19.11.15

Quadrinizando o Jabuti

 

 

  • Versão em quadrinhos de "Kaputt" vence categoria adaptação do Jabuti
  • Outra obra de Eloar Guazzelli ficou em segundo lugar
  • Premiação é a mais importante do mercado literário brasileiro

 

 

 

Versão em quadrinhos do livro "Kaputt", de Curzio Malaparte, venceu o Prêmio Jabuti na categoria adaptação. Os resultados foram divulgados nesta quinta-feira (19.11).

A obra foi criada por Eloar Guazzelli e publicada no ano passado. Outro trabalho dele, "Grande Sertão Veredas", ficou em segundo lugar. O álbum teve arte de Rodrigo Rosa.

A categoria "adaptação" foi criada neste ano, após a organização do prêmio receber críticas de editores que apostavam nesse segmento e que não se vinham contemplados.

Até então, produções assim eram recusadas por não trazerem conteúdo inédito, uma das regras do Jabuti.

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"Kaputt" (WMF Martins Fontes, 184 p., R$ 59) faz uma leitura visual dos textos de Malaparte sobre a Segunda Guerra Mundial, que mesclavam realidade e ficção.

O nome do escritor era o pseudônimo do jornalista italiano Kurt Erich Suckert (1898-1957). No livro, ele relata a cobertura feita para o jornal "Corriere Della Sera".

Segundo Guazzelli relata na adaptação, o livro era um dos preferidos de seu pai. Por meio da obra, o desenhista diz ter descoberto a "imensa crueldade do mundo".

"Hoje em dia concordo com meu pai. Esse livro terrível é uma obra-prima e por isso assumi a responsabilidade de adaptá-lo para os quadrinhos", diz.

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Outros trabalhos em quadrinhos circularam pela lista de finalistas do prêmio, o principal do mercado editorial brasileiro.

Na mesma categoria de adaptação, havia sido indicado o álbum "A Morte de Ivan Ilitch", de Caeto. Na de ilustração, concorreram outros quatro trabalhos.

Integraram a lista "Yeshuah - Onde Tudo Está", de Laudo Ferreira Jr., "A Vida de Jonas", de Magno Costa, "Vida e Obra de Terêncio Torto", de André Dahmer, e uma coletânea de Claudius.

Foi justamente a antologia de charges e cartuns do veterano desenhista a vencedora.

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Essas não foram as primeiras obras em quadrinhos a vencer o Jabuti ou a serem indicadas à premiação. Adaptação de "O Alienista", de Gabriel Bá e Fábio Moon, já havia conquistado um troféu.

Na ocasião, a obra havia vencido na categoria destinada a materiais didáticos e paradidáticos, sinal de que ainda havia dúvidas sobre como o mercado editorial enxergava trabalhos assim.

Essa dúvida ainda persiste. Dar o nome de "ilustração" para abrigar trabalhos em quadrinhos sinaliza isso. Mesmo a criação da categoria adaptação privilegia apenas versões literárias.

Os quadrinhos publicados em formato livro são uma realidade ainda não compreendida pela organização do prêmio. É algo a ser repensado para a edição do ano que vem.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h57
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18.11.15

Zé Carioca revisitado

 

  • Livro reúne histórias de Zé Carioca criadas por Renato Canini e Ivan Saidenberg
  • Dupla foi responsável por construir perfil mais malandro do personagem da Disney
  • Publicada pela editora Abril, obra começou a ser vendida esta semana nas bancas

 

 

 

Pode-se dizer que havia dois Zé Cariocas, um antes e um depois da passagem da dupla Renato Canini (1936-2013) e Ivan Saidenberg (1940-2009).

Isso fica bastante nítido durante a leitura de "Um Brasileiro Chamado Zé Carioca", livro que começou a ser vendido nesta quinta-feira (18.11) nas bancas (Abril, 356 p., R$ 49,90).

A obra reúne 44 histórias criadas pelos dois autores. Os trabalhos foram publicados originalmente durante a década de 1970 na revista do personagem.

As narrativas deles ajudaram a compor um perfil mais brasileiro do papagaio da Disney. De um sujeito certinho, passou a ser mais malandro e a morar nos morros cariocas.

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O livro traz o primeiro trabalho da dupla, de 1971, e o último, publicado sete anos depois. O fim da parceria foi motivada por elementos externos.

Percebendo o estilo personalizado dos desenhos de Canini, a matriz norte-americana decidiu tirar o autor da série. Ele fez alguns roteiros depois, até se desligar por completo.

Essa informação ficou de fora dos textos introdutórios da obra.

