08.10.09

Ilustrador prepara livro sobre histórias Disney de Renato Canini

 

Ilustração de Zé Carioca feita por Rentato Canini

 

Na mesma semana em que Renato Canini é homenageado no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em Belo Horizonte, o desenhista se torna notícia por um outro motivo: ele é tema de uma pesquisa sobre seu trabalho, programada para virar livro.

O estudo é feito pelo ilustrador Fernando Ventura e detalha a passagem de Canini pela redação de quadrinhos Disney da Editora Abril.

O desenhista ficou conhecido por criar um visual mais malandro e abrasileirado das histórias de Zé Carioca publicadas na década de 1970 e reeditadas até hoje. Ele trocou o paletó, o guarda-chuva e o chapéu por uma camiseta e calças amarrotadas.

O humor das tramoias criadas pelo personagem também mudou. Pobretão, estava sempre endividado. Tanto que existia até uma entidade só de quem levou calote dele, a Anacozeca, Associação Nacional dos Cobradores do Zé Carioca.

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Nascido em 1980, Fernando Ventura teve o primeiro contato com essas histórias quando elas começaram a ser relançadas no país. Anos depois, toraram-se interesse de pesquisa.

Já faz alguns anos que ele faz o levantamento de tudo o que Canini para a Disney na Abril. Parte dos resultados já está disponível para consulta no site "Inducks", catálogo virtual sobre quadrinhos Disney em diferentes países, entre eles o Brasil.

Os desenhos de Canini pararam depois que ele foi demitido em 1976 ou 1977 - a data não é precisa - por orientação da matriz estadunidense.

Segundo Ventura, a explicação dada a ele, na época, foram baixas vendas. O real motivo só veio a público anos depois: o personagem havia ganhado destaque próprio nas mãos dele.

                                                          ***

Foi algo semelhante ao que ocorreu com as aventuras de Pato Donald, Tio Patinhas e companhia criadas pelo norte-americano Carl Barks. Este criava, Disney levava a fama.

O primeiro reconhecimento da Abril ao trabalho de Canini se deu em 2005, num dos números da coleção "Mestres Disney". O álbum era todo dedicado a ele e trazia uma história sua feita para a publicação, cheia de menções cifradas ao seu desligamento.

O autor foi tema também de um mestrado, defendido na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. A pesquisa foi desenvolvida pelo quadrinista Eloar Guazzelli.

Mas nenhum dos dois casos - o álbum e o mestrado - fazia um raio-x da carreira dele na Abril. O livro de Ventura se propõe a fazer.

 

Trecho de história de Zé Carioca feita por Fernando Ventura

 

Ventura ainda não tem editora definida, nem data certa para publicação. Mas sabe a história em quadrinhos com que pretende abrir a obra.

É uma narrativa de cinco páginas que escreveu e desenhou para a edição de "Mestres Disney" dedicada a Canini, que hoje mora em Pelotas, no Rio Grande do Sul, de onde faz charges para jornais da região. Parte da história de Ventura é mostrada acima.

A narrativa não foi incluída na edição. Cedeu espaço a outra, feita de próprio punho por Canini, que, após deixar os desenhos de Zé Carioca, permaneceu por mais alguns anos na editora apenas como roteirista.

É esse segundo momento dele na Abril um dos nós que adia a finalização do livro. Como as histórias não eram assinadas por quem as fazia, fica difícil saber quais Canini realmente fez.

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A dificuldade em concluir o levantamento é um dos temas da entrevista que o blog fez nesta semana com Fernando Ventura, um paulistanode 29 anos formado em design gráfico.

Outro sinal de que a finalização do livro deve ser acelerada foi a morte de Ivan Saidenberg, no último dia 30 de setembro.

Saidenberg foi um dos roteiristas das histórias de Zé Carioca desenhadas por Canini. Também criou personagens ligados a Peninha, como Morcego Vermelho e Pena Kid.

A conversa com Ventura começa com a concepção do projeto e de como ele passou a olhar de um outro jeito os quadrinhos produzidos por Renato Canini.

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Blog - Como surgiu a ideia de fazer um livro sobre o trabalho de Canini?
Fernando Ventura
- A ideia surgiu quando eu ainda era aluno de desenho do Waldyr Igayara. Iga brindava semanalmente seus alunos com histórias maravilhosas sobre sua vida e carreira nos quadrinhos e sempre falava com muito carinho sobre Canini. Ele me mostrou os trabalhos de Canini na revista "Recreio" e contou sobre a pressão americana para que Canini mudasse seu estilo ou deixasse o personagem. Em paralelo, eu começava minha carreira como roteirista e desenhista e iniciava minha colaboração com o Arthur Faria Jr. no "Inducks" (base de dados mundial dos quadrinhos Disney). Esses primeiros estudos resultaram em uma monografia de especialização em design gráfico na Faculdade de Belas Artes de São Paulo (hoje Centro Universitário Belas Artes) intitulada "Zé Carioca no Traço do Canini", defendida em 2004. 
 
