Mídia especializada interfere na forma como público vê quadrinhos

A mídia especializada em quadrinhos -jornalística ou não- interfere na maneira como o leitor enxerga determinada obra em quadrinhos. A interferência teria reflexos também nas vendas e na produção dos trabalhos.

Essa leitura é de Diego Figueira, pesquisador da Universidade Federal de São Carlos, no interior de São Paulo. Ele desenvolve lá um mestrado ligado à área de quadrinhos.

"A mídia especializada, como formadora de opinião, é responsável por consolidar valores sobre o que é uma boa história em quadrinhos e quais são as obras e autores importantes", diz, por e-mail.

"Hoje, uma historiografia e um cânone dos quadrinhos são definidos muito mais pela mídia do que pelos estudos acadêmicos. E isso tem influência artística e econômica na produção."

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Figueira aborda no mestrado na área de Lingüística o que chama de "cultura do fã".

O estudo busca saber como as opiniões que circulam na mídia especializada e em veículos mantidos por fãs têm interferido na criação de histórias de super-heróis calcadas na metalinguagem.

É o caso de "DC - A Nova Fronteira", seu principal objeto de estudo na dissertação.

A história, já lançada no Brasil pela editora Panini, põe os super-heróis em confronto com situações reais conhecidas pelos colecionadores de quadrinhos norte-americanos.

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Natural de Jaú, também no interior paulista, Diego hoje mora na mesma cidade onde faz a pesquisa. E onde vai qualificar o estudo -um estágio anterior à defesa final- no dia 17.

A relação com quadrinhos vem de anos atrás. Em 2004, começou a colaborar com resenhas sobre a área para o "Universo HQ, site especializado em quadrinhos.

Dois anos depois, criou uma página virtual própria, o "Pop Balões", mantida em parceria com Zé Oliboni, amigo de infância.

Paralelamente, desenvolve o mestrado e publica artigos, em livro ou em congressos.

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Um dos estudos, "O Papel do Autor nas Histórias em Quadrinhos", também lança uma reflexão sobre a área. O texto integra o livro "O Espelho de Bakhtin", lançado no ano passado pela editora Pedro & João.

No artigo, ele ensaia uma aproximação entre os quadrinhos e a leitura que Antonio Candido faz sobre a formação da literatura brasileira.

Na interpretação do professor emérito da Universidade de São Paulo, a literatura se forma por meio de um sistema formado entre autor, leitor e obra, unida por elementos estéticos e sócio-históricos (caso do arcadismo, por exemplo). Caberia à crítica literária articular esse processo.

Para Figueira, tanto o mercado atual de quadrinhos do Brasil quanto a produção da área em si poderiam estar passando por esse sistema, devidamente adaptado.

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O contato com Diego Figueira, de 24 anos, teve início numa série de conversas informais durante um congresso de Lingüística, realizado em julho deste ano em São José do Rio Preto, no interior paulista.

O contato verbal se verteu em trocas virtuais e estas, na entrevista a seguir:.

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Blog - No artigo, você cita, de forma rápida, um trecho de Antonio Candido. Você vê hoje no mercado de quadrinhos brasileiro o mesmo raciocínio feito por ele para a literatura como sistema?

Diego Figueira - A idéia de sistema literário apresentada por Antonio Candido refere-se a um estágio da produção literária de um país, por exemplo, em que as obras começam a ser articular a ponto de constituir uma tradição, um conjunto reconhecido como um todo orgânico. Trata-se mais de uma forma de percepção pública desse conjunto do que características inerentes às obras. Acredito que o modelo de Candido pode explicar a produção de quadrinhos em geral, pois hoje já existe, nos diferentes gêneros de quadrinhos, essa "consciência" de que a temática de uma obra ou o estilo de um autor tem semelhanças e diferenças com outros. Também podemos usar esse raciocínio para o mercado nacional, mesmo que aqui predominem obras produzidas em outros países, com um contexto artístico e econômico diferente.

 

Blog – Na sua leitura, qual é o papel da mídia especializada nesse processo?

Figueira - A mídia especializada, entre outras coisas, tem feito o papel da crítica literária nos quadrinhos. Isso é importante para estabelecer os laços entre obras e autores na memória dos leitores. Uma obra como Sandman ou a fase de Frank Miller no Demolidor não se torna um "clássico" sozinha, mas depende de um público que a legitime como tal e para isso o espaço da crítica é importante. No caso dos super-heróis, fica difícil pensar os usos que os roteiristas têm feito da cronologia sem a colaboração da mídia especializada para construir a memória dos quadrinhos.

 

Blog - Quando você menciona mídia especializada, refere-se a qual mídia especificamente? A virtual ou a impressa?
Figueira - Com certeza a mídia que fala de quadrinhos prosperou muito mais na Internet nos últimos dez anos, tanto no Brasil como em outros países. O número de sites sobre quadrinhos é muito maior do que o de revistas e o público da Internet também é muito maior. A internet também é mais diversificada, pois muitos veículos são blogs (como este) e até fóruns de discussão, em que o leitor pode interagir com o articulista. Na minha pesquisa, porém, eu abordo bastante a mídia impressa em diferentes momentos, desde os anos 70 com a explosão dos fanzines sobre quadrinhos. Além de serem a semente da mídia que temos hoje, estes fanzines foram o caminho para fãs que se tornaram profissionais de quadrinhos e esse novo perfil de autor trouxe muitas mudanças sentidas até hoje no mercado. Em sua origem, a mídia que falava de quadrinhos era praticamente a voz do fã. Isso contribuiu para deixar essa indústria mais sofistica e mudar a percepção públicas das HQs em vários aspectos.

 

Blog - Até que ponto a mídia especializada influencia na compra de uma obra, no seu entender?

Figueira - Primeiramente, boa parte da divulgação dos quadrinhos hoje é feito pela mídia especializada. Como só existem propagandas de gibis dentro de outros gibis, os anúncios de lançamento e previews são um veículo importante para atrair leitores, ainda se limitem àquele público específico que já é colecionador. Logo em seguida vêm os reviews e as críticas, que podem interferir na aceitação de uma revista. Mas creio que o maior poder que a mídia especializada conseguiu foi poder ditar a moda na indústria, criando um interesse muito maior em determinados autores, personagens ou mesmo em determinados gêneros de história. Assim, a sua influência não se dá apenas sobre as vendas no mercado, mas também na produção, quando autores e editores decidem que tipo de obra levar ao leitor. 

 

Blog - Em que estágio está seu mestrado? A que conclusões chegou até agora?

Figueira - O exame de qualificação de meu mestrado está marcado para outubro. Após isso, espero concluí-lo e defendê-lo entre o final de 2008 e início de 2009. Neste trabalho, estudo como uma "cultura de fã" sobre os quadrinhos, que circula na mídia especializada e outros veículos em que os colecionadores se expressam, tem favorecido a produção de obras marcadas pela metalinguagem e pela criação de alegorias com a própria história das histórias em quadrinhos, como "Reino do Amanhã", "Planetary", "Promethea" e "DC: A Nova Fronteira". É sobre essa última que trato mais detalhadamente na dissertação. Além da confirmação desta hipótese inicial, a principal conclusão a que cheguei é que justamente por não se inserir na cronologia oficial da DC, esta série pode oferecer de forma mais clara para qualquer leitor a imagem da grandeza que este universo possui e só é percebido pelos colecionadores fanáticos, pois existe de forma muito abstrata, nos textos que circulam as revistas em quadrinhos e que compõem a mídia especializada de forma geral.