estou fazendo).

 

                                                                   ***

 

Nota: o blog apurou qual é a editora paulista que vai publicar as obras sobre Álvaro de Moya e Rodolfo Zalla.

 

Não é mais a Opera Graphica, editora que iria inicialmente lançar as obras.

 

A fonte confirmou a publicação dos dois livros, mas pediu sigilo sobre o nome da editora.

 

Leia mais sobre os livros aqui e aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 08h50
[comente] [ link ]

[ ver mensagens anteriores ]