18.07.08

Filme é de Batman. Mas é o Coringa de Ledger quem rouba a cena

 

 

 

Há um fato difícil de ser contornado antes de assistir a "Batman - O Cavaleiro das Trevas", segundo longa-metragem da nova safra de filmes do homem-morcego.

Trata-se da morte prematura do ator Heath Ledger, intérprete do vilão Coringa.

Ledger foi encontrado morto num apartamento em Nova York em 22 de janeiro deste ano. Causa: uso abusivo e acidental de medicamentos. Estava com 28 anos.

A produção milionária -custou 180 milhões de dólares- ganhou um involuntário e mórbido interesse: ver a última atuação de Ledger.

E, de forma póstuma, o ator australiano não decepciona.

O Coringa criado por ele é o grande destaque do longa, que estreou nesta sexta-feira.

E por méritos próprios, não por um apelo sentimental causado por sua morte.

                                                             ***

A atuação do ator australiano é uma das versões mais assustadoras do palhaço do crime, como também é conhecido o vilão.

Ele conserva os traços de humor, imprevisibilidade e loucura, como sua persona dos quadrinhos, mas com um grau de violência acima da média.

Essa combinação, difícil de ser conjugada, torna-se o foco do telespectador nos 158 minutos de projeção do filme.

O fio narrativo é conduzido pelo herói, Batman, como deveria mesmo ser.

Mas a expectativa da platéia é pela próxima aparição do Coringa.

                                                            ***

Esta seqüência da revitalização da franquia -o primeiro longa é de 2005, também dirigido por Christopher Nolan- está vinculada aos movimentos de bastidor do crime organizado da fictícia cidade de Gotham City.

Um triunvirato formado por Batman (Christian Bale retorna ao papel), Gordon (na fase pré-comissário, como ficou conhecido) e o promotor público Harvey Dent se une para combater a máfia municipal.

A presença do Coringa desestabiliza a atuação tanto dos criminosos quanto do trio.

E influencia na transformação de Dent no vilão Duas-Caras (interpretado por Aaron Eckhart, bem no papel).

Com o surgimento dele, o filme ganha um novo fôlego, com novas situações e mais ação.

                                                            

 

A história do longa-metragem foi inspirada na minissérie "O Longo Dia das Bruxas", já lançada no Brasil pela Editora Abril em oito edições quinzenais, entre outubro de 1998 e fevereiro do ano seguinte.

A minissérie -escrita por Jeph Loeb e desenhada por Tim Sale- também mostra a união entre Batman, Gordon e Dent e o combate dos três ao crime organizado.

Mas continha uma trama de mistério, ignorada no filme. Era a dúvida em saber quem era o assassino serial Feriado, que matava vítimas ligadas à máfia nos feriados norte-americanos.

A trama nos quadrinhos se passa no intervalo de um ano, de um Dia das Bruxas a outro.

Nesse período, Batman enfrenta uma série de vilões de Gotham, também deixados de lado no longa.

À exceção de Duas-Caras, do Espantalho -numa rápida aparição no começo- e do Coringa, este em doses bem menores e com bem menos importância que no filme.

                                                             ***

A editora Panini estrategicamente relança nesta semana a minissérie, numa edição de luxo, em capa dura (R$ 95, 404 págs.).

A história em quadrinhos ainda é melhor que o filme.

Mas isso não significa que o longa -que bem fique claro- seja ruim. Pelo contrário. Agrada e supera o anterior, muito pautado na origem do herói.

E tem a derradeira atuação de Heath Ledger. 

Depois de sua encarnação do Coringa, não será lembrado apenas como o caubói gay de "Broke Back Mountain", papel que rendeu a ele indicação ao Oscar.

Teria uma carreira promissora.

                                                            ***

Quem pretende ver "Batman - O Cavaleiro das Trevas", prepare-se para enfrentar fila.

Na sessão das 18h desta sexta-feira, já havia sala cheia num shopping de São Paulo.

Na saída, por volta de 20h45, uma fila enorme.

Nos Estados Unidos, parece ocorrer o mesmo. Segundo noticia o UOL, a pré-estréia lá bateu recorde. Arrecadou 18,5 milhões de dólares antes da estréia oficial.

O recorde anterior era do terceiro Guerra nas Estrelas, com 16,9 milhões de dólares.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h26
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15.07.08

Cicca Dum-Dum: mistura eficiente de erotismo e bom-humor

 

 

 

 

 

 

 

 

Álbum, escrito pelo argentino Carlos Trillo e desenhado pelo espanhol Jordi Bernet, começa a ser vendido nesta semana

 

 

 

 

 

 

 

É difícil dar uma rotulação a "Cicca Dum-Dum- Desafiando Al Capone", álbum que começa a ser vendido nesta semana (Zarabatana, 68 págs., R$ 30).

Numa primeira passada de olhos, inclusive na protagonista, trata-se de uma obra erótica.

O fato de a editora ter incluído a publicação na "Coleção Mondo Fetish" ajuda a corroborar essa leitura.

A coleção da Zarabatana já tem dois outros álbuns eróticos: "Chiara Rosenberg" e "Clara da Noite" (leia mais aqui e aqui).

Mas a leitura das páginas dá outra impressão. Há, sim, erotismo explícito. Mas dosado com muito bom-humor. É esse lado cômico, na verdade, o grande destaque da obra.

                                                             ***

Cicca Dum-Dum era estrela de um clube noturno de Chicago, mesma cidade do poderoso gângster Al Capone (1897-1947).

Ela se envolve com um fotógrafo, que rouba muito dinheiro de Capone para dar uma vida luxuosa à amada. Jurados de morte, fogem para Nova York. Detalhe: sem o dinheiro. 

Na nova cidade, tentam refazer o caixa casando Cicca com um capanga de lá, que a vê como uma moça pura e virginal.

O que ela não sabe é que o apaixonado bandido é ligado a Capone.

                                                            ***

A confusão é divertida e, em meio a ela, são pautadas as situações mais inusitadas para Cicca mostrar seus "dotes" (e ela não tem o menor pudor disso).

Uma das cenas mais engraçadas é observar Zózimo, capanga do gângster que quer casar com a protagonista. Toda vez que tenta fazer sexo é interrompido bruscamente pelo chefe.

O resultado híbrido -e eficiente- de erotismo e comicidade é mérito do escritor argentino Carlos Trillo, um dos mais talentosos do país vizinho.

É algo já feito por ele, embora com tramas mais curtas, em "Clara da Noite".

Outro ponto que aproxima os dois álbuns é a presença do desenhista espanhol Jordi Bernet, que fez a arte das duas obras.

                                                            ***

A Zarabatana programa lançar o segundo álbum da voluptuosa personagem: "Cicca Dum-Dum 2: Belo e Querido México". A editora não tem ainda uma data de publicação.

Ao todo, Cicca Dum-Dum protagonizou cinco obras.

Se mantiverem a mesma qualidade de texto deste volume de estréia, também serão bem-vindas em território brasileiro.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h13
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03.07.08

Groo comemora aniversário de criação com discurso politizado

 

 

 

 

 

 

 

 

Edição especial marca jubileu de prata do atrapalhado personagem criado por Sergio Aragonés

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem acompanha de longa data as histórias de Groo, o Errante, sabe de antemão que uma das marcas do personagem é ser desastrado. Outra é a pura falta de inteligência.

As duas características levam naturalmente ao humor, outra marca das histórias do guerreiro, uma versão atrapalhada e caricata de Conan, o Bárbaro.

Apesar de tudo isso, o álbum que comemora o jubileu de prata do personagem traz nas entrelinhas um inesperado e atual discurso político.

                                                             ***

"Groo - 25 Anos de Desastres" (Mythos, 164 págs., R$ 34,90), que começou a ser vendido na virada do mês, traz histórias de duas obras inéditas no Brasil.

A primeira é de "Groo 25th Aniversary  Special", de agosto de 2007, ano em que o personagem efetivamente comemorou 25 anos de criação (a primeira aventura é de 1982).

Groo visita uma aldeia em que há uma epidemia de gripe. Os médicos indicam remédios paleativos aos pacientes. O atrapalhado herói vai em busca de uma cura e a encontra.

O problema é que o remédio, feita a partir de frutas silvestres, é dado apenas para quem tem mais posses. Os pobres continuam com a doença.

