27.03.08

Níquel Náusea divide posto de protagonista em novo álbum de tiras

 

 

 

 

 

 

 

"Níquel Náusea - Minha Mulher É uma Galinha", nova coletânea de tiras, traz histórias já publicadas no jornal "Folha de S.Paulo"

 

 

 

 

 

Níquel Náusea pode dar o nome da tira cômica criada por Fernando Gonsales. Mas o rato de esgoto não é mais o único protagonista da série.

Isso já não é muita novidade para quem acompanha as piadas diariamente no jornal "Folha de S.Paulo", que publica as histórias desde 1985.

Mas fica bem mais claro durante a leitura de "Níquel Náusea - Minha Mulher É uma Galinha", nova coletânea de tiras publicadas na Folha (Devir, R$ 26, 48 págs.).

O álbum -o sétimo publicado pela Devir- tem lançamento hoje à noite em São Paulo.

Das 230 tiras da obra, Níquel Náusea aparece em 37. Cerca de 16%.

Os outros personagens da trupe, como a barata viciada Fliti, protagonizam 20 tira. Pouco mais de 8,5%.

Quem se torna o alvo da maioria das piadas restantes são todos os outros animais imaginados por Gonsales.

É um zoológico completo: há elefantes, macacos, porcos, galos, até dinossauros.

Numa espécie de rodízio, são eles os condutores das histórias e do efeito de humor por elas provocado.

O recurso de usar personagens desconhecidos e de diluir a importância do protagonista parece ser uma tendência, em especial em parte das tiras sul-americanas.

É o que ocorreu, por exemplo, com a série "Piratas do Tietê", de Laerte. Os piratas não aparecem há vários anos.

É recurso muito comum também na nova geração de tiristas brasileiros, grupo que usa a internet como principal meio de difusão (Rafael Sica é apenas um exemplo).

Na Argentina, o desenhista REP optou por um modelo semelhante.

O que importa, para ele, é a piada, e não o personagem fixo, modelo herdado dos EUA.

Há alguns anos, REP deslocou o personagem-título Gaspar, um ex-revolucionário, para aparições esporádicas.

No lugar, usa situações corriqueiras como tema da tira, como se fossem cartuns.

As tiras dele são publicadas diariamente no jornal "Página 12", de Buenos Aires.

Na desta quinta-feira, a piada é narrada por meio de Gaspar.

Esse comportamento indica que desenhistas sul-americanos -ou parte deles- parecem buscar mais mobilidade criativa dentro das amarras apertadas do limitado formato da tira.

Pôr para escanteio os personagens fixos é apenas um sinal disso. 

Níquel Náusea é pautado por aquele humor tradicional, que existe desde o surgimento das tiras, há um século.

Mas o resultado final, quando lido em seqüência, mostra que Fernando Gonsales está antenado a essa tendência criativa. Não usar tanto o protanogista é sinal disso.

Serviço - Lançamento de "Níquel Náusea - Minha Mulher É uma Galinha". Quando: hoje (27.03), a partir das 19h. Onde: Livraria da Vila. Endereço: Alameda Lorena, 1.731, São Paulo. Quanto: R$ 26.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h10
[comente] [ link ]

25.03.08

Álbum traz história inédita já publicada seis anos atrás

 

 

 

 

 

 

 

 

"Assunto entre Vampiros", história de Mirza anunciada como inédita, foi lançada em álbum da personagem publicado em 2002

 

 

 

 

 

 
 
Sempre é bem-vindo um retorno antigos personagens nacionais, como o que ocorre neste mês com Mirza, a Mulher-Vampiro.
 
Um álbum com duas histórias dela está à venda nas bancas e lojas especializadas em quadrinhos (Mythos, 68 págs., R$ 19,90).
 
Mas a edição precisa de alguns ajustes para não informar o leitor de forma equivocada.
 
O primeiro ajuste é um detalhe menor, quase sem importância. A obra comemora 40 anos de criação da personagem do ítalo-brasileiro Eugênio Colonnese.
 
Na verdade, Mirza surgiu em 1967, em revista da editora Jotaesse. São 41 anos, portanto.
 
O segundo ajuste é mais sério.
 
A capa e a orelha do álbum informam ao leitor que as duas histórias da obra são inéditas.
 
Os trabalhos seriam os últimos de Colonnese (desenhos) e Osvaldo Talo (texto) para a extinta revista "Mestres do Terror", da editora D-Arte. 
 
Com o fim da revista, diz o texto, "as historietas aqui presentes permaneceram inéditas, aguardando uma boa oportunidade para entreter seus saudosos fãs".
 
Não é totalmente verdade.
 
A primeira história, "O Castelo do Terror", ao que tudo indica é inédita.
 
A segunda, "Assunto entre Vampiros", não.
 