Blog - A obra vai abranger apenas a passagem dele pela Abril? Ou vai considerar outros trabalhos dele?
Ventura
- O foco da obra é a carreira Disney de Canini. Mostro quem eram os roteiristas por trás das histórias, os bastidores e em alguns casos até quem eram os letristas e coloristas. Contextualizo, sem esgotar o assunto, tanto o Zé Carioca antes e depois do Canini, quanto o Canini antes e depois do Zé Carioca, para que fique claro ao leitor a importância que um teve na carreira do outro e o que motivou a Disney na época a considerar o trabalho de Canini tão fora do padrão. A estrutura é parecida com o a do livro Romano Scarpa - "Sognando la Calidornia", dos autores italianos Becattini, Boschi, Gori e Sani.
 
Blog - Qual a sua leitura do trabalho de Canini à frente de Zé Carioca?
Ventura
- Nasci em 1980, portanto só conheci o trabalho de Canini nas páginas do "Disney Especial". Quando criança considerava as histórias esquisitíssimas! Adorava e relia dezenas de vezes. Acho o trabalho de Canini especial porque seu estilo gráfico brasileiríssimo sugeria continuidade, mesmo ilustrando histórias de vários roteiristas diferentes. Boa parte do estilo brasileiro, solto e divertido, de Disney dos anos 1980 e 90 é reflexo do trabalho de Canini e de um outro desenhista pouco conhecido, Kimura, que também fez maluquices com os patos no final dos anos 1970.
 
Blog - O que falta para o livro ficar pronto?
Ventura
- Desde que a monografia foi apresentada, novos dados vieram à tona. Em termos Disney, o mais importante foi a listagem das histórias dos principais coautores de Canini, Júlio de Andrade e Ivan Saidenberg (falecido recentemente), e o lançamento do "Mestres Disney", que o homenageou em 2005. Nesse período, Canini foi redescoberto pelo público e por uma nova geração. É preciso, portanto, re-estruturar e atualizar o texto. Existe também um buraco na minha pesquisa. Depois que Canini foi demitido como desenhista, ele continuou colaborando com a Abril escrevendo argumentos Disney. Conhecemos algumas dessas histórias, mas não todas. Canini não as possui em sua coleção, mas me disse ser capaz de identificá-las. Gostaria que colegas colecionadores me auxiliassem a xerocar as histórias desse período, as quais eu organizaria e enviaria a Canini, que não possui internet. Portanto, é preciso que as cópias sejam físicas. Os colecionadores interessados podem entrar em contato comigo por e-mail, para saber mais detalhes: fernandopventura@uol.com.br.
 
Blog - Tem editora definida e ideia, ao menos aproximada, de quando a obra deve ficar pronta?
Ventura
- Não tenho editora definida. A re-estruturação e atualização da obra deve durar no máximo até o final deste ano, quando começarei o trabalho de diagramação e apresentarei um capítulo-piloto para a Disney e a Editora Abril, solicitando o uso das imagens. Publicarei periodicamente no blog http://disneymadeinbrazil.blogspot.com/ o desenvolvimento do trabalho para os interessados acompanharem. Espero conseguir permissão para abrir o livro com a HQ inédita que fiz em homenagem à Canini, escrita originalmente para a edição do Mestres Disney. Continuo pesquisando as histórias em quadrinhos Disney brasileiras, não somente de Canini, mas de todos os outros autores. Portanto, qualquer espécie de colaboração é sempre bem recebida.

Escrito por PAULO RAMOS às 09h31
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07.10.09

Chega ao Brasil série de Gabriel Bá premiada nos EUA

 

The Umbrella Academy - Suíte do Apocalipse. Cre´dito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "The Umbrella Academy - Suíte do Apocalipse", álbum que tem lançamentos nesta semana em São Paulo e Belo Horizonte 

 

 

 

 

 

 

Gabriel Bá reprisa neste mês uma trajetória comum entre quadrinistas argentinos. Estes publicam histórias no exterior, em particular na Europa, e depois de algum tempo veem a obra chegar ao país de origem.

