24.05.10

Lelis: de Minas para o Brasil, do Brasil para a Europa - I

 

Clara dos Anjos. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

 

 

 

 

 

 

 

Desenhista divide tempo entre adaptação do romance "Clara dos Anjos" (página ao lado) e segundo álbum para o mercado francês

 

 

 

 

 

A imprensa daqui costuma dar um generoso espaço aos autores nacionais que conquistam trabalhos nos EUA. Costumam deixar de lado, no entanto, quem publica na Europa.

É na França, um dos principais polos mundiais de produção de quadrinhos, que um mineiro começa a se destacar. Já lançou um álbum por lá, em 2009, e já faz os esboços do segundo.

Marcelo Eduardo Lelis de Oliveira, ou somente Lelis, como ele assina suas produções, prepara também dois livros em quadrinhos para o mercado brasileiro.

Um é uma adaptação de "Clara dos Anjos", romance de Lima Barreto (1881-1922). O outro é uma reedição de "Saino a Percurá", reunião de contos regionais em quadrinhos.

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A primeira versão de "Saino a Percurá" havia sido publicada em 2001. A nova edição sairá no segundo semestre pela Zarabatana e trata histórias não incluídas no original.

A adaptação da obra de Lima Barreto será publicada pelo Quadrinhos na Cia., da Companhia das Letras. E editora espera lançar o trabalho no final do ano.

"Clara dos Anjos" tem roteiro de Wander Antunes, outro brasileiro que encontrou espaço no mercado francês.

O escritor teve mais de um álbum publicado na Europa. O mais recente é "Toute la Poussière du Chemin", lançado neste ano. A arte é do espanhol Jaime Martin.

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A entrada de Lelis na França se deu por meio de seu blog, o "Aqualelis", mantido desde 2006. Foi lá que foi descoberto pelo roteirista Antoine Ozanam.

O escritor entrou em contato com o desenhista mineiro e propôs a parceria.

Os dois fizeram o álbum "Last Bullets", ambientado nos Estados Unidos do fim do século 19. A história é uma mistura de faroeste com realismo fantástico.

Ozanam já acertou um segundo projeto com Lelis, "Gueules Noires" (bocas negras). O desenhista já rascunha as páginas do novo álbum, ainda sem data para lançamento.

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Nascido em Montes Claros, Lelis trocou o interior mineiro pela capital, Belo Horizonte, por conta da profissão: trabalha como ilustrador no jornal o "Estado de Minas".

Aos 42 anos, divide o expediente da redação - onde vai diariamente - com as ilustrações de livros, os trabalhos com quadrinhos e as plantas, uma de suas paixões.

Casado com uma psicóloga e pai de Beatriz, de cinco anos, é dono de um jeito cortês, acessível e humilde, que contrasta com a grandiosidade de seu desenho, feito em aquarela.

Nesta entrevista, feita após uma série de trocas de e-mail e dividida em duas postagens, Lelis detalha os novos projetos, fala da experiência no exterior e sobre o início da carreira.

 

Clara dos Anjos. Crédito: imagem cedida pelo autor

                                                    

Blog - Começo com "Clara dos Anjos". Como surgiu a ideia de fazer a adaptação. Foi uma iniciativa sua ou um convite da Companhia das Letras?
Marcelo Lelis
- O André Conti, [editor] da Companhia, me procurou. A minha resistência inicial era com relação aos prazos. Negociei com o André durante um tempo para acertarmos um prazo um pouco mais longo. Por fim me deram 15 meses ao invés de 12, como é usual.

Blog - Você já havia lido a obra? E outros romances de Lima Barreto?
Lelis
- Não, nunca havia lido nada do Lima.

Blog - Como o Wander Antunes entrou no projeto? A participação dele foi prevista desde o início?
Lelis
- Inicialmente o André me propôs fazer todo o trabalho ou seja, roteiro e arte. De cara declinei. Primeiro porque não sei se daria conta de transformar um romance de um autor consagrado em um quadrinho potencialmente comercial. E segundo porque não haveria tempo hábil para as duas tarefas. O André então disse que tinha alguns nomes para o roteiro, mas não me disse quais. Aí eu citei o Wander, que é um cara que ensaiamos trabalhar juntos algumas vezes e, por um motivo ou por outro, nunca fizemos nada. Achei que ele seria o cara perfeito. Ele é craque. O André, que já o conhecia, achou boa a idéia e cá estamos. O Wander é muito tranquilo. Ele saca demais esse negócio de quadrinhos e amarra bem demais a trama.