"Assunto entre Vampiros", de 18 páginas, integrou o álbum "Mirza, a Vampira", lançado em 2002 pela editora Opera Graphica.
 
Nessa versão da Opera Graphica, consta na página de abertura da história que a história foi escrita por Osvaldo Talo e que teve "texto final" de Sidemar de Castro.
 
O quadrinho com os créditos, presente na página de abertura, não aparece (ou foi cortado) na versão da Mythos. Logo, não há menção da Sidemar de Castro.
 
Parte dos diálogos também apresenta sutis diferenças entre as duas edições.
 
Voltamos ao ponto inicial.
 
Uma obra-homenagem a Mirza, criação mais famosa de Colonnese, é algo sempre bem-vindo. E é louvável a iniciativa da Mythos, até então distante dos quadrinhos nacionais.
 
A publicação ajuda a recuperar as raízes da produção brasileira, em especial do gênero terror, que já foi tão popular por aqui. E contribui para apresentar o tema a novos leitores.
 
A obra serve também de homenagem a Eugênio Colonnese, um dos mais antigos e importantes autores de quadrinhos que atuaram -e atuam- no Brasil.
 
O senão é a venda ao leitor de algo que a edição não tem. E que contradiz com a proposta de uma publicação desse porte, que teria tudo para ser só comemorativa.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h14
[comente] [ link ]

23.03.08

Death Note: caderno serve de tabuleiro para jogo de lógica mortal

 

 

 

 

 

 

 

Capa da nona edição do mangá, atualmente nas bancas; série terá 12 volumes ao todo

 

 

 

 

 

 

 

 

Poderia até causar estranhamento ver um mangá como "Death Note" incluído na seleção oficial do Festival de Quadrinhos de Angoulême, na França, o principal da Europa.

Embora não tenha levado os prêmios principais, a qualidade do mangá faz jus à indicação.

A trama mostra um roteiro bem costurado, com diálogos baseados no uso da lógica, como se fossem verbalizações de jogadas de xadrez.

Mas, no lugar do tabuleiro, há o caderno mortal que dá título ao mangá.

O "Death Note", pertencente a seres chamados Shinigamis, tem poderes especiais que permitem matar qualquer pessoa.

Basta que o dono do caderno escreva o nome da vítima e descreva como ela deve morrer.

Na história, publicada no Brasil pela editora JBC, o caderno é utilizado por Light Yagami, um adolescente superdotado.

Ele pretende usar o "Death Note" para livrar a humanidade dos crimininosos e ditar uma nova ordem mundial. Para isso, assume publicamente o codinome Kira.

Kira se torna, aos poucos, um serial killer. E passa a ser investigado.

O pai de Yagami, ligado à polícia japonesa, é escalado para participar das investigações.

Outro superdotado, chamado L, ligado a um grupo supragovernamental secreto, também passa a investigar os passos do misterioso assassino.

Muito do embate calcado na lógica vem dessa disputa entre L e Kira. Estrategistas natos, um tenta antecipar os passos do outro.

Outra característica muito presente no mangá é a dualidade do protagonista.

O escritor Tsugumi Ohba faz de Light Yagama um herói e vilão ao mesmo tempo. O leitor fica na dúvida se deve torcer pela vitória de Kira ou por seu fracasso. Fora as reviravoltas.

Do primeiro número, iniciado no Brasil no ano passado, até a nona edição, lançada este mês (R$ 10,90), a história deu mais de uma guinada narrativa.

Atualmente, a trama avançou para o ano 2010, com um Light Yagami já adulto. E os conflitos de lógica, mostrados por meio dos diálogos, ficam ainda mais acentuados.

"Death Note", desenhado por Takeshi Obata, já está às portas do fim.

A série tem 12 números ao todo.

Mas, antes que termine, merece um olhar mais atento, se possível desde seu início.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h25
[comente] [ link ]

19.03.08

Pós-modernidade, a verdadeira kryptonita dos super-heróis

 

 

 

 

 

 

 

Na revista deste mês, Super-Homem encontra um menino com poderes semelhantes aos seus, como no cinema; mescla de linguagens é tendência que modifica personagens dos quadrinhos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Já faz muito tempo que os vilões deixaram de simbolizar  uma fictícia ameaça aos super-heróis. Estes devem ter medo, sim, mas não dos bandidos. 
 
O poder de destruição está nas mãos de quem banca as histórias.
 
E, nesse ponto, não se pode mais ter uma visão segmentada. Não é o roteirista nem o editor que muda um superpersonagem. Também não é só a editora.
 
O que altera um herói norte-americano nos quadrinhos, hoje, é uma soma de realidades midiáticas paralelas, que existem simultaneamente.
 