No caso do desenhista brasileiro, o périplo começou nos Estados Unidos. Agora, dois anos depois, "The Umbrella Academy" é traduzida para o português pela editora Devir.

A obra tem lançamentos hoje em São Paulo e sexta-feira em Belo Horizonte durante o FIQ, Festival Internacional de Quadrinhos, que será realizado até o dia 12 na capital mineira.

O álbum é uma coletânea dos números iniciais da série, que ajudou a firmar o nome de Bá entre os principais autores hoje do mercado norte-americano de quadrinhos.

                                                           ***

Pela arte feita na série, ele conquistou uma sucessão de prêmios de destaque em 2008, do qual se destaca o Eisner Awards, o principal da indústria de quadrinhos estadunidense.

Teve novas indicações no Eisner deste ano como melhor desenhista e autor de capas (por outro título, "Casanova"). E concorre ao Harvey Awards como melhor desenhista e série contínua ou minissérie.

Ele e o irmão gêmeo, o também desenhista Fábio Moon, disputam uma terceira categoria no Harvey: melhor antologia pelo número de estreia de "Pixu", produzido em parceria com Vasilis Lolos e Becky Cloonan.

A história de terror, outro título que foi publicado primeiro nos Estados Unidos, também será lançada neste mês pela Devir, com a presença dos quatro autores.

                                                         ***

Bá e Moon se destacaram também no Brasil no ano passado.

Venceram um dos prêmios Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, pela adaptação do conto "O Alienista", de Machado de Assis, lançada pela Agir (1839-1908).

Um ano antes, foram o destaque do Troféu HQMix, o principal da área de quadrinhos do país. Venceram em quatro categorias.

Paralelamente aos trabalhos no exterior, Bá e Moon têm produzido desde o ano passado a tira "Quase Nada", publicada uma vez por semana na "Folha de S.Paulo". Sai aos sábados.

                                                          ***

"The Umbrella Academy", que agora chega ao Brasil, destoa das produções anteriores de "Dez Pãezinhos", série de histórias criadas com o irmão e publicadas aqui no Brasil em mais de um álbum.

O foco não está tanto nos relacionamentos humanos. A série norte-americana é uma história de super-heróis, todos irmãos, que formam a equipe Umbrella Academy.

Cada um dos integrantes possui dons diferentes. Foram adotados de berço pelo criador da equipe, o eclético Sir Reginald Hargreeves. O grupo atua junto desde pequenos.

Com o tempo, o a equipe se desfaz. Até que são unidos novamente para o funeral de Hargreeves. E para enfrentarem juntos, mesmo com indisfarçáveis conflitos pessoais, a amaeaça da suíte do apocalipse, música que tem poder para destruir o mundo.

                                                          ***

A série foi escrita por Gerard Way, da banda My Chemical Romance. O trabalho da dupla rendeu uma sequência e tem outra prevista.

Way não vem ao Brasil para os lançamentos, que tornarão ainda mais apertada a agenda de Gabriel Bá. Entre uma página e outra, entre um comprimisso e outro, ele arrumou um tempo para conversar com o blog, por-email.

Na entrevista, ele comenta seu atual momento profissional e dá detalhes sobre a nova série "Daytripper", feita com o irmão para Vertigo, selo adulto da DC Comics, mesma editora de Batman e Super-Homem. "Daytripper" será ambientada no Brasil.

E, claro, fala sobre "The Umbrella Academy", assunto que inicia a conversa.

                                                          *** 

Blog - A que você credita a boa repercussão que "The Umbrella Academy" teve no exterior?
Gabriel Bá
- Acho que grande parte da expectativa em cima do Umbrella se deu pelo fato de o Gerard ser o vocalista do My Chemical Romance, uma banda com uma grande legião de fãs e com uma forte assinatura visual em todos os clipes. Só isso já gerou muita repercussão em cima do projeto antes mesmo de sair qualquer coisa. Uma vez lançado o gibi, a verdade é que ele tem uma história muito bem contada, com personagens cativantes, grandes vilões e uma história cheia de elementos bizarros, usando de maneira  excelente quase todos recursos que a linguagem dos quadrinhos oferece, como páginas duplas, flashbacks, narrativas e grandes diálogos. Não é uma revolução cheia de ideias geniais, mas traz um sentimento de frescor que o cenário dos quadrinhos de super-heróis estava precisando. Desta mesma forma, este é um motivo pelo qual o gibi tem um grande apelo para um público maior que somente o leitor de super-heróis, além de apelo internacional. Se fosse pra comparar, aos invés de compará-lo ao Watchmen, acho que compararia ao Os Incríveis, filme da PIXAR. Você já viu tudo aquilo em um milhão de gibis, mas eles reuniram tudo e usaram de forma inteligente e contaram uma história de maneira nova e original. O Umbrella faz a mesma coisa. Pra completar, nós ganhamos o Eisner Award, Harvey Award, Scream Award, além de outros prêmios, o que ajudou a chamar mais atenção de quem ainda não tinha ouvido falar do gibi.