Blog - Houve alguma orientação para tornar a obra mais acessível ou didática, de modo a vender o projeto para listas do governo?
Lelis
- Não. Em nenhum momento houve por parte da editora qualquer tipo de interferência. Pelo contrário, eu e o Wander estamos tendo liberdade total para criar. Da nossa parte, é claro, temos alguns limites que achamos pertinentes e, de comum acordo, procuramos fazer um livro que seja o mais acessível possível.

Blog - Quando a obra fica pronta e há previsão de quando seja lançada?
Lelis
- Fiz um contrato de 15 meses que se iniciou em outubro. Espero terminar antes desses 15 meses previstos. Se isso acontecer, acho que haverá tempo hábil para a Companhia lançá-lo ainda em 2010.

Blog - Queria uma opinião sua sobre esse momento das adaptações literárias em quadrinhos. Uma editora grande o contrata para que você adapte a obra de um romancista, mas não uma obra autoral sua. Como você enxerga isso?
Lelis
- Mas eu nunca apresentei nenhum projeto de quadrinhos à Companhia das Letras ou a qualquer outra editora brasileira. E outra, sou um quadrinista sazonal, não é? De "Saino a Percurá" pra cá são dez anos de hiato. Às vezes nem eu sei como ainda me consideram um quadrinista. Talvez algum outro autor mais profícuo teria mais a reclamar. Mas também penso que isso tudo é um processo. Quando uma editora cria um selo para o segmento dos quadrinhos significa que ela já descobriu que temos um mercado crescente por aqui. Por consequência, as próprias editoras perceberão com o tempo que, além de programas de governo, temos leitores ansiosos por consumirem muito mais do que adaptações.

 

Saino a Percurá. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagem da capa do álbum "Saino a Percurá", que terá uma nova edição neste ano
















Blog - Você tinha uma conversa com a editora Zarabatana para relançar "Saino a Percurá". A conversa avançou para algo concreto?
Lelis
- Sim, sai este ano. O Cláudio [Martini, editor da Zarabatana], muito paciente, aguarda que eu envie as imagens pra ele. É que eu redigitalizei todo o livro e estou terminando de fechar os arquivos. As cores agora estarão mais fiéis aos originais porque a tecnologia dos scanners hoje em relação a 2001 mudou muito. E com meu próprio equipamento posso controlar mais a qualidade. "Last Bullets", por exemplo, eu mesmo digitalizei. Olhando os originais não há muita diferença na impressão final.

Blog - "Saino a Percurá" foi seu único álbum em quadrinhos lançado no Brasil. E no exterior?
Lelis
- Na Espanha a editora De Ponent fez uma edição de Saino a Percurá que lá se chama "Yendo a Buscar: historietas de Lelis".

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A entrevista com Lelis continua na postagem abaixo.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h01
[comente] [ link ]

Lelis: de Minas para o Brasil, do Brasil para a Europa - II

 

Gueules Noires. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

Blog - De um projeto para outro. Você comenta em seu blog que tem pautado um segundo álbum em parceria com Antoine Ozanam. Do que se trata? Para quando é?
Marcelo Lelis
- O Antoine é um bom amigo e um excelente roteirista. Nunca me encontrei com ele e arriscamos uma vez um contato telefônico que não foi muito inteligível. Mas, depois do nosso primeiro livro, ele me apresentou algumas histórias que pensava em publicar. Dentre essas histórias, gostei muito de Gueules Noires, ou Bocas Negras, numa tradução literal. É a história de um mineiro do norte da França que, cansado da vida dura nas minas de carvão, decidiu tentar a vida em Paris. A história é muito bonita, cheia de reviravoltas e de personagens fortes. Mas demoramos para acertar alguns detalhes e já havia escrito a ele dizendo sobre a possibilidade de fazer o livro da Companhia da Letras. A [editora francesa] Casterman gostou do projeto, mas resolvi pedir a ele para não fazermos um contrato ainda porque aí não conseguiria entregar dois livros no mesmo ano. Assim, vamos trabalhando nas páginas com calma, para amadurecermos as escolhas gráficas e outros detalhes.

