30.12.13

Super-Homem, meu velho, é aqui a gente se separa

 

 

 

 

Caro Super-Homem.

Sei que é um herói ocupado e que tem pouco tempo de ler cartas abertas como esta. Por isso, tentarei ser o mais objetivo possível.

Chega por estes dias aqui no Brasil (de onde escrevo) o número 18 de sua revista mensal, publicada pela editora Panini.

Não vou comprar. É aqui que a gente se separa.

Dado que se trata de uma ruptura, gostaria que tivesse ciência, real motivo destas linhas.

A ruptura a que me refiro é o fato de ser seu leitor de longa data. Tenho acompanhado suas aventuras desde julho de 1984, data em que você começou a ser publicado pela Abril.

Tenho colecionado suas revistas mensais desde então. Nacionais e estrangeiras. Tenho cá comigo quase duas décadas dos títulos norte-americanos.

Nesse tempo, li muita coisa boa. As histórias de John Byrne, a trama sobre sua morte e seu retorno, capitaneada por Dan Jurgens, os trabalhos mais recentes de Geoff Johns.

Mas, justiça seja feita, li muito mais narrativas ruins do que boas. Lembra-se de que quando o transformaram em um ser composto por eletricidade? Horrível, não?

Mesmo assim, eu resisti. Sempre apostei que, após alguma intervenção editorial malsucedida, poderia vir algo de bom depois da "próxima crise". Vez ou outra funcionava.

O problema é que, agora, a mudança foi brusca demais, mais até do que aquela versão elétrica a que sujeitaram você nos anos 1990.

A DC Comics - você sabe, a empresa que publica suas histórias nos Estados Unidos - alterou sua personalidade, tanto como herói quanto na versão civil, Clark Kent.

Essa reformulação, batizada por aqui de "reboot da DC", tirou sua essência. Assim, fica difícil de se identificar com as marcas centrais que o tornaram o personagem que é.

Soma-se outro ponto: suas histórias estão ruins. Ruins como nunca havia visto. Destruíram o(s) personagem(ns), contando neles a dupla Super-Homem/Clark Kent.

Numa das edições, você, em sua identidade secreta, faz a Kimmy Olsen um gesto de "vida e longa e próspera", próprio do Sr. Spock, do seriado "Jornada nas Estrelas".

Isso não é atualização de sua persona. É a destruição dela, por mais que eu aprecie muito a série criada por Gene Roddenberry (1921-1991).

Seguindo a analogia a seriados de TV, diria que você está mais para um arremedo de Sheldon, o nerd carismático de "Big Bang Theory".

Os primeiros sinais vinham logo do número de estreia da nova fase, lançado em junho de 2012, pela Panini. Havia naquela edição duas narrativas suas, em momentos distintos.

Numa, você aparecia mais jovem, com calça jeans (!!) e capa. Noutra, estava um pouco mais velho, já com o uniforme, porém sem o tradicional calção vermelho por fora da calça.

As duas histórias não se ligavam. Soube depois que o roteirista George Perez, um dos escritores, não sabia do conteúdo feito pelo outro, Grant Morrison.

Nem precisaria saber desse bastidor. Leitor das antigas, já aprendi a farejar de longe quando uma história de super-heróis é boa ou má.

As suas atuais aventuras são más. Não dá mais para acompanhar. 

Que fique claro que não se trata de um estranhamento face a um novo contexto editorial. Já vi vários outros ao longo desses 30 anos de leitura, tempo que me dá algum crédito.

Tenho comigo que o problema é mais amplo. Você e vários outros heróis estão sendo vitimados por uma espécie de kryptonita midiática.

O cinema se tornou hoje a grande janela das histórias de super-heróis, que consegue reproduzir na tela o mesmo sabor que as histórias de super-heróis tinham décadas atrás.

Com produções carísimas e efeitos especiais à altura, elas têm conseguido levar os feitos dos heróis a um público bem maior que o do papel. E com faturamento equivalente.

Como se trata de um negócio lucrativo, que gera outros negócios igualmente rentáveis em efeito dominó, as histórias impressas foram colocadas num segundo plano.

Elas vão continuar existindo. Mais para manter a base da franquia e para testar a aceitação de ideias para roteiros futuros para a tela grande.

Em caminho contrário, é o cinema que ditará algumas das regras do que se vê e lê nas revistas em quadrinhos.

Ou será que foi uma coincidência seu calção ser sacado justo quando estava prevista para estrear a nova versão cinematográfica de seu filme, "Homem de Aço"?

Vai haver ainda uma ou outra história que valha a pena ser lida, ou da DC Comics ou da Marvel Comics, editora concorrente e dona de Homem-Aranha, X-Men e Vingadores.

Mas lamento dizer que o gênero impresso dos super-heróis ruma a um ofuscamento ante a mídias com maior visibilidade e muito mais rentáveis, casos do cinema e dos games.

O que poderia manter o interesse dos leitores seriam as boas histórias. Sinto muito as suas não se enquadrarem mais nesse rol. E que tenham perdido este leitor das antigas.

Encerro relembrando uma de suas histórias da década de 1990, "Metropolis Mailbag". Escrita por Dan Jurgens e desenhada por Jackson Guice, chegou a ser publicada por aqui.

Não havia nela um supervilão. O mote era retratar as inúmeras cartas que você recebia no final de ano, por conta das festas de Natal e de Ano Novo.

Muitos dos autores das cartas dividiam dramas pessoais com você. Alguns você conseguia atender, como era mostrado naquela história, que teve até uma sequência depois.

Não quero que esta carta aberta tome o tempo de outros que realmente necessitam de seus préstimos.

Quero apenas que tome ciência de que uma de minhas decisões para 2014 é a de não dar segmento à minha coleção da revista "Super-Homem/Superman", mantida há décadas.

Penso em futuramente escrever algo sobre essa vitimização a que você se sujeita atualmente. Mas será na forma de livro. Por ora, é apenas projeto.

Poderia pedir para que mande lembranças a Míriam/Lois Lane. Mas, nesta nova fase, você nem mesmo é mais casado com ela. Outra mudança da tal kryptonita midiática.

Sua coleção fica. As memórias dela também.

Desejando boas histórias, embora um tanto cético quanto a elas,

Paulo Ramos.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h44
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19.11.13

Revolução independente

 

  • Festival Internacional de Quadrinhos bate recorde histórico de autopublicações
  • Houve pelo menos 136 obras nacionais lançadas no evento, realizado em BH
  • Qualidade dos trabalhos independentes faz repensar papel das editoras

 

FIQ 2013. Crédito da foto: José Aguiar

 

Quem participou da 8ª edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), encerrado domingo, em Belo Horizonte (MG), testemunhou um momento histórico no país.

Nunca houve tantos lançamentos nacionais reunidos num mesmo local. Salvo pouquíssimas exceções, predominavam obras produzidas pelos próprios autores.

Houve 136 trabalhos em quadrinhos preparados especificamente para serem vendidos no festival, o mais importante da área.

O número pode ser ainda maior. Alguns autores, que não tinham estandes, levavam de mão em mão suas revistas. Foi assim que o blog recebeu pelo menos cinco dos títulos.

                                                            ***

O levantamento foi feito pelo blog entre quinta-feira (14.11) e sábado da semana passada (16.11). O método foi visitar individualmente cada um dos estandes do evento.

Em cada um, foram feitas as mesmas perguntas: 1) quais das obras presentes ali eram feitas pelo(s) próprio(s) autor(es); 2) quais delas eram lançadas especificamente no FIQ.

O resultado da pesquisa, 136 títulos, é praticamente o triplo do visto na edição passada do festival, realizada em 2011 no mesmo local, a Serraria Sousa Pinto, no centro de BH.

Há dois anos, havia entre 40 e 50 produções novas produzidas de forma independente.

                                                           ***

Os números expressivos de autopublicações confirmam três tendências, que já vinham sendo desenhadas no FIQ passado.

A primeira é que muitos autores tendem a usar o festival como base de lançamento de suas publicações. Isso explica por que a cada dois anos há picos de lançamentos.

Um segundo comportamento que se pôde verificar foi a concretização do uso de verbas públicas ou do sistema de financiamento prévio para a edição e impressão dos trabalhos.

Parte dos quadrinhos independentes presentes no evento foi realizada assim.

                                                            ***

Desse grupo, a maior parte foi viabilizada pelo Catarse, sistema de arrecadação usado por muitos autores. Não por acaso, havia pessoas do site divulgando a página no FIQ.

O Catarse para produção de quadrinhos havia sido inaugurado no FIQ de 2011.

O trabalho pioneiro, que mostrou para o demais ser um caminho viável, foi o álbum "Achados e Perdidos", dos mineiros Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho.

Desde então, o site de arrecadação coletiva recebeu 60 trabalhos relacionados à area. Dez aguardam contribuições. Os demais foram bem-sucedidos. Criou-se um mercado.

                                                           ***

A terceira tendência concretizada neste FIQ é que já não existe mais uma linha divisória entre autor nacional e editoras. Estas foram sombreadas pelos independentes no FIQ.

A qualidade do conteúdo, a autopublicação e as formas alternativas de arrecadação suprimiram atividades que, até então, eram os diferenciais do meio editorial.

Essa concentração de lançamentos no festival sinalizou para a necessidade de as editoras de quadrinhos repensarem seu papel em relação aos trabalhos nacionais.

Num ano em que todas elas retraíram a publicação de títulos nacionais novos - à exceção da Panini -, os autores tomaram o protagonismo do processo e se fizeram acontecer.

                                                           ***

Esses ecos gerados pelo barulho do FIQ deverão ser abafados em 2014. Será o ano da Copa do Mundo no Brasil, de eleições e, principalmente, de um ano sem FIQ.

Haverá publicações nacionais independentes. Mas deverá ser em menor número, se nos pautarmos no histórico dos últimos festivais. A promessa é de novo recorde em 2015.

Talvez fosse o caso de as editoras apostarem justamente nesse vácuo gerado entre um FIQ e outro. Elas ouviram no festival várias propostas de histórias. Poderiam editar em 2014.

De todo modo, fica claro que o papel da editora nacional em relação ao quadrinista brasileiro já não é mais essencial, nem tão lucrativo ao autor. Está aí o FIQ para confirmar.

                                                           ***

Crédito: a foto desta postagem é de José Aguiar e foi pinçada do Facebook do desenhista.

                                                           ***

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Escrito por PAULO RAMOS às 16h51
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11.09.13

HQs trabalham conteúdos de forma superficial, diz Instituto Pró-Livro

 

Duas frases que explicam o olhar "oficial" sobre uso dos quadrinhos no ensino.

Primeira frase: "Eu acho que [uso de histórias em quadrinhos no ensino] pode ser um meio, nunca um fim. Porque o quadrinho pode até trabalhar algum conteúdo, mas o faz de forma superficial. Como incentivo à leitura, ele pode ser um mobilizador".

Segunda frase: "... seria inteligente usar essa ferramenta [quadrinhos] como uma forma de trazer a garotada seja para a leitura, seja para conteúdos mais complexos".

As duas declarações são da mesma pessoa, Zoraya Failla, gerente-executiva do Instituto Pró-Livro, órgão que reúne editoras e que patrocina a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

Os depoimentos foram reproduzidos em reportagem veiculada no portal "Terra" em 9 de setembro.

O que se observa é uma visão equivocada e antiga sobre o papel do quadrinhos como leitura, e leitura estritamente infantil.

Os quadrinhos seriam uma "ferramenta" para leitura de "conteúdos mais complexos". As HQs até poderiam "trabalhar algum conteúdo", mas o fariam "de forma superficial".

Há uma infinidade de obras que poderiam ser utilizadas como exemplos do quão equivocada é essa leitura.

O porém é que essa mesma interpretação que tem pautado políticas governamentais de uso dos quadrinhos no ensino, entre elas o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola).

                                                            ***

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Escrito por PAULO RAMOS às 13h13
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10.09.13

O negócio das adaptações literárias em quadrinhos

 

Fiz um artigo sobre o momento atual das adaptações literárias em quadrinhos para a revista "Carta na Escola", publicação voltada para o meio educacional.

O texto sai na edição deste mês. Mas a editora já disponibilizou on-line. Reproduzo abaixo.

 

***

 

Não é algo explícito, mas há uma espécie de recado sugerido pelo governo federal às editoras brasileiras interessadas em ter obras incluídas nas gordas compras do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). A sugestão dada é que inscrevam clássicos da literatura universal adaptados na forma de histórias em quadrinhos. Há chances reais de um livro nesses moldes ser selecionado.

A opção por dar destaque a adaptações literárias vem desde 2006, data em que os quadrinhos foram incluídos nas listas do programa, que tem por objetivo compor acervos de bibliotecas escolares públicas em todo o País. Neste ano, das 28 obras em quadrinhos compradas pelo PNBE para ser distribuídas, 61% são versões de clássicos.

A lista de adaptações que chega às escolas públicas é ampla. Vai de romances brasileiros como O Guarani e Dom Casmurro a clássicos universais, casos dos shakespearianos Otelo e Hamlet. A Ilha do Tesouro, não se sabe por que, teve duas adaptações selecionadas, cada uma delas produzida por editoras diferentes.

Do ponto de vista comercial, as editoras já perceberam que há aí um bom negócio. De poucos pares de adaptações existentes em 2005 o mercado saltou para cerca de quatro dezenas ao ano. O principal dado a ser observado é que tais publicações não têm apenas como leitor imediato o interessado em literatura ou o apreciador de histórias em quadrinhos. As listas governamentais de fomento à leitura parecem ser o público-alvo majoritário.

A inclusão de uma obra no PNBE, seja ela em quadrinhos ou não, garante uma venda direta bem superior à tiragem inicial dos livros, que varia entre mil e 3 mil exemplares. Os números costumam saltar para a casa dos dois dígitos.

A questão que se coloca é analisar esses mesmos dados à luz dos pontos de vista que realmente interessam a programas desse porte. Se analisados sob os ângulos do fomento à leitura literária e da inclusão de quadrinhos em acervos de bibliotecas públicas, os critérios utilizados na seleção são bastante questionáveis.

Parte da raiz do problema está nos próprios editais do PNBE, destinados às editoras interessadas em inscrever obras para o programa. O texto associa as histórias em quadrinhos à literatura, sem deixar clara, porém, a natureza dessa aproximação. Outro senão é a tendência de sinalizar que obras quadrinizadas devam ter como conteúdo versões de clássicos.

É o que ocorre, por exemplo, no edital deste ano, destinado a compras de acervo para 2014. Na categorização das obras para alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental e para Educação de Jovens e Adultos, o texto especifica haver interesse na aquisição de quadrinhos, “dentre os quais se incluem obras clássicas da literatura universal”. Pergunta-se: por que há a necessidade de os quadrinhos versarem sobre clássicos literários? Tais publicações não configuram uma leitura válida per se? O edital e os resultados das compras sugerem alguns caminhos de resposta.

A primeira resposta é que se prioriza o conteúdo literário presente nos quadrinhos, e não apenas os quadrinhos em si. É como se estes fossem usados apenas como ferramentas para instar o aluno ao livro romanceado em que a obra foi baseada. Um sinal claro disso é a sistemática presença de adaptações nas listas compradas pelo governo.

A segunda resposta que o texto do edital do PNBE sugere é que os quadrinhos são vistos como uma linguagem mais atraente, possivelmente por conta da mescla entre palavra e imagem, que pode ser uma porta de entrada para o texto literário.

Trata-se de descoberta tardia. Faz quase cem anos que os quadrinhos são o primeiro contato que muitos jovens têm com as letras. Há gerações que cresceram lendo revistas como “Pato Donald”, “Mônica” e “O Tico-Tico”, para ficar em três casos.

Se os quadrinhos são uma porta de entrada, por que não optar pelo que eles têm de melhor, ou seja, sua produção autônoma? Há mais oferta de conteúdo entre o rol de obras em quadrinhos vendidas em bancas e em livrarias do que nas adaptações literárias em si, muitas delas de qualidade discutível e que trazem o sério risco de apresentar ao estudante uma narrativa diversa do texto-fonte.

Consequência disso tudo, e de triste registro, é evidenciar que os quadrinhos estão sendo mal utilizados para contornar a inabilidade de se estimular a leitura dos clássicos literários, algo insubstituível. É só ler uma adaptação em quadrinhos e compará-la com seu romance original para perceber que se trata de obras completamente diferentes, embora ancoradas num mesmo enredo.

Apesar da necessidade de ajustes, há de se louvar a iniciativa do governo federal de compor bibliotecas escolares. Há de se elogiar também a inclusão tardia de títulos em quadrinhos nos acervos e de sinalizar que estes possam compor uma forma válida de leitura – por mais óbvia que possa ser essa constatação, ela ocorre com atraso de décadas no País.

Trata-se de um inegável avanço a inclusão de obras em quadrinhos em bibliotecas escolares e o estímulo à leitura delas, que historicamente foram vistas como produções infantis e de baixa qualidade. O que se sugere é uma revisão nas obras incluídas nos acervos e o descolamento delas das adaptações de clássicos literários.

Para isso, os editais deveriam aliar as compras de obras literárias originais, cuja leitura é necessária e insubstituível, à de outras, de cunho quadrinizado e também original e exemplar, sem a associação com versões dos clássicos, como ocorre no edital que selecionará as obras de 2014. Hoje, tais publicações são minoria no PNBE.

É necessário também que se oriente bem quem seleciona tais produções, priorizando pessoas versadas no tema. Do contrário, uma iniciativa bem intencionada vai alimentar um bom negócio editorial – as adaptações literárias – e privar alunos e professores dos bons conteúdos existentes em quadrinhos.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h40
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25.08.13

Mr. Zuckeberg, com pesar entrei no Facebook

 

 

Prezado Mr. Mark Zuckeberg, gostaria de dividir com o senhor o fato de que ingressei no Facebook há exata uma semana da data em que escrevo estas linhas.

Entrei com pesar, gostaria que soubesse.

Dentro de uma política pessoal de ficar cada vez menos à frente dos meios virtuais, em detrimento dos reais, sucumbi ante a duas demandas.

A primeira foram as manifestações recentes, pautadas por meio de sua página, e para as quais fui surpreendido. A segunda é por interesses de pesquisa de meios virtuais.

                                                           ***

Esta postagem tem a função de poupar o precioso tempo do senhor.

(Nem precisa ser tão letrado no mundo virtual para saber que é muito ocupado, tamanha a dimensão do império digital que criou.)

Como sabemos que sua empresa cede informações ao governo norte-americano, antecipo ao senhor, de público, o pouco que pode ser relevante sobre mim.

Sou jornalista de formação. Já circulei por redações de jornal, de TVs e de sites. No momento, atuo na área por puro prazer, por meio deste blog. Não ganho nada por isso.

                                                            ***

O ganha pão vem da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde atuo como docente do curso de Letras. Também mantenho lá um cargo administrativo.

Também tenho produzido livros e artigos sobre histórias em quadrinhos e mídia, áreas em que tenho me especializado. Há também os congressos e palestras.

Somadas, essas funções têm tirado o pouco tempo livre. Os leitores deste blog sabem bem disso, tamanho o espaçamento entre uma postagem e outra.

Poderia incluir ainda algumas descrições físicas. Mas, creio, elas já devem ter circulado por meio do Facebook e o senhor já tem acesso a elas.

                                                            ***

Confesso que a primeira impressão sobre seu império virtual tem me causado um pouco de medo. Há por lá interações que se equivalem ao valor social do e-mail.

E, como tais dados podem ser transmitidos de bom grado ao governo norte-americano, tanta autoexposição me preocupa.

Sei que o senhor tem dito à imprensa que apenas 0,00002% dos dados foram transmitidos à gestão de Barack Obama, algo em torno de 18 a 19 mil contas.

Mas o fato de ter apresentado apenas uma delas já é motivo de alerta.

                                                           ***

Nesta primeira semana de Facebook, a página do Blog dos Quadrinhos somou 428 curtidas. Na página pessoal, chego perto de 500 amigos virtuais.

Sou novo no meio e não sei dimensionar se esses números são bons ou ruins. De todo modo, já pude perceber que caí numa armadilha.

Se minha intenção era ficar menos à frente do computador e do smartphone, o tiro saiu pela culatra. Precisarei me policiar ainda mais daqui por diante.

Encerrando, queria registrar o receio de ter dividido meus dados pessoais com seu império virtual. Mas espero que as informações sejam de valia para ajudar o governo Obama.

                                                           ***

Em tempo: sei que o senhor já sabe, mas pode me acessar no Facebook por meio deste endereço: https://www.facebook.com/pages/Blog-dos-Quadrinhos/288104644661701

Se quiser curtir, será bem-vindo.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h34
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11.09.12

11.09 nos quadrinhos

 

Captain America: Fight Terror. Crédito: reprodução

 

Pensei em escrever algo sobre a relação dos quadrinhos de super-heróis com os atentados do 11 de Setembro de 2011, sofridos pelos Estados Unidos.

Lembrei-me de que já havia feito uma resenha sobre o assunto há exatos seis anos, aqui mesmo no blog. Para não me redundar, voltei àquele texto.

Para minha surpresa, continuo pensando a mesma coisa a respeito do tema e de como o discurso do governo norte-americano migrou diretamente para os quadrinhos.

Para marcar a data, e para não escrever duas vezes o mesmo conteúdo, optei por reprisar o texto, na esperança de trazer a discussão aos novos leitores. A ele, então.

                                                            ***

A indústria norte-americana de quadrinhos teve um comportamento dúbio em relação aos ataques do 11 de Setembro, tragédia que completa hoje cinco anos [11 anos neste 2012]. Num primeiro momento, as editoras seguiram a tendência de solidariedade e de pesar extremo vivido dentro dos Estados Unidos (e, de certo modo, em outras nações do mundo ocidental). Esse sentimento deu o tom às primeiras histórias que abordaram o tema.Dois, três anos depois, o povo americano viu que seus filhos não voltavam da guerra. O sentimento mudou, a popularidade do presidente George W. Bush caiu (e continua baixa) e os super-heróis mudaram sua atitude em relação aos atentados e à política externa norte-americana.

A dubiedade vista nas revistas, ao longo desses cinco anos, só é coerente com o sentimento da população estadunidense.

O caso é um excelente estudo sobre uso ideológico nos quadrinhos. É algo muito parecido com o que foi feito durante a 2ª Guerra Mundial. O ataque a Pearl Harbor obrigou os Estados Unidos a entrar no conflito mundial. Não demorou para os super-heróis também estarem no front. Super-Homem, Mulher-Maravilha, Capitão América (criado para combater os nazistas) e outros passaram a viver histórias de guerra, em que os inimigos eram os países do Eixo e seus líderes. O exemplo mais exacerbado talvez tenha sido o de Flash Gordon. O herói espacial voltou do Planeta Mongo para combater ao lado dos Aliados.

Havia uma política do governo norte-americano de usar a mídia como um veículo ufanista pró-aliados (ou antinazistas). Os quadrinhos não foram exceção. Não é que a presença do conflito era necessariamente imposta pelo governo: ela era consentida pelos escritores e desenhistas. Eles também haviam captado o sentimento de sofrimento vivido em Pearl Harbor e escreviam aquilo que os leitores queriam ver. Essa interpretação é do pesquisador Chris Murray, no artigo "Popaganda: superhero in World War Two". Ele chamou de "popaganda" a mistura da propaganda governamental pró-guerra com o uso da cultura pop.

A argumentação de Murray se encaixa perfeitamente no 11 de Setembro. Novamente, os Estados Unidos foram vítimas de um ataque em larga escala. Novamente, a maior potência do mundo se sentiu ferida. Novamente, partiu para um ataque em terras estrangeiras, passando por cima de uma decisão do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), que pedia provas mais consistentes sobre a presença de armas químicas (que o tempo mostrou inexistirem). Novamente, os Estados Unidos usaram a mídia a seu favor (hoje, a literatura sobre o assunto já é suficientemente extensa para comprovar esse ponto de vista).

O altíssimo número de mortos após os ataques do 11 de Setembro criou outro índice altíssimo: o de popularidade a Bush. Isso deu a ele o cacife necessário para implementar a política de invasões ao Eixo do Mal (outra semelhança com a 2ª Guerra). Apresentou como argumentos a caça ao terror (palavra vazia, com conteúdo vago e pejorativo) e a presença de armas químicas (que não foram encontradas, como admitiu a Casa Branca anos depois).

Os primeiros quadrinhos sobre o conflito refletiam essa soma de características. A primeira história veio da Marvel Comics, que fez uma edição com capa toda preta, numa clara demonstração de luto. Era do Homem-Aranha, mas mostrava a comoção de todos os heróis da editora. Heróis e vilões. Havia uma cena em que até o inescrupuloso Doutor Destino chorava (veja na imagem abaixo). Houve, com o passar dos meses, outras publicações semelhantes. Só para citar um exemplo, o Capitão América (aquele da 2ª Guerra) passou a caçar terroristas.


Doutor Destino. Crédito: reprodução

 

A invasão norte-americana no Iraque – ainda não resolvida - fez a popularidade de Bush cair vertiginosamente. Havia um novo sentimento no povo norte-americano, sintetizado no documentário "Farenheit 11/9", do polêmico Michael Moore. Os soldados estavam morrendo. E nada parecia justificar racionalmente o conflito.

Os quadrinhos passaram a refletir esse sentimento. É difícil dizer a data exata da virada na abordagem, mas parece ser 2004. Alguns escritores da DC Comics começaram a dar cutucadas na política externa dos Estados Unidos. Um caso. Joe Kelly escreveu uma história da Liga da Justiça (publicada aqui no número 25 da revista homônima) em que Super-Homem tem uma série de visões. Numa delas, argumenta com o então presidente Lex Luthor sobre a irracionalidade de uma invasão a um país indefeso. Luthor, metáfora de Bush, responde aos gritos que invadirá, sim: "É assim que manteremos a paz. Mostrando a terroristas e ditadores que eles não podem desafiar a ONU. Se o Conselho de Segurança não entende isso os Estados Unidos suportarão esse fardo sozinhos se for preciso. Infelizmente, não vejo outra saída". Oficialmente, o tom de crítica fica para o leitor mais atento, já que a história não passa de uma visão do homem de aço.

Outro exemplo, também já publicado no Brasil, é de autoria de Greg Rucka e tem a esposa do Super-Homem como protagonista. Lois Lane não aceita receber notícias do exército norte-americano, como os demais repórter se sujeitaram a aceitar. Ela não queria o discurso oficial, compartilhado por todos os jornais e redes de televisão. Perry White, seu editor, alerta que sair das asas do governo implicaria correr riscos desnecessários na região do conflito. Resposta: "O governo vai controlar a reportagem, Perry. Se não diretamente, vai restringir acesso e censurar o que eu mandar. Me deixe pegar a história inteira" (leia diálogo abaixo). Lois foi.


