Crédito: divulgação

 

 

 

 

 


Capa de "Vida Boa", que traz tiras da série publicada pela "Folha de S.Paulo" entre 1999 e 2001 

 

 

 

 

 

Este ano tem um quê de volta ao passado para o desenhista e ilustrador Fabio Zimbres. Ele retoma uma antiga série e prepara a volta das edições da coleção miniTonto.

A série são as tiras de "Vida Boa", reunidas numa coletânea (Zarabatana, 166 págs., R$ 39). As histórias haviam sido publicadas pela "Folha de S.Paulo" entre 1999 e 2001.

O álbum traz quase todas as tiras. Quase porque algumas foram cortadas por serem muito datadas. Parte do material foi refeita durante a revisão das histórias.

"Reescrevi algumas para melhorar a piada", diz o desenhista, de 49 anos. "Fiz uma intensa revisão, mudei alguns desenhos e frases."

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A série narra a vida de Hugo, uma espécie de Cândido, de Voltaire, mas sem o otimismo. Desempregado, passa o tempo refletindo as mazelas que a vida trouxe a ele.

Lidas em sequência, as tiras formam uma história maior. Do começo ao fim, o leitor tem contato com dois dias da vida de Hugo.

"Foi uma oprtunidade de fazer uma espécie de romance, quando, normalmente, só se trabalha no formato de conto", diz o desenhista, que também é ilustrador e designer.

Algumas das tiras são inéditas. Foram feitas especialmente para encerrar a trajetória do protagonista. As novas histórias aparecem no final do último capítulo e no epílogo.

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"Vida Boa" foi criada para um concurso de tiras feito pelo jornal paulista. Laerte era um dos jurados. A série venceu e passou a ser publicada no caderno de cultura, em 1999.

Dois anos antes, Zimbres inaugurava outro projeto: a coleção miniTonto. A proposta era publicar pequenas edições, de 32 páginas, em formato de bolso.

A  coleção teve 16 revistas e trouxe histórias de autores como Lourenço Mutarelli, Allan Sieber e Eloar Guazzelli. O próprio Zimbres lançou uma, "O Apocalipse Segundo Dr. Zeug".

A série estava parada há alguns anos. Zimbres diz que pretende retomar a linha de revistas. Diz já ter um pronto, de Rafael Sica, e outros seis encomendados.

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Os títulos em produção, segundo ele, são de Chiquinha, do peruano Jorge Perez-Ruibal, de Eloar Guazzelli, Diego Medina, do argentino Ernan Ciriani e de MZK.

"Tenho um crédito numa gráfica e quero usar pra imprimir mais quatro pelo menos, se não der tenho que procurar mais uma parceria", diz.

"É algo que não vai morrer nunca, quer dizer, nunca vou assumir que vou parar, mas vai ter que ir no meu ritmo, preciso de dinheiro, tempo e ajuda dos amigos pra fazer."

O catálogo eclético da coleção é reflexo da experiência diversificada dele na área de quadrinhos. Publicou em diferentes revistas, tanto nacionais como estrangeiras.

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A experiência autoral e editorial de Fabio Zimbres põe uma natural lupa em suas opiniões. 

Na leitura dele, o atual mercado brasileiro tem sido bastante promissor. "Estou tentado a dizer que nunca esteve melhor." Um dos diferenciais seria a variedade de títulos e gêneros.

A produção brasileira foi um dos temas abordados nesta entrevista com ele, feita após uma série de trocas de e-mail.

Zimbres fala também sobre a série "Vida Boa". É ela que inicia a conversa.

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Blog - "Vida Boa" é um dos poucos casos de tiras cômicas que contam uma história maior, em capítulos diários. Quando você imaginou a série, já tinha ideia de que seria assim?
Fabio Zimbres - Não. Na verdade não tinha nenhuma ideia do que seria a tira, tirando o fato de o título "Vida Boa" ser irônico desde o princípio, tudo estava em aberto. A ideia de continuidade foi sendo criada aos poucos até que eu aceitei como uma das características. Acho que começou porque eu nunca fazia as tiras uma a uma, eu sempre me sentava pra fazer todas as da semana e sempre ficava mais interessante ficar explorando e fazendo variações num tema que ficar fazendo piadas sobre assuntos aleatórios.

