30.12.12

Mais uma chance

 

  • Abril define os três trabalhos selecionados no concurso de novos personagens
  • Vencedor ganha R$ 5 mil; direitos sobre série ganhadora ficam com a editora
  • Esta é a segunda edição do concurso; na primeira, projetos foram cancelados

 

Meninos e Dragões, 1º colocado no Prêmio Abril de Personagens

 

A editora Abril divulgou neste fim de ano os trabalhos vencedores do Prêmio Abril de Personagens. O objetivo é mapear novas séries para o público leitor entre 7 e 12 anos.

Três projetos foram selecionados. Em primeiro lugar, ficou Meninos & Dragões, de Lucio Luiz e Flavio Soares. A imagem que abre esta postagem é de da história inaugural da série.

Remitchéins, de André Sette (sobre criações que vivem num mundo próprio), e a mística Lua de Pedra, de Sander, ficaram em segundo e terceiro lugares, respectivamente.

Segundo o regulamento do concurso, o autor do projeto vencedor receberá R$ 5 mil. Em troca, cede os direitos autorais à editora, para serem usados em diferentes mídias.

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O fluminense Lucio Luiz, escritor do projeto vencedor, diz que a editora já teve uma primeira conversa com ele. A proposta é criar uma revista da série para este início de 2013.

Seguindo a descrição dele, o projeto enfoca quatro crianças, que moram num reino chamado Odilon.

A terra medieval, nas palavras dele, seria uma mistura de elementos traidicionais, como cavaleiros, dragões e fadas, com outros, modernos, como videogames, skate e futebol.

"Quando estava bolando um universo que pudesse ser interessante para o público infantojuvenil, me lembrei das brincadeiras das crianças pequenas, que, quando criam seus ´mundos próprios´, não têm as mesmas amarras criativas dos adultos."

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A seleção contou com três fases. A última expunha páginas das séries na internet para serem votadas pelo público.

O resultado final foi a combinação entre os que tiveram melhor votação (40% do peso) e os mais bem avaliados pela comissão julgadora (equivalente aos 60% restantes).

Esta é a segunda edição do prêmio. A primeira, realizada no ano passado, selecionou dois projetos, "UFFO - Uma Família Fora de Órbita" e "Garoto Vivo na Villa Cemitério".

Os dois projetos se somaram a um terceiro, "Gemini 8", da TV Pinguim", e ganharam revistas próprias. Os primeiros números números foram lançados há exatamente um ano.

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Embora ganhassem um segundo número, nenhuma das revistas foi adiante. Esta nova edição do prêmio é mais uma tentativa da editora de atingir o segmento infantil com conteúdo nacional, setor hoje liderado pela Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa.

O que restou dos projetos, pelo menos até o momento, são descrições dos personagens e material interativo, disponibilizados no site da revista infantil "Recreio", do grupo Abril.

O prêmio se soma à estratégia da editora de expandir o espaço nas prateleiras das bancas, política que teve início há dois anos. O número de títulos da Disney foi ampliado.

Neste ano, a Abril passou a apostar também no segmento dos mangás, os quadrinhos japoneses. Pôs à venda a série "Gen". A revista ainda é publicada.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h48
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10.12.12

Coletânea nacional

 

  • Obra da editora Draco pretende reunir histórias de diferentes autores brasileiros
  • Proposta é abordar fantasia, terror e ficção científica em narrativas completas
  • Publicação está programada para janeiro; ideia é dar continuidade à série

 

Imaginários HQ. Crédito: editora Draco

 

É comum ouvir nos bastidores editoriais esta pergunta: o mercado brasileiro não comporta uma obra que reúna diferentes quadrinistas nacionais?

Experiências assim até existem, voltadas a projetos especiais ou ambientadas no circuito independente. Mas são, de fato, raras no meio comercial, daí a recorrência do questionamento.

É justamente nesse setor que a Draco pretende apostar. A editora pretende pôr no mercado uma obra nesses moldes, com temas que dialoguem com seu catálogo, voltado à literatura fantástica.