A crítica que fica nas entrelinhas é que há tratamento diferenciado no sistema médico dos Estados Unidos, onde a história foi produzida. Mas a cutucada vale para o Brasil também.

                                                             ***

A segunda aventura do álbum especial é de uma minissérie, "Groo: Hell on Earth". As quatro partes da aventura foram publicadas entre outubro de 2007 e abril deste ano.

Desta vez, a crítica é bem mais explícita. Ecologicamente explícita.

Um reino chamado Uslip -uma paródia dos Estados Unidos- é conhecido por construir armas em larga escala.  A produção gera poluentes, lançados na atmosfera e em países vizinhos.

A fumaça é o estopim de uma série de mal-entendidos -ajudados pela presença sempre desastrosa de Groo- que geram uma guerra entre os diferentes reinos.

Afinal, como é dito no álbum, nada como uma boa guerra para camuflar os reais problemas de uma nação (leia-se Guerra do Iraque).

Paralelamente ao conflito, tem início um movimento de buscar soluções por meio de uma conferência global, em que todas os reinos assinariam um protocolo (como o de Kyoto).

                                                             ***

É curioso observar as metáforas produzidas pelo desenhista Sergio Aragonés, criador do personagem, e Mark Evanier, fiel parceiro de Aragonés e escritor das histórias.

Mas elas estão presentes, mais ou menos evidentes, conforme o momento da trama.

Mas não escondem a real estrela, Groo, e suas tradicionais atrapalhadas em busca de novas pelejas.

                                                             ***

Os brasileiros conheceram o personagem há 19 anos. Ele estreou um especial da editora Abril em 1989. A história foi lançada na coleção "Graphic Novel".

Um ano depois, ganhou revista própria, publicada mensalmente. Teve 27 números. O último foi lançado em julho de 1992.

Após o cancelamento, Groo iniciou uma peregrinação editorial, tal qual ocorreu nos EUA. Passou pela extinta Pandora, migrou para Opera Graphica e aportou agora na Mythos.

Foi a Opera Graphica a editora que tinha publicado o último álbum do personagem no Brasil, "Groo Odisséia", lançado em junho do ano passado (leia mais aqui).

Escrito por PAULO RAMOS às 19h58
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30.06.08

Livros de bolso trazem tiras de personagens da Turma da Mônica

Em cada editora por onde passou (leia-se Abril e Globo), Mauricio de Sousa lançou livros de bolso com coletâneas de tiras de seus personagens.

O empresário e desenhista seguiu essa tradição na Panini, editora que publica a Turma da Mônica desde janeiro do ano passado.

A nova encarnação da coleção "As Melhores Tiras" traz cinco livros, todos produzidos em formato de bolso (ou "pocket", como se chama no mercado).

Mônica, Cebolinha, Chico Bento, Bidu e Penadinho protagonizam as obras (132 págs., R$ 9,90 cada uma).

Os livros começam a ser vendidos nesta semana.

Mas já podem ser encontradas em lojas especializadas em quadrinhos de São Paulo.

Há dois pontos de vista que devem ser destacados nessa nova safra de coletâneas: um é o mercadológico e outro, o conteúdo.

É sempre bem-vinda uma coletânea de tiras dos Estúdios Mauricio de Sousa.

Ele e sua equipe têm o mérito de criar uma das mais duradouras tiras nacionais.

No ano que vem, as criações de Mauricio de Sousa completam jubileu de ouro.

A primeira tira, de Bidu, é de 1959.

Foi publicada na "Folha da Manhã", hoje "Folha de S.Paulo".

Além do mérito histórico, que já justificaria uma coletânea, há que se reconhecer a qualidade das tiras, melhores que as produzidas atualmente.

Elas obedecem à estrutura clássica da tira: personagens fixos e uma piada no final.

Simples, diretas, bem-feitas.

As de Bidu, em especial, trabalham muito bem o elemento metalingüístico.

Os livros de bolso não dizem a data de publicação das tiras, o que seguramente enriqueceria o teor histórico das obras.

Há apenas uma pequena frase no canto esquerdo de cada uma das capas, registrando que se trata de "histórias clássicas publicadas em jornais".

A leitura mostra que não se trata das primeiras tiras, produzidas na primeira metade dos anos 1960.

O traço dos personagens é mais moderno.

Mas também não são as mais recentes. 

Chico Bento é um bom exemplo.

O personagem não fala de modo caipira, como ocorre hoje em suas tiras e histórias em quadrinhos (e alvo de críticas de professores mal-informados).

A fala dele, nas tiras do livro, é mais próxima da variante culta da língua.

No máximo, lêem-se termos como "carça", "que bão" ou "´fessora".

Mas todos devidamente marcados com aspas ou negritos.

O lado mercadológico das cinco obras é elas sugerem ser uma resposta à linha de "pockets" da L&PM.

A editora gaúcha também tem publicado coletâneas de tiras nacionais.

A Panini publica as obras no mesmo formato.

A leitura das tiras -duas por página e lidas de baixo para cima, com o livro virado- também é idêntica à das publicações da L&PM.

A multinacional Panini tem dado sinais claros de que quer disputar mercado em todas as frentes de venda de quadrinhos.

Já domina as bancas, com linhas infantis, de super-heróis e mangás.

Passou a investir em livrarias no começo ano passado.

Faltava o flanco dos "pockets", ainda dominados pela L&PM. Não falta mais.

Restam apenas as áreas de livros sobre quadrinhos e de produção de álbuns nacionais.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h08
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25.06.08

Local mostra histórias no interior dos Estados Unidos

 

 

 

 

 

 

 

 

Álbum começou a ser vendido neste mês e traz os seis primeiros capítulos da série

 

 

 

 

 

 

 

Quando se pensa num país, a tendência é que se ponham luzes nas principais cidades.

O escritor norte-americano Brian Wood ajusta a mira do holofote narrativo em outro ponto.

Ou melhor: outros pontos.

Ele ilumina as pequenas cidades dos Estados Unidos. E as histórias locais que elas podem proporcionar. Não é por acaso que chamou a série de "Local".

As primeiras seis histórias foram reunidas num álbum, "Local - Ponto de Partida", lançado este mês no Brasil (Devir, 200 págs., R$ 32).

                                                            ***

A série mostra a migração da jovem Megan McKeenan (mostrada na capa do álbum) por seis cidades dos Estados Unidos. 

O motivo da peregrinação é um problema de relacionamento, mostrado na primeira história, ambientada em Portland. Mochila nas costas, ela ruma a Minneapolis, sua segunda parada.

Encerra este primeiro álbum em Park Slope.

Em cada uma das paradas, enfrenta as dificuldades de uma nova vida. E tem um desses momentos relatados em cada uma das histórias. 

Megan funciona como uma espécie de guia turístico do leitor, o ponto focal dele na narrativa.

                                                            ***

Os dramas fictícios vividos por ela variam muito.

Há desde situações mais leves e românticas a momentos tensos, como quando é feita refém durante uma discussão entre dois irmãos (uma das melhores do álbum).

São relatos simples, uns mais interessantes, outros menos.

Mas todos narrativamente bem conduzidos por Brian Wood, mais conhecido do leitor brasileiro por ser o escritor da série "DMZ, publicada na revista "Pixel Magazine".

                                                             ***

O primeiro relato sobre Megan, em especial, traz uma curiosidade para quem aprecia o uso inovador da linguagem dos quadrinhos.

Para marcar um momento de tensão da protagonista, o desenhista Ryan Kelly dá um close em seu rosto num quadrinho.

No quadro seguinte, elimina todo o cenário de fundo, mantendo apenas a face de Megan, com a mesma expressão e posição.

Há uma explicação para isso. Mas cabe à história revelar a quem a lê.

                                                            ***

"Local", que teve mais seis histórias publicadas nos Estados Unidos, é potencialmente mais interessante ao leitor norte-americano do que ao brasileiro.

A descoberta do interior estadunidense dialoga melhor com vive no país.

Para nós, seria mais empático acompanhar uma peregrinação do Oiapoque, no Amapá, ao Chuí, no Rio Grande do Sul.

Mas isso não compromete a leitura, nem tira o mérito do roteiro de Brian Wood.

