|
24.11.09
Qual é a graça? O humor na imprensa escrita - I Fui convidado a fazer nesta terça-feira a conferência de abertura da 3ª Jornada do Grupo de Pesquisas Discursos na Mídia Escrita, realizada na PUC-SP. Achei interessante registrar também por aqui o conteúdo da conferência. Segue o texto, intitulado Qual é a graça? O humor na imprensa escrita: *** A entrada do século 21 pôs em discussão o papel do jornal. O debate se baseia na migração real de leitores para a plataforma virtual. Um exemplo disso pode ser visto na Folha de S.Paulo, periódico de maior circulação no país nesta década. O jornal reduziu em 35 mil o número de exemplares impressos entre 2002 e 2008. Passou de 346.333 em 2002 para 311.287 no ano passado. Os dados são da ANJ, Associação Nacional de Jornais. Apesar da circulação menor, estima-se que o número de jornais diários no Brasil tenha aumentado no mesmo período. Passou de 523, em 2002, para 673, em 2008, uma vez mais de acordo com informações da ANJ. São exatos 150 periódicos a mais. O impacto do jornalismo virtual ante a tradição do impresso, como dito, está em processo de discussão. Discussão, inclusive, dentro das próprias empresas jornalísticas. Folha e Estado de S. Paulo já consolidaram a leitura das páginas de suas edições impressas na tela do computador. O acesso é permitido mediante assinatura, como na versão em papel. Mas, independentemente da perda de leitores e de volume de impressão, e ante à real reavaliação de seu papel, vê-se que os jornais ainda cumprem hoje uma função importante na sociedade e no processo de circulação de informações, como os números ainda evidenciam. A manutenção do jornal representa também a permanência do rol de gêneros que a publicação agrega em suas páginas, do editorial às reportagens, da charge às tiras cômicas. Está nos dois últimos, nas charges e nas tiras cômicas, o interesse deste nossa exposição. Os dois gêneros humorísticos têm e tiveram nos jornais um suporte histórico de fixação de seus modos de produção e de circulação entre um público geralmente ignorado quando se trata de história em quadrinhos: o adulto, e não a criança, vista ainda como sinônimo de leitora de quadrinhos aqui no Brasil. A proposta neste espaço é rever, de forma sucinta, a trajetória das charges e das tiras nos jornais brasileiros, de modo a recontar uma outra história da história em quadrinhos no país, a que dialoga diretamente com o suporte chamado jornal. Antes de avançar a discussão, ou melhor, de retroceder os exemplos até os jornais do século 19, é necessário esclarecer o que entendemos por história em quadrinhos, charge e tira cômica. Em A Leitura dos Quadrinhos, livro de nossa autoria publicado neste ano pela Editora Contexto, temos postulado que diferentes gêneros utilizam recursos comuns de uma linguagem própria da qual bebem suas produções. A saber: - como dito, diferentes gêneros utilizam a linguagem dos quadrinhos
- predomina nas histórias em quadrinhos a seqüência ou tipo textual narrativo
- as histórias podem ter personagens fixos ou não
- a narrativa pode ocorrer em um ou mais quadrinhos, conforme o formato do gênero
- em muitos casos, o rótulo, o formato, o suporte e o veículo de publicação constituem elementos que agregam informações ao leitor, de modo a orientar a percepção do gênero em questão
- a tendência nos quadrinhos é a de uso de imagens desenhadas, mas ocorrem casos de utilização de fotografias para compor as histórias
Vemos que diferentes gêneros – entendidos aqui na definição clássica do russo Mikhail Bakhtin, de que "são tipos relativamente estáveis de enunciado" – dividem características comuns, sem, com isso, perder sua singularidade. Ocorre comportamento semelhante ao que o linguistica Dominique Maingueneau nomeou de hipergênero. O termo é visto pelo autor como um rótulo que daria as coordenadas para a formatação textual de vários gêneros, que compartilhariam tais elementos. Maingueneau cita o caso do diálogo, que estaria presente em vários e diferentes gêneros autônomos. Entendemos que exista o mesmo comportamento com os quadrinhos, lidos aqui como um hipergênero que teria elementos comuns compartilhados por diferentes gêneros. Vemos as charges e as tiras cômicas entre eles, posto que ambas utilizam os elementos comuns pontuados há pouco. Unidas pela linguagem, singularizam-se pelo processo e modo de produção e de recepção. A charge é um texto de humor que aborda algum fato ou tema ligado ao noticiário. De certa forma, ela recria o fato de forma ficcional, estabelecendo com a notícia uma relação intertextual. Os políticos brasileiros costumam ser grande fonte de inspiração. Não é por acaso que a charge costuma aparecer na parte de política ou de opinião dos jornais, espaço privilegiado dessas publicações. Um exemplo: 
A charge em questão foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo na edição de sábado passado, dia 21 de novembro. O humor dialoga com a notícia do lançamento do filme "Lula, o Filho do Brasil", que está às vésperas da estreia. Para construir o sentido pretendido pelo autor, o leitor tem de acionar uma série de informações: que o homem de barba caricaturado no desenho é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ele está numa sala de cinema, que a pessoa que o repreende com um puxão de orelha é a atriz Glória Pires, que interpreta a mãe dele no longa-metragem e que, por isso, teria, em tese, autoridade para castigá-lo por alguma malandragem que tivesse feito. Cabe ao leitor e ao noticiário recente sugerirem o motivo da repremenda. Note que o efeito de humor está ancorado numa informação atual, do noticiário, veiculada ou não pelo jornal onde a charge foi impressa. Essa data de validade, por assim dizer, que a atrela ao discurso jornalístico, é o que singulariza o gênero charge em relação aos demais. Observe que teríamos maior dificuldade para entender outra charge, publicada em outra época, por conta da falta de detalhes da época. Um casso assim: 
A figura representada é o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, candidato à sucessão ao primeiro mandado de Lula em 2006. Perdeu justamente para Lula. A charge faz alusão à queda nas pesquisas e à distância, cada vez maior, de ele conquistar a vaga presidencial. Alckmin é mostrado como um tucano, ave símbolo dos partidários do PSDB, a qual era e é filiado. O político olha para o céu e faz um pedido a uma estrela vermelha, justamente a marca do partido de Lula, o PT. "Oba! Uma estrela, vou fazer um pedido". O inusitado da situação – Alckmin ter de fazer um pedido à estrela do Partido dos Trabalhadores – é o que levaria ao efeito de humor pautado na corrida presidencial. Voltando ainda mais no tempo, será que conseguiríamos recuperar as informações que pautaram este desenho? 
A volta ao passado parou entre os anos 1926 e 1930, período em que Washington Luís esteve à frente do cargo de presidente da República. Para bem compreender a charge, o leitor deve reconhecer a figura dele no canto esquerdo do desenho, feito por J. Carlos, um dos mais proeminentes autores da primeira metade do século 20 no Brasil. O texto verbal escrito, abaixo do desenho, está um pouco apagado. Traz o seguinte diálogo: - Washington Luís – O que é que vocês estão fazendo?
- Os ministros Lara Castro, Otávio Mangabeira, Viana de Castelo, Adolfo Konder, Pinto da Luz, Serzedelo Passos e Oliveira Botelho – Nós estamos pensando.
- Washington Luís – Não é preciso. Deixem isso comigo. Eu penso.
A charge foi publicada no jornal O Malho, em 27 de novembro de 1926. A data precisa ajuda o leitor deste século 21 a afunilar um pouco mais o sentido. Trata-se do primeiro ano do mandato de Washington Luis, 12 dias após sua posse. É possível que o fato a que faz menção o desenho de humor seja a centralização que ocorreu na época, vista como uma forma de pôr a casa em ordem após um período político instável no país. Uma leitura mais precisa deveria estar atrelada aos exemplares dos jornais da época. Quanto aos ministros, é necessária uma pesquisa iconográfica para confirmas os rostos de cada um mostrados na charge. Agora, a tira cômica. O formato é tão presente na composição da tira que foi incorporado ao nome do gênero. A mais conhecida e publicada é a tira cômica, também chamada por uma série de outros nomes: tira diária, tirinha, tira de humor. Por ser a mais difundida, muitas vezes é vista como sinônimo de tira. É a que predomina nos jornais brasileiros – e também da maioria dos países. A temática atrelada ao humor é uma das principais características do gênero tira cômica. Mas há outras: trata-se de um texto curto (dada a restrição do formato retangular, que é fixo), construído em um ou mais quadrinhos, com presença de personagens fixos ou não, que cria uma narrativa com desfecho inesperado no final. Alguns jornais têm fixado também um formato um pouco alargado, equivalente a "dois andares" de tira. Em outro estudo, feito em doutorado defendido 2007 na Universidade de São Paulo, procuramos mostrar que o gênero usa estratégias textuais semelhantes a uma piada para provocar efeito de humor. Essa ligação é tão forte que a tira cômica se torna um híbrido de piada e quadrinhos. Por isso, muitos a rotulam como sendo efetivamente uma piada. Um caso: 
A tira de Angeli, Chiclete com Banana, foi publicada em junho deste ano no jornal Folha de S.Paulo. Mostra a divagação de um autor, que vive um "vácuo criativo", por não escrever há meses nenhuma produção literária. Ele conclui: "O vazio também é literatura". E, assim, surge um novo movimento literário. O final inesperado, pautado na contradição de um movimento literário ser baseado no vazio, é o que leva ao efeito de humor. Os jornais brasileiros já tiveram também outros gêneros de tiras, as seriadas ou de aventuras, as cômicas seriadas e, mais recentemente, um modo de produção novo, não baseado no humor. Mas, dada a predominância das tiras cômicas, ajustaremos o foco nelas nesta exposição. *** Continua na postagem abaixo.
Escrito por PAULO RAMOS às 03h16
[comente]
[ link ]
Qual é a graça? O humor na imprensa escrita - II Continuação da postagem anterior. *** Tanto a charge quanto as tiras cômicas permanecem em circulação nos jornais brasileiros, em maior ou menor grau. Há quem priorize tiras nacionais, quem circule apenas material estrangeiro (mais barato), quem nem isso faz, caso do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, que cortou todas as tiras em dezembro do ano passado por contenção de gastos. Outros jornais publicam apenas charges. E há que as ignoram por completo. Mas, numa observação em perspectiva dos gêneros presentes nos jornais, charges e tiras são costumeiramente evidenciadas. É o que faz, por exemplo, Luiz Antônio Marcuschi em Produção Textual, Análise de Gêneros e Compreensão, livro de 2008. Marcuschi vê nos jornais um dos casos de suporte, que abrigaria em suas páginas uma gama de gêneros, entre os quais cita história em quadrinhos e charge, que seriam usados também pelas revistas. O linguista define suporte como um locus físico ou virtual com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do gênero materializado como texto. Tanto tiras como charges têm no jornal um suporte privilegiado, que dialoga com leitores de maior poder aquisitivo (pelo preço do exemplar ou da assinatura) e, em tese, mais críticos. Os dois gêneros têm acompanhado os jornais desde seu surgimento no país, no século 19. Costuma-se credenciar a primeira charge a uma edição do Jornal do Commercio, de 1837. Desde então, tem passado, edição após edição, jornal após jornal, por um processo de cristalização do gênero como o conhecemos hoje. Esse processo de consolidação geralmente não é incluído entre as obras que recuperam o surgimento dos quadrinhos no país. Se entendemos que charge é um dos gêneros de um hipergênero quadrinhos, pelos motivos expostos há pouco, temos de inseri-la obrigatoriamente nessa trajetória. E essa inclusão traz um consequência direta: a formação de um leitor adulto. Configura-se, então, o que Maingueneau, uma vez mais citado aqui, chamou de estabelecimento de parceiros legítimos. Maingueneau defende que um gênero do discurso (termo usado por ele) não se limita apenas à organização textual, embora seja um de seus elementos. Há outras características, igualmente pertinentes e definidoras: finalidade, lugar e momento onde ocorre, suporte material ou mídium (televisão, diálogo, rádio, jornal), o estabelecimento de parceiros coerentes com a situação (o autor chama de "parceiros legítimos"). Neste último caso, acrescenta que o locutor e o interlocutor travam um contrato comunicativo, uma espécie de jogo, e que exercem papéis definidos na situação comunicativa. Trava-se então, desde o século 19, um contrato entre autores das charges e seus leitores de que se trata de um texto adulto, em particular pela temática abordada. Tem sido assim até hoje. Ou seja: a história da história em quadrinhos não foi formada apenas por leitores juvenis, discurso que também tem sido herdado até este século, em particular na imprensa, nas escolas e entre autoridades de ensino. As causas da "infantilização" dos quadrinhos passam pelas tiras cômicas, mas não são causadas exclusivamente por elas. A exemplo do que ocorreu com as charges, elas surgiram e se consolidaram nas páginas dos jornais. Se Bakhtin via nos gêneros uma estabilidade relativa, na virada dos séculos 19 para o 20 as tiras buscavam um norte que as tornasse estáveis. Isso pôde ocorreu nos periódicos norte-americanos do começo do século passado. O que as particularizou inicialmente foi a temática cômica – nos Estados Unidos, os quadrinhos são chamados até hoje de comics – e o formato fixo, que permitia que uma mesma história fosse vendida a mais de um jornal. O sistema comercial permitia aos autores e, principalmente, às empresas distribuidoras, chamadas Syndicates, faturar com base num mesmo produto. Do ponto de vista dos diagramadores dos jornais, bastava deixar um espaço fixo para ser preenchido pela tira. O modelo de produção foi consolidado pelos jornais e proliferou nos Estados Unidos, na América do Sul e na Europa. Pelos preços baixos, os donos da imprensa escrita brasileira optaram durante décadas pelas produções estrangeiras. Na década de 1930, Adolfo Aizen e Roberto Marinho descobriram no filão uma leitura que agradava aos mais jovens. A estratégia era reunir o maior número de tiras estrangeiras – cômicas e de aventuras – e publicá-las nas páginas de um tablóide, tamanho equivalente ao de um jornal dobrado no meio. Foi uma febre. As vendas ajudaram o jornal carioca O Globo, de Marinho, a se manter firme no mercado pelas décadas seguintes. Criava-se, por meio dos suplementos que tinham nas tiras um de seus principais gêneros, um segundo pacto entre parceiros legítimos: o leitor, agora, eram as criançase os mais jovens. Muitos passaram a ver essa forma de leitura como algo "nocivo" (reforço o uso das aspas no termo). Discursos vindos das escolas, da Igreja e de autoridades procuraram vincular, a partir da segunda metade da década de 1940, os quadrinhos à marginalidade, criminalidade, à preguiça mental. Gonçalo Júnior, no livro O Mocinho do Brasil – A história de um Fenômeno Editorial Chamado Tex, publicado neste ano, reproduz pesquisa do Ibope realizada em 1954 no Rio de Janeiro e em São Paulo. O instituto fez a seguinte pergunta: - na sua opinião, as histórias em quadrinhos são prejudiciais ou, pelo contrário, são inofensivas à educação das crianças?
Respostas. No Rio de Janeiro, 58% disseram que sim, que são prejudiciais. Em São Paulo, o índice foi maior: 75%. Detalhe: a própria pergunta já traz o pressuposto de que quadrinhos seriam leitura apenas de crianças. Mas já estavam estabelecidos nesse momento histórico do país dois públicos leitores de quadrinhos: o adulto, que acompanhava as charges e algumas tiras esporádicas nos jornais diários, e o infantil, que tinha nos suplementos e, depois, nas revistas em quadrinhos os suportes para seus diferentes gêneros, entre eles as tiras cômicas. Geralmente, os resgates históricos deixam de lado esse leitor adulto. As revistas, que se consolidaram na década de 1950, passaram a priorizar histórias mais longas, algumas organizadas a partir de uma sucessão de tiras seriadas. Com isso, as tiras cômicas voltaram-se uma vez mais aos jornais. Em 1959, um delas começava uma trajetória de sucesso junto ao público infantil. A Folha da Manhã, hoje Folha de S.Paulo, estreava as tiras de Bidu e Franjinha, de Mauricio de Sousa. Nos anos seguintes, surgiram Cebolinha, Cascão e, por fim, Mônica. A série ganhou também as bancas a partir de 1970 e se consolidou também como tira em diferentes jornais brasileiros. As produções underground norte-americanas e a ditadura militar ajudaram a lembrar a todos, uma vez mais, que os quadrinhos tinham feito um pacto de leitura com os adultos. Os títulos alternativos influenciaram alguns autores daqui e instigaram revistas independentes durante a década de 1970. A maior influência, no entanto, é creditada ao jornal O Pasquim, um das vozes mais eloquentes de resistência ao período ditatorial. O jornal alternativo começou a circular em 1969 e tinha um time até hoje de destaque na área: Jaguar, Henfil, Paulo Francis, Ziraldo, Millor, entre outros. O suporte priorizava gêneros do humor. Figuravam charges, tiras, quadrinhos. Todos dialogavam, não custa reforçar, com o leitor adulto. A maior parte das revistas em quadrinhos de então, com crianças. Fora da imprensa alternativa, leia-se fora do Pasquim, alguns jornais de diferentes partes do país também publicaram tiras voltadas ao leitor mais crítico. Parte delas trazia questionamentos à situação social e política do país, entre as quais podemos citar Rango, As Cobras (mostradas abaixo), O Pato e Zeferino.


O Pasquim e o movimento underground são vistos como dois dos fatores que influenciaram a produção de tiras e de outros quadrinhos pouco antes da abertura política e também depois dela. No caso específico das tiras nacionais, elas encontraram nos cadernos de cultura um locus de publicação que permanece até hoje. O Jornal do Brasil e, principalmente, a Folha de S.Paulo ajudaram a tornar mais críticos e sociais os temas por elas abordados, outro sinal de diálogo com o público mais maduro. No caso da Folha, um dos propulsores da mudança foi a inclusão das tiras de Chiclete com Banana, de Angeli, em 1983. Depois vieram Geraldão, Níquel Náusea, Piratas do Tietê, Aline. No caso específico de Geraldão, houve um exemplo peculiar para medir o nível de liberdade editorial pós-ditadura. O personagem, de início, usava uma cueca samba canção de bolinhas. Aparecia quase sempre segurando a cueca para que não caísse. Depois, passou a ser desenhado com uma tarja preta para cobrir seu sexo. A tarja, em dado momento, foi eliminada. É como mostram as três tiras a seguir: 


Começo a fechar as idéias recuperando o que pautou esta exposição. Os jornais têm servido de suporte histórico para dois gêneros dos quadrinhos que dialogam diretamente com o humor: as charges e as tiras cômicas. A relação entre elas e os periódicos é tão enraizada que surgiram nas páginas do jornal e até hoje se expõem nelas. Outro ponto que procuramos demonstrar é que ambas, por serem publicadas em um suporte lido por leitores adultos, dialogam com pessoas mais críticas e maduras, e não com crianças. A estas restam, não custa registrar, os cadernos infantis e alguns casos publicados na seção de tiras entre o material adulto. Isso exige uma correção na história da história em quadrinhos e traz ao menos uma consequência prática: quadrinhos são lidos por adultos, aqui no Brasil, pelo menos desde o século 19. Ainda hoje é assim, embora geralmente se esqueça disso. O discurso que tem predominado na sociedade brasileira é justamente aquele visto nas décadas de 1940 e seguintes, o de que quadrinhos são voltados ao leitor juvenil, com ou sem conteúdo "nocivo" (nocivo, aqui, lido uma vez mais entre aspas). Foi esse discurso o visto na imprensa em maio deste ano, quando o livro em quadrinhos Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol, voltado ao leitor adulto, foi selecionado e comprado pelo governo estadual paulista para ser levado a alunos de nove anos. O governo assumiu a falha e a obra foi recolhida. Mas a imprensa e o governo circularam um discurso de estranheza sobre o fato de a obra ter conteúdo adulto, como palavrões. Trecho de reportagem do telejornal SPTV 2ª Edição da Rede Globo: a obra é em quadrinhos, mas o conteúdo não tem nada de infantil. O mesmo comportamento foi percebido, semanas depois, com a obra Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço, do norte-americano Will Eisner. Voltada ao leitor adulto, foi selecionada pelo governo federal para ser incluída em bibliotecas escolares destinadas a alunos do ensino médio. O jornal Agora, do grupo Folha, estampou na capa que a obra trazia cenas de pedofilia. Uma menina se insinuava ao zelador do prédio onde mora para, depois, envenenar seu cachorro e roubá-lo. O zelador se mata. Nada disso foi dito nas reportagens. O livro chegou a ser recolhido em escolas de diferentes cidades do sul do país. Enquanto isso, em meio à polêmica, os mesmos jornais que noticiaram o caso circulavam charges e tiras em suas páginas e desconsideravam os dois gêneros nessas reportagens. O suporte jornal funcionou como uma espécie de escudo para barrar a reação social, como se não fossem gêneros dos quadrinhos. Muito disso foi apoiado no prestígio de que os jornais ainda gozam, cmomo expusemos no início desta exposição. Temos dito em outras oportunidades que é necessário iniciar nas universidades brasileiras um adiado e já tardio estudo linguístico-discursivo das histórias em quadrinhos. Há muitas perguntas ainda e poucas respostas científicas. Um ponto que temos defendido é que é necessário fixar a idéia de que há quadrinhos infantis e quadrinhos não infantis. É uma distinção feita pela literatura infantil na década de 1980, quando esta era rotulada de leitura marginal (termo usado por Marisa Lajolo e Regina Zilberman). Outro ponto é entender os diferentes gêneros que compõem o que temos chamado de hipergênero quadrinhos, ancorados em Maingueneau. Tal clareza é necessária para não incorrer em imprecisões como a vista na prova do vestibular da Fuvest, realizada no último domingo. Os organizadores de uma das questões do maior vestibular do país chamaram uma tira cômica de Calvin e Haroldo de charge, termo usado duas vezes no enunciado: 
A confusão não comprometia a resposta do vestibulando. Mas evidencia desconhecimento da área dos quadrinhos e de seus gêneros. Assim como é fruto de desconhecimento a associação dos quadrinhos somente ao leitor infantil. Não é, como procuramos demonstrar. A solução para tais discursos, ainda sólidos na sociedade brasileira, passa pela academia e pelas pesquisas que dela resultarem. Espero que estas palavras tenham trazido alguma contribuição nesse sentido.