Blog - Vocês estiveram juntos em "Last Bullets". Como foi a experiência de desenhar uma história em quadrinhos para o mercado francês?
Lelis
- Realmente foi estupenda. O mercado europeu de quadrinhos sempre me interessou. Mais até que o norte-americano. Uma das coisas que ficaram nessa minha experiência é o quanto eles levam a sério o quadrinho. Não é só uma forma de expressão. É algo muito maior que fica até difícil pra gente aqui no Brasil entender. Sabe aquele negócio do gringo que chega aqui e vê um menino fazendo embaixadinha até com uma laranja? A comparação parece exdrúxula, mas confere. Assim como o futebol está em todo lugar aqui, lá podemos dizer que o quadrinho está no sangue deles. Se simplificamos dizendo que eles têm mais condições financeiras do que nós, erramos se compararmos os países europeus, tão ou mais ricos que os franceses e que nem por isso têm uma produção equivalente. Pelo contrário. A Alemanha, que tem uma economia mais pujante não produz 1% do que eles fazem. Então a resposta é outra. Fazer parte dessa engranegem, publicando em uma das 5 maiores editoras franco-belgas foi muito motivador. Você abre um novo horizonte. Se não dá pra viver só de quadrinhos hoje, dá pra projetar a médio prazo viver dele mais do que vivo hoje. E isso é revigorante. Me motiva a criar, a escrever novamente, a focar mais em minha carreira de quadrinista.

Blog - Como surgiu o convite para o projeto?
Lelis
- O Antoine viu meu blog e me escreveu.

 

Last Bullets. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Página de "Last Bullets", álbum desenhado por Lelis, lançado ano passado na França
















Blog - Você sente um tratamento diferente entre as editoras de fora e as de cá?
Lelis
- Se falamos de quadrinhos, lá como aqui eu sou considerado autor, mesmo que eu não seja também o roteirista do álbum. Mas no mercado editorial brasileiro, um ilustrador não tem os mesmos direitos de quem escreve a obra, ao contrario de lá. Por aqui a minha contribuição, digamos, pictórica, se encerra na primeira edição de um livro sem qualquer participação caso a obra ganhe outros rumos. Acho que isso está mudando, principlamente por causa das associações de ilustradores, como a SIB por exemplo, que tem sistematicamente debatido com as editoras essa questão.
Blog - Ainda na comparação entre editoras: não precisa me dizer quanto, claro, mas paga-se muito mais por um álbum no exterior?
Lelis
- São economias e mercados muito distintos né, Paulo? Não podemos comparar um quadrinho institucionalizado como o franco-belga com o do mercado brasileiro. Lá o governo banca muita coisa. Bande dessinée lá é estratégica. Há décadas eles entenderam isso. Depois é pura matemática. Se eles tem um mercado super aquecido, ávido por coisas novas, com cerca de 3.500 novos títulos por ano, com feiras o ano inteiro, a consequência é que o pedaço do bolo é sempre mais generoso. É um sgmento econômico como qualquer outro por lá.

Blog - Além de quadrinista, você tem uma carreira de destaque na área da ilustração. Você tem somados quantos livros já ilustrou?
Lelis
- Ah, perdi a conta. Com certeza mais de 70. Mas o número exato eu não sei.

Blog - Queria entender melhor a sua rotina de produção. Trabalha no jornal "Estado de Minas" todos os dias, na redação ou em casa?
Lelis
- Trabalho todos os dias das 14 às 21h. Tenho que ir lá diariamente, bater ponto, etc. Um emprego formal, enfim.

Blog - Quando - em que horário do dia - sobra tempo para as ilustrações e os quadrinhos?
Lelis
- Hahaha! Essa foi sua pergunta mais difícil. Não sobra tempo, Paulo. Nem sei como faço tudo isso. Acordo todos os dias às 06:00h para adiantar o que posso. Quando chego em casa, à noite, nem olho para a prancheta. Mas ainda produzo. Acabei de escrever um álbum de 56 páginas. Rafeei umas 25 e assim que der uma brecha começo a finalizar. Não sei o destino dele e nem estou pensando nisso por isso nem dá pra falar muito sobre ele ainda. Só sei que estou curtindo fazer cada página.

Blog - E para as plantas? Li em seu blog que você tem um carinho especial pelo assunto.
Lelis
- Ah, sim. Tenho no lote que estou construindo minha casa/ateliê quatro pés de jatobá, um de pequi (árvove típica do cerrado) e algumas outras que ainda estou identificando. Enchi a paciência da arquiteta para que ela harmonizasse isso tudo. Um amigo me deu uma muda de ipê amarelo. Também gosto de hortas, galinhas, cachorros e cavalos. Enfim, nunca tirei os pés da roça.