É um autor que começa a ter mais trabalhos publicados no Brasil. E a ser descoberto.

Como ocorre com as cidades do interior estadunidense que ele retrata em "Local". 

Escrito por PAULO RAMOS às 22h35
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23.06.08

O Cabeleira faz roteiro de cinema na forma de quadrinhos

 

 

 

 

 

 

 

Álbum nacional inspirado no romance de Franklin Távora foi lançado neste mês pela editora Desiderata

 

 

 

 

 

 

O fim do ano passado sinalizava para um maior investimento editorial em álbuns nacionais. Parte deles de adaptações literárias. Outra parcela em histórias inéditas.

"O Cabeleira", lançado neste mês (Desiderata, 136 págs., R$ 39,90) fica na fronteira entre essas duas tendências.

Não é só uma adaptação literária.

É um exercício de roteiro de cinema na forma de quadrinhos.

A história surgiu em razão de um laboratório de roteiro, promovido pelo Sesc.

Leandro Assis e Hiroshi Maeda inscreveram uma primeira versão de "O Cabeleira".

Publicitário e engenheiro, respectivamente, os dois tinham em comum o interesse pelo cinema.

O roteiro foi sabatinado e remoldado. O resultado final não foi filmado. Foi vertido para a linguagem dos quadrinhos, no álbum lançado pela Desiderata.

 

 

A versão de Leandro Assis e Hiroshi Maeda mostra a trajetória do personagem central em dois momentos, na fase adulta e na infância dele (como mostrado no desenho acima).

A base do roteiro foi o romance de Franklin Távora (19842-1888).

O escritor cearense foi o primeiro a relatar em letras as histórias orais do Cabeleira, uma espécie de Lampião que percorreu Pernambuco no século 18. O livro é de 1876.

É do primeiro capítulo da obra o dito "Fecha a porta, gente / O Cabeleira aí vem / Matando mulheres / Meninos também". 

José Gomes, nome do Cabeleira, fez fama por roubar e assustar os moradores da região. Nem igrejas e crianças poupava.

Nos saques e matanças, era acompanhado pelo pai, Joaquim Gomes, de quem herdou o tino pelo estilo de vida violento.

 

 

A "câmera" de Assis e Maeda foi o traço do carioca Allan Alex.

A escolha dele foi um dos acertos da editora Desiderata, que propôs o projeto aos dois.

O desenho de Alex soube captar os enquadramentos e, principalmente, os cortes cinematográficos da proposta original. E sem perder a necessária expressividade da obra.

Em vários momentos, cria-se a sensação de leitura de um storyboard, que serve de base para muitas filmagens cinematográficas.

É como se fosse um longa-metragem moldado em quadrinhos.

 

 

"O Cabeleira" é o segundo álbum nacional com histórias longas lançado pela Desiderata.

O primeiro -"A Boa Sorte de Solano Dominguez"- foi publicado em novembro do ano passado (mais aqui). O roteiro de Wander Antunes também se diferenciava nesse projeto.

Os dois trabalhos seguem a proposta da editora carioca de produzir álbuns nacionais.

Há pelo menos outros três em produção: "Mesmo Delivery", de Rafael Grampa, "Menina Infinito", de Fabio Lyra, e "Copacabana", de Odyr e de Sandro Lobo, editor de quadrinhos da Desiderata (leia mais aqui).

                                                           ***

Ver obras bem produzidas como "O Cabeleira" leva ao questionamento, ainda sem uma resposta definitiva, de por que as editoras brasileiras não investiram antes nesse filão.

Já há exemplos concretos de que desponta um grupo de roteiristas e desenhistas capaz de criar boas histórias, uma das críticas que existiam até então.

Faltou coragem?

Então, que se reconheça, de público, a meritória coragem editorial da Desiderata e de poucas outras -entre elas a HQM- que têm investido e desbravado essa área.

                                                           ***

Nota: A obra de Franklin Távora está em domínio público e pode ser lida na internet (aqui). 

Escrito por PAULO RAMOS às 21h54
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17.06.08

Relançada luta do Homem de Ferro contra o alcoolismo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Álbum, que já está à venda, mostra a fase em que o herói tem de superar dependência à bebida

 

 

 

 

 

 

 

A recente repercussão do Homem de Ferro no cinema pode ofuscar a trajetória do personagem nos quadrinhos. 

Justiça seja feita, o herói metálico não tem tantas histórias memoráveis quanto muitos de seus colegas de aventura.

Curiosamente, uma das sagas mais lembradas -meritoriamente- foge do padrão convencional das histórias do gênero.

O vilão são as garrafas de bebida alcoólica.

A luta do empresário Tony Stark, alter-ego do herói, é para superar a dependência.

É essa seqüência de histórias que começou a ser vendida neste mês ("Os Maiores Clássicos do Homem de Ferro", Panini, 172 págs., R$ 22,90).

                                                            ***

A bebida camufla uma série de fracasssos vividos ao mesmo tempo pelo empresário.

O controle acionário de sua firma corre o risco de escapar de suas mãos.

Vive um clima de idas e vindas com Beth, envolvimento sentimental dele na época (as histórias são de 1979 e saíram por aqui na década seguinte, na extinta revista "Heróis da TV", da editora Abril).

Para piorar, perde parte do controle sua armadura, o que o leva a demonstrar diferentes fragilidades nas brigas contra os vilões tradicionais (os de uniforme e com superpoderes).

                                                            ***

A trama sobre o (des)controle da armadura é interessante.

Mas é outro (des)controle, o da bebida, o âmago desta fase do herói, escrita por Bob Layton e David Michelinie e que tem a maior parte desenhada por John Romita Jr.

Romita Jr. -filho de John Romita, um dos veteranos dos quadrinhos norte-americanos- estava em início de carreira na editora Marvel Comics.

Hoje, mudou o estilo do traço e é uma das estrelas da companhia.

                                                            ***

Os quadrinhos de super-heróis costumam agregar valor quando dialogam com temas reais.

Foi o mesmo caminho, para ficar em um exemplo, que garantiu a reedição das histórias de Arqueiro e Lanterna Verde produzidas na primeira metade da década de 1970.

Na ocasião, o parceiro do Arqueiro, Ricardito, enfrentava dependência de drogas.

É claro que o motivo do lançamento destas nove histórias do Homem de Ferro é menos nobre e mais comercial. Pauta-se nos ecos da popularidade midiática provocada pelo filme.

Que seja esse o pretexto.

Das poucas boas fases do herói, é uma das melhores. Justifica a (re)leitura.

                                                            ***

A editora Panini lançou neste início de mês outra obra com o Homem de Ferro.

É um álbum de luxo com as primeiras histórias do herói, publicadas nos Estados Unidos na primeira metade da década de 1960. Custa R$ 49.

A publicação integra a coleção "Biblioteca Histórica Marvel", que se pauta em relançamentos de histórias clássicas dos super-heróis da Marvel.

Leia mais sobre o álbum aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 19h34
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13.06.08

Novo filme de Hulk prepara terreno para próximos longas da Marvel

 

O novo filme do Incrível Hulk tem uma sabor especial para a platéia brasileira.

As seqüências iniciais do longa-metragem, que estreou nesta sexta-feira nos cinemas, foram produzidas na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

É lá que o alter-ego do Hulk, Bruce Banner, tenta se esconder do exército norte americano.

As tropas do Tio Sam o caçam por julgarem que a experiência que o transforma no monstro verde pertencem ao governo dos Estados Unidos.

E é lá também que o Exército invade o morro e faz uma perseguição à la Tropa de Elite.  

Embora um olhar sobre este segundo filme do personagem passe obrigatoriamente pelo Brasil, a leitura da produção ficaria limitada se se restringisse apenas a isso.

Há pelo menos três outros pontos do filme que merecem registro.

O primeiro é o fato de ser bem diferente do primeiro longa, dirigido por Ang Lee. Há menos uso da linguagem dos quadrinhos e muito mais ação.

O resultado é um filme bem mais comercial e despretensioso, feito para agradar grandes platéias. E agrada. É melhor e mais ritmado que a produção anterior. 

 

 

O segundo ponto a ser destacado são as referências.

Há a tradicional ponta do criador do personagem, Stan Lee.

Com mais de 80 anos, ele participou de todas as adaptações recentes dos heróis da editora norte-americana Marvel Comics.

