Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 


"Os Brasileiros", já à venda, traz sete histórias histórias sobre a questão indígena em diferentes épocas 

 

 

 

 

 

 



Há um ponto que une as sete histórias de "Os Brasileiros", álbum que tem dois lançamentos em São Paulo nos próximos dias (Conrad, 88 págs., R$ 38).

O elo é a presença dos povos indígenas. E da relação deles com o processo de colonização.

Não se trata de ver o índio como vítima. Mas de quais foram as decisões tomadas por eles dentro das circunstâncias históricas que tiveram de enfrentar.

As histórias da obra - escrita e desenhada por André Toral - mostram diferentes momentos ficcionais, tomando como pano de fundo dados reais.

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São tramas autônomas, produzidas por Toral em diferentes momentos. Vão de 1991 a 2008.

Algumas são reedições, como "O Negócio do Sertão", lançada em álbum em 1991.

As narrativas - umas curtas, outras mais longas; umas colorizadas, outras em preto-e-branco - podem ser lidas isoladamente.

Mas, se seguidas uma atrás da outra, formam um amplo panorama histórico, indo de 1560 aos dias de hoje.

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"Sou atraído pelo que há de curioso em pensar que o nosso espaço, o território que ora se chama ´brasileiro´, já foi ocupado por outras culturas absolutamente diferentes de nós mesmos", diz o autor paulistano, de 51 anos.

"E o que ficou desses homens e mulheres que viveram, se amaram por mais de 15 mil anos, aqui? Pouco, quase nada. Eles, como nós, somos passageiros na superfície da terra. Sou atraído pela precariedade na nossa condição."

Parte dessa influência histórica em sua obra vem também de sua formação acadêmica. Toral transita entre as áreas da antropologia e da história.

É formado em Ciências Socias pela Universidade de São Paulo, onde também doutorou-se em História Social. O mestrado foi em Antropologia Social, na Federal do Rio de Janeiro.

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O interesse acadêmico pautou também a escolha dos temas de seus trabalhos anteriores.

A primeira publicação, de 1986, tratava de "pesadelos paraguaios". Foi publicada na extinta revista "Animal".

Em 1992, lançou pela "General" - outra publicação cancelada - as duas partes de "O Caso dos Xis". A narrativa indígena é reunida neste novo álbum.

Mas é de 1999 seu trabalho mais conhecido: "Adeus, Chamigo Brasileiro: Uma História da Guerra do Paraguai". O roteiro foi vencedor de um HQMix, principal premiação de quadrinhos do país. A obra foi relançada no ano passado pela Cia. das Letras.

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"Acho que gosto mesmo é de história, num sentido mais amplo", diz. "Então eu penso: pena que eu vou morrer e levar tudo isso comigo. Tudo isso que eu vi, e que interessou." 

"Por isso, eu desenho o que gosto: pra deixar registrado o que eu vi, minhas imagens, pra onde foi o meu olhar."

Toral, hoje, divide os quadrinhos com aulas na FAAP, Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo. Lá, leciona história da arte no curso de comunicação.

Entre uma tarefa e outra, ele conversou com o blog, por e-mail. Na entrevista a seguir, ele diz que prepara outro trabalho e dá mais detalhes sobre este "Os Brasileiros".

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Blog - A história se pauta na relação mantida com os índios. Você defende um ponto de vista nessa relação? Os índios foram vítimas da colonização?
André Toral
É difícil falar de "índios" em geral porque são grupos indígenas muito diferentes entre si e que tomaram um sem número de atitudes frente ao branco, o que dificulta a possibilidade de resumir "uma" atitude dos "índios" frente ao contato. Eles tinham e têm estratégias diferenciadas. Não acredito, claro, na história de "vítimas da história" porque lhes rouba um protagonismo histórico que é fato. Por esse viés, os índios são tão incapazes que sua história anda a reboque da história da sociedade brasileira. Ao contrário, temos grupos com histórias de recuperação impressionantes e que deveriam ser conhecidas e não só ficarmos falando de índios do passado ou de um xingu sonhado e irreal. A história do índio no Brasil é uma história de vitórias e não só de derrotas. A população indígena aumenta, eram cerca de 170 mil na década de 1970, hoje são mais 400 mil, nunca tantos grupos tiveram terras legalmente asseguradas, nem nunca tantos jovens índios tiraram diplomas universitários etc. A situação indígena está melhor do que nunca foi na colônia ou no Brasil independente. Esta melhor não quer dizer que a situação é boa, é só ver o quadro de saúde ou a quantidade de terras invadidas. Mas não é a história baixo astral de extermínio. É uma história de conquistas e muitas vezes e o mérito é todo deles, os índios de mais de 200 grupos diferentes que vivem no Brasil.

