25.09.13

Jabuti desorientado

 

  • Jabuti mantém dificuldade de encaixar HQs na relação de indicados ao prêmio
  • Relação deste ano inclui 5 referências a trabalhos e autores da área
  • Obras concorrem nas categorias "didático e paradidático" e "ilustração"

 

Dom Casmurro. Crédito: Devir

 

Indo direto ao ponto: já passou da hora de os organizadores do Prêmio Jabuti incluírem uma categoria dedicada a obras em quadrinhos.

Do contrário, a premiação vai persistir no "jeitinho" para dar cabo dos trabalhos da área a serem incluídos na relação de indicados. Política que, aliás, repete-se neste ano.

Houve cinco trabalhos e autores ligados a quadrinhos selecionados para esta 55ª edição. Foram relacionados nas categorias "ilustração" e "didático e paradidático".

Em outras palavras: a escolha das categorias explicita um claro desconhecimento do que seja uma história em quadrinhos.

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O desconhecimento se manifesta de diferentes maneiras. Primeiro e mais óbvio: o próprio entendimento do que seja ilustração, vista como sinônima de narrativa gráfica.

As quatro obras indicadas para essa categoria foram "Dom Casmurro" (Mario Cau), "V.I.S.H.N.U." (Fabio Cobiaco), "Monstros!" (Gustavo Duarte) e "Os Zeróis" (Ziraldo).

Trata-se de trabalhos feitos em coautoria (os dois primeiros) e individualmente (os dois últimos). Mas todos compõem narrativas visuais por meio dos desenhos, premissa de uma HQ.

No caso de "Monstros!", o caso é ainda mais gritante: a história toda é feita apenas com uso dos desenhos, sem apoio da parte verbal.

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O segundo desconhecimento é consequência direta da ampliação do catálogo de obras em quadrinhos publicadas no formato livro, batizado muitas vezes de álbum ou graphic novel.

O meio editorial ainda não se adaptou a isso.

Por um lado, entende que se trate de um livro com imagens. Por outro, seria uma história em quadrinhos, que tinha, até então, a revista (ou gibi) como locus quase exclusivo.

Sem saber direito o que fazer, e tendo de dar uma resposta aos inscritos, a organização tem encaixado as obras em categorias que refletem o modo como elas são vistas.

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Esse desconhecimento não é exclusivo da Câmara Brasileira do Livro, mantenedora do Prêmio Jabuti e constituída por pessoas ligadas ao meio editorial.

O mesmo ocorreu em outro órgão mantido por parte do staff editorial brasileiro, o Instituto Pró-Livro, responsável pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

A última edição da pesquisa, divulgada no ano passado e que faz um raio-x da leitura no país, apresenta várias contradições. Os quadrinhos são vistos ora como suporte, ora como gênero.

Outro ponto incoerente é própria definição de leitor. Seria a pessoa que havia lido, "inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos três meses".

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Dois pressupostos dessa definição de leitor: 1) só seriam incluídos os quadrinhos que tivessem sido publicados em formato livro; 2) revistas não seriam de interesse da pesquisa.

Está aí a terceira e talvez a maior contradição do levantamento: a presença de Mauricio de Sousa como sexto escritor mais admirado do país.

Como explicar isso, se o criador da Turma da Mônica é muito mais lido justamente no formato revista, o mesmo que a pesquisa havia sido excluído do perfil de leitor?

Só para registro: 46% dos entrevistados disseram ler quadrinhos frequentemente.

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Os números que explicitam o gosto pela leitura de quadrinhos revelam o que já se sabia há décadas no país e tendem a ecoar em políticas governamentais de estímulo à leitura.

Possivelmente são os resultados da Retratos da Leitura no Brasil, já em terceira edição, que pautam ações federais, como o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola).

A proposta do programa é compor acervos em bibliotecas públicas de todo o país. A relação de obras em quadrinhos selecionadas tem sinalizado um claro interesse por adaptações.

Não estranha, portanto, que a organização do Prêmio Jabuti inclua a (boa) adaptação de "Dom Casmurro" na categoria "didático e paradidático". É a mesma visão do governo.

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Este blog não é o primeiro a tocar no assunto. Mas, como não se vê mudança, não custa registrar uma vez mais o óbvio: o Prêmio Jabuti está desorientado no tocante a quadrinhos.