Escrito por PAULO RAMOS às 03h14
[comente]
[ link ]
17.11.09
Novo álbum de Asterix prioriza homenagem e esquece aventura 
"O Aniversário de Asterix & Obelix - O Livro de Ouro" marca os 50 anos de criação da série francesa Uma das marcas dos álbuns de Asterix é estamparem no título o tema da aventura vivida pelo corajoso gaulês e seu parceiro Obelix. Ironicamente, a obra que comemora os 50 anos de criação do personagem deixa de lado justamente essa característica da série francesa.
"O Aniversário de Asterix & Obelix - O Livro de Ouro" (Record, 56 págs., R$ 25,90) abandona a narrativa temática e divide a história em pílulas de homenagens. É o que une os diferentes momentos desenhados, apresentados de forma fragmentada ao leitor. O álbum começa, por exemplo, imaginando como seriam os gauleses se tivessem envelhecido nesses 50 anos. A ideia, depois, é abandonada após um encontro com Albert Uderzo, um dos criadores da série e autor deste álbum. A partir daí, tem início uma sucessão de homenagens isoladas, com algumas referências a personagens secundários que apareceram nos outros 42 livros da coleção, todos já publicados no Brasil. *** Este álbum chegou às livrarias brasileiras na última semana, um mês depois de ser lançado na França e em outros países. A escolha da data não foi aleatória. Foi em outubro de 1959 a estreia da primeira aventura de Asterix. A história inaugural começou a ser publicada na revista "Pilote". Foi escrita pelos criadores da série, os franceses René Goscinny e Albert Uderzo. Goscinny, responsável pelos textos, morreu 18 anos depois. O parceiro passou a assumir também a escrita da série desde então. Costuma-se dizer que essa nova fase teve uma sensível perda de qualidade nos roteiros. Mesmo com as críticas, os álbuns continuaram a ser produzidos com sucesso, dentro e fora da França. Algumas das histórias foram adaptadas em filmes e animações. *** O sucesso da série esteve muito pautado no carisma da dupla central, Asterix e o gorducho Obelix, e na criatividade dos desenhos e dos roteiros. A estrutura inicial criada por Goscinny foi tão marcante que permaneceu após sua morte. Essa estrutura tinha como marca uma aventura que pautava a ação dos gauleses. Característica que se perdeu neste álbum comemorativo. Priorizar as homenagens a Asterix e Obelix tornou este "livro de ouro" um estrangeiro em meios aos demais. Ou, nos termos da série, um romano dentro da vila dos gauleses. Asterix é o principal personagem do quadrinho francês e um dos principais do mundo. Dada a importância, merecia comemoração à altura, o que este álbum não faz. Nas homenagens de 50 anos marcadas neste 2009, o nosso Mauricio de Sousa se deu melhor.
Escrito por PAULO RAMOS às 12h43
[comente]
[ link ]
02.11.09
Mangá de Caça-Fantasmas mantém clima do desenho animado 
Obra é inspirada na franquia iniciada no cinema e está à venda em lojas de quadrinhos "Os Caça-Fantasmas Ghostbusters" não é o primeiro caso de releitura de filme ou de história em quadrinhos vertida em mangá. Mas é o caso mais recente lançado no Brasil.
A obra chegou nas últimas semanas às lojas de quadrinhos (NewPOP, 180 págs., R$ 14) e é mais um produto baseado na franquia iniciada no cinema. A base são os personagens dos dois longas-metragens dirigidos por Ivan Reitman, exibidos em 1984 e 1989. O clima do mangá, no entanto, é da versão animada da série. Os desenhos - já exibidos pelas TVs daqui, também com sucesso - traziam versões cartunizadas de Peter, Ray, Egon e Winston, o quarteto central dos filmes. *** Não há na versão em quadrinhos o fantasma verde Geleia, personagem que se tornou tão popular quanto os protagonistas. Tanto que ganhou, depois, série própria. Mesmo assim, as situações criadas para os quatro caçadores de fantasmas lembram muito o que era visto na animação. Um primeiro ponto de diálogo é ver os heróis desenhados. Outro ponto de contato é um ar mais ingênuo e bem humorado que segue as três histórias da obra, divididas em diferentes capítulos e por autores distintos. Na primeira, eles têm de participar de uma peça teatral mal-assombrada. Na última, enfrentam o mundo da moda. *** A história intemediária é a que mais destoa das anteriores. E, talvez por isso, a melhor das três. Os caça-fantasmas são capturados, um a um, por um antigo adversário. Um dos heróis consegue driblar a captura e fica com a tarefa de resgatar os demais. Essa fórmula de aventura é antiga, inclusive nos quadrinhos. Mas funciona no mangá. O apelo da obra, no entanto, é outro: reviver a memória das crianças de ontem adultos de hoje, que assistiram aos desenhos e ficaram cantarolando por um tempão a música tema dos filmes, cantada por Ray Parker Jr (se não sabe do que se trata, a obra não é para você). É o mesmo apelo que a editora usou no mangá de "Speed Racer", com as histórias que pautaram a série. O interesse é esse, o saudosismo. Não muito mais do que isso. *** Nota: a NewPOP também pôs à venda um outro mangá. "El Alamein e Outras Batalhas" (244 págs., R$ 14,90) traz diferentes histórias ambientadas na Segunda Guerra.
Escrito por PAULO RAMOS às 13h04
[comente]
[ link ]
26.10.09
Títulos de ontem, novos números de hoje, perspectivas para amanhã Resenhas Independentes 5 
Revistas do Quarto Mundo têm tendência de trazer histórias curtas, como na curitibana "Quadrinhópole", lançada neste mês Quando se vê uma dose concentrada de lançamentos independentes numa tacada só, como ocorreu neste mês no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em Minas, é possível perceber com mais clareza coincidências na produção do Quarto Mundo. Há o ponto comum de partida mais evidente, que é o compartilhamento do mesmo selo - Quarto Mundo -, grupo que reúne há dois anos quadrinistas de diferentes partes do país. Integrar o grupo permite inserir a revista num modelo autônomo de distribuição, que consegue levar os títulos da diferentes cidades e estados. É algo a não ser ignorado. Mas há afinidades em pelo menos outro ponto. Há uma tendência de as produções impressas do selo se pautarem em narrativas mais curtas, gerando contos em quadrinhos. *** Como em quase tudo, há exceções. A revista "Nanquim Descartável" serve de exemplo para justificar essa premissa. Os álbuns produzidos pelos mineiros da Graffiti também. A maioria dos lançamentos do grupo vistos no FIQ, no entanto, seguia a regra. Ora em coletâneas, ora em produções solo ou em duo, eram coletâneas de histórias. O segundo número de "Pieces" (36 págs., R$ 6), de Mário Cau, traz mais narrativas pessoais, a exemplo da edição de estreia, publicada no primeiro semestre. A proposta de "Duo" (40 págs., R$ 4) é resumida logo na capa: "três histórias, dois autores, uma antologia". Os dois autores, no caso, são Pablo Casado e Felipe Cunha. *** Nas publicações mais conhecidas, que já tiveram outros números lançados, o molde de apresentar narrativas em quadrinhos curtas já se tornou a marca editorial das revistas. É o que se vê nas novas edições de "Café Espacial" (60 págs., R$ 6, quinto número), "El Fanzine" (20 págs., R$ 2, segundo número), "Camiño di Rato" (48 págs., R$ 5, pulou do número um para o cinco) e "Quadrinhópole" (48 págs., R$ 5, oitavo número). Um parêntese sobre a curitibana "Quadrinhópole": o editor dela, Leonardo Melo, havia dito em 2008 na entrega do Troféu HQMix que não iria produzir mais a revista. Este oitavo número prova que a frase não se sustentou. E que a premiada publicação antologia de grupo voltou. Com narrativas curtas, todas pautadas em ficção científica. *** O Quarto Mundo completa dois anos neste mês. Há até uma festa programada para a próxima sexta-feira, às 19h30, na HQMix Livraria, em São Paulo (na Praça Roosevelt, 142). A data é propícia para reavaliar a produção do grupo. Há mais pontos positivos que deméritos. Publicar quadrinhos na raça já deveria ser motivo de reconhecimento. E é. Dizer que há coincidências na forma de produção editorial das histórias, priorizando narrativas mais curtas, não significa que as histórias não sejam bem escritas e desenhadas. São, sim, embora com nuances entre elas, como é de se esperar. Qualidade o grupo tem. *** O ponto é que o grupo já domina bem esse molde, que deve continuar sendo produzido. Mas já há maturidade profissional para tatear outras áreas, tentar outras experiências. Uma das áreas que poderiam ser exploradas são as tramas mais longas. É um pouco do que já faz a Graffiti, que produziu quatro álbuns, um deles lançado também no FIQ. Há a questão do custo, do tempo, da divisão da produção com outros afazeres profissionais. Pesares reais. Afinal, são pouquíssimos os que vivem só de quadrinhos no país. Mas dois anos autoriza uma reflexão mais aprofundada. Hoje, predominam os contos curtos. Amanhã, quem sabe, narrativas longas. Seria algo tão revolucionário quanto.
Escrito por PAULO RAMOS às 15h03
[comente]
[ link ]
24.10.09
Revistas Peiote e Beleléu começam com pé direito Resenhas independentes 4

Capa do número de estreia de "Peiote", revista independente mineira que começou a ser vendida neste mês "Peiote" e "Beleléu" foram produzidas por grupos distintos, de estados diferentes. Mas, coincidentemente ou não, as duas revistas independentes têm pontos comuns. As duas trazem histórias de diferentes autores. Outra convergência: ambas estrearam no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), realizado neste mês em Belo Horizonte (MG). Tanto uma quanto outra publicam em papel tiras que destacaram virtualmente: uma nacional, "Desvio", e outra argentina, feita por Kioskerman, um dos seguidores de Liniers. O principal elo entre as duas publicações, no entanto, é também o principal: tanto uma quanto outra começam com o pé direito, embora se destaquem por caminhos diferentes. *** "Peiote" (64 págs, R$ 10) foi produzida em Belo Horizonte. A revista mineira reúne trabalhos de autores de lá e material de de quadrinistas de outras cidades também. A lista inclui alguns nomes familiares entre leitores da área, como Jaum - autor da maior parte das narrativas -, Luciano Irrthum, A. Moraes e Jean Okada, criadores de "Desvio". As tiras ocupam um lugar de destaque: aparecem em duas das 16 páginas coloridas. De temática variável, o trabalho da dupla ajuda a compor o tom fantástico da publicação, tema autoproposto por Jaum, que encabeçou o projeto. *** Quem definiu muito bem o papel da "Peiote" foi Wellington Srbek, roteirista do álbum "Estórias Gerais" e um dos autores de destaque no estado. Na leitura dele, veiculada numa postagem em seu blog, o "Mais Quadrinhos", a publicação sintetiza um momento de renovação do quadrinho mineiro. De Ziraldo e Henfil até os nomes atuais, as Minas Gerais têm contribuído de diferentes formas para a produção nacional. Hoje, além da "Peiote", há outro grupo de destaque em Belo Horizonte: o que mantém os álbuns e a revista independente "Graffiti 76% Quadrinhos". 
Capa de "Beleléu", álbum produzido por autores do Rio de Janeiro "Beleléu" (84 págs.) tem uma pegada diferente da vista em "Peiote". Sai o fantástico, entre o humor. Às vezes surreal. Mas, ainda assim, cômico. O álbum carioca é encabeçado por quatro autores: Daniel Lafayette, Eduardo Arruda, El Cerdo (Tiago Lacerda) e Stêvz. É o quarteto que produz a maioria das histórias. Eles se dividem entre as tiras, cartuns e narrativas curtas apresentadas na publicação, feita toda em cores. O conteúdo é unido pelo humor, mas díspar na temática. Apesar disso, o grupo tentou criar dois pontos de contato. Dividiu a obra em duas partes: 1) "a morte é um estado de espírito"; 2) "viver é freestyle". *** O resultado é um produto gráfico bem cuidado, embora divergente no efeito de humor criado. Além dos quatro autores, o grupo convidou dois quadrinistas argentinos para integrar a edição: Berliac e o já citado Kioskerman, que já sua estreia numa revista brasileira. Dos dois, Kioskerman é sem dúvida o destaque. Ele ganhou projeção com um blog. Neste mês, parte do material foi reunida em sua primeira coletânea, "Éden". Assim como ocorreu com "Desvio" em "Peiote", as tiras de Kioskerman captam bem a essência do humor de "Beleléu". Situações cômicas soltas, diferentes umas das outras. *** Há quem defenda que nem tudo o que se produz de forma independente é, de fato, bom. Mas, seguindo esse raciocíonio, o volume aumentariam as chances de qualidade. Verdadeira ou não, a premissa pode ser perfeitamente aplicada a estas duas novas publicações. Com um adendo: elas se destacam logo na edição de estreia. Mas há outra máxima sobre a publicação independente. Não basta ter um bom começo. É necessário também dar sequência ao trabalho, de forma regular. O raciocínio também vale para "Peiote" e "Beleléu". Ambas iniciam com o pé direito, como dissemos linhas acima. O desafio é seguir em frente, sem perder a qualidade. *** Leia nas postagens abaixo resenhas de outros lançamentos independentes do mês.
Escrito por PAULO RAMOS às 20h58
[comente]
[ link ]
23.10.09
Ato 5 faz conto sobre amizade em meio à ditadura militar Resenhas Independentes 3 
Revista independente, lançada neste mês, foi produzida pela dupla André Diniz e José Aguiar Há diferentes formas de mostrar os reflexos que a ditadura militar (1964-1985) teve no país. Uma delas é observar o impacto que o regime teve na vida dos brasileiros. Foi o caminho percorrido em "Ato 5", revista independente produzida por André Diniz e José Aguiar. A história se centra num trio de amigos: Juan, Gabriel e Lorena. Os três participam de uma companhia de teatro, obrigada a enfrentar a resistência imposta pela autoridade militar. Em meio a isso, constroi-se um triângulo amoroso entre eles. Mais do que uma relação de amor, o foco está nos laços de amizade estabelecidos. Amizade que resiste ao período ditatorial e ao tempo. *** A revista foi lançada neste mês no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos). Foi finalizada pouco antes do evento, realizado em Belo Horizonte (MG). É a segunda parceria entre os dois autores publicada no último ano. A dupla fez "A Revolta de Canudos", que integra uma coleção de clássicos históricos da Escala Educacional. Fatos históricos são um dos temas predominantes na produção em quadrinhos do eclético André Diniz, que também desenhou alguns de seus trabalhos. Outro tema é a ditadura brasileira, assunto que pautou parte de suas histórias feitas para o selo Nona Arte, que tinha nele um dos cabeças. É agora retomado em "Ato 5". *** A revista mostra como o regime militar pode afetar diretamente a vida de um grupo de pessoas. Mas é também um relato de superação e da importância do valor da amizade. Há um pouco disso também na própria concepção da história. Os dois autores produziram a obra do próprio bolso, como tantos outros têm feito no país nos últimos anos. Mesmo à distância - Diniz no Estado do Rio de Janeiro e Aguiar no Paraná -, conseguiram superar os obstáculos físicos e engrenaram a parceria. Há diferentes nomes que podem ser dados a todo esse esforço. Um deles é justamente superação. Como a lida na ficção que criaram a quatro mãos. *** Uma curiosidade: a revista, de 32 páginas, custa Cr$ 5. O valor é em cruzeiros mesmo, apesar de cobrado em reais. A brincadeira é para captar o clima monetário da época. *** Leia resenhas de outros lançamentos independentes do mês: - "Foices & Facões - A Batalha do Jenipapo", de Bernardo Aurélio e Caio Oliveira (link);
- "Saída 3", de Guga Schultze (link).
Escrito por PAULO RAMOS às 16h03
[comente]
[ link ]
22.10.09
Ficção científica com final surpresa pauta álbum nacional Resenhas Independentes 2 
Capa de "Saída 3", obra escrita e desenhada pelo artista plástico e quadrinista Guga Schultze Há algumas narrativas que dizem a que vieram nos minutos finais. Um caso recente é o filme "Arraste-me para o Inferno", de Sam Raimi. O longa renasce no encerramento. Há um quê disso em "Saída 3" (108 págs., R$ 20), quarto álbum da "Coleção 100% Quadrinhos", produzida pelo grupo da revista independente "Graffiti 76% Quadrinhos". A obra, escrita e desenhada por Guga Schultze, constroi uma trama de ficção científica, tema raro em produções brasileiras mais longas, como esta. Mas é no final, nas duas últimas páginas, que o autor dá o recado da história e revela o surpreendente motivo de tudo o que o leitor acompanhou até então. *** Claro que o desfecho não será revelado aqui. Omitir a conclusão da narrativa faz parte do acordo não declarado entre leitor e jornalista, algo inerente às resenhas. O que se pode adiantar é que a história se passa numa região fictícia, dominada por uma força poderosa e maligna, mantida em segredo. O assunto corre o risco de vir à tona quando um grupo de soldados cai numa armadilha e é obrigado e investigar uma enigmática e mística construção, mantida no deserto. O contato da equipe armada com o que há nos escuros corredores do local leva aos fatos que serão trabalhados no final. *** "Saída 3" é o primeiro álbum em quadrinhos de Schultze. Antes, havia feito quadrinhos para a mineira Graffiti e outra obra independente, "A Guerra dos Imundos", de 1998. A visita dele uma narrativa de mais fôlego marca uma boa estreia, tanto no texto quanto nos seus desenhos marcantes, que evidenciam o lado artista plástico dele. A obra mantém a qualidade vista nos três títulos anteriores da coleção: "Um Dia, Uma Morte", "O Relógio Insano" e "A Comadre do Zé", lançado no início do ano. O grupo da Graffiti tem acertado na escolha de seus autores e mostra um caminho a ser seguido pelas editoras, que começam a olhar com mais cuidado para produções assim. *** Leia na postagem abaixo a resenha de "Foices & Facões - A Batalha do Jenipapo", outro lançamento independente deste mês. *** Post postagem (às 22h16): leitores me informam, corretamente, que o preço do álbum é R$ 20, e não R$ 30, como informava. Esta versão da resenha já traz o valor correto.
Escrito por PAULO RAMOS às 17h06
[comente]
[ link ]
20.10.09
Livro resgata episódio histórico pouco lembrado Resenhas Independentes 1 
Capa de "Foices & Facões - A Batalha do Jenipapo", obra produzida por autores do Piauí A leitura de "Foices & Facões - A Batalha do Jenipapo" (200 págs., R$ 30) revela uma série de surpresas. A primeira é a própria obra em si, lançada neste meio de mês. É uma produção nacional, que ajuda a reforçar a máxima de que há muito mais quadrinhos fora do eixo Rio-São Paulo, principais polos de concentração editorial do país. Produzida no Piauí, recupera um episódio histórico vivido no estado em 1823: a Batalha do Jenipapo, que dá título ao trabalho. Pouco lembrado, o conflito ajudou a consolidar a Independência do Brasil, proclamada um ano antes por Dom Pedro no Ipiranga, em São Paulo. *** A Batalha do Jenipapo envolveu piauienses, maranhenses e cearenses. Moradores dos três estados improvisaram instrumentos de luta para barrar o avanço de tropas portuguesas. O exército era comandado por João José da Cunha Fidié. O objetivo era forçar os brasileiros da região a manterem, à força, o apoio à Coroa e a Dom João. O sangrento conflito e os motivos que levaram a ele são relembrados em detalhes na narrativa em quadrinhos. O assunto é esmiuçado com calma, o que dá profundidade à obra. O livro - outra surpresa - consegue, com isso, diferenciar-se de outras produções do gênero, que se preocupam mais com o aspecto didático para vendas a listas governamentais. *** A história em quadrinhos foi produzida com verba do governo estadual e demorou quase um ano e meio para ficar pronta. Os autores do projeto e da obra são dois irmãos: Bernardo Aurélio e Caio Oliveira. Este fez a arte; aquele, o roteiro. Ambos integram um núcleo de quadrinhos mantido no estado. O aprofundamento no assunto, perceptível durante a leitura, possivelmente teve ajuda do lado historiador de Aurélio, formado na área pela Universidade Estadual do Piauí. Mesmo assim, ele optou por mesclar os fatos com alguns aspectos ficcionais. Parte da narrativa se passa numa fazenda e mostra como se dá a luta entre seus moradores. *** Numa época editorial em que editoras publicam adaptações literárias e obras históricas como pretexto para gordas vendas ao governo, "Foices & Facões" se diferencia. A obra mostra que é possível fazer obras assim com qualidade e com o aprofundamento necessário. É um caminho que poderia servir de espelho para futuras produções do gênero. O conteúdo é acessível, mas não simplificado a tal ponto que transforme a narrativa num retalho fragmentado e vago do episódio histórico e de seus motivos. E ajuda a relembrar o episódio a brasileiros e, em particular, os do Piauí, que tem na data um dos alicerces históricos do estado. *** A obra é vendida em algumas lojas de quadrinhos de São Paulo e do Piauí. Outra forma de comprar é pelos e-mails: bernardohq@hotmail.com / nucleodequadrinhos.pi@gmail.com
Escrito por PAULO RAMOS às 11h48
[comente]
[ link ]
18.10.09
Não é só Mauricio: Bidu também completa 50 anos de carreira 
Capa do livro "Bidu 50 Anos" foi inspirada no primeiro número da revista do personagem...  ... publicada em 1960 pela Editora Continental; publicação é reeditada na obra comemorativa A comemoração dos 50 anos de carreira do criador da Turma da Mônica convergiu para o livro "MSP 50 - Mauricio de Sousa por 50 Artistas", vendido desde setembro. A obra - que traz olhares de diferentes desenhistas sobre os personagens de Mauricio de Sousa - acabou ofuscando um outro lançamento feito para marcar a data. "Bidu 50 Anos" (Panini, 160 págs., R$ 39,90) também foi pensado para celebrar um cinquentenário. No caso, o do primeiro personagem fixo do desenhista e empresário. O álbum, produzido em capa dura, traz 22 histórias de diferentes momentos do cachorrinho azul: de quando foi criado até os dias atuais. A última narrativa foi feita em mangá. *** A leitura em sequência ajuda a ver como se deu a evolução visual do personagem ao longo das décadas. De início, o rosto era mais retangular e do tamanho do corpo. Com os anos, a cabeça ganhou ares proporcionais e um contorno mais arrendondado. A estreia de Bidu - e de seu dono, Franjinha - ocorreu em 18 de julho de 1959 no jornal "Folha da Manhã", mesma empresa que hoje publica a "Folha de S.Paulo". Mauricio dividiu a produção da série com as reportagens policiais, função que tinha no jornal. Aos poucos, surgiram os outros personagens. E os crimes foram abandonados. *** Na introdução da obra, o desenhista diz que o cãozinho foi inspirado em um cachorro que teve na infância, parte dele vivida em Mogi das Cruzes, cidade do interior de São Paulo. Mas o animal de estimação tinha outro nome: Cuíca. Segundo ele, Bidu surgiu após uma consulta feita entre os colegas da redação. "Passei uma folha de papel pelas mesas, entre os jornalistas, para que dessem uma sugestão de batismo. O prêmio seria uma garrafa de bom vinho", diz, no texto introdutório. "O nome Bidu foi indicado por um colega chamado Petinatti. Que não me lembro bem se recebeu o prêmio. Naquele tempo, até uma garrafa de vinho pesava no orçamento." *** A capa desta edição comemorativa é uma releitura do primeiro número da revista "Bidu", de 1960. Foi a primeira publicação de Mauricio de Sousa nas bancas. A revista é reproduzida em "Bidu 50 Anos", com a mesma ortografia e tratamento editorial de quando foi lançada pela primeira vez pela Editora Continental. O livro de luxo marca bem como se deu o início da trajetória do desenhista e empresário na área. O que veio depois todo mundo sabe, seja leitor de quadrinhos ou não. Mais do que um registro comemorativo, a obra é um documento histórico. E, como tal, deveria ter registrado as revistas e o ano de publicação de cada uma das histórias. Faltou.