                                                  ***
 
Há diferentes versões de um mesmo personagem. Ele existe nos quadrinhos, no cinema, nos desenhos animados, nos games, em livros, em versões infantis.
 
Alguém vai lembrar, corretamente, que isso vem desde a década de 1940.
 
É verdade. Mas essas releituras tinham sempre como base os quadrinhos. E os quadrinhos não mudavam por causa das releituras.
 
Desde o fim do século passado -que não está tão distante assim-, o fenômeno mudou.
 
Personagens dos quadrinhos estadunidenses continuam migrando para outras linguagens e mídias. Mas parte dessas mudanças é incorporada às versões quadrinizadas.
 
Essa é a verdadeira kryptonita dos super-heróis.
 
                                                 ***
 
Este mês marca um bom exemplo disso.
 
A revista número 64 da revista "Superman" (Panini, 100 págs., R$ 6,90) começa a publicar as histórias do herói de Krypton escritas por Geoff Johns e Richard Donner.
 
Donner foi o diretor do primeiro longa-metragem do personagem, exibido em 1978 e com Christopher Reeve (1952-2004) no papel-título.
 
Johns é um dos principais escritores da DC Comics, editora que detém os direitos de publicação do herói.
 
A fase escrita pela dupla, e iniciada neste mês na revista brasileira do personagem, faz uma clara aproximação com o último filme do herói, "Superman - O Retorno", de 2006 (mesmo ano em que a história foi lançada nos Estados Unidos).
 
O longa-metragem dava seqüência ao segundo filme da versão cinematográfica, de 1980. Na produção, Super-Homem volta à Terra após passar anos no espaço.
 
Clark Kent -alter-ego do herói- retoma a vida de antes. Mas descobre que Lois Lane teve um filho durante sua ausência.
 
No fim da trama, vê que é o pai da criança, que tem poderes como os seus.
 
É justamente um menino que Johns e Donner ajudam a inserir na realidade dos quadrinhos e na vida particular de Clark Kent.
 
Outra semelhança com o longa são os desenhos de Adam Kubert.
 
O artista desenha o alter-ego do herói com características fisionômicas muito parecidas com Brandon Routh, atual intérprete do Super-Homem no cinema.
 
                                         ***
 
Voltando alguns anos no tempo, mas não muitos, pode-se perceber também o impacto que o seriado "Smallville" exerceu nos quadrinhos.
 
No Brasil, forçou a aposentar o tradicional nome "Pequenópolis", que era dado à cidade onde o herói foi criado após chegar do planeta Krypton.
 
Nos Estados Unidos, a DC Comics optou por reformular, uma vez mais, a origem do personagem.
 
A mudança foi contada na minissérie "O Legado das Estrelas", já lançada no Brasil.
 
Ao contrário da reformulação anterior, feita por John Byrne no meio dos anos 1980, Lex Luthor conheceu Clark Kent na infância. O mesmo ocorre no seriado "Smallville".
 
Na versão de Byrne, o primeiro contato entre Super-Homem e Luthor se deu em Metrópolis, quando ambos eram já adultos.
 
                                         ***
 
Retornando um pouco mais no tempo, mais precisamente na década de 1990, outro seriado interferiu no modus vivendi do personagem nos quadrinhos.
 
"Lois & Clark - As Novas Aventuras do Superman" -exibido por aqui pela primeira vez na TV Globo- teve num dos episódios o casamento dos dois protagonistas.
 
Às pressas, o mesmo foi arranjado nos quadrinhos.
 
O convite de casamento, a cerimônia e a festa foram mostrados no especial "O Casamento do Super-Homem", lançado pela Abril.
 
De certa forma, o Lex Luthor de Gene Hackman, na primeira versão cinematográfica de Super-Homem, teve influência na modificação feita por John Byrne. Mas é algo pontual.
 
A regra é que muitos dos super-heróis têm sido modificados por causa de outras versões suas, existentes em mídias paralelas.
 
Mesclam-se elementos, destroem-se características e cronologias anteriores, busca-se um novo leitor, que acompanha as outras mídias, e não necessariamente os quadrinhos.
 
Jonathan Kent, pai adotivo de Clark Kent, ainda está vivo nos quadrinhos.
 
Já morreu no cinema e no seriado "Smallville". Por isso, deve tomar cuidado. A kryptonita midiática pode dar cabo dele.
 
                                                 ***
 
Há seguramente outros exemplos, tão eloqüentes quanto estes.
 
Esse fenômeno, segundo os teóricos da comunicação, é rotulado como pós-modernidade.
 
Conceito amplo, pode ser aplicado a diferentes situações e contextos.
 
Em comum, há essa característica de amálgama midiática, fruto de um passo além da sociedade de massa iniciada com a Revolução Industrial.
 
As características mínimas podem ser preservadas. Mas o entorno do super-herói fica fragilizado diante da ação empresarial que detém os direitos sobre ele.
 