Lois Lane. Crédito: reprodução


Há, certamente, outros exemplos. Hoje, as produções fazem a crítica de forma ainda mais acirrada e explícita. Um caso é o álbum "A sombra das torres ausentes", de Art Spiegelman (pela Companhia das Letras). Outro é "9/11 Report", versão quadrinizada do relatório da Comissão de Ataques Terroristas, recém-lançado nos Estados Unidos e que solta várias farpas na direção de Bush.

De cinco anos para cá, os quadrinhos deixaram de produzir histórias ufanistas sobre os ataques do 11 de Setembro e seguiram o comportamento crítico do povo norte-americano. Tal qual na 2ª Guerra Mundial, o comportamento dúbio é um reflexo do sentimento vivido pela sociedade, coerente apenas com esse sentimento. Tudo o que lemos é um reflexo do social? Tudo indica que sim.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h40
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24.07.12

Mesma franquia, diferentes influências

 

  • Trilogia de Batman no cinema exerce variadas influências nas pessoas
  • Nos EUA, pode ter levado um jovem a realizar massacre em exibição do longa
  • Para todos os demais, produção tem impacto bem mais positivo e pacífico

 

Reprodução do site Bella Coleccione

 


Tive de resolver uns assuntos num shopping de São Paulo neste início de semana.

No corredor do centro comercial, lá longe, via um pingo de gente com uma roupa preta e capa, ao lado do que parecia ser o pai.

O passo apressado, sempre apressado, ia aproximando a imagem do garoto. Não devia ter mais que três anos. A vestimenta era o que eu já suspeitava: uma fantasia de Batman.

Todo cheio de si, o menino desfilava pela (e para a) multidão. Passei por ele, sorri, recebi outro sorriso como resposta. Na cabeça do garotinho, ele era mesmo o super-herói.

                                                           ***

A cena contrastava com a vivida no extremo norte do continente, na sexta-feira passada (20.07).

Em Aurora, subúrbio de Denver, nos Estados Unidos, uma sessão de estreia de "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" foi marcada por um massacre.

James Holmes, de 24 anos, invadiu a sala armado com fuzil, escopeta e pistola automática. Usou a plateia como alvo. Com os cabelos pintados, teria dito ser o Coringa.

Doze pessoas morreram. Cinquenta e oito ficaram feridas.

                                                            ***

A tragédia vista nos Estados Unidos é lamentável por todos os ângulos por onde se olhe. Nada justifica a ação de Holmes.

Ele foi influenciado pelos dois filmes anteriores de Batman, exibidos em 2005 e 2008? Se o que ele e a imprensa disseram for mesmo verdade, é até possível.

Mas turvar ficção e realidade, aos 24 anos de idade, é algo fora do padrão. Revela um distúrbio de alguma natureza. Precisa ser diagnosticado por quem entende do ramo.

Os outros milhares de espectadores que viram os mesmos longas-metragens, por outro lado, influenciaram-se de maneira bem diferente e não violenta.

                                                            ***

É difícil medir a recepção de uma narrativa, cinematográfica ou não, baseada nos quadrinhos ou não, na vida de uma pessoa. Difícil porque se ancora na subjetividade.

Pode ser que alguém tenha ficado assustado com os filmes de Batman, a ponto de não conseguir nem olhar para a tela...

Pode ser que alguém tenha vibrado ao ver o herói tão bem representado pelo diretor Christopher Nolan...

Pode ser que alguém tenha idolatrado os longas... Pode ser que alguém os tenha odiado... Pode ser que alguém nem tenha assistido a eles...

                                                           ***

Talvez um norte-americano tenha se inspirado no problemático vilão do segundo filme da franquia para assassinar uma dúzia de norte-americanos e ferir outras dezenas.

No Brasil, poucos dias depois, um garotinho se baseava no mesmo herói e usava a fantasia do personagem para lutar contra o mal nos corredores de um shopping paulistano.

À maneira dele, sempre ao lado do fiel mordomo paterno...

Uma mesma narrativa conduz a diferentes percepções e reações. Se uma delas pode ter levado a um massacre, não pode resumir todas as demais, nem ser a regra contra o filme.

                                                           ***

Só para ficar claro: o garotinho vestido de Batman mostrado no alto da postagem não é o mesmo que vi no shopping; a foto é de um dos sites que comercializam essas fantasias.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h48
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21.07.12

Ela agora é loira? É, sim. Resultado do ctrl alt del

 

  • Novo filme de Homem-Aranha repete na tela recriações dos quadrinhos
  • Sistemáticas mudanças e renascimentos são comuns nos super-heróis
  • Uma das mudanças do longa foi a troca da namorada do personagem

 

Cena de O Espetacular Homem-Aranha. Crédito: divulgação

 

"Ué, trocaram de namorada? Ela agora é loira?"

A frase, vinda da fileira de trás, interrompeu o silêncio da sala de cinema onde assisti a "O Espetacular Homem-Aranha", novo batismo do super-herói, em cartaz desde sexta-feira da semana passada (13.07).

Imediatamente, em bom tom de voz, o que parecia ser o namorado da moça tentou responder à questão.

"É que, nos primeiros filmes, a parceira dele era a Mary Jane, que era ruiva. Agora é outra, a Gwen Stacy." Ouviu um surpreso "aaaahh" como comentário final.

                                                            ***

Apesar de ter sido dita num lugar em que se espera ouvir poucas palavras, a pergunta feita pela vizinha de plateia é eloquente. A questão resume bem o ponto central do filme.

Cinco anos depois de encerrada a versão anterior do personagem no cinema, cria-se uma nova realidade para o super-herói, recontando sua origem e impondo a ele nova parceira.

Mudou a forma como o adolescente Peter Parker (Andrew Garfield) foi picado por uma aranha radioativa, o modo como o tio dele, Ben, foi assassinado, o jeito como se porta.

De lentes de contato a um skate, sempre embaixo do braço, ele é uma releitura atualizada do rapaz tímido, introspectivo e de Q.I. acima da média mostrada nos filmes e nas revistas.

                                                            ***

O que o longa-metragem dirigido por Marc Webb faz é reproduzir na tela uma característica comum aos quadrinhos de super-heróis: o "control alt del" narrativo.

De quando em quando, as editoras que publicam os super-seres tentam mexer com as histórias de seus personagens, de modo a atrair novos leitores e os olhares midiáticos.

(Ou as pessoas acham que um dos lanternas verdes, antes pai de dois filhos, ser reconstruído como personagem gay foi mero acaso? Se bem que a mídia daqui até achou...)

Para ficarmos apenas no Homem-Aranha, ele já foi circulou por um número considerável de teias narrativas. Tudo para criar o desejável ar de novidade editorial.

                                                            ***

Ele já derrotou um clone de si mesmo apenas para, década e meia depois, descobrir que era exatamente o contrário: o clone é que era o verdadeiro Peter Parker, e não ele.

A troca foi desfeita. E desfeita de novo, porque os leitores, com toda a razão, sentiram-se ludibriados por terem lido anos a fio as aventuras de um herói falso.

Anos atrás, ele revolou a identidade secreta ao mundo. Novo erro editorial, refeito por mágica - literalmente: Mefisto, um poderoso demônio, mudou a realidade do Homem-Aranha.

A alteração foi um pretexto editorial para que as histórias do herói fossem narradas anos antes, mais ou menos da forma quando foi criada, no começo dos anos 1960.

                                                           ***

A Gwen Stacy vista no cinema existiu nos quadrinhos. A primeira versão dela - por conta das reviravoltas, houve outras, até em outras realidades - também era namorada de Parker.

A moça morreu nas mãos do Duende Verde. Anos depois, o herói se aproximou, apaixonou e casou com Mary Jane, a mesma mostrada nos três filmes, de 2002 a 2007.

Assim como nos quadrinhos, agora se refaz tudo. Sai a ruiva, entra a loira (interpretada por Emma Stone).  E o motivo do natural estranhamento da colega de plateia.

Afinal, tudo mudou em relação ao último filme da trilogia, exibido em 2007. Espaço de tempo muito curto para que os longas anteriores já tivessem saído da memória coletiva.

                                                           ***

O resultado é mais um filme-pipoca. Despretensioso e com roteiro simples, traz bons toques de ação e interpretação convincente do grupo de atores, inclusive os protagonistas.

O vilão da vez é o Lagarto, uma mutação feita pelo pesquisador Curt Connors em si mesmo.

Sem um dos braços, ele procurava na capacidade regenerativa do animal uma esperança para retomar o membro. Ao injetar um soro ainda em testes, torna-se o selvagem Lagarto.

Mas isso é apenas enredo. O principal é que cada vez mais a tela grande reproduz  o modo como os quadrinhos de super-heróis são feitos. E o filme faz exatamente isso.

                                                           ***

Aos leitores de quadrinhos que virem o longa-metragem, ou que já viram, é apenas mais do mesmo em versão cinematográfica. De releitura em releitura constrói-se um herói.

Mas a novidade é que o mesmo modus operandi editorial é feito, agora, para um público mais amplo, o dos espectadores do cinema. Nem todos, diga-se, leitores de quadrinhos.

Os números de "Vingadores", exibido meses atrás, mostram que é uma legião ampla. Gente que passa a se sujeitar a narrativas que se cruzam e a sucessivas releituras.

O cinema tem reproduzido não apenas os super-heróis e suas histórias, mas também o modelo editorial que os mantém. Cria-se uma geração de novos leitores. Na tela grande.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h51
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16.05.12

De geek a arte. E de arte, de novo, a geek

 

  • Principal unidade da Livraria Cultura, de SP, cria loja para abrigar quadrinhos
  • HQs, que antes ficavam na loja de artes, dividem agora espaço com games
  • Opção da livraria vai na contramão do cenário editorial construído nos últimos anos

 

"Algumas vezes, você quer ir num lugar onde todos conheçam seu nome. E onde todos ficam felizes quando você aparece por lá."

As duas frases acima são uma tradução livre da canção de abertura do popular seriado "Cheers", estrelado por Ted Danson e exibido nos Estados Unidos entre 1982-1993.

A música procurava ambientar o clima da série. As cenas se passavam num bar, local onde protagonistas e coadjuvantes interagiam e se tratavam como uma família.

Um lugar, enfim, onde se sentiam acolhidos e incluídos. Algo como ocorre lá e cá com as lojas de quadrinhos, conhecidas como "comic shops".

                                                         ***

As lojas especializadas em quadrinhos costumam ser como o bar de "Cheers": um espaço onde o comprador encontra iguais, outros que apreciam as revistas/álbuns como ele.

É uma história muito bem contado por Matthew J. Pustz no livro "Comic Book Culture - Fanboys and True Believers" e cujas ideias resgato aqui nestas linhas.

Na leitura de Pustz, esse modelo de vendas começou a ser desenhado nos Estados Unidos nos anos 1980 e ganhou corpo nas décadas seguintes.

Na prática, serviu para criar não só uma cultura em torno dos quadrinhos, mas também um lócus, um ponto de reunião de admiradores do tema.

                                                         ***

O trabalho de Pustz indica aí a gênese da associação do rótulo "nerd" também a fãs de histórias em quadrinhos, em particular as de super-heróis.

Termo que outra série de TV norte-americana, "The Big Bang Theory", soube trabalhar muito bem e dar ele um ar "pop" - o seriado é baseado em quatro amigos "nerds".

O livro Pustz, se lido criticamente, sugere também um pressuposto: se nas "comic shops" os leitores encontram um lugar comum e familiar, fora dela tinham um gosto marginal.

Marginal no sentido de estar à margem, fora do convencional. E, também por isso, fora do que o sistema cultural socialmente convencionou chamar de arte.

                                                         ***

De tão certo, esse modelo de vendas foi exportado para a América Latina na década de 1990.

Chegou com muita força na Argentina, a ponto de as "historietas" de lá serem rebatizadas de "comics". As lojas de quadrinhos do país, registre-se, chamam-se "comiquerías".

No Brasil, as lojas da editora Devir e da Comix, ambas em São Paulo, foram dois dos primeiros casos semelhantes. Com sucesso. Ambas se mantêm abertas até hoje.

Não por acaso serão usadas pela editora Panini, a partir do mês que vem, para vender algumas das revistas de heróis da DC Comics a um público segmentado.

                                                         ***

As lojas de quadrinhos brasileiras mantiveram o mesmo espírito das estadunidenses. Quem costuma frequentar é quem de fato gosta de histórias em quadrinhos. Um nicho próprio. 

Elas e os leitores viram nos últimos dez, quinze anos, as revistas em quadrinhos dividirem espaço com o formato livro. E este ganhar corpo e penetrar nas prateleiras das livrarias.

De 2006 a 2008, três das principais redes de livrarias do país estimaram um crescimento anual de 30% no volume de quadrinhos com esse molde vendidos por elas.

É de supor que esse número tenha aumentado desde então, a se pautar pelo generoso espaço que as grandes redes têm dedicado ao setor.

                                                         ***

Uma das redes incluídas no levantamento foi a Livraria Cultura. Possui hoje 13 unidades no país, em diferentes capitais, quatro delas na cidade onde começou, São Paulo.

O marco foi uma livraria mantida no Conjunto Nacional, galeria estrategicamente posicionada entre as avenidas Paulista e Augusto, no coração comercial paulistano.

Na última década, a loja tem feito expansões quase anuais. O espaço da frente foi comprado e hoje abriga os três andares da livraria. O cinema ao lado também.

Ainda na galeria, outros pontos ao redor foram incorporados. A antiga loja ganhou novo verniz e funciona ainda hoje como loja de arte. É onde ficavam os quadrinhos.

                                                          ***

No fim de abril, os quadrinhos foram realocados para o segundo andar de uma das lojas da galeria, antes dedicada à editora Record.

O nome do novo espaço é uma aposta da livraria num segmento que, aparentemente, não atingia até então: o dos apreciadores de quadrinhos e games.

Batizada de Geek.Etc.Br., a loja procura dialogar justamente com os "nerds" - sem nenhum sentido pejorativo à expressão. No andar de baixo, games à exaustão.

No canto, um Batman enorme, do tamanho de uma pessoa adulta. A minúscula escadinha que separa os dois pisos leva ao acervo de álbuns em quadrinhos, nacionais e importados.

                                                         ***

Lendo as declarações de quem coordena o projeto, a proposta é a de abrir outras unidades. Uma franquia, portanto. Uma espécie de novo selo da livraria.

Como negócio, a ideia pode ser interessante, principalmente para capitais que não tenham lojas especializadas em quadrinhos.

Mas, do ponto de vista da difusão das histórias em quadrinhos no Brasil, a iniciativa sinaliza para um retrocesso.

Ela vai na contramão do que o meio editorial construiu nos últimos anos. Em vez de agregar mais leitores, volta-se ao modelo do nicho exclusivo de mercado.

                                                          ***

Ter quadrinhos numa loja de arte ou no espaço dedicado aos livros fazia com que tais publicações chegassem a um outro perfil de leitor, mais inclinado à literatura e à pesquisa.

Até então, como já comentado, os quadrinhos eram restritos às bancas ("coisa de criança") ou às lojas especializadas ("coisa de poucos", de "gueto").

Foi esse mercado que algumas editoras souberam enxergam. Um caso é o da Companhia das Letras, que criou um selo próprio, o Quadrinhos na Cia.

É a mesma Companhia das Letras que mantém loja vinculada à Livraria Cultura, localizada ironicamente em frente à Geeks.Etc.Br, no mesmo Conjunto Nacional, em São Paulo. 

                                                          ***

As demais lojas da Livraria Cultura, justo registrar, ainda conservam um espaço dedicado aos quadrinhos. E ainda dialogam com o leitor eventual dessas obras.

As lojas do Conjunto Nacional, no entanto, deram alguns vários passos atrás com a nova estratégia comercial. Do ponto de vista dos quadrinhos, não custa dizer mais uma vez.

Uma saída seria manter dois acervos, um na loja de arte, outro no novo ponto de vendas. Atingem-se, assim, dois perfis de compradores: os habituais e os esporádicos.

Do contrário, a rede volta a enxergar quadrinhos apenas como gueto, como nicho de mercado. E vai no sentido contrário do que ela mesma ajudou a construir no Brasil.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h00
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08.05.12

Com gostinho de saudosismo

 

  • Filme dos Vingadores recupera na tela fórmula popularizada nos quadrinhos
  • Estratégia é reunir diferentes super-heróis em grupo, numa mesma história
  • Longa-metragem já deu certo: lidera bilheterias no Brasil há duas semanas

 

Os Vingadores. Crédito: divulgação

 

A panela é maior, mais pomposa, com potencial a ser saboreada por muito mais gourmets. Mas a receita é a mesma, usada há pelo menos 50 anos.

Os ingredientes são simples. Junte um punhado de super-heróis que já tinham carreira solo, misture com mais uns de menor expressão, mexa bem e ponha na panelona.

Até ganhar forma, essa massa vai apresentar uma sucessão de efeitos, mais ou menos nesta ordem: um ingrediente encontra o outro, briga com ele, faz as pazes, ficam amigos.

Terminado tudo isso, e acrescido um bom vilão - que dá o sabor final ao prato -, sirva a uma plateia eclética. Quanto maior melhor. E eis que se tem um Vingadores prontinho.

                                                           ***

É bem provável que o leitor desta resenha já tenha assistido a "Os Vingadores", em cartaz desde 27 de abril. Afinal, o longa ocupa quase metade das salas de cinema do país.

E com boa repercussão: lidera isolado as bilheterias nacionais há duas semanas.

Quem viu o filme - ou ainda programa ver - sabe que a receita descrita acima sintetiza bem o que se assiste na tela. O vilão da vez é Loki, meio-irmão maligno de Thor.

Os desejos de tomar conta da Terra leva à reunião dos heróis, todos já vistos em produções anteriores, a maioria solo - casos de Hulk, Capitão América, Homem de Ferro e Thor.

                                                           ***

De início, o contato entre os supers causa um estranhamento entre eles, muitas vezes vertido em brigas: Thor contra Homem de Ferro; Viúva Negra versus Hulk e Gavião Arqueiro.

Tudo, claro, com doses cavalares de efeitos especiais, que ofuscam um enredo mediano, se visto a olhos críticos. A interação entre os atores/heróis também sombreiam a trama.

Depois disso, segue o roteiro da receita: todos ficam amigos e unidos em prol de uma causa maior, a luta contra Loki.

A plateia tem se divertido com o prato cinematográfico, a se pautar pelos ingressos vendidos. Mas é um público que talvez desconheça que não se trata de ideia original.

                                                            ***

Esse jeitão de construir histórias com encontros de super-heróis acompanha a Marvel Comics desde que a editora de quadrinhos ganhou corpo no início dos anos 1960.

A receita era mais ou menos a descrita no começo destas linhas.

Um personagem se deparava com o outro, surgia um mal-entendido, uma briga entre eles, que durava até que a estranheza fosse explicada e superada.

E, juntos, claro, partiam para cima do vilão da vez.

                                                            ***

Havia nesses encontros um sabor especial. Afinal, reuniam-se nas mesmas páginas dois super-heróis que eram lidos em revistas diferentes, cada um em seu próprio título.

A criação do grupo dos Vingadores foi justamente para eternizar esse sabor por mais tempo. O ingrediente central seria a presença dos super-heróis da casa.

Foi assim que surgiu a primeira história da super-equipe, publicada nos Estados Unidos em setembro de 1963 na revista "The Avengers".

A capa já apelava para a peculiaridade da revista. Trazia os nomes dos heróis em destaque no alto da página e sintetizava nesta frase: "os maiores super-heróis da Terra".

                                                           ***

Como no cinema, o motivo da reunião do grupo foi Loki. Mas era outra história, de outros tempos, bem mais ingênuos.

O vilão arma para Thor, Homem de Ferro, Homem-Formiga e Vespa - os dois últimos ausentes na adaptação para o cinema - pensarem que Hulk precisa ser detido.

É o mote para o quebra-pau entre eles. Ardil esclarecido, juntam-se para dar cabo de Loki. Conseguem e percebem que poderiam fazer mais juntos.

"Cada um de nós tem um poder diferente! Se juntarmos nossas forças, seremos quase invencíveis!" Todos topam. Até o irracional Hulk: "Coitado de quem se meter com a gente!".

                                                            ***

Essa história, para quem tiver curiosidade de ler, foi reeditada no primeiro volume da coleção "Biblioteca Histórica Marvel" dedicado aos Vingadores (lançado pela editora Panini).

Desde a estreia, o título do grupo tem sido editado nos Estados Unidos e traduzido aqui no Brasil. A ideia se mantém a mesma. Mudam apenas os atores e os antagonistas.

A bilheteria generosa que a releitura feita para o cinema tem obtido sinaliza ao menos duas constatações: a receita agradou e chegou a um público não leitor de quadrinhos.

O que os novos espectadores não sabem é que a fórmula é antiga, embora conserve o sabor de novidade. E a plateia de hoje age do mesmo jeito que os leitores de ontem.

                                                            ***

Vale a dica: não saia do filme antes de os créditos terminarem. Lá pelo meio da subida dos letreiros, descobre-se o vilão do provável segundo longa-metragem dos Vingadores.

 

Escrito por PAULO RAMOS às 20h43
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12.03.12

Nem tão essenciais assim

 

  • Editora Abril começa a vender primeiros volumes de "Disney Essencial"
  • Coleção se propõe a publicar "quadrinhos fundamentais" dos personagens Disney
  • A maior parte, no entanto, foi produzida neste século e foge da proposta "essencial"

 

Essencial Disney - Donald e Seus Sobrinhos. Crédito: divulgação

 

O que quer dizer a palavra "essencial"? Segundo o "Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa" é algo "necessário, indispensável".

Ou ainda se trata de um item "que constitui o mais básico ou o mais importante em algo; fundamental".

Entendido o que o temo é, fica mais fundamentada a constatação de que nenhuma das duas acepções acima vale para a coleção "Essencial Disney".

A série da Editora Abril, que começou a ser vendida nas bancas neste início de mês, sugere ao leitor algo que, na prática, não oferece.

                                                        ***

Além do título em si, a coleção usa frases que reforçam o teor essencial das revistas. Uma delas diz que são "quadrinhos fundamentais para conhecer e curtir o universo Disney!".

Não é o que se vê nos dois primeiros volumes, vendidos juntos, a R$ 10 (100 páginas cada um, capa cartonada).

O primeiro, "Tio Patinhas Versus Maga Patalójika", traz quatro histórias. Três delas foram produzidas entre 2006 e 2010. Recentes, portanto. E, se recentes, não fundamentais.

O volume seguinte, "Donald e Seus Sobrinhos", repete a estratégia editorial. Das quatro narrativas, todas são deste século (de 2001 a 2007).

                                                         ***

O pacote plastificado que vende os dois primeiros volumes informa também que a maior parte das histórias é inédita no Brasil.

Se o apelo é o ineditismo - e parece ser -, a coleção erra no nome. Vende algo essencial, antológico, e oferece o oposto.

É de se esperar que os demais 18 títulos da série - são 20 ao todo - enveredem pelo mesmo caminho. Os demais números orbitam entre Tio Patinhas, Donald, Mickey e Pateta.

Quem aprecia os quadrinhos Disney pode até gostar. Mas é preciso estar avisado, de antemão, que não se trata de algo essencial, ao contrário do que o título sugere.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h46
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18.02.12

Na sala de cinema, levarei teu ingresso. E arrepender-te-ás

 

  • Sequência de Motoqueiro Fantasma consegue ser pior do que filme anterior
  • Produção estrelada por Nicolas Cage cria algumas cenas constrangedoras de ver
  • Longa baseado no anti-herói da Marvel Comics entrou em cartaz nesta semana

 

Motoqueiro Fantasma 2 - O Espírito da Vingança

 

O vídeo sobre saídas de emergência exibido antes do longa-metragem na sessão em que estava dizia para o telespectador se acomodar na poltrona e assistir a um ótimo filme.

Era propaganda enganosa.

De ótimo, "Motoqueiro Fantasma 2 - O Espírito da Vingança" não tem nada. Muito pelo contrário. O que se viu até fazia um convite ao uso das tais saídas, de emergência ou não.

O filme, que entrou em cartaz nesta semana, consegue ser pior do que o anterior, exibido em 2007, e que também não era lá essas coisas.

                                                         ***

O Motoqueiro Fantasma é vivido, uma vez mais, pelo ator Nicolas Cage. Já no primeiro filme, ele não tinha acertado o tom sombrio do personagem. Repete o erro nesta sequência.

Exagerado, torna constrangedores os momentos em que se transforma no anti-herói. A mudança, como nos quadrinhos, "queima" sua cabeça, restando a caveira, envolta por fogo.

Além de ter força acima da média e de dominar uma corrente que destrói, literalmente, quem for atingido por ela, nessa forma ele absorve as almas das pessoas más.

A transformação é resultado de um pacto feito com o demônio. O acordo seria para salvar a vida do pai do protagonista, Johnny Blaze. Enganado, convive com o mal deste então.

                                                        ***

Há mais constrangimentos, além da atuação exagerada e fora do prumo de Cage.

Um deles. Numa das cenas, Blaze ouve uma pergunta de Danny, menino que tem de ser salvo por ele para não servir ao mal demoníaco (isso resume o enredo do filme).

O garoto questiona como o Motoqueiro Fantasma faz xixi quando está transformado. Resposta: a urina é como um lança-chamas.

Não bastasse, há um corte na cena e o espectador vê o anti-herói, de costas, soltando urina de fogo. De canto de rosto, a caveira olha para a plateia e esboça uma gargalhada.

                                                         ***

Outra cena constrangedora ocorre na primeira aparição do Motoqueiro Fantasma no filme. Ele precisa deter uma gangue, que está prestes a sequestrar o menino.

Em vez de derrotar todos, o anti-herói fica olhando para os bandidos, estático, mexendo a cabeça de um lado para o outro. O que poderia ser resolvido rápido leva minutos.

Resultado: metade dos vilões foge. Com o garoto.

No final do filme, há cena semelhante, com um número dez vezes maior de oponentes. O Motoqueiro Fantasma usa sua corrente e - pasmem - derrota todos em três segundos.

                                                         ***

 O Motoqueiro Fantasma foi criado nos quadrinhos há exatos 40 anos pelos roteiristas Roy Thomas e Gary Friedrich e pelo desenhista Mike Ploog.

O personagem tem ocupado desde então um lugar de pouco destaque no rol de criações da editora Marvel Comics, a mesma de Homem-Aranha, Hulk, X-Men e Homem de Ferro.

No cinema, afora a divulgação natural de um longa baseado em quadrinhos, repete-se a posição secundária. Mas, desta vez, por conta da baixa qualidade da produção.

Fuja do filme. Use o dinheiro do ingresso para outra coisa - troque por um álbum ou revista em quadrinhos. Senão, quem ficará com espírito da vingança será você mesmo.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h02
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08.02.12

Mauro dos Prazeres (in memoriam)

 

  • Corpo do sócio-fundador da Devir foi enterrado no fim da tarde desta quarta-feira
  • Velório e sepultamento ocorreram no Cemitério da Paz, em São Paulo
  • Editor morreu na terça-feira; Devir emitiu nota de pesar via redes sociais

 

Tive poucas conversas com Mauro dos Prazeres. Mas, curioso, lembro-me de todas. O editor era dono de uma eloquência peculiar, daquelas que preenchiam o ambiente.