Escrito por PAULO RAMOS às 16h54
[comente]
[ link ]
14.10.09
Pixu mostra experiência de Bá e Moon no gênero terror 
Álbum da editora Devir traz nova parceria dos desenhistas brasileiros com os estrangeiros Vasilis Lolos e Becky Cloonan O álbum "Pixu" tem dois fortes cartões de visita: uma indicação ao Eisner Awards, principal premiação dos quadrinhos nos Estados Unidos, e a recente vitória de um dos autores, o paulistano Gabriel Bá, como melhor desenhista norte-americano no Harvey Awards. Mas, para o leitor brasileiro que acompanha a trajetória dos trabalhos de Bá e do irmão dele, Fábio Moon, a obra da Devir (128 págs., R$ 18,50) tem um outro atrativo. A publicação mostra uma incursão por um gênero pouco explorado por eles, o terror. Até então, a dupla se pautava em narrativas ancoradas nas pessoas e em seus relacionamentos. A temática nova mostra que ambos conseguem transitar bem e sem receio por outros terrenos quadrinísticos. Consequência de um amadurecimento profissional, conquistado ao longo dos anos por méritos próprios. *** Já faz alguns anos que Bá e Moon flertam com o mercado norte-americano de quadrinhos. Os dois têm galgado um gradativo destaque, refletido nas várias premiações e indicações conquistadas por lá. "Pixu" é outro reflexo desse novo momento profissional. A obra foi lançada de forma independente primeiro nos Estados Unidos, em 2008. Agora, chega ao Brasil. É uma nova parceria com a italiana Becky Cloonan - que vive no Brooklyn - e do grego Vasilis Lolos. Os quatro - com o brasileiro Rafael Grampá - ja haviam trabalhado juntos na revista "5", premiada no Eisner de 2009 na categoria antologia. *** Esta história de terror é ambientada num enorme casarão, que abriga diferentes pessoas. Aos poucos, todas percebem manchas escuras no entorno de onde estão. As enigmáticas marcas, aos poucos, começam a afetar a vida delas. E o modo como vivem e agem. Os quatro autores se alternam nos desenhos durante toda a trama. "A Becky e o Vasilis gostam de Lovecraft, de monstros e vampiros. O Fábio e eu temos medo do escuro, daquilo que você não vê, não sabe o que é, mas imagina. O terror do inomimável", explica Bá em seu blog, o "10 Pãezinhos". "Foi diante deste suspense em relação aos monstros invisíveis que se escondem nas sombras da nossa imaginação que nasceu o "Pixu"." *** A palavra que dá título à série, como explica a página inicial do álbum, quer dizer "a marca do mal que prenuncia a morte iminente". O termo sintetiza exatamente o que a trama oferece ao leitor. Mas, por mais que se paute no medo, a obra revela coragem. Coragem dos autores brasileiros de fazer uma produção diferente da que estão acostumados, buscando experimentar novos caminhos na área. O resultado é um terror mais psicológico, que tem um lançamento paulista nesta quarta-feira à noite, em São Paulo, na Fnac Pinheiros. A primeira sessão de autógrafos foi na semana passada no FIQ, Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte.
Escrito por PAULO RAMOS às 15h43
[comente]
[ link ]
13.10.09
Tocaia mostra lado quadrinista de Gilberto Maringoni 
"Tocaia e Outros Quadrinhos" reúne 14 histórias feitas pelo desenhista entre 1989 e 2002 Gilberto Maringoni é um profissional eclético. Professor de jornalismo, pesquisador, autor de livros-reportagem, arquiteto por formação, doutor em história. Outra das habilidades dele é a de autor de histórias em quadrinhos. É essa faceta que pauta "Tocaia e Outros Quadrinhos", que ele lança nesta terça-feira à noite em São Paulo (Devir, 112 págs., R$ 45). O álbum é uma coletânea de 14 narrativas feitas por ele entre 1989 e 2002. A maior parte foi publicada no Brasil. Algumas, em países europeus. Mais do que uma reunião de histórias, a obra tem uma segunda função: a de apresentar a uma nova geração quem foi Gilberto Maringoni, autor que merece ser (re)descoberto. *** Maringoni é da geração de Lourenço Mutarelli, Marcatti, André Toral. Autores que viveram a duras penas a tarefa de publicar quadrinhos nacionais no país na década de 1990. Esta coletânea é uma metonímia desse processo. Basta observar algumas das revistas onde as histórias foram publicadas: "Kyx-93", "Lúcifer", "Panacéia", "Metal Pesado". São publicações que tiveram uma saúde editorial diferenciada, umas duraram mais, outras menos. Mas todas tiveram o mesmo fim terminal, como em geral ocorria na época. Mas, em meio à UTI editorial que eram os quadrinhos nacionais adultos de então, conseguiam-se resultados muito bons. As histórias de Maringoni comprovam isso. *** O autor faz contos em quadrinhos. Narrativas curtas, porém pontuais, críticas, atuais apesar da distância de tempo de quando foram publicadas. Maringoni tentou agrupar as histórias por temas, de modo a dar uma espécie de unidade à leitura. Não precisava. O tema urbano, às vezes biográfico, domina o conteúdo delas. Talvez por influência da formação de arquiteto, formado pela Universidade de São Paulo, o cenário urbano aparece com maior ou menor destaque em seus contos. Nas de maior destaque, tornam-se o tema central do conto. Como no de abertura, em que o viaduto do Minhocão, em São Paulo, cruza o apartamento de um dos moradores. *** Chargista, Maringoni tem centrado seus últimos trabalhos em quadrinhos nesse gênero. Por isso, ainda é pouco conhecido por uma nova geração. "Tocaia e Outros Quadrinhos" ajuda a trazer as histórias dele a novos leitores e também a pessoas que normalmente não costumam ler histórias em quadrinhos. Mesmo para quem já leu as produções dele aqui e ali, todas esparsas, a leitura em sequência ajuda a revelar nuances comuns entre os roteiros, agora redescobertos. Maringoni é um autor acima da média, como revelam estes contos. O momento editorial é mais tranquilo que o dos 90. Quem sabe ele resolva apostar novamente na área. *** Serviço - Lançamento de "Tocaia e Outros Quadrinhos". Quando: hoje (13.10). Horário: das 18h30 às 21h30. Onde: livraria Martins Fontes. Endereço: Avenida Paulista, 509.
Escrito por PAULO RAMOS às 11h00
[comente]
[ link ]
05.10.09
MSP 50 lança novo olhar aos antigos personagens de Mauricio 
Capa do livro em homenagem ao pai da Truma da Mônica, obra que tem um segundo lançamento nesta semana em Belo Horizonte Se você tivesse carta branca para fazer uma leitura pessoal dos personagens criados por Mauricio de Sousa, o que você faria? E o principal: como faria? Essas duas perguntas sintetizam a proposta de "MSP 50: Mauricio de Sousa por 50 Artistas", livro feito para homenagear o meio século de carreira do criador da Turma da Mônica. A publicação tem lançamento nesta quarta-feira, em Belo Horizonte (MG). A obra traz cartuns, tiras e quadrinhos feitos por um rol plural de desenhistas e roteiristas nacionais. Tão plural que dificilmente seriam reunidos num outro projeto em quadrinhos. Mas é exatamente esse raro tom eclético um dos sabores da publicação. O outro é ver como cada um dos autores interpretou as criações de Mauricio. *** A ideia de mesclar diferentes autores, cada um com uma versão pessoal de dado grupo de personagens, na verdade, não é nova, como já lembra a introdução de "MSP 50". "Asterix e Seus Amigos" e "25 Anos do Menino Maluquinho", para ficar em dois exemplos, já haviam usado o recurso. Mas o interesse não está na ideia, e, sim, no resultado. E o resultado apresentado no livro faz jus à - merecida - homenagem a Mauricio de Sousa. É o único autor nacional que criou um mercado próprio e o manteve por décadas. Além de criador, é um empresário bem-sucedido, que tem demonstrado novo fôlego editorial após a troca da Globo pela Panini. "Turma da Mônica Jovem" é uma das provas disso. *** Como toda reunião de histórias, vai haver quem goste mais de determinada história e menos de outra. Por isso, destacar uma delas esbarra necessariamente na subjetividade. Mas podem-se encontrar duas tendências entre os trabalhos: ou a narrativa faz uma homenagem explícita a Mauricio ou ajusta o foco em situações dos personagens dele. Em comum, o fato de serem leituras pessoais pautadas nas criações dele. Parte dos desenhos já havia circulado pela internet antes mesmo da finalização da obra. Blogs de desenhistas - amplificados pelo megafone virtual chamado Twitter - já traziam os primeiros esboços de como fariam suas histórias. Isso acentuou a expectativa pelo projeto. *** O homenageado do álbum é um dos motivos para comprar a obra. Mas a publicação tem outros 50 motivos para atrair a atenção do leitor. São eles: Laerte, Rodrigo Rosa, Flávio Luiz, Gilmar, Daniel Brandão, Lélis, Antônio Éder, Cau Gomez, Laison Cavalcanti, Fido Nesti, Julia Bax, Orlandeli, Ivan Reis, Baptistão, Mascaro... ... Fábio Yabu, Jean Galvão, Raphael Salimena, Benett, Fábio Moon, Gabriel Bá, João Marcos, Jean Okada, Otoniel Oliveira, José Aguiar, Angeli, Samuel Casal, Fábio Lyra... ... Osmarco Valladão, Manoel Magalhães, Antonio Cedraz, Erica Awano, Luciano Félix, Gustavo Duarte, Fernando Gonsales, Vinicius Mitchell, Fernandes, Rafael Sica, Spacca... ... Wander Antunes, Fabio Cobiaco, Ziraldo, Christie Queirza, Dalcio Machado, Jô Oliveira, Guazzelli, Laudo, Marcelo Campos, Renato Guedes, Vitor Cafaggi. *** Como dito, um grupo eclético e plural, de diferentes gerações, que dificilmente seria reunido numa obra em quadrinhos, ainda mais num mercado que ainda não estimula tal encontro. Além de a obra servir de homenagem, funciona também como cartão de visitas para autores ainda desconhecidos do grande público. Seria interessante reunir todos num mesmo lugar para um lançamento. A obra já teve uma primeira sessão de autógrafos no mês passado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Mauricio faz um segundo lançamento na próxima quarta-feira, às 17h, no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em Belo Horizonte. O FIQ tem início nesta terça-feira. *** Serviço - Lançamento de "MSP 50 - Mauricio de Sousa por 50 Artistas". Quando: quarta-feira (07.10). Horário: 17h. Onde: FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos). Endereço: Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG). Endereço: Avenida Afonso Pena, 1.537. Quanto: capa dura (R$ 98); capa cartonada (R$ 55).
Escrito por PAULO RAMOS às 11h40
[comente]
[ link ]
30.09.09
Indicação de Alienista ao Jabuti revela um outro olhar sobre HQs A adaptação em quadrinhos do conto "O Alienista", de Machado de Assis (1839-1908), não levou o Prêmio Jabuti deste ano. Os vencedores foram divulgados nessa terça-feira. Mas a própria escolha da obra numa premiação da Câmara Brasileira do Livro revela muito mais do que a conquista do primeiro lugar, que ficou com o "O Matador", de Odilon Moraes. Mostra como parte das editoras e dos não-leitores de quadrinhos têm enxergado esse novo momento da área no país, com adaptações aos montes e conquista de espaço em livrarias. A adaptação não concorreu como obra em quadrinhos. Foi indicada para a categoria "ilustração de livro infantil ou juvenil", um indício de como foi recebida no meio editorial. *** Não se pode obrigar alguém que não lê quadrinhos a entender esse meio, às vezes tão difícil de ser compreendido até por quem está acostumado às leituras sequenciais. Por isso, é uma visão que deve ser respeitada. Isso, no entanto, não tira o fato de que lê de forma nublada o que seja uma adaptação. Ou até mesmo quadrinhos. Parte-se de dois pressupostos. Primeiro: uma história quadrinizada é produzida por um roteirista e um desenhista (ou um profissional que acumule os dois encargos). Segundo pressuposto: por ser uma adaptação, ela transpõe o conteúdo original para uma outra linguagem, de uma outra forma. Não precisa ser, necessariamente, a mesma obra. *** Seguindo essa linha de raciocínio, a versão de "O Alienista" pode seguir - e o fez - o texto machadiano o mais fielmente possível. Mas não deixa de ser uma versão do conto. No caso em pauta, a leitura que o roteirista Luiz Antonio Aguiar e o desenhista Cesar Lobo - indicado ao Jabuti - fizeram do conto. A obra é mais deles do que Machado. É aí que entra a visão editorial. É mais interessante destacar, inclusive na capa, o nome do romancista, e não de quem adaptou a obra. Aguiar e Lobo aparecem em letras menores. Isso quando aparecem. Há casos de outras adaptações, como a de "A Luneta Mágica", de Joaquim Manuel de Macedo, que nem creditam na capa os autores. *** O recurso é compreensível em termos mercadológicos. Machado de Assis e outros romancistas têm um nome mais conhecido, por isso mais atraente para vendas. E o objetivo, não custa registrar, pauta-se exatamente nas vendas, em particular para as listas governamentais, atual febre entre editoras que nunca publicaram quadrinhos. Mas a estratégia editorial acaba influenciando o outro extremo do processo: a pessoa que lê tais obras, que não necessariamente está acostumada com quadrinhos. O mesmo vale para o rótulo "ilustrador" dado a Cesar Lobo no Jabuti. Naquela adaptação, ele não foi ilustrador. Foi desenhista, co-autor do processo de criação. *** Registre-se que não são todas as editoras que fazem isso. A própria Ática, que publicou esta versão de "Alienista", pôs na capa o termo "arte" para o trabalho de Cesar Lobo. Mas a indicação de ilustrador de livro infantil ou juvenil num prêmio do porte do Jabuti sugere que a obra foi vista como livro infantil, e não como quadrinhos. Outro caso assim: a mais recente adaptação lançada no mercado, "Iracema em Quadrinhos", também destaca na capa o desenhista, Jão, como "ilustrador". É uma visão nublada do que seja tanto história em quadrinhos quanto livro infantil. Embora, sabe-se, a fronteira entre as duas áreas esteja cada vez menor. *** Ver tantas adaptações, apesar de nelas haver um claro interesse comercial, não deixa de ser bom. Pode ampliar no país o número de leitores, inclusive de quadrinhos, e até fomentar um ensaio de mercado para os autores. Mas não deixa de ser importante registrar como tais produções têm sido recebidas e lidas por parte do mercado editorial. O lado "quadrinhos" é posto num segundo plano. Ao mesmo tempo em que sugere um fortalecimento dos quadrinhos, cria uma nova visão sobre eles, bem diferente de como realmente são.
Escrito por PAULO RAMOS às 10h12
[comente]
[ link ]
29.09.09
Ranma 1/2 ganha nova chance no Brasil 
Mangá voltou a ser publicado neste mês pela editora JBC A sobrecarga de mangás nas prateleiras das bancas de jornal brasileiras não significa que todos valham os reais e a atenção do leitor. Mas há, de quando em quando, um ou outro título que merece uma atenção especial. É o caso de "Ranma 1/2", que começou a ser vendido neste mês (JBC, 186 págs., R$ 10,90). O mangá ganha uma nova chance no Brasil. A série havia sido iniciada, mas não encerrada, pela Animangá. A editora publicou as histórias no chamado formato americano, como o das revistas de super-heróis, e com um terço do número de páginas. A JBC relança a trama do início, nos moldes originais. *** "Ranma 1/2" se pauta num dos pilares de muitos contos de fadas: o protagonista é vítima de uma maldição ou feitiço. No caso, maldição. Ranma Saotome, o personagem-título, cai numa fonte chinesa que fez fama por conta de uma lenda. A água dela transforma os homens em mulheres. O pai do jovem, Genma Saotome, também passa por uma mutação ao entrar na fonte ao lado. Sai sob a forma de um panda gigante. Para pai e filho voltarem ao normal, precisam se molhar com água quente. *** Por mais que os dois personagens tomem cuidado, a autora, Rumiko Takahashi, faz questão de criar situações para que a água fria cruze o caminho de ambos. A estratégia ajuda a criar um tom humorístico para a série, acentuado pelas situações em que Ranma tem de enfrentar. Ele é prometido como noivo para a jovem Akane, exímia lutadora de artes marciais, como Ranma. A troca de sexo, iniciada neste primeiro número, cria boas situações cômicas. Outra parte da graça é criada quando um aluno da escola dos dois jovens, Kuno, se apaixona pela versão feminina de Ranma. *** A primeira tentativa de publicação da série no Brasil não deu muito certo, tanto que o título foi cancelado. Pode ser que, na época, não houvesse todo esse ambiente propício para a circulação de mangás no país. Mas merece uma segunda chance. É um título voltado para adolescentes, que traz uma leitura despreocupada. Despreocupada, mas que diverte e cria boas situações de humor. A JBC pretende publicar a série todos os meses. Segundo o site da editora, estão programadas 38 edições.
Escrito por PAULO RAMOS às 19h23
[comente]
[ link ]
27.09.09
Morte de Super-Homem dificilmente seria a mesma neste novo século 
Série norte-americana é reeditada no Brasil; livro de quase 400 páginas foi lançado neste mês em lojas de quadrinhos A leitura de "A Morte do Superman - Volume 1", relançada neste mês em um livro de capa dura (Panini, 396 págs., R$ 92), esconde muito mais do que a história de fato é.
Houve uma combinação de fatores que ajudaram a tornar a série uma das mais comentadas do início da década de 1990, dentro e fora dos Estados Unidos, Brasil inclusive. A época em que a sequência de histórias foi lançada , entre dezembro de 1992 e janeiro de 1993, havia um clima editorial pró-personagens mais violentos e menos certinhos. Também não iam tão bem as vendas das quatro revistas mensais do herói, "Superman", "Superman: The Man of Steel", "The Adventures of Superman" e "Action Comics". *** A soma desses elementos ajudou a criar no público a impressão de que a editora não via futuro num personagem tão politicamente correto. Daí a decisão da morte. Sabe-se, hoje, que não é verdade. Mas a DC Comics, que publica o herói nos Estados Unidos, soube alimentar tal sensação na mídia pré-internet. Não demorou para o assunto tomasse as imprensas escrita, televisiva e radiofônica. As matérias, em geral, davam voz à decisão de a editora matar o Super-Homem. No Brasil, mais de uma publicação abordou o tema, com maior ou menor ceticismo. Chegou a haver disputa acirrada e até briga para conseguir um exemplar original aqui no país. *** O ponto é que o assunto saiu do âmbito do leitor tradicional e chegou até pessoas que normalmente não tinham o hábito de ler quadrinhos, incluindo os do herói, criado em 1938. Mike Carlin, editor das revistas do herói na época, diz na introdução desta reedição que a ideia inicial não era uma jogada de marketing. Era apenas contornar uma trama abortada. O grupo de autores - três roteiristas, três desenhistas e um, Dan Jurgens, que acumulava as duas funções - queria casar Clark Kent, alter-ego do herói, com a repórter Lois Lane. Os dois já haviam iniciado um namoro e firmado noivado em edições anteriores. O plano, no entanto, foi cancelado a pedido da empresa. O motivo: o seriado que começaria na TV. *** "Lois & Clark - As Novas Aventuras do Superman" - nova traduzido no Brasil - estrearia em 1993 e tinha como mote o relacionamento dos dois personagens centrais. A ideia da empresa seria prorrogar o enlace até que casasse com o momento da série mais propício para isso, o que, de fato, ocorreu poucos anos depois, na TV e no papel. Uma das alternativas, dada pelo roteirista Jerry Ordway, foi matar o personagem. Ideia aceita, foram traçadas as linhas gerais das sete histórias que culminariam na morte. Super-Homem iria enfrentar um ser indestrutível, Apocalypse, criado especificamente para a trama. A cena final, mostrada em "Superman" número 75, mostrada a queda de ambos. *** Se a série não tinha de início um interesse marqueteiro, se valer a descrição de Carlin, o desfecho seguramente teve. E foi acentuado pela editora, não só nas entrevistas à mídia. À morte se seguiu uma nova série, "Funeral para um Amigo", também nas revistas mensais. As oito partes foram reunidas neste livro da Panini, porém com cortes. Para acentuar o clima de "o herói morreu mesmo", a DC deixou de circular as quatro revistas mensais por dois meses e meio. Isso, claro, atiçou dúvida nos leitores. A circulação foi retomada em junho de 1993, com a edição 500 de "The Adventures of Superman". As quatro revistas mensais traziam uma versão diferente baseada no herói. *** Uma versão meio homem e meio máquina, um clone adolescente, um negro de armadura com o "s" do homem de aço e um ser enigmático, com um novo visual do uniforme. A estratégia da editora era cliar um clima de dúvida: Qual dos quatro seria o verdadeiro? Essas primeiras histórias também foram reunidas no livro. O desfecho da série fica para o segundo volume, sem data de lançamento informada pela Panini. Mas, de um jeito ou de outro, já se sabe como terminou a história: Super-Homem voltou, como normalmente ocorre no gênero super-heróis, por mais que as editoras neguem. *** A série foi lançada no Brasil pela primeira vez pela Abril, que detinha então os direitos de publicação dos personagens da DC Comics. Saiu num especial, em novembro de 1993. Esta nova edição traz outra tradução e usa o formato original norte-americano. A revista da Abril foi lançada no chamado formatinho, semelhante ao das revistas infantis. Ocorreu com a série algo que dificilmente seria repetido hoje com a velocidade da internet. Houve algo assim há pouco com a "morte" do Capitão América, mas em menor escala. Apesar do marketing, a morte do Super-Homem rendeu uma boa história e um caso editorial que merece ser registrado. Pontos que mais do que justificam uma reedição.
