Adaptações machadianas - 2

 

Página da adaptação de Dom Casmurro. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma das páginas da obra, adaptada por Felipe Greco e Mario Cau 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era para ele desenhar apenas um capítulo. Surgiu mais um, depois mais outro. E Mario Cau acabou responsável por toda a arte da adaptação do romance machadiano "Dom Casmurro".

Tradução em números da tarefa que ele tem: precisa finalizar mais cem páginas do álbum, de um total de cerca de 200. A primeira metade já está concluída. Falta apenas a arte-final.

Cau acredita que termine a arte neste ano. Se pudesse, diz, faria apenas a adaptação. Mas os trabalhos remunerados falam mais alto na hora de pagar as contas.

A obra é feita em parceria com o escritor Felipe Greco, que assina o roteiro. Concluída, a obra será oferecida às editoras. Segundo os autores, ainda não há nenhuma definida.

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O roteiro de Greco para essa versão em quadrinhos da obra de Machado de Assis (1839-1908) já previa a quebra em capítulos, que deveriam ser feitos por desenhistas diferentes.

Ter uma única pessoa responsável pela arte permitiu a Mario Cau uma visão maior do conjunto da obra. O que ajuda também no processo de composição visual.

Nascido há 25 anos em Campinas, no interior paulista, o criador da série "Pieces" pretende construir um tom gradativamente mais sombrio à medida que o protagonista envelhece.

O romance, publicado em 1889, mostra o ponto de vista de Bentinho sobre um eventual adultério de Capitu. Como quem narra os fatos é Bentinho, não se sabe se houve a traição.

 

Trecho de Dom Casmuro. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

 

 

 

 

 

 

Álbum vai mostrar o protagonista Bentinho mais sombrio à medida que envelhece

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O labirinto verbal construído por Machado de Assis na obra joga com a dualidade fidelidade/traição. Intencionalmente, o escritor deixa em aberto o comportamento de Capitu.

Como resolver a ambiguidade narrativa numa adaptação em quadrinhos?

Esse é um dos temas da entrevista feita com Mario Cau e Felipe Greco após uma série de trocas de e-mail entre o jornalista e os autores e entre roteirista e desenhista.

A conversa feita em três vozes inicia com os motivos que levaram à concepção do projeto.

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Blog - Como surgiu a ideia de adaptar um romance? E por que especificamente "Dom Casmurro"?
Felipe Greco
- No ínício, foi uma encomenda de uma amiga editora. Porém o projeto foi ganhando contornos e dimensões que acabaram ultrapassando a proposta inicial. Particularmente, recebi a ideia de adaptar "Dom Casmurro" como uma provocação. Na idade em que fui forçado a ler Machado, ainda não tinha maturidade para compreender a importância nem a profundidade da obra (adolescentes ainda não têm maturidade para compreender temas complexos como adultério). Reler e estudá-la para este trabalho significou enfrentar antigas (e arraigadas) antipatias. Continuo não sendo machadiano, porém não posso mais ignorar sua maestria como prosador.
Mario Cau - Para mim, foi uma surpresa. Desde que comecei a perceber essa nova onda de adaptações de obras literárias para HQ, pensei em fazer uma. Minha vontade inicial era de adaptar Memórias Póstumas, também do Machado, mas naqule momento eu não teria condições de me dedicar tanto assim a um projeto desse porte. Depois, pensei em "Angústia", do Graciliano Ramos, mas de novo deixei de lado. Fui convidade pelo [desenhista] Bira Dantas para o projeto que, na época, contava com ele, Felipe e Mário César. Sempre gostei de Machado de Assis e principalmente de Dom Casmurro. Mas, com o tempo, o projeto foi mudando, até essa última "formação", eu e o Felipe.

Blog - A quantas anda o projeto? Começou quando e deve estar concluído mais ou menos quando?
Felipe Greco
- O roteiro está pronto desde o início de abril de 2008. As ilustrações ainda estão sendo produzidas.
Mario Cau - Estou no projeto desde junho de 2008, e ele mudou um bocado de lá pra cá. De uma equipe de três desenhistas, sobrou só eu mesmo para dar conta. Como é uma obra extensa, estou indo aos poucos, capítulo por capítulo. Na época que entrei, fiquei responsável pelo capítulo três. Depois, mudamos, e eu faria os três primeiros. Depois, os dois últimos. No final, vou fazer tudo mesmo. 
 
Blog - Você trabalha com a ideia de que deve ficar com quantas páginas?
Felipe Greco
- O roteiro previa 192 páginas, mas devemos ultrapassar um pouco esta quantidade por conta da própria demanda da narrativa visual.
Mario Cau - Com o aval do Felipe, pude destrinchar mais alguns trechos que precisavam de uma narrativa mais lenta, mais detalhada. E pude também resumir alguns outros trechos que estavam segurando um pouco, resumindo-os em menos páginas. Com a contagem atual, já estamos em 200 páginas.

 

Trecho de Dom Casmurro. Crédito: imagem cedida pelo autor

Blog - Há uma ambiguidade no romance de Machado sobre a infidelidade de Capitu. Nos quadrinhos, como vocês relatarão esse aspecto? As imagens não podem comprometer o que o autor manteve dúbio?
Felipe Greco
- Toda adaptação (assim  como a tradução de um texto) é uma interferência, uma leitura baseada nos referências de quem está fazendo o trabalho, isto é, o "intruso". Na adaptação, buscamos o noir (tanto no texto quanto nas ilustrações). Há uma carga maior na sensualidade - na minha opinião, implícita nesta obra do Machado. Claro que vamos conservar a "grande dúvida" sobre a suposta traição de Capitu. No entanto, ao dar um pouco mais de voz ao universo interior do protagonista-narrador, talvez esta questão se torne menos importante do que a traição de Dom Casmurro consigo mesmo. Explico: Bento, por não ter tido "grandes" referenciais masculinos na infância e adolescência, apega-se ao amigo Escobar (que, no livro, ganha mais linhas para descrever seus atributos psicológicos e físicos do que a própria Capitu). Tanto, que na fase "adulta" do personagem, Escobar tem mais destaque do que a mulher de Bento. Portanto, a "traição", nessa concepção, vai bem mais além... Com o afogamento de Escobar, Bento, antes de ser um marido traído, sente-se enganado pela idealização do masculino que ele personificou no amigo (que, no fundo, era tudo que ele gostaria de ser). Tudo isso é muito sutil e simbólico, entende? Vamos ver se conseguiremos passar esses "subtextos" por meio de imagens.
Mario Cau - É realmente complicado transpor para imagens coisas tão sutis quanto um olhar, um toque, um movimento. Estou dando o meu melhor para dar aos personagens não só uma cara, mas também, um clima, uma personalidade física, um gestual. Isso vai além do texto, em quadrinhos precisamos aliar as duas coisas. De nada adiantaria, por exemplo, uma Tia Justina ,que fala à sua maneira e tem suas intenções (será?), e não mostrá-la agindo como tal. Algumas coisas se perdem, outras se potencializam.

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O roteirista Wellington Srbek também tem um roteiro pronto para levar "Dom Casmurro" aos quadrinhos.

Ele também participa da adaptação de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", com desenhos de J. B. Melado, na pauta da editora Agir, do grupo Ediouro.

Foi o tema da primeira reportagem da série sobre adaptações machadianas, que pode ser lida na postagem abaixo.