A Marvel publica, além de Hulk, personagens como Homem-Aranha, e X-Men.

Os mais atentos perceberão outras referências.

Lou Ferrigno, o Hulk do seriado de TV dos anos 1970, participa de uma cena. E Bill Bixby (1934-1993), o Bruce Banner da série televisiva, é homenageado logo no início.

É numa cena rápida. O Banner atual -interpretado por Edward Norton- assiste a Bixby no seriado "Meu Marciano Favorito", estrelado pelo ator na década de 1960.

A transformação de Banner no monstro também é inspirada na série. Tensão no rosto, olhos verdes e pronto: no feio Hulk virou (faço aqui outra referência).

 

 

O terceiro aspecto é que o filme de Hulk segue o mesmo caminho do de Homem-de-Ferro, ainda em cartaz. Usa na telona a chamada cronologia Marvel.

Como nos quadrinhos, o que ocorre numa história repercute em outra.

Em "Homem-de-Ferro", uma cena após os créditos mostrava um encontro entre Tony Stark, alter-ego do herói de metal, com Nick Fury, diretor da agência secreta SHIELD.

A pauta da conversa era a criação de um grupo de super-heróis.

Em "Hulk", é o próprio Stark, na pele de Robert Downey Jr., quem aparece para colocar mais um tijolo na construção do grupo, chamado nos quadrinhos de "Os Vingadores".

A equipe conta também com a presença do Capitão América e do Poderoso Thor, que devem ganhar um filme cada um nos próximos anos, pelo que se lê. 

É de se esperar que haja mais capítulos dessa interligação.

Nos quadrinhos, a tal da cronologia cria histórias sem fim, como se fossem novelas mantidas no ar por décadas.

No cinema, há uma vantagem. Dados os altos custos de cada um desses filmes, o leitor -ou melhor, a platéia- deve ver um desfecho para essa costura narrativa nos próximos anos.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h36
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09.06.08

Leões de Bagdá mostra outro olhar sobre a Guerra do Iraque

 

 

 

 

 

 

 

Álbum, vendido em bancas e lojas de quadrinhos, mostra bombardeio em Bagdá sob o olhar de quatro leões

 

 

 

 

 

 

 

 

Há diferentes modos de relatar uma mesma história. Depende muito do olhar de quem narra. Cada visão pessoal traz uma carga de subjetividade ricamente distinta.

É exatamente o olhar o que mais singulariza "Os Leões de Bagdá", álbum que começou a ser vendido na virada da semana (Panini, 140 págs., R$ 19,90).

O escritor Brian k. Vaughn ajusta o foco narrativo em quatro leões, que pensam e externam seu pensamento por meio da fala.

Um leitor desavisado pode imaginar que animais falantes aproximem a obra de uma espécie de Rei Leão em formato de quadrinhos.

E que, por isso mesmo, seja um trabalho mais "ingênuo", voltado a um público juvenil.

Não é. E que seja colocado um grifo nesse "não é".

Os animais viviam em um zoológico de Bagdá, no Iraque. Um bombardeio destrói o lugar e dá a eles a liberdade extra-muros. 

O que encontram é uma cidade destruída pela Guerra do Iraque, promovida pelos EUA.

Tal qual crianças, vêem em tudo uma novidade.

E, da novidade, enxergam-se a tragédia e o caos trazidos pelo conflito bélico.

O olhar dos leões revela mateforicamente que tudo é guerra, tudo é violência.

Todos, de uma forma ou de outra, tornam-se vítimas daquele conflito.

Vaughan -autor conhecido por trabalhos adultos da linha norte-americana Vertigo- afirma ter se baseado em uma história real.

Mas é no teor ficcional o ponto alto da história, cruel e cativante ao mesmo tempo, que coube ao desenhista Niko Henrichon dar vida.

"Os Leões de Bagdá" é daquelas obras que espantam o leitor distante dos quadrinhos.

Quando a descobre, substitui o desgastado rótulo -mas ainda presente- de "quadrinhos é coisa de criança" por uma reação de espanto.

Como isso pode ser quadrinhos?

Ele, o leitor, tenta encontrar rótulos socialmente aceitos para classificar o que leu.

"É literatura, não é quadrinhos". Ou: "trata-se de um livro".

Ocorreu esse fenômeno neste ano quando se descobriu que a animação "Persépolis", indicada ao Oscar, era, na verdade, uma biografia em quadrinhos.

"Os Leões de Bagdá" é muito mais do que aparenta.

É outro olhar sobre a guerra, mas metaforicamente cruel.

Faz por merecer cada espanto de leitores desavisados.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h37
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08.06.08

Novo álbum de Mortos-Vivos traz sucessão de reviravoltas

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do terceiro volume da série, que começou a ser vendido neste início de mês

 

 

 

 

 

 

 

 

Há um clima de "tudo será pior" no terceiro volume de "Os Mortos-Vivos", que começou a ser vendido neste início de mês em lojas de quadrinhos (HQM, 144 págs., 29,90).

A situação dos personagens da série norte-americana já não era das melhores.

Eles estão entre os que ainda permanecem sãos num mundo povoado por zumbis.

Mas neste "Os Mortos-Vivos - Segurança Atrás das Grades", uma sucessão de reviravoltas consegue deterior ainda mais a vida do grupo, liderado pelo ex-policial Rick Grimes.

O início deste terceiro álbum até inicia com um sopro de esperança.

O grupo de sobreviventes encontra um centro penitenciária, envolto por grades.

Ali pode estar a segurança contra os mortos-vivos (situação que intitula o álbum).

Mas a esperança inicial é logo substituída por uma cena nova pior que a outra.

E, quando o leitor percebe, já chegou ao fim do álbum. E quer ler logo o outro.

O ritmo da narrativa repete a ação vista no primeiro álbum, lançado no Brasil em 2006.

O mérito da fulidez da leitura -e das reviravoltas- é de Robert Kirkman, o criador da série.

A cada nova seqüência de histórias, ele parece mais seguro do que faz e íntimo do mundo inumano que criou, mostrado em cores preto e cinza.

Um termômetro disso pode ser medido pela aceitação da série.

Ganhou um dos prêmios Eagle, na Inglaterra. E um HQMix, aqui no Brasil. 

"Os Mortos-Vivos" sinalizam um retorno da HQM a um dos carros-chefes da editora, criada há dois anos pelos mantenedores do "HQManiacs", site especializado em quadrinhos.

O termo "retorno" se justifica porque é o segundo lançamento estrangeiro da HQM neste ano. O primeiro foi "Violent Cases", de Neil Gaiman, publicado em fevereiro (resenha aqui).

Todas as demais publicações eram nacionais, filão que a editora passou a investir (aqui).

É louvável o investimento em trabalhos nacionais, política que deveria ser seguida também por outras editoras.

Mas a qualidade de uma série como Mortos-Vivos também merece vaga nas prateleiras, tão carentes de lançamentos de terror.

Escrito por PAULO RAMOS às 16h10
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02.06.08

Fim de Death Note mantém clima de final inesperado

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do último número da série, que começa a ser vendido nas bancas nesta semana

 

 

 

 

 

 

 

 

Já temos no Brasil alguns anos de convivência com os mangás, nome como ficou conhecido o quadrinho japonês. 

Esse tempo de leitura ajudou a constatar que há no gênero, em particular no adulto, uma tendência à imprevisibilidade narrativa.

Os personagens -até então ilustres desconhecidos- cativam, como deve ocorrer. Mas não se sabe que fim eles terão.

No quadrinho de super-heróis, para ficar em um caso, o Super-Homem vai vencer o supervilão no fim da história. Você, leitor, sabe que isso vai acontecer. O que interessa é saber como.

No mangá, não. Há outro pacto narrativo entre autor e leitor.

Se a pessoa conseguir escapar das versões animadas e das informações que proliferam aqui e ali na internet, consegue realmente se surpreender com o desfecho da trama.

É essa sensação que teve quem acompanhou a série "Death Note", de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata. Há um clima real de querer saber como vai terminar a história. 

O décimo segundo e último número da série começa a ser vendido nas bancas nesta semana (JBC, R$ 10,90).

O que ajuda a aumentar a dose de imprevisibilidade é a forma como a história foi narrada.