Ter uma maior clareza do que sejam tais produções não seria apenas um "clamor" de quadrinistas e apreciadores da área, algo como uma voz dos excluídos, ainda não ouvidos.

Não. Seria uma forma de o meio editorial corrigir tardiamente uma falha de sua principal premiação: a ausência de obras circulam há mais de meio século no mesmo meio editorial.

E ajudaria também a entender melhor o conteúdo dos indicados por eles mesmos. "Os Zeróis" é um livro inédito com conteúdo reeditado. Pode estar na lista, Arnaldo?

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Escrito por PAULO RAMOS às 19h37
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23.09.13

Convite

 

 

Escrito por PAULO RAMOS às 23h56
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16.09.13

Fradim e o monopólio dos R$ 15

 

  • ONG relança coleção da revista "Fradim", publicada por Henfil na década de 1970
  • Preço das reimpressões, R$ 15, é o mesmo das edições vendidas em sebos
  • Perguntar não ofende: vale à pena, então, comprar a nova versão?

 

Fradim # 11 - Crédito: Cursinho Henfil

 

Uma das histórias da revista "Fradim", do desenhista mineiro Henfil (1944-1988), trazia uma crítica bem-humorada sobre o monopólio exercido que pelos Estados Unidos.

Por conta da falta de espaço nas publicações brasileiras, Graúna e trupe de personagens da catinga sequestram Tio Patinhas, representante-mor do capital nos quadrinhos Disney.

A cutuca no modo como o mercado norte-americano predominava nas bancas nacionais foi lançada no 11º número da revista, da extinta Codecri, na década de 1970 (capa acima).

Os 31 números da coleção voltam agora, mantendo o mesmo formato. O dado curioso é que o preço cobrado, R$ 15, dá uma leitura atual ao monopólio criticado por Henfil há cerca de 40 anos.

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Aos dados. Já faz algum tempo que o site de vendas "Estante Virtual" instou uma espécie de padronização no valor das revistas e livros usados que circulam pelo país.

A página virtual reúne ofertas de donos de sebos de todo o país. Como o mesmo item pode ser pesquisado pelo comprador, os vendedores tendem a fazer pouca ou nenhuma variação nos preços. Isso, registre-se, no tocante às obras antigas, de segunda mão.

O que se vê no relançamento da coleção de Henfil é que o valor cobrado nos exemplares da maior parte da nova versão é o mesmo da antiga.

Perguntar não ofende: se um exemplar original custa o mesmo que esta reimpressão, valeria à pena, então, comprar a obra reeditada?

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À exceção dos títulos iniciais, um pouco mais caros nos sebos, os demais são comercializados no "Estante Virtual" aos tradicionais R$ 15 (uns poucos a R$ 12).

Por enquanto, da nova edição, estão à venda as três primeiras revistas e os números de 8 a 15. A comercialização é feita pela página virtual do Cursinho Henfil,  no item "produtos".

Segundo o site especializado em informações sobre quadrinhos "Universo HQ", que noticiou neste início de semana o relançamento da coleção, trata-se de uma parceria.

O acordo é entre o cursinho, que vende as revistas, e a ONG Educação e Sustentabilidade. Foi feito um título extra, zero, inédito na série anterior (também a R$ 15).

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O preço padronizado entre as duas versões não ofusca - e nem deve - a importância da iniciativa e da relevância histórica que a revista teve ao quadrinho e ao humor brasileiro.

Publicada em meio ao Regime Militar (1964-1985), "Fradim" explicitava o humor crítico, tão característico de Henfil. Foi o filho dele, Ivan de Souza, quem organizou a reedição.

Uma consequência o trabalho do herdeiro já conseguiu: trazer de volta a esses tempos tão digitais os trabalhos impressos de um dos principais quadrinistas do país.

Seja lá onde for que os padronizados R$ 15 forem gastos, em exemplares da nova versão ou da original, garimpada em sebos, será um valor muito bem aplicado.