As palavras eram apenas uma pequena amostra da inteligência dele, que era mais conhecido pelo público leitor por ser um dos sócios fundadores da editora Devir.

E como era inteligente...

Nossos contatos, três ao todo, eram religiosamente anuais. Ocorriam sempre durante uma maratona de vendas de quadrinhos, promovida pela editora nos meses finais do ano.

                                                         ***

O primeiro encontro foi em 2009, numa mesa sobre quadrinhos nacionais, que eu tive a oportunidade de mediar. Mauro estava na plateia, ouvindo a tudo de forma discreta.

Discrição que se manteve até tomar a palavra. Mauro fez um depoimento, travestido na forma de pergunta. Foi uma aula detalhada sobre o atual mercado de quadrinhos no país.

A fala trouxe uma surpresa atrás da outra. A primeira, mais evidente, foi (re)conhecer nele o rosto desenhado por Lourenço Mutarelli na série de álbuns com o detetive Diomedes.

Mutarelli gostava de usar pessoas reais como coadjuvantes de suas histórias. Mauro foi um deles. Comenta-se que não gostou da forma como foi representado.

                                                          ***

Mutarelli retratou o Mauro dos quadrinhos com uma das marcas centrais do Mauro do mundo real: a eloquência. Mas era também uma de suas maiores qualidades.

Não se tratava de discursos longos, ocos e redundantes e, por isso, cansativos. Eram dos outro tipo, do melhor tipo. Aprendia-se, muito, com o que se ouvia.

Naquela noite de novembro de 2009, o editor citou alguns dos álbuns da editora, lançados no evento: "Yeshuah", "Fractal", "Estação Luz", "Joquempô".

Na leitura dele, o diferencial daquele dia estava na quantidade e na qualidade das produções nacionais presentes, algo impensável num passado não tão remoto.

                                                         ***

Pode-se contra-argumentar que Mauro arbitrou em causa própria, que fez um autoelogio, já que era ele quem editava aquelas obras nacionais.

O tempo garantiu de mostrar que não, que havia uma sinceridade singular naquelas palavras. Primeiro pela qualidade das obras em si. De fato, são boas.

Segundo pelo que ouvi em minha última conversa com ele, em dezembro passado, no mesmo evento. Mostrei a ele uma estante cheia de nacionais e o lembrei do depoimento.

Por algum motivo, a conversa e os olhares se ajustaram para um dos lançamentos brasileiros da editora.

                                                         ***

Mauro pegou o álbum e parou numa das páginas. "Está vendo? Há um erro de edição aqui." Frase dita de graça, sem que eu tivesse feito nenhuma cutucada jornalística.

Ele detalhou o equívoco, que não era aparente à vista e que precisava se comparado com outras páginas da obra. "Já alertei isso aqui na editora."

O meu espanto é que a atitude normal de um editor, numa situação dessas, seria esconder a falha, ainda mais de um jornalista.

Mauro, não. Mauro expôs o calcanhar-de-aquiles, sem medo, com a mesma simpatia e sorriso no rosto. Atitude própria de quem é seguro do que faz.

                                                         ***

Em 2010, tive a oportunidade de ouvir outra aula dele. Numa situação completamente atípica. Havia ido à maratona de quadrinhos, garimpei e estava na longa fila do caixa.

Mauro me viu passando os olhos numa edição rara de "Miracleman". Era o primeiro número. Ele foi até mim e, sem "oi" nem nada, pegou a revista da minha mão e se espantou:

- Ainda existe essa revista? Achei que havia esgotado!

Fiz cara de interrogação. O motivo do espanto dele tem a ver com o passado da editora. Aquele primeiro número havia sido o primeiro quadrinho do país distribuído pela Devir.

                                                          ***

- O logo da Devir aparece na capa. Está vendo?

Confesso que não sabia. Tanto que nem tinha aquele exemplar, publicado pela primeira vez no Brasil em 1989, pela editora Thanos.

Mauro e os demais sócios haviam criado a empresa dois anos antes. Inicialmente, o objetivo era criar um sistema de reservas para quadrinhos importados dos Estados Unidos.

Para quem já comprou na loja da editora nos anos 1990, sabe a febre que isso era. Depois, vieram os RPGs. E, por fim, a editora em si, com a publicação de quadrinhos e livros.

                                                         ***

Mauro e a Devir estiveram entre os primeiros a tatetar os quadrinhos em formato álbum, mercado hoje em franca expansão.

É uma história que se soma a outras e que ainda precisa ser contada a contento. Mas a parte dele, pelo menos, foi registrada em vida.

Mauro e Douglas Quinta Reis, outra inteligência ímpar e sócio na empresa, participaram há pouco tempo da gravação de um depoimento do projeto Sábado das Artes Gráficas.

O projeto inicialmente previa versões impressas dos depoimentos. Se de fato ocorrer, ficará ainda mais clara a importância que Mauro teve para o mercado atual de quadrinhos. 

Escrito por PAULO RAMOS às 17h29
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30.12.11

2011: o ano em que o quadrinho nacional aconteceu - II

 

 Daytripper, de Gabriel Bá e Fábio Moon

 

Tão inusitado foi este 2011 para o autor nacional que um dos títulos estrangeiros mais comentados do ano, tanto dentro quanto fora do país, foi produzido por uma dupla de brasileiros. "Daytripper", dos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon, foi o destaque do ano. No exterior, venceu nos Estados Unidos os prêmios Eisner Award e Harvey Award, respectivamente como melhor minissérie e melhor história ou edição individual.

No Brasil, foi indicada como o segundo melhor lançamento do ano em duas listas feitas por pessoas que noticiam quadrinhos, a da revista virtual "O Grito" e a do blog "Gibizada". Em primeiro lugar, ficou "Asterios Polyp", de David Mazzucchelli (Quadrinhos da Cia.), premiada com o Eisner em 2010.

Os números de vendas no Brasil apenas confirmaram a repercussão de "Daytripper". Produzido em capa dura pela Panini, o álbum viu os primeiros três mil exemplares esgotarem logo na primeira semana de lançamento, em setembro. Nova tiragem de três mil, novo esgotamento nos meses seguintes. A editora imprime neste fim de 2011 outros 12 mil exemplares, metade deles em capa cartonada e preço mais em conta. No total, em quatro meses, a obra atingiu uma tiragem de 18 mil números. Um fenômeno editorial.

Seria um equívoco rotular "Daytripper" como nacional, apesar de feita por brasileiros. A história foi publicada originalmente no prestigiado selo Vertigo, que reúne trabalhos autorais e adultos da editora norte-americana DC Comics, a mesma de Batman e Super-Homem. A minissérie, em dez partes, foi reunida no início do ano num álbum, que integrou a lista dos mais vendidos da categoria em ranking do jornal "The New York Times". Só no segundo semestre ganhou uma versão nacional, vertida para o português pelo tradutor e especialista em quadrinhos Érico Assis. Por ser ambientada em diferentes partes do Brasil, a série parece funcionar melhor em português.

Difícil resumir a história sem antecipar o enredo ao leitor. Pode-se dizer que se trata de uma engenhosa narrativa sobre a vida e as mortes inesperadas de um escritor de obituários, Brás de Oliva Domingos. Mortes, no plural mesmo. E, por meio delas, contam-se momentos presentes, passados e futuros do protagonista.

Gabriel Bá conta que teve a ideia da trama ao olhar pela janela do banheiro, durante o banho. De onde estava, conseguia avistar uma favela. Pela distância, seria possível ser atingido por uma bala perdida. E se isso acontecesse mesmo? A partir desse insight, desenvolveu a história em parceria com o irmão.

Curioso que houve pelo menos um caso assim registrado no país, o de Older Cazarré. Ator de programas de humor da TV Globo e dublador (ficou famoso por dar voz ao personagem Dom Pixote dos desenhos animados da dupla Hanna-Barbera), morreu em fevereiro de 1992, aos 57 anos. Foi atingido por uma bala enquanto dormia em seu apartamento, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro.

 

Daytripper, de Gabriel Bá e Fábio Moon 

 

"Daytripper", criada por brasileiros, conseguiu projeção num ano bastante generoso de boas obras estrangeiras, estas feitas por autores de fora do país, de diferentes partes. Além do já citado "Asterios Polyp", o leitor brasileiro teve contato com os europeus "Lucille" (de Ludovic Debeurme, pela editora Barba Negra), "Três Sombras" (Cyril Pedrosa, Quadrinhos na Cia.), "Fidel Castro em Quadrinhos" (Reinhard Kleist, 8Inverso), "Castelo de Areia" (Pierre Oscar Lévy e Prederik Peeters, obra estreante da Tordesilhas) e "A Chegada", de Shaun Tan, história muda e que figura entre as melhores do ano.

A estrente editora Nemo resgatou alguns trabalhos importantes e inéditos no país. Trouxe de volta a série italiana "Corto Maltese", de Hugo Pratt, os incômodos relatos de guerra de "Era a Guerra das Trincheiras", do francês Jacques Tardi, e iniciou uma coleção com histórias de Moebius. Os dois primeiros foram "Azrach" e "Absoluten Calfreutrail & Outras Histórias".

Estreitou-se um pouco mais a edição de trabalhos argentinos, até então raros no país. A maior parte foi lançada pela editora Zarabatana. As tiras de "Macanudo" ganharam um quarto volume (de autoria de Liniers), o álbum "Noturno" teve uma edição nacional (com os desenhos detalhados de Salvador Sanz) e conteúdo da revista "Fierro", a principal da Argentina, foi reunido em forma de livro, dividido com quadrinistas nacionais (Danilo Beyruth, Gustavo Duarte, Adão Iturrusgarai, Eloar Guazzelli e outros). A Marca de Fantasia, de João Pessoa, reuniu histórias de "Carne Argentina", produzida por autores do grupo de La Productora.

Dos Estados Unidos, pôde-se ler o até então inédito "Mundo Fantasma" (Daniel Clowes, GAL) e novos volumes de "A Liga Extraordinária", ambientada em 1969 (Alan Moore e Kevin O´Neil, Devir), de "The Umbrella Academy" (desenhada por Gabriel Bá, Devir)e da viciante "Os Mortos-Vivos" (Robert Kirkman e Charlie Adlard, HQM).

Houve também reedições da erótica "Black Kiss" (Howard Chaykin, Devir) e de tiras históricas de "Peanuts" (quarto volume da série da L&PM), "Recruta Zero" (Mort Walker, Kalaco) e "Agente Secreto X-9" (Dashiell Hammett e Alex Raymond). Houve ainda a sequência de boas séries da Vertigo, via Panini, casos de "Fábulas", "Y - O Último Homem", "Ex Machina" e "Preacher", que, enfim, teve o último número lançado no Brasil.

A Panini também publicou séries da Vertigo numa revista mensal homônima. Duas merecem destaque: "Escalpo" e "Vampiro Americano". Esta é desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque e foi premiada como melhor nova série no Eisner Award e no Harvey Award.

                                                        ***

Os títulos da Vertigo dividiram as prateleiras das bancas com os super-heróis norte-americanos, os mangás japoneses, os personagens Disney, os faroestes italianos, Luluzinha em versão adolescente (produzida no Brasil) e infantil (trabalho original, produzido nos Estados Unidos nas décadas de 1940 e seguintes) e as revistas de Mauricio de Sousa.

"Turma da Mônica Jovem" continuou em evidência. A tiragem, entre 300 mil e 400 mil exemplares, segundo números da assessoria do desenhista e empresário, foi superior a de títulos estadunidenses dos heróis da Marvel e DC Comics. A revista também lidera as vendagens do setor no Brasil, vendendo mais que a versão tradicional de Mônica.

Os Estúdios Mauricio de Sousa continuaram também apostando em novos projetos. Um deles foi o terceiro volume de "MSP 50 - Mauricio de Sousa por 50 Novos Artistas", lançado no começo do segundo semestre. Talvez por se ancorar na mesma fórmula (histórias feitas por diferentes artistas), o álbum não teve a mesma repercussão que os dois anteriores, publicados em 2009 e 2010. Por outro lado, ganhou bastante destaque, inclusive na chamada grande mídia, o anúncio de quatro álbuns que serão produzidos com os personagens da Turma da Mônica, feitos por Vítor e Luciana Cafaggi, Gustavo Duarte, Shiko e Danilo Beyruth.

A Abril teve um nítido interesse em diversificar e ampliar seus títulos ao longo de 2011. Houve mais almanaques e especiais com os personagens Disney, publicou quatro volumes com histórias juvenis baseadas em animações de heróis da DC Comics (Super-Homem, Batman, Liga da Justiça e Joves Titãs) e encerra o ano com três revistas nacionais, "Gemini 8", da empresa TV Pinguim, "UFFO - Uma Família Fora de Órbita", de Lucas Lima, e "Garoto Vivo - Na Villa Cemitério", de Fabricio Pretti. Os dois últimos foram os trabalhos vencedores do Prêmio Abril de Personagens, realizado pela editora. O quadrinho de banca não está morto, como muitos apregoam, ancorados nas altas vendas do passado.

                                                         ***

Analisado em perspectiva, o ano de 2011 confirma algumas tendências: livrarias como pontos sólidos de vendas de quadrinhos; interesse editorial em adaptações literárias e em álbuns nacionais; vontade de os autores produzirem por conta e mostrarem serviço, em vez de ficarem esperando que algo aconteça; surgimento de histórias longas interessantes, num país que há menos de uma década dizia ser desprovido de bons escritores para narrativas de maior fôlego; mercado estrangeiro como alternativa para expor obras e/ou atuar; veiculação de histórias na internet para serem, depois, compiladas em papel; diversificação de títulos e gêneros; as tiras dos jornais são sombreadas pelas da internet.

Outra constatação é que ocorre uma redução no espaço que separa(va) os autores independentes e as editoras. Esse raciocínio foi percebido por Fabiano Barroso, editor da revista independente mineira "Graffiti 76% Quadrinhos", e é de se concordar com ele. Os quadrinistas que se autopublicam já conseguem tiragens e qualidade gráfica semelhantes às editoras de quadrinhos. Parte destas é mantida por uma, duas, três pessoas, que acumulam as funções administrativas com as editoriais.

Foi um ano em que o quadrinho nacional aconteceu.

E, ironicamente, no mesmo ano em que ganhou corpo o projeto de lei que estipula uma reserva de mercado de 20% para quadrinhos nacionais (nos jornais, 50%), tema acaloradamente debatido por autores, editores e leitores nas redes sociais, este blog inclusive. O texto, discutido na Câmara dos Deputados, ingressa em 2012 no Senado. Se aprovado lá, passa a sanção presidencial. É uma lei que, se aprovada e se for mantido o cenário atual, já entra em vigor obsoleta.

Pode-se questionar se essa tendência de volume de produção nacional será mantida daqui para a frente. Difícil dizer, até porque se trataria de previsão, e não de constatações. De concreto, já há anúncios de novos álbuns e adaptações nacionais para 2012, boa parte fruto do edital paulista do ProAC.

Mas pode-se analisar a questão por outro ângulo. Há cinco anos, alguém imaginava que veria tantos trabalhos nacionais publicados no país? Confesso que não. Trata-se, é fato, de um cenário bem mais promissor do que o de então.

E leitores e autores parece terem criado gosto pela coisa. Esse é o diferencial.

                                                         ***

Leia a primeira parte desta resenha na postagem abaixo.

                                                         ***

Aproveito para deixar a todos os votos de uma ótima virada de ano e de um 2012 ainda mais realizador. Até o ano que vem.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h38
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27.12.11

2011: o ano em que o quadrinho nacional aconteceu

 

  • Volume de trabalhos brasileiros publicados neste ano foi o maior da história
  • Produção circulou entre editoras, páginas virtuais e de forma independente
  • Número de encontros sobre quadrinhos no país também foi recorde

 

Quando Meu Pai se Encontrou com o ET Fazia um Dia Quente, de Lourenço Mutarelli. Crédito: Quadrinhos da Cia.

 

Há que se ponderar que a situação, do ponto de vista do autor de quadrinhos, ainda não é a ideal. Trabalha-se muito, ganha-se pouco, muitos nem recebem pelo serviço, fazem por amor à arte. Feita a ressalva, há também que se registrar que este foi um ano histórico para a produção brasileira. Nunca o país produziu tantas histórias como neste 2011. Isso fica claro se for observada a soma dos catálogos das editoras, o volume de obras independentes lançadas e o circuito de sites e blogs autorais dedicados ao tema.

Mais do que quantidade, viu-se também qualidade e pluralidade de gêneros, temas, formatos e suportes. As narrativas longas, tendência externa que ganhou espaço a passos largos nos últimos anos no Brasil, parece terem se enraizado de vez no solo editorial nacional. Foram poucas as editoras da área que não apostaram no setor. A maioria com mais de uma publicação. As livrarias se somaram às lojas especializadas em comercializar quadrinhos como fonte de escoamento dos títulos.

Não há números sobre vendas, algo que costuma ser divulgado pelas editoras apenas quando são informações atraentes. Há, no entanto, alguns dados. As tiragens ficam entre mil e três mil exemplares. Mais em casos esporádicos. O catálogo da Quadrinhos da Cia. também costuma ultrapassar essa marca. Foi o caso de "Quando Meu Pai se Encontrou com o ET Fazia um Dia Quente", que marca a volta de Lourenço Mutarelli aos quadrinhos. O álbum teve 6 mil cópias, segundo informe da Companhia das Letras repassado aos leitores. A obra, feita na forma de livro ilustrado, foi lançada no começo de dezembro.

Outro álbum que teve os números disponibilizados foi "Histórias do Clube da Esquina", de Laudo Ferreira Júnior. O trabalho biográfico sobre Milton Nascimento, Fernando Brant, Lô Borges e outros integrantes do movimento musical mineiro teve quase todos os 3 mil exemplares vendidos em quatro meses. A obra foi uma das dez escolhidas na edição de 2010 do ProAC (Programa de Ação Cultural). O mecanismo de apoio cultural do governo do Estado de São Paulo foi um dos principais impulsionadores de narrativas longas. Cada autor selecionado recebe R$ 25 mil para produzir a obra.

O edital paulista gerou também trabalhos como "Carcará" (Qualidade em Quadrinhos), de Aloísio de Castro, uma história de cangaceiro com verniz de faroeste que figura entre os destaques do ano, e "Vermelho, Vivo" (Cristina Judar e Bruno Auriema, Devir). A maior parte dos trabalhos foi feita em parceria com editoras. Estas, no entanto, fizeram apostas próprias, inclusive com autores estreantes em histórias longas. Apesar de novos no formato, começaram bem. Casos de Kerouac (João Pinheiro, Devir), "Yuri - Quarta-Feira de Cinzas" (Daniel Og, Conrad), "EntreQuadros - Círculo Completo" (Mario César, Balão Editorial), "A Balada de Johnny Furacão" (Eduardo Filipe, o Sama, Flaneur, reeditada no final do ano pela Kalaco), "Garoto Mickey" (Yuri Moraes, Dobra Quadrinhos), "Automatic Kalashnikov 47" (Luciano Tasso, Annablume) e "São Jorge da Mata Escura" (Marcello Fontana, André Leal, Antônio Cedraz e Naara Nascimento, RV Cultura e Arte). 

"Oeste Vermelho" (Devir), dos também estreantes Magno e Marcelo Costa, foi uma das boas surpresas do ano. Os irmãos gêmeos narram uma história de faroeste em que um rato sai em vingança contra os gatos que mataram sua família. A obra é resultado de parceria com a Quanta Academia, de São Paulo. A escola de artes seleciona trabalhos que julga relevantes e os encaminha para a editora Devir publicar. Outra surpresa foi trazida por Julius Ckvalheiyro, com o álbum "Guerra: 1939-1945" (Conrad). Narrado num estilo que mescla luz e sombras, apropria-se de um gênero pouco explorado no país, ainda mais numa história de maior fôlego.

Aos novos somam-se novos trabalhos de autores que já experimentaram esse modo de narrar quadrinhos em produções anteriores. Marcelo d´Salete ("Encruzilhada"), Rodrigo Rosa e Carlos Ferreira ("Kardec") e André Diniz ("Morro da Favela") marcaram os primeiros álbuns nacionais da Barba Negra, parceria com a editora portuguesa Leya. O trabalho de Diniz, uma biografia do fotógrafo carioca Maurício Hora, figura entre as melhores obras de 2011, incluídas as estrangeiras.  José Aguiar, Dw Ribatski e Paulo Biscaia fizeram uma leitura de trechos de peças de Biscaia em "Vigor Mortis Comics" (Zarabatana). Houve ainda três novas visitas a personagens já apresentados ao leitor. Nestablo Ramos Neto concluiu a segunda parte de "Zoo" (HQM), série pautada na interação entre humanos e animais. Danilo Beyruth também deu sequência às histórias do herói do além "Necronauta" (Zarabatana). Eduardo Schloesser revisitou seu Zé Gatão na aventura "Memento Mori" (Devir).

Três coletâneas tiveram curiosamente pontos coincidentes: reeditavam histórias já lançadas em álbuns anteriores ou em outras publicações e agregavam a elas novas narrativas; trabalhavam a identidade do brasileiro, em diferentes regiões do país; traziam histórias curtas, como se fossem contos em quadrinhos; obtiveram resultados artísticos singulares, cada uma a seu modo. André Toral mesclou o lado urbano do brasileiro de hoje com relatos de ontem em "Curtas e Escabrosas" (Devir). Marcello Quintanilha deu nova cara a um álbum publicado nos primeiros anos da Conrad, rebatizado agora de "Almas Públicas" (lançado pela mesma editora). O principal alvo são os fluminenses. Lélis trouxe de volta o álbum "Saino a Percurá", lançado uma década antes, e colou no título um "Ôtra Vez" (Zarabatana). O desenhista, especialista em aquarela, conta causos do sertão mineiro.

Merece registro especial a reunião das cem páginas que compuseram a história do "Garra Cinzenta" (Conrad). A reedição, em formato livro, trouxe - ou apresentou - ao leitor um dos primeiros quadrinhos adultos produzidos no país. Foi escrito por Francisco Armond (um pseudônimo),  desenhado por Renato Silva e publicado no final da década de 1930. Mais do que isso, ajudou a corrigir algumas informações histórias que eram reproduzidas acriticamente, sem que se tivesse contato com o trabalho original. Uma delas é que se tratava de uma aventura de terror. A leitura revela uma trama de mistério, com toques de história de detetive.

                                                         ***

Lélis publicou outro álbum neste 2011, uma versão em quadrinhos de "Clara dos Anjos", romance de Lima Barreto (1881-1922).  A obra foi feita em parceria com o roteirista Wander Antunes (para o Quadrinhos da Cia.). Adaptações como essa se configuraram num filão à parte, que tem rendido oportunidades de trabalho a autores nacionais. Das mais de 30 produções assim lançadas ao longo do ano, cerca de um terço foi produzida no país. O objetivo é atingir as gordas compras governamentais, que incluem tais álbuns nas listas de títulos levados às escolas. A principal é o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), do governo federal. Das 7 obras selecionadas neste ano pelo edital, 3 eram adaptações (apenas uma nacional, uma leitura de Romeu e Julieta com os personagens da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa).

Os editores costumam não deixar explícito o interesse nessas listas. São raras declarações como a dada por Fabricio Waltrick, da Ática, durante o 7º FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), realizado em novembro em Belo Horizonte. Sobre o assunto, sem nenhum receio, ele justificou o interesse da empresa no setor para atender à demanda gerada pelas compras do governo. A editora publicou neste ano uma versão quadrinizada de "A Escrava Isaura" (por Eloar Guazzelli e Ivan Jaf) e investiu em álbuns infanto-juvenis estrangeiros.

Os motivos do receio de muitos dos editores são um tanto nublados. Trata-se, de fato, de um bom negócio. Uma compra do PNBE varia entre 15 mil e 75 mil exemplares. Mesmo vendidos com desconto, gera-se um generoso lucro. E, em paralelo, cria um ramo de produção nacional. A Nemo, estreante no meio editorial, pôs no mercado no segundo semestre o maior volume de produções nacionais do setor neste ano. Foram três adaptações de William Shakespeare ("Otelo", "Sonhos de uma Noite de Verão" e "Romeu e Julieta") e uma do romance "Dom Casmurro", de Machado de Assis (por Wellington Srbek e José Aguiar).

Não é a regra, mas se podem obter bons resultados com as adaptações. Houve três casos assim em 2011. "Auto da Barca do Inferno", de Laudo Ferreira Júnior, soube trazer para os quadrinhos o tom da linguagem teatral, como a peça foi inicialmente concebida pelo português Gil Vicente, em 1516. Outros dois resultados diferenciados foram obtidos por meio de leituras visuais do conteúdo dos textos originais, buscando transpor em imagens as palavras originais. Foram os casos dos poemas "A Cachoeira de Paulo Afonso", de Castro Alves (1876), adaptado por André Diniz (Pallas) e "Fernando Pessoa e Outros Pessoas", uma vez mais por Eloar Guazzelli (Saraiva). 

Para 2012, avistam-se pelo menos mais cinco adaptações literárias em quadrinhos, todas elas produzidas por autores nacionais.

As narrativas mais longas - que os países de língua hispânica rotularam com o nome de "novela gráfica" - não se restringiram apenas ao circuito editorial. Circularam também pelo meio independente. O primeiro trabalho do ano, bancado pelo próprio autor, foi o quarto número de "Nanquim Descartável", série sobre duas amigas, criada pelo roteirista paulista Daniel Esteves. A obra foi lançada no fim de janeiro e foi a que mais se destacou no primeiro semestre, tímido de produções assim. Os seis meses seguintes, ao contrário, tiveram uma overdose de títulos alternativos, capitaneados pela história muda "Birds", de Gustavo Duarte, que começou a ser vendida no Brasil no final de agosto, e pelo décimo volume de "Café Espacial", em formato almanaque e com mais páginas que as edições anteriores. O mesmo Daniel Esteves assinou dois outros bons trabalhos, "O Louco, a Caixa e o Homem", em parceria com Will, e "Três Tiros, Dois Otários", com Caio Majado.

O que parece ter instigado a concentração de lançamentos independentes vista no segundo semestre foram dois encontros da área, a Rio Comicon e o já mencionado 7º FIQ. Muitos autores esperaram pelos dois eventos para mostrar seus trabalhos. O FIQ, em particular, foi inundado por quadrinistas que se autopublicam. Dos estandes que tomavam o fundo e a lateral esquerda da Serraria Sousa Pinto, onde o festival foi realizado, apenas quatro não eram de quadrinistas. Ao todo, foram lançados lá entre 40 e 50 títulos autorais, produzidos em diferentes partes do país. Foram um dos destaques do encontro, que recebeu 148 mil pessoas, segundo a organização. Dezoito mil a mais do que recebeu em julho no mesmo ano a San Diego Comic-Con, uma das mais visitadas convenções norte-americanas da área.