Escrito por PAULO RAMOS às 15h12
[comente]
[ link ]
24.09.09
Realidade e ficção dão tom da melhor coletânea da Allan Sieber 
"É Tudo Mais ou Menos Verdade", que tem lançamentos hoje, no Rio de Janeiro, reúne trabalhos publicados em diferentes jornais e revistas O desenhista Allan Sieber já conta com um pequeno catálogo de coletâneas, a maioria de tiras. Sua nova reunião de trabalhos não desmerece, mas supera as anteriores.
"É Tudo Mais ou Menos Verdade - O Jornalismo Investigativo, Tendencioso e Ficcional de Allan Sieber" (Desiderata, 128 págs., R$ 49,90), que tem lançamento nesta quinta-feira à noite no Rio de Janeiro, apresenta um diferencial em relação às demais. Há nas histórias - ou ao menos em parte delas - a presença de um olhar mais pessoal e bem-humorado do autor sobre assuntos dos mais diferentes. De um safári às favelas cariocas aos desfiles do Fashion Rio. De uma noite no camarote carnavalesco da Brahma às palestras da Flip, em Paraty (a mais recente, feita em agosto). *** A maior parte das histórias curtas da coletânea é de situações ficcionais, previstas no título do álbum. Mas o destaque da obra está na outra parte do título: no jornalismo tendencioso. A bem da verdade, não se trata de jornalismo. Ou, se for, aproxima-se mais do jornalismo gonzo, modo de narrar popularizado pelo norte-americano Hunter Thompson (1937-2005). Thompson ia além dos relatos. Participava das histórias que reportava. Registrava suas impressões, sentimentos. Desmontava o mito da objetividade jornalística em favor do eu. É o que faz Sieber ao registrar suas impressões pessoais - e por isso tendencioso - a respeito do que era pautado. Está aí o sabor dos relatos feitos por ele. *** A proposta dos relatos é transformar Sieber numa espécie de estranho no ninho. Ele tem de registrar situações das quais não faz parte. A contradição em geral é divertida. Cabe a ele reproduzir no papel fragmentos do que vê e de como vê os momentos presenciados. Com um detalhe: ele explicita o que normalmente fica guardado na memória de cada um. Um exemplo durante desfile do Fashion Rio: "De repente, um peito de uma modelo escapa do vestido. Ela se mantém impassível. Grande momento. Foi o primeiro desfile que aplaudi". O tom pessoal pode, às vezes, estar no título, como no relato sobre a Festa Literária de Paraty deste ano. Sieber chamou a história de "A Feira das Vaidades". *** Esta nova coletânea reúne histórias feitas em diferentes publicações, de jornais a revistas como "Playboy", "Sexy", "Trip" e "Piauí". Há também algumas inéditas, feitas aqui e ali. Nem todas, não custa reforçar, enquadram-se nos relatos pessoais de Sieber. Há material estritamente ficcional e outros, mais autobiográficos, como sua infância religiosa. Conteúdos tão divergentes ajudam a tornar esta a mais completa coletânea de trabalho do desenhista e, por isso, a melhor. Mas vale avisar as autoridades: é para adultos. Tanto que uma das histórias é da coletânea "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol", obra adulta levada em maio pelo governo de São Paulo a crianças de nove anos. *** Allan Sieber está envolvido em dois outros projetos: uma adaptação de contos de João do Rio e um piloto para TV da série "Vida de Estagiário". Leia mais na postagem de 14.07. *** Serviço - Lançamento de "É Tudo Mais ou Menos Verdade - O Jornalismo Investigativo, Tendencioso e Ficcional de Allna Sieber". Quando: hoje (24.09). Horário: das 19h30 às 22h30. Onde: Cinemateque. Endereço: rua Voluntários da Pátria, 53, Botafogo, Rio de Janeiro. Quanto: R$ 49,90.
Escrito por PAULO RAMOS às 11h38
[comente]
[ link ]
14.09.09
Umbigo sem Fundo acentua diálogo entre literatura e quadrinhos 
Capa do livro escrito e desenhado pelo norte-americano Dash Shaw, à venda nas livrarias Há um inevitável estranhamento no primeiro contato com "Umbigo sem Fundo", obra do selo Quadrinhos na Cia. que começou a ser vendido neste mês nas livrarias (R$ 59). O incômodo inicial é por conta do tamanho do livro: 720 páginas, algo incomum no mercado brasileiro. Fica até a dúvida o produto de 1,1 kg é mesmo um trabalho em quadrinhos. Assimilada a ideia de que as páginas trazem, sim, quadrinhos, começa um outro - louvável - estranhamento: entender exatamente qual é a proposta da obra. Tal qual um trabalho literário, traz uma narrativa sobre relacionamentos humanos, pronta a ser descoberta, página após página. E ajuda a instigar o diálogo entre literatura e HQ. *** Sabe-se - ou defende-se - que quadrinhos e literatura compõem linguagens distintas e autônomas. Mas nunca se negou que exista uma forte relação entre as duas áreas. "Umbigo sem Fundo" ajuda a aproximar essas fronteiras. O modo de narrar a história é semelhante ao lido nos romances ou contos um pouco mais longos. Há também uma intenção editorial nesse sentido. A lombada do livro, escrito e desenhado pelo norte-americano Dash Shaw, registra que a obra reúne "vários tipos de gêneros". São listados seis: família, comédia, drama, horror, mistério (este, sublinhado) e romance. Há muito de família e de romance. Pouco do restante. *** A história relata o encontro da família Loony. A reunião foi marcada na casa de praia dos pais, Maggie e David, que decidem se separar após 40 anos de união. A separação permeia o reencontro com os três filhos - Dennis, Jill e Peter - e com os netos, mas serve também como forma para cada um reavaliar a si próprio e(m) seus relacionamentos. Não é uma narrativa excepcional, assim como não era "Retalhos", uma das obras que inauguraram o selo de quadrinhos da Companhia das Letras. Mas ambas apresentam bons relatos ao leitor, acentuados pela forma como são narrados. Ou, como acertadamente queria Will Eisner, tornam-se novelas ou romances gráficos. *** O debate se quadrinhos são literatura pode avançar se for mudado o foco da análise. Embora autônomas, as duas manifestações artísticas apresentam diálogos. O que resulta, então, dessa aproximação? Quais são os elementos literários presentes nos quadrinhos e - questão geralmente esquecida - como estes os recriam? A obra de Dash Shaw ajuda a trazer algumas respostas. Uma delas, a título de exemplo, está em Peter, caçula dos Loony, desenhado com dedos de Mickey Mouse e rosto de sapo. Seus traços revelam de imediato que ele destoa dos demais familiares. É uma resposta visual à personagem plana - menos complexa - imaginada por E. M. Foster para o romance. *** Há outras soluções próprias, que os quadrinhos recriam a partir do literário, inclusive na temática, mas que ganham outra cor e forma na linguagem em que estão abrigados. Sístole e diástole, aproximação e fronteira, romance e quadrinhos. Há dualidades entre o literário e o quadrinístico que já passou da hora de serem investigadas. Os autores de quadrinhos já criaram um catálogo suficiente que justifica um madurecimento entre os dois campos, ora com contribuições estéticas maiores, ora menores. As páginas criadas por Dash Shaw se enquadram nas contribuições maiores. É um bom exemplo para entender melhor como se dá a aproximação - e a recriação - entre as áreas. *** Nota: Dash Shaw lançou o livro na Bienal do Livro do Rio de Janeiro e participa de um bate-papo sobre a obra em São Paulo nesta terça-feira. O encontro terá a participação dos brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon. Será às 19h30 na Saraiva Megastore do shopping Pátio Paulista (rua Treze de Maio, 1.947).
Escrito por PAULO RAMOS às 19h10
[comente]
[ link ]
13.09.09
Livro relança violência urbana das histórias de Questão 
Obra reúne seis primeiras aventuras do herói, publicadas pela primeira vez há 22 anos Eu era um adolescente que cursava o segundo ano do colégio quando li pela primeira vez uma história do personagem sem rosto Questão numa das revistas de Batman, da Abril. Uma das tramas resistiu ao tempo e ficou colada na memória. Foi publicada no sexto número do título do homem-morcego, de fevereiro de 1988. O que diferenciava a história era a forma como foi contada. O protagonista era um personagem secundário. O foco narrativo estava em diferentes moradores de Hub City. Um deles pensava em se matar. Subiu no topo de um prédio e ensaiava pular. Uma lufada de vento acelerou a decisão. Silêncio. Texto do último quadrinho: "ele mudou de ideia". *** Há um inegável convite de nostalgia a releitura da história, relançada no livro "Questão - Zen e a Arte da Violência" (Panini, 176 págs., R$ 49,90), à venda em lojas de quadrinhos. Aquela narrativa que me marcou é uma das seis da obra, as primeiras do herói Questão, publicadas nos Estados Unidos entre fevereiro e julho de 1987. A revisão de hoje da leitura de ontem revela que aquela trama que marcou - a quinta da série - continua sendo a melhor desta coletânea. Não por saudosismo. Pela qualidade mesmo. O atrativo dela permanece: é narrada por fragmentos da vida dos moradores da fictícia cidade norte-americana, envolta em caótica violência por conta da fragilidade do prefeito. *** Hub City tem no prefeito uma marionete. Quem efetivamente comanda é o reverendo Jeremiah Hatch, que procura acentuar a violência para instigar intervenção divina. Questão e o repórter investigativo Vic Sage, que são a mesma pessoa, exercem em seus diferentes papéis sociais um contraponto à corrupção municipal. O subtítulo da obra - "zen e a arte da violência" - também se pauta no herói. Derrotado e dado como morto no fim da trama, ele encontra na fiolosofia marcial um renascimento. E volta a enfrentar a truculência urbana de Hub City, com a mesma marca registrada: uma máscara que esconde seus traços faciais e o torna um enigmático homem sem rosto. *** As primeiras histórias do Questão - estas e outras que vieram - foram publicadas no Brasil nas revistas "Batman" e "Caçadores", ambas da Abril, entre 1987 e 1991. A arte é de Denys Cowan e o texto, de Denny O´Neil, escritor conhecido pelos roteiros de Batman e de Lanterna e Arqueiro Verde na primeira metade da década de 1970. É um material que justifica relançamento. Pela qualidade e pelo apelo de apresentar o personagem aos novos leitores, que o viram morrer há pouco na minissérie "52", da Panini. São boas tramas. Mas nada que justifique uma edição tão luxuosa - em capa dura - e, por consequência, cara. As lembranças poderiam ser recuperadas de forma mais modesta.
Escrito por PAULO RAMOS às 22h45
[comente]
[ link ]
10.09.09
Ziraldo vence de goleada partida do Corinthians em quadrinhos 
Capa de "Todo-Poderoso Timão em Quadrinhos", que relembra fatos e jogadores marcantes nos quase cem anos do Corinthians Na partida quadrinística entre Ziraldo e a versão em estilo mangá disputada no campo de futebol corintiano, o pai do Menino Maluquinho venceu. E de goleada. A leitura feita por ele - ou pelo estúdio dele - sobre o time paulista é mais completa e qualitativamente superior ao álbum em mangá lançado em julho, também sobre o clube. "Todo-Poderoso Timão em Quadrinhos" (Globo, 112 págs., R$ 25), já à venda, traz pequenas crônicas vividas por dois fanáticos pelo time, Mosquete e Mosquetinho, pai e filho. Este aprende com as memórias daquele sobre o passado de glórias do Corinthians, da fundação em 1910 à conquista dos títulos recentes. O relato ficcional se mescla ao real. *** E, em meio aos passeios nostálgicos, entram no campo dos quadrinhos uma seleção de jogadores que já passaram pelo clube e que marcaram época. Sócrates, Marcelinho Carioca, Gilmar, Casagrande, Ronaldo. Cada um surge por meio dos relatos, lembrados por conta de feitos ou de títulos que ajudaram a vencer. O formato narrativo - o do pai corintiano ensinando o histórico do time ao curioso filho - ajuda a aproximar a obra dos leitores mais jovens, que descobrem hoje os feitos de ontem. E torna mais dinâmica a maneira de apresentar o passado do time ao torcedor, não só o infantil, verdadeiro público-alvo da publicação. Pode agradar até quem prefere outro time. *** O álbum foi planejado para marcar o centenário de criação do time, que será comemorado no ano que vem. Cumpre a pauta, sem dúvida. E acerta em tudo o que a obra "Timão em Estilo Mangá" errou. A história imaginada pela equipe de Ziraldo tem ritmo, desenho, estrutura narrativa, referências explicadas. Até no número de páginas e no preço é mais atraente. A forma em estilo mangá foi lançada em dois formatos. O de luxo custava R$ 59,90. O com capa cartonada, R$ 29,90. Se fosse uma partida, Ziraldo teria ganhado com placar dilatado, de goleada. E o juiz teria dado cartão vermelho para o concorrente em estilo mangá. Por má fé contra o torcedor.
Escrito por PAULO RAMOS às 23h27
[comente]
[ link ]
24.08.09
Ragu se reinventa e se torna antologia em formato de luxo 
Capa de Eloar Guazzelli para o sétimo número da publicação, que passa a ser feita em formato de livro de luxo, com 240 páginas Quando o leitor da "Ragu" saiu de casa e foi comprar a edição mais recente da obra em quadrinhos, viu que ela havia se metamorfoseado. E não era sonho. O título recifense abandonou os limites da revista e abraçou outro formato, o do livro. O sétimo número, lançado na noite desta segunda-feira em São Paulo, é uma obra de luxo, com capa dura, papel especial e 240 páginas. Custa o que oferece: R$ 40. O conteúdo também é proporcional à pompa do formato. Há uma clara intenção de a publicação alcançar um outro nível qualitativo. E consegue. *** O formato difere dos números anteriores, mas a proposta básica se mantém: reunir histórias em quadrinhos de autores de diferentes partes do país. Esta sétima edição traz trabalhos de Eloar Gazzelli, Rodrigo Rosa, Marcelo D´Salete (uma história forte), Daniel Caballero, Fábio Zimbres, João Lin, Christiano Mascaro. Os dois últimos acumulam também a função de editores da obra. E de manter contato com autores de outros países, da Espanha e da América do Sul, unidos pelo castelhano. A presença deles realça ainda mais a relevância da obra. Não é sempre que quadrinistas sul-americanos publicam pelas bandas de cá. E numa antologia tão destacada. *** Olhando no retrovisor do tempo, percebe-se com maior nitidez a metamorfose da "Ragu". Nos dez anos de existência, passou de fanzine a revista, de revista a livro de luxo. O conteúdo melhorou, aprimorou-se, abriu as páginas para autores de fora. E para análises, como a de Daniel Bueno sobre a passagem de Steinberg em Recife, neste número. A "Ragu" - que perdeu o acento agudo, outra metamorfose - tem se mantido por meio de incentivos públicos. Esta edição foi produzida com verba do governo de Pernambuco. O dinheiro nubla um pouco o tom independente, mas não o teor autoral. Quiçá todos vertessem verba pública em produtos como esta "Ragu", que reinventou, como este volume, o modo de fazer antologias de quadrinhos aqui no Brasil.
Escrito por PAULO RAMOS às 22h12
[comente]
[ link ]
23.08.09
Censura a quadrinhos dá tom político a entrega do HQMix Houve dois temas recorrentes nos discursos de agradecimento dos premiados do 21º Troféu HQMix, entregue na noite de sexta-feira, no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo. O primeiro foram os dotes físicos de Mirza, personagem de Eugênio Colonnese que serviu de molde para a estátua dada aos vencedores. Foi assunto da maioria das falas. O outro tópico teve um verniz político, motivado pela presença do ministro da Educação, Fernando Haddad. É a primeira vez que uma autoridade federal participa da festa. Haddad compareceu para receber o troféu de contribuição à área, por incluir desde 2006 obras em quadrinhos na lista do PNBE, Programa Nacional Biblioteca da Escola. *** A escolha do programa federal foi feita pela comissão organizadora do prêmio e teve duas funções na prática: uma de reconhecimento; outra de resposta a atos de censura. A primeira explicita qualidades do programa, que leva obras a bibliotecas escolares de todo o país e que tem ajudado a oficializar a presença de quadrinhos no ensino. A segunda função, não tão evidente quanto a anterior, serviu justamente para marcar posição sobre a necessidade de uso de histórias em quadrinhos nas escolas. Foi uma espécie de resposta aos atos de censura a obras de Will Eisner realizados em junho por autoridades educacionais dos estados de Santa Catarina e Paraná. *** O caso pautou o discurso de Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva, secretária de Educação Básica do MEC e responsável pela área que cuida das listas do PNBE. "Não podemos ceder à pressão de falsos moralismos, de politicamente corretos", disse, no palco, sob aplausos, no início da cerimônia. Antes da festa, foi ainda mais contundente, em entrevista ao blog: "Foi uma posição hipócrita e moralista." No entender dela, houve despreparo de quem abordou a obra. O principal foco da polêmica foi o livro "Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço", de Eisner. O álbum foi reeditado pela Devir em 2008 e incluído na lista do PNBE. *** Segundo a secretária, uma biblioteca escolar não é uma estante de livraria. Caberia ao bibliotecário restringir o acesso do título aos alunos mais maduros, diz. Ela também teme que as recentes polêmicas possam interferir no processo de seleção das demais obras do programa, feitas por meio de uma comissão. "Eu temo por um excesso de politicamente correto", disse ao blog, antes da festa. O tema voltou ao palco no meio da cerimônia, quando o ministro chegou ao teatro. Ele teve uma fala mais morna. Vê nos quadrinhos uma forma de "chacoalhar" o ensino. *** O excesso do politicamente correto foi tema também da fala de Rogério de Campos, diretor da editora Conrad e premiado como melhor articulista de 2008. Campos fez alusão ao medo que algumas editoras estariam tendo após as recentes polêmicas envolvendo obras em quadrinhos. Segundo ele, o clima é de censura. "As editoras não querem estar coladas com a imagem de obras que tragam, por exemplo, cenas de pedofilia." Pedofilia foi uma das acusações à obra de Eisner. "Com todo o respeito ao ministro, é preciso abandonar os programas de governo e estimular o fazer quadrinhos. Nós estamos nos sentindo oprimidos." *** Minha fala, ao receber o prêmio, também fez referência ao tema. Mas dividi o foco com outra polêmica, a vista em São Paulo com "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol". O álbum, adulto, foi comprado pelo governo estadual para ser dado a crianças de nove anos. Na minha leitura, o equívoco esteve na seleção feita pelo governo e na visão estreita e antiga de enxergar nos quadrinhos um veículo direcionado apenas ao leitor infantil. Defendi, no palco, que a mídia independente de quadrinhos contribuiu para mostrar um outro lado, que conseguiu mudar um pouco o discurso visto e lido na imprensa tradicional. *** Veja nas postagens abaixo como foi a cerimônia de entrega do 21º Troféu HQMix.
Escrito por PAULO RAMOS às 16h29
[comente]
[ link ]
20.08.09
Whiteout perde ritmo de mistério na sequência da série 
Capa de "Whiteout - Ponto de Fusão", segundo volume da série norte-americana que começou a ser vendido neste meio de mês Há uma máxima na indústria artística de que a sequência é pior do que o original. Já há exemplos que derrubam essa frase. Mas a afirmação se encaixa perfeitamente para a continuação da série "Whiteout", que chegou ao Brasil neste meio de mês (Devir, 112 págs., R$ 21,50). "Whiteout - Ponto de Fusão" retoma a protagonista, a agente federal Carrie Stetko, e a põe de novo para desvendar um crime na Antárdida. Desta vez, não se trata apenas de um assassinato. O problema que ela tem de solucionar é quem explodiu uma base russa cheia de armamentos pesados. *** O mistério - ponto alto do primeiro volume, "Whiteout - Morte no Gelo", lançado no Brasil em novembro de 2007 - se perde nesta sequência. Ele até existe. Mas é diluído em meio aos conflitos pessoais da protagonista e ao atraente cenário do gelo, que se torna mortal na caça aos autores do crime. Quem já leu algum roteiro do escritor Greg Rucka, criador da série e também desta história, sabe que ele se ancora em personagens femininas e no tom policial. Há, aqui, a condutora narrativa feminina. Mas ele não consegue repetir o suspense rumo ao necessário desfecho da trama. *** Este álbum nacional reúne as quatro partes da minissérie, lançada nos Estados Unidos pela editora Oni Press. Os desenhos são de Steve Lieber, o mesmo da parte anterior. "Whiteout - Melt", nome original da história, venceu como melhor série, em 1999, o Eisner Awards, espécie de Oscar da indústria norte-americana de quadrinhos. Não era para tanto. Rucka já fez tramas muito mais bem construídas, como comprova o primeiro volume de "Whiteout". O prêmio serve mais como apelo para vendas. O prêmio e a adiada versão para o cinema, "Terror na Antárdida". O longa deveria ter chegado aos cinemas daqui em 2008. O lançamento foi remarcado para outubro.
Escrito por PAULO RAMOS às 10h11
[comente]
[ link ]
18.08.09
Tese vencedora do HQMix mostra que quadrinhos estimulam leitura Embora defendida em maio de 2008, a tese de doutorado premiada no Troféu HQMix deste ano conserva uma pertinente atualidade. A pesquisa de Valéria Bari se debruça sobre um tema antigo, o de que quadrinhos tirariam o interesse dos jovens pela leitura. Ela desmonta a premissa e a reconstrói, ancorada em dados, e não discursos vazios. E o que descobriu foi exatamente o contrário. Os quadrinhos não só estimulam a leitura, como também levam a pessoa a migrar para outros gêneros de escrita. *** Bari acompanhou durante seis anos os hábitos de leitura de estudantes da USP (Universidade de São Paulo), onde fez o doutorado. Depois, confrontou os dados com a realidade da Espanha, para verificar se não se tratava de uma característica apenas dos alunos daqui. O resultado final do estudo confirma a importância das histórias em quadrinhos como fomento à leitura e dá uma novo significado, agora positivo, à expressão "quadrinhos são coisa de criança". O tema ganha ainda mais atualidade após as sucessivas resistências de governos estaduais à inclusão de quadrinhos no ensino, vistas em maio e junho deste ano. *** "Como a linguagem dos quadrinhos sempre foi representativa na leitura infantil e das camadas populares, sua validade cultural é questionada por aqueles que preferem privilegiar linguagens, discursos e obras inacessíveis", disse Bari ao blog, em junho de 2008, um ano antes das polêmicas. No entender da pesquisadora, a leitura de quadrinhos deve ser estimulada, inclusive, dentro de casa, pelos pais. "Uma criança adquire o gosto pela leitura em um ambiente no qual sua infância é respeitada, os seus gostos pessoais são respeitados e as atitudes dos adultos que o rodeiam denotem que a leitura é fonte de prazer e alegria", diz. *** A dissertação de mestrado e o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) premiados neste 21º Troféu HQMix abordaram aspectos de dois desenhistas diferentes.