Batizado de "Imaginários em Quadrinhos", o projeto está programado para ser lançado no fim de janeiro. Na edição de estreia, as histórias em quadrinhos abordarão fantasia, terror e ficção científica.

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Os trabalhos do número inaugural serão feitos por autores de diferentes estados do país: Raphael Salimena, Dalton, Camaleão, Alex Mir, Alex Genaro, Zé Wellington, Marcus Rosado, Jaum e Dalton.

Embora nem tenha sido publicado ainda, a editora já planeja o rol de autores do segundo volume. Gian Danton, Flávio Luiz, Azeitona e Mateus Santolouco estão os nomes citados.

A periodicidade da publicação não foi definida. Planeja-se pôr nas livrarias e nas lojas de quadrinhos de duas a três obras por ano.

"Inicialmente, vamos publicar as antologias ´Imaginários em Quadrinhos´, mas já estamos estudando propostas para publicação de alguns álbuns nos próximos anos", diz Raphael Fernandes, editor do projeto.

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Não é a primeira vez que Fernandes trabalha na edição de trabalhos nacionais. É ele que tem cuidado da parte brasileira da "Mad", revista de humor publicada mensalmente pela editora Panini.

"Apesar de eu não ser humorista, editar a ´MAD´é uma das atividades mais dinâmicas, divertidas e realizadoras que o mercado de quadrinhos tem a oferecer", diz.

"Enquanto for interessante pra mim, pros leitores e pra Panini, continuarei no comando da ´MAD´."

A nova experiência surgiu, segundo ele, a partir de seu lado autoral. Depois de ter entregado três histórias em quadrinhos aos donos da Draco, foi convidado para editar a "Imaginários em Quadrinhos".

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Segundo Fernandes, o primeiro número terá seis histórias de 20 páginas cada uma. Todas serão em preto-e-branco. O formato da obra será 17 cm por 24 cm. O preço será R$ 34.

O blog refez ao editor a pergunta que abre esta matéria. Há espaço para uma coletânea de autores nacionais no atual mercado de quadrinhos do país?

"Acredito que o atual mercado precisa de um espaço para os autores de quadrinhos do país mostrarem seu trabalho", diz.

"Quanto mais revelarmos novos quadrinistas, mais eles mesmos trarão novos leitores para os quadrinhos."

Escrito por PAULO RAMOS às 07h53
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07.12.12

Uma tira, três pontos de vista

 

  • Ponto de vista 1, da imprensa: prova de instituto federal usa tira pornográfica
  • Ponto de vista 2, do IFES, que aplicou o exame: processo interno apura o caso
  • Ponto de vista 3, do autor, até agora esquecido: "um serviço de amadores"

 

Malvados, de André Dahmer. Crédito: blog do autor

 

André Dahmer é categórico: "Um serviço de amadores". E completa: "Não dei qualquer autorização para a publicação da tira, também não deram créditos para o autor da obra".

O  comentário do desenhista era sobre o uso de uma tira dele em um exame aplicado pelo Ifes (Instituto Federal do Espírito Santos) no domingo passado (02.12).

A prova selecionava candidatos para cursos técnicos integrados ao Ensino Médio, que têm torno de 14 anos. A questão era a segunda da prova de Língua Portuguesa.

O assunto não ficou restrito ao caderno de questões. Foi noticiado nesta semana por diferentes veículos da mídia virtual. A maior parte rotulou a tira como pornográfica.

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"Prova de instituto federal tem questão com tira pornográfica e causa polêmica no Espírito Santo" foi a manchete da seção de Educação do UOL, portal que hospeda este blog.

"Prova causa polêmica ao trazer questão com imagem de sexo no Espírito Santo", informou o R7. O site nublou a imagem final da tira, na tentativa de "não expor" o leitor ao conteúdo.

O jornalista Reinaldo Azevedo, em blog hospedado no site da revista "Veja", creditou o uso da tira a uma "suposta tentativa de modernizar a linngaugem das provas de seleção ou de avaliação, na suposição de que se está a usar o ´universo do educando".