Difícil listar todos os lançamentos independentes do festival mineiro sem cometer a injustiça de deixar algum de fora. Houve até histórias em forma de CD, caso de "St. Bastard - O Orgulho de Cucamonga", de Leonardo Martinelli e Raphael Salimena. Mas dois casos ajudam a ilustrar bem o tema. O primeiro é o grupo paulista formado pelos desenhistas João Montanaro, Pedro Cobiaco, Felipe Nunes, Jopa Moraes e Calvin Voichicoski. Na faixa dos 15 anos, talentosos, integram uma nova geração de autores. Eles produziram revistas e pôsteres especificamente para vender no FIQ, num estande dividido com outros desenhistas. Paralelamente, todos mantêm blogs próprios e produzem para diferentes publicações, algumas delas jornalísticas.

O outro exemplo foi a estreia do grupo Pandemônio, uma das revelações do ano. Formado por autores mineiros, eles lançaram alguns pares de obras no FIQ. Pelo menos quatro delas eram trabalhos que merecem ser registrados por conta da qualidade. Duas foram assinadas por Victor Cafaggi, desenhista que ganhou projeção ao criar um blog com uma versão infantil de Peter Parker, alter-ego do Homem-Aranha. Ele publicou uma coletânea de tiras de Valente, personagem publicado nos fins de semana no jornal "O Globo" e que funciona melhor se lido em sequência, e "Duo.Tone", um sensível relato sobre a infância e as fantasias inerentes a ela.

Outro trabalho foi o criativo álbum "Ovelha Negra", que procurou recriar a história e o estilo de uma fictícia revista de décadas passadas (não confundir com o tabloide de humor homônimo, que teve poucos números e que, de fato, existiu). A obra é uma parceria de Daniel Werneck, professor universitário e um dos organizadores do FIQ, e Ryot.  "Achados e Perdidos", mais um álbum gerado pelo selo, tornou-se um dos destaques nacionais do ano. A trama narra a história de um adolescente que, de uma hora para outra, encontra um buraco negro no próprio estômago. A obra foi produzida pela dupla Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho e traz um bastidor peculiar: foi impressa com verba doada por leitores, via site "Quadrinhos Rasos". Os nomes das mais de 500 pessoas que colaboraram aparecem nas páginas iniciais da obra.

A integração entre internet e papel esteve na base de uma série de outros lançamentos, independentes ou não. Confirmou-se neste 2011 a tendência de usar a rede mundial como processo paulatino de produção para, depois, verter o conteúdo - ou parte dele - para o papel. São os casos das coletâneas de tiras de "Ultralafa" (Daniel Laffayete, Barba Negra), "Os Passarinhos" (de Estevão Ribeiro, Balão Editorial), "Rei Emir Saad - O monstro de Zazarov" (André Dahmer, Barba Negra), do autobiográfico "Diário de um Casal" (Ric Milk), do independente "1000 Palavras" (Marcelo Saravá), da série "Um Sábado Qualquer", que repetiu na versão impressa a popularidade da internet (Carlos Ruas, Devir). O livro esgotou em poucos meses e já ganhou nova impressão.

Outra experiência revelante foi vista no segundo semestre. A seção de entretenimento do portal IG passou a veicular histórias em quadrinhos semanais, produzidas especificamente para o site por cinco autores nacionais: Rafael Albuquerque (a ficção científica "Tune 8"), Rafael Coutinho ("O Beijo Adolescente"), Rafael Sica ("Borgo"), Eduardo Medeiros (Roberto") e Raphael Salimena ("Z"). Os dois primeiros reuniram as primeiras partes de suas séries em versões impressas, lançadas no Rio Comicon e no FIQ. Segundo Albuquerque, sua história irá continuar por conta. De acordo com ele, o contrato de seis meses não foi renovado e o espaço não terá sequência em 2012.

Isso sem falar nos vários blogs autorais da internet.

                                                        ***

Tão inusitado foi este 2011 que até mesmo um dos destaques internacionais foi produzido por autores brasileiros. É o caso do fenômeno "Daytripper", de Gabriel Bá e Fábio Moon, um dos temas da segunda parte desta resenha.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h02
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18.12.11

Nos quadrinhos, foi Neymar quem goleou Messi

 

  • Mercado de histórias em quadrinhos na Argentina viveu retração em 2011
  • Volume de lançamentos reduziu se comparado aos últimos cinco anos
  • Mesmo a tradicional revista "Fierro" sentiu queda no número de vendas

 

Capa de Angela Della Morte, de Salvador Sanz

 

A final do Mundial de Clubes, realizada na manhã deste domingo, no Japão, usou uma metonímia para polarizar a disputa. Não seria apenas um embate entre Santos e Barcelona.

Tratava-se, sim, de um confronto entre Neymar e Messi. Ou entre Brasil e Argentina, se visto do ponto de vista sul-americano.

Sabe-se do resultado: os espanhóis golearam o time do litoral sul paulista por quatro a zero. A imprensa argentina chegou a dizer que o "futebol brasileiro foi humilhado".

Exagero dos colegas da imprensa de Buenos Aires, de onde escrevo estas linhas. Assim como também o é o "embate" entre Brasil e Argentina na final do Mundial de Clubes.

                                                         ***

Apesar dos exageros, a metáfora vale e ajuda a visualizar melhor os cenários vividos hoje pelos mercados brasileiro e argentino de histórias em quadrinhos.

Nessa partida, pelo menos, foi Neymar quem levou a melhor. Os times brasileiros tiveram um 2011 excepcional. Na Argentina, o que se viu foi um mercado bem mais tímido.

Houve lançamentos, mas poucos. Metade esteve ancorada em reedições de antigas histórias, lançadas em revistas como "Skorpio" ou "Fierro".

A "Fierro", em particular, responde por três das coletâneas do ano: "Fantagas", de Carlos Nine, "El Sr. y Sra. Rispo", de Diego Parés, e "Angela Della Morte", de Salvador Sanz.

                                                         ***

Mesmo a "Fierro" patinou nas vendas neste ano. Duas fontes confirmaram ao blog que a revista esteva no vermelho há alguns meses. Continua sendo publicada, no entanto.

A publicação sai todo segundo sábado do mês, vendida com o jornal "Página/12". No Brasil, a Zarabatana programa para 2012 uma segunda antologia com conteúdo da revista.

Outro sinal pode ser visto com a Ivrea, principal editora de mangás da Argentina. A empresa deixou de produzir as revistas no país. O que lança, agora, vem da Espanha.

As livrarias já não têm tanta diversidade. As comiquerías - nome das lojas de quadrinhos na Argentina - continuam com farto material, mas com pouco editado no país durante 2011.

                                                          ***

O que se viu foram lançamentos pontuais de diferentes editoras. Mesmo as tradicionaias, como a Doedytores e a Historieteca, reduziram seu catálogo neste ano.

Uma das que mais se destacou foi a Editorial Común, mantida pelo desenhista Liniers. Ele lançou cinco títulos, um deles uma coletânea de histórias autobiográficas suas.

Os demais são "La Ciudad de los Puentes Obsoletos", "Virus Tropical", "Fuye" e o estrangeiro "Umbigo sem Fundo", já publicado no Brasil pelo Quadrinhos da Cia.

Houve também algumas retomadas de histórias antigas de Carlos Trillo, por conta de seu falecimento. O roteirista morreu em maio deste ano, durante viagem à Europa.   

                                                          ***

Há quem diga que parte dessa retração se deve a uma espécie de clima de luto, sentido no meio quadrinístico. À morte de Trillo somou-se outra, de Francisco Solano López.

O veterano desenhista morreu em agosto passado. Ele foi responsável pela arte de "El Eternauta", tida como um dos principais quadrinhos do país.

Como a morte é algo culturalmente muito presente e cultuado na vida dos argentinos, pode-se até supor que esse seja um dos motivos. Mas, seguramente, não o único.

O curioso é que há cinco anos ocorria justamente o oposto, era a Argentina que vivia dias melhores nos quadrinhos. Hoje, é o Brasil. Que inclusive tem publicado obras de lá.

                                                         ***

Há que se entender melhor o impacto deste 2011 para o quadrinho brasileiro. É o que procuraremos fazer no blog nas postagens finais deste ano.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h04
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13.11.11

FIQ 2011: a base de lançamentos independentes

 

  • Festival Internacional de Quadrinhos concentrou volume alto de títulos independentes
  • Entre 40 e 50 publicações autorais foram lançadas especificamente no evento
  • Sétima edição do encontro, realizado em Belo Horizonte, terminou neste domingo

 

Achados e Perdidos. Crédito: Quadrinhos Rasos

 


Os autores independentes foram o principal diferencial da sétima edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), que terminou neste domingo em Belo Horizonte (MG).

É difícil dizer com precisão o número exato de títulos feitos especificamente para serem lançados no encontro bienal. Mas sabe-se que é alto. Fica entre 40 e 50 títulos.´

Foi sem dúvida a maior concentração de publicações autorais novas num único evento, desde que o circuito independente brasileiro ganhou fôlego a partir de 2007.

O volume aumento se forem somadas outras obras, lançadas em eventos anteriores (caso do Rio Comicon, em outubro) ou ao longo dos demais meses do ano.

                                                         ***

Dou um exemplo pessoal para dar uma dimensão numérica do cenário que tento apresentar. Voltei para casa com cerca de 70 obras. Nem cinco delas são de editoras tradicionais.

E olha que os autores independentes tinham uma boa concorrência pela atenção dos visitantes que lotaram os quatro dias do encontro, iniciado na quarta-feira, dia 9.

Eles dividiram espaço com Mauricio de Sousa, homenageado desta edição, e com desenhistas estrangeiros, casos de Horacio Altuna, Bill Sienkiewcz e Cyril Pedrosa.

(Sobre os estrangeiros, de tão acolhedores que eram com todos, gerou este comentário ouvido por lá: "Parece que a organização do FIQ seleciona esses autores pela simpatia".).

                                                         ***

Os números independentes se sobrepuseram também nos estandes, situados no centro, no fundo e no canto esquerdo da Serraria Souza Pinto, no centro de BH, local do evento.

Se a conta não engana, apenas quatro desses espaços eram ligados ao circuito comercial: a livraria Leitura, da capital mineira; a loja Comix, de São Paulo; a Itiban, de Curitiba.

O quarto espaço comercial era da editora Nemo, que lançou seis álbuns no FIQ, a maior parte adaptações literárias. A Leya/Barba Negra trouxe outros dois, ambos nacionais.

O restante era todo tomado pelos autores, vindos de diferentes estados. Com material novo aliado ao catálogo já existente, protagonizaram um momento histórico da HQ nacional.

                                                         ***

Não é exagero rotular esse caso como histórico. Vale reforçar: nunca antes houve tantas publicações independentes novas concentradas num mesmo espaço físico.

Pode-se contra-argumentar que houve o mesmo em eventos anteriores como o Rio Comicon, em outubro, ou no Gibicon, em Curitiba, em julho. Sim, mas não tanto assim.

Mais: o que foi lançado nos outros encontros de quadrinhos realizados ao longo do ano retornou agora neste FIQ e se somou ao que havia de novo.

Outro aspecto que singularizou esse momento foi que, ao lado da quantidade, percebia-se também nas obras produções graficamente bem editadas e com conteúdo à altura.

                                                         ***

É humanamente impossível ler em um par de dias todos os álbuns e revistas independentes trazidos do FIQ. Mas, do pouco que já li, fiquei bem impressionado com o conteúdo.

Como não se pode falar de tudo, pinço apenas um caso como exemplo, o do Pandemônio, nome dado a um conjunto de autores mineiros interessados em publicar quadrinhos.

Eles usaram este FIQ para tornar públicas suas edições impressas e, de certa forma, o próprio selo de publicação. Os poucos títulos que eles lançaram são impressionantes.

Do álbum "Achados e Perdidos", desde já um dos melhores do ano, às histórias humanas de Vitor Cafaggi. Do humor de Ryot ao experimentalismo de Daniel Werneck e Lu Cafaggi.

                                                        ***

Essa presença em massa de autores independentes no FIQ parece trazer um recado, que vem sendo escrito nos últimos três, quatro anos.

A mensagem é que o quadrinista brasileiro não está mais à mercê de ser descoberto pelas editoras, nem as usa como desculpa pela não publicação nacional.

Ideia na cabeça, vertida no papel. Os avanços tecnológicos trazidos pela internet e pelo computador já possibilitam fazer também a edição, antes tão restrita ao circuito comercial.

O objetivo é ser lido e, claro, usar o trabalho impresso como cartão de visitas para outros projetos. E que melhor portifólio que uma história já feita? E, pelo que li, muito bem feita.

                                                         ***

Nota: participei do FIQ a convite da organização do festival.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h18
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03.11.11

Princípio, meio e fim para o quadrinho nacional

Uma discussão recorrente ganhou corpo nesta quinta-feira na rede social Twitter. O pontapé para o debate foi dado pelo desenhista Rafael Grampá e rapidamente se espalhou.

Grampá reproduzia um link para reportagem do "Diário do Vale" de 2 de dezembro de 2009. O texto trazia como título "Cida aprova reserva de mercado para quadrinhos".

Contexto: a pessoa em questão é a ex-deputada federal Cida Diogo (PT-RJ), então relatora da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara.

A matéria fazia referência a parecer favorável dela, emitido em 18 de novembro daquele ano, sobre a criação de uma cota mínima de 20% para quadrinhos nacionais.

                                                         ***

Pelo texto, a implementação seria gradativa. Cinco por cento no primeiro ano, 10% no segundo, 15% no terceiro até chegar aos almejados 20% mínimos no quarto ano.

Não há informação sobre o trâmite seguinte do projeto de lei 6.060-A, de autoria do deputado reeleito Vicentinho (PT-SP). Sabe-se que neste ano se iniciou nova gestão eleita.

De qualquer forma, é pertinente o debate, qualquer que seja o resultado. Sintetizando em uma perguta: é mesmo necessária a criação de uma reserva de mercado nacional às HQs?

O debate no Twitter envolveu autores, leitores e criadores. A maior parte se posicionou de forma contrário à cota. Também compartilho desse opinião.

                                                         ***

Antes de avançar a discussão, é preciso reiterar que ela é recorrente. Um primeiro ensaio dela chegou a ser aprovada pelo ex-presidente João Goulart em 23 de setembro de 1963.

A medida era ainda mais radical: impunha reserva de 60% a ser alcançada num intervalo de três anos.

Um dos argumentos, não custa nada registrar, era baseado no fato de que "muitas dessas publicações inserem história de cunho político-ideológico, ou estampam cenas altamente prejudiciais à boa formação moral e mental da adolescência e da infância".

A lei entraria em vigor em 1964. O golpe militar a matou. Quase 50 anos depois, o que o projeto de lei elaborado pelo deputado Vicentinho procura fazer é algo muito semelhante.

                                                          ***

O ideal é que o quadrinho produzido no país se auto-imponha, e não que se obrigue uma produção desenfreada e sem um critério qualitativo muito claro.

O risco é que, para cumprir a regra, editoras de quadrinhos publiquem o que estiver à mão, apenas para cumprir uma exigência legal. Isso não significa fomento ao mercado.

Outro ponto em aberto: o que exatamente é uma editora de quadrinhos?

Como ficaria uma empresa que pretende lançar apenas um álbum estrangeiro? Como ficaria a cota numa situação dessas? Para cada obra de fora, algo equivalente nacional?

                                                         ***

Nesse debate, há que se separar o princípio, o meio e o fim.

O princípio da lei, até prova em contrário, é bem intencionado. Procura fomentar a produção brasileira de histórias em quadrinhos, algo tentado há décadas no país.

Não se tem uma pesquisa a respeito, mas é de se esperar que não haja divergências quanto a esse princípio. Parte-se da premissa de que todos concordam com a produção nacional.

O mesmo valeria para o fim. A finalidade é tornar mais produtivo um setor que tem muito ainda a melhorar. O nó fica, então, com o meio para se chegar a isso.

                                                         ***

O meio proposto pelo projeto de lei é bem claro: reserva mínima de 20%. Mas é possível encontrar outro caminho, proposto pelo próprio texto de lei.

O artigo quinto do projeto registram que o poder público "implementará medidas de apoio à produção de histórias em quadrinhos nacionais".

O artigo sexto inclui ainda bancos e agências de fomento.

Se se tem de criar uma lei para o setor, a entrada talvez seja essa.

                                                          ***

Já há uma bem-sucedida experiência nesses moldes feita nos últimos quatro anos no Estado de São Paulo. Trata-se do ProAC, uma lei de incentivo à produção cultural.

No caso da área de quadrinhos, as regras têm sido as mesmas. O autor, que tem de morar no Estado, apresenta um projeto de história em quadrinhos ou coletânea de tiras.

Dez são selecionados a cada edição. O quadrinista contemplado recebe verba de R$ 25 para produzir e editar a obra. Fica a critério lançar por uma editora ou de forma autônoma.

A um custo anual de R$ 250 mil, muito para o padrão do brasileiro e nada para o orçamento paulista, conseguiu-se fomentar produção e mercado, com mais de cem inscritos em 2011. 

                                                         ***

Por que não uma lei como essas em âmbito federal? A seleção - que deveria ser acima de suspeitas - garantiria a qualidade dos projetos. Mas com ajustes.

O quadrinista teria um prazo de oito meses para lançar o álbum - seis de produção e dois de edição e impressão -, tal como ocorre no modelo paulista.

Mas o valor a ser pago a cada autor poderia aumentar para R$ 35 mil. Explicando a quantia: cinco a dez mil para impressão e o restante para pagar o tempo dedicado à produção.

O volume de projetos aprovados também deveria aumentar. Digamos uns 50 por ano, uma média de quatro por mês. Número bastante razoável.

                                                          ***

Haveria, claro, contrapartes (não se pode esquecer de que se trata de dinheiro público).

Os autores teriam de imprimir dois mil exemplares e doar 500 a bibliotecas do estado a que pertence, previamente cadastradas.

Já passou da hora de as bibliotecas serem vistas como locus de fomento à leitura no país. E parte do acervo deveria ser dedicado a quadrinhos. A medida ajudaria nesse sentido.

Outro ponto seria a necessidade de os autores fazerem palestras ou oficinas nessa mesma biblioteca, aproximando a obra ao leitor e, assim, estimulando o contato com ela.

                                                          ***

Os custos anuais são irrisórios se comparados ao orçamento federal. Mas chegam a ser menores que os custos anuais do gabinete de apenas um deputado federal.

Isso ajudaria a estimular a produção e a leitura. Mas haveria um risco: criar uma espécie de comodismo por parte de editoras, que ficariam apenas à espera dos projetos aprovados.

Para inibir isso, duas medidas. Primeira: uma das contrapartes seria estipular a necessidade de comercialização da obra a preços mais acessíveis.

O autor também teria direito a uma fatia maior dos direitos autorais, posto que a obra irá ajudá-lo a viver de quadrinhos durante aquele período.

                                                         ***

A segunda medida concreta seria alcançada com outra medida legal. Reduz-se o imposto das obras nacionais produzidas pelas editoras. Mantém-se o dos títulos estrangeiros.

Não se obriga a publicar uma cota nacional. Nem se proíbe os títulos estrangeiros - há muita coisa boa que merece ser lida. Mas se incentiva, de fato, projetos brasileiros.

Desnecessário lembrar que, se adotada em escala estadual, tais medidas aumentariam exponencialmente a produção.

Outra recomendação poderia estar vinculada às compras de quadrinhos para bibliotecas escolares. Por que não uma cota de títulos nacionais (e não de adaptações literárias)?

                                                          ***

São ideias. E, como tais, estão sujeitas ao necessário debate, assim como o projeto de lei, que, pelo exposto, não irá resolver a questão a contento. Isso se for mesmo aprovado.

Basta notar o papel que os álbuns nacionais já têm conseguido nos dois últimos anos no país. Sem leis como essa, muitos deles se impuseram pela qualidade.

Fecho com uma pensata dita pelo professor Hector Fernández L´Oeste, em palestra feita em agosto durante as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos.

Ele dizia ver nas livrarias brasileiras 25% de quadrinhos nacionais. E questionava: ocorre o mesmo nos Estados Unidos e Japão? Claro que não. Aí é que está o problema.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h31
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24.10.11

Tudo ao mesmo tempo agora

Terminou nesse domingo, no Rio de Janeiro, a segunda edição da Rio Comicon. Teve bom destaque na grande mídia, inclusive com reportagens no Jornal Nacional e no Fantástico.

Nesta segunda-feira, já há outro encontro de quadrinhos, desta vez em São Paulo, o KingCon, realizado na unidade da Avenida Paulista da livraria Fnac. Vai até domingo.

Olhando para a frente, enxerga-se no horizonte a sétima edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em novembro, em Belo Horizonte. A programação conta com mais de 60 convidados.

Vendo pelo retrovisor, a lista de eventos se torna ainda mais gorda: Fest Comix, em São Paulo, Gibicon, em Curitiba, Feira de Autores, em Salvador, para limitar a três exemplos.

                                                         ***

Há neste 2011 uma concentração de eventos de quadrinhos. Alguns são tradicionais, casos do FIQ e do Fest Comix. Mas tantos assim, um atrás do outro, indica algo novo no ar.

A pergunta que fica, ainda sem uma resposta muito clara, é por que este ano concentrou uma gama tão grande de encontros de histórias em quadrinhos, em diferentes estados?

Embora os motivos disso ainda sejam um pouco nublados, é possível trilhar um caminho de resposta. Um, não, dois caminhos.

A primeira trilha leva a um seleto grupo de pessoas que dedica boa parte do tempo livre para dar vez e voz à área. Muitos dos eventos só existiram por terem organizadores assim.

                                                          ***

Outro caminho de resposta se pauta em questões comerciais. Não é equivocado supor que alguém tenha interesse em capitalizar com publicações em quadrinhos.

Pode não ser um retorno apenas imediato, como a venda de publicações diretamente aos leitores que passaram pelos estandes.

Pode ser a longo prazo, com olhos na formação de público. Planta-se hoje para colher num segundo momento. Algumas editoras e livrarias figuram seguramente nesse rol.

Há certamente outros motivos, que peço aos leitores do blog a ajuda de elencar. Mas fato é que os eventos estão aí e trazem, com eles, uma gama de lançamentos diferentes.

                                                          ***

Há uma tendência de as editoras aproveitarem oportunidades assim, com amplo público, para expor pela primeira vez alguns de seus lançamentos. Basta ver o passado recente.

Na Fest Comix, no meio do mês, foram lançados os nacionais "Calafrio" e "Zoo" e os estrangeiros "Recruta Zero - Anos Dourados", "Asterios Polyp", "Zumbis" e "Macanudo 4".

Na Rio Comicon, nos últimos dias, outro tanto: "Kardec", "Todo Mundo é Feliz", "1001", "O Louco, a Caixa e o Homem", "Lucille", entre outros. No FIQ, vai haver outro tanto. Fora os mangás, que representam uma fatia generosa das vendas do mercado brasileiro de hoje. 

Mas fica outra pergunta no ar, também sem uma resposta muito clara: como o mercado irá responder a isso nos próximos anos. É algo para ir acompanhando de perto.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h47
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14.10.11

Carta aberta à revista Veja

Prezados,

li com atenção à reportagem publicada na edição desta semana de "Veja", intitulada "A Pedagogia do Garfield", sobre a presença de questões de literatura na prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), elaborado pelo governo federal.

Afora a validade e a pertinência da pesquisa realizada por docentes do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), parece-me haver alguns equívocos na leitura do estudo e na forma como foi comparado com as histórias em quadrinhos.

A respeito da leitura dos dados, a revista diz que "a literatura está virtualmente ausente do Enem" e que o importante para o jovem que presta a prova "é saber interpretar uma história em quadrinhos". Há, nisso, uma interpretação errônea do estudo, cujas conclusões são reproduzidas pela própria publicação.

Tabela apresentada na reportagem dá conta de que o Enem pautou seus enunciados em textos de poesia (58 questões), crônica (21), romance (20), conto (5) e drama (1). O total, portanto, chega a 105 questões sobre gêneros literários, número maior que os demais itens, histórias em quadrinhos (32), crítica (21) e canção (14).

Logo, há presença, sim, de literatura no exame, ao contrário do que sugere a reportagem. E presença três vezes maior que o volume de histórias em quadrinhos.

Deve-se concordar, no entanto, com a interpretação de que romancistas importantes de nossa literatura - e o romance em si - tenham sido pouco ou quase nunca trabalhados em questões da prova. Isso se configura um ponto a ser reavaliado pelos responsáveis pelo Enem. Mas dificilmente irá gerar no ensino médio o desaparecimento da literatura caso a situação assim continue, como indica uma das entrevistadas da matéria.

O outro ponto da reportagem que nos parece carecer de ajuste é no tocante à forma como a pesquisa foi comparada com as histórias em quadrinhos. Há dois aspectos a serem observados sobre isso.

O primeiro é que se trata de analogias distintas. A literatura é composta de diferentes gêneros, como bem ilustra a arte que compõe a matéria e já citada nesta carta. O mesmo vale aos quadrinhos. Estes possuem uma gama ampla de gêneros, como as tiras cômicas, as histórias infantis, as de super-heróis e as reportagens em quadrinhos, para ficarmos em quatro exemplos.

Vê-se, portanto, que comparar cinco gêneros literários (poesia, crônica, romance, conto e drama) com um rótulo que abriga diferentes outros gêneros, caso dos quadrinhos, configura algo inarticulável e, por consequência, nubla uma eventual tentativa articulação dessa ordem.

O segundo aspecto a ser observado no tocante à forma como os quadrinhos foram trabalhados na matéria é a sugestão de que exista uma hierarquia de leituras, na qual tiras como "Garfield", "Mafalda" e "Hagar" - todas usadas no Enem - estariam num grau de complexidade e qualidade inferior ao literário. Isso fica expresso na matéria em trechos como:

  • "A começar pela valorização desmesurada das histórias em quadrinhos - o segundo gênero mais cobrado na prova, atrás apenas de poesia (veja o quadro abaixo) -, o exame mostra desproporções e equívocos de toda ordem."
  • "Não seria mau que, em uma prova destinada a avaliar todos os conteúdos do ensino médio, cerca de 13% das questões fossem dedicadas à cultura literária. Mas esse número inclui modalidades como histórias em quadrinhos e letras de canções populares, respectivamente segundo e sexto lugares entre os gêneros mais exigidos no Enem."
  • "O Enem contribui para construir um país mais iletrado."

Há um explícito tom de espanto da reportagem tanto sobre o volume de questões pautadas em histórias em quadrinhos (32) quanto pelo conteúdo por estas apresentado, que ajudaria a construir um país "iletrado".

Uma vez mais, são comparações de ordens diferentes. Não se pode atribuir ao pouco volume de questões sobre romances e seus autores à pura presença de questões sobre quadrinhos que, reitera-se, aparecem em menor número que as literárias.

