22.11.10

Café Espacial se desliga do Quarto Mundo

 

Café Espacial 7. Crédito: site da revista

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do último número da revista independente, lançado em setembro deste ano 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os responsáveis pela revista "Café Espacial" decidiram se desligar do Quarto Mundo, grupo que reúne quadrinistas independentes de todo o país.

Segundo Sergio Chaves, um dos editores da publicação paulista, dois motivos pautaram a decisão: a migração para outros projetos e a falta de tempo para se dedicarem ao grupo. 

Com sete obras publicadas e mais uma programada para dezembro, a revista era um dos títulos de maior visibilidade do Quarto Mundo.

A "Café Espacial" venceu nos dois últimos anos o Troféu HQMix - principal premiação de quadrinhos do país - na categoria melhor publicação independente de grupo.

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É a segunda revista de destaque a se desligar do Quarto Mundo no prazo de um ano. Os autores mineiros da "Graffiti 76% Quadrinhos" deixaram o grupo em dezembro de 2009.

Os motivos da saída foram diferenças quanto ao modo de funcionamento do grupo. O modelo defendido pela Graffiti era o de uma profissionalização do setor.

A equipe via no molde adotado mais quantidade que qualidade. O Quarto Mundo soma hoje um dos maiores catálogos de publicações autorais do país.

Nesta entrevista ao blog, feita por e-mail, Sergio Chaves detalha os motivos que fizeram com que ele e Lídia Basoli, também editora da "Café Espacial", saíssem do Quarto Mundo.

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Blog - Por que a opção de se desligar do Quarto Mundo?
Sergio Chaves
- A decisão foi tomada para que possamos nos dedicar aos projetos editoriais da Café Espacial. Isso nos tomará muito do nosso tempo disponível (pois a produção da Café Espcial é feita, como todo ou quase todo quadrinhista independente, nas nossas horas de folga). O principal motivo, e quase que exclusivo, é a nossa pouca disponibilidade de tempo para acrescentarmos ao coletivo. O tempo está ficando cada vez mais escasso, e isso faria com que nosso rendimento dentro do coletivo diminuísse consideravelmente - o que seria injusto e intolerável por nós mesmo, por se tratar de um coletivo. A decisão que tomamos foi justamente para o desenvolvimento dos novos projetos editoriais da Café Espacial, que seguirá para outras áreas além dos quadrinhos também. Daí a decisão.

Blog - Vocês comentam no blog da revista que estariam de olho em novos projetos editoriais? Quais são eles?
Chaves
- Neste mês, em comemoração aos três anos da revista Café Espacial, demos início à publicação de nosso informativo, intitulado "Expresso Café Espacial" - que surge com a intenção de complementar o trabalho realizado com a revista impressa. Ainda neste ano, daremos início à nossa série de cartões postais, de sketchbooks e uma nova série de buttons - além do lançamento da nossa oitavaª edição, pra dezembro. E, para 2011, a continuidade de tudo isso e muito mais.
 
Blog - Os colegas da Graffiti, de Minas Gerais, também se desvincularam do coletivo. Vocês são o segundo grupo de destaque do grupo a se desligar. Há algum problema interno que impeça a individualidade de cada equipe ou que eventualmente barre o crescimento?
Chaves
- Desconheço a motivação do pessoal da Graffitti, visto que não presenciei nenhuma tentativa direta deles em possíveis melhorias dentro do coletivo antes mesmo de sua saída, então não poderei comparar. Mas, como disse, nossa motivação é exclusivamente para com a Café Espacial, e não tenho crítica ou reclamação alguma ao Quarto Mundo. Pelo contrário, nós devemos muito ao coletivo, pois sem ele não teríamos chegado aonde chegamos. Vejo no Quarto Mundo uma maneira de que as pessoas possam publicar e falar quadrinhos, divulgar sua produção etc. E, dentro do coletivo, cada autor tem total autonomia para sua própria produção. Não há barreiras, limitações ou empecilhos por parte do coletivo. O Quarto Mundo nunca interferiu na linha editorial de ninguém, nunca barrou ou limitou a produção de ninguém. Na verdade, o coletivo abre as portas para muitos autores, é um caminho superimportante para o quadrinhista. E, por se tratar de um coletivo, é necessário o quadrinhista pôr a mão na massa e trabalhar também, se movimentar, e não ficar esperando que alguém trabalhe por ele. Você pode perceber que quem reclama demais é quem menos se importa, menos se envolve. É muito fácil reclamar disso ou daquilo, mas o Quarto Mundo é o melhor exemplo de que a melhor resposta é produzir e fazer acontecer. E tem feito muito bem. Fico feliz por ter participado do coletivo desde o início, mas nossa decisão foi, como disse, para nos dedicarmos a outros caminhos.
 
