Ilustração feita por Custódio especialmente para o blog

 

 

 

 

 


Perfil da rede social foi criado pelo desenhista Custódio e brincava com caso eleitoral envolvendo José Serra 

 

 

 

 

 

 

 


Um cartunista paulista ajudou a acentuar na internet um dos episódios mais polêmicos da última eleição presidencial, o do objeto jogado na cabeça do então candidato José Serra.

O artefato foi arremessado durante comício do tucano em no calçadão de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, no dia 20 de outubro.

As primeiras imagens mostravam Serra com a mão na cabeça e sendo socorrido num hospital, onde fez tomografia. Poucas horas depois, vídeos mostravam outras versões.

Uma delas é que o ex-governador havia sido atingido por uma bolinha de papel. Ficou a dúvida se foi esse o objeto que o teria machucado. A certeza é a polêmica que gerou.

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Em poucas horas, o caso já ecoava no Twitter. Estava entre os assuntos mais abordados do dia - e dos dias seguintes - na rede social.

O tom dos comentários era irônico: como uma bolinha de papel pode machucar tanto? Foi nesse espírito que o cartunista Custódio teve a ideia de criar o perfil @Bolinha_de Papel.

As frases de 140 caracteres - o limite imposto pelo Twitter - brincavam com o caso. Algumas abordavam os fatos eleitorais. Outras procuravam personalizar a tal bolinha.

Algumas delas: "Me amassa que eu gostcho"; "Não sou PT nem PSDB, sou Chamex PH neutro!"; "Aos meus detratores, aviso que meu passado é uma folha em branco".

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O perfil foi criado às 11h da manhã do dia seguinte do caso. Às 15h, já tinha cerca de dois mil seguidores. Foi notícia nos jornais "A Tarde", da Bahia, e "O Globo", do Rio de Janeiro.

"Quando vi o episódio da bolinha de papel, aquele circo todo, me espantou a mise en scene", diz o cartunista paulista, que viu no caso um "teatro armado".

Ele ainda mantém o perfil ativo. Registrava, na tarde deste sábado, 3.376 seguidores, muito mais do que as outras três bolinhas de papel criadas no Twitter, que têm, somadas, 566.

Hoje, a política se tornou apenas um dos temas abordados com humor na rede social. A Bolinha_dePapel brinca também com futebol, fatos internacionais, entretenimento.

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Custódio diz que pretendia votar nulo. O acirramento na disputa - e o caso da bolinha - o levaram a optar. "No 1º turno, votei na Dilma, sem muita convicção. No 2º, foi mais convicto."

"Depois de um presidente totalmente político e populista, uma entidade quase extracorpórea como o Lula, dois candidatos tecnicos seriam ótimas opções. ena que a campanha odiosa estragou a qualidade do debate."

O trabalho em quadrinhos mais recente de Custódio é uma biografia de Anita Garibaldi, obra custeada com verba de incentivo cultural do governo paulista e lançada neste ano.

Nesta entrevista, o desenhista de 43 anos comenta sobre os novos projetos e diz por que decidiu tornar público o perfil. A conversa começa sobre como ele interpretou o caso.

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Blog - No seu entender, houve fingimento ou supervalorização do candidato José Serra no caso?
Custódio
- Evidentemente. Eu tenho parafusos e pinos nas duas pernas por causa do futebol. Já vi um rapaz levar um soco de um goleiro em uma disputa de bola, sair como nariz totalmente deformado e torto, pegar o carro e ir pro hospital sozinho, e de lá pra mesa de cirurgia. Veja, não é um elogio à violência, nem prova de "macheza latina". É mais uma prova do caráter da  pessoa em certas situações adversas. Compare com a outra candidata, sendo torturada por três anos. Ou do vice-presidente José Alencar, que enfrenta situações difíceis com inacreditável galhardia. Ou com alguém que espera um ano pra fazer uma tomografia no SUS (Sistema Único de Saúde). Não calcularam nada disso, quiseram aproveitar uma oportunidade, sem perceber que caíam no ridículo. Fizeram a alegria de quem já via os dilmistas como vândalos selvagens, mas perderam eleitores que esperavam um homem forte e de postura altiva suficiente para comandar a nação. No contraste com esses exemplos, ficou nítido um dilema: ou é um homem frágil fisicamente, que não suporta um tranco de campanha, ou frágil moralmente, que usa disso para faturar. Acredito que o [Geraldo] Alckmin, o [Mário] Covas ou o próprio Fernando Henrique Carodos não seriam capazer daquele teatro. Sob esse aspecto, eles têm mais hombridade. A pesquisa três ou quatro dias depois mostrou a inversão de ascensão do Serra. Não duvido que foi consequência.

Blog - Por que revelar agora que se trata de você no perfil do Twitter?
Custódio
- Na verdade, como piada, ficou velha. Tenho uma quantidade grande de seguidores, gente pensante, pessoas surpreendentes, engraçadas e inteligentes, que me abasteceram de comentários ótimos nesse período. Alguns pediram para o perfil continuar. A tendência é, depois de passada a tensão da eleição, as coisas se afrouxarem e o perfil desparecer. O que fazer? Não sei se sabendo quem é o autor, vão continuar seguindo um twitter mais de humor do que de ataque a tucanos.

Blog - Qual o destino que você pretende dar ao perfil Bolinha_dePapel?
Custódio
- Não tenho muita certeza. São 3.500 seguidores, talvez eu mantenha enquanto eles me aturarem.

Blog - No seu entender, houve algum papel - sem nenhum trocadilho - do perfil criado por você nesse processo eleitoral?
Custódio
- Seria muito pretensioso. Mas a repercussão do caso em si, do qual meu perfil era só uma paródia, acredito que ajudou a cristalizar uma diferença  de votos que diminuía até então. Foi um erro crasso do comando da campanha. Até então minha posição era de quase neutralidade, embora eu tenha uma inclinação para votos mais à esquerda. A campanha era muito baixa. Mas a partir dali me pareceu que havia um lado para qual eu devia pender.
 
Blog - E qual o papel que as redes sociais, em particular o Twitter, exerceram nesse último pleito?
Custódio
- A hastag #serrarojas entrou nos TT mundiais. A #bolinha de papel também, entre outras coisas. Com o acirramento da campanha e a adoção de uma das candidaturas pela imprensa estabelecida, coisa que o próprio Claudio Lembo declarou, as redes sociais abasteceram aqueles que não concordavam com o jeito que a coisa estava sendo expostas pela imprensa. Claro que há extremismos dos dois lados, mas a internet mostrou um poder de reunir blocos e propagar informações (muitas vezes totalmente mentirosas) que deve se tornar mais substancial nos próximos anos. Os palmeirenses já fazem isso com a chamada "Mídia Palestrina", rede de sites e blogs que veiculam noticias do time, que costuma ser  mais maltratado pela mídia esportiva do que os outros dois coirmãos. Por outro lado, o acirramento e a desinformação promovido pela campanha levou à manifestações xonofóbicas logo  no dia seguinte ao pleito. Isso também faz parte das mídias sociais.

Blog - No âmbito dos quadrinhos, quais seus próximos projetos? Anita Garibaldi?
Custódio
- A gente sempre tem vários projetos autorais concomitantes, esperando que um dê certo. No momento estou fazendo um livro sobre empatia e comunicação em parceria com uma psicóloga. São os frilas e os "jobs" que nos sustentam. A segunda parte da Anita é prioridade, mas depende de alguns fatores pra eu ter condições de fazer.