Existem pesquisas que comprovam o volume de informações a serem acionadas pelos leitores no processo de construção de sentido de uma tira cômica, como as elencadas pela reportagem e trabalhadas no Enem. Ler um texto assim, verbal escrito e visual, integra a Lei de Diretrizes Básicas da Educação e as orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), ambos instaurados no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Pertence aos PCN também a nomenclatura "Linguagens, códigos e suas tecnologias", usada para o ensino médio e que causou outro estranhamento exposto na reportagem ("... podem ser usados para avaliações de gramática (se é que a palavra ainda faz sentido no meio das tais linguagens, códigos e suas tecnologias)".

Nesse ponto, o Enem acerta. As histórias em quadrinhos, em seus diferentes gêneros, configuram um texto peculiar para a produção do sentido, por conta da articulação entre imagem e palavra . Tal articulação soa simples, mas não é.

No Saresp (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) aplicado em 2007 a alunos do terceiro ano do ensino médio, 78,8% dos estudantes tiveram rendimento "abaixo do adequado", ou seja, inferior ao esperado para a série que cursam, em uma prova que contava com uma tira de "Hagar, o Horrível" entre as questões, mesmo personagem e série utilizado no Enem.

Não é de estranhar que vestibulares importantes, como o da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), valham-se do recurso das tiras para compor suas questões (no caso da Unicamp, elas estão presentes desde 1990). As capacidades esperadas do aluno estão não apenas na articulação entre imagem e palavra, mas na construção do sentido de humor pretendido a partir delas.

É de suma importância o levantamento feito pelos docentes da UFRGS e trazido a público por "Veja". Mais do que uma pesquisa, trata-se de um alerta sobre os rumos como a literatura vem sendo trabalhada num dos principais mecanismos de seleção ao ingresso universitário vigentes no país e que carece de constante leitura crítica.

Mas não se pode atribuir aos acertos do exame uma suposta culpa pelos equívocos. Literatura e quadrinhos são produções textuais de diferentes ordens, com distintos gêneros autônomos, cada um igualmente válido e com peculiaridades próprias no processo de construção do sentido. Espera-se que o estudante brasileiro seja proficiente nesse processo plural de leitura.

Sem mais,

Paulo Ramos
Jornalista e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo

Escrito por PAULO RAMOS às 11h35
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24.09.11

Novos contos do além

 

  • Álbum traz mais histórias de Necronauta, personagem que leva mortos ao além
  • Obra é o primeiro trabalho de Danilo Beyruth após o premiado "Bando de Dois"
  • Autor lança "Necronauta - O Almanaque dos Mortos" neste sábado em São Paulo

 

Necronauta - O Almanaque dos Mortos. Crédito: editora Zarabatana Books

 

A repercussão obtida pelo álbum "Bando de Dois" agregou um previsível destaque ao trabalho seguinte de Danilo Beyruth,  "Necronauta - O Almanaque dos Mortos" (Zarabatana Books, 112 págs., R$ 36), que tem lançamento neste sábado à tarde em São Paulo.

Não é por menos. Lançado em 2010, "Bando de Dois" foi o principal destaque do HQMix deste ano, com três troféus. Também foi selecionado pelo governo para ir às escolas.

O caminho natural seria comparar uma obra à outra. Mas seria também um equívoco. Trata-se de histórias diferentes, com propostas diferentes.

A comparação mais precisa é com o volume anterior do personagem, lançado em dezembro de 2009 pela editora HQM. Quem gostou do primeiro vai gostar deste também.

                                                           ***

Necronauta é um personagem secundário em suas próprias histórias. Ele está lá para cumprir a mórbida tarefa de conduzir ao além mortos que tenham algum tipo de pendência.

As tramas são narradas na forma de contos. Bem escritos, como no volume anterior, realçam distintas facetas da vida das pessoas em questão.

Os temas ecléticos passam por um amor deixado para trás, um estado comatório, a perda da fama e um inusitado caso de bullying feito por fantasmas.

O álbum traz sete histórias, uma em duas partes. À exceção de um dos textos, escrito por Hector Lima, todos os demais tem assinatura de Beyruth, que faz a arte também.

                                                          ***

Assim como "Bando de Dois", Necronauta vai na contramão do que o mercado editorial brasileiro tem pautado. Em vez de realismo, ficção. 

Mais: no país onde os super-heróis nacionais sempre ficaram à margem, Beyruth vai e impõe como personagem-título justamente um ser fantasiado, com poderes.

Atitude corajosa, tem ajudado a singularizar a produção do autor. Aliada, claro, aos roteiros bem amarrados e aos desenhos, sempre impressionantes. É autor em franco crescimento.

Crescimento que a Zarabatana Books soube destacar, incluindo os prêmios do autor na contracapa da obra. Quem perdeu foi a HQM, que não soube segurar Beyruth.

                                                          ***

Saiba por que Danilo Beyruth saiu da HQM na postagem de 18.07.

Leia também a resenha do primeiro volume na postagem de 22.12.2009.

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Necronauta - O Almanaque dos Mortos", de Danilo Beyruth. Quando: sábado (24.09). Horário: das 15h às 18h. Onde: loja Comix. Endereço: alameda Jaú, 1.998, São Paulo. Quanto: R$ 36.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h15
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19.09.11

PNBE 2012 diminui compra de quadrinhos

 

  • Programa do governo federal reduz número de HQs para serem levadas às escolas
  • Das 250 obras selecionadas, 7 são em quadrinhos; 3 delas são adaptações literárias
  • Lista com títulos foi divulgada no fim da semana passada no "Diário Oficial da União"

 

Drácula. Crédito: Companhia Editora Nacional

 


Foi uma rasteira nos editores de quadrinhos. O governo federal reduziu sensivelmente o volume de obras do setor na lista do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola).

A relação foi publicada na quinta-feira passada no "Diário Oficial da União". Dos 250 títulos selecionados para serem levados às escolas no ano que vem, 7 são em quadrinhos.

Proporcionalmente, significa 2,8% do total. Na edição passada, beirava 30 publicações. O objetivo é comprar acervos para formar bibliotecas de escolas públicas do país.

O que se manteve foi a preferência por adaptações literárias. Três dos sete títulos são versões quadrinizadas de clássicos. É quase a metade.

                                                         ***

A opção pelas adaptações consta no edital de seleção, semelhante ao das edições anteriores.

A menção aos quadrinhos é acompanhada da frase "dentre os quais se incluem obras clássicas da literatura universal, artisticamente adaptadas".

Foi o que levou à seleção das versões de "Drácula" e de "Frankenstein", ambas da Companhia Editora Nacional, e de "Turma da Mônica - Romeu e Julieta", da Panini.

Os demais títulos são "Bando de Dois" (Zarabatana), "O Ratinho se Veste" (Companhia das Letrinhas), "Aya de Yopougon" (L&PM) e "365 Dias na Mata do Fundão" (Globo).

                                                          ***

Os quadrinhos entraram na lista do PNBE em 2006. Eles têm sido selecionados anualmente desde então. O volume da compra varia entre 15 mil e 48 mil exemplares.

As gordas vendas têm atraído diferentes editoras, tanto as que publicam quadrinhos quanto as que não. Muitas apostam nas adaptações para entrar na relação do governo.

Foi o que pautou o lançamento de quase três dezenas de versões literárias em quadrinhos em 2011. Neste ano, o ritmo têm se mantido o mesmo.

Observando criticamente, vê-se que a lista do PNBE ainda tende a ver os quadrinhos com ressalvas. Não se trata de leitura em si. Mas de ferramenta para se chegar à literatura.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h34
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12.09.11

Bom filho à casa retorna

 

  • Nove anos depois, Abril volta a publicar revistas de super-heróis da DC
  • Editora publica quatro almanaques com versões baseadas em animações
  • Iniciativa diversifica catálogo, até então ancorada apenas nas HQs da Disney

 

As Aventuras do Superman 1. Crédito: editora Abril  Liga da Justiça. Crédito: editora Abril

 


Depois de nove anos, a editora Abril voltou a publicar neste mês revistas com os super-heróis da DC Comics.

São almanaques com mais de cem páginas, que reúnem cinco histórias cada um. As aventuras são baseadas nas animações, exibidas no Brasil pelo SBT e o Cartoon Networks.

"Liga da Justiça", "As Aventuras do Superman", "Batman - Os Bravos e Destemidos" e "Os Jovens Titãs" são vendidos nas bancas e custam R$ 7,95 cada um.

Mais do que lançamentos, são a tentativa mais contundente em anos da editora paulista de diversificar seu catálogo de publicações de quadrinhos.

                                                            ***

A história dos quadrinhos no Brasil reserva à Abril o papel de uma das principais e mais regulares editoras de histórias em quadrinhos do país na segunda metade do século 20.

Ancorada nos personagens Disney, mas não só neles, a empresa paulista se tornou um dos grupos mais importantes do setor na América Latina.

Neste século, no entanto, a redação de quadrinhos foi esvaziada quando os títulos de super-heróis migraram para a concorrente Panini, que se lançava no setor de quadrinhos.

Em poucos anos, a multinacional se tornou a líder do segmento de quadrinhos de bancas. Ainda hoje, são da Panini os direitos de publicação do grosso dos títulos da DC Comics.

                                                             ***

À Abril restaram os tradicionais personagens Disney. Houve tentativas de diversificar os títulos Disney, algumas a preços populares. Mas nenhuma bem-sucedida na linha infantil.

Os bons retornos se deram no outro extremo, entre o leitor adulto. Foi ele que ajudou a popularizar projetos como a coletânea de histórias de Carl Barks.

É também esse leitor o alvo mirado com a coleção "Pateta Faz História",atualmente nas bancas. A série reedita antigas narrativas e mescla algumas, ainda inéditas no país.

O movimento mais eloquente no sentido de retomar parte do segmento, entretanto, foi com essas revistas de super-heróis, lançadas em formato menor, como o das demais infantis.

                                                            ***

Usar as revistas em tamanho menor é uma aposta que vai na contramão de como os títulos de super-heróis vem sendo publicados no país na última década.

Foi um movimento iniciado na virada do século com a própria Abril, que trocou o formato infantil pelo chamado americano, maior, como o gênero é lançado nos Estados Unidos.

A editora havia divulgado que iria publicar as novas revistas em dezembro do ano passado, como o blog noticiou em 14.12. Na ocasião, a Abril havia informado que sairiam em março.

É prematuro dizer se a diversificação da Abril dará resultado. Mas é um sinal concreto de que a editora paulista saiu do estado comatório em que muitos leitores a punham.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h19
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10.09.11

Tiras sem desenhos

 

  • Marcelo Saravá lança coletânea de tiras feitas apenas com palavras e balões
  • "1000 Palavras" faz seleção de 200 histórias publicadas no blog do autor
  • Lançamento da revista independente será neste sábado à noite em São Paulo

 

Tira de Marcelo Saravá. Crédito: cedida pelo autor

 

Uma imagem pode valer mais do que mil palavras. Mas, para quem não desenha, as mil palavras podem ser a saída para contornar a falta da imagem.

Não é por acaso que a primeira coletânea de tiras de Marcelo Saravá faz alusão justamente ao ditado popular.

"1000 Palavras", revista independente que tem lançamento neste sábado à noite em São Paulo, compila 200 histórias veiculadas no blog do autor.

O ponto comum entre todas é a presença do humor, construído apenas com os diálogos mostrados nos balões e nas legendas.

                                                         ***

Eliminar os desenhos, marca de qualquer tira, ajuda a explicitar como muitas dessas histórias se ancoram nas palavras para produzir o efeito de humor.

Outro ponto que se destaca é como se pode brincar com os balões, recurso nem sempre observado ou explorado por muitas das séries.

No caso de Saravá, trata-se de mecanismos narrativos quase obrigatórios, já que não usa imagens. E consegue bons resultados, alguns ímpares.

Se lidas em sequência, há uma oscilação entre as tiras apresentadas na revista. Mas nada anormal ou incomum a qualquer coletânea de tiras.

                                                          ***

Marcelo Saravá divide a autoria das tiras com textos para cinema, teatro e TV. Já produziu mais de mil histórias nesse formato. Neste sábado, seu blog apresenta a de número 1.338.

No prefácio da revista, ele comenta que a ideia da coletânea surgiu quando completou as primeiras mil tiras. Pediu aos leitores que selecionassem quais deveriam constar na obra.

"1000 Palavras" é mais um produto que usa os blogs como incubadora de tiras, algo cada vez mais comum. Quando se obtém um volume razoável delas, publica-se em papel.

Saravá já inicia outro projeto, desta vez com desenhos, feitos por Marco Oliveira, outro autor de tiras virtuais. Ambos fazem o blog "Banda Non Grata", também com bons resultados. 

                                                         ***

Serviço - Lançamento da revista independente "1000 Palavras", de Marcelo Saravá. Quando: hoje (10.09). Horário: a partir das 20h. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo. Quanto: não informado.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h46
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02.09.11

Preacher: enfim, o final

 

  • Última parte da série começou a ser vendida no Brasil nesta virada de mês
  • Desfecho do título é adiado desde 2004, quando quase foi concluído no país
  • "Preacher" foi um trabalhos mais destacados do selo norte-americano Vertigo

 

Preacher - Álamo. Crédito: editora Panini

 

Não há eufemismos: demorou. Para sermos exatos, foi de sete anos e seis meses o intervalo entre a primeira tentativa de encerrar "Preacher" no Brasil e o desfecho de fato.

A parte final da série norte-americana, enfim, é publicada no país. O nono e último volume começou a ser vendido nesta virada de mês (Panini, 228 págs., R$ 60).

"Preacher - Álamo", nome da obra, costura todas as pontas soltas deixadas pela série, escrita por Garth Ennis e desenhada por Steve Dillon.

E, claro, mostra o canto final da busca do pastor Jesse Custer por Deus, entidade por quem se sente traído e que passa a caçar.

                                                         ***

Para os novos leitores, a síntese acima talvez não diga muito. Há, de fato, a necessidade de ter tido contato com os tomos anteriores para entender toda a engenharia narrativa.

Mas para quem vinha acompanhando a série desde o início, o resumo faz todo o sentido. Não só o resumo em si, mas o que ele sugere: o adiado desfecho.

"Preacher" estreou nos Estados Unidos em 1995. O título integrava o rol de publicações da Vertigo, selo adulto da DC Comics, mesma editora de Batman e Super-Homem.

Não demorou para se tornar uma das séries centrais da Vertigo. Muito por conta do viciante tom politicamente incorreto cunhado por Ennis.

                                                         ***

Não faltam exemplos. Um dos personagens secundários tenta se matar e fica com o rosto parecido com um ânus. Passa a ser chamado de Cara de Cu.

A afronta religiosa é explícita, em atitudes e palavras. Os diálogos, inclusivem estão repletos de palavrões. Mas tudo, no geral, funciona como uma engrenagem bem ordenada.

O resultado é uma série de ação permeada por situações cômicas. O grande antagonista de Custer, Herr Starr, vai tendo o corpo desfeito a cada bloco de histórias.

Nesta parte final, ele já está sem orelha, com a cabeça parecida com a ponta de um pênis e sem o genital. Esta última parte rende a cena mais hilária deste volume final.

                                                         ***

A série mensal teve ao todo 66 números, fora alguns especiais. "Preacher - Álamo" reúne as últimas oito edições. Parte delas chegou a ser publicada no Brasil pela Brainstore.

A extinta editora começou a lançar Álamo na então revista do personagem, lançada em maio de 2000. Mas interrompeu a conclusão faltando seis números do final.

Era apenas mais um capítulo da sina por que a série passou. "Preacher" estreou no país na Tudo em Quadrinhos, em novembro de 1997. Teve dois especiais e ganhou título próprio.

Teve início, então, uma sucessiva troca de nomes da editora: de Tudo em Quadrinhos para Fractal Edições, desta para Atitude Publicações. Apesar disso, a numeração foi mantida.

                                                         ***

Foi quando a Brainstore assumiu a série. A nova casa continuo a série do ponto onde havia parado, mas reiniciou a numeração. Foi até a edição 34, correspondente à 60 original.

Em abril de 2006, a série retornou pela editora Devir. Com uma diferença, que acrescentou um novo capítulo ao adiado desfecho: o título foi reiniciado, com os números iniciais.

A Devir optou por publicar as histórias de forma compilada, como também ocorreu nos Estados Unidos. A Pixel assumiu a série anos depois e manteve a continuidade e o molde.

A Panini deu sequência do ponto onde havia parado. Foram dois volumes em capa dura até chegar, enfim, ao nono e derradeiro volume. Um périplo. Mas, enfim, chegou ao final.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h03
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29.08.11

Histórias (em quadrinhos) do Clube da Esquina

 

  • Álbum narra bastidores da vida e da obra dos músicos mineiros
  • Obra de Laudo Ferreira Jr. e Omar Viñole integra edital de incentivo às HQs
  • Publicação tem lançamento nesta segunda-feira à noite em São Paulo

 

Histórias do Clube da Esquina. Crédito: editora Devir

 

Histórias do Clube da Esquina. Crédito: editora Devir

 


Antes de se enfronhar pelas páginas de "Histórias do Clube da Esquina", que tem lançamento nesta segunda-feira à noite em São Paulo, é preciso entender um detalhe importante sobre a costura narrativa da obra, escrita e desenhada por Laudo Ferreira Júnior e arte-finalizada por Omar Viñole (Devir, 48 págs., R$ 19,50).

O segredo está no título. Trata-se de histórias. No plural mesmo. O alvo delas são os músicos mineiros, dos quais faziam parte Milton Nascimento e os irmãos Márcio e Lô Borges.

O leitor verá fragmentos tanto da vida quanto da obra dos cantores e compositores. Da infância vivida juntos em Belo Horizonte aos primeiros acordes profissionais.

A soma das narrativas, ao final, constrói a real proposta da obra: transpor para os quadrinhos como se deu consolidou o movimento do Clube da Esquina.

                                                           ***

"Em vez de fazer o negócio contando ano por ano, eu resolvi fazer uma história atemporal", disse o autor, em entrevista ao blog em novembro de 2007, quando iniciou o projeto.

"Pego os anos 1960, depois vou aos 90 e assim por diante." Ele manteve a característica também no álbum. Acrescentou apenas um prólogo e um desfecho, de modo a dar unidade.

Parte das histórias são reproduções impressas de narrativas já veiculadas no site do Museu Clube da Esquina, instituição que procura preservar a memória do grupo de músicos.

Eram relatos de uma a três páginas sobre momentos do passado dos cantores e compositores. A eles foram somados outros. E, todos, amarram o álbum em quadrinhos.

                                                          ***

O reuso dos quadrinhos do site justifica a construção fragmentada do álbum e não compromete a unidade da obra. Como dito, o título costura esse modo de narrar. 

Mas algumas histórias poderiam ter recebido pequenos ajustes, de modo a evitar algumas redundâncias. Uma delas é o tom de apresentação do grupo presente nos quadrinhos finais.

Faltou também os eventuais senões da sinfonia da vida que compôs o movimento musical. A opção foi a de mostrar apenas o lado bom e positivo. O outro lado foi camuflado.

De todo modo, isso não tira o brilho e a relevância do álbum, mais um bom fruto do edital paulista de incentivo à produção de histórias em quadrinhos.

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Histórias do Clube da Esquina", de Laudo Ferreira Jr. e Omar Viñole. Quando: hoje (29.08). Horário: das 19h às 22h. Onde: Livraria da Vila, unidade Lorena. Endereço: alameda Lorena, 1.731, São Paulo. Quanto: R$ 19,50.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h18
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23.08.11

Dois pássaros, uma revista e uma estratégia

 

  • Pássaros são protagonistas de novo trabalho independente de Gustavo Duarte
  • "Birds" repete fórmula de ter animais como personagens em histórias mudas
  • Lançamento da revista será nesta terça-feira à noite em São Paulo

 

Birds. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

"Birds", novo trabalho do desenhista paulista Gustavo Duarte, guarda duas histórias.

A primeira é o enredo em si. A segunda, a estratégia por trás da publicação, que tem lançamento nesta terça-feira à noite, em São Paulo.

Como é preciso começar por algum lugar, que seja pelo enredo. A narrativa repete a fórmula usada pelo autor nos quadrinhos que vêm publicando de três anos para cá.

A história têm como personagem algum animal. No caso, são dois pássaros, Palhares e Palhares, que dividem um mesmo escritório. E uma cena inesperada que surge dentro dele.

                                                         ***

Como se trata de uma história curta, de 32 páginas, dizer mais pode revelar o que não deve. Mas dá para dizer que o conteúdo dialogo, de forma cômica, com o gênero do suspense.

Esse diálogo com outros gêneros, vertidos pelo traço bem-humorado e singular do desenhista, parece ser outro ponto comum entre a produção de Duarte.

Em "Có", de 2009, havia um quê de ficção científica. Em "Taxi", publicada no ano passado, o tom visual era dos musicais de jazz, ambientados nos bares da vida.

A história que produziu para o álbum "Fierro Brasil", lançado no primeiro semestre, mexia com o fantástico.

                                                         ***

A retomada das histórias recentes revela que Gustavo Duarte produz uma revista por ano. Isso faz parte da outra história que "Birds" traz.

As histórias, produzidas sem palavras, conseguem atingir facilmente leitores de diferentes línguas, unidos pelos poliglotas recursos da linguagem dos quadrinhos.

Atingir o mercado externo é um dos objetivos do desenhista. A primeira incursão de "Birds" foi na San Diego Comic-Con, convenção de quadrinhos realizada em julho nos EUA.

A tiragem, de três mil exemplares, foi a maior das três revistas editadas por ele e bancadas do próprio bolso. Volume que deve abastecer não só pontos de venda brasileiros.

                                                         ***

Chargista do jornal esportivo "Lance!" e ilustrador de outros veículos de imprensa, o ingresso do autor nos quadrinhos é relativamente recente. Recente, mas bem-sucedido.

Chegou ao exterior e foi premiado com um Troféu HQMix, o principal da área de HQ do país. O mérito da repercussão é exclusivo de Duarte.  Por qualquer ângulo que se observe.

No conteúdo, é dono de um traço marcante, que casa muito bem com o humor de suas histórias.

Do ponto de vista comercial, ele tem se firmado no circuito independente e sabido esgotar o que lança. Tanto que já se tornou hábito aguardar a próxima loucura de seus bichos.

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Birds", de Gustavo Duarte. Quando: terça-feira (23.08). Horário: a partir das 20h. Onde: Sabiá Bar e Restaurante. Endereço: rua Purpurina, 370, Pinheiros, em São Paulo. Quanto: R$ 12.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h51
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14.08.11

A passagem de Solano López pelo Brasil

 

Sangue Bom, álbum desenhado por Francisco Solano López, escrito por Carlos Patati e arte-finalizado por Allan Alex

 

O desenhista argentino Francisco Solano López, morto na última sexta-feira, teve uma passagem pelo Brasil entre as décadas de 1980 e 90.

A passagem pelo país, mais especificamente pelo Rio de Janeiro, rendeu parceiras com diferentes autores brasileiros, muitas delas ainda inéditas por aqui.

Uma das exceções, publicada pela editora Opera Graphica, foi "Sangue Bom". O álbum foi desenhado por Solano, escrito pelo brasileiro Carlos Patati e arte-finalizado por Allan Alex.

O blog convidou Patati para rememorar na forma de depoimento essa experiência com o quadrinista argentino. Convite gentilmente aceito, segue o precioso relato. 

                                                         ***

Tive o privilégio de conhecer Francisco Solano López no comecinho dos anos noventa, graças ao quadrinhista argentino Mosquil, colaborador, como eu, da revista paulista “Porrada”. Mosquil me disse que fazia uns dez anos, quase, Solano López morava no Rio de Janeiro, onde tinha seu estúdio instalado. Aqui, trabalhava com auxiliares, suprindo a demanda de seu mercado europeu! Disse-me que era muito acessível e disposto a conhecer jovens desenhistas. Valia a pena eu levar o “Nonô Jacaré”, que eu escrevia e o Allan Alex desenhava, para mostrar a ele.

Fiquei eletrizado! Eu já conhecia não só “El Eternauta” como “Evaristo”, sua série sobre um chefe de polícia argentino, muito justo, ainda que capaz de desferir seus tabefes. É uma tremenda HQ policial, que realizou com o grande, Carlos Sampayo (roteirista co-criador do “Alack Sinner”, com José Muñoz). Mas isso foi pura sorte minha, pois aqui a gente quase nem sabia que HQ argentina existia, eu é que achava álbuns europeus em certas livrarias cariocas. Mosquil me explicou que a produção dele era bem maior e mais rica do que eu supunha. Quando telefonei, fui muitíssimo bem atendido, e combinei de passar lá durante a semana, num lugar conhecido e de fácil acesso, o Largo dos Leões, no Humaitá, pertinho de onde já morava um casal de amigos meus. Sim, um dos mestres da tremenda tradição argentina de HQ de aventura vivia e trabalhava no Rio de Janeiro!

Estava um pouco nervoso quando cheguei lá, mas Solano me recebeu com a maior simpatia, e passamos a tarde conversando, em seu amplo estúdio. Ele gostou do meu interesse pelos quadrinhos argentinos, e me explicou que Alberto e Enrique Breccia eram duas pessoas diferentes, pai e filho, eu não estava fazendo confusão com o nome de um desenhista só. E me falou a importância de Breccia, que também tinha feito uma HQ do Eternauta, mas ele preferia, é claro, a original. Tive a impressão de estar na frente do Mandrake já idoso, finíssimo, presidindo sua equipe, na qual atuava como diretor de arte, com fineza e firmeza, em nome dos prazos. Só então me dei conta não só do tamanho histórico, mas, naquele momento atual, da sua produção!

Ele me mostrou diversas HQs de sucesso, que desenhou. Saíram primeiro na Argentina, depois na França e daí pularam para o resto da Europa. Tive noção não só do tamanho do seu trabalho, como da tradição argentina de quadrinhos de aventura, com muitos desenhistas de cuja existência eu não suspeitava, até então. Ele perguntou como eu conhecia seu trabalho, e eu falei de certos álbuns franceses que já tinha visto. Mas eu não tinha noção do tamanho do panorama editorial francês, nem do argentino. Solano tinha vários álbuns de luxo, já naquela época, publicados por editoras que eu nunca tinha visto, tanto de aventura histórica, de fantasia, ou eróticas.

Mostrou-me como funcionava o estúdio; numa sala ampla (o que seria a sala de visitas do apartamento), a produção de HQs semanais e coloridas de futebol, feitas para revistas inglesas de futebol. Dois auxiliares trabalhavam lá, no momento, aplicando cor segundo suas instruções. Num quarto de dormir, transformado em estúdio de duas pranchetas , estava em produção uma detalhada e longa HQ erótica para clientes franceses, na qual, com o mestre, trabalhava outro auxiliar. E num outro quartinho, na única prancheta ali, mais um auxiliar dispunha o material de pesquisa para uma HQ curta, de outra série na qual estava trabalhando, com Solano, para os italianos da Eura Editoriale, que publicam a Skorpio e a Lanciostory. Conversa vai, conversa vem, Solano gostou do traço do Allan e quis conhecê-lo. Voltei lá com meu amigo, e já nessa visita Solano o convidou para trabalhar lá. Com mais um auxiliar competente, poderia aceitar mais encomendas!