Na leitura dele, é uma das "heranças malditas" do educador Paulo Freire, que ajuda a manter a educação brasileira "no buraco". "Não é o único lixo intelectual que ele deixou."

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Os textos jornalísticos incluíram a nota de esclarecimento emitida pelo Ifes, reproduzida também no site do órgão federal.

O instituto diz que a tira procurava abordar estratégias utilizadas pela propaganda e que a banca elaboradora da prova não viu a história com olhar pornográfico (sic.).

"O último quadro", diz a nota, "é uma sequência dos primeiros, que sugerem o tipo de leitura pretendido". As tiras cômicas costumam ter o desfecho de humor na cena final.

Na última quinta-feira (06.12), o instituto informou no site que, diante das reações de indignação recebidas, abriu processo interno para esclarecer oficialmente o uso da tira.

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As notícias não ouviram um dos lados envolvidos na história, o autor da tira, André Dahmer. Ausência que o blog procura agora corrigir.

Além de sintetizar o caso como um "serviço de amadores", o desenhista esclarece que o tema central da tira era o abuso da publicidade, e não o sexo oral.

"De qualquer forma, o sexo oral não deve ser visto como tabu", conclui. "Todos nós precisamos dele."

A tira foi originalmente veiculada no blog do autor. Dahmer é conhecido pela série "Malvados", tira criada em 2001 e publicada tanto na internet quanto na "Folha de S.Paulo".

Escrito por PAULO RAMOS às 20h55
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06.12.12

Mago revisitado

 

  • Livro traz coletânea de Vostradeis, publicado na extinta revista "Níquel Náusea"
  • Mago charlatão é um dos poucos personagens humanos de Fernando Gonsales
  • Histórias foram colorizadas; obra tem lançamento nesta quinta-feira em São Paulo

 

Vostradeis. Crédito: editora Devir

 

Vostradeis seguramente não iria prever que suas histórias seriam compiladas num livro, publicado pela editora Devir (112 págs., R$ 52,50). Nem que seria em capa dura.

O alquimista também não acertaria a previsão de que o lançamento da obra seria nesta quinta-feira à noite, dia 6, na Livraria HQMix, em São Paulo.

O mago não acertaria nenhuma das visões do futuro pelo simples fato de não dominar a contento a arte. Pelo contrário. Era, e ainda é, mais conhecido pelo charlatanismo.

Ou, como é descrito no subtitítulo da publicação, ele seria "o mago, o mito, o picareta". Características que pontuam as 14 histórias reunidas no livro.

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Não é gratuita a precisão de escrever que Vostradeis "era" e "ainda é" mais conhecido por ser picareta. O presente do verbo é porque suas narrativas são revisitadas na obra.

O uso do passado é porque o personagem marcava ponto na extinta revista "Níquel Náusea", de Fernando Gonsales, publicada nas bancas entre 1988 e 1996.

O mago charlatão aparecia sempre nos números pares da publicação. A estreia ocorreu no número dois, de outubro de 1988.

Vostradeis se diferenciava das demais criações de Gonsales por dois motivos: 1) era um dos poucos personagens humanos dele; 2) era mostrado em narrativas mais longas.

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São pontos que destoam da imagem que a nova geração de leitores de quadrinhos ou quem acompanha os jornais diariamente têm do desenhista.

Gonsales é mais conhecido por criar as tiras cômicas de Níquel Náusea, camundongo que vive nos esgotos e seu personagem mais popular.

"Lidar com histórias mais compridas é uma coisa bem diferente que as tiras. Tem um enredo, que vai se desenvolvendo, é muito bacana", diz o autor, por e-mail.

"Só aguardo o momento em que eu possa me dedicar novamente a esse tipo de trabalho. E fazer personagens humanos também é bem diferente, apesar de os humanos serem também animais."

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Dos animais humanos, Vostradeis divide o pódio das criações de Gonsales com Benedito Cujo, adolescente que vive os percalços de quem vai prestar vestibular.