Blog - Quais os planos para a Café Espacial para 2011?
Chaves
-
A próxima edição, a de número oito, será lançada em dezembro, cumprindo nosso cronograma de lançar três edições no ano (até o ano passado eram duas, apenas). Em 2011, desejamos lançar três edições (o que não será tarefa fácil se não fecharmos anunciantes, sabemos bem), três a quatro informativos (no mínimo), e formalizaremos nossas produções com a criação de uma associação homônima à revista em circulação, visando profissionalizar nossa atividade e ampliar nossas possibilidades. Para o próximo ano, temos alguns projetos engatilhados, não só de quadrinhos, mas ainda é cedo para divulgarmos.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h10
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20.11.10

Negro foi mal representado nos quadrinhos, segundo pesquisa

 

Nhô Quim, de Angelo Agostini

 


Mais de 200 cidades brasileiras celebram neste 20 de novembro o Dia da Consciência Negra, data criada para discutir o papel do negro na sociedade brasileira.

Esse papel se refletiu também nas histórias em quadrinhos, como mostra um doutorado desenvolvido na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

O estudo, feito pelo pesquisador Nobu Chinen, releva que o negro historicamente foi muito mal representado na produção nacional.

"Qualitativamente, os personagens eram quase sempre estereotipados e ocupavam papéis de pouco destaque. Quantitativamente, sempre foram muito poucos", diz.

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Segundo o mapeamento de Chinen, a primeira aparição de um negro nos quadrinhos brasileiros foi em "As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte".

Criada pelo ítalo-brasileiro Angelo Agostini, em 1869, a história trazia um negro como auxiliar do protagonista (imagem mostrada no início desta postagem).

Na primeira metade do século 20, outros nomes importantes se incorporariam ao rol de personagens negros: Lamparina, de J. Carlos, Azeitona, de Luiz Sá, o Gibi, da Globo.

Na leitura de Chinen, o cenário estereotipado vem mudando nos últimos anos. Mas ainda é pouco, se comparada proporção entre personagens assim e a população negra do país.

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A ideia da pesquisa surgiu em 2005, durante um curso sobre quadrinhos que Chinen fez na Gibiteca Henfil, no Centro Cultural São Paulo.

Inicialmente, tinha um pouco de receio de enfrentar o estudo. O medo é que uma abordagem mais séria sobre a área nublasse o prazer da leitura descompromissada.

O tema falou mais alto e se tornou um mestrado. Na qualificação, etapa que antecede a defesa do estudo, a banca sugeriu tornar a pesquisa num doutorado, e não num mestrado.

Assim foi feito. Desde junho do ano passado, vem finalizando a investigação do doutorado. A programação dele é defender até o final deste ano.

 

Gibi

 

Paulistano descendente de japoneses, Nobu Chinen trabalhou muito tempo na área de publicidade, sua formação universitária. Hoje, é professor universitário e redator.

Tem também uma atuação destacada nos bastidores de projetos editorias e de eventos sobre quadrinhos - é um dos integrantes da comissão organizadora do Troféu HQMix.

Nesta entrevista ao blog, o pesquisador, de 49 anos, antecipa as conclusões do estudo que tem feito na Universidade de São Paulo.

A conversa começa justamente com a reflexão proposta neste Dia da Consciência Negra, a forma como os negros foram tratados na sociedade brasileira.

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Blog - Como o negro foi - e ainda é - representado nos quadrinhos brasileiros?
Nobu Chinen
-
Como na totalidade das manifestações artísticas e culturais, o negro era representado como alguém inferior, boçalizado, ocupando funções socialmente pouco valorizadas. Invariavelmente era o serviçal, o menino de recados, o ajudante. Temos como exemplos do início do século 20 o Benjamin, criado por José Loureiro para a revista O Tico-tico; e Lamparina, do J. Carlos. Nas poucas vezes em que era protagonista de uma série, o negro ocupava os papéis nos quais lhe era permitido se destacar, como nos esportes. No aspecto gráfico-visual, também predominava uma estilização grotesca, estereotipada. Os lábios exagerados, os olhos esbugalhados e expressões simiescas. Aqui é preciso fazer uma ressalva e, como pesquisador, sinto que é uma arena delicada porque muitos quadrinhos, como expressão do humor gráfico, têm por característica o traço caricatural e exagerado, portanto, é complicado estabelecer o limite entre o que é o cômico e o ofensivo/preconceituoso. Sempre cito como exemplo o famoso trio Reco-reco, Bolão e Azeitona, criado por Luiz Sá, na década de 30 [imagem abaixo]. O autor retrata seus três personagens de forma exagerada e em situações que os mandamentos do politicamente correto certamente condenariam. Mas não vejo um preconceito específico contra um ou outro grupo social. O Luiz Sá esculachava todo mundo sem distinção.     