O TCC estudou a arte de Alberto Breccia, uruguaio que fez carreira na Argentina.
Breccia se caracterizou pelo uso de sombras nos quadrinhos que fazia, algo que veio a ser repetido, décadas depois, pelo norte-americano Frank Miller.
O trabalho foi feito por Pedro Fraz Broering para o curso de design gráfico da Universidade Federal de Santa Catarina. ***
O mestrado vencedor, de autoria de Liber Paz, lançou um olhar literário à produção de quadrinhos do brasileiro Lourenço Mutarelli.
A pesquisa – feita na Universidade Tecnológica do Paraná – investigou o período entre os primeiros trabalhos dele, nos idos dos anos 1980, e o álbum final.
A última obra em quadrinhos de Mutarelli foi o autobiográfico “Caixa de Areia (Ou Eu Era Dois em Meu Quintal)”, lançado em 2006 pela Devir.
Paz concluiu que o trabalho do quadrinista reflete e refrata elementos sociais e tecnológicos, que há uma tendência a abordar temas como solidão e melancolia e que existe uma fixação do autor por figuras deformadas. ***
A entrega do prêmio aos estudos vencedores deste HQMix será na próxima sexta-feira, às 20h, no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo.
O blog noticiou as pesquisas de Liber Paz e de Valéria Bari no ano passado, pouco depois da defesa deles.
(Re)Leia as entrevistas com os dois pesquisadores nas postagens de 31.03.08 e de 11.06.08, respectivamente.
E veja na postagem abaixo quem foram os outros premiados nesta edição do troféu.
Escrito por PAULO RAMOS às 16h23
[comente]
[ link ]
14.08.09
Revista reúne encontros da Turma da Mônica com Michael Jackson 
"Turma da Mônica - Maico Jeca" reedita cinco histórias e traz outra inédita, em homenagem ao cantor A morte de Michael Jackson, no dia 25 de junho, ecoou imediatamente na internet. O assunto passou a dominar os temas de sites e páginas de relacionamento.
Um dos que abordaram o tema foi Mauricio de Sousa. O empresário disponibilizou rascunhos de uma história em quadrinhos em homenagem ao cantor norte-americano. Não demorou para que o trabalho ecoasse virtualmente em sites, blogs e Twitter, rede de comunicação muito usada pelo criador da Turma da Mônica. Criou-se, então, uma expectativa virtual sobre o lançamento da narrativa, publicada nesta semana nas bancas na revista "Turma da Mônica - Maico Jeca" (Panini, 52 págs., R$ 5,50). *** A história, de dez páginas, encerra a edição especial. Mostra a expectativa da Turma do Penadinho para a chegada do cantor após ter morrido. A trama imagina pelo roteirista Paulo Back consegue captar o tom de homenagem que havia nos dias que sucederam o falecimento do artista. Talvez por isso, pela qualidade da história, abriu-se uma exceção. Os autores - Back e o desenhista José Cavalcante - foram creditados, algo que não ocorre nas demais revistas. E que não ocorreu também nas outras cinco histórias da revista, reeditadas de títulos da Turma da Mônica. Elas trazem encontros com outros personagens. *** Lidas em sequências, as narrativas refletem as mudanças físicas pelas quais o cantor passou ao longo dos anos. Os desenhos só registraram como ele era na época. É por isso que seria importante a revista pôr o ano em que as histórias foram publicadas pela primeira vez. Ajudaria a situar melhor o leitor em relação ao artista. Há apenas uma exceção, numa nota de rodapé, que indica ser de abril de 1997 uma das histórias. Mas não é algo que compromete a leitura. O título deve agradar a quem gosta da Turma da Mônica e do cantor. A obra preserva o tom de homenagem, apesar de ter sido pautada por uma oportunidade comercial.
Escrito por PAULO RAMOS às 16h22
[comente]
[ link ]
03.08.09
Álbum francês faz roteiro de cinema ambientado na 2ª Guerra 
"Eu Sou Legião" usa narrativa próxima à dos longas-metragens; álbum mostra arma secreta dos nazistas, que controla mentes humanas O desenhista argentino Alberto Breccia disse, certa vez, que parte dos autores de quadrinhos não haviam se inspirado na linguagem do cinema, mas, sim, copiado. A frase é uma das que atesta a tênue fronteira que existe entre as diferentes formas de narrativa: cinema, teatro, literatura, histórias em quadrinhos. A discussão é antiga, porém sempre atual. E rememorada de quando em quando por conta de alguma história que reduza ainda mais a fronteira entre as linguagens. Uma delas começa a ser vendida no Brasil. O álbum "Eu Sou Legião" (Panini, 180 págs., R$ 49). Trata-se de um bom exemplo de um thriller feito na forma de história em quadrinhos. *** A sensação durante a leitura é a de estar assistindo a um filme. Contribui para isso a falta de balões de pensamento, o uso do silêncio, os cortes ágeis entre os quadrinhos. Outra fator que enriquece o tom cinematográfico é o traço realista de John Cassaday, uma das marcas do desenhista norte-americano. Cassaday é mais conhecido do leitor brasileiro pelos trabalhos feitos nas editoras Marvel e DC Comics, nos Estados Unidos. "Eu Sou Legião" é a estreia dele no mercado europeu. O álbum foi lançado pela francesa Humanïdes Associés em três volumes - ou tomos, como se chama por lá - entre 2004 e 2007. A versão nacional compila as três partes. *** O roteiro imaginado pelo francês Fabien Nury - pouco conhecido aqui no Brasil - se passa na Segunda Guerra Mundial. Ele cria uma mescla de mistério com ficcção fantástica. Os nazistas mantêm uma arma chamada Legião. É uma garota - a mesma mostrada na capa do álbum - que consegue controlar mentalmente outros seres, vivos ou não. Diferentes frentes começa a se organizar para eliminar a menina. Não só dos Aliados, mas também de facções nazistas dissidentes, ligadas à Operação Valquíria. A operação foi uma das tentativas de derrubar Adolf Hitler. A estratégia se tornou popular no ano passado ao ser abordada em um filme estrelado por Tom Cruise. *** Os eventos do álbum se passam antes da operação real, realizada em 1944. Os acontecimentos ocorrem entre o fim de dezembro de 1942 e os primeiros dias de 1943. Mas conseguem, mesmo que ficcionalmente, captar o clima da Segunda Guerra e criar uma interessante obra de mistério, construído aos poucos, como no cinema. A Panini fala deste álbum há bem mais de um ano. Mas, no mercado editorial brasileiro, o leitor já sabe que há de se ter cautela entre os anúncios e a concretização deles. "Eu Sou Legião" marca uma nova visita da editora pelos materiais europeus. A multinacional havia apostado no setor em 2006. Mas não tinha dado sequência.
Escrito por PAULO RAMOS às 10h38
[comente]
[ link ]
30.07.09
Graffiti mescla histórias brasileiras com trabalhos de fora 
Novo número da revista independente mineira traz histórias de dois desenhistas sérvios e de 11 autores nacionais O prato número 19 do cardápio da "Graffiti 76% Quadrinhos" traz um tempero importado. O sabor é sérvio e é trazido pelos desenhistas Maja Veselinovic e Aleksandar Zograf. Os dois são apresentados com destaque ao cliente leitor. O sabor de fora é percebido logo na entrada e, depois, no meio da degustação. Veselinovic aborda o papel de uma ponte para os moradores de uma pequena cidade. Zograf apresenta dois relatos que tentam fazer um jornalismo literário em quadrinhos. O prato, não se deve deixar de mencionar, traz os tradicionais ingredientes brasileiros, preparados na já eficiente cozinha mineira, onde é produzido. *** Os cozinheiros mineiros mantêm, a cada novo prato oferecido aos leitores, uma regularidade rara no sabor dos quadrinhos coletivos produzidos no país. No geral, o cliente encontra o mesmo serviço, mas com sutis mudanças na lista de opções. O garçom Eloar Guazzelli, por exemplo, continua firme e forte por lá. A listagem do cardápio tem um ponto comum: serve quase a mesma proporção em cada uma das histórias. Algumas, é verdade, são mais bem servidas que outra. Mas quem vai perceber isso é quem a degusta. E, tal qual o paladar, é algo subjetivo. Uns irão preferir o que é servido no começo. Outros, o prato principal. Ou a sobremesa. *** O restaurante mineiro é mantido de forma independente já há alguns anos. Mas conta com lei de incentivo à cultura da Prefeitura de Belo Horizonte, o que ajuda muito. É curioso como a cada final de refeição de uma Graffiti bem servida, fica a mesma sensação das edições anteriores, a de já ter saboreado o prato em outras paragens. A receita parecida é da "Fierro", produzida na capital argentina, cidade que também tem um cardápio riquíssimo. Não se trata de cópia de receita. Nada disso. É uma coincidência de ingredientes na hora da preparação. Ter receita nacional parecida com a portenha é sinal de bom apetite. *** Este prato da "Graffiti 76% Quadrinhos" já foi servido e degustado pelos mineiros de Belo Horizonte no começo do mês. Agora, será testado pelo paladar dos paulistas. A receita será oferecida em duas ocasiões. Alguns dos garçons estarão nesta sexta-feira, às 19h, no +Soma, que fica na rua Fidalga, 98, na Vila Madalena. No sábado, dia 1º de agosto, fazem novo serviço na HQMix Livraria, às 19h30. Fica na Praça Roosevelt, 142, no centro de São Paulo. Em tempo: no sábado, também na HQMix Livraria e no mesmo horário, será lançado um informativo de autores independentes do grupo Quarto Mundo. O informativo é de graça.
Escrito por PAULO RAMOS às 22h55
[comente]
[ link ]
27.07.09
Livros produzem híbrido de quadrinhos e literatura infantil 
Capa de "Diário de um Banana - Rodrick É o Cara", obra norte-americana que mescla texto com linguagem das histórias em quadrinhos Não é de hoje que se percebe o quão tênue é a fronteira entre a literatura infantil e as histórias em quadrinhos. Um dos pontos comuns é a presença de imagens. A aposta no elemento visual tem aumentado de uns anos para cá. A ilustração deixou de ser apenas um enfeite para o texto. Ela passou a ser imprescindível para a narrativa. Tanto que a associação dos ilustradores começa a questionar - com razão - de quem seria a autoria da obra: de quem manejou as palavras ou de quem moldou a arte. Duas obras, lançadas de junho para cá, ajudam a nublar ainda mais essa fronteira entre as duas áreas. Ambas mesclam a narrativa em palavras com trechos em quadrinhos. *** O recurso, é verdade, não é inédito. Mas volta à pauta por conta dos dois títulos. Um é "Diário de um Banana - Rodrick É o Cara", de Jeff Kinney (V&R, 244 págs., R$ 32,90). O livro é uma continuação de "Diário de um Banana", lançado no Brasil no ano passado. Nos Estados Unidos, a obra teve boa repercussão e vai ser adaptada para o cinema. A história se ancora em Greg Heffley, um menino comum, que divide o tempo entre a família, a escola, os amigos e as confusões que a vida apresenta. É o próprio Heffley quem narra seu dia-a-dia. O relato é feito em um diário, ganhado da mãe. As frases de Greg são intercaladas por quadrinhos, ficcionalmente feitos por ele. 
"Jahú - Sonho com Asas" também usa quadrinhos para narrar trechos da história O outro lançamento híbrido é o nacional "Jahú - Sonho com Asas" (Panda Books, 56 págs., R$ 28,90). A obra é escrita por Ivan Jaf e desenhada por Ronaldo Barata.
O livro narra a história real do aviador João Ribeiro de Barros (1900-1947). O piloto foi o primeiro brasileiro a cruzar o Atlântico num avião. Apesar de real, a narrativa usa elementos ficcionais para relatar a trajetória de Barros. Ele é mostrado como uma estátua que consegue se mexer quando ninguém está olhando. O aviador encontra o engraxate Almir, um menino que desistiu do sonho de ser advogado. Barros decide relatar sua história para mostrar que as adversidades podem ser superadas. *** No enredo criado por Jaf - autor de mais de uma adaptação literária em quadrinhos -, as cenas do passado são mostradas em quadrinhos. E o engraxate Almir faz parte delas. É outro ponto comum entre os dois livros: en nenhum momento, os quadrinhos funcionam como uma repetição do texto. Pelo contrário. Eles acrescentam elementos à narrativa. Para as editoras, obras assim podem se tornar um bom negócio: concorrem tanto como literatura infantil como em quadrinhos nas atraentes listas compradas pelo governo. Do ponto de vista dos autores, trazem mais um argumento para os defensores da co-autoria. E apresentam um rico caminho estético, que nubla mais a fronteira entre as áreas.
Escrito por PAULO RAMOS às 18h11
[comente]
[ link ]
23.07.09
HQ sobre Corinthians é cara demais para qualidade de menos 
"Timão em Estilo Mangá" conta trajetória recente da equipe paulista e é vendida em duas versões: a mais barata sai por R$ 29,90 e a mais cara, por R$ 59,90 Há uma expressão muito comum que recomenda não discutir sobre preferência de time esportivo e opção religiosa. Ainda mais num país em que, para muitos, o futebol é a religião. O dito tem muito de verdade. A torcida e a crença residem no plano do emocional, não do racional, algo que nubla um debate são. Mas, às vezes, é necessário que a razão prevaleça. É importante ter isso em mente antes de pensar na compra de "Timão em Estilo Mangá", álbum que começou a ser vendido neste encerramento de semana. A obra foi produzida em dois formatos. Um, de luxo e em capa dura, sai por R$ 59,90. Outra, com capa mole, R$ 29,90. Nenhuma das duas versões vale o que oferece. *** Independentemente do time para o qual a pessoa torce - eu, por exemplo, sou sãopaulino - , há de se reconhecer os méritos da trajetória recente do Corinthians. O time caiu para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro em dezembro de 2007. Retornou um ano depois. Contratou e reabilitou o atacante Ronaldo. Neste ano, conseguiu a façanha de ser campeão paulista invicto. São superlativos que tornam a ascensão e a queda quase um roteiro pronto. E atraente. O álbum se propõe a narrar exatamente esse período de um ano e meio na vida do time. Mas o que se lê tira o brilho da rica e saborosa história que o time tem para contar. *** Trata-se de um relato infantilizado e estereotipado. Alguns dos adversários do time nem são citados. Assim como as datas. Nem todas constam, mesmo as relevantes. O ponto alto da narrativa deveria ser o retorno à primeira divisão. Os desenhos - que tentam recriar o traço dos mangás - revelam pouca emoção inclusive nesse momento. A cena mais emotiva do relato sobre o time é o gol histórico de Ronaldo em uma partida contra o Palmeiras, que impediu o Corinthians de perder o jogo. Há, como se vê, problemas de roteiro. E de condução da arte, caricata na pior acepção do termo. É difícil, por exemplo, identificar o Ronaldo real no Ronaldo desenhado. *** Há um explícito interesse marqueteiro neste lançamento. Não há, em tese, algo de mal nisso. O time e a BB - empresa que fez a obra - querem lucrar com o produto. Mas a história muda com relação ao conteúdo. O leitor deve sempre se pautar pela qualidade e tem direito a ela. E não encontra isso nas duas versões do álbum. Isso torna ainda mais obsceno o preço cobrado. E transforma o marketing em oportunismo, às custas do sincero e natural interesse do torcedor corinthiano sobre o assunto. Se imperar a razão, fuja do álbum. É caro e não faz jus ao conteúdo. Muito pelo contrário. Se a emoção falar mais forte, continue fugindo. Se não der, opte, então, pela mais barata. *** Nota: a penúltima página da obra anuncia mais um volume sobre o time: "Centenário em Estilo Mangá". Logo abaixo, aparece um "aguarde". Ou não, a se pautar por este álbum.
Escrito por PAULO RAMOS às 22h56
[comente]
[ link ]
21.07.09
Álbum sobre Revolução de 32 ganha autoelogio de Serra 
Livro sobre a Revolução Constitucionalista foi produzido pela Imprensa Oficial, mantida pelo Estado de SP Ainda há de se dar tempo ao tempo para entender todo o impacto que o Twitter está causando na forma de acesso à informação.
Mas já se percebe pelo menos uma mudança provocada pela rede relacionamentos: ela facilita o contato com opiniões de pessoas de difícil acesso, inclusive para a imprensa. Personalidades, empresários, políticos têm aderido ao novo sistema virtual. Um dos adeptos é o governador de São Paulo, José Serra. Ou @joseserra_, como ele aparece no Twitter. E foi lá que ele twittou, às 4h15 da madrugada do último dia 14, esta frase: "Ótima a HQ sobre a Revolução de 32, do cartunista Maurício Pestana. Saiu pela Imprensa Oficial de SP, que faz bom trabalho na área cultural". *** A frase - com o limite de 140 caracteres, exigência do Twitter - fazia menção ao álbum "Revolução Constitucionalista de 1932 em Quadrinhos", lançado neste mês (R$ 12). O estranhamento do elogio é porque ele destoa do que o mesmo governador disse no começo de maio sobre o livro "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol". Só relembrando: o trabalho, feito por vários autores nacionais, foi comprado pelo governo do Estado para ser levado a estudantes na faixa dos nove anos. A obra é para adultos. O caso foi noticiado pela imprensa e, imediatamente, começou um discurso de desqualificação da obra. Sobre ela, Serra disse que era de muito mau gosto, horrível, inclusive os desenhos. *** Uma opinião tão oposta no Twitter instiga uma investigação mais detalhada sobre a obra, até para se ter um parâmetro mais crítico sobre como o governador vê os quadrinhos. Vendo a obra, percebe-se que não se trata de um elogio, mas de um autoelogio. O álbum - como Serra registra - é da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, mantida pelo governo. Os créditos finais do livro trazem, inclusive, o nome de Serra, na qualidade de governador. Isso ele não registra no Twitter. *** Na página 23, um desenho do ex-governador do Estado Mário Covas, do PSDB, mesmo partido de Serra, reforça o tom elogioso. Foi Covas quem tornou a data feriado estadual. A impressão que fica é que a menção à obra em quadrinhos não seja gratuita. Serra, no ápice do caso Dez na Área, recebeu uma onda de mensagens de repúdio via Twitter. O elogio seria uma forma de ecoar as críticas em sentido contrário. Mais ainda. Segundo o site do governo, o livro vai ser usado pela rede estadual de ensino. Mesmo com o nome do governador aparecendo no expediente em ano pré-eleitoral. E Serra, não custa registrar, é pré-candidato à sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva. *** É importante, no entanto, separar esta análise da obra em si, escrita e desenhada por Maurício Pestana. Ele faz exatamente aquilo a que se propõe o livro. A proposta é explicar, de forma bem didática, o que foi a Revolução Constitucionalista de 1932, que contou com a participação armada dos paulistas contra tropas federais. Para ajudar no tom explicativo, Pestana usa duas crianças. Por meio do diálogo delas é que são reconstruídos os eventos históricos. O autor se baseou em fotos da época para criar as imagens de parte dos quadrinhos. E tomou o cuidado de incluir o papel dos negros na revolução, algo geralmente esquecido.
Escrito por PAULO RAMOS às 20h25
[comente]
[ link ]
20.07.09
Crise final traz nova história para antigo enredo 
Capa do primeiro número da minissérie "Crise Final", que chegou às bancas nesta segunda-feira
O termo "crise" nos quadrinhos da editora norte-americana DC Comics é sinônimo de um desastre universal iminente que irá mexer com a realidade dos super-heróis.
É esse o enredo que pautou as duas outras minisséries que usaram o rótulo: "Crise nas Infinitas Terras", na metade da década de 1980, e "Crise Infinita", há poucos anos. E é o que se vê, pela terceira vez, em "Crise Final". O primeiro número da minissérie começou a ser vendido neste início de semana (Panini, 36 págs., R$ 5,50). A concepção é a mesma. Diferentes versões do planeta Terra, cada uma com uma realidade própria e paralela, correm o risco de serem extintos. E os heróis têm de impedir. *** No meio do caminho, como é de praxe, alguns dos personagens serão redefinidos e outros morrerão. Já há uma perda logo neste primeiro número, um integrante da Liga da Justiça. Tantas crises, que já deveriam ter sido finais há mais de 20 anos, são respostas editoriais a dois comportamentos do mercado norte-americano de super-heróis. Um é a necessidade de criar megaeventos que interliguem os títulos mensais da editora, de modo a turbinar as vendas de Super-Homem, Batman e companhia. A promessa de repaginar os heróis também tem a ver com isso. As mudanças são uma maneira de atrair novos leitores, que encontram um ponto zero para iniciar a leitura. *** Outro motivo que leva às sucessivas crises vistas nos últimos três anos é a concorrência. E a concorrência atende pelo nome de Marvel Comics, editora de Homem-Aranha e X-Men. A Marvel também tem feito suas sucessivas crises. Mas, na realidade ficcional dos super-heróis da empresa, as palavras-chave são "guerra" e "secreta". A primeira foi "Guerras Secretas", nos 1980. Houve há pouco "Guerra Civil", que pôs herói contra herói. A mais recente é "Invasão Secreta", publicada atualmente pela Panini. Na prática, as editoras entram num círculo vicioso, difícil de escapar. Pautam tais eventos para superar uma eventual perda nas vendas. Mesmo que seja reciclando velhas fórmulas.