Gonsales conta que tem planos de reunir também histórias do vestibulando. De concreto, por enquanto, há uma nova coletânea de tiras de Níquel Náusea. Uma vez mais pela Devir.

E o lançamento de Vostradeis, claro. A ideia de criar um feiticeiro medieval surgiu de uma conversa com o cartunista, Spacca, na época um colaborador regular da revista.

"O Spacca fez um desenho que serviu de base para a forma  do Vostradeis. Era uma história avulsa, mas eu me empolguei e fiz várias outras dele."

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Gonsales admite que tem vontade de retomar o personagem. O resultado final da coletânea ajudou a dar uma cutucada a mais. Vostradeis ganhou tratamento de luxo.

Além da capa dura, as histórias, originalmente feitas em preto-e-branco, foram todas colorizadas. O trabalho foi feito pela esposa do desenhista, Marília di Lascio.

"São cores estranhas, que compõem a atmosfera da Idade Média e deu um ar classudo às histórias", diz o cartunista, que é formado em Veterinária e Biologia.

"Fazia muito tempo que eu planejava editar o Vostradeis, e agora saiu como eu queria."

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Serviço
Lançamento de "Vostradeis - O Mago, o Mito, o Picareta", de Fernando Gonsales. Quando: hoje (06.12). Horário: das 19h às 22h. Onde: Livraria HQMix, em São Paulo. Endereço: rua Tinhorão, 124. Quanto: R$ 52,50.

Escrito por PAULO RAMOS às 09h16
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03.12.12

Quarto Mundo encerra atividades

 

  • Cinco anos depois de ser criado, coletivo independente decide parar
  • Motivos passam por desgaste natural, centralização dos trabalhos e novos projetos
  • Grupo fará festa no próximo dia 15, em São Paulo, para esgotar o catálogo de HQs

 

 

Autores do Quarto Mundo vão se reunir no próximo dia 15, às 18h, na Livraria HQMix, em São Paulo, para vender obras do catálogo do grupo independente, criado há cinco anos.

Será o último encontro oficial dos quadrinistas. O evento é para marcar o encerramento das atividades do coletivo de autores, um dos principais do circuito alternativo do país.

Segundo alguns dos integrantes, o fim do selo independente vinha sendo debatido desde meados de outubro na lista de discussão virtual mantida pelo grupo.

A decisão já estava tomada no final daquele mês, por votação. O resultado não foi unânime. Mas prevaleceu a vontade da maioria, noticiada pelo blog em primeira mão.

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Os autores do grupo ouvidos pelo blog indicam que não houve propriamente um motivo nuclear que tenha levado ao fim do coletivo independente, mas, sim, uma soma de fatores.

Um deles seria a centralização dos trabalhos em poucas pessoas. Embora tivesse cerca de 50 integrantes, a condução das atividades ficava a cargo de uma dúzia de autores.

"Na prática, a intenção inicial de que, sendo um coletivo ´todos´ deveriam atuar de forma equilibrada, conjunta, apoiando e dividindo as tarefas não mais acontecia, ficando a cargo de poucos o desenvolvimento das ações levando a um questionamento da validade da continuidade do grupo", diz desenhista paulista Will, um dos fundadores do grupo.

"O esquema do grupo dependia de todos ajudarem fazendo seu papel de formiguinha, mas por um lado muitos não o faziam e uma minoria que atuava não aguentou mais", completa Marcos Venceslau, autor do fanzine "Subterrâneo", a publicação mais longeva do catálogo.

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Venceslau enxerga nessa centralização uma espécie de círculo vicioso.

"A conduta do grupo foi dirigida por esse grupo que atuava mais, nada mais que normal, mas isso acabava desinteressando o restante do grupo e limitando nossas ações."

O saldo disso pôde ser percebido na redução no número de lançamentos entre o ano passado e este 2012. O desgaste natural é apontado como outros dos motivos para o fim.