 


 

Azeitona, Reco-Reco e Bolão, de Luiz Sá



 
 

 

Blog - Houve, ao longo das décadas, alguma mudança nessa caracterização?
Chinen
-
Meu trabalho defende, justamente, que sim. Ocorreu uma evolução significativa na maneira como o negro vem sendo representado nos quadrinhos. Tomei como base um trabalho muito interessante, o livro "Black Image in the Comics", de Fredrick Strömberg, que aborda essa trajetória, transpondo, naturalmente, para a realidade brasileira. Tenho a sorte de viver em um momento privilegiado nesse aspecto. Nos últimos anos, foram publicadas várias histórias em quadrinhos que trazem negros como protagonistas, e posso citar como exemplos a personagem infantil Luana, uma iniciativa de Aroldo Macedo e realizada por vários autores; e Aú, o capoeirista, do Flávio Luiz. Também surgiram trabalhos em quadrinhos que resgatam a participação dos negros em episódios históricos como os álbuns "Chibata", de Hemeterio e Olinto Gadelha; "Revolta dos Alfaiates", do Mauricio Pestana; e "Balaiada", de Iramir Araújo, Ronilson Freire e Beto Nicácio. E há vários outros. Se tivesse feito meu projeto há quatro ou cinco anos, quando foi originalmente pensado, teria perdido a chance de incluir boa parte desse precioso material. 

   
 

Blog - Há caracterizações recorrentes na literatura em quadrinhos brasileira, como o escravo, para ficar em um caso. Houve mudanças na forma de representação dessas personagens ao longo do tempo?
Chinen
-
Esse é um ponto interessante porque só é possível fazer juízo de valor de um fenômeno se existe massa crítica. É muito difícil estabelecer se houve uma mudança quando se dispõe de um universo limitado, uma vez que não existiram muitos personagens negros. O que posso dizer é que quase sempre os personagens negros tinham papéis subalternos, de criados e empregados. E isso prevaleceu durante décadas. Tomando como referência a série Nhô Quim, de Angelo Agostini, que muitos estudiosos consideram a primeira história em quadrinhos no Brasil, já na primeira vinheta, de 1869, aparece um personagem negro, o Benedito, que é o criado do Nhô Quim. Isso seria “natural”, considerando que ainda vivíamos na época anterior à abolição. Mas esse padrão se repete nos personagens do início do século 20 e vai se manter até recentemente. É mais ou menos como ocorreu com as telenovelas em que, até poucos anos atrás, os negros só tinham papel de empregados, cozinheiras e motoristas. Felizmente isso mudou muito. 

Blog - Na sua leitura, ocorreram casos de preconceito em relação ao modo como o negro foi representado nos quadrinhos?
Chinen
-
Sem dúvida. Ao relegar o negro a papéis inferiores, como já havia citado, os quadrinhos e a mídia de modo geral também ajudavam a alimentar um sistema discriminatório. Na minha opinião, o exemplo mais chocante é a personagem Lamparina, representada quase como um animal [imagem abaixo]. E olha que eu sou um grande admirador do trabalho do J. Carlos, um dos maiores artistas gráficos que este país já teve. Muitas vezes, para defender casos como esse, usa-se a desculpa de que “mas naquela época era assim que se fazia”. Esse é um sintoma (acho que esse termo é apropriado porque preconceito não deixa de ser um câncer social) do quanto a nossa sociedade é preconceituosa. Numa das disciplinas da pós-graduação, pude conhecer autores que tratam bem dessa questão e um deles alerta que o grande perigo é passarmos a achar natural uma representação nitidamente preconceituosa, disseminada pela classe dominante.  



