Todo el Polvo del Camino. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Capa da edição espanhola de "Toute la Poussière du Chemin", obra de Wander Antunes que concorre ao prêmio Angoulême 

 

 

 

 

 

 

 

 

O roteirista brasileiro Wander Antunes nunca foi à França. Mas os leitores de quadrinhos de lá sabem muito quem ele é.

O contato se deu por meio do álbum "Toute la Poussière du Chemin". A obra escrita por ele foi indicada em três premiações francesas, uma delas o Angoulême, a principal da Europa.

O trabalho foi publicado na França no ano passado pela editora Dupuis. Ganhou rapidamente versões na Espanha, Bélgica e Canadá. No Brasil, permanece inédita.

"É sempre bom quando um trabalho é bem recebido - no final das contas acho que uma indicação significa que os leitores, inclusive os jurados dos festivais, estão dizendo sim para o trabalho que leram", diz o roteirista, por e-mail.

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"Toute la Poussière du Chemin" narra a história de Tom, uma das vítimas da Grande Depressão norte-americana, iniciada em 1929 e continuada na década seguinte.

Ele aceita ajudar na busca de um garoto, filho de um homem que havia resgatado num acidente de carro. Ao ver a fotografia do menino, Tom se lembra de ter cruzado com ele quando ambos "roubaram" uma carona num trem.

O uso dos Estados Unidos como pano de fundo para a trama é um recurso já utilizado pelo roteirista em outros trabalhos. Segundo ele, trata-se de uma ligação com a literatura.

"John Steinbeck e Jack London são meus heróis literários, queria me ligar a eles de alguma maneira. ´Toute la Poussière du Chemin´ é uma espécie de homenagem a esses caras."

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Apesar da indicação à seleção oficial do Angoulême, ainda não será desta vez que irá conhecer a Europa. Pretende acompanhar o resultado em Cuiabá, onde mora com a esposa.

Goiano de Jataí, Antunes já teve outros roteiros publicados na França, país que tem um mercado de quadrinhos adultos bastante aquecido.

"Não é que eu produza para o mercado francês, é que eles me compram e editam", diz. "Tenho várias histórias prontas ou meio prontas e as apresento para vários editores, daqui e de lá e de outros países", diz.

"O que fiz, e por isso comecei a produzir para os franceses, foi apresentar minha produção também aos editores de lá. Os franceses dizem sim, basicamente é por isso."

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A seleção editorial não é a única dificuldade a ser superada por ele. Antunes não fala francês. Contorna o problema com o espanhol, língua com a qual escreve os roteiros. O texto, depois, passa por um tradutor. 

O domínio do castelhano ajudou no contato com autores de lá, algo que vem de anos atrás.

Quadrinistas espanhóis eram figuras recorrentes na revista "Canalha", que editou entre dezembro de 2000 e abril do ano seguinte.

A revista da Brainstore durou três edições. Ganhou uma sobrevida em 2003, numa edição especial lançada pela Opera Graphica.

 

O Corno que Sabia demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

"O Corno que Sabia Demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa", álbum lançado no Brasil em 2007 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A "Canalha" tinha como carro-chefe as histórias de "Zózimo Barbosa", detetive de casos extraconjugais criado pelo escritor e um dos motivos para a criação da revista.

As histórias que circularam na publicação - e outras, produzidas depois - foram reunidas em 2007 no álbum "O Corno que Sabia Demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa".

Foi a última aparição do personagem. O roteirista planeja o retorno dele no livro "Chanchada Noir". "Mas é prosa, como HQ o Zózimo acabou."

O álbum de Zózimo foi um dos poucos lançados por Antunes no Brasil. Ele havia publicado por aqui "Crônicas da Província", em 1999, e "A Boa Sorte de Solano Dominguez", em 2007. Ambos foram desenhados por Mozart Couto.

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O ano de 2011 marca um retorno dele aos álbuns nacionais. Antunes assina a adaptação do romance "Clara dos Anjos", de Lima Barreto (1881-1922).

A obra será publicada pela Companhia das Letras e é desenhada por Lélis, outro brasileiro que tem se inserido no mercado francês de quadrinhos.

O roteirista diz ter também outros textos que pretende apresentar a editoras. E um "projeto secreto", feito em parceria com outro brasileiro.

Nesta entrevista, ele comenta os trabalhos presentes, passados e futuros, e fala das parcerias, como a que teve com o espanhol Jaime Martin em "Toute la Poussière du Chemin".

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Blog - No seu entender, a participação de Jaime Martin ajudou de alguma forma na repercussão do álbum na Europa?
Wander Antunes
- O Jaime é um nome já bastante conhecido, sobretudo na Espanha, ele é muito talentoso e é muito querido por lá - além de ser a pessoa mais fácil de lidar com quem já trabalhei. A participação dele foi determinante. Ah, importante, só realizei esse trabalho para a Dupuis porque o Jaime me convidou. Ele é que é o cara.

