• "Noturno" abre coleção de histórias argentinas publicadas na revista "Fierro"
  • Obra começou a ser vendida neste fim de mês em livrarias e lojas de quadrinhos
  • Álbum é escrito e desenhado por Salvador Sanz, dono de estilo hiper-realista


 

Noturno. Crédito: editora Zarabatana

 

 

O desenhista Salvador Sanz defende que sua melhor obra é sempre a mais recente. Não seria ela, então, "Noturno", seu penúltimo trabalho produzido na Argentina.

A trajetória do álbum, no entanto, contradiz as palavras do quadrinista. A história é, sem dúvida, seu trabalho mais (re)conhecido. Pelo menos até o momento.

Mede-se isso pela repercussão. Já chegou à Espanha, está pronta para aportar na Itália e chega neste fim de mês ao leitor brasileiro (Zarabatana, 144 págs., R$ 41).

O trabalho inaugura uma série de obras em quadrinhos impressas originalmente na revista "Fierro", a mais importante publicação de quadrinhos da Argentina na atualidade.

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Este número inaugural da "Coleção Fierro" mostra uma história de realismo fantástico, mostrada com uma arte hiper-realista, marcas da produção de Sanz.

O álbum narra os problemas de dois jovens, Lúcio e Lúcia, após descobrirem que são canais de entrada para estranhos seres na forma de enormes pássaros, os tais noturnos.

As enigmáticas aves se valem do corpo dos homens para passar à nossa dimensão. Os dois jovens descobrem, então, que para enfrentarem essa ameaça precisam se unir.

União que se desenhava desde o início da narrativa. Ambos participaram de um mesmo um show de magia. As metamorfoses começaram após a apresentação.

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"Noturno" foi publicada em capítulos na "Fierro", que é publicada mensalmente com quadrinhos de autores argentinos. A história teve início em maio de 2007.

Durou dois anos e dois meses para ser concluída. Foi compilada em álbum em 2009. E se tornou uma janela para o trabalho de Sanz.

Este morador de Buenos Aires, de 35 anos, é hoje um dos mais proeminentes autores da nova geração de quadrinistas argentinos.

Diferencia-se por seguir a escola da ficção científica, iniciada e popularizada nos quadrinhos do país pelo roteirista Héctor Germán Oestrehled, criador da série "El Eternauta".

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Os primeiros trabalhos de Sanz foram no circuito independente. Editou com colegas, durante seis anos, um fanzine chamado "Catzole". Depois, migrou para a animação.

Produziu alguns curtas, como "Gorgonas", outro representante de sua inclinação pelo realismo fantástico, e dois álbuns "Desfigurado" e "Legion".

Hoje, divide os quadrinhos com storyboards e aulas de desenho. Não vive de quadrinhos, como a maioria dos autores da Argentina. "Mas, sim, vivo do desenho", diz. Atualmente, produz outra série para a "Fierro", "Ángela Della Morte".

Às vésperas de ser pai de uma menina, ele arrumou algumas brechas de tempo para responder à entrevista a seguir, feita após uma série de trocas de e-mails.

 

Trecho de Noturno. Crédito: editora Zarabatana

 


Blog - Há um estilo hiper-realista em seus desenhos e uma temática fantástica em seus roteiros. Quando você descobriu essas características para a criação de histórias em quadrinhos?
Salvador Sanz
- Desde sempre gostei do gênero fantástico, é o gênero que sempre me interessou narrar. Ele tem um cenário real, um aspecto reconhecível que o leitor pode identificar. Gosto que a fantasia vá inundando a realidade aos poucos até transbordá-la. Sempre tratei de desenhar de forma realista, um estilo que esteja a serviço da história. Acredito que, em um estilo realista, o elemento fantástico contrasta ainda melhor. Trata-se de representar algo que não existe, desenhado da forma mais realista possível.

Blog - "Noturno" narra uma história entre dimensões. O que você procurou mostrar nessa história em quadrinhos?
Sanz
- Uma das coisas que me interessam no gênero fantástico é que se pode criar um mundo novo, e é algo a que me propus fazer em "Noturno". Imaginei uma estranha fauna de aves inteligentes e o lugar de onde vieram. E logo mostrei a interligação com a nossa realidade. Essa história foi se armando aos poucos na minha cabeça, fui descobrindo episódios e, à medida que os ia publicando, comecei a pensar [a trama] como um todo. Por isso, usei muito improviso no roteiro.

Blog - Você acredita que "Noturno", hoje, seja o seu melhor trabalho?
Sanz
- Em cada obra que trabalho, eu me envolve de forma completa, por isso é que gosto de fazer tudo, o roteiro e os desenhos, É algo muito pessoal e, enquanto faço, perco objetividade e sempre penso que estou produzindo minha obra-prima. No momento em que a vejo editada, posso ver os acertos e os erros do meu trabalho. Mas creio que sempre há uma evolução em meu trabalho, por isso que gosto mais do último. Diria a você que o meu melhor trabalho é "Ángela Della Morte", que é posterior a "Noturno".

Blog - Como é esse novo trabalho para a "Fierro" ["Ángela Della Morte"]? Há planos para ser compilado em livro?
Sanz
- "Ángela Della Morte" é uma nova série de ficção científica com algo de horror que estou publicando para a "Fierro". Trata de uma misteriosa organização que aprendeu a separar a alma do corpo e que pode mudar de corpos como se fossem roupas. Já tenho umas 80 páginas feitas e, em um mês, sai o primeiro livro na Argentina. A ideia é que haja um segundo livro desse personagem, que em breve vai continuar na "Fierro".

Blog - Qual a sua leitura do mercado argentino de quadrinhos de hoje? Está melhor que, digamos, o de dois anos atrás?
Sanz
- Que haja uma revista "Fierro" nas bancas todos os meses publicando os novos autores é algo significativo. Logo surgiram outras revistas mais independentes no formato antologia, como a "Comic.ar" e a "Murcielaga". Há também algumas editoras de narrativas gráficas com autores muito bons, três editoras que editam mangás e outra que lança Marvel e coisas americanas. Não é muito, mas estamos melhor do que os anos 1990.