Escrito por PAULO RAMOS às 22h32
[comente]
[ link ]
19.07.09
Livros trazem mangá que inspirou desenho de Speed Racer 
Capa do primeiro volume - de um total de dois -, que começou a ser vendido neste meio de mês É saudosa a tarefa de resenhar um lançamento como o dos livros que trazem as histórias em quadrinhos que serviram de base para o desenho animado de Speed Racer. As aventuras do jovem piloto foram reunidas em dois volumes, que começaram a ser vendidos neste meio de mês em lojas de quadrinhos paulistanas (NewPOP, R$ 60). O saudosismo está na inevitável associação da leitura com a memória visual da série, arquivada numa sala especial da memória de quem tem mais de 30 anos, meu caso. A animação foi uma das mais vistas e comentadas na infância dessa geração. Os 52 episódios foram exibidos à exaustão pela TV aberta, em particular a Record. *** Sabia-se à época que a produção tinha raízes japonesas. Mas não se imaginava naqueles anos pré-internet é que o desenho havia surgido num mangá, nome dos quadrinhos de lá. O mangá foi publicado no Japão entre 1966 e 1968. Trazia as aventuras do piloto de corridas Speed Racer. Corajoso e hábil, dirigia o carro Mach 5, desenvolvido pelo pai, Pops. A criação do veículo e as primeiras corridas estão descritas nos dois volumes, vendidos numa caixa especial. O primeiro livro tem 296 páginas. O segundo, 328. As histórias são do criador da série, Tatsuo Yoshida (1932-1977). A versão para a TV também é dele. O quadrinista mantinha com os irmãos uma empresa de animação. *** Três das histórias já haviam sido publicadas no Brasil pela editora Conrad, em 2002. O material agora trazido pela NewPOP reúne toda a série, até então inédita no país. A leitura dos dois volumes vai dialogar diretamente com a memória dos adultos de hoje, crianças de ontem. Há cenas e enredos reproduzidos ipsis-literis na série televisiva. Parte das páginas iniciais serviu de base para a abertura do desenho animado. Também estão lá disputas com a equipe acrobática e corredores vilões, como Malange. O primeiro número traz as quatro histórias que iniciaram o mangá. O segundo, outras seis. Uma delas repete, com sutis nuances, o encontro de Speed Racer com o Corredor X. *** Como se dizia na animação, o Corredor X era, na verdade, o irmão de Speed, Rex. Só que o protagonista não sabia disso, o que dava uma cor extra aos contatos entre eles. O mangá traz uma espécie de desfecho na página de encerramento do segundo volume. É algo que envolve diretamente o Corredor X e sua relação com o irmão mais jovem. O que se lê é grande parte do que se via na série, que narrou ainda mais histórias. E corrige um fardo histórico: o de versões quadrinizadas de Speed Racer bem aquém da vista na televisão. *** O personagem teve passagens por diferentes editoras de quadrinhos brasileiras. As primeiras revistas traziam material produzido aqui no Ocidente. A largada foi dada pela Editora Abril, primeiro em um especial, depois em revista própria, publicada entre 1977 e 1979. Durou 18 números. O circuito incluíu a Escala, em 1994. A editora paulista lançou "As Novas Aventuras de Speed Racer". Teve vida curta, duas edições. A Abril retornou ao personagem em 2000, numa minissérie em três edições. A Conrad, como já comentado, havia trazido em 2002, pela primeira vez, parte do mangá. *** A NewPOP havia anunciado em fevereiro que iria lançar o mangá em dois formatos. O leitor poderia comprar a caixa com os dois volumes ou os livros de forma separada. Segundo a editora, criada há dois anos, os custos de produção de menos caixas aumentariam o preço final. A opção foi manter apenas o pacote com as duas obras. O lado pessoal diria que este é um dos melhores lançamentos do ano. O lado jornalista, mais crítico, pede cautela. E lembra que o saudosismo pode ter nublado o superlativo. Mas tanto o telespectador de ontem quanto o jornalista de hoje convergem para um ponto comum: dos mangás lançados neste ano até esta data, é o mais interessante.
Escrito por PAULO RAMOS às 13h45
[comente]
[ link ]
15.07.09
Álbuns encerram séries Predadores e Local 
Capa do quarto e último volume de "Predadores", que começou a ser vendido nesta semana Duas séries que se destacaram em 2008 têm suas partes finais lançadas nesta primeira quinzena de julho. Uma é a francesa "Predadores". Outra é a norte-americana "Local".
A primeira é sobre a caça de vampiros que fincaram em postos de poder. A outra mostra a trajetória de uma jovem por diferentes cidades dos Estados Unidos. Embora diferentes, têm em comum o encerramento lançado na mesma época ao leitor brasileiro e serem publicadas pela mesma editora, a paulista Devir. O desfecho de "Predadores" estava programado para este segundo semestre. Mas veio antes do que o leitor imaginava. O intervalo entre este volume e o anterior foi de 15 dias. *** Esta quarta e última parte - que começa a ser vendida nesta semana (64 págs., R$ 29,90) - é calcada em decisões que os protagonistas têm adiado a tomar. A ex-detetive Vicky Lenore e Aznar Akeba, filho de um dos predadores que dão título a série, têm de escolher um lado na vingança travada contra uma raça de vampiros. Ou seguem esses seres, que se apossaram de postos-chave da sociedade, ou apoiam a luta dos caçadores de vampiros Camila e Drago, os predadores da série. Não se pode adiantar o final. Mas pode-se dizer que a saída que encontram é diferente da esperada. E que há a volta da ação que marcou os dois primeiros volumes. *** O roteiro é do belga Jean Dufaux e os desenhos de Enrico Marini, suíço naturalizado italiano que tem se firmado no mercado europeu de quadrinhos. A série francesa foi publicada entre 1998 e 2003 em quatro tomos, nome dado na Europa a cada um dos volumes de uma história narrada em partes. A Devir lançou os dois primeiros no meio do ano passado. O terceiro, no fim de junho. Uma dica: para entender este final, é bom ler os outros volumes. Do contrário, vai ser difícil entender a amarração dos fatos que levam a este final. *** "Local - Fim da Jornada" (208 págs., R$ 36,50) narra o que o título propõe: põe um ponto final nas viagens da jovem Megan McKeenan por diferentes cidades estadunidenses. O périplo da protagonista teve início, no Brasil, no álbum "Local - Ponto de Partida", publicado pela Devir em junho de 2008. A obra trazia seis histórias, seis paradas. Este novo volume traz as seis narrativas finais, lançadas nos Estados Unidos entre junho de 2006 e maio de 2008. Em comum, há as viagens da personagem. Mas o tom da trama se volta mais para a vida familiar dela. Um dos problemas que tem de enfrentar é a morte da mãe. *** O foco nos dramas de McKeenan - visivelmente mais madura a cada nova história - são a forma que o roteirista Brian Wood encontrou para dar um porto seguro a ela. Mas isso tira um dos pontos altos do volume anterior. As histórias iniciais mostravam não apenas a protagonista, mas a vida que ela criava em cada uma das cidades. Isso se perde um pouco nestes capítulos finais. E tiram um pouco do ar inovador que a série e o roteiro tinham. O primeiro volume era melhor, mais intenso. Como no álbum anterior, Wood e o desenhista Ryan Kelly trazem alguns bastidores de cada um dos capítulos. E com sugestão de trilha sonora para leitura.
Escrito por PAULO RAMOS às 22h29
[comente]
[ link ]
11.07.09
Toque de Midas de Geoff Johns cresce histórias de Super-Homem 
Revista "Superman" deste mês inicia série que termina com morte de personagem ligado ao herói Merece um olhar mais detalhado a edição deste mês da revista "Superman", que começou a ser vendida nesta semana (Panini, 100 págs., R$ 7,50). A publicação dá início a uma série de histórias que culmina na morte de um personagem bem próximo ao herói de Krypton. A cena será revelada no próximo número. Há, porém, um outro apelo na edição, menos comercial ou carregado no marketing virtual dos chamados "spoilers", informações que antecipam detalhes das tramas. A série traz uma boa história. É algo que deveria ser regra, mas que tem se tornado raro no atual momento dos quadrinhos de super-heróis norte-americanos. *** A série reforça máxima comum nas histórias de super-heróis: a de que não há personagem bom ou ruim. Há, pelo contrário, escritores que produzem tramas boas ou ruins. O norte-americano Geoff Johns pertence ao grupo dos bons. E é dele o roteiro dessa sequência de Super-Homem, que inicia um confronto do herói com o vilão Brainiac. Johns mantém uma regularidade qualitativa rara no mercado estadunidense, cheio de poucos altos e muitos baixos. Os textos dele turbinam as vendas e, principal, crescem as histórias do herói. O toque de Midas dele tem sido lido em diferentes títulos da editora DC Comics. *** Um dos títulos é "Action Comics", que traz aventuras de Super-Homem. A passagem dele pela publicação teve início em 2007, em parceria com o diretor de cinema Richard Donner. As primeiras histórias, já publicadas pela Panini, eram centradas num filho de Clark Kent e Lois Lane e já traziam algo de novo. Sem Donner, Johns continuou com os roteiros interessantes, pautados na introdução de elementos antigos do homem de aço, mas com uma nova roupagem. Essa tem sido, aliás, uma das marcas do roteirista. Ele consegue articular - muito bem - o histórico do personagem sem ignorar a necessidade de atualizar tais dados. *** Vê-se exatamente esse tom de atualização nas três histórias de "Action Comics" reunidas neste número 80 da revista "Superman". A capa já sinaliza isso com a frase "nova fase". Ante a ameaça de um recriado Brainiac - que sequestrou uma cidade de Krypton antes de o planeta explodir -, o herói decide rumar ao espaço em busca do vilão alienígena. As nuances do texto e dos diálogos dos personagens é o que dão o toque à narrativa. A arte realista de Gary Frank ajuda a tornar o resultado final mais atraente ao leitor. Frank desenha Clark Kent e Super-Homem com o rosto do falecido Christopher Reeve, ator que interpretou o herói no cinema. Isso só reforça o sabor de nostalgia criado por Johns.
Escrito por PAULO RAMOS às 16h51
[comente]
[ link ]
08.07.09
Álbum nacional faz biografia de vidas passadas 
Uma das páginas de "7 Vidas", obra em que o roteirista André Diniz relata sessões de regressão das quais participou Imagine uma escada escura. A cada degrau descido, ilumina-se uma inesperada narrativa sobre possíveis vidas passadas suas. Cada descoberta guarda uma história em particular.
É isso que o roteirista carioca André Diniz propõe relatar em "7 Vidas", álbum que começou a ser vendido neste mês em livrarias e lojas de quadrinhos (Conrad; 128 págs.; R$ 26). Ele descreve o que sentiu em sessões de regressão, vividas entre 2004 e 2005. A experiência rendeu contato com sete fragmentos do que seriam vidas anteriores dele. O relato mescla as impressões mentais com os momentos reais que espaçaram cada uma das sessões. É uma autobiografia do hoje perpassada por biografias do ontem. *** Segundo a narrativa de Diniz, a decisão de participar das sessões amadureceu após ter alguns "insights" de memória. Do nada, tinha um estalo e fugia da realidade. Uma amiga recomendou Zélia, especialista em regressões. Foi com ela que oficializou as fugas a outras realidades por meio das sessões. Aos poucos, ele encontra o que seriam suas outras vidas. Algumas no século 20, no Brasil. Outras em países estrangeiros, em momentos históricos anteriores. Algumas tinham em comum a perna direita, por diferentes motivos. Também sentiu a presença da esposa e da sogra próximas de si nas outras encarnações. *** A tarefa de transformar em imagens os relatos pessoais coube ao curitibano Antonio Eder, parceiro de Diniz em outros trabalhos em quadrinhos, o último lançado no ano passado. A quem lê, parece o funcionamento de um controle remoto quando se assiste a um DVD. Vê-se determinado momento da vida da pessoa. Uma voz diz: "avance adiante". A mente dá um salto para anos no futuro. Pode-se ver até o momento da morte. Em duas ocasiões, o fim foi trágico. As pessoas foram queimadas vivas. *** Quando este blog antecipou o projeto, em agosto do ano passado, Diniz questionava se os relatos eram mesmo de vidas passadas ou um retorno do que se passava na mente. Mas reforçava que isso não diminuía a experiência, fascinante e "muito mais do que meros sonhos ou exercícios de imaginação", nas palavras dele. Independentemente do princípio que esteja por trás dos relatos, trata-se de uma atitude corajosa. Diniz se desnuda ao leitor em diferentes níveis, no pessoal e no introspectivo. Tanto que fica clara a sua história. E a da esposa. E a de outros personagens, reais ou frutos do subconsciente. Mas é fato que são relatos singulares. Biograficamente singulares.
Escrito por PAULO RAMOS às 19h51
[comente]
[ link ]
05.07.09
Álbum relança queda e troca de Lanterna Verde 
Histórias mostram o surgimento de um novo herói, Kyle Rainer, no lugar do Lanterna Verde tradicional, Hal Jordan Quem acompanha os quadrinhos da editora norte-americana DC Comics sabe, de antemão, que a vida do herói Lanterna Verde passou por mais de uma reviravolta nos últimos 15 anos. E sabe também que os fatos narrados em "Lanterna Verde - Crepúsculo Esmeralda / Novo Amanhecer" (Panini, 196 págs., R$ 23,90) já foram todos revisitados e alterados. Apesar disso, o álbum - que começou a ser vendido nas bancas na última sexta-feira - traz histórias importantes para entender a trajetória recente do personagem. Do personagem e do momento editorial vivido pela DC na década de 1990. *** A editora havia percebido em 1992 que mudanças drásticas tinham forte apelo de vendas e na mídia pré-internet. A descoberta ocorreu com as histórias da morte do Super-Homem. O homem de aço não havia morrido de verdade. No ano seguinte, ele voltaria em "O Retorno do Super-Homem", lançado por aqui, pela Abril, entre setembro e novembro de 1994. Esse regresso mexia também com a vida do Lanterna Verde. A cidade dele, Coast City, foi totalmente destruída. As histórias deste álbum iniciam desse ponto. Hal Hordan, o homem por trás da máscara do Lanterna Verde, enfrenta um conflito interno para mudar a tragédia. E parte em busca de poder para alterar o passado. *** A sequência recebeu o nome de "Crepúsculo Esmeralda" e é narrada nas três primeiras aventuras do álbum, lançadas nos Estados Unidos em 1994. Para conseguir poder, Jordan enfrenta antigos colegas da Tropa dos Lanternas Verdes, força intergalática da qual fazia parte. O confronto dizima a tropa. O herói, agora alçado a vilão, consegue mais poder. Sobra apenas um anel energético - marca do herói - enviado para o terráqueo Kyle Rainer, que se torna o novo Lanterna Verde. É o começo da segunda sequência da obra, "Novo Amanhecer", que narra as primeiras aventuras do desenhista Rainer no papel do herói. *** Houve, claro, reclamações dos leitores mais nostálgicos. E defensores do novo dono do anel, que permite criar qualquer imagem sólida (o limite é a imaginação de quem o usa). Rainer ficou sozinho no cargo por mais de dez anos. Até que a DC decidiu reviver todos os lanternas verdes. Inclusive Hal Jordan. A reengenharia coube ao roteirista Geoff Johns. A série foi lançada há alguns anos no Brasil pela Panini e recriou o cenário para que Jordan voltasse a ser o Lanterna Verde oficial. A nova fase - desenhada pelo brasileiro Ivan Reis - tem tido boa repercussão nos Estados Unidos. No Brasil, é publicada na revista mensal "Dimensão DC: Lanterna Verde". *** Apesar de serem datadas, as histórias desta coletânea que a Panini põe à venda neste início de mês têm seus momentos, é preciso reconhecer. A ida de Hal Jordan para o lado do mal é marcada por assassinatos. Algo que incomoda, mesmo na releitura, quem costumava ver apenas os feitos heroicos dele. As histórias iniciais de Kyle Rainer, escritas por Ron Marz, também guardam pelo menos uma cena marcante, uma das mais violentas das histórias de super-heróis. Ao chegar em casa, ele encontra a namorada morta, dentro da geladeira. Foi colocada lá pelo vilão Major Força. Pretexto para mais um quebra-pau. E para assumir de vez o anel.
Escrito por PAULO RAMOS às 22h27
[comente]
[ link ]
03.07.09
Álbum de Dahmer extrai humor da tristeza e da solidão 
O copo servido pelo quadrinista André Dahmer é amargo. Tem gosto de solidão e tristeza. Os dois sabores são recorrentes em sua nova coletânea, "A Cabeça É a Ilha" (Desiderata, 152 págs., R$ 34,90). Mas, contraditoriamente, ele extrai humor da fossa humana. Tal qual uma bebida, as 238 tiras cômicas têm de ser apreciadas sem pressa. Do contrário, pode-se embriagar com o conteúdo politicamente incorreto. Ou ser convidado a pensar. A reflexão surge após a piada. Percebe-se, em maior ou menor grau, que o riso surgiu das mazelas dos outros, como preveem autores com Henri Bergson (1859-1941). *** Pelo cardápio lido até aqui, o freguês já nota que se trata de um humor peculiar. Não é para todos. Mas tem agradado a muitos, vide o número de acessos do site de Dahmer. A página "Malvados", criada em 2001, tem recebido mais de 1,5 milhão de visitas por mês. O boca a boca virtual já levou o autor aos jornais, caso do "Jornal do Brasil". Desde dezembro passado, o jornal carioca deixou de publicar a série. Todas as séries, aliás. Contenção de gastos, disseram. E Dahmer continuou com o foco apenas no site. No site e nas coletâneas. Esta é a terceira que ele lança pela Desiderata. Publicou também "O Livro Negro de André Dahmer", em 2007, e "Malvados", no ano passado. 
As tiras com as plantinhas de "Malvados" migraram para o papel dois anos antes, numa coletânea publicada em 2005 pela editora Gênese. As plantinhas não aparecem neste novo álbum, que reúne histórias dos dois últimos anos. Há situações totalmente novas e outras, vividas por personagens mais recorrentes. É o caso das histórias de Ulisses, vítima de uma eterna fossa por conta do fim do relacionamento com Rebeca. Ou de Sara, a Sofrida, que sempre se dá mal com homens. Ou ainda nas pílulas de Minidahmer, em que o autor descreve situações deprê supostamente vividas por ele. *** Fora das amarras temáticas de Malvados, o fluminense André Dahmer revela um processo criativo mais solto e eclético, diluído no tom melancólico nas tiras da coletânea. Há também um quê autoral. Não necessariamente autobiográfico. Mas no sentido de uma autoria percebida por meio de um estilo, tanto no traço como na temática. O desenhista diz na introdução da obra que o álbum ficou um livro estranho. "Não era o que eu pretendia, não era para ser assim. Mas já foi, Já é." Estranho talvez. Afinal, é difícil extrair riso de uma situação depressiva. Mas há humor, bom humor, em meio à estranheza.
Escrito por PAULO RAMOS às 18h21
[comente]
[ link ]
25.06.09
Histórias de guerra se destacam em coletânea de Neal Adams 
"O Universo DC Ilustrado por Neal Adams", já à venda, traz seis histórias de guerra feitas pelo desenhista norte-americano Foi feliz a escolha do título do álbum "O Universo DC Ilustrado por Neal Adams", à venda em lojas de quadrinhos desde a virada da semana (Panini, 196 págs., R$ 28,90).
O acerto foi o ajuste do foco no que o álbum realmente tem de melhor. Ou seja, os desenhos do norte-americano Neal Adams em histórias criadas pela DC Comics. Note que a expressão "histórias criadas" não é sinônimo de aventuras de super-heróis. Elas aparecem na obra. Há material do Homem-Elástico, da Turma Titã e do Super-Homem, publicadas entre 1967 e 1972. Mas perdem o destaque para as tramas de guerra. *** As narrativas de guerra apresentam outro apelo. Não há o vilão da vez a ser derrotado. A história se centra no drama pessoal de algum soldado durante a Segunda Guerra. Em geral, o enredo se ancora em como o conflito será superado. Segundo Adams relata no álbum foram escritas numa época de suavização da abordagem dada nos quadrinhos. "Nada de sangue, nada de ferimentos, nada de explosões... mas foram algumas das melhores histórias de guerra já escritas." O álbum reúne seis delas, de 1967 a 1972. *** As tramas de guerra foram escritas por Howard Liss, Robert Kanigher, Hank Chapan e Bob Haney para as revistas "Our Army at War" e "Star Spangled War Stories". É curioso que sejam elas as melhores de uma coletânea de histórias de Neal Adams. Isso porque a passagem dele pela DC Comics é mais lembrada por conta dos super-heróis. Ele foi um dos principais desenhistas de Batman nos mais de 70 anos da editora. Trabalhou em revistas do herói entre o fim da década de 1970 e o início da seguinte. É dele também a arte da parceria entre Lanterna e Arqueiro Verde. A série, escrita por Denny O´Neil, trazia para os quadrinhos temas delicados da atualidade, como as drogas. *** A Panini tem feito um resgate da passagem de Adams pela DC. Não tão longa assim, mas marcante e que influenciou mais de uma geração de autores. A editora lançou em 2006, em dois volumes, as histórias de Lanterna e Arqueiro Verde. No ano passado, um álbum com as primeiras histórias de Batman desenhadas por ele. Agora, estas 14 narrativas com outros personagens. É de esperar que outros álbuns sejam lançados pela editora. De Batman, pelo menos, há muito mais material. Cada nova publicação tem sido um convite a (re)ver a arte realista e dinâmica de Adams. E para nos surpreendermos, como mostram as tramas de guerra deste lançamento.
Escrito por PAULO RAMOS às 22h36
[comente]
[ link ]
Saudosismo dá tom de álbum de Jornada nas Estrelas 
Obra mostra o que teria ocorrido no inexistente quarto ano do seriado, cancelado em 1969 A abertura do seriado "Jornada nas Estrelas" prometia algo que não cumpria.