"Até pouco tempo atrás chegamos à conclusão de que era ´evoluir ou morrer´. Nenhuma ação foi feita no sentido de evoluir. Logo, o caminho natural levou ao fim do grupo", diz Leonardo Melo, roteirista de Curitiba e criador da revista "Quadrinhópole".

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Um terceiro motivo apresentado para a decisão de pôr fim ao Quarto Mundo são o novo momento do mercado brasileiro de quadrinhos, diferente do visto cinco anos atrás.

Parte dos autores, hoje, está envolvida em projetos remunerados, ou bancada por editoras ou financiados por editais públicos de incentivo a produção de quadrinhos.

"Com a mudança do cenário no mercado de quadrinhos nacional, o Quarto Mundo deixou de fazer sentido", diz Edu Mendes, autor de diferentes histórias do grupo.

"Uma vez que os objetivos que o grupo almejava foram alcançados não fazia mais sentido continuar com a mesma proposta."

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Quando foi criado, há cinco anos, o Quarto Mundo foi uma convergência natural de um processo que vinha sendo desenhado no circuito alternativo brasileiro.

A proposta central era agregar a expansão de projetos independentes que surgiam em diferentes partes do país. A ideia é que, unidos, ganhariam maior força.

O grupo planejava que os próprios quadrinistas poderiam servir como distribuidores das obras dos demais em seus estados ou cidades de origem.

A experiência rendeu aos integrantes uma sucessão de prêmios da área de quadrinhos no país, ora vencidos coletivamente, ora por conta dos projetos individuais.

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"Quando começamos, tínhamos várias ideias para ajudar autores independentes e consequentemente o mercado em si", diz Melo.

" Algumas delas - hoje podemos ver - utópicas demais, pois dependiam que as pessoas se comprometessem de verdade com o coletivo, o que não aconteceu."

"Há cerca de um ano e meio parte do grupo, que sempre foi mais ativa, passou a exercer apenas um esforço mínimo para manter apenas o básico funcionando", completa o roteirista Daniel Esteves, criador da série "Nanquim Descartável" e um dos mais premiados do grupo.

"Mas logo veio a compreensão que esse mínimo não era a proposta real do coletivo e que era hora de parar, para que cada um pudesse reavaliar sua atuação e pensar em como se aplicar mais dentro de seu próprio trabalho, ou até como montar novas estruturas."

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O resultado da experiência autoral pode ser medido pelo catálogo. São mais de 50 títulos, de diferentes gêneros, realizados em diversas partes do país.

É esse catálogo costumava ser vendido nos variados eventos de quadrinhos brasileiros, em que autores do grupo se faziam presentes com uma banca, artesanalmente montada.

Costumavam ser identificados com uma camiseta vermelha, a marca visual do grupo. Foi assim no Gibicon, realizado em Curitiba no fim de outubro, no qual também participaram.

A festa no próximo dia 15 será a última venda coletiva. Mas qual o papel que o grupo exerceu? O blog repassou a pergunta aos autores. Seguem as respostas de cada um.

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Will

 

"Penso que a contribuição maior foi ter aglutinado um conjunto de forças em torno de um nome, uma marca, um ideal, que em partes foi concretizado em outras não. O Quarto Mundo deu voz e visibilidade aos autores que estavam chegando, se bem que quem "chegou" na verdade já estava por aí desde o início da década de 2000, e também trouxe para dentro do grupo autores já estabelecidos desde antes disso mas que enxergaram virtudes nesse ideal e por isso quiseram participar.A virtude maior, penso eu, foi ter propiciado esse encontro que, além das amizades que ficaram, deu origem à bem sucedidas parcerias, preparando e dando bagagem a esses autores que hoje estão se posicionando dentro dessa atual configuração do mercado de quadrinhos no Brasil."