De minha parte, maravilhado, fiquei com a incumbência de trazer, já em inglês, alguns argumentos de seriado em cinco partes de doze páginas, para ver se os mesmos italianos se interessavam. Alguns dias depois, eu estava lá com cinco argumentos, dos quais um foi escolhido pela  revista “Lanciostory”, e realizado por nós três ao longo de um ano. Essa revista é um semanário italiano que publica HQs coloridas e em preto e branco, seriadas ou completas em cada edição. A nossa era para ser um seriado em preto-e-branco. Cada episódio só seria publicado quando a saga estivesse toda entregue, e no meio do segundo capítulo, como foi vendida também para a editora argentina Columba, ficamos no maior bom humor. Infelizmente, embora tenha recebido o pagamento deles também, nunca vi a edição argentina, só a italiana, e ainda assim um capítulo ou outro. Os italianos pagavam em dia, mas nem se lembravam de mandar exemplares de cortesia.

Esse foi um período feliz. Não fui o primeiro roteirista brasileiro com quem Solano trabalhou, mas decerto fui um dos que mais frequentou seu estúdio. O primeiro brasileiro com quem  trabalhou foi o Ivan Jaf, de quem um texto estava sendo realizado pelo mestre e Gustavo Maldonado, um de seus assistentes, quando fui lá da primeira vez. Solano foi generoso comigo ao comentar o argumento da HQ que veio a se tornar, bem depois, no Brasil, o álbum “Sangue Bom”. Desde o começo ele disse: ali faríamos o que até então ninguém tinha feito. Os terrores e ficções científicas que propus, ele disse, eram razoáveis, mas aquela favela ia chamar a  atenção. Não deu outra. Mais tarde, releu comigo o argumento, apontou pontos fracos e elogiou o que viu como virtudes, contribuindo, assim, para a carpintaria do roteiro da HQ.

Quanto ao trabalho do Allan, que sempre apreciou muito, me lembro até hoje de seu comentário, naquele momento: trata-se desenhar não só as curvas, como os volumes, dos personagens! Seu desenhista brasileiro predileto era Mozart Couto. E ele chamou nossa atenção para a beleza dos volumes no trabalho de Mozart. Era preciso que o leitor visse não só que a personagem era gostosa, mas como era gostosa!  Com essa, caímos na risada.

Solano ficou surpreso de eu conhecer o trabalho de José Muñoz, e me explicou que esse gigante tinha sido seu auxiliar, quando moravam todos na Argentina, antes da situação política exportar talentos para o exterior. Outro que também foi seu auxiliar de estúdio é Oscar Zarate, cuja magistral parceria com Alan Moore, “A Small Killing”, vi primeiro no estúdio de Solano: Zarate acabava de lhe mandar um exemplar de presente, fresquinho!

Com certeza, muitos outros, de cujos nomes não me lembro, também passaram por lá, ao longo de décadas de trabalho, com certeza aprendendo muito, sobre feitura de boas HQs. Entendo, hoje, graças a essa experiência, o tremendo valor, para um desenhista, do trabalho de auxiliar num estúdio com demanda de produção; da parte pesada e tediosa do trabalho o sujeito aprende a se livrar, para então desenvolver seu estilo. Allan ficou lá esse ano todo, trabalhando em textos meus e de outros. Além do “Sangue Bom”, vendemos aos italianos uma HQ completa de ficção científica, inédita em português até hoje.

Quanto ao aspecto educacional da parceria com Solano, o acesso às estantes do seu estúdio para mim foi inestimável. Vi cada HQ argentina e europeia que foi de babar! Numa outra visita, ganhei o que até hoje é uma das joias da minha coleção de quadrinhos. Trata-se de edição especial da Fierro, a antiga, compilando diversos exemplos das fases variadas do trabalho de Héctor Oesterheld, o roteirista patriarca da tradição desse país. Volta e meia releio. Mora, na estante, junto de “El eternauta” e dos “Mitos de Cthulhu”, do Breccia.

Junto com este seu antigo confrade Alberto Breccia, e mais Carlos Nine, José Muñõz e Carlos Sampayo, na I Bienal Internacional de Quadrinhos, evento carioca acontecido em 1991, Solano compôs a mesa argentina com elegância e alegria. Foi um momento importante, pois o público nem sequer suspeitava da riqueza da HQ argentina. Tanto o debate como a mostra foram muito ricos. Assistimos a esse reencontro cheios de entusiasmo, e durante um bom tempo, para mim e para o Allan, houve um ganho de experiência e trabalho considerável. Isso tudo, porém, não durou muito tempo. Pouco depois do término do “Sangue Bom”, de sua última entrega, como dizia Solano, veio  o  Plano Real, que não fez nada bem às suas finanças  dolarizadas. O desenhista decidiu voltar para a Argentina, e por conta disso, ficou difícil continuar a colaborar, apesar de termos tentado. É mais fácil, sem dúvida, trabalhar com quem está perto.

Mas foi um senhor privilégio ter colaborado com Solano López, com quem aprendi um bocado sobre a arte de contar histórias.

Seu legado continua entre nós.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h13
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04.08.11

Novas adaptações, novos caminhos, bons resultados

 

  • Três obras nacionais abordam novas facetas das adaptações literárias em HQ
  • Álbuns usam recursos do teatro e da literatura ilustrada para narrar histórias
  • Trabalhos se baseiam em textos de Fernando Pessoa, Castro Alves e Gil Vicente

 

Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. Crédito: editora Peirópolis

 

Fugindo dos eufemismos e indo direto ao ponto: o interesse na publicação de adaptações literárias é atingir as gordas listas de compras governamentais para a área de ensino.

A constatação não é nenhuma novidade para quem acompanha o mercado de quadrinhos no país nos últimos cinco anos. O filão se tornou um negócio editorialmente atraente.

Do ponto de vista das editoras, não há nenhum demérito nisso. Ela visa o lucro e vê no poder público um grande comprador em potencial.

Em meio à overdose de produções assim que surgiu, algumas conseguiram fugir do convencional e apresentar algo novo ao gênero.

                                                        ***

Três dessas obras começaram a ser vendidas nos últimos meses. O diferencial é que, em vez da adaptação textual em si, procuraram traduzir o conteúdo de outra forma.

Duas delas se ancoraram no recurso da literatura ilustrada, recurso que visualiza para o leitor o que as palavras sugerem. A outra se pautou na linguagem teatral.

Os palcos ocupados por quadrinhos conduzem a versão de "Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente", produzida por Laudo Ferreira Jr. (Peirópolis, 56 págs., R$ 35).

Nada mais fiel ao original, posto que o auto vicentino foi encenado nas primeiras décadas da Portugal do século 16.

                                                         ***

O texto de Gil Vicente faz uma grande metáfora da vida aristocrática do país de então. As mazelas cotidianas da vida, facilmente identificáveis e ainda atuais, tinham dois destinos.

As atitudes rememoradas no fim da vida eram abonadas pela livre passagem à barca do bem. O contrário levava a pessoa à barca do inferno, onde seria punido por tudo.

O molde narrativo construído pelo quadrinista se assemelha a uma encenação. Claques erguidas por alguém sempre surgem quando entra em cena um novo personagem.

O resultado se equilibra no respeito ao conteúdo do escritor português e na leitura pessoal feita a ele. Inova, sem deixar a fidelidade de lado.

                                                         ***

"Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente" tem lançamento marcado para este sábado, às 19h30, na HQMix Livraria, em São Paulo (Praça Roosevelt, 142).

As outras adaptações já frequentam há algumas semanas as prateleiras das livrarias e das lojas especializadas em quadrinhos. Unem-pelo recurso, distanciam-se pelo autores.

O recurso: reproduzir os poemas originais, procurando transformá-los em imagens, necessariamente filtradas pelo olhar do quadrinista.

Os autores: uma obra verte para os quadrinhos textos de Fernando Pessoa e outros pessoas (os heterônimos do escritor português); a outra, de Castro Alves.

                                                         ***

O álbum baseado em Castro Alves transpõe para os quadrinhos "A Cachoeira de Paulo Afonso", poema pinçado do livro "Os Escravos", de 1876 (Pallas, 64 págs., R$ 30).

O trabalho foi assinado por André Diniz, que impõe ao trabalho do escritor baiano o seu estilo baseado no contraste entre claro e escuro (a obra é toda em preto-e-branco).

O segundo livro traduz visualmente mais de um poema em "Fernando Pessoa e Outros Pessoas", no traço de Eloar Guazzelli (Saraiva, 80 págs., R$ 34,90).

Guazzelli soma esta a outras adaptações que têm no currículo, casos de "Pagador de Promessas" e de "Demônios" (nesta, já havia enveredado pela linha da literatura ilustrada.

                                                         ***

Singulares, os três álbuns mostram que é possível apostar num outro caminho para as adaptações.

Em vez de simplificar o original a retratos de poucos momentos da narrativa, navega pelo veio contrário, o da fidelização do texto e da máxima exploração visual dele.

Isso é possível, evidentemente, por se adotar como texto-fonte obras mais curtas, caso do auto vicentino e dos poemas. Poderíamos listar também alguns contos.

Já que há uma sede comercial por adaptações, quaisquer adaptações, estas encontram nas produções menores, com menos linhas e páginas, um bom caminho a ser explorado.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h51
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19.07.11

Moebius inédito no Brasil

 

  • "Arzach" traz histórias de experimentalismo gráfico e temático do desenhista
  • Trabalho do autor francês é o primeiro lançamento estrangeiro da Nemo
  • Editora programa mais trabalhos dele e de outros quadrinistas europeus

  

Arzach. Crédito: Moebius 

 

Moebius é daqueles autores que são mais comentados e elogiados do que propriamente lidos. Relação contraditória, acentuada pela fragmentada publicação dele no Brasil.

Os trabalhos dele passaram nas últimas três décadas pela L&PM, Globo, Abril, Panini e Devir, que lançou somente em 2006 uma de suas principais obras, "Incal".

Ter uma coleção de produções do desenhista francês, proposta da estreante editora Nemo, ajuda a compreender melhor a trajetória do autor.

Ainda mais com um trabalho inédito e igualmente comentado, o até agora enigmático "Arzach", lançado no início deste mês (56 págs., R$ 42; capa aqui).

                                                         ***

É preciso contextualizar a obra para entender o papel histórico dela. Como o próprio autor explica na introdução, viviam-se dias conservadores nos quadrinhos franceses.

Em dado momento, os responsáveis pela "Pilote", revista voltada a adolescentes, resolveram dar uma mexida no conteúdo e arriscar algumas inovações gráficas.

Uma delas é a que abre o álbum da Nemo. "Desvio" é uma história de realismo fantástico, mesclada com elementos autobiográficos. Moebius aparece na trama com a família.

Todos rumam de carro, em férias, para uma ilha. Decidem por um caminho alternativo. Alternativo mesmo: há gigantes, luta contra um enorme exército e outros desafios afins.

                                                         ***

O restante do álbum reúne as experimentações que deram sequência a essa inovação inicial. É aí que surge "Arzach", sempre acompanhado de seu pterodáctilo voador.

Não há propriamente uma história clara, com começo, meio e fim bem delineados. O que existe são desenhos minuciosos, detalhados, buscando produzir algo novo.

Lançadas na revista francesa "Metal Hurlant", uma das principais da época no mundo, as narrativas foram comparadas por Moebius, nas palavras dele, a uma espécie de surto.

"Eu tinha como projeto expressar o nível mais profundo da consciência, nas franjas do inconsciente. Esta história pulula, então, de elementos oníricos", diz, na introdução.

                                                         ***

De "Arzach", Moebius migrou para outros trabalhos, dentro e fora do meio impresso, e se firmou justamente como um dos grandes nomes da ficção científica quadrinizada.

Mais do que isso, tornou-se uma referência a novas gerações de autores. A importância deste álbum é mostrar como se deu o início desse processo, inédito por aqui.

A Nemo pretende agregar outros trabalhos do autor a esta coleção. E somar a ela títulos de outros autores europeus. Um já havia sido anunciado: "Corto Maltese", de Hugo Pratt.

A editora confirmou mais alguns, também para este semestre: "A Trilogia Nikopol", de Enki Bilal, reunida num só volume, e "Era a Guerra de Trincheiras", de Jacques Tardi.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h27
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17.07.11

Dias de Angoulême no Brasil

 

  • Gibicon, encerrado neste domingo, em Curitiba, estreia com pé direito
  • Toda a cidade respirou o encontro, algo comum ao Festival de Angoulême
  • Se depender da repercussão desta edição-piloto, evento terá reprise em 2012

 

Entrada do Paço da Liberdade, um dos locais do Gibicon. Crédito: Coletivo.50

 

Já havia pistas de que havia um quê diferente no Gibicon logo na saída do aeroporto Afonso Pena, que fica em São José dos Pinhais, cidade vizinha a Curitiba.

No balcão de informações, havia um enorme cartaz afixado na mesa de vidro.

Os dizeres anunciavam o encontro de quadrinhos na capital paranaense, iniciado na sexta-feira e encerrado neste domingo.

O trajeto até Curitiba comprovou que não se tratava apenas de impressão. Toda a cidade estava pontuada pelo evento, algo atípico de ser ver no Brasil.

                                                         ***

Os pontos de ônibus tinham um enorme cartaz, aos olhos de todos, com parte do uniforme do Homem-Aranha. E, claro, uma chamada para o Gibicon.

Outros anúncios foram colocados em praças. Em alguns cafés e restaurantes, havia flyers. Até quando não se esperava, viam-se alusões ao encontro.

Os jornais e emissoras locais encamparam o evento com reportagens. Até veículos nacionais deram atenção. O "Jornal da Globo" exibiu matéria na madrugada de sexta-feira.

Um bom destaque, apesar de a repórter iniciar o texto com um antigo chavão: "foi só aparecer o desenho no papel para marmajo voltar a ser moleque".

                                                          ***

Ao contrário do que a reportagem da TV Globo procurou mostrar, a programação era voltada ao público adolescente e adulto.  Que compareceu. E não só de Curitiba.

O que o público viu foram dias de Angoulême, cidade francesa que hospeda anualmente um festival homônimo, tido como um dos principais do mundo.

A comparação foi ouvida em mais de uma roda de conversas. Assim como a cidade europeia, Curitiba tocou uma orquestra afiada, envolvendo todos os seus músicos.

O som agradou, impressionou. Até são Pedro, um músico inesperado, ajudou. A temperatura inesperadamente subiu dez graus. Foram dias quentes e ensolarados.

                                                         ***

A orquestra quadrinizada foi tocada em diferentes pontos do atraente centro histórico curitibano, revistalizado e que , por si só, já justificaria uma visita.

Apesar de espalhada, a programação contou com boa plateia. O menor público visto no sábado, por exemplo, foi pouco menos da metade das cadeiras vazias.

A diversidade de locais e de mesas em paralelo foi talvez a maior dificuldade vista no encontro. Havia uma escolha de Sofia na hora de optar para onde ir.

Por isso, é possível que se forem ouvidas cem pessoas que visitaram a Gibicon, ouçam-se cem roteiros distintos, tal qual a teia construída por um passeio na internet.

                                                         ***

Posso dividir com o leitor o roteiro que fiz, já estava definido antes mesmo de chegar, na sexta. Iria participar de uma mesa sobre produção argentina e mediar outras duas.

Já havia ficado impressionado com a galeria de arte, que concentrou parte das exposições na abertura oficial do evento.

Impressionado porque, num mesmo espaço, dava-se tratamento à altura a desenhos de Tex feitos por autores italianos e brasileiros. Estes deram sua leitura do personagem.

Paralelamente, uma ala apresentava ao público quais eram os autores da região. Nomes de Curitiba, de projeção nacional, dividiam as paredes com colegas locais.

                                                         ***

Os quadrinhos curitibanos foram tema de mais de um debate. Tive a oportunidade de mediar uma delas, sobre o humor feito na região.

Participaram Solda, Benett, Pryscila Vieira e Marco Jacobsen. Os quatro puderam falar, sem autocensura, as restrinções a que muitas vezes têm de se sujeitar.

Solda comentou pela primeira vez a uma plateia sua demissão de um jornal local por conta de uma charge sua mal-interpretada.

Talvez uma frase de Jacobsen dita no dia resuma bem a questão: "o politicamente correto é o câncer do humor".

                                                          ***

Mediei também uma mesa sobre a importância das gibitecas, possivelmente a de cunho mais político do evento. Isso porque envolveu diretamente políticas de governo sobre o setor.

Uma possível conclusão é que não basta ter quadrinhos nas escolas: é preciso orientar o professor. E até estimular movimentos para discutir os quadrinhos junto às autoridades.

Estiveram presentes Maristela Garcia, coordenadora da pioneiro Gibiteca de Curitiba, a especialista em quadrinhos Sonia Bibe Luyten, e Afonso Andrade.

Andrade é um dos organizadores do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), outro encontro da área, que será realizado em novembro, em Belo Horizonte.

                                                         ***

Com debatedor, e não como mediador, estive com o editor da Zarabatana, Claudio Martini, e com o desenhista argentino Salvador Sanz, autor do álbum "Noturno".

Sanz apresentou seu trabalho e espantou a plateia ao dizer que demora dois dias - no mínimo - para fazer uma página em quadrinhos.

Martini, um dos poucos editores presentes no encontro, apresentou a capa de "Dora", obra argentina de Ignacio Minaverry que irá lançar neste segundo semestre.

Ele também surpreendeu os jornalistas, na manhã de sábado, ao dizer que irá publicar "Necronauta 2", de Danilo Beyruth. A surpresa é porque havia sido anunciado pela HQM.

                                                         ***

No domingo, a programação teve sequência, com as tradicionais mesas, debates e sessões de autógrafos (muitas com uma gorda fila).

A proposta de José Aguiar e Fabrizio Andriani, coordenadores do Gibicon, é que esta seja uma edição-piloto. A ideia é mostrar ao município que algo assim pode ser feito na cidade.

A média e longo prazos, o interesse é que o evento integre o calendário anual de atividades culturais da capital paranaense. A se pautar por este, terá reprise no ano que vem.

Sondei antes de ir embora qual foi a impressão que as autoridades de lá tiveram. Ouvi como resposta que "eles estão sorrindo". Bom sinal. Sorrimos também todos nós.

                                                          ***

Nota: participei do Gibicon a convite da coordenação do encontro.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h39
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13.07.11

A batalha, ao que tudo indica, chegará ao fim

 

  • Depois de quatro anos e meio, Conrad retoma mangá "Battle Royale"
  • 13º número começou a ser vendido neste mês; série tem 15 volumes
  • História mostra disputa entre jovens; vencedor é quem mata todos os outros

 

Battle Royale # 13. Crédito: editora Conrad

 

Numa das muitas passagens por Buenos Aires nos últimos anos, comprei o 15º e último número de "Battle Royale", publicado lá pela editora Ivrea, especializada em mangás.

Na Argentina, a série havia sido encerrada alguns meses antes. Eu acreditava ser uma oportunidade rara de ler o desfecho da saga, interrompida no Brasil a três edições do fim.

Na época, não havia muita esperança de retomada do mangá aqui neste país vizinho.

Divido esta impressão pessoal porque creio ser a mesma vivida por vários outros órfãos do mangá, que, só agora, descobriram que os pais, na verdade, não estavam desaparecidos.

                                                         ***

Quatro anos e meio depois do último número lançado no Brasil, o 12º da coleção, a Conrad retomou a série do ponto onde havia parado.

O novo volume já está à venda em bancas e lojas especializadas em quadrinhos (R$ 13,90).

A edição mostra a tensão entre os cinco últimos sobreviventes da matança iniciada logo no primeiro número do mangá, feito por Koushun Takami e Masayuki Taguchi.

Na história, o governo seleciona uma sala de aula e isola os alunos numa ilha. Só um sairá de lá vivo. Para isso, tem de vencer a disputa imposta: matar todos os outros.

                                                         ***

Desnecessário registrar que a série concentra doses cavalares de violência, tanto temática quanto explícita. Não por acaso é recomendada para maiores de 18 anos.

A história foi feita inicialmente em livro, escrito por Takami em 1999. Um ano depois, ele levou a ideia para os quadrinhos.

A estreia ocorreu um mês antes da versão cinematográfica. Houve uma sequência, "Battle Royale: Requiem", lançada em 2003.

O vídeo do longa-metragem chegou ao Brasil. Um final, ao menos, a saga já teve. Se não houver outros revezes, espera-se que o desfecho, agora, ocorra também nos quadrinhos.

                                                          ***

A volta de "Battle Royale" se soma à de "Cavaleiros do Zodíaco - Episódio G", também retomado do ponto onde havia parado. Mas são as exceções.

A editora, que tinha a dianteira do segmento, parou todas as séries orientais nos últimos três, quatro anos. Muitas séries ficaram pelo caminho.

A Conrad oficializou no começo de maio o fim das negociações com a Shueisha, principal editora de quadrinhos no Japão. Não é o cenário ideal, se visto do ponto de vista do leitor. Mas, justiça seja feita, este retorno cumpre o que a Conrad sempre disse sobre o assunto.

Nas várias vezes em que o blog questionou a respeito da interrupção dos mangás, a editora respondia que estava em negociação e que pretendia retomar. Não retomou tudo. Mas, é fato, retomou.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h43
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11.07.11

Dois olhares sobre a vida na favela

 

  • Álbum faz biografia de fotógrafo que cresceu em meio à violência de morro carioca
  • História de Maurício Hora é narrada sob o olhar do quadrinista André Diniz
  • "Morro da Favela" tem lançamento nesta terça-feira à noite, no Rio de Janeiro

 

Morro da Favela. Crédito: editora Leya/Barba Negra

 

Às favas com o politicamente correto. Nada do termo "comunidade", tão cunhado pela mídia de uns tempos pra cá. Favela é favela no novo trabalho de André Diniz. Sem eufemismo.

Tanto que o autor faz questão de explicar, logo na página inicial, a evolução da palavra. De árvore sertaneja a conjunto de moradias. Ou uma delas em particular, no Rio de Janeiro.

O "Morro da Favela", que dá nome ao álbum (Leya/Barba Negra, 128 págs., R$ 39,90), é também onde se ambienta a história real do fotógrafo Maurício Hora.

Ele foi criado desde 1968 onde hoje fica a região da Providência. Antes de polícias pacificadoras, presenciou o melhor e o pior dos meandros do morro.

                                                         ***

São dois olhares sobre o mesmo objeto. As memórias do fotógrafo serviram de base para a história, conduzida pelo ângulo narrativo de André Diniz, que acumula roteiro de arte.

Hora retoma as lembranças da infância e da difícil vida no morro. Difícil por ter de conviver com os ecos do mercado paralelo, dos primórdios do jogo do bicho ao tráfico de drogas.

O pai dele, segundo o relato, teria sido um dos primeiros a mexer com essa área. A atividade rendeu idas e vindas à prisão e sucessivas batidas policiais em casa.

Foram tantas "visitas" da polícia que o fotógrafo lembra de desisitir de arrumar os armários. Pra quê, se seriam revirados mesmo a cada batida?

                                                         ***

Assistir à história do privilegiado ponto de vista do leitor permite perceber que, com o passar dos anos, a violência no local deixa de ser apenas física. Passa a ser armada também.

A partir da metonímica história de Maurício Hora, o álbum constrói um fragmento da realidade contemporânea, que começou a receber atenção apenas recentemente.

Tal qual "Cidade de Deus", filme que ajudou a dar voz ficcional à vida na favela carioca, vê-se o que de pior os morros têm a oferecer (e de forma não ficcional, nesse caso).

Mas, ao contrário do longa-metragem, a obra se distingue por apresentar também o que a favela tem de bom a oferecer. Como já dito, trata-se do melhor e do pior do morro.

                                                         ***

O lado positivo, por assim dizer, teve início quando Hora descobriu a vocação para a captura de imagens. Foi a descoberta também de que havia cenas boas a serem registradas.

As fotografias - muitas tiradas apenas com autorização dos chefes do tráfico - obtiveram repercussão dentro e fora do Morro da Favela. E muito fora. Chegaram à Europa.

Esses dois lados antagônicos é que pautam as memórias dele. O que por si só não seria suficiente se não estivessem casadas com a eficiente narrativa construída por Diniz.

Do circuito independente ao comercial, ele tem sistematicamente aprimorado seus trabalhos. Ele já havia demonstrado maturidade na obra anterior, "O Quilombo Orum Aiê". Conseguiu se superar com este novo trabalho. É  o melhor que ele produziu até aqui.

                                                         ***

Serviço - Lançamento de "Morro da Favela", de André Diniz. Quando: terça-feira (12.07). Horário: 18h. Onde: Livraria da Travessa. Endereço: rua 7 de setembro, 54, centro do Rio de Janeiro. Quanto: R$ 39,90.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h50
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13.06.11

Road comic made in Brazil

 

  • "A Balada de Johnny Furacão" transpõe para os quadrinhos clima dos road movies
  • Trabalho é o primeiro álbum feito pelo desenhista e ator Eduardo Filipe, o Sama
  • Obra da novata editora Flaneur tem lançamento nesta quarta-feira no Rio de Janeiro


A Balada de Johnny Furacão. Crédito: editora Flaneur

 

 

Vivem-se dias diferentes nos quadrinhos do Brasil. Quem diria há alguns anos - não tantos assim - que se veria um álbum nacional inspirado nos road movies norte-americanos?

Esse "road comic" começou a ser vendido neste mês e tem lançamento nesta próxima quarta-feira à noite, no Rio de Janeiro.

O ponto de partida de "A Balada de Johnny Furacão" (Flaneur, 146 págs., R$ 32) é uma música de Erasmo Carlos.

O tal Johnny da canção era um "cara que bem cedo desejou ser campeão". Queria ser o maioral, o melhor do mundo das pistas. Mas o carro quebrou na curva principal.

                                                           ***

O desenhista e ator Eduardo Filipe, que assina como Sama, toma esse enredo da letra para dar a largada à sua corrida gráfica.

A cena inicial mostra justamente o enigmático Johnny Furacão num racha. A partir daí, a história vai se desenrolando e apresentando outros personagens.

A primeira impressão que a leitura dá é que as tramas são soltas umas das outras. Mas, aos poucos, elas vão sendo costuradas nos detalhes, lançados páginas atrás.

O que permeia todo a narrativa é, de fato, a corrida de carros. Ora numa disputa para saber que é o mais rápido, ora para fugir de alguma situação inesperada (o que a obra mais tem).

                                                            ***

Podem-se questionar alguns diálogos ou situações pouco verossímeis no terço final do álbum. É algo devidamente explicado na obra, mas que causa certo desconforto na leitura.

O desconforto é pelo fato de a obra conduzir o leitor para um caminho e, abruptamente, enveredar por outro, mais sobrenatural.