A começar do protagonista, um jovem ambíguo, que é mais anti-herói do que herói propriamente dito.

Light Yagami -o personagem central- recebe um caderno de um ser chamado Shinigami.

Qualquer pessoa que tiver o nome escrito ali morre posteriormente.

Com o caderno, Light parte para uma cruzada para eliminar pessoas más e tornar o mundo um lugar utopicamente mais seguro.

Ele adota o título de Kira e passa a ser temido mundialmente.

Com o tempo, passa a integrar e liderar um grupo da polícia japonesa, especializado na captura de Kira. A função ajuda a despistar sua atuação mortal.

Os anos passam e ninguém o detém. O mais perto disso é um jovem chamado Near. Super-dotado, trava jogos de lógica com Kira. Este despista. Near desvenda.

Este último número do mangá traz o clímax dessa disputa pautada na estratégia.

Ambos marcam um encontro definitivo, cara a cara, para dar um fim a Kira. 

Near defende que Light Yagami é o assassino serial. Yagami nega.

Aos olhos do leitor, a situação é tão imprevisível que não se sabe, de antemão, se o desfecho vai valorizar os planos do protagonista ou se vai prevalecer o princípio da justiça.

É uma sensação que se tinha muito na fase pré-internet, seja no cinema, na literatura, nos seriados de televisão, nos quadrinhos.

Quem acompanhou os 12 números de "Death Note" e driblou o que as animações e o mundo virtual antecipam sabe exatamente a qual sensação me refiro.

Essa parece ser uma das grandes qualidades dos mangás.  

Escrito por PAULO RAMOS às 17h55
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01.06.08

Novo trabalho da autora de Persépolis mostra calvário familiar

 

 

 

 

 

 

 

 

"Frango com Ameixas" relata história real do tio-avô da autora, músico que decide deixar de viver

 

 

 

 

 

 

 

Não é exato dizer que "Frango com Ameixas" seja uma biografia.

A apuração biográfica exige precisão na exposição dos detalhes retratados.

Não há essa exatidão no novo trabalho da iraniana Marjane Satrapi, obra que começou a ser vendida nas livrarias na segunda metade de maio (Cia. das Letras, 88 págs., R$ 32).

Percebe-se isso pela forma como a autora de "Persépolis" (informação que um adesivo na capa faz questão de evidenciar) mostra o calvário real vivido por um tio-avó, o músico Nasser Ali Khan, em 1958.

Nasser Ali decide deixar de viver. Tranca-se no quarto e lá fica até morrer, oito dias depois.

Nesse período, não come nada. Nem mesmo seu prato preferido, frango com ameixas, feito pela esposa, Nahid (cardápio que dá nome à obra).

Aceita conversar com os irmãos e com os filhos. Mas ninguém o demove da idéia suicida.

Marjane Satrapi -que faz uma "ponta" na história- mostra no livro os momentos finais do tio-avó. Cada dia é mostrado num capítulo.

Aos poucos, descobre-se que o desgosto pela vida se dá após a esposa ter quebrado seu tar, instrumento musical semelhante a um violão e que era tocado diariamente por Ali.

Mas a inutilização do tar, na verdade, esconde outras mágoas, mais profundas, relevadas somente no fim de seu calvário pessoal.

A autora se baseia no relato familiar e dá a ele um toque biográfico. Mas romanceado.

Como Satrapi poderia saber, por exemplo, o que pensava o tio-avô, sozinho num quarto, como ela mostra na obra? Simples: não saberia.

Mas o tom romanceado e, por isso, ficcional, não tira o tempero da história.

O lado literário ajuda a dar sabor à leitura do singular drama real.

E a receita final deste "Frango com Ameixas" tem tudo para satisfazer o paladar apurado dos fregueses. Em especial do seleto grupo que ainda acha que quadrinhos só são vendidos em restaurantes infantis.  

Escrito por PAULO RAMOS às 19h48
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31.05.08

Álbum traz olhar nacional sobre casas mal-assombradas

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "A Casa ao Lado", álbum de Diogo Cesar e Pablo Meyer, que começou a ser vendido neste mês

 

 

 

 

 

 

 

Desde o segundo semestre do ano passado, percebe-se uma inclinação do mercado editorial brasileiro para a produção de álbuns nacionais com histórias longas.

Por isso, não deveria surpreender uma obra como "A Casa ao Lado", que começou a ser vendida neste mês em lojas especializadas em quadrinhos (HQM, 60 págs., R$ 14,90).

Mas o álbum, curiosamente, surpreende. Duplamente.

Primeiro porque foi publicado pela HQM.

A editora, até o fim do ano passado, investia exclusivamente em títulos norte-americanos.

Neste ano, inverteu a prioridade e passou a lançar várias publicações nacionais inéditas.

As obras são voltadas tanto para o público infantil (caso de Senninha) quanto para o leitor adulto (Leão Negro, para ficar em um exemplo).

A outra surpresa é o álbum em si, que traz uma história de terror.

O gênero, que já foi popular no Brasil, tem poucas produções nacionais hoje em dia.

A trama mostra a busca de Jorge, um desempregado de meia idade.

Ele tem de encontrar o filho, desaparecido na casa vizinha à sua.

E, para achar o adolescente, tem de enfrentar as assustadoras figuras que habitam a misteriosa e esfumaçada residência.

Ter uma mansão mal-assombrada como temática de fundo não deixa de ser um clichê da literatura e do cinema de terrror.

Mas Diogo Cesar e Pablo Mayer, autores do álbum, conseguem dar um verniz nacional ao tema. Principalmente na caracterização do protagonista e no desfecho, surreal e imprevisível.

Do ponto de vista do leitor, a obra agrada.

Sob o olhar do mercado de quadrinhos, álbuns assim, mais longos e bem escritos, só ajudam a firmar a produção nacional e a dar a ela a necessária qualidade.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h42
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18.05.08

Luluzinha consolida nova carreira editorial no Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

Coleção com primeiras histórias da personagem chega ao sexto volume, lançado neste mês

 

 

 

 

 

 

 

Luluzinha ganhou uma nova chance no Brasil em 2006, quando foi publicado o primeiro álbum com histórias clássicas da personagem.

O formato maior e o preço, na faixa dos R$ 20, serviam de convite a um público adulto.

A aposta, vê-se hoje com mais precisão, funcionou. E já forma uma coleção.

Começou a ser vendido neste mês o sexto álbum da coleção, publicada em preto-e-branco.

"Luluzinha – Uma Dupla do Barulho" (Devir, R$ 23, 104 págs.), a exemplo das edições anteriores, traz as primeiras travessuras feitas por ela e pelo amigo Bolinha.

As nove histórias curtas do álbum foram publicadas nos Estados Unidos na revista "Four Color", entre maio e agosto de 1947.

Todas trazem a marca registrada da série: a ingenuidade nas situações vividas por Lulu e Bolinha. A graça vem exatamente daí.

Ter seis números –e outros programados- dá à personagem uma espécie de segunda chance no país.

Por décadas, Luluzinha fez parte do universo infantil de muitos adultos de hoje.

Ela começou a ser publicada no Brasil na década de 1950 pela editora da extinta revista "Cruzeiro". A personagem migrou depois da para a Abril. A revista durou até os anos 1990.

Nos Estados Unidos, ocorreu processo semelhante.

Luluzinha foi criada em 1935 por Marjorie Henderson Bell, autora que costumava assinar os trabalhos apenas como Marge.

Mas foi na metade da década seguinte que a personagem se firmou. E com outro autor.

John Stanley –autor das histórias deste sexto álbum- ficou encarregado da produção das histórias em quadrinhos para a revista de Luluzinha.

Foi ele –e não Marge- que ajudou na popularização da menina de vestido vermelho.

A publicação durou até 1984.

Voltou a ser editada anos depois, na forma de álbum, pela editora Dark Horse.

É esse o material que a Devir usa no Brasil.

O escritor de quadrinhos Harvey Pekar diz, na contracapa da obra, que Luluzinha "é um dos personagens mais subestimados da história".

A popularidade dela, muitas vezes guardada apenas na memória, contradiz essa frase.

A longevidade desta nova versão editorial da personagem, tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil, também sugere o contrário.