A narração introdutória dizia que se tratava das viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para pesquisar novos mundos, vidas e civilizações. A tripulação foi audaciosamente onde nenhum homem jamais esteve. Mas o telespectador acompanhou a missão até o terceiro ano. Foi quando a série foi cancelada, em 1969. É essa a premissa do álbum "Star Trek - Ano Quatro", lançado nesta semana (Devir, 152 págs., R$ 39,95). O que teria ocorrido num eventual quarto ano do seriado? *** Os fatos inéditos foram imaginados nas seis histórias da obra, publicada nos Estados Unidos em forma de minissérie. O conteúdo não supera o da série. Mas há um inegável tom saudosista, que o roteirista David Tischman soube captar com precisão. A começar pelos diálogos. Tischman consegue recriar a bem-humorada interação que existia o Capitão Kirk, o senhor Spock e o doutor McCoy. O trio formava a espinhal dorsal da nave estelar Enterprise. Estão lá também frases famosas. Como "ele está morto, Jim", dita à exaustão por McCoy. *** O roteiro retoma também situações comuns da série. Ao serem teletransportados a um planeta, os protagonistas sempre dividiam a cena com um tripulantes desconhecido. A função dele era morrer tão logo chegasse àquele mundo desconhecido. Há isso logo na história de abertura. Pretexto para mais um "ele está morto, Jim". Outro enredo comum era usar temas comuns ao final da década de 1960, época em que a série foi exibida, e moldá-los à realidade das viagens da Enterprise. *** Esse mecanismo é usado em mais de uma das histórias do álbum, só que ajustado a temas este início de século. Inclusive na mais interessante, intitulada "Reality Show". Como o nome já sugere, o trio vai parar num planeta pautado pela concorrência entre emissoras de televisão. A chegada de Kirk e companhia atiça a guerra pela audiência. Não demora para serem usados em programas aos moldes de "Big Brother Brasil" e do recente "A Fazenda". É um enredo simples. Mas o brilho dele está nas referências. A participação deles no show é uma forma de brincar com o cancelamento da própria série. "Minha tripulação não pode ficar presa a um programa de TV de cinco anos", diz Kirk. *** O tom das histórias é de saudosismo. Os desenhos ajudam no déjà-vu. Reproduzem as feições exatas do elenco, ora mais fielmente, ora menos. Mas não espere muito mais do que isso. É uma obra feito para agradar aos fãs da série. Se você não entendeu as referências desta resenha, não tenha dúvida, não é para você. A Devir já havia lançado um primeiro álbum de Jornada nas Estrelas em novembro passado. Outros dois estão programados, como o blog havia noticiado em agosto de 2008. O próximo vai ser "Star Trek - Jornada nas Estrelas, A Nova Geração: Interlúdios". O foco será nos personagens do segundo seriado da franquia, retomada neste ano no cinema.
Escrito por PAULO RAMOS às 23h53
[comente]
[ link ]
23.06.09
Carta aberta às autoridades brasileiras de educação Temos visto com muita ressalva atitudes recentes de retirada de obras em quadrinhos do norte-americano Will Eisner de bibliotecas de escolas. Entendemos tratar-se de um exemplo de desconhecimento sobre o conteúdo do material. Levar tal material à escola corrige um equívoco histórico no Brasil. Houve uma época no país em que os quadrinhos eram nocivos somente por serem quadrinhos. A censura a eles escondia motivos de ordem política e comercial. Retomar tais discursos, calcados na falta de argumentos sólidos, revive o fantasma de 60, 70 anos atrás. Assim como a literatura, os quadrinhos são forma de leitura autônoma, com forte eco entre os alunos, como confirma a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2008. O argumento de que os livros de Eisner são inadequados ao estudante do ensino médio, a quem foram direcionados, é frágil e revela uma leitura equivocada e parcial do conteúdo, resumido a poucas cenas. “Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço”, “O Sonhador” e “O Nome do Jogo” mostram histórias de vida, ambientadas nos EUA nas décadas iniciais do século 20. As situações que podem agredir a uns integram a realidade vivida pelo autor, que passou a infância e a juventude na mesma época, nessas situações. Apesar das dificuldades, Eisner, falecido em 2005, tornou-se um dos mais respeitados autores de quadrinhos do mundo. São dele alguns dos primeiros romances gráficos produzidos nos Estados Unidos. O gênero encontra em 2009 várias publicações produzidas por autores brasileiros. A escola tem a função de levar o mundo ao estudante por meio de leituras e de práticas de letramento, inclusive visual. Os três quadrinhos em pauta oferecem tais conteúdos, acentuados se direcionados aos alunos por meio de práticas pedagógicas afins. Reiteramos a qualidade das três obras do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) e defendemos que podem, sim, ser levadas aos estudantes do ensino médio. E devem integrar bibliotecas escolares, e não serem retiradas dela. O simples controle de empréstimo das obras resolve as questões de acesso a alunos das séries iniciais. Os argumentos em contrário têm se mostrado infundados, fruto de receio e não de fatos. Dos pontos de vista do conteúdo e pedagógico, oferecem rico material a ser usado com os alunos. Assinam a carta os doutores Elydio dos Santos Neto, docente-pesquisador do mestrado em Educação da Universidade Metodista de São Paulo. Gazy Andraus, professor da Unifig (Centro Universitário Metropolitano de São Paulo) e vencedor do Troféu HQMix, em 2007, na categoria melhor doutorado. Paulo Ramos, jornalista e professor adjunto do curso de Letras da Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo). É autor de “A Leitura dos Quadrinhos” (2009) e co-autor de “Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula” (2004). Roberto Elísio dos Santos, professor de comunicação da USCS (Universidade de São Caetano do Sul). É autor de “Para Reler os Quadrinhos Disney” (2002) e um dos organizadores de “Mutações da Cultura Midiática” (2009). Waldomiro Vergueiro, livre docente em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da USP e um dos organizadores do livro “Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula” (2004). *** Os autores convidam os leitores interessados em também assinar a carta que o façam no espaço abaixo, destinado aos comentários.
Escrito por PAULO RAMOS às 12h57
[comente]
[ link ]
10.06.09
Álbum mostra lado menos glamoroso de Copacabana  Obra, escrita por Sandro Lobo e desenhada por Odyr Bernardi, mostra vida de prostitutas na noite carioca Restava à carioca Desiderata um último projeto pensado por Sandro Lobo, editor de quadrinhos que se desligou da empresa no meio do ano passado. Ironicamente, o trabalho final é de autoria dele. Os desenhos, outra ironia, são de Odyr Bernardi, que também integrava a equipe do selo editorial da Ediouro. A história, que serve de divisor de águas na carreira de ambos, por outro lado, não tem nada de irônico. "Copacabana" (208 págs.; R$ 39,90) mostra um lado pouco lembrado do famoso bairro carioca. Nada de sol, nada de boemia, nada de cartão postal. Os personagens centrais do álbum são prostitutas e figuras urbanas, que se destacam na noite de Copacabana. *** A história convida o leitor a acompanhar alguns dias na vida de de Diana. Ela vive do sexo e, com a atividade, tenta se manter e ainda enviar dinheiro à mãe. Entre um programa aqui, um bico ali, tem a oportunidade de dar um golpe num gringo cheio da grana. Mas leva a pior. E é vista como a pessoa que teria ficado com o dinheiro. A trama é contada em pílulas escritas em 14 capítulos. Diana vai ganhando importância aos poucos. Ora é ela que está em evidência. Ora são as figuras noturnas do bairro, mas nem por isso menos interessantes. É, no fundo, uma história de relacionamentos, com interesses pessoais ou não. *** Mas talvez o que roube a atenção do leitor seja mesmo o cenário. Quem já passou por Copacabana vai enxergar no traço denso de Odyr fragmentos do bairro carioca. E vai ser convidado a repensar a passagem pelas ruas de lá. Há mesmo essa vida escondida em meio ao lado turístico, que atrai gente de todo o mundo? Na leitura de Lobo, há, sim. Está na cidade há 20 anos. A ideia de criar a trama surgiu enquanto andava à noite pelas ruas de Copacabana. Buscava sono. Encontrou um roteiro. Decidiu criar a história sem pressa. Diz que escreveu o roteiro entre 1994 e 1998. *** É de lamentar que este seja o projeto derradeiro de Lobo e Odyr na Desiderata. A passagem de ambos pela editora rendeu alguns dos melhores álbuns nacionais produzidos nos últimos anos. A saída deles descaracterizou a linha editorial do selo. O consolo é que pretendem estar por perto, agora na não menos desafiadora função de autores de histórias em quadrinhos. "Copacabana" é uma boa estreia na difícil tarefa de escrever narrativas mais longas. A dupla tem histórico profissional que credita a espera por outros trabalhos deles. *** Serviço - Lançamentos de "Copacabana". Rio de Janeiro. Quando: segunda-feira (15.06). Horário: 19h. Onde: Livraria Dona Laura, na Casa de Cultura Laura Alvim. Endereço: av. Vieira Souto, 176, Ipanema. São Paulo. Quando: quarta-feira (17.06). Horário: 19h. Onde: loja Cachalote. Endereço: rua Ministro Ferreira Alves, 48. Curitiba. Quando: quinta-feira (18.06). Horário: 19h. Onde: Itiban. Endereço: av. Silva Jardim, 845, centro. Porto Alegre. Quando: segunda-feira (22.06). Horário: 19h. Onde: Café Oca. Endereço: rua João Teles, 512, Bonfim.
Escrito por PAULO RAMOS às 17h57
[comente]
[ link ]
07.06.09
Revista de Luluzinha adolescente recria personagem do zero 
Primeiro número da revista com versão adolescente da personagem já está nas bancas Parte-se da premissa de que uma adaptação, qualquer que seja ela, conserva elementos do texto fonte, em maior ou menor grau.
Não é o que ocorre com a versão adolescente de Luluzinha, como se vê no primeiro número de "Luluzinha Teen e Sua Turma", à venda desde sexta-feira (Pixel, 100 págs., R$ 6,40). A personagem norte-americana foi recriada do zero em formato mangá. O leitor não verá na protagonista nem uma sombra da menina sapeca e ingênua de vestido vermelho. A ausência de elementos das antigas histórias é tão gritante que os personagens poderiam ter até outros nomes que a história seria entendida do mesmo jeito. *** O cenário criado para Luluzinha jovem se parece com o da novela "Malhação", da TV Globo. Ela e os amigos - Bolinha, Alvinho, Glorinha, Aninha e mais alguns personagens novos, todos adolescentes - vivem numa cidade fictícia litorânea chamada Liberta. O grupo frequenta um colégio, o Escola Unida. O "point" deles é um lugar chamado "Livre". Bolinha agora é ex-gordinho e integra uma banda de rock. A qualidade da história de estreia poderia contornar o inevitável estranhamento entre esta e a antiga Luluzinha. Mas não é o caso. *** Há dois problemas centrais nesta história de estreia. O primeiro é o roteiro em si. Fica clara a interferência da editora no projeto. O que se lê é um vai-e-vem de situações. A trama central são os casos de vandalismo de que a escola é vítima. Lulu tenta descobrir quem são os autores. O mistério da história é descobrir quem são. Em meio a isso, a banda de Bolinha procura um vocalista para abrir o show da cantora Pitty. Esta aparece em mais de um momento dando conselhos ao grupo. Além disso, há o cuidado de mostrar Lulu postando mensagens em seu blog. Em dois momentos, ocorre um explícito convite para o leitor visitar a página virtual. *** O blog de Luluzinha existe e faz parte do projeto editorial. A Pixel, selo da carioca Ediouro, quer que o leitor migre do papel para a internet. Não há nada de mal nisso. Nem na tentativa de a Ediouro pensar a revista como projeto visando lucro. As editoras, como toda empresa, querem e precisam ganhar dinheiro. Mas o diálogo entre mídias não pode se sobrepor à qualidade do produto. O projeto peca em outros aspectos. O primeiro é usar o nome Luluzinha apenas como chamariz. A personagem empresta o nome a uma estratégia de marketing. A história em si ignora por completo os elementos visuais e de personalidade da versão norte-americana. *** Esta Luluzinha teen tenta copiar o sucesso de "Turma da Mônica Jovem", que também peca nos roteiros. O formato é o mesmo e a capa também registra a frase "em estilo mangá". As histórias também são feitas por autores nacionais, o que não deixa de ser um aspecto positivo. Mas a escolha de Luluzinha talvez seja o principal equívoco do projeto. Ela é um dos raros casos de história em quadrinhos que pode ser lida em qualquer idade. Inclusive os pré-adolescentes. Há uma ingenuidade cativante que atinge a todos. Para recriar a personagem do zero, de modo a atingir determinado público específico, só se fosse para oferecer algo melhor. E, como já dito, não é o caso. Melhor esperar pelos álbuns da Devir, que desde 2006 tem relançado as histórias antigas da personagem, em ordem cronológica. A editora programa mais dois para este ano. *** Nota: Renato Fagundes, roteirista desta primeira história, comenta críticas ao projeto e detalha a concepção da série no blog "Gibizada", de Telio Navega. Para ler, clique aqui.
Escrito por PAULO RAMOS às 22h23
[comente]
[ link ]
05.06.09
Álbum faz documentário com versões caricatas de animações 
Há um dado na concepção de "Três Dedos: Um Escândalo em Quadrinhos" que ajuda a singularizar o álbum: trata-se de um documentário feito na forma de quadrinhos. Os depoimentos lidos no álbum - à venda em livrarias e lojas de quadrinhos (Gal, 144 págs., R$ 39,90) - abordam um fictício mistério que pauta o título do livro. Há também outro fato que contribui para particularizar a obra. Os entrevistados são versões caricatas dos primeiros personagens dos desenhos animados norte-americanos. O enredo do álbum parte da premissa de que esses personagens eram atores reais, que atuavam nas animações das décadas de 1930 em diante. *** A ideia do escritor e desenhista Rich Koslowski refaz toda a trajetória dos pioneiros dos desenhos animados nos Estados Unidos, com fatos que realmente aconteceram. O foco está na trajetória de Walt Disney. Ou Dizzy Walters, como é mostrado no álbum. As entrevistas com as animações, que ajudam a conduzir a narrativa do documentário ficcional, reconstituem os primeiros projetos dele. E o encontro inicial com Mickey Mouse. Mickey Mouse, não. Correção. Na obra de Koslowski, é o ator Rickey Rat. Mas o visual, a exemplo de Disney/Dizzy, é o mesmo que marcou o personagem. 
Rickey Rat é mostrado em dois momentos. No passado, é mostrado como o camundongo feliz e sorridente que todos conhecem, que firmou parceria com Disney/Dizzy. No presente, fuma, está barrigudo e deprimido. Aperece na entrevista em que relembra o início da carreira e o sucesso que alcançou, a ponto de ser copiado por outros atores. O mesmo ocorre com outras versões caricatas de animações da época. E não só da Disney. Há várias menções aos personagens dos Estúdios Warner Bros (ou Warmer Bros.). São mostrados como eram nos desenhos e como estão hoje, vistos nos depoimentos. *** "Três Dedos: Um Escândalo Animado" conquistou nos Estados Unidos, em 2002, o prêmio Ignatz de melhor graphic novel. O prêmio é dedicado a obras em quadrinhos. É curioso que um trabalho tão singular tenha demorado tanto para ser publicado no Brasil. Ainda mais num mercado tão ávido por novidades estrangeiras. A ideia é singular, em todos os aspectos. E tem referências de sobra para quem aprecia as animações da época. O único senão é o desfecho que, claro, não será revelado aqui. Koslowski antecipa no meio do álbum qual é o escandaloso mistério que dá título à obra. Isso tira um pouco o interesse do que vem na sequência. E o ar de novidade se perde.
Escrito por PAULO RAMOS às 13h21
[comente]
[ link ]
04.06.09
Livro faz homenagem tímida aos 40 anos do Pasquim 
Obra da editora Desiderata, já à venda, traz capas do jornal e quatro artigos sobre a publicação alternativa Há exatos 40 anos, em junho de 1969, o leitor brasileiro tinha contato com a primeira edição de "O Pasquim". Não demorou para que se tornasse um dos instrumentos de resistência do regime militar (1964-1985). Hoje, a sábia distância do tempo permite afirmar com mais certeza o que já se percebia na época: o jornal deixaria sua marca. No país, no jornalismo, nos quadrinhos nacionais. Por isso, e por muito mais, é justificável e até desejável uma edição para marcar as quatro décadas de vida da publicação. O que não era de se esperar é que a obra fizesse uma acanhada homenagem. *** "O Pasquim 40 Anos! - Edicão Comemorativa" (Desiderata, 40 págs., R$ 39,90) traz 31 capas originais do jornal. Outra, inédita, foi feita por Millôr especialmente para a obra. Millôr, um dos integrantes da trupe original, assina um dos quatro textos do livro. Os outros são do desenhista Jaguar, do jornalista Sérgio Augusto (também equipe original) e do chargista Chico Caruso. E só. Não há uma contextualização maior do jornal. Ou de sua importância para a linguagem jornalística. Ou aos quadrinhos. O acanhamento aumenta se visto que os textos de Augusto e Jaguar aparecem espremidos, lado a lado na primeira orelha da capa. *** Melhor homenagem faz a mesma Desiderata com outro livro, lançado ao mesmo tempo. Trata-se da terceira antologia do jornal (376 págs., R$ 79,90), organizada, uma vez mais, pela dupla Sérgio Augusto e Jaguar. O contato com os textos originais de "O Pasquim" apresenta o que a publicação representou e revela, curiosamente, que muitos dos temas permanecem atuais. Violência urbana, crescimento desordenado das cidades, até quedas de avião. Tudo é (re)lido com os olhos de hoje. Mas com o contexto de ontem. E o humor de sempre. *** Ao leitor de quadrinhos há um interesse especial. Ziraldo, Henfil e companhia influenciaram e serviram de molde inicial a vários desenhistas que surgiam na década de 1970. O jornal, para os quadrinhos, funcionava como um suporte privilegiado de publicação. E ajudou a levar os diferentes gêneros quadrinísticos ao leitor adulto. Os cartuns - em particular os de Ziraldo - são a maioria desta terceira antologia, que reedita os jornais dos números 201 a 250 (de maio de 1973 a abril de 1974). Mas há também os quadrinhos tradicionais. E os de Henfil (1944-1988), autor singular que sempre merece menção à parte. *** Os dois livros marcam uma volta da carioca Desiderata às antigas edições de "O Pasquim". As duas antologias do jornal, lançadas a partir de 2006, tiveram forte repercussão na imprensa e nas vendas. Tornaram-se rapidamente a galinha dos ovos de ouro da editora. E foi o que cacifou a empresa a ser vendida ao grupo Ediouro na virada de 2007 para 2008. Desde então, as reedições do jornal continuavam apenas nas estantes de colecionadores e na memória de uns poucos privilegiados.
Escrito por PAULO RAMOS às 20h39
[comente]
[ link ]
01.06.09
Quadrinhos na Cia. tem desafio de conquistar novos públicos 
Capa de "Retalhos", do norte-americano Craig Thompson, um dos lançamentos do novo selo da Companhia das Letras Os primeiros lançamentos do selo Quadrinho na Cia. já estão à venda nas livrarias e lojas especializadas. Mais do que quatro álbuns, podem ser o início de uma mudança.
O novo selo que a Companhia das Letras inaugurou no fim de maio pode dar uma chacoalhada no mercado brasileiro de quadrinhos produzidos em forma de livro. E por vários fatores. O primeiro é o que investimento é feito por uma das principais editoras do país e uma das que mais conseguem penetrar pautas nos cadernos de cultura. Os jornais ainda são o principal termômetro para medir a influência de uma obra no leitor, mesmo com a cada vez mais acentuada presença da internet. *** Uma resenha impressa e outra virtual têm pesos diferentes no Brasil. A crítica lida num jornal ou revista tende a gozar de mais prestígio e funciona como formadora de opinião, inclusive para outros veículos midiáticos. Os livros da Companhia das Letras são assíduos frequentadores desses espaços. Pela qualidade, pelo volume mensal de novos títulos e pela estratégia de marketing. O mesmo processo deve ser repetido com o selo dedicado exclusivamente a quadrinhos. *** A divulgação da Companhia já trouxe um resultado. A edição de domingo da "Folha de S.Paulo" trouxe resenha de "Retalhos", de Craig Thompson, um dos lançamentos do selo. Resultado: há a chance de pessoas que normalmente não liam quadrinhos passarem a saber da existência deles. E serem convidadas a ver os álbuns de modo mais sério. Esse é o segundo ponto que pode movimentar o meio editorial, a conquista de novos leitores. O perfil é o da pessoa que frequenta livrarias, mas não as estantes de quadrinhos. Tanto que a editora fez na semana passada uma manhã de palestras a livreiros para explicar o tema. Fui um dos convidados. Havia cerca de cem pessoas na plateia. *** Quadrinhos em forma de livro não são algo novo no país. O que tem ocorrido é a entrada em massa deles nas livrarias, fenômeno que aumentou de 2005 para cá. A própria Companhia das Letras criou um catálogo com quadrinhos nesse período. Com o cuidado de escolher obras aceitas pelos não leitores de quadrinhos, como "Tintim", "Maus", de Art Spiegelman, e "Persépolis", de Marjane Satrapi. Há um pouco disso nos novos títulos, que tiveram tiragens entre 4 mil e 5 mil exemplares. Além de "Retalhos", há um álbum de Will Eisner "Nova York - A Vida na Grande Cidade" (440 págs., R$ 55), "O Chinês Americano" (238 págs., R$ 47,50), de Gene Luen Yang, e o nacional "Jubiabá de Jorge Amado" (R$ 33), de Spacca. *** O terceiro ponto que pode mexer com o mercado é o próprio fato de a Companhia das Letras investir de forma mais explícita no ramo de quadrinhos. É possível que outras editoras de médio e grande porte passem a apostar no setor, mesmo sem saber direito o que publicar. Seria uma forma de responder à concorrência. Por enquanto, editoras que não investiam em quadrinhos têm se dedicado a adaptações literárias. São obras feitas sob medida para vender às listas educacionais do governo. Investir apenas em listas governamentais é uma aposta lucrativa. Mas tênue. Se a política educacional, afunda as obras pautadas pelo governo. *** A Companhia das Letras já teve obras em quadrinhos incluídas na relação do governo federal e deve ter outras. É um mercado não ignorado pela editora. Mas a diversidade e a aposta em obras nacionais sugere uma trajetória mais autônoma e sustentável, pautada na criação e formação de um público leitor. São as editoras e os autores que devem pautar o governo, e não o contrário. Se bem-sucedida, a estratégia causará impacto no mercado editorial brasileiro. O principal louro a ser colhido seria a conquista de um novo perfil de leitor. Estaria formado, assim, um sistema mais sólido de produção e consumo de obras em quadrinhos.