Blog - Como foi o convite de Jaime Martin para roteirizar o álbum? 
Antunes
- Ele havia feito seu primeiro álbum para a Dupuis, "Ce que le Vent Apporte", e queria relaxar um pouco de escrever e desenhar. Daí me convidou para desenvolver algumas ideias que já tínhamos esboçado nos dois últimos números de "El Víbora". Por isso esse caráter episódico de "Toute la Poussière du Chemin", com uma história principal, a do Tom buscando o menino, e os vários pequenos contos ao longo da busca. Eu tinha uma série de histórias curtas que se transformaram numa HQ longa.

Blog - No terceiro número da revista "Canalha", criada e editada por você, havia uma história dele. O contato surgiu daí?
Antunes
- Sim, meu contato com o Jaime vem desde os tempos da "Canalha". Desde então temos falado sobre um trabalho conjunto, chegamos a publicar duas histórias curtas nos dois últimos números de "El Víbora" [revista espanhola de quadrinhos].

 

Canalha 1. Crédito: reprodução   Canalha 2. Crédito: reprodução

 

Canalha 3. Crédito: reprodução   Canalha Especial. Crédito: reprodução


 

Blog - Por que a "Canalha" não deu certo naquele momento? Há planos de algo nesse sentido? 
Antunes
- Sei lá, talvez o tempo das revistas tenha passado. Se eu pretendo editar outra vez? Acho que não.
 
Blog - Ainda falando da "Canalha", você comenta na apresentação da primeira edição da revista, de dezembro de 2000, que o mercado brasileiro de quadrinhos de então "ia mal (vai mal!)". Dez anos depois, sua opinião permanece a mesma? 
Antunes
- Acho que o cenário ainda é ruim, talvez um pouco melhor que há dez anos. O fato novo são as compras governamentais, que tem ajudado a movimentar o setor. Enfim, segue um mercado difícil, mas em alguma medida melhorou.
 
Blog - Seu último trabalho no Brasil foi "A Boa Sorte de Solano Dominguez", pela Desiderata. Você tem outros planos para publicar o mercado brasileiro? Ou então de editar aqui obras já lançadas no exterior? 
Antunes
- Tenho sim. Finalizei ainda há pouco a adaptação de Clara dos Anjos para a Cia das Letras e já apresentei uma proposta de outro livro pro André Conti [editor da Companhia]. Agora é ver se eles dizem sim. Não sei de interesse editorial por minha produção francesa, andei cutucando aqui e ali, mas acho que não há interesse editorial por esse material. Ah, e estou trabalhando junto a um grande desenhista brasileiro num "projeto secreto". Estamos fazendo pra nós, por vontade de produzir o material, mas sem saber pra quem oferecer. Pode sair no Brasil ou em outro país, ainda não sabemos.
 
Blog - Ganha-se bem para produzir um álbum para o mercado europeu? 
Antunes
- Razoavelmente bem, ao menos para os meus padrões. Aprendi a viver com muito pouco, sou de baixa classe média, não consumo quase nada e nem vou a lugar nenhum.
 
Blog - É possível viver apenas disso hoje? Ou você faz outros trabalhos, em outras áreas? Se sim, quais?
Antunes
- Vivo de quadrinhos e faço, muito raramente, um ou outro house organ [publicação empresarial].
 
Blog - Na edição espanhola de "Toute la Poussière du Chemin", você comenta que entre a sinceridade da ficção e a biografia mentirosa você optou pela primeira. Como você enxerga os recentes trabalhos autobiográficos em quadrinhos, tanto nacionais quanto estrangeiros? 
Antunes
- Sou mentiroso e mentirosos tendem a não levar biografias e nem autobiografias muito à sério. Talvez eu ache que autobiografia seja apenas ficção travestida de realidade. Ou talvez não pense isso e não esteja dizendo isso. E se estiver, ou parecer que disse, eu nego. Essa minha fala que saiu na edição espanhola do livro teve a ver com o fato de eu ter contado um episódio da minha vida - em parte era verdade e em parte era mentira, acho que um por cento do que eu disse era verdadeiro ou era uma quase verdade ou apenas uma meia mentira - para um editor ou alguém próximo a um editor, não me lembro bem, e aí me propuseram algo do gênero e eu disse que não faria. Vivemos um tempo curioso, muitos editores parecem ter perdido o interesse em ficção. E muitos leitores também. Chegamos num ponto em que se eu contar um negócio qualquer e dizer que aquilo aconteceu a coisa parece ficar mais interessante, ganhar um valor adicional. Tem uma onda confessional rolando, e não é só na HQ, mas estou fora dela.