 
Blog - "The Umbrella Academy" e "Pixu" saíram primeiro nos Estados Unidos e somente agora no Brasil. Você acha que o fato de uma obra ser publicada primeiro no exterior ajuda na aceitação dela aqui no mercado nacional?
- Acho que pode ajudar, mas não garante o sucesso de um livro. Assim como literatura e cinema, quadrinhos têm vários gêneros diferentes e cada um deles tem seu público, além de compartilharem um público genérico. Assim, se você faz uma HQ medieval que teve enorme aceitação na França porque o público pra esse tipo de história é grande por lá, isso não vai garantir que faça sucesso aqui, onde o público pra isso é muito menor. O Umbrella e o PIXU são livros muito diferentes. Um é uma história de super-heróis, divertida e bizarra, com um toque de violência, mas que atinge um público mais amplo, desde adolescentes até leitores mais velhos que tenham esse sentimento de nostalgia. O outro é uma HQ de terror psicológico, sombrio e pesado. Os dois trabalhos são muito diferentes do que o público costuma encontrar nos 10 Pãezinhos, mas é isso que acredito ser um mérito desses trabalhos, mostrar a variedade de gêneros e histórias que podemos contar nos quadrinhos. Pra mim, não devia importar de onde você é ou onde você publicou. O mais importante é a história. Uma boa história é boa em qualquer língua e atingirá públicos diferentes em vários lugares.

Blog - As premiações de 2008 ajudaram você e seu irmão a consolidarem uma elogiada carreira também fora do país. Como você planeja os próximos passos de sua carreira: ruma para o mercado externo ou para o interno? Qual deles permite a você contar melhor suas histórias?
- Nós sempre tomamos as decisões basaeadas nos projetos, independentemente de onde será feito. Se gostamos da história o suficiente para querer fazer, é o que importa mais. Se temos uma ideia boa para contar, podemos desenvolvê-la. Gosto de acreditar que contamos histórias um tanto universais por tratarem de questões mais humanas, então não importa muito onde ela será publicada primeiro, pois sempre existirá a chance de ela ser publicada em outro país. Estamos produzindo esta série para a Vertigo, chamada Daytripper, que se passa no Brasil e tem vários elementos que só serão percebidos pelo leitor brasileiro. Não influenciam na história, mas dão estofo e enriquecem a ambientação. Mesmo que estejamos produzindo pra publicar lá, mal posso esperar pra saber como ela será recebida aqui. O que mais sinto falta do mercado nacional é escrever em português. Nós vamos continuar publicando aqui, mesmo que independentemente como já fizemos tantas outras vezes.

Blog - Queria que você antecipasse como será a série "Daytripper", feita com seu irmão. Do que se trata? Serão quantas edições?
- Daytripper conta a história de um sujeito chamado Brás, que trabalha escrevendo obituários num jornal em São Paulo, mas seu grande sonho é ser escritor. No entanto, seu pai já é um grande escritor de renome e Brás tem que lidar com este fardo de ter um trabalho que não gosta e viver à sombra do pai o tempo todo. A série terá dez capítulos onde vamos acompanhar a vida desse personagem em diferentes momentos, que irão formando sua personalidade e influenciando suas decisões e os caminhos que ele tomou ou tomará. É muito difícil falar sobre essa série, mas é definitivamente a melhor coisa que já fizemos.

Blog - Para finalizar: quais outros projetos vocês têm para 2010? Algum já pode ser antecipado?
- Temos muitas propostas e convites, tanto nacionais quanto internacionais, mas por enquanto estamos focando em terminar o Daytripper. Só depois teremos cabeça pra decidir.

                                                          ***

Serviço - Lançamentos de "The Umbrella Academy - Suíte do Apocalipse"
Em São Paulo. Quando: hoje (07.10). Horário: 19h. Onde: Fnac Pinheiros. Endereço: Avenida Pedroso de Moraes, 858.
Em Belo Horizonte. Quando: sexta-feira (09.10). Horário: 19h. Onde: FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos). Endereço: Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG). Endereço: Avenida Afonso Pena, 1.537.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h59
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