 

 

Blog - Como foi a seleção da série no concurso da "Folha de S.Paulo"? Quantas tiras tiveram de ser inscritas? Elas foram reaproveitadas depois no início da série? Com quantos candidatos a tira concorreu?
Zimbres
- Não me lembro dos detalhes, quantos candidatos etc. Só me lembro que o Laerte e a Maria Eugênia (ela julgava ilustração, acho). Mas me lembro que o Arnaldo Branco ficou em segundo com Mundinho Animal. Sempre que me encontro com ele brinco que a Folha deve se arrepender até hoje. Pelo menos ele é mais engraçado. Mandei acho que três tiras e foram exatamente as rês primeiras que saíram publicadas. Nessa altura ainda não sabia que o personagem iria sofrer tanto. E também não tinha me dado conta que o Laerte já tinha um personagem chamado Hugo. Fiquei tempos sem usar o nome dele e tentando uma solução (mudar o nome dele pra Vitor Hugo, por exemplo), mas deixei pra lá.

Blog - Fica claro na leitura que uma mesma cena se mantém por várias tiras. Essa manutenção da situação também era intencional? Extraía-se o humor até quando rendia?
Zimbres
- Mais ou menos isso. Eu gosto de fazer diálogos, é mais ou menos como numa peça de teatro, você cria uma situação, uma paisagem e deixa as coisas interagirem. O humor na verdade era secundário, digamos que é uma obrigação que eu me impunha. A visão é sempre cômica, mas o que me interessava mais eram as sensações e as reflexões que certas situações podem sugerir. Quando me dei conta de que a continuidade da tira podia ser seguida à risca, acabei estruturando os eventos futuros em torno das necessidades do personagem: dormir, comer, arrumar dinheiro etc. E cada situação, por mais insignificante, se você se der ao trabalho, pode sugerir milhões de coisas. Na verdade, é como se o personagem parasse a cada momento pra pensar sobre o que estava acontecendo com ele ou qual o sentido daquilo que ele estava fazendo. E, assim, todo o ritmo fica muito lento, cada ação gera centenas de pensamentos. Tinha a sensação de ficar esticando um segundo da vida do personagem em vários minutos ou horas. Cada um daqueles pensamentos dele provavelmente são flashes instantâneos que nós todos temos e eu acabava desdobrando em várias tiras. Publiquei a tira por mais de um ano e no final se passaram dois dias na vida dele. 

 

 

Blog - A passagem da série na Folha foi relativamente curta em comparação com outras publicadas pelo jornal. O que houve?
Zimbres - Acho que não era uma tira muito querida. Conheci muita gente que gostava dela que me escrevia na época e me escrevem até hoje mas de fato não era uma tira de "massa" e nunca tive a intenção de fazer algo assim. As tiras da Folha, e acho que no Brasil em geral, têm esse hábito de visitarem muitos universos, são vários personagens e habitats que compartilham da mesma tira. Uma coisa meio esquizofrênica que tem muitas explicações pra ser assim, mas digamos que é algo completamente contrário ao que acontece nas tiras sindicalizadas americanas. Nunca fui adepto da linguagem mainstream, sempre fui mais chegado ao underground e nesse sentido as tiras brasileiras são mais pra underground que sindicato, há mais liberdade. Mas eu quis experimentar com as restrições e manter a tira nos trilhos sem grandes viagens. Mais uma ironia da tira. E, no caso, ela terminou tão claustrofóbica e depressiva que acabava afastando as pessoas. A tira saiu antes que eu mesmo me cansasse e fizesse como os outros cartunistas e inventasse outros personagens pra aliviar a barra do Hugo e do leitor um pouco, mas eu fico contente com o tempo que tive pra escrever até onde escrevi e fechar esses dois dias na vida do Hugo.                                                       

Blog - Você tem uma experiência ampla no mercado de quadrinhos brasileiros. Como você analisa o atual momento nacional?
Zimbres
- Olha, estou tentado a dizer que nunca esteve melhor. Se nos anos 1950 e parte dos 60 havia uma indústria e, antes disso, havia os quadrinhos infantis (indústria que nunca chegou ao que era na Argentina, é verdade), agora temos tudo isso e mais. Quem quer indústria trabalha pros EUA, Europa e Mauricio. E temos muitas editoras, dá pra dizer que se você quer publicar é fácil publicar, seja com autoedição ou através de editoras. Mas é certo também que isso tudo é meio pequeno e não sabemos aonde vai chegar, se o interesse das editoras vai acabar quando o governo parar de comprar livros. Continua ridiculamente difícil distribuir no Brasil e a banca de revistas é um território quase que exclusivamente estrangeiro. Quadrinhos no Brasil sempre foi uma montanha-russa, altos e baixos e sempre vemos a moda anterior ser substituída pela moda mais recente, então não dá pra fazer previsão. Mas o que eu gosto da situação de hoje é que tem muita gente nova fazendo quadrinhos e publicando e há vários tipos de quadrinhos, de humor a romances, históricos, experiências que não se definem entre mainstream ou underground, coisas pop, há de tudo e isso é bem estimulante.

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Nota: a editoria de cultura do UOL fez um álbum virtual com algumas tiras da série "Vida Boa". O material pode ser visto neste link.