Superado esse detalhe, é fácil entregar-se à obra e aos eficientes desenhos de Sama, autor que integrou as antologias "Irmãos Grimm em Quadrinhos" e "Golden Shower".

Sua balada marca uma boa estreia, que havia sido anunciada inicialmente pela editora Barba Negra. Com a desistência desta, caiu nas mãos da também estreante Flaneur.

                                                           ***

Serviço - Lançamento de "A Balada de Johnny Furacão", de Eduardo Filipe, o Sama. Quando: quarta-feira (15.06). Horário: 19h30. Onde: Boteco Salvação. Endereço: rua Henrique de Novaes, 55, Botafogo, Rio de Janeiro. Quanto: R$ 32.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h26
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12.06.11

Um livro perfeito para o Dia dos Namorados

 

  • "Splish! Splash! Os Enamorados dos Quadrinhos" mostra relacionamentos nas HQs
  • Obra, organizada por Franco de Rosa, começou a ser vendida neste fim de semana
  • Publicação da Kalaco foi dividida por temas e traz textos de diferentes autores

 Splish! Splash! Os Enamorados dos Quadrinhos. Crédito: editora Kalaco

 


Não é uma coincidência um livro sobre relacionamentos amorosos entre personagens dos quadrinhos começar a ser vendido justamente às vésperas do Dia dos Namorados.

A proximidade com a data, intencional, ajuda a tornar "Splish! Splash! Os Enamorados dos Quadrinhos" o livro ideal para discutir o assunto (Kalaco, 176 págs.).

A obra, organizada pelo jornalista editor da Kalaco Franco de Rosa, procura detalhar, o máximo possível, os vários casos de namoros lidos nos quadrinhos de ontem e de hoje.

De ontem porque retoma os primeiros casos, vistos dentro e fora do país ainda no início do século passado. De hoje porque teve fôlego de incluir o beijo entre Mônica e Cebolinha.

                                                         ***

Os textos e o resgate histórico são assinados por diferentes autores, todos unidos pela pesquisa a respeito de personagens e de temas das histórias em quadrinhos.

Além do próprio editor, Franco de Rosa, participam Primaggio Mantovi, Sergio Peixoto, Worneu Almeida de Souza e Antero Leivas.

A cada um coube a tarefa de esmiuçar o tema em algum grupo de personagens.

 Assim, a obra se dividiu entre os quadrinhos clássicos, os trabalhos alternativos, os super-heróis, os bem-casados, os tradicionais solteirões e os mangás. 

                                                         ***

Há trabalhos brasileiros e Mauricio de Sousa recebe um tratamento diferenciado, com destaque de várias páginas. Mas o grosso da obra menciona os norte-americanos.

Os textos se dividem com detalhes sobre determinado par de personagens. Além de uma rápida descrição sobre eles, registra o relacionamento mantido por ambos.

"Splish! Splash!" é um daqueles livros que exerce uma dupla função. Se lido de forma esporádica, serve como um eficiente material de consulta, com fartas curiosidades.

Se lidos numa tacada só, ajuda a recontar a história da história em quadrinhos sob o ponto de vista do namoro. Eficente nisso, embora o resultado careça de uma revisão ortográfica.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h56
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14.05.11

De moedinha em moedinha, fez-se um Naruto

 

Naruto

 

Tenho uma rotina nos sábados de manhã: ida a alguma banca ou loja de revistas para comprar as publicações semanais de notícias.

Foi numa dessas compras que presenciei uma cena que há muito tempo não via: o esforço feito para comprar uma revista em quadrinhos.

Explico. Na fila para pagar, havia um garoto na minha frente. Via que minha vez demorava a chegar. O motivo era simples: a vendedora estava somando moedinhas, uma a uma.

O menino levou vários saquinhos de papel, cheios de moedas. À caneta, escreveu quanto havia em cada um: R$ 3, R$ 2,50... Eram para comprar o mangá "Naruto".

                                                          ***

A contagem das moedas demorou a chegar aos R$ 9,90 cobrados pela revista da editora Panini. Mas quase não percebi o tempo passar.

Vi no menino quieto e ansioso um pouco do muito que vivi na infância, ainda um ingressante na leitura. Uma das primeiras compras de quadrinhos que fiz foi juntando moedinhas. 

Entreguei todas ao jornaleiro na esquina de casa e comprei um número de "Edição Extra".

O título da editora Abril destava a cada edição histórias de algum personagem da Disney. Aquele número trazia os Irmãos Metralha. Guardo a revista em minha coleção até hoje.

                                                          ***

Os anos trouxeram empregos e, com eles, maior poder aquisitivo. As compras de quadrinhos, hoje, tornaram-se mais rápidas, quase automáticas.

Por isso, é bom ser relembrado sobre a dificuldade que era levar uma revista em quadrinhos para casa. Dava-se mais valor ao produto e ao esforço em chegar até ele.

Bom saber também que ainda há crianças que economizam para comprar quadrinhos (apesar de estes estarem hoje bem mais caros do que eram em minha infância).

O garoto da banca e a criança que fui ontem têm muito a ensinar ao adulto de hoje.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h24
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06.05.11

Três sombras, uma metáfora e muitas dualidades

 

  • Álbum mostra enigmáticas sombras que querem tirar criança de sua família
  • História é inspirada em casal de amigos do autor, que conviveu com perda do filho
  • Desenhista francês Cyril Pedrosa virá ao Brasil no segundo semestre

 

Três Sombras. Crédtio: Quadrinhos na Cia.

 


Há um ar tradicional, já visto em muitos filmes, nas páginas iniciais de "Três Sombras", à venda em livrarias e lojas especializadas em HQ (Quadrinhos na Cia., 272 págs., R$ 39,50).

Uma família tem a vida resumida à casa no campo e ao entorno dela. As tarefas diárias são a busca por alimento ou o desfrute das belezas naturais. Tudo na mais perfeita harmonia.

A tranquilidade do pequeno Joachim e dos pais, Louis e Lise, é quebrada quando avistam ao longe três enigmáticas sombras. Descobrem depois serem três cavaleiros.

Mais do que aparentes seres humanos, trata-se de um trio de entidades que vieram para buscar o menino. Incapaz de lutar contra elas, o pai decide fugir com o menino.

                                                          ***

A superfície do enredo criado pelo francês Cyril Pedrosa esconde, tal qual suas sombras, outras intenções.

Muitas delas são calcadas numa grande metáfora, a da sombra, e em dualidades: segurança e medo, união e separação, presente e futuro, e a principal delas, vida e morte.

O tema da morte, de certa forma, pauta toda a história, inspirada numa situação real, como o desenhista revelou neste mês em entrevista a Telio Navega, do blog "Gibizada".

A busca por Joachim estabelece um diálogo com a morte do filho de um casal de amigos.

                                             ***

"Não consigo encontrar palavras para expressar o trauma que foi para eles. É a pior coisa que pode acontecer com um ser humano", diz Pedrosa, na entrevista ao "Gibizada".

Anos depois, teve a ideia de verter a experiência em imagens e palavras.

"Por um tempo, lutei contra a ideia, mas, no fim, admiti que seria importante realizá-la. Talvez pareça estúpido, mas pensei que poderia ser um presente para eles."

O resultado teve boa repercussão. A obra esteve entre as premiadas do Festival Internacional de Quadrinhos de Angouleme, um dos mais importantes da Europa.

                                             ***

Há méritos na premiação. Pedrosa soube trabalhar nas páginas o drama vivido pelos amigos. Os desenhos, em particular, constroem a necessária sensilibidade exigida na obra.

Isso ajuda a enriquecer o roteiro que, a bem da verdade, é bastante simples. Simples, mas correto, bem conduzido.

De todo modo, como o lado emocional em geral fala mais alto durante o processo de recepção, pode ser que "Três Sombras" seja mais lembrado justamente por isso.

O burburinho em torno do álbum deve aumentar no segundo semestre, quando o autor virá ao Brasil para participar do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em Minas Gerais.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h10
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30.04.11

Thor repete fórmula de Homem de Ferro

 

  • Filme, que estreou neste fim de semana, procura dar toques de humor a protagonista
  • Reconstrução do super-herói integra estrátégia para dialogar com diferentes públicos
  • Estratégia funcionou com Homem de Ferro, outro personagem secundário da Marvel

 

Thor

 


Assistir a uma sessão de "Thor" ajuda a entender não só a megaprodução que estreou neste fim de semana, mas também o público que ela tenta atingir. Basta observar com cuidado.

Vi o filme nessa sexta-feira, num shopping de São Paulo. Sessão das 18h30. Versão dublada, por opção minha. Apesar do horário, sala com mais da metade das cadeiras ocupadas.

Trailers. A maioria dava um tira-gosto das novas adaptações de super-heróis: "X-Men - Primeira Classe", da mesma Marvel Comics de Thor, e "Lanterna Verde", da concorrente DC Comics.

Terminada a entrada, o cardápio principal. As cenas iniciais já sinalizavam que um dos protagonistas do filme seriam não os atores, mas os efeitos especiais.

                                                          ***

A história inicia em Asgard, reino além da visão humana onde moram os deuses nórdicos. Cenário impressionante de ser ver, independentemente do gênero do filme.

As divindades são comandadas pelo poderoso Odin (Anthony Hopkins).

Os minutos iniciais mostram o conflito dele com os homens de gelo e apresentam seus dois filhos-herdeiros: o orgulhoso Thor (Chris Hemsworth) e o ardiloso Loki (Tom Hiddleston).

Já adulto, foi a impulsão de Thor que  levou a uma retomada do confronto com os seres de gelo. E que acarretou sua expulsão de Asgard. O confinamento seria na Terra.

                                                          ***

É aí que se percebem bem claramente as semelhanças com a adaptação de outro personagem do segundo escalão da Marvel Comics, Homem de Ferro.

De tão bem-sucedida, a produção ganhou uma sequência e projetou o personagem para um público muito diferente do dos quadrinhos de super-heróis.

A fórmula de Homem de Ferro era ter efeitos especiais de primeira, um elenco afiado, um protagonista carismático, que mescla momentos de humor e de ação.

Assim como o Tony Stark vivido por Robert Downey Jr., este Thor dirigido por Kenneth Branagh põe o poderoso herói em situações inesperadas e, por isso, cômicas.

                                                         ***

O humor nas histórias em quadrinhos de Thor, quando havia, era restrito a personagens coadjuvantes.

Criado em 1962 por Larry Lieber, Jack Kirby e Stan Lee (sim, ele faz a tradicional ponta no filme), o herói sempre foi representado de forma nobre, inclusive na fala.

O personagem passou por vários escritores ao longo das décadas. O protagonista do filme é uma amálgama de vários deles, inclusive no visual, baseado numa versão mais recente.

Mas o humor é novo. E torna o Thor do cinema um personagem mais interessante que o dos quadrinhos, assim como o Homem de Ferro.

                                                         ***

Mas não se pode esperar muito mais que isso. Trata-se de um roteiro simples, camuflado pelo roteiro simples e por rostos de alguns atores conhecidos.

Nem a presença da oscarizada Natalie Portman sobressai. Constrói-se um forçado interesse do deus nórdico por ela, que se torna mais um rosto na produção, como os demais.

É daqueles filmes para não pensar muito. É para sentar e deixar se envolver pelos efeitos especiais, o humor e os efeitos. E só.

A fórmula funcionou com Homem de Ferro. Tem tudo para ser repetida com "Thor". A recepção junto à grande massa é quem dirá.

                                                         ***

A plateia comum de filmes de ação era a maioria, pelo menos na sessão a que assisti. Como dito no início destas linhas, basta observar com cuidado.

Terminado o filme, a maioria se levantou para sair. Permaneciam nas sala uns poucos casais de namorados, como de praxe, e um grupo de oito pessoas, eu entre elas.

Eram os leitores de quadrinhos, que sabiam que as adaptações da Marvel dialogam entre si, como nos quadrinhos, e que haveria pistas após os créditos.

Dito e feito: aparecia o Nick Fury de Samuel L. Jackson para indicar o caminho do roteiro de "Vingadores", com Thor e Homem de Ferro. Não falo o que é para preservar a surpresa.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h54
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17.04.11

Fidel Castro em quadrinhos

 

  • Álbum narra trajetória do líder cubano, da revolução aos dias de hoje
  • História foi feita pelo alemão Reinhard Kleist, especializado em biografias
  • Obra mescla acontecimentos reais com elementos ficcionais

 

Castro. Crédito: editora 8Inverso

 


É tentador, porém impreciso, rotular o álbum "Castro" como uma biografia ipsis literis.

A obra mescla aspectos ficcionais aos dados reais sobre Fidel Castro e o povo cubano.

Seria, então, uma biografia ficcional. Ou algo próximo a isso.

E está aí o acerto deste novo trabalho do alemão Reinhard Kleist, à venda em livrarias e lojas de quadrinhos (8Inverso, 288 págs., R$ 51).

                                                         ***

Para transpor uma biografia à linguagem dos quadrinhos, é necessário imaginar como se deram algumas das cenas e dos diálogos narrados.

Por essa aparente limitação, é difícil ser cem por cento fiel ao que está representado nos quadrinhos, por mais exato que se tenha pretendido ser.

Kleist derruba essa restrição ao assumir a mescla ficcional com os dados reais. Daí o acerto: ele diz ao leitor que algumas situações provavelmente ocorreram daquela maneira.

O recurso narrativo - que assume a imprecisão - ajuda a lançar o foco no ponto que realmente interessa: a trajetória de Castro e de Cuba e a rica história por trás deles.

                                                        ***

Boa parte dos fatos é relatada pelo olhar de um jornalista alemão, Karl Mertens.

O personagem criado por Kleist é uma forma inteligente de aproximar a obra ao leitor da Alemanha, país onde o quadrinista concetra sua produção.

O jornalista desembarca em Cuba em 1960 com a missão de entrevistar o então enigmático líder revolucionário.

Consegue realizar a matéria e se aproxima dos ideiais revolucionários. Decide deixar a Europa e se instalar no país sul-americano.

                                                         ***

O que o jornalista vê são os acontecimentos que, de fato, ocorreram e marcaram a história de Cuba e da relação do país com as grandes potências.

Usar o personagem alemão ajuda a narrar os acontecimentos sob o ângulo de um estrangeiro, como o autor, e a filtrar o olhar dado a Castro. Mas sem perder a criticidade.

Fidel é representado como uma figura carismática no período pré-revolução. Depois, já no poder, tem seus ideais adaptados à nova realidade do país.

A mudança política dialoga com atitudes autoritárias, de cerceamento à liberdade de expressão, aspectos não escondidos ao longo da obra. Mostra-se um outro Fidel.

                                                         ***

As fontes pesquisadas sobre o tema, elencadas no final da obra, revelam que houve uma real intenção de Kleist em ser o mais fiel possível aos fatos.

O autor também passou quatro semanas em Cuba, aprimorando a pesquisa. Inclusive da parte visual. Contou ainda com a consultoria de um biógrafo de Castro.

Mesmo com esses cuidados, é possível que o livro desperte emoções díspares em quem que o lê, a depender de como cada um enxerga o papel político de Fidel.

Afora a discussão ideológica, trata-se do melhor trabalho de Kleist publicado até o momento no Brasil. Especializado em biografias, já narrou as histórias de Jonhy Cash e de Elvis.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h24
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16.04.11

O segredo de seus olhos, descobertos via blog

Recebi nesta semana o e-mail de um leitor. Ele dividia comigo uma história pessoal, que envolvia tanto este blog quanto o filme argentino "O Segredo de Seus Olhos".

Achei o relato tão saboroso de ser lido que pedi autorização ao autor, o advogado Pedro Fialho, de 28 anos, morador de Vitória da Conquista, no interior baiano, para postar aqui.

Autorização concedida, segue o registro encaminhado por ele.

                                                        ***

Olá, Paulo.
 
Me chamo Pedro e acompanho seu blog a uns dois ou três anos, não sei ao certo. 

Essa é uma historia que tem "certa participação" de uma informação do blog, fica de registro pra ilustrar a história do blog.
 
Há mais de um ano eu passeava por suas postagens quando te vi comentando de um filme argentino que você tinha assistido e gostado muito. Era "O Segredo de Seus Olhos".

Àquela altura, não se falava tanto assim do filme, era por volta de janeiro de 2010.

As conversas do Oscar não estavam muito latentes, pelo menos não no meu "campo de visão" (virtual, diga-se, moro em Vitória da Conquista, no interior da Bahia, onde não há um grande círculo cultural, sobretudo pra cinema latino-americano.)
 
Pois bem, da sua informação eu resolvi procurar e assistir ao filme. O fiz. Gostei demais.
 
Na época, uma então amiga me pediu uns filmes emprestados. Eu, logo na segunda-feira seguinte de ter assistido, emprestei para ela.

Depois pedi de volta, pois iria assistir o filme com uma outra amiga de Salvador que veio me visitar.

Ela – a primeira a quem eu havia feito o empréstimo - disse que queria ficar com o filme porque tinha gostado muito, mas me devolveu.
 
Na hora devolver, entreguei o DVD do filme que eu havia baixado e copiado junto com um cartão que redigi em uma máquina de escrever do meu trabalho, cartão escrito sem as letras "a".
 
Bem... de lá pra cá... um ano e tanto de namoro, de um relacionamento que, pra encurtar, pretende-se vire casamento em breve.
 
Pode parecer forçado incluir o blog como algo "responsável" por meu encontro com ela, mas por motivos de ambas as partes o período em que tudo aconteceu foi determinante pra que as coisas se desenvolvessem.

Seguramente eu acabaria esbarrando no filme, sobretudo depois que venceu o Oscar, mas me custa crer que qualquer coisa viesse a acontecer tão "bem acontecido" como ocorreu.
 
E devo ao blog ter visto o filme naquele exato momento da minha vida e dali ter determinado coisas que hoje se apresentam como a própria vida em si.
 
Sem falar que é sempre bom olhar pro passado e poder contar uma boa história, pois fica bem mais divertido contá-la falando que colhi aquilo de um blog sobre quadrinhos que eu conhecia.

É assim que gosto de me referir a todos esses acontecimentos, que são absurdamente surreais, inesperados e perfeitos pra mim.
 
Fica aí uma historia do seu blog pra ser contada um dia. 

E eu finalmente te digo "muito obrigado".
 
Algo que queria fazer há tempos, mas nunca me livrara de uma timidez quase tacanha de mandar este e-mail. 
 
Pedro Fialho

                                                        ***

Em tempo: Pedro e Analyz, sua noiva, já arranjam os detalhes para o casório. Por vontade deles, seria em 2012. Mas precisam, antes, aguardar o arranjo de detalhes profissionais.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h46
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14.04.11

Do Orum ao Ayê, do ProAC às livrarias

 

  • "Orixás - Do Orum ao Ayê" narra surgimento do homem do ponto de vista africano
  • Obra de Alex Mir, Caio Majado e Omar Viñole tem lançamento nesta quinta em SP
  • Álbum foi um dos projetos selecionados por edital de incentivo à produção de HQs

 

Orixás - Do Orum ao Ayê. Crédito: editora Marco Zero

 


O roteirista Alex Mir despontou no circuito independente paulista com histórias de super-heróis nacionais. Mas ficava um quê de que ele poderia render mais em outro gênero.

"O Mistério da Mula sem Cabeça", lançado em janeiro do ano passado, já sinalizava um flerte dele com a narrativa em quadrinhos mais longa.

É desse flerte que vem este "Orixás - Do Orum ao Ayê", álbum escrito por ele que tem lançamento nesta quinta-feira à noite em São Paulo (Marco Zero, 80 págs., R$ 19,90).

Desenhado por Caio Majado e arte-finalizado por Omar Viñole, ambos também do meio alternativo paulista, a obra narra o surgimento do homem do ponto de vista africano.

                                                         ***

A grande curiosidade da obra é justamente essa, a de apresentar ao leitor brasileiro como foi vista e narrada a criação do homem pelos Orixás, figuras tidas como semideuses.

O álbum reconstroi o surgimento do primeiro Orixá, Oxalá, e o modo como os deuses foram incumbidos de sair do Orum (moradia divina) para gerar o ser humano no Ayê (a Terra).

Essa transição de planos é antecipada pelos nomes escolhidos como subtítulo da obra. Só não explica tudo, como por que os homens seriam idiferentes uns dos outros.

Curiosidades relatadas de uma maneira bastante acessível e divididas ao longo de cinco capítulos, cuja ligação poderia ter sido mais bem arquitetada.

                                                          ***

Por ser uma narrativa dividida em capítulos, "Orixás - Do Orum ao Ayê" deveria tornar fluida a ligação entre uma etapa e outra. Pelo menos, é o pressuposto que se cria no leitor.

É isso que causa certa estranheza em haver dois prólogos no início do terceiro capítulo. Outro incômodo é ler a palavra "fim" na última página do capítulo quarto (o total são cinco).

Apesar disso, preserva-se o interesse, muito pelo desconhecimento do conteúdo, baseado na cultura africana. A obra se propõe a apresentá-lo ao leitor. E cumpre a meta.

O álbum foi um dos dez trabalhos selecionados em 2010 pelo ProAC, programa paulista de incentivo à produção de quadrinhos. O governo já anunciou um novo edital para este mês.

                                                         ***

Serviço - Lançamento de "Orixás - Do Orum ao Ayê". Quando: hoje (14.04). Horário: das 19h às 21h30. Onde: Livraria da Vila. Endereço: alameda Lorena, 1.731, São Paulo. Quanto: R$ 19,90.

Escrito por PAULO RAMOS às 00h10
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10.04.11

O segundo retorno da verdadeira Luluzinha

 

  • Pixel põe nas bancas revista com histórias antigas de Luluzinha e Bolinha
  • Até o meio do ano passado, personagem era publicada pela Devir
  • Antiga editora lançou oito álbuns, direcionados a lojas de HQ e livrarias

 

Luluzinha. Crédito: editora Pixel

 


É preciso olhar com mais criticidade o marketing em torno do primeiro número da revista "Luluzinha", à venda nas bancas desde a virada do mês (Pixel, 52 págs., R$ 3,10).

Do contrário, corre-se o risco de comprar apenas o discurso capitaneado pelo marketing da editora. O primeiro ponto, pouco alardeado, foi o anúncio premeditado do lançamento.

Durante semanas, a editora inseriu uma chamada nas seções de palavras cruzadas dos jornais registrando que a publicação já estaria "nas bancas e livrarias".

A venda de fato teve início nos últimos dias de março. Um lançamento oficial foi realizado no último dia 2 na livraria de um shopping de São Paulo, com a presença de atores mirins.

                                                         ***

Apesar de a sessão de autógrafos ter ocorrido numa livraria, a publicação foi direcionada às bancas, e não aos dois pontos de venda, como informava a publicidade antecipada.

Também não se tratava de uma volta, como a assessoria informou à imprensa.

Tratava-se, a bem da verdade, de um segundo retorno. A retomada das histórias antigas da personagem ocorreu em 2006, pela Devir.

A editora lançou oito álbuns, direcionados às livrarias e lojas de quadrinhos. O último data de 2010, menos de um ano até esta "volta". Houve, na verdade, uma troca de casa.

                                                          ***

O que é correto é o retorno ao formato revista. A última experiência nesse molde editorial havia sido feita pela Abril. A publicação havia sido cancelada no meio da década de 1990.

Vale também aí uma leitura mais crítica. Nenhuma retomada de personagens clássicos dos quadrinhos nas bancas, na forma de revista, foi bem sucedida nos últimos cinco anos.

Recruta Zero, Fantasma e Hagar são três dos exemplos. Alguns dos títulos mal passaram do primeiro número. 

"Luluzinha" deve chegar a outras edições, muito por conta do marketing em torno desta edição inaugural. Mas, a se pautar pelos outros casos, é dúvida para o futuro.

                                                         ***

Não se quer dizer que a revista já é, desde agora, fadada ao fracasso. Nem se deseja isso. O conteúdo, ingênuo sem deixar de ser inteligente, vale ser lido em qualquer formato.

Mas é para pensar se a estratégia da editora foi a mais certeira. Os exemplos de ontem são desanimadores. E o que mantinha a boa circulação da personagem era o molde do álbum.

Álbum que permitia o conteúdo chegar ao público adulto, que lia as histórias durante a infância e encontrava nelas memórias guardadas em algum canto da memória.

Este primeiro número deixa claro que o público-alvo são as crianças. Sinal disso é a presença, ao final das sete histórias, de um passatempo (jogo dos erros).

                                                         ***

Os passatempos tomam também metade de um almanaque, em tamanho maior, vendido com este número inaugural.

A outra metade procura fazer uma ponte entre a versão original da personagem com a adolescente, criada pela Pixel especialmente para o Brasil e vendida também nas bancas.

Não deixa de ser estranho ver a Luluzinha jovem apresentando como ela era na infância, nas histórias publicadas a partir da metade da década de 1940. Deveria ser o contrário.

É bom ter Luluzinha publicada. Ainda mais as histórias antigas. Mas é um projeto de risco, que precisa ser lido com criticidade. Ao contrário do que propõe o discurso do marketing, comprado cegamente e com destaque por alguns veículos da grande imprensa.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h32
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15.03.11

 Casos como o do Japão comportam charges?

 

Charge de Xalberto. Crédito: site Charge Online

 

A provocativa pergunta que intitula esta postagem foi pinçada da carta de um leitor do jornal "Folha de S.Paulo", publicada na edição de segunda-feira. No texto, ele questionava:

"... penso ser importante rir da tragédia humana. Mas rir inclusive das que não foram causadas por outro homem? Ou das que morrem centenas de inocentes?"

E conclui: "Momentos como este não comportam essas charges". O pronome "essas" remetia à charge publicada pelo jornal no sábado, de autoria de João Montanaro.

O desenho mostrava o tsunami arrastando casas, carros e árvores. Ao fundo, uma usina nuclear. O título dado foi "Xilogravuras Japonesas - A Onda".

                                                         ***

Havia um toque crítico e de humor na charge, características próprias do gênero. No entender do leitor, tais elementos não seriam propícios a determinados assuntos.

A leitura feita por Montanaro, e endossada pelo staff do jornal, é que o principal assunto do noticiário dos últimos dias é passível, sim, de um olhar crítico, com verniz de humor.

A mesma interpretação fizeram pelo menos outros 16 chargistas, que nesta terça-feira publicaram seus desenhos sobre a tragédia no Japão em diferentes jornais do país.

Pelo menos é o que se conclui após a leitura do site "Charge Online", que reúne trabalhos de todo o país. O assunto é o mais abordado na manhã de hoje.

                                                         ***

Quem também compratilha dessa leitura é o cartunista Laerte Coutinho. Em texto publicado hoje na seção de cartas da Folha, ele sai em defesa do colega de jornal.

Na leitura de Laerte, "talvez tenha havido pressa no julgamento que alguns leitores fizeram, condenando o trabalho por um suposto desrespeito à dor humana num momento de tragédia. No entanto, João revelou audácia, e não insensibilidade".