 

Lamparina, de J. Carlos

 

 

Blog - Há algum personagem mais marcante ao longo dessa trajetória?
Chinen
-
Segundo os estudiosos que pesquisei, o personagem negro mais importante e de maior sucesso foi o Pererê, do Ziraldo. Teve revista própria nos anos 1960, ganhou álbuns de coletâneas em anos posteriores e virou até série de TV com atores. O curioso é que o Pererê simboliza o que chamo de primeiro paradoxo do negro nos quadrinhos brasileiros porque trata-se de uma entidade folclórica, um ser mítico, ainda que as histórias do Ziraldo o tenham humanizado.  Ou seja, o negro já figura pouco nos quadrinhos e quando aparece é um ser que não existe. Apenas para completar: o segundo paradoxo é o Gibi, o mascote que batizou uma publicação que fez tanto sucesso que se tornou sinônimo de revista em quadrinhos, mas que nunca apareceu como personagem. Gibi, etimologicamente, significa menino negro. É importante não confundir esse Gibi com o Giby, o primeiro personagem negro dos quadrinhos brasileiros, criado pelo incansável J. Carlos, em 1907. Aparentemente, não existe relação entre um e outro.

 

Blog - O fato de você ser descendente de japoneses - outro grupo étnico, tal qual o negro - tem alguma relação com o tema escolhido para a pesquisa?
Chinen
-
Não. A última coisa que gostaria de dar ao meu trabalho é um caráter político ou ideológico. Não que eu seja contra, pelo contrário, mas não é a minha linha. Já tinha decidido que ia trabalhar com um tema brasileiro e já me incomodavam os dois paradoxos que apontei. Acho que isso já direcionou o meu trabalho. Só que uma coisa que não dá para negar é que se existe uma etnia injustiçada, uma vez que a nossa raça é a humana, são os negros. Fazer um trabalho que permitisse a reflexão sobre essa injustiça já por si, seria um motivo bem legal. A professora Sonia Luyten, uma das primeiras pessoas no mundo a estudar os mangás, disse que enfrentou muitas barreiras porque os japoneses estranhavam uma “gaijin” se dedicando a um tema que pretensamente era deles e me encorajou nesse aspecto. Ela me disse “se uma loira ítalo-brasileira como eu pode estudar mangás, por que um japonês não pode estudar os negros nos quadrinhos?”. Foi um incentivo e tanto.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h52
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08.11.10

HQM prepara retomada da série Os Mortos-Vivos

 

Os Mortos-Vivos: a Melhor Defesa. Crédito: editora HQM

 

 

 

 

 

 

 

Quinto volume da série de terror, "A Melhor Defesa", está programado para dezembro 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A editora HQM programa para dezembro o lançamento do quinto volume de "Os Mortos-Vivos". O álbum trará os números 25 a 30 da série norte-americana de terror.

"A Melhor Defesa", título da obra, marca a retomada da série aqui no Brasil. O último álbum, "Desejos Carnais", havia sido publicado no fim de outubro de 2009.

Segundo a editora, o intervalo de um ano se deveu principalmente a problemas de licenciamento. Problema sanado, a HQM programa acelerar os lançamentos.

A editora trabalha com a ideia de publicar em 2011 pelo menos mais quatro volumes da série, que mostra a resistência de um grupo ao domínio em massa dos mortos-vivos.

                                                          ***

A HQM não poderia escolher hora melhor para retomar as histórias do título, escritas por Robert Kirkman e desenhadas por Charlie Adlard.

A revista foi adaptada para a TV, o que garantiu uma janela muito maior para a série.

Veículos de imprensa brasileiros, que nunca noticiaram o título, deram na última semana um bom destaque para o seriado, que estreou na semana passada no canal a cabo Fox.

Nesta entrevista ao blog, feita por e-mail, o editor-chefe da HQM, Carlos Costa, comenta o que adiou a volta da série e fala dos planos para "Os Mortos-Vivos" em 2011.

                                                          ***

Blog - Por que o intervalo entre um volume e outro foi tão largo?
Carlos Costa
- Devido a diversos motivos. Um dos mais graves foi a mudança de licenciante, que desde que a série está conosco, já mudou por seis vezes. No ano passado, por exemplo, vários títulos da Image [editora que publica a série nos Estados Unidos] estavam sob responsabilidade da editora francesa Delcourt, que atrasou bastante as negociações. Agora, desde o anúncio do seriado, todo o material do Robert Kirkman está com um novo licenciante, normalizando toda a situação. A partir deste quinto volume, diminuiremos consideravelmente o prazo de lançamento de uma edição para outra.