Blog - Por que "brasileiros"?
Toral
Depois que terminei, vi que o álbum parecia reunir histórias que falam sobre o contato de dois povos e a formação de uma coisa nova, original e plural em termos culturais, que somos nós, os brasileiros. Somos tão diferentes entre nós como eu que vivo aqui em perdizes, em São Paulo, e um Xavante do Mato Grosso. Então é um brasileiro falando de outros. Espero ter mostrado as coisas de um jeito respeitoso e democrático em relação à opinião do "outro".

Blog - Demorou alguns anos para você produzir uma nova obra em quadrinhos? O que levou a esse intervalo?
Toral - Amo quadrinhos, mas não considero possível viver de quadrinhos. Poucos conseguem. Além disso, gosto de outras coisas importantes, como antropologia, história da arte e montar aviõezinhos. Entre a data de publicação do meu último álbum, "Adeus Chamigo Brasileiro", e hoje, aprendi a fazer litografia, fiz aquarelas e também fiz oito histórias novas, delas apenas algumas aparecem nesse álbum. Acho que se não fosse a aquarela e a litografia, o meu trabalho seria muito diferente. Li muito também e aprendi muito com Alberto Breccia e Germán Oesterheld, especialmente seus personagens Mort Cinder e Sherlock Time. Leio também e muito minha coleção de Pato Donald do mestre Carl Barks. Não sei se minha relação com quadrinhos é só como autor. Eu consumo muito também. Adoro ler os trabalhos dos outros. Acho que poderia fazer resenhas ou crítica de quadrinhos.

Blog - Você é um dos poucos autores da geração de 1980/90 que produziam bons álbuns nacionais com histórias mais longas. Daquele momento histórico para hoje, você percebe alguma mudança editorial na área de quadrinhos nacionais?
Toral - Em termos gerais? Acho que melhorou muito. É só ir a uma banca ou livraria e ver a quantidade de editoras brasileiras que republicam material importado ou buscam autores nacionais. Apesar da costumeira rotatividade de pequenas editoras de quadrinhos, as grandes editoras já tem núcleos que trabalham com quadrinhos e as que não tem estão tratando de criá-los, veja a Cia. das Letras. Finalmente os editores renderam-se à obviedade de que qualquer editora deve ter uma divisão dedicada aos quadrinhos simplesmente porque tem público. A inclusão dos quadrinhos em bibliografias de escolas fez com que as vendas aumentassem com tiragens inteiras pré-vendidas praticamente. Isso é bom. Repare também como "quadrinhos históricos" estão em alta. Todo mundo descobriu que os "jovens" gostam e podem aprender história de uma forma nova e com a qual se identificam. Eu vejo como meus alunos de artes plásticas gostam e fazem quadrinhos. Acho que vivemos um momento bom, nada de rojões porque, na minha opinião e de uma forma geral, o quadrinista ainda não é pago de forma correspondente. Os que trabalham para fora (do país) talvez, mas eu desconheço se ganham bem ou não.

Blog - Há planos de outros álbuns em quadrinhos?
Toral
Tenho um álbum em fase de finalização sobre um tema importantíssimo e muito atual, ainda que histórico.

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Serviço - Lançamentos de "Os Brasileiros" em São Paulo.
Quando: sábado, 02.05. Horário: 19h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro.
Quando: segunda-feira (04.05). Horário: 19h. Onde: loja de artes da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Endereço: Avenida Paulista, 2.073.