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Escrito por PAULO RAMOS às 23h32
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15.09.13

Panini x Panini

 

  • Nova coleção de graphic novels reprisa álbuns lançados pela editora há poucos anos
  • Série traz histórias contemporâneas de heróis da norte-americana Marvel Comics
  • Segundo volume, com X-Men, já chegou às bancas; programação é ter 60 números

 

Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel: Surpreendentes X-Men. Crédito: Panini/SalvatSurpreendentes X-Men: Superdotados. Crédito: Panini

 

A "Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel", que chegou às bancas na virada do mês, traz um dilema shakeasperiano ao leitor interessado em quadrinhos de super-heróis.

Os novos álbuns quinzenais concorrem com versões das mesmas histórias, publicadas há poucos anos no Brasil pela própria editora da série, a multinacional Panini.

Ou seja, a editora compete consigo mesma.

Retomando e clareando o dilema mencionado acima: o leitor deve comprar ou não comprar uma obra que possivelmente ele já tenha ou já exista no mercado? Eis a questão.

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O dilema da semana é a decisão sobre a compra do segundo volume da coleção, "Surpreendentes X-Men - Superdotados", já nas bancas (R$ 19,90; capa acima, à esq.).

A obra reúne os seis primeiros números da série norte-americana, publicada aqui no Brasil inicialmente em uma das revistas mensais do supergrupo e, depois, em álbum, em 2008.

O álbum foi lançado em 2008. Ao contrário deste novo volume, trazia os 12 capítulos iniciais, escritos por Joss Whedon (diretor de "Os Vingadores") e desenho por John Cassady.

Porém, a um valor três vezes maior. Em lojas especializadas em quadrinhos, onde a edição ainda pode ser encontrada, está sendo comercializada a R$ 59.

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Do ponto de vista do conteúdo, há poucas mudanças. A tradução é a mesma, o formato idem. As nuances estão nos materiais extras, distintos entre as duas versões.

Sob o ângulo do custo-benefício, ao menos desta vez, a nova coleção é um negócio melhor.

Somados os atuais R$ 19,90 aos R$ 29,90 previstos para a continuação da série e que trará os outros seis números  os heróis mutantes, chega-se a R$ 49,80. Menos R$ 9,10.

Mas isso, diga-se, para quem não tem a obra. O dilema permanece para aqueles que já haviam comprado, alguns mais de uma vez até (há quem já tinha lido nas revistas mensais).

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O dilema shakeasperiano já havia sido sinalizado no volume de estreia da coleção, que reunia seis histórias recentes do Homem-Aranha (R$ 9,90, preço apenas da estreia).

A trama mostra o personagem descobrindo uma mudança sobre o modo como ganhou seus poderes e, a exemplo de Surpreendentes X-Men, serviu entrada para novos leitores.

A sequência, escrita por J. M. Straczynski e desenhada por John Romita Jr., seguiu o mesmo roteiro: foi publicada primeiro na revista mensal, depois em álbum, 2007.

Afora os extras e o acabamento mais luxuoso da nova coleção, editada com papel especial e em capa dura, o conteúdo da história é exatamente o mesmo.

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Segundo Fernando Lopes, gerente editorial da Mythos, editora que faz no Brasil a produção das histórias da Marvel, a concepção da série foi toda planejada pela Panini e pela Salvat.

As duas já haviam lançado a coleção em outros países, nos mesmos moldes. Também no exterior, a programação foi a de publicar 60 números.

"Nós, aqui da Mythos, estamos fazendo única e exclusivamente a produção editorial — até porque boa parte do material já foi editado/reeditado pela Panini Brasil e foi inteiramente produzido por nós", diz Lopes.

Uma diferença que talvez possa servir de atrativo aos leitores tradicionais de super-heróis é que a lombada de todas as edições forma um desenho, feito por Gabrielle Dell´Otto.

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De todo modo, o desenho não contorna o fato de que a nova coleção compete com as edições já lançadas no país pela própria editora, e com o mesmo conteúdo.

Para quem já tem as histórias, a decisão mais lógica seria a de não comprar os trabalhos da coleção. A não ser que haja um apelo colecionável no novo molde editorial.

Quem não possui a(s) série(s), trata-se de uma boa oportunidade, apesar de a editora ainda não confirmar qual será a sequência de histórias a serem publicadas, nem a numeração.

O primeiro volume, com Homem-Aranha, é o 21º da coleção. O segundo, com X-Men, o 36º. Mesmo para os novos leitores, fica difícil de se programar assim.

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Escrito por PAULO RAMOS às 19h30
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