Blog - Com a série, a editora espera uma nova janela de visibilidade para os álbuns?
Costa
- Com certeza. A estreia do seriado alavancou as vendas dos álbuns já lançados. O volume um, por exemplo, que continua nas comic shops, livrarias e lojas virtuais, chegará novamente às bancas ainda este mês devido à estreia da adaptação televisiva.

Blog - O empurrão comercial dado pelo seriado vai mudar os planos para a série em 2011? Vai haver outros álbuns?
Costa
- Sim, vai haver. Para 2011, já estão programados quatro volumes da série. Dependendo das vendas, poderão sair mais volumes ainda em 2011, fora os quatro programados (volumes 6, 7, 8 e 9).

                                                         ***

Leia resenhas do blog das edições anteriores da série: volume 2, volume 3 e volume 4.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h15
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03.11.10

Por dentro dos sonhos escritos por Neil Gaiman

 

Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman. Crédito: editora Kalaco

 

 

 

 

 

 

Trajetória do escritor é detalhada no livro "Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman", do jornalista Heitor Pitombo 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O chavão seduz dizer que parece que foi ontem a estreia de Sandman no Brasil.

A realidade revela, no entanto, que já faz 21 anos, comemorados neste mês de novembro, que o primeiro número da série começou a ser publicado nas bancas pela editora Globo.

Fato que o livro "Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman" ajuda a (re)lembrar os leitores de ontem e a apresentar à nova geração de hoje (Kalaco, 192 págs. R$ 39).

A obra, escrita pelo jornalista Heitor Pitombo, começou a ser vendida no mês passado nas lojas de quadrinhos e tem lançamento agendado para esta quinta-feira, no Rio de Janeiro.

                                                         ***

Pitombo teve o primeiro contato com os roteiros de Neil Gaiman também em 1989, mas poucos meses antes do número inaugural da série no Brasil.

Foi via "Orquídea Negra", minissérie publicada naquele ano também pela Globo. O jornalista se somou aos vários leitores que passaram a apreciar os textos do escritor.

Embora Gaiman tenha migrado para os romances e os livros infantis - caso de "Coraline", já adaptado para o cinema -, Sandman ainda é sua obra mais lembrada.

Durante participação na Festa Literária Internacional de Parati, no Rio de Janeiro, sua produção literária foi ofuscada por filas enormes de fãs das histórias do mestre dos sonhos.

                                                         ***

A produção de Gaiman é ampla e diversificada. A maior parte dela já foi traduzida para o português, por mais de uma editora. Sandman, o carro-chefe, já teve mais de uma edição.

Pitombo recupera todas elas no livro, inclusive as inéditas. O destaque, claro, é para Sandman, da norte-americana DC Comics, a mesma de Batman e Super-Homem.

Ele faz também uma análise da trajetória de Gaiman e traz uma entrevista com ele, feita em visita ao Brasil em 2001, cinco anos após ele encerrar a série com o mestre dos sonhos.

Nesta entrevista, feita por e-mail, o jornalista carioca, de 46 anos, diz o que o levou a escrever o livro e faz uma análise sobre o papel de Neil Gaiman nos quadrinhos.

                                                          ***

Blog - Por que um livro sobre a obra de Neil Gaiman, em particular Sandman?
Heitor Pitombo
- Creio que qualquer livro que se escreva sobre quadrinhos no Brasil é procedente, mesmo falando de artistas estrangeiros. Temos uma bibliografia ainda muito limitada no que diz respeito ao tema e penso que qualquer obra que venha a ser lançada é bem-vinda nesse contexto. Resolvi investigar a obra de Neil Gaiman porque já havia começado esse trabalho em outra oportunidade e acho de fundamental importância que a história editorial de autores estrangeiros no nosso país seja levantada e analisada. Ainda mais em se tratando do criador de Sandman, um título que ajudou bastante a renovar o tipo de leitor que hoje se interessa por quadrinhos, não só aqui no Brasil como no resto do planeta.
 