Escrito por PAULO RAMOS às 18h17
[comente]
[ link ]
30.05.09
A maré virou. E os quadrinhos se salvaram do naufrágio discursivo O barco que conduzia as histórias em quadrinhos no maremoto midiático enfrentado na semana passada revelou-se mais sólido do que se esperava. Tanto que resistiu à forte maré. Houve alguns arranhões, é verdade. Mas nenhum morto. E os passageiros mostraram a quem os via - e ainda não os entendia - que não eram aquilo que a maioria imaginava. Falavam palavrões às vezes. Havia também alusões a sexo. E menções irônicas ao PCC, a facção criminosa Primeiro Comando da Capital, que atua nos presídios paulistas. Mas o barco persistiu. O mar se acalmou. O tsunami foi estourar na grande navegação. Esta gritava na mídia que o barquinho trazia somente pessoas de muito mau gosto. *** As primeiras ondas estouraram no jornal "Folha de S.Paulo" no último dia 19. Um livro em quadrinhos trazia palavrões e alusão a sexo. E foi indicado a crianças de nove anos. A obra, "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol", foi comprada pelo governo de São Paulo e seria distribuída às escolas do ensino fundamental. Foi recolhida. Não demorou para que houvesse, na mídia e no governo, uma associação do problema à má qualidade dos quadrinhos, e não à falha na seleção, assumida inclusive pelo Estado. Poucas horas após a publicação, ouvia-se na TV que se tratava de um horror. Jornalista atônita se dizia indignada por ser mãe e temer que um filho tenha contato com aquilo. *** À noite, outra jornalista, também na televisão, dizia que se tratava de uma obra em quadrinhos, mas que não tinha nada de infantil. Montava-se em programas de TV e na imprensa escrita o discurso de que quadrinhos são feitos exclusivamente para crianças. E Dez na Área seria ruim por fugir a isso. O argumento tinha solo fértil na má preparação de parte dos jornalistas. E na conveniência do governo, que desviava o foco para os quadrinhos, e não para a falha interna. Desmontando esse discurso: a premissa é equivocada. Quadrinhos não são feitos exclusivamente para crianças. Isso ocorre no Brasil há pelo menos 140 anos. *** Houve outros apresentadores que comentaram, aqui e ali, que se tratava de pornografia ou um horror. São frases que reproduziam acriticamente o discurso noticiado pouco antes pelos outros veículos midiáticos. Criticava-se uma obra que ninguém tinha lido. Uma bola de neve. No dia seguinte, a ressaca continuou. A mesma Folha noticiava que uma das histórias fazia alusão ao PCC. O autor da narrativa, Lelis, não foi ouvido na reportagem. O mesmo havia ocorrido na véspera com o organizador de Dez na Área, Orlando Pedroso. Ele e Lelis expuseram o outro lado - obrigação do jornalismo - no dia 20, aqui no blog. *** A entrevista com Orlando ganhou capa na página principal do UOL no mesmo dia. No blog "Gibizada", Telio Navega ouviu a opinião de outros desenhistas do álbum. Paralelamente, uma corrente virtual se organizava para marcar posição. No Twitter, as mensagens de 140 caracteres eram repassadas para o endereço de José Serra. Eram sinais virtuais de que o barquinho iria resistir à turbulência real. Na sexta-feira, artigo na Folha - assinado por mim e pelo professor da Universidade de São Paulo Waldomiro Vergueiro - registrava o óbvio: quadrinhos são também para adultos. *** No mesmo dia, o colunista da Folha Xico Sá escrevia que seria uma incoerência falar de futebol sem registrar os palavrões. Marcelo Tas foi na mesma linha em seu blog. No domingo, o ombudsman da Folha dedicou a coluna aos quadrinhos. E defendeu que os autores foram vistos de forma estritamente negativa pelos leitores. A maré virava. Houve também - é importante registrar - ensaios de outros discursos. Uma filósofa defendeu que a inserção dos quadrinhos no ensino priorizava a leitura do entretenimento em detrimento da "verdadeira cultura", da qual a grande massa seria privada. *** Numa das semanais, uma educadora, também vinculada a uma grande universidade paulista, defendeu que Dez na Área seria impróprio mesmo sem os palavrões. No entender dela, "a superposição de texto e imagem confunde quem ainda está aprendendo a ler." Desmontando o argumento filosófico: é muito subjetiva a expressão "verdadeira cultura", algo vinculado a uma elite intelectual que dita ou que é ou não cultura. Desmontando o argumento pedagógico: há estudo de 2004 realizado no México que vê na imagem elementos positivos no processo de leitura da criança. O tema é consenso também entre os teóricos contemporâneos das áreas de literatura infantil e de letramento visual. *** É importante reforçar que, apesar dessas opiniões pontuais contrárias, o discurso inicial já havia mudado cinco dias depois. O barco já navegava em águas mais calmas. Nesta semana, quando foi noticiado que uma obra de poemas selecionada pelo mesmo programa estadual também trazia conteúdo impróprio, o foco já estava na falha da seleção. Desmontado o discurso inicial de que quadrinhos não são exclusividade de crianças e havendo reincidência, o governo se viu vazio de argumentos. Prevaleceu a falha. E, expondo a falha, viu-se que a situação era ainda mais precária do que se imaginava. *** Em entrevista à Folha nesta sexta-feira, o secretário estadual de Educação, Paulo Renato Sousa, disse que iria mudar a forma de seleção. Usaria, agora, especialistas. Primeiro pressuposto: antes, a seleção não tinha sido feita por especialistas. E não foi mesmo, segundo o próprio secretário. Palavras dele à Folha: "Quem fez a seleção foi a mesma comissão que trabalhava no município, constituída de professores da rede municipal vinculados à coordenação do programa, mais alguns professores contratados especialmente para isso." Outro pressuposto: se houve falha, segundo assumiu o próprio Estado, e se sabe quem fez a seleção, por que demora um mês a sindicância para apurar o que ocorreu? *** A entrevista do secretário não responde também a outro ponto: quais foram os critérios de seleção utilizados? Em entrevista na quinta-feira de manhã à rádio CBN, Paulo Renato Sousa não soube dizer quais eram esses critérios. E desconversou parte das perguntas. Também reiterou que as demais 816 obras selecionadas eram aptas para as crianças. Na semana passada, o governo usou frase parecida: as demais 817 obras selecionadas eram de qualidade. Uma delas não era. Isso já conotava desconhecimento do tema. *** O dado que precisa ser explicitado é que houve uma mudança de discurso. Os quadrinhos deixaram de ser os vilões da história. O foco passou a ser a falha na seleção. Não são raros no Brasil casos que trazem à tona preconceitos adormecidos sobre as histórias em quadrinhos. A trajetória da linguagem no país é farta de exemplos disso. Mas o que singulariza essa polêmica é que se viu na discussão uma oportunidade rara de posicionamento ante à forte corrente contrária. E a maré virou. Pró quadrinhos. É fato raro na história da história em quadrinhos brasileira. Ocorreu uma sobreposição de discursos. Um deles ainda carregado de preconceito. Prevaleceu o outro discurso.
Escrito por PAULO RAMOS às 23h50
[comente]
[ link ]
27.05.09
Aberta temporada 2009 de adaptações literárias 
Capa de "Jubiabá de Jorge Amado", adaptado por Spacca, álbum que começou a ser vendido nesta semana A versão em quadrinhos de "O Pagador de Promessas", lançada no meio do mês pela Agir, dá início a uma série de adaptações literárias que começa a chegar ao mercado. Nos últimos dias, duas outras chegaram às livrarias e lojas de quadrinhos: "Jubiabá de Jorge Amado" e "A Luneta Mágica", da obra de Joaquim Manuel de Macedo. A primeira é um dos quatro títulos que inauguram o Quadrinhos na Cia., novo selo da Companhia das Letras. A outra é a estreia da Panda Books nesse filão. Na próxima sexta-feira, há o lançamento de uma quarta obra do gênero: "O Guarani". *** Os autores dos quatro álbuns são conhecidos e respeitados na área do quadrinho nacional. Eloar Guazzeli, Spacca, Carlos Patati, Marcio de Castro, Ivan Jaf e Luis Gê. Gê merece registro especial. Está há anos longe dos quadrinhos. Ele era um dos mais detacados quadrinistas brasileiros da década de 1980, mesma geração de Angeli e Laerte. Os nomes envolvidos - e a façanha de dar fim à adiada volta de Gê - já sinalizam que se trata de um mercado aquecido no tocante a títulos do gênero literatura em quadrinhos. É um assunto que tem tido bom eco na mídia, que encontrou - e irá encontrar uma vez mais - boas pautas nas versões quadrinizadas, como se fosse algo inédito no país. *** O que a mídia talvez não noticie é o que está por trás dessa ebulição editorial. O interesse são as listas do governo, que levam quadrinhos para a escola (às vezes sem ler). A principal é a do PNBE, Programa Nacional Biblioteca da Escola, do governo federal. O edital de concorrência dá especial atenção às adaptações. Esse direcionamento é percebido nas próprias obras. Algumas - caso de "O Guarani" e de "A Luneta Mágica" - trazem apêndices com explicações ou práticas de ensino. O diálogo primário da obra não é tanto com o leitor de quadrinhos ou com o potencial aluno. É com o governo e com o professor. *** Essa percepção já foi mapeada também na literatura infantil, como lembra a professora universitária Magda Soares, no livro "Literatura Infantil: Políticas e Concepções", de 2008. Segundo ela, ocorre uma vinculação com o docente, o real leitor pretendido pelo catálogo. As editoras, como toda empresa, objetivam fazer bons negócios e ter lucro. E as adaptações têm se mostrado uma aposta rentável, se vendidas ao governo. Enxergar as adaptações como negócio não significa que o produto seja de má qualidade. Ao contrário: os trabalhos vêm se aprimorando a cada novo álbum. *** As quatro obras lançadas neste mês são apenas o começo. A Ática, de "O Guarani", tem na gráfica uma versão de "O Cortiço" (adaptado por Ivan Jaf e Rodrigo Rosa). A editora prepara também álbuns de "Memórias de um Sargento de Milícias" (por Jaf e Rosa) e de "Triste Fim de Policarpo Quaresma" (por Luiz Antonio Aguiar e Cesar Lobo). A Agir tem uma adaptação de "Os Sertões" (por Carlos Ferreira e Rosa) pronta há mais de um ano. Tem outras duas em produção. Isso sem falar nas surpresas, que sempre surgem. E podem esperar por elas. As editoras, em especial as que não investiam em quadrinhos até então, estão à cata de desenhistas. Pelo menos um já fechou contrato. *** A pergunta que talvez deva ser feita é que impacto isso terá para o mercado de quadrinhos nacional e para a produção realizada no país. Um lado positivo já se vê: editoras pagando autores brasileiros para produzir álbuns, mesmo que sejam pautados em romances. É algo que não se via. Há autores bem empolgados. No que tange à leitura em si, há pelo menos dois pontos de vista levantados, já lidos em artigos diferentes. Um é positivo, outro, negativo. O positivo: os quadrinhos tornam o conteúdo de um romance mais atraente ao aluno. O negativo: tais produções afastam os estudantes da obra original. *** Talvez ambos os olhares tenham razão. Os quadrinhos tendem a ser uma linguagem mais sedutora aos estudantes das séries iniciais. A literatura infantil goza do mesmo apelo. Isso não significa, no entanto, que a adaptação deva substituir a versão original. Além de ser mais barata que os álbuns em quadrinhos, é essencial para o processo de formação. A tendência daqui para a frente é que haja uma saturação de adaptações. Mas o saldo, parece, será favorável. Elas estão abrindo espaço para os quadrinhos na escola. É preciso que editoras e governo já comecem a enxergar o próximo passo: o uso de obras autorais nacionais no ensino como forma de leitura. O caminho, creio, passa por aí.
Escrito por PAULO RAMOS às 00h19
[comente]
[ link ]
Revista de Tina dialoga com novo perfil de leitor 
Primeiro número da revista mensal começou a ser vendido nesta semana nas bancas A revista "Tina" segue a tendência dos Estúdios Mauricio de Sousa de conquistar novos leitores. No caso, o público que deixou de ser infantil e começa a entrar na adolescência. A busca por outra fatia de mercado está tanto no formato quanto no conteúdo da obra, que começou a ser vendida nesta semana nas bancas (Panini, 52 págs., R$ 3,90). O tamanho da revista é maior que o dos demais títulos infantis da Turma da Mônica. Foi produzido na mesma medida usada nas revistas de super-heróis. A parte interna mescla as cinco histórias em quadrinhos - uma terá continuação - com um blog da personagem e uma seção de entrevistas também "feita" por ela. *** A primeira conversa é com a Mônica real, filha de Mauricio de Sousa, hoje diretora das empresas do pai. Tina se tornar entrevistadora tem a ver com o fato de ela ser uma estudante de jornalismo. A personagem vive desde o ano passado uma nova roupagem editorial. As primeiras experiências com o novo molde foram tateadas no ano passado na minissérie "Tina e os Caçadores de Enigmas - Triângulo das Bermudas". Além do tom de aventura, outra mudança foi no desenho de Rolo, integrante da trupe de amizades dela. O rosto dele foi repaginado e se tornou um pouco mais realista. *** O mesmo Rolo lido na minissérie é reapresentado agora nesta revista mensal. E deve causar estranheza em quem estava acostumado a ler as histórias infantis dele. O apelo do título, no entanto, ainda é a personagem-título. Tina nem de longe lembra a hippie dos anos 1970. Deixou de ser prafrentex para se tornar irada. A presença de Tina direciona o título, em especial, ao público feminino. Como projeto editorial, a busca por novos públicos é uma forma de expandir as publicações de Mauricio. Mas a revista peca, pelo menos neste número de estreia, na qualidade dos roteiros. É o mesmo senão visto em "Turma da Mônica Jovem", que já conquistou novos públicos.
Escrito por PAULO RAMOS às 23h28
[comente]
[ link ]
24.05.09
Livro sobre Tex reconta trajetória editorial brasileira 
Obra sobre o personagem italiano serve para relatar também os bastidores das editoras de quadrinhos brasileiras O destaque de "O Mocinho do Brasil - A História de um Fênomeno Editorial Chamado Tex" (Laços, 208 págs., R$ 39,90) é, sem dúvida, o personagem de faroeste. O livro, escrito pelo jornalista Gonçalo Junior, é feito sob medida para os fieis fãs do caubói, criado na Itália em 1948. Reconta em detalhes a trajetória de Tex no Brasil. Mas, em meio às sucessivas migrações editoriais da criação de Gian Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini, pode-se perceber um outro interesse na obra. A vida brasileira do personagem se confunde com a história editorial do país. E essa é outra contribuição que o livro dá. *** Os bastidores das editoras de quadrinhos brasileiras já foram narrados por Gonçalo Junior em outra obra sua, "A Guerra dos Gibis", publicada pela Companhia das Letras. Ainda é a principal referência sobre o assunto e preenche um vácuo que existia sobre esse período, tão pautado por preconceitos e disputas entre os editores. Os primórdios da consolidação dos quadrinhos no país tiveram nas figuras de Adolfo Aizen e Roberto Marinho dois de seus principais protagonistas. Parte desse momento editorial é relembrada e aprofundada nesta nova obra. Um dos motivos é que a entrada de Tex no Brasil se deu pelas mãos da empresa de Marinho. *** A estreia do caubói ocorreu em janeiro de 1951, no número 28 da revista semanal "Júnior", editada pelo grupo de Marinho. De início, foi chamado de Texas Kid. O personagem foi publicado até 1958, quando a revista foi cancelada. Nesse meio tempo, o leitor pôde ler não só as primeiras aventuras dele, mas também da RGE. O selo da Rio-Gráfica Editora, de Marinho, foi estampado pela primeira vez na capa de "Júnior" no número 160. A informação é destacada no livro e também nos anexos. No fim da obra, o autor reproduz em cores todas as capas de "Júnior". Presta um serviço a pesquisadores e fãs. O material é raro e restrito apenas a poucos colecionadores. *** Depois dessa primeira aventura editorial, Tex voltou a ser publicado em 1971, pela Vecchi, em revista própria. Ficou na nova casa, com sucesso, até 1983. A falência da empresa e um olhar atento do staff de Marinho levaram o caubói de novo para a RGE. Na antiga nova casa, o número de títulos de Tex aumentou. O personagem migrou uma vez mais de grupo editorial na virada do século, passando para a Mythos, onde está até hoje. A editora paulista inflou ainda mais a quantida de revistas de Tex nas bancas. Neste mês de maio, são quatro títulos postos à venda. *** O subtítulo do livro faz alusão ao fenônemo editorial de Tex no Brasil, país cuja economia instável afundou várias apostas editoriais. O fenômeno é que a revista do personagem se manteve firme mesmo diante das turbulências. É publicada de forma ininterrupta desde 1971. Poucas que consegiram isso. Isso releva a existência de um público fiel, renovado ao longo do tempo. De fato, é um fenômeno pouco destacado pela imprensa, fato que o livro evidencia e corrige. A importância de Tex no Brasil ganha ainda mais relevância quando vista à luz da trajetória editorial do país. É tema de importância. E não só para os fãs do caubói italiano. *** Nota 1: Uma adaptação de Tex para o cinema foi lançada recentemente no Brasil. "Tex Willer e os Senhores do Abismo" é de 1985 e traz Giuliano Gemma no papel do caubói. Nota 2: Gonçalo Junior lança outro livro neste mês, uma biografia do desenhista Flavio Colin. A obra (R$ 13) é da Marca de Fantasia e é vendida no site da editora.
Escrito por PAULO RAMOS às 13h05
[comente]
[ link ]
19.05.09
HQ gera polêmica. E evidencia visão estreita sobre os quadrinhos

Álbum em quadrinhos com histórias de futebol traz palavrões e foi comprado pelo governo de SP para ser levado à escola
É necessário analisar de forma mais crítica e contextualizada a reportagem veiculada na edição desta terça-feira do jornal "Folha de S.Paulo".
A matéria, intitulada "SP distribui a escolas livro com palavrões", revela que o governo de São Paulo comprou um álbum em quadrinhos com palavrões e conteúdo sexista. "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol", da editora Via Lettera, seria distribuída a alunos da terceira série do ensino fundamental. Segundo a reportagem, assinada pelo jornalista Fábio Takahashi, o livro "é recheado com expressões como ´chupa rola´, ´cu´ e ´chupava ela todinha.´ *** A obra integra um lote de 818 títulos comprados para um programa chamado Ler e Escrever, que tem como proposta estilumar a leitura. Do livro da Via Lettera, o governo encomendou 1.216 exemplares. A obra é de 2002. A editora disse que apenas atendeu ao pedido de impressão feito pelo governo. O governo do Estado informou à Folha que houve um erro na escolha, "pois o material é inadequado para alunos dessa idade". A obra foi recolhida. A Secretaria de Educação também irá instaurar uma sindicância para apurar como se deu o processo de seleção. A previsão do governo é que o resultado saia em 30 dias. *** A história mais criticada, segundo a reportagem, seria a que encerra o álbum, de autoria de Caco Galhardo. O desenhista criou uma mesa-redonda sobre sexo, feita nos moldes dos programas esportivos exibidos aos domingos à noite. Há, de fato, palavrões e conteúdo sexista. Galhardo foi ouvido pela reportagem da Folha. Segundo ele, a história não foi feita para ir à escola e a pessoa que fez a seleção "não leu o livro". "Há um movimento de se colocar quadrinhos nas aulas, porque é uma linguagem acessível para a molecada. Fiz uma adaptação do Dom Quixote que foi para várias escolas. Mas os caras têm de ter critério para ver qual quadrinho colocar. Nessa eu tirei sarro de uma mesa-redonda. " *** O caso tenta fazer uma ponte com outra polêmica protagonizada pela Secretaria de Educação do governo José Serra. Em março, reportagem do mesmo jornal revelou que alunos da sexta série receberam material em que o Paraguai aparece duas vezes num mapa. O caso levou à queda da então secretaria, Maria Helena Guimarães de Castro. Foi substituída pelo ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza. São situações que conotam equívocos. Inclusive no modo como foi noticiado. Há o sério risco de se transformar exceção em regra. *** É fato que um livro com palavrões, em quadrinhos ou não, é inadequado a alunos de terceira série? É. Há a necessidade de uma maturação maior para ler obras assim. Mas não se pode pensar que palavrões sejam sinônimo de má qualidade. O que seria do filme "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, sem tais termos. "Meu nome é Zé Pequeno, porra!", disse um dos protagonistas do longa, em um dos clímax narrativos da produção. E não incomodou ninguém. O mesmo pode ser dito da literatura marginal. Ou de peças como "Caixa 2", de Juca de Oliveira. Palavrões servem como recurso para caracterizar os personagens. *** Outra ponderação é que não se pode transformar exceção em regra. O recurso faz parte do modus operandi da imprensa e precisa ser lido de forma crítica. "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol" não é "recheado" com palavrões, ao contrário do que informa a reportagem. Eles aparecem em quatro das 11 histórias. Ou seja: os termos dito chulos aparecem em 36,36% da obra. Menos da metade, portanto. E, dado o contexto das histórias e o estilo dos autores - um deles é Allan Sieber -, são mais do que pertinentes. *** A reportagem da Folha também não registra dois dados. O primeiro é que a obra foi organizada por Orlando, um dos ilustradores do jornal. O prefácio foi feito pelo ex-jogador Tostão, um dos colunistas da Folha. O fato também não foi mencionado. Tostão fala bem da obra. São dele as palavras a seguir. "O desenho e as poucas palavras - ou nenhuma - informa, analisam e nos divertem." "Faltava um obra como essa para crianças e adultos. Muitos leitores de futebol já estão cansados de análises técnicas dos comentarias esportivos, como eu. Você vai adorar!" *** Outro perigo de generalização é a forma como o assunto vai ecoar no restante da imprensa nesta terça-feira. Em geral, jornalistas desconhecem quadrinhos. A questão que fica é qual será o enfoque da pauta. Livro comprado pelo governo paulista traz palavrões ou história em quadrinhos comprada pelo governo traz palavrões? Nos dois casos, os quadrinhos inevitavelmente irão compor as matérias. Afinal, a obra criticada foi feita nessa linguagem. O risco é, como dito, o da generalização. Na cabeça de muitas pessoas, que lerão, ouvirão ou assistirão a tais reportagens, quadrinhos podem ser vistos de forma depreciativa. *** É um discurso herdado da década de 1940 em diante e que persiste, porém adormecido. É um olhar que enxerga os quadrinhos como produto infantil ou de baixa qualidade. Percebe-se isso nos detalhes. Um caso são reportagens que iniciam o texto com lugares-comuns como "quadrinhos já não são mais coisa de criança". Li uma assim em 2008. Pode ser, claro, que a generalização não ocorra neste caso. Mas as chances em contrário são grandes. *** Se ocorrerem, a entrada dos quadrinhos na sala de aula pode retroceder alguns passos. E reforçaria o olhar de quem enxerga nas adaptações literárias a forma mais aceitável de presença dos quadrinhos no ensino. Isso, sim, seria um erro. Erro que esconderia as reais falhas dos processos seletivos feitos pelos governos, tanto estadual quanto federal. E os quadrinhos e seus autores seriam os culpados, os laranjas da história. De novo.
Escrito por PAULO RAMOS às 10h27
[comente]
[ link ]
|