 

Crédito: imagem cedida pelo autor

 

Blog - Queria entender o seu início de carreira. Li uma entrevista sua em que você menciona que desenhava desde os tempos de escola, nas aulas. É isso mesmo? Quando o interesse se tornou profissão?
Lelis
- Que eu me lembre, comecei ainda no antigo primário (atual ensino fundamental). Uma vez resgatei um caderno repleto de caubóis e jogadores de futebol. Era praticamente um fossil de tão velho. Nas férias escolares, sempre ia para a fazenda do meu avô. Lá pegava uns cadernos e ficava horas desenhando. Me sentava na cerca do curral e enquanto os vaqueiros ordenhavam as vacas eu não desgrudava do caderno. Era muito divertido. Gostava muito também de acompanhar os vaqueiros quando eles levavam o gado para outro pasto ou até mesmo outra fazenda distante. Era uma espécie de viagem a la Guimarães Rosa. Foi um período muito importante e decisivo na minha vida. Tanto que, quando fui fazer "Saino a Percurá", eu nem sabia que faria um livro sobre histórias do sertão. Sabia apenas que tinha um projeto aprovado pela lei de incentivo cultural da prefeitura de Belo Horizonte e que obrigatoriamente teria que entregá-lo num prazo máximo de um ano. Em duas tardes, escrevi todo o livro. Parece que todos os personagens que cruzei na época das minha ferias de infância na roça me visitaram naquelas duas tardes. Sobre o início, quando terminei o segundo grau, fui trabalhar em jornais de Montes Claros. Eram jornais rudimentares com aquele velho processo de impressão tipográfica com aquelas linotipos enormes e usando ainda o chumbo derretido para compor os tipos. Primeiro me colocaram como assistente de repérter policial. Sabiamente viram que meu negócio era outro. A partir daí passei a fazer charges, ilustrações e montar anúncios para o departamento de publicidade. Foi uma grande escola, sem dúvida.

Blog - E o uso de aquarela? É sua marca principal?
Lelis
- 100% das veszes que me procuram pra que eu ilustre um livro, já esperam que eu faça em aquarela. Ainda não sei se isso é bom ou ruim.

Blog - Você nasceu e cresceu em Montes Claros, confere? Quando se mudou para Belo Horizonte e como se deu sua passagem por São Paulo?
Lelis
- Nasci em Montes Claros e fiquei por lá até os 24 anos. Em 1992, meu pai queria vir para Belo Horizonte e me chamou para vir com ele. Nem titubeei. Chegando aqui o primeiro lugar que levei meus desenhos foi o jornal "Estado de Minas". No dia seguinte, já publicava lá. Foi aí que me tornei realmente profissional da ilustração. Em Montes Claros, por motivos óbvios, além de ilustrar, eu desempenhava muitas outras funções. No "Estado de Minas" não. Havia o cargo de ilustrador. Achei engraçado aquilo porque nem sabia que existia essa profissão. Mas foi ali, no dia a dia, ao lado de grandes profissionais, que aprendi muito, Ali comecei a colocar cor nos meus desenhos pela primeira vez. Em 1997, a editora de artes da "Folha de São Paulo" viu meu portfolio através do Osvaldo Pavanelli e me convidou para trabalhar. Não havia internet estável ainda. Os ilustradores enviavam o trabalho através de modem. Era um horror. A conexão caía durante o envio. Então decidi me mudar para São Paulo e trabalhar dentro da redação. Acho que foi uma boa decisão. Além de publicar em um dos maiores jornais do país e fazer grandes amzades, foi legal ficar um tempo em Sampa. Aproveitei para fazer muitos contatos. Mas, quando fui, sabia que seria por um tempo. Sabia que seria o tempo da estabilização da internet. E foi o que aconteceu. No final de 98, negociei com a Folha para trabalhar on-line de Belo Horizonte. A distância não fez a menor diferença. Tecnicamente, é claro. Trabalhava on-line nos chamados pescoções da sexta-feira e nunca deixei o editor de arte na mão. Pelo contrário. Quando alguém estava com problemas, o pessoal da arte me ligava e eu cobria.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h37
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