Luluzinha é popular. E continua sendo, principalmente depois de reencontrar seu verdadeiro público: o adulto de hoje, que esconde a criança leitora de quadrinhos de ontem.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h07
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16.05.08

Panini lança (de verdade) Tiras Clássicas da Turma da Mônica

 

 

 

 

 

Segundo volume da coleção tinha sido anunciado em abril, mas foi publicado no início deste mês

 

 

 

 

 

Dois meses depois de veicular em uma de suas revistas que o segundo volume de "As Tiras Clássicas da Turma da Mônica" "já está à venda", a Panini finalmente lança a obra (132 págs., R$ 19,80).

Entre o anúncio –noticiado por este blog em 8 de março (link)- e a efetiva publicação, não houve por parte da editora uma nota explicando ao leitor o motivo do atraso.

Nem por que divulgou que a obra estava à venda quando, de fato, não estava.

O álbum –que traz nos créditos finais data de fevereiro- compila tiras da Turma da Mônica publicadas na metade da década de 1960.

Apesar de Mônica intitular a edição, ela ainda não era, na época, a grande estrela dos personagens criados por Mauricio de Sousa.

A maior parte das tiras era centrada em Cebolinha.

É exatamente essa a curiosidade e a importância da obra.

É ver como se moldaram as criações de Mauricio de Sousa ao longo dos anos.

A leitura em seqüência sugere uma evolução, hoje percebida graças ao distanciamento histórico.

As figuras mais populares, como Cebolinha, Cascão e Mônica, já tinham conquistado espaço.

A diversão é ver como começaram a ganhar, tira após tira, uma forma mais próxima à como são desenhados hoje.

Outros personagens, coadjuvantes à época, ficaram restritos aos registros de então.

Depois, foram abandonados ou tiveram participações esporádicas aqui e ali.

Desde aquela época, o desenhista e empresário parecia tatear novas criações a cada tira.

A edição é histórica, não no sentido de ser apenas um produto voltado ao colecionador.

É histórica no sentido lato do termo.

Mostra como se deu a construção dos personagens que Mauricio de Sousa soube tornar populares nos anos seguintes, num mercado difícil de ser trilhado.

Essa experiência constitui um capítulo obrigatório na trajetória do quadrinho brasileiro.

O senão –e é de lamentar que exista esse senão- é o atraso no lançamento, anunciado e estampado numa das revistas há dois meses, mas não cumprido.

O mesmo problema já tinha ocorrido com o primeiro volume, também lançado com atraso no segundo semestre do ano passado.

Foi um erro não corrigido pela equipe. E que se configurou num segundo erro.

As falhas acabam por tirar as luzes da qualidade da obra e da importância dela, características que deveriam ser o único tema a ocupar as letras desta resenha.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h24
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22.04.08

Metrópoles faz um passeio pela cidade grande na forma de contos

 

 

 

 

 

 

 

 

Álbum de Leonardo Santana e Maurício Fig traz cinco histórias curtas sobre a vida nos grandes centros urbanos

 

 

 

 

 

 

Há quem defenda -até com uma dose de razão- que para o quadrinho nacional se firmar de vez é necessário aliar os lançamentos a textos de qualidade.

Leonardo Santana, pelo menos, cumpre essa meta em "Metrópoles", obra que começou a ser vendida nas últimas semanas (Marca de Fantasia, R$ 8, 40 págs.).

O álbum traz cinco contos curtos tendo temas ligados à vida nas grandes metrópoles.

Há o lado ruim das cidades grandes, como os assaltos e a questão dos menores nas ruas.

Mas há também o lado bom. Uma possível paixão, em um dos contos, e um encontro com a Felicidade, em outro.

Felicidade -com "f" maiúsculo mesmo- é um ser, assim como a Morte é na série "Sandman", de Neil Gaiman.

Essa história, diz Santana numa nota de rodapé, foi para atender a uma sugestão da esposa, que pedia a ele para escrever "algo mais leve".

"Cláudia Encontra a Felicidade", nome do conto, é um dos destaques do álbum.

Outro é a inovadora "O Suicídio". Inovadora porque é narrada de trás para frente.

A primeira página é o fim da história. As seguintes mostram retroativamente o que ocorreu para que uma mulher caísse da janela de um apartamento.

Teria sido jogada? Como as pessoas na rua e os vizinhos reagiram a isso?

Por uma daquelas coincidências inexplicáveis da vida, o conto traz inevitáveis semelhanças -embora em menor proporção- com o circo midiático em torno do caso Isabella Nardoni, a menina de cinco anos, assassinada em São Paulo.

Os desenhos dos cinco contos urbanos são de Maurício Fig.

"Metrópoles" só é vendida por meio do site da editora Marca de Fantasia (link).

O recifense Leonardo Santana tem conquistado nos últimos anos alguns prêmios ligados à produção independente.

No começo do ano, ele lançou a revista independente "FDP - Se Não Morrer Ninguèm, Não É Notícia". Leia resenha neste link.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h42
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20.04.08

Mês tem overdose de bons lançamentos estrangeiros

 

 

 

 

 

 

 

Álbum em homenagem a Albert Uderzo, um dos criadores de Asterix, é um dos destaques do mês

 

 

 

 

 

 

 

Há uma overdose de bons lançamentos estrangeiros neste mês.

Alguns já foram resenhados ou noticiados neste blog ao longo das últimas semanas.

Outros merecem registro, mesmo que rápido.

                                                            ***

"Asterix e Seus Amigos – Uma Homenagem a Albert Uderzo" (Record, R$ 25, 64 págs.), como o título já antecipa, celebra os 80 anos de vida de Uderzo.

Ele criou o personagem em 1959. Uderzo fazia os desenhos. René Goscinny, os textos.

Com a morte de Goscinny, Uderzo assumiu todo o processo de criação dos álbuns, sem o mesmo talento do parceiro.

Este álbum-homenagem consegue trazer algo de novo, há muito não visto na série francesa.

Um grupo de 34 escritores e desenhistas se reúne para criar microcontos sobre Asterix.

Os mais conhecidos dos brasileiros são o canadense Stuart Immonen (que desenhou histórias para a Marvel e DC), David Lloyd (da minissérie "V de Vingança") e o italiano Milo Manara (que, como de costume, insere uma beldade na história).

O resultado é estilisticamente interessante, ora mais próximo ao traço de Uderzo, ora menos.

Merecem menção os encontros de Asterix com personagens clássicos dos quadrinhos, como Lucky Luke e Pato Donald.

                                                             ***

"Bone – Pedras de Oração" (Via Lettera, R$ 26,90, 72 págs.) é o décimo terceiro álbum da série lançado no Brasil.

Este novo volume traz mais três capítulos da história, escrita e desenhada pelo norte-americano Jeff Smith.

Bone, seus primos e Espinho –os protagonistas da trama- têm de enfrentar uma trilha misteriosa, rodeada por "círculos fantasmas".

Os círculos são uma espécie de portal para outro plano da realidade.

A marca da série é ser conduzida de uma forma que agrada tanto adultos quanto jovens.

O senão é que é recuperar todos os elementos dos álbuns anteriores requer releitura ou uma boa dose de memória.

Há um resumo numa das páginas iniciais.

Mas não é suficiente para introduzir o tema aos novos e antigos leitores.

Mesmo assim, merece investimento. É um dos clássicos contemporâneos dos quadrinhos.

A Via Lettera pretende lançar outros encadernados da série ainda este ano.

"Revelações" (Devir, R$ 42, 162 págs.) traz uma trama de mistério escrita por Paul Jenkins e desenhada por Humberto Ramos.

A dupla já havia trabalhado junta em histórias de super-heróis, como as do Homem-Aranha.

Mas a incursão dos dois por outro tema –um assassinato no Vaticano- não deixa de ser uma dupla surpresa.

Primeiro porque ambos conseguem conduzir uma trama simples, mas bem narrada, que deixa vontade de saber quem é o assassino.

Segundo porque, fora do universo dos super-heróis, dão um eficiente ar realista à história.

Os desenhos de Humberto Ramos são um destaque à parte.

Mesmo com estilo caricato, casam com a proposta séria da obra, como visto acima.

                                                            ***

"Planetary/Authority – Dominando o Mundo" (Pixel, R$ 11,90, 48 págs.) fecha o terceiro e último encontro do Planetary com outros personagens.