"Usando um ícone da cultura japonesa, ele nos remete a uma reflexão sobre contrastes: o milenar, permanente, sólido; e o instantâneo, devastador."

Segundo Laerte, "o autor se preocupou em não colocar nenhuma figura humana no desenho, sinal de que percebeu a gravidade do tema e a necessidade de localizar o comentário na esfera da relação entre a cultura humana com o meio ambiente." E conclui: Isso é um alerta, e não um sinal de zombaria".

                                                          ***

Em situações-limite como essa, torna-se, de fato, ainda mais desafiador o papel do chargista. Como bem sintetiza o desenho de Xalberto acima e lido no "Charge Online".

Por ser um fato que choca, há o sério risco de ser mal-interpretado, lido como zombaria, e não como crítica. É nesses casos que fica evidente quem de fato entende o papel da charge e quem não.

Leitores habituais de jornais, de quadrinhos e de charges tendem a aceitar sem problemas tais abordagens, mesmo que limítrofes, como a do Japão.

Parte dos demais tende a enxergar na charge apenas a piada, o humor, e não o papel da crítica. E verão apenas o texto visual, equivocadamente, apenas como uma chacota.

 

Preto no Branco, de Allan Sieber. Crédito: reprodução da edição on-line da Folha de S.Paulo

 

É a mesma desinformação que pautou outra carta publicada na edição desta terça-feira da Folha. Uma leitora classificava como "lamentável" a tira acima, de Allan Sieber.

No entender dela, o desenhista estaria "depreciando o teatro para crianças". Para ela, Sieber deveria se informar mais sobre o tema antes de "debochar" de forma "preconceituosa".

Embora a opinião deva ser respeitada, ela ignora o fato de o humor da tira ter se pautado num senso comum, evidenciado e reforçado pela contundente resposta escrita pela leitora.

A carta sugere também que, mesmo o teatro infantil sendo de qualidade, ele estivesse fora de uma abordagem cômica e crítica. Seguindo o raciocínio, haveria um "filtro" para o humor.

                                                          ***

De todo modo, o caso da tira de Sieber e a abordagem sobre o Japão não foram o primeiro - e nem serão o último - caso a pôr à prova o papel da charge.

Em 2005, um desenho que mostrava Maomé com um turbante explosivo gerou uma série de violentos protestos de seus seguidores na Europa e no Oriente Médio.

Vale o bom senso, claro, mas dizer que um assunto não cabe numa charge está no limite da censura.

Em tese, tal decisão deve caber apenas ao chargista, pautada na necessária liberdade dada a ele.

                                                         ***

Mas temas delicados são, de fato, desafios para os quadrinistas, que, mesmo assim, podem obter resultados primorosos.

Um exemplo foi a charge do desenhista Jean, na edição de domingo da mesma Folha e também sobre a tragégia no Japão.

O trabalho mostrava a bandeira do Japão com uma lágrima vermelha.

Sensível, não deixou de ser crítico e de abordar o tema.

Escrito por PAULO RAMOS às 08h32
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11.03.11

Nanquim (nada) Descartável

 

  • Quarto número é o melhor da série criada por Daniel Esteves
  • Parceria com editora permite venda do álbum em livrarias
  • Festa neste sábado faz mais um lançamento da obra

 

Nanquim Descartável 4. Crédito: imagem cedido pelo autor

 


Há que se concordar com um trecho do prefácio do novo número de "Nanquim Descartável", à venda desde o fim de janeiro e que tem novo lançamento neste sábado, em São Paulo.

Daniel Esteves, roteirista da obra, diz no texto que "mesmo com todos os atropelos, essa será a melhor revista que já editei". De fato, este quarto número é o melhor da série.

Não porque tenha o diferencial de ter sido produzido com mais páginas e no formato álbum - ficou 96 páginas (R$ 15) -, mas, sim, pelo conteúdo e pela história bem amarrada que traz.

E, nesse ponto, há de se concordar uma vez mais com Esteves. No mesmo prefácio, resume a série como um lugar "onde nada acontece, mas muita coisa é dita".

                                                         ***

Como nos demais números, a trama gira em torno da vida das protagonistas Ju e Sandra, duas amigas que dividem o apartamento e confidências.

Neste número, ambas têm de enfrentar casos mal resolvidos do passado. Dois relacionamentos com ex-namorados que terminaram pontas soltas e, por isso, não encerrados por completo.

É esse o tema central do álbum. Situação comum, mas, justamente por isso, de fácil identificação por parte do leitor. E diferenciado aqui pela criativa condução narrativa de Esteves.

Ele consegue criar situações e diálogos - uma das marcas da série - que ligam de forma peculiar os dois confrontos das personagens com os amores do passado.

                                                        ***

Um dos confrontos se dá na mente de Ju, após uma queda em seu quarto.

O trabalho gráfico feito por Mário Cau nas cenas imaginadas por ela é um dos diferenciais do álbum. Cada situação rememorada é mostrada com um estilo distinto do outro.

A impressão que a arte de Cau cria é que se trata de diferentes desenhistas, embora se saiba ser apenas um.

Como nos números anteriores, a arte é dividida entre vários autores. Participam também Wanderson de Souza, Alex Rodrigues, Fred Hildebrand, Wagner de Souza, Julio Brilha e Mário César.

                                                         ***

Uma parceria com a editora Via Lettera permitiu que a obra independente chegasse nas últimas semanas às livrarias também. Outra peculiaridade  deste quarto número.

A obra, por si só, já se diferencia por ser a melhor da série e por ser produzida no formato álbum, apesar de bancada pelo autor, que faz uma ponta no final da história.

Mas, a se pautar por este resultado, é um caminho a ser explorado. Seria prematuro dizer em março que se trata de um dos melhores trabalhos nacionais do ano.

Mas não seria incorreto registrar, ainda neste primeiro trimestre, que a obra se diferencia pela qualidade e que está, sim, entre os destaques deste 2011.

                                                         ***

Serviço - Festa de lançamento de "Nanquim Descartável 4". Quando: sábado (12.03). Horário: a partir das 18h. Onde: Estúdio HQEMFOCO. Endereço: av. álvaro Ramos, 404, sala 11, São Paulo. Quanto: o álbum custa R$ 15.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h22
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14.02.11

Nada ordinário

 

Ordinário, de Rafael Sica. Crédito: Quadrinhos da Cia.

 

 

 

 

 

 

 

Capa da coletânea de tiras de Rafael Sica, que começa a ser lançada nesta semana 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Nem sempre os dicionários conseguem precisar o real sentido de uma palavra. Ou de um livro como "Ordinário", que inicia um périplo de lançamentos nesta semana.

A se pautar pelo "Houaiss", o título da coletânea de tiras de Rafael Sica indicaria ser algo "comum, habitual, frequente". Ou ainda "regular". Ou então "sem brilho", de "má qualidade".

A obra é muitas coisas. Mas seguramente nenhuma das elencadas pelo dicionário.

Na verdade, é justamente o oposto de todas elas. É incomum, inabitual, infrequente, irregular, com brilho, luminoso e, sem dúvida, de ótima qualidade.

                                                         ***

O nome "Ordinário" vem do blog homônimo do desenhista e fonte das tiras da obra. Várias tiras de lá já visitaram esta página, dada a peculiaridade do trabalho que ele faz.

Peculiaridade que rendeu ao gaúcho Rafael Sica dois troféus HQMix, um de melhor website sobre quadrinhos e outro de desenhista revelação.

As tiras são sem palavras - à exceção de uma, com onomatopeias. Elas criam situações inusitadas, muitas surreais, deixando para o leitor a tarefa de dar o sentido mais adequado. 

A leitura aberta tem levado os próprios internautas a registrarem comentários regulares no blog tentanto propor caminhos interpretativos para o trabalho do desenhista.

                                                         ***

O fato de ser um trabalho tão diferenciado é o que torna singular este livro do Quadrinhos na Cia., prometido inicialmente para dezembro (128 págs., R$ 29).

De tão singular, é até difícil dizer o que é exatamente o conteúdo. São tiras, o formato deixa claro. Mas de que tipo?

Um sinal disso já é percebido na grande imprensa, primeiro ensaio de recepção das tiras fora da internet. Na "Globonews", o trabalho foi rotulado de "poesia gráfica". Exagero...

Mas deve ser apenas a primeira tentativa de definir algo que se pauta justamente no oposto: na falta de definição e na procura de inverter o senso comum, a começar pelo título.

                                                          ***

Serviço - Lançamentos de "Ordinário", de Rafael Sica.

  • Porto Alegre. Quando: quarta-feira (16.02). Horário: 19h. Onde: Palavraria Livros & Café. Endereço: rua Vasco da Gama, 165, Bom Fim.
  • São Paulo. Quando: sexta-feira (18.02). Horário: 19h. Onde: Espaço + Soma. Endereço: rua Fidalga, 98, Vila Madalena.
  • Curitiba. Quando: quarta-feira (23.02). Horário: 19h. Onde: Itiban. Endereço: rua Silva Jardim, 845.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h34
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05.02.11

Aqui renasce Steve Rogers, o Capitão América

 

Os Novos Vingadores 84. Crédito: editora Panini

 

 

 

 

 

 

 

Retorno do herói, "morto" há três anos, é mostrado em "Os Novos Vingadores", revista que começou a ser vendida nesta semana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Inicio esta postagem do ponto onde havia parado a resenha sobre a "morte" do Capitão América, veiculada aqui no blog em 26 de fevereiro de 2008.

Intitulado "aqui jaz oficialmente Steve Rogers, o Capitão América", o texto terminava com estas palavras:

"Apenas para registro: é muito comum heróis - e vilões - morrerem e voltarem meses ou anos depois. Super-Homem, Lanterna Verde e Arqueiro Verde são apenas três exemplos para provar isso. Se seguir a tendência, é possível que este caso do Capitão América seja mais uma "morte" ligada a uma eficiente jogada de marketing."

Dito e feito. Três anos depois, encerra-se no Brasil a história que mostra a volta do herói ao universo dos personagens da editora norte-americana Marvel Comics.

                                                          ***

O desfecho da volta de Steve Rogers, nome do herói, abre o número 84 da revista "Os Novos Vingadores", que começou a ser vendida nesta semana (Panini, 76 págs., R$ 6,50).

A volta dele havia ocorrido na edição anterior. O que se lê agora é o encerramento da minissérie em seis partes "Captain America Reborn", que mostrava o retorno.

O roteirista Ed brubaker teve de fazer uma engenharia narrativa para explicar como o herói iria regressar do mundo dos mortos, após ter sido baleado à queima roupa.

A explicação: a consciência do herói foi separada de seu corpo e ficou migrando pelo passado. Entre os saltos temporais, conseguiu retomar o corpo e voltar ao presente.

                                                          ***

Como se trata do mundo dos super-heróis, irreais por concepção, não se pode exigir muito de uma explicação dessas. Para a editora, o importante é retomar o personagem.

Ainda mais num ano em que o herói irá para a tela grande, adaptado em longa-metragem. Numa oportunidade assim, é comercialmente sábio mantê-lo bem vivo.

A discussão a partir de agora é ver quem irá ficar com o escudo e o uniforme do herói. Isso porque o ex-parceiro dele, Bucky Barnes, assumiu o posto durante sua "ausência".

Uma pesquisa no Google ou lida em sites que noticiam novidades da indústria norte-americana de quadrinhos revela a resposta para os mais curiosos.

                                                          ***

Desde a publicação da "morte" do Capitão América, a série mensal do personagem continuou sendo lançada nos Estados Unidos, com uma trama bem construída.

Muito do interesse gerado pelas histórias veio da mão certeira de Ed Brubaker, um dos poucos escritores que se destacam nas revistas de super-heróis de hoje.

Mas os acertos de ontem não se refletiram nesse desfecho da volta do herói. Foi um retorno sem impacto. O Capitão América regressou dos mortos e já entrou em combate.

Os demais heróis, também no conflito contra o Caveira Vermelha, pouco se surpreenderam. Apenas um perguntou se aquele era o "nosso Capitão". Era. Próxima aventura.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h27
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24.01.11

Uma história sobre Bone, por ora sem final feliz

 

Bone 1. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do primeiro volume de Bone, lançado no Brasil em dezembro de 1998 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Tudo indica que não será em 2011 o adiado final da série Bone. A editora da série no Brasil, Via Lettera, informou que não tem quadrinhos programados para este ano.

A informação foi passada via Twitter, na sexta-feira passada, pelo jornalista Jota Silvestre, do blog "Papo de Quadrinho". Silvestre havia sondado a editora sobre lançamentos.

A série norte-americana foi iniciada pela Via Lettera em dezembro de 1998. Com o passar dos anos, aumentou o espaçamento entre um volume e outro. O último, 14, saiu em 2010.

Mais de uma vez, inclusive neste blog, a editora havia dito que as histórias seriam retomadas. Pelo que se lê, não será bem assim. Pelo menos não neste ano.

                                                         ***

Bone foi criada em 1991 pelo norte-americano Jeff Smith e foi uma das séries mais premiadas dos Estados Unidos nas duas últimas décadas.

As histórias giram em torno dos primos Fone Bone, Smiley e Phoney. O trio enfrenta diferentes aventuras num vale coberto de situações místicas.

Os três se perderam na região. Ficam por lá na esperança de encontrarem o caminho de volta à cidade de onde vieram, Boneville.

Jeff Smith encerrou a série no número 55, lançado em junho de 2004. Desde então, as histórias vêm sendo sistematicamente reeditas em diferentes formatos editoriais.

                                                          ***

As histórias integram o raro grupo de quadrinhos que podem ser lidos tanto por adultos quanto por leitores juvenis.  

Por ter essa peculiaridade, tornou-se o principal presente que dei a vários amigos e colegas em festas de aniversário e comemorações de final de ano desde a virada do século.

Somava-se o fato de haver poucos álbuns em quadrinhos, o que reforçava ainda mais a escola. Era uma época em que o setor de livrarias ainda era pouco explorado.

Os presenteados tinham pouco contato com quadrinhos. Em geral, surpreendiam-se com Bone. Um deles costumava sempre me agrader por tê-lo apresentado à série.

                                                         ***

Não sei se todos os amigos e colegas deram segmento à leitura da série. O intervalo entre o lançamento de um volume e outro é um argumento forte para dizer que não.

Desde o começo do século, optei por acompanhar as histórias de Bone no original, tanto nos encadernados quanto na série regular. Foi uma das poucas em que fiz isso.

Li a edição final, ainda em 2004. Mas sempre continuei comprando as versões nacionais, à espera de (re)ler uma vez mais o desfecho da série. Lamento pelos demais leitores.

Fica a esperança de que a Via Lettera reveja a decisão, neste ou no próximo ano. Ou que outra editora se interesse pela série. A se pautar pelo presente, melhor outra editora.

Escrito por PAULO RAMOS às 09h24
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10.01.11

Álbum faz dupla homenagem: a Spirit e a Eisner

 

The Spirit - As Novas Aventuras. Crédito: Devir

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "The Spirit - As Novas Aventuras", que traz histórias do herói feitas por diferentes autores 

 

 

 

 

 

 

 

O Spirit sempre foi um herói diferenciado. Suas histórias traziam contos em quadrinhos, que não raras vezes punham o protagonista em segundo plano.

Ele também não era propriedade de uma grande editora, que, nas décadas seguintes, alternaria o grupo de escritores e desenhistas para manter a linha de produção narrativa.

Não. Spirit, como dito, era diferente. Os direitos pertenciam a seu criador, o quadrinista Will Eisner (1917-2005). Por isso mesmo, custou a trocar de mãos. Eisner não queria.

O tempo tornou a regra flexível e o pai do personagem aceitou deixar o filho passear com outros autores. O resultado chega agora ao Brasil em "The Spirit - As Novas Aventuras".

                                                          ***

O álbum, lançado em dezembro (Devir, 128 págs.), reúne os quatro primeiros números da revista "The Spirit - The New Adventures", publicada nos Estados Unidos durante 1998.

A proposta da série era entregar o personagem à nova safra de autores da indústria norte-americana de quadrinhos: Neil Gaiman, Kurt Busiek, Eddie Campebell, David Lloyd.

Logo na história de estreia, que também abre o álbum, reunia Alan Moore e Dave Gibbons, criadores da badalada minissérie "Watchmen".

A dupla recontou a origem do personagem, mas do ponto de vista dos personagens secundários da história.

                                                         ***

A primeira história de Spirit foi publicada nos Estados Unidos em 2 de junho de 1940. A história de estreia mostrava como o detetive Denny Colt se tornou o herói. O vilão da vez era o Dr. Cobra. O cientista era procurado pela polícia. Colt descobre onde está escondido.

Quando tenta capturá-lo, é atacado e dispara contra um enorme frasco. O tiro libera um líquido, que atinge o detetive. Imediatamente, entra em estado de animação suspensa. Dado como morto, é enterrado no cemitério Wildwood, em Central City.

Danny Colt, surpreendentemente, acorda, foge do túmulo e captura Cobra. Prefere que todos pensem que está morto Adota a persona de Spirit e passa a ajudar a polícia.

                                                         ***

Eisner conseguiu dar uma cara própria à série, que sempre iniciava com o nome do herói apresentado de forma estilizada na cena de abertura. O recurso é repetido no álbum.

A repetição estilística ajuda a recriar o ambiente das narrativas originais. Isso dá ao álbum um ar de homenagem. Dupla homenagem: ao herói em si e ao criador dele.

A série teve outros quatro números até ser cancelada com o fim da editora, a Kitchen Sink Press. A história é recontada pelo editor, Denis Kitchen, no prefácio da obra.

São histórias interessantes, sem dúvida. Mas não substituem as originais, que não são reeditadas no Brasil há mais de uma década.

                                                          ***

Nota: a Devir publicou a obra em dois formatos. Um, em capa dura, custa R$ 53. Outro, com capa cartonada e um pouco menor, sai por R$ 41. O conteúdo é o mesmo.

Escrito por PAULO RAMOS às 08h42
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04.01.11

Ao coração da tempestade editorial de hoje

 

No Coração da Tempestade (Abril, 1996) Ao Coração da Tempestade (Quadrinhos na Cia, 2010)

 

"Ao Coração da Tempestade" se ancora em uma metáfora. A tempestade do título é o ponto de chegada do trem que leva soldados norte-americanos ao campo de batalha.

Na trajetória que leva o grupo à Segunda Guerra Mundial, em 1942, a janela do vagão funciona como uma válvula de escape para a chegada no conflito.

As cenas externas observadas durante a viagem ajudam a rememorar fatos passados da vida do protagonista, Willie. O soldado é o próprio autor, Will Eisner (1917-2005).

Ele relembra a infância, a adolescência, o interesse pelos desenhos, a decisão de ingressas no conflito, o modo de ser do pai e da mãe, o preconceito por serem judeus.

                                                          ***

A intolerância presenciada por ele e pelos pais, em diferentes situações e épocas, são vistas pelo autor como pequenos movimentos do que se tornaria o grande conflito mundial.

A autobiografia de Eisner foi relançada pelo Quadrinhos na Cia. (216 págs., R$ 42). Ironicamente, começou a ser vendida no fim da primeira década deste século.

A ironia é porque a obra guarda em si outra metáfora, distinta da vista na narrativa em si. O álbum tem papel semelhante à janela do trem retratada pelo desenhista norte-americano.

O trabalho é uma das âncoras que ajudam a perceber o quanto o mercado editorial brasileiro mudou em comparação com a década anterior, a última do século 20.

                                                        ***

O álbum foi produzido para ser vendido prioritariamente em livrarias. As grandes redes hoje possuem um farto e destacado espaço reservado às histórias em quadrinhos.

É um cenário bem distinto do visto quando o álbum foi publicado no Brasil pela primeira vez, em 1996, pela Editora Abril.

A obra foi direcionada na época às bancas de jornal, então o principal ponto de venda de quadrinos no país. Para baratear o preço, a história foi dividida em dois volumes quinzenais.

As capas eram as mesmas. Para distinguir um volume do outro, a editora mudou a cor do título da obra, então chamada de "No Coração da Tempestade".

                                                           ***

A Abril produziu mil exemplares de uma outra versão, em capa dura, volume único e autografada por Eisner, que era vendida apenas sob encomenda e enviada pelo correio.

A editora paulista vivia naquele 1996 um momento mais tímido no tocante às publicações adultas. A redação destas havia sido unificada com a infanto-juvenil, vítima do Plano Collor.

"De repente, as vendas de revistas despencaram e nossas apostas, que eram custosas em comparação com os títulos da Marvel, da DC, da Disney e de outros licenciantes, deixaram de ser viáveis do ponto de vista de faturamento", diz Marcelo Alencar, na época editor-chefe da área de quadrinhos.

"Estamos falando de uma época em que, se uma revista vendesse menos de 50 mil exemplares, era sumariamente cancelada. Hoje as expectativas, de modo geral, são bem mais modestas."

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Alencar havia sido contratado pela Abril em 1989 para cuidar da publicação de graphic novels, nome que ainda era novo no Brasil.

A editora Globo também havia criado na mesma época uma redação para cuidar de obras assim. É dessa época a publicação das minisséries "V de Vingança" e "Moonshadow".

Até o Plano Collor, houve uma ebulição de obras, voltadas ao leitor adulto. Todas direcionadas para bancas e, no máximo, a lojas de quadrinhos que então surgiam.

A Abril, nesse período, chegou a publicar dois outros trabalhos de Will Eisner: uma revista mensal do "Spirit" e a graphic novel "Um Sinal do Espaço".

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Alencar hoje edita livros educativos para a Fundação Padre Anchieta. Mas ainda mantém vinculo com os quadrinhos. Colabora para a Abril e integra a comissão do Troféu HQMix.

O jornalista acredita que, hoje, seria difícil vender o álbum em bancas. "Por um lado o fato me entristece, pois muita gente dos rincões do país deixa de ter acesso ao material."

"Por outro, me alegra, pois boa parte dos fãs de gibis, que antes só frequentavam jornaleiros, hoje são habituées de livrarias e têm o costume de consumir quadrinhos mais sofisticados."

Tal qual a janela do trem criada por Eisner, o mercado de hoje pode ser rememorado por meio da reedição de uma de suas obras e comparado com o de ontem. Muita coisa mudou. E não foi só a preposição do título do álbum do quadrinista. Vive-se hoje uma outra tempestade editorial. Diferente, mas não necessariamente pior.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h38
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18.12.10

Um jornalismo - e não o jornalismo - em quadrinhos

 

Notas sobre Gaza. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

Capa de "Notas sobre Gaza", trabalho mais recente de Joe Sacco, autor que constrói reportagens em quadrinhos

 

 

 

 

 

 

 

 

Há um senso comum em torno do trabalho do jornalista e desenhista maltês Joe Sacco. Costuma-se apregoar a ele o surgimento do diálogo entre jornalismo e quadrinhos.

O assunto costuma vir à tona em congressos de comunicação, anualmente em trabalhos de conclusão de curso de jornalismo ou quando há um novo trabalho dele.

É o que ocorre com o lançamento de "Notas sobre Gaza" (Quadrinhos na Cia., 420 págs., R$ 55), reportagem sobre o passado da relação tensa entre israelenses e palestinos.

Sacco, na obra, busca esclarecer um massacre de civis por tropas israelenses na década de 1950. O assunto se resumia, até então, a notas de rodapé nos livros de história.

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"Notas sobre Gaza" é seguramente um dos melhores do autor. Ele se enfronha na região da Faixa de Gaza de hoje para recuperar relatos dos fatos de ontem.

Mescla uma narrativa que transita entre o presente e o passado e que reproduz o estilo de reportar desenvolvido pelo desenhista, radicado nos Estados Unidos.

Para contornar a dificuldade de expor os fatos na linguagem dos quadrinhos, Sacco se torna um dos protagonistas da reportagem.

Os bastidores da apuração se confundem com a matéria em si. Intencional e assumidamente subjetivo, ele impregna a exposição com suas impressões e sentimentos.

                                                          ***

Esse processo de condução da reportagem aproxima o trabalho de alguns gêneros caros ao jornalismo. O mais evidente é a grande reportagem, no caso a narrada no suporte livro.

Outro é o chamado jornalismo gonzo, popularizado pelo norte-americano Hunter Thompson (1937-2005).

Thompson se envolvia a fundo com as fontes da história e contava os fatos da forma mais subjetiva e pessoal possível. Como faz o autor de "Notas sobre Gaza".

O uso da imagem, característica dos quadrinhos, aproxima o jornalismo de Sacco de algumas matérias de TV, em que o repórter se mostra tanto quanto a notícia em si.

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Híbrido de tudo isso, o jornalismo feito por Joe Sacco não deixa de ser inovador. Foi o primeiro a narrar um fato - em quadrinhos - ao longo de páginas e páginas de um livro.

Por estar umbilicalmente vinculado a esse modo de reportar, do qual é o principal representante, costuma-se atribuir a ele o pioneirismo da relação jornalismo e quadrinhos.

Trata-se de um dogma que, de tão reproduzido, adquire ares de fato. Não é. As charges, que para alguns constituem gêneros jornalísticos, já serviriam como contraponto.

A relação entre jornalismo e quadrinhos vem de muito longe. Pelo menos, desde o século 19. Inclusive no Brasil.

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Os jornais brasileiros ainda encontravam um rumo dois séculos atrás. Sabia-se que a caricatura funcionava bem. Delas para as charges foi um passo.

Mas limitar o diálogo entre os dois campos apenas às charges seria outro equívoco. Uma investigação aos jornais da época confirma isso.

Um recurso usado então era o de desenhar os fatos, como uma história em quadrinhos. Um dos que faziam isso era o ítalo-brasileiro Angelo Agostini (1843-1910).

Um exemplo foi quando reproduziu um acidente com um trem. O leitor podia ver, no(s) dia(s) seguinte(s), a cena por meio da representação visual do desenhista.

                                                        ***

Esse método de desenhar cenas persistiu no século 20 e foi (re)descoberto pela imprensa brasileiro nas últimas décadas.

Julgamentos famosos que proíbem a entrada de fotógrafos costumam ser reportados com a presença de um ilustrador do jornal na plateia, pondo no papel os momentos chave.

Casos de crimes ou acidentes também são narrados em quadrinhos.

Os jornais e revistas usaram o recurso à exaustão no crime da menina Isabella Nardoni, assassinada pelo pai e pela madrasta em março de 2008.

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Especialistas na área gráfica, inclusive de outros países, têm recomendado aos jornais o uso da linguagem dos quadrinhos para tornar os fatos mais acessíveis aos olhos do leitor.

Parte da imprensa brasileira tem se valido do recurso nos últimos anos. Sites noticiosos também. Isso, não custa reforçar, é fazer jornalismo em quadrinhos.

O que Joe Sacco faz é um jornalismo em quadrinhos, e não o jornalismo em quadrinhos. Mas ele guarda o mérito de ter popularizado o recurso e a forma de narrar em livro.

Trata-se de um reportar, assumidamente subjetivo. É um molde. Há outros, inclusive no Brasil. São fazeres do jornalismo. No plural mesmo, e não no singular.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h21
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