Saidenberg continuou a trabalhar na Abril até 1984, segundo relato de sua filha, Lucila Saidenberg, presente na publicação. Pouco depois, mudou-se para Israel.

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Ocorreu com Canini um processo semelhante a outro desenhista da Disney, Carl Barks (1901-2000), criador do Tio Patinhas e de uma série de outros personagens.

O quadrinista norte-americano só foi reconhecido décadas depois de ter realizado histórias para as revistas da empresa. Ele fazia os trabalhos e Walt Disney levava os créditos.

De acordo com o livro, há em torno de cem histórias de Zé Carioca com arte de Canini. Dessas, 93 tiveram roteiros de Saidenberg. Ou seja: há material para mais uma obra.

Essas narrativas haviam sido relançadas na revista do personagem. Em 2005, parte delas integrou o quinto volume de "Mestres Disney", homenagem a criadores daqui e de fora.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h09
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17.11.15

Recorde histórico

 

  • Volume de lançamentos independentes do FIQ bate recorde histórico
  • Autores publicaram 257 obras nesta nona edição do festival de quadrinhos
  • Número é quase o dobro do registrado no evento passado, realizado em 2013

 

 

 

 

 

O FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) bateu um recorde histórico. Nunca antes o país havia concentrado tantos lançamentos independentes num mesmo local.

A nona edição do evento, realizado entre 11 e 15 de novembro em Belo Horizonte (MG), somou pelo menos 257 títulos publicados pelos próprios autores, sem participação de editoras.

O número é quase o dobro do registrado na edição anterior do encontro, ocorrida em 2013. Naquela data, houve 136 obras. Em 2011, houve entre 40 e 50 títulos.

Com os dados deste ano, o festival atualiza um recorde que era do próprio evento.

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O levantamento foi feito pelo desenhista Will a pedido do blog.

O método utilizado foi o mesmo das edições anteriores: ir estande por estande e perguntar aos quadrinistas quais trabalhos eram autopublicados e lançados especificamente no festival.

A soma levou em conta, portanto, apenas as obras independentes. Se somadas aos álbuns nacionais publicados por editoras, o número é ainda maior.

A organização do festival estima que, entre títulos nacionais e estrangeiros publicados no evento, o volume de lançamentos tenha chegado a 300.

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Os dados confirmam algumas tendências identificadas nas edições anteriores do FIQ. A primeira é que os quadrinistas aproveitam eventos assim para lançar trabalhos.

Muito provavelmente, boa parte dos títulos presentes no FIQ será reprisada na Comic Con Experience, convenção de quadrinhos que irá ocorrer em São Paulo entre 3 e 6 de dezembro.

A segunda tendência é consequência da anterior.

Os autores brasileiros não esperam mais uma ação das editoras para lançarem seus trabalhos. Arregaçam as mangas e fazem os trabalhos por conta própria.

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A terceira tendência, confirmada neste último FIQ, é o uso de sistemas de arrecadação coletiva para custear a impressão das obras. O mais usado foi o site Catarse.

Difícil precisar quantos trabalhos foram bancados por sistemas assim. Mas uma parte pequena do que foi vendido no festival mineiro veio desse sistema.

Também percebida desde 2011, a quarta tendência é a redução existente entre o produto independente e o apresentado por uma editora.

Em termos gráficos, equiparam-se. Pelos relatos ouvidos de quem participou dos cinco dias do festival, houve aproximação também na qualidade do conteúdo e no preço cobrado.

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Comparativamente, confirma-se uma curva ascendente vista no FIQ desde 2007, ano em que o Quarto Mundo formalizou sua estreia no festival.

O Quarto Mundo foi um coletivo de autores independentes, encerrado em dezembro de 2012. Naquela edição do evento de quadrinhos, ajudou a dar projeção a obras independentes.

A partir de então, a cada edição do encontro o número de trabalhos autopublicados tem aumentado exponencialmente.

De 2011 a 2013, a quantidade de trabalhos foi quase três vezes maior. De 2011 a 2015, o salto foi ainda mais superlativo: cinco vezes mais.

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O circuito independente tem mostrado nos últimos anos que há algo acontecendo no país em termos de produção nacional e autoral de histórias em quadrinhos.

Vivem-se dias históricos.

Parafraseando um dos bordões do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, nunca antes na história deste país houve tantos trabalhos nacionais.

E não se pode esquecer que o número é ainda maior. O ano não se resumiu aos dias do FIQ. Muita coisa foi lançada antes do festival e mais algumas, até a chegada de 2016.

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Crédito das fotos: as imagens são de Wesley Samp e Ricardo Okino e foram reproduzidas do Facebook.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h09
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