Nas duas edições anteriores, já lançadas pela Pixel, o grupo interagiu com Batman (o melhor dos três álbuns) e com a Liga da Justiça.

Neste encontro, os membros do Planetary tem de invadir a nave sede do Authority, uma força global de proteção da Terra.

O texto é de Warren Ellis, que escreve a série Planetary e já trabalhou também com Authority. Os desenhos são de Phil Jimenez.

É obra para quem gosta do estilo das duas séries.

O cartão de visitas de "Jornada ao Oeste – O Nascimento do Rei dos Macacos" (Conrad, R$ 42,90, 468 págs.) é o fato de o livro narrar o surgimento da lenda que inspirou Son Goku, protagonista do mangá Dragon Ball.

Mas ler a obra com esse olhar não é algo que faça jus a seu conteúdo.

Um conjunto de artistas adapta para os quadrinhos a trajetória do rei Sun Wukong, macaco que parte de sua aldeia em busca da imortalidade.

Retorna sábio, com conhecimentos marciais, e se envolve em uma série de outras desventuras pertencentes ao folclore chinês.

Ler o livro é ter acesso um lado cultural rico e desconhecido no Brasil.

É muito, muito mais do que um paralelo com Son Goku.

Sugestão: inicie a leitura pela boa introdução de Rogério de Campos, dono da Conrad.

Dá um bom panorama do tema e da lenda que envolve a obra.

                                                            ***

"Vida Louca" (Conrad, R$ 34,90, 184 págs.) é mais uma das raras histórias espanholas a furar o bloqueio da alfândega editorial brasileira.

O álbum de Jaime Martín narra a trajetória de Vicen, um jovem que mora na periferia pobre de Barcelona com a mãe e a irmã.

Para sobreviver, tem de se enquadrar com a vida em gangues, ora nas ruas, ora na escola, ora na cadeia.

Trata-se, na verdade, de uma história de sobrevivência na Espanha dos anos 80.

                                                           ***

Há um quê diferente no mangá "Seton – Um Naturalista Viajante" (Panini, R$ 15,90, 292 págs.). O diferencial é que se trata de uma história real.

Este primeiro volume –de um total de três- se baseia em um dos livros de Ernest Thompson Seton, tido com um dos pioneiros da exploração da vida selvagem.

Ele narra o encontro com um lobo na vila de Currupaw.

O animal era o líder de uma alcatéia, que nenhum dos moradores conseguia eliminar, dada a astúcia do bicho.

O interessante é acompanhar o jogo de astúcia do animal para fugir das armadilhas criadas por Seton para pegá-lo.

A história foi adaptada por Jiro Taniguchi –que já traduziu obra de Seton- e desenhada por Yoshiharu Imaizumi.

Segundo a Panini, a série será bimestral.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h06
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Super-Herói - O Filme: dá para rir, mas não espere muito

 

 

Longa, que estreou neste fim de semana, faz paródia de filmes de super-heróis

 

 

 

Uma análise fria e honesta obriga a dizer que "Super-Herói – O Filme", que estreou neste fim de semana nos cinemas, não é daquelas produções das quais se pode esperar muita coisa.

Dá para rir um pouco. Mas é mais um filme menor do gênero besteirol, que teve longas bem melhores, como os da série "Corra Que a Polícia Vem Aí", estrelados por Leslie Nielsen.

Nielsen participa desta nova sátira, como o tio do protagonista. Mas é mal aproveitado.

"Super-Herói – O Filme" é uma sátira às adaptações de quadrinhos feitas para o cinema.

O ponto central da história são os longas do Homem-Aranha (há até tentativa de beijo de ponta-cabeça embaixo da chuva).

O jovem estudante Rick Riker –paródia de Peter Parker, identidade secreta do Aranha- é picado por uma libélula.

O acidente dá a ele poderes especiais, como subir pelas paredes e ter pele invulnerável.

Decide, então, tornar-se o super-herói Libélula.

A trajetória dele é semelhante à do Homem-Aranha, mas é permeada por encontros com versões de integrantes dos X-Men (um divertido Professor X interpretado por Tracy Morgan) e do Quarteto Fantástico.

Há também elementos do seriado Smallville e de Batman (os pais de Libélula foram assassinados quando criança, tal como ocorreu com os de Bruce Wayne, alter-ego do homem-morcego).

Para o apreciador de quadrinhos, a busca pelas referências é um interesse à parte, que pode até agradar os mais fanáticos.

E, como dito, dá para rir um pouco. Mas não espere muito mais.

Para quem arriscar, uma dica: espere o fim dos créditos. Há uma seqüência de extras.

Crédito da imagem: divulgação.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h14
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18.04.08

Pequenos Guardiões: obra para jovens que pode agradar adultos

 

 

 

 

 

Capa do primeiro volume da série, escrita e desenhada pelo norte-americano David Petersen

 

 

 

 

 

Há um seleto grupo de histórias em quadrinhos que consegue agradar tanto adultos quanto crianças. Bone, Pogo, a lista é longa.

"Os Pequenos Guardiões", que começou a ser vendido neste mês (Conrad, R$ 12, 28 págs.), é um caso assim.

A série traz uma história simples e misteriosa, mesclada com atos de heroismo e protagonizada por ratos num ambiente medieval.

Ter animais à frente da trama é o que facilita o apelo aos mais jovens, real público da série.

Mas é uma historinha descompromissada e rápida de ser lida, que pode atrair os adultos.

Um grupo de ratos -com capa e espada- pertence a uma entidade chamada Guarda.

É uma espécie de milícia que defende os demais ratos da ação de predadores.

No primeiro volume, chamado "Na Barriga do Monstro", os integrantes da Guarda enfrentam uma serpente para encontrar um desaparecido.

No volume seguinte, intitulado "Nas Sombras" e também à venda, o vilão é um caranguejo.

De um número para o outro, vai sendo construído um mistério sobre as investigações do desaparecimento e sobre a presença de um traidor dentro da entidade.

O norte-americano David Petersen, escritor e desenhista da série, conseguiu um resultado raro com seus pequenos ratinhos.

Ele mira o jato d´água no público infanto-juvenil.

Mas o jorro respinga nos adultos também. E tem a proeza de molhar ambos.

Foi o que garantiu a repercussão que teve nos Estados Unidos, onde foi publicada em 2007.

A Conrad anunciou mais quatro volumes da série.

Escrito por PAULO RAMOS às 19h57
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06.04.08

Contos de Kafka são recriados na linguagem dos quadrinhos

 

 

 

 

 

 

 

 

Álbum de Peter Kuper, da editora Conrad, adapta nove contos do escritor tcheco

 

 

 

 

 

 

 

Não houve apenas um trabalho de adaptação de contos em "Desista! E Outras Histórias de Franz Kafka". (Conrad, R$ 22, 64 págs.). Ocorreu também um processo de transcriação das narrativas surreais do escritor tcheco.

O norte-americano Peter Kuper, autor da adaptação, traduziu em imagens o tom absurdo das situações criadas por Kafka (1883-1924).

Trata-se, evidentemente, de uma leitura pessoal dele mostrada na forma de imagens. 

No conto "Desista!", destacado no título e na capa do álbum, um homem atrasado pergunta a um policial "qual é o caminho". Acuado, ouve um sonoro "desista!" como resposta.

O atraso do homem é caracterizado com um relógio num dos olhos. A atitude agressiva do policial é simbolizada com um cano de revólver no lugar do nariz.

É esse o tom das nove histórias da obra, ora mais acentuado, ora menos. Imagem e texto procuram se harmonizar por meio dos toques surreais.

O resultado é um incômodo, muitas vezes acentuado pela crítica à condição humana.

Talvez o caso mais contundente desse desconforto seja "Um Artista da Fome", o mais longo do álbum (dez páginas).

Um jejuador profissional, que se apresenta em público, começa a perder o interesse da platéia. Tenta se apresentar num circo, mas a cena se repete.

Como de costume numa obra kafkiana, a situação em si dá margem a mais de uma leitura. Mas qualquer interpretação esbarra num certo desconforto.

Os nove contos do álbum –escritos por Kafka nas duas primeiras décadas do século 20- não são o primeiro passeio de Kuper pelo mundo kafkiano.

Ele adaptou também "A Metamorfose", trabalho feito após "Desista!".