Blog - Quando surgiu a ideia do projeto e quanto tempo demorou para ser finalizada?
Pitombo
- Originalmente, essa pesquisa que fiz sobre a obra de Neil Gaiman não partiu de um projeto pessoal e, sim, de uma encomenda do editor Franco de Rosa, que pretendia lançar uma revista sobre o tema por volta de 2001. Na época, Sandman já era uma série cultuada e poderia render uma publicação com algum potencial de vendas. A tal revista acabou sendo cancelada, o projeto foi refeito e o Franco me encomendou mais textos para uma outra edição. Alguns anos mais tarde, depois de um novo cancelamento, o Franco aventou a possibilidade daquele material dar origem a um livro. Em 2007, eu já tinha o conteúdo de "Entes Perpétuos" basicamente definido e um projeto gráfico criado pelo Laboratório Secreto, do meu amigo Marcelo Martinez. O projeto saiu das mãos do Franco e rodou por diversas editoras. Quis o destino que ele voltasse para as mãos do meu caríssimo editor e se tornasse o primeiro lançamento original da Kalaco Editorial [que é de Franco de Rosa].
 
Blog - A leitura do livro traz várias marcas de que se trata de uma obra direcionada a quem já conhece os personagens da DC Comics e também o trabalho de Gaiman, ou ao menos parte dele. Isso não restringe o livro a um público específico?
Pitombo
- Concordo e discordo. As listas de referência, ao mesmo tempo em que parecem servir de guia apenas para quem aprecia a obra de Gaiman, também orientam quem nunca leu um só gibi que ele tenha escrito. E os textos de análise, a entrevista e os depoimentos dão um apanhado não só dos trabalhos dos artistas focalizados, como abordam suas posturas, seus pontos de vista e seu lado mais humano. Nada que seja voltado, necessariamente, para um público muito específico.
 
Blog - O uso de adjetivações no texto - antológicas, brilhantemente, revolucionário - revela um lado fã em relação ao trabalho de Gaiman. Uma foto sua, no final, com Neil Gaiman reforça essa leitura. O quanto desse fã pautou o livro?
Pitombo
- Acho que o fã esteve presente na vontade que tive de apurar as informações com o máximo de precisão. O livro foi meticulosamente revisado e tenta disponibilizar um conteúdo para ninguém botar defeito. Por outro lado, não tive a preocupação de escrever "a obra definitiva sobre Neil Gaiman" e quis lançar um trabalho mais leve, despretensioso. Meu livro funciona como um almanaque, com todas as suas subdivisões de conteúdo. O espaço para análises mais profundas da obra de Gaiman está, naturalmente, aberto para quem quiser se aventurar.
 
Blog - A entrevista com Neil Gaiman, embora inédita, é de uma passagem dele pelo Brasil em 2001. Houve intenção de atualizar a conversa?
Pitombo
- Acho que a entrevista captura um momento específico da carreira de Gaiman, que eu pude testemunhar in loco, e sua inclusão dentro do livro, da maneira que fiz, faz todo o sentido em se tratando do projeto específico de "Entes Perpétuos". Também considerei que, há alguns anos, a HQ Maniacs lançou o "Passeando com o Rei dos Sonhos", um livro que trazia apenas entrevistas com Neil e vários de seus colaboradores. Por isso, optei por dar ênfase a um outro tipo de conteúdo no meu livro.
 
Blog - Na sua leitura, qual o melhor trabalho dele no seu entender e, olhando em perspectiva, qual foi o papel que o escritor exerceu nos quadrinhos?
Pitombo
- A obra de Gaiman que mais me cativa pessoalmente nunca foi lançada no Brasil. Trata-se de "Signal to Noise", uma série que saiu em capítulos na revista "The Face" e que, depois, foi compilada numa edição encadernada que foi lançada nos Estados Unidos pela [editora] Dark Horse. O texto é de um lirismo ímpar e, na minha modesta opinião, nunca a arte do Dave McKean me pareceu tão deslumbrante quanto nesse trabalho. Gaiman, aliás, é responsável por impor esse tipo particular de lirismo ao quadrinho mainstream norte-americano. Mais do que conterrâneos e contemporâneos como Alan Moore, Jamie Delano ou Garth Ennis, que têm seu quinhão de importância dentro da história recente do quadrinho britânico, ele soube colocar um elemento feminino em seus roteiros, a ponto de chamar a atenção do "sexo frágil" para uma cultura que, em grande parte, só diz respeito aos homens.
 
Blog - Há algum outro projeto de livro em pauta?
Pitombo
- Claro que sim, mas prefiro não entrar em detalhes...

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Entes Perpétuos - O Universo Onírico de Neil Gaiman". Quando: quinta-feira (04.11). Horário: 20h. Onde: livraria Baratos da Ribeiro. Endereço: rua Barata Ribeiro, 354, loja D, Rio de Janeiro. Quanto: R$ 39.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h50
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