 

Daniel Esteves


"O Quarto Mundo foi MAIS um elemento na formação desse mercado atual de quadrinhos no Brasil. Assim como os grandes eventos, como a entrada de editoras de fora do mundo dos quadrinhos,como os incentivos estatais etc. O Quarto Mundo cumpriu um papel de aglutinar gerações variadas de quadrinistas em torno de um ideal, que, mesmo não tendo sido alcançado por completo, provou que os artistas podem fazer MAIS e MAIS pelo seu trabalho e podem se ajudar nesse caminho. Certas parcerias firmadas dentro do grupo nunca serão desfeitas. Certas publicações figurarão porum bom tempo com importância dentro de todo esse esquema independente. Certos espaços continuarão abertos daqui pra frente. Certo aprendizado poderá e DEVERÁ ser repassado as novas gerações que iniciam esse mesmo trajeto. Nesse sentido o Quarto Mundo sai de cena de cabeça erguida. Derrotado em suas ambições, mas vitorioso na realidade que ajudou a produzir e no impulso que deu no trabalho de vários artistas. Coletivos vêm e vão o tempo todo. MAS ESSE ESPÍRITO DO QUARTO MUNDO CONTINUARÁ PRESENTE ENTRE SEUS EX-PARTICIPANTES influenciando novas empreitadas."


Edu Mendes

 

"O Quarto Mundo foi uma força aglutinadora de ansiedades e ideias de artistas do Brasil todo durante quatro anos, com força capaz de negociar com gráficas, editoras, pontos de venda, organização de eventos e de chamar a atenção da mídia para o quadrinho brasileiro. Muitas portas que sempre haviam estado fechadas foram abertas, muitos preconceitos sobre os artistas independentes foram desfeitos. O Quarto Mundo foi uma peça fundamental em um movimento de mudança que integrou muitos atores e que resultou em algo que pode ser considerado como o melhor momento do quadrinho brasileiro na História. Hoje, que gráficas, mídia, pontos de venda e editoras já estão mais acessíveis aos artistas, o Quarto Mundo está atuando como mais um grupo de artistas como outros em atividade.  Por isso, foi escolhido encerrar as atividades do grupo e testar novas possibilidades de atuação com outros nomes."

 

Marcos Venceslau

 

"Com certeza o Quarto Mundo ajudou a aglutinar os independentes a nível nacional, criou possibilidades de mercado e abriu muitas portas para os independentes no mundo dos quadrinhos e até na ampliação de leitores. Não foi o único grupo que surgiu e teve seu papel, mas foi um grupo que mais teve destaque a nível nacional e com certeza influenciou muitos grupos. Também fez aparecer outros tipos de grupos com outras condutas que achavam melhor e os independentes tinham onde se apoiar ou se espelhar e se motivar a produzir, pois sei de muita gente parada que começou a acreditar e produzir preferindo fazer isso isolado, mas agora com mais possibilidades de projeção no mercado. Esse momento foi bom, mas o crescimento rápido precisava de atuações e organizações rápidas, além de que nem todo mundo realmente acreditava! Um grupo pequeno atuando não faz verão nesse esquema amplo do Quarto Mundo. Precisávamos de uma nova mudança, mas não vai ser possível mais com esse grupo. Acredito no próximo capítulo com outro nome agora. De certa forma um começar de novo, mas com um cenário bem diferente."

 

Leonardo Melo

 

"Foi importantíssimo. Eu desconheço a existência de algum coletivo que tivesse uma ideia tão ampla, realmente a nível nacional. Talvez esse tenha sido o erro. Mas de qualquer forma, o Quarto Mundo serviu de exemplo para outros coletivos, trouxe visibilidade para vários artistas e abriu muitas portas em eventos, sem mencionar os vários prêmios que ganhou. Houve falhas, claro. Nem tudo saiu como esperávamos. Tínhamos várias ideias para distribuição, divulgação etc... mas isso depende do empenho das pessoas. Ainda assim, a amizade que se formou entre os membros do grupo perpetua e com certeza continuará havendo ajuda mútua em vários sentidos. Até porque a lista de discussão continuará em voga. Agora é cada um tocar seus próprios projetos e continuar se ajudando como pode."

Escrito por PAULO RAMOS às 10h33
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