A versão dele para o romance foi lançada pela Conrad em 2004.

Foi um bom negócio para a editora. A obra foi incluída no PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola), do governo federal.

O programa compra obras literárias e em quadrinhos e as distribui a escolas do ensino fundamental. Resultado: a obra esgotou.

"Desista!", assim como outras adaptações literárias que vêm sendo produzidas, tem tudo para seguir o mesmo caminho. Melhor garantir antes que o governo a descubra.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h12
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04.04.08

Leão Negro: produção nacional com cara de álbum europeu

 

 

 

 

 

 

 

Álbum da editora HQM traz história inédita da série, criada por Cynthia Carvalho e Ofeliano de Almeida

 

 

 

 

 

 

Há um ar europeu na série Leão Negro. Se o leitor não soubesse que a série foi criada pelos brasileiros Cynthia Carvalho e Ofeliano de Almeida, dificilmente diria que a obra foi produzida aqui. 

Isso não desmerece de modo algum os roteiros nacionais. É que é difícil encontrar uma história adulta brasileira em que os protagonistas sejam animais, convivendo numa fictícia e selvagem Idade Média.
 
O personagem principal é Othan, o Leão Negro, uma espécie de Conan, o Bárbaro em forma leonina. Na faixa dos 50 anos, é altruísta, bruto, mulherengo, chulo. Tem casos e filhos espalhados por aí.
 
Um dos filhos -ou filhotes, como se diz na obra- é o foco deste número de estréia.
 
Pepah é fruto de um relacionamento dele com uma pantera negra (os diferentes bichos são uma clara metáfora da segregação racial, só que na forma de animais).
 
Othan deixa a filha bastarda de lado por anos. O reencontro se dá anos depois.
 
Do pai, ela herdou o temperamento e quer dele aprovação. Mas é para Kasdhan -outro filho de Othan e meio-irmão de Pepah- que o coração dela imediatamente bate mais forte.
 
É desse esquisito triângulo familiar -com toques edipianos- que se molda a história do álbum, lançado no início do mês passado (HQM, R$ 19,90, 56 págs.).
 
A história, escrita por Cynthia Carvalho e desenhada por André Mendes e Danusko Campos, é inédita. Mas a série toda soa nova aos olhos do leitor.
 
São poucos os que lembram que o personagem foi publicado no jornal carioca "O Globo" em 1987. Essas primeiras histórias serão relançadas pela HQM num outro álbum, intitulado "Leão Negro - Série Origens".
 
Também nem todos sabem que a série já foi lançada na Europa pela editora Meriberica (o que justificaria ainda mais o verniz europeu da obra).
 
O site dedicado à série anuncia mais dois álbuns inéditos e cinco da coleção clássica.
 
Faz parte da guinada editorial da HQM, que, neste ano, investe acentuadamente em quadrinho nacional. Até então, os lançamentos eram norte-americanos (que não foram abandonados; um terceiro volume de "Mortos-Vivos" foi confirmado).
 
Além de Leão Negro, a editora lançou neste ano "Quadrinhofilia", do curitibano José Aguiar (leia aqui), e trouxe de volta Senninha às bancas (aqui).

Escrito por PAULO RAMOS às 20h09
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03.04.08

Insanidade: misteriosa história sobre a loucura

 

 

 

 

 

 

 

 

Narrativa toma todo o sexto número da revista independente "Quadrinhópole", que tem lançamento nesta sexta em Curitiba

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O que você faria se sua família o internasse num hospital psiquiátrico?
 
Detalhe: sem informar o motivo.
 
"Insanidade" parte dessa premissa. A história toma todo o sexto número da revista "Quadrinhópole", produção independente curitibana que tem lançamento nesta sexta-feira.
 
A narrativa, escrita por Juliano DFS e Leonardo Melo, mostra o drama do jovem Leonard Nicholson, que se vê exatamente na situação descrita acima.
 
(Perguntar não ofende: se a história é nacional, por que os personagens recebem nomes ingleses, como nos quadrinhos da editora italiana Sergio Bonelli?)
 
A cada capítulo, o desespero dele aumenta um pouco mais.
 
Dele e do leitor, fisgado em saber o desfecho da trama.
 
Essa mudança de tom a cada nova etapa é acentuada pela mudança de desenhistas.
 
Cada capítulo -são quatro ao todo- é feito por um artista diferente.
 
Parece até algo previamente imaginado. Não é. A alternância de desenhistas surgiu no meio do caminho, para contornar um problema de prazo.
 
Issac Santos, o primeiro a atuar na trama, não conseguiu finalizar a trama, segundo Leonardo Melo explica na contracapa da revista.
 
A solução, diz, foi ir à cata de outros nomes: Henrique Assale, Lipe Dias e Ângelo Ron.
 
O contratempo adiou o desfecho da história. A primeira parte já havia sido publicada no segundo número de "Quadrinhópole", lançada em dezembro de 2006.
 
"Insanidade" poderia se destacar por méritos próprios. Mas a trama ganhou um empurrãozinho a mais ao ser adaptada em um curta-metragem, em processo de finalização.
 
A versão filmada talvez revele algumas semelhanças com o cinema diluídas -mas presentes- nas páginas dos quadrinhos.
 
Revelar com quais longas-metragens "Insanidade" dialoga é tentador, mas pode estragar alguma surpresa. Por isso, deixo a tarefa a cargo do leitor.
 
Mas são apenas semelhanças. A história caminha com pernas próprias.
 
E faz por merecer destaque.
 
Em tempo: a capa da edição é de Julio Shimamoto, um dos nomes mais antigos e respeitados do quadrinho nacional. A revista traz, além da história, uma entrevista com ele.
 
Serviço
Lançamento de "Quadrinhópole 6". Quando: sexta-feira (04.04). Horário: a partir das 19h. Onde: Itiban, em Curitiba, Paraná. Endereço: rua Silva Jardim, 845. Quanto: R$ 3 (no evento, vai haver também o segundo lançamento da revista "Tipos 5").   

Escrito por PAULO RAMOS às 20h55
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27.03.08

Níquel Náusea divide posto de protagonista em novo álbum de tiras

 

 

 

 

 

 

 

"Níquel Náusea - Minha Mulher É uma Galinha", nova coletânea de tiras, traz histórias já publicadas no jornal "Folha de S.Paulo"

 

 

 

 

 

Níquel Náusea pode dar o nome da tira cômica criada por Fernando Gonsales. Mas o rato de esgoto não é mais o único protagonista da série.

Isso já não é muita novidade para quem acompanha as piadas diariamente no jornal "Folha de S.Paulo", que publica as histórias desde 1985.

Mas fica bem mais claro durante a leitura de "Níquel Náusea - Minha Mulher É uma Galinha", nova coletânea de tiras publicadas na Folha (Devir, R$ 26, 48 págs.).

O álbum -o sétimo publicado pela Devir- tem lançamento hoje à noite em São Paulo.

Das 230 tiras da obra, Níquel Náusea aparece em 37. Cerca de 16%.

Os outros personagens da trupe, como a barata viciada Fliti, protagonizam 20 tira. Pouco mais de 8,5%.

Quem se torna o alvo da maioria das piadas restantes são todos os outros animais imaginados por Gonsales.

É um zoológico completo: há elefantes, macacos, porcos, galos, até dinossauros.

Numa espécie de rodízio, são eles os condutores das histórias e do efeito de humor por elas provocado.

O recurso de usar personagens desconhecidos e de diluir a importância do protagonista parece ser uma tendência, em especial em parte das tiras sul-americanas.

É o que ocorreu, por exemplo, com a série "Piratas do Tietê", de Laerte. Os piratas não aparecem há vários anos.

É recurso muito comum também na nova geração de tiristas brasileiros, grupo que usa a internet como principal meio de difusão (Rafael Sica é apenas um exemplo).

Na Argentina, o desenhista REP optou por um modelo semelhante.

O que importa, para ele, é a piada, e não o personagem fixo, modelo herdado dos EUA.

Há alguns anos, REP deslocou o personagem-título Gaspar, um ex-revolucionário, para aparições esporádicas.

No lugar, usa situações corriqueiras como tema da tira, como se fossem cartuns.

As tiras dele são publicadas diariamente no jornal "Página 12", de Bueno