Nesses novos tempos, surge enfim um vilão à altura dos heróis, a tal da pós-modernidade.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h35
[comente] [ link ]

13.03.08

Sem roupa, espanhola fura bloqueio da alfândega editorial brasileira

 

 

 

 

 

 

 

"Clara da Noite" reúne histórias curtas da prostituta, publicadas na revista espanhola "El Jueves"

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Uma turista espanhola conseguiu furar o rigoroso bloqueio da alfândega editorial brasileira, que costuma barrar quadrinhos estrangeiros vindos da Europa e da América do Sul.
 
Mesmo nua -ou por estar nua-, passou sem problemas pelo crivo e protagoniza o álbum "Clara da Noite", lançado no fim de semana (Zarabatana, 64 págs., R$ 25).
 
Apesar de ser rotulada como erótica, a obra não é igual à maior parte das produções do gênero. 
 
Há, sim, cenas de sexo e nudez. Mas são usadas como pretexto para narrar a trajetória da personagem em microcrônicas de duas páginas (todas as 31 histórias do álbum têm simetricamente a mesma quantidade de páginas).
 
Clara, a protagonista, é uma prostituta. Ou puta, como ela mesma se chama. Vive disso. E é também por meio da atividade que consegue dinheiro para manter a si e a outros.
 
Há um algo mais nela, e não apenas por causa dos atributos físicos, inspirados na pin-up Bettie Page. As pistas são colocadas aqui e ali, para serem finçadas pelos leitores.
 
A leitura revela que Clara tem uma alma propensa a ajudar, quer seja gastando o "salário" com uma amiga grávida, quer seja elaborando uma grife para prostitutas para arrecadar fundos para uma idosa.
 
Durante a leitura, o leitor descobre também que a prostituta tem um filho, Pablito.
 
A curiosidade do garoto é perguntar à mãe se algum dos parceiros sexuais dela é seu pai verdadeiro. Pela atitude dele, percebe-se que a vida de Clara é narrada com toques de humor. Percepção correta.
 
A difícil mescla de erotismo, crônica e humor é crédito da dupla de escritores, o espanhol Eduardo Maicas e o argentino Carlos Trillo. Talvez mais mérito deste que daquele.
 
Trillo é tido como um dos principais escritores de quadrinhos argentinos. Mas o currículo dele ainda o barra na alfândega editorial brasileira.
 
No ano passado, um trabalho dele conseguiu furar o cerco.
 
A editora Mythos lançou dois volumes de "O Menino Vampiro", obra feita em parceria com o também argentino Eduardo Risso (leia resenha aqui).
 
"Clara da Noite" é um dos trabalhos europeus dele. As histórias curtas de duas páginas saíram na revista de humor "El Jueves", da Espanha.
 
A "El Jueves" ficou conhecida no Brasil no ano passado porque dois de seus autores foram condenados pela justiça espanhola a pagar 3 mil euros cada um por causa de uma charge publicada na revista.
 
O desenho mostrava o príncipe espanhol fazendo sexo com a esposa (leia mais aqui).
 
O site da "El Jueves" põe à venda pelo menos outros dez álbuns da personagem.
 
Quem sabe algum deles fure novamente a resistência brasileira aos trabalhos de Trillo e instigue alguém a trazer outros, ainda melhores que "Clara da Noite", a quem a Zarabatana corajosamente concedeu visto de entrada no país.
 
E não custa pensar mais alto. Quem sabe não se estabeleça um acordo diplomático para tirar do exílio outros autores argentinos, como Hector Oesterheld, Sendra e Liniers.
 
Ganharíamos todos com isso.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h31
[comente] [ link ]

12.03.08

Um adendo sobre Spirit e Panini

A resenha abaixo, sobre o lançamento de "Batman & Spirit", causou uma inesperada polêmica.
 
Leitores deste blog e colegas da imprensa me alertam que, durante uma palestra no fim de semana, a Panini informou que estava de olho na série clássica de Spirit e que o material estava sendo disputado por outras editoras.
 
O blog noticiou, na resenha, que a Panini não tinha planos de relançar a série neste momento.
 
Essa informação foi checada na semana passada, por e-mail, com Fabiano Denardin, editor sênior da linha DC da Panini.
 
O blog fez novo contato com Denardin hoje, no fim da manhã.
 
Ele confirmou o que havia dito antes. Reproduzo a resposta, na íntegra:
 
Como eu te falei, não tem absolutamente nada dos Clássicos do Spirit programado. É claro que temos interesse editorial, queremos publicar todo e qualquer material de qualidade, mas oficialmente a posição da editora é essa: não temos planos no momento para o material clássico do Spirit.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h24
[comente] [ link ]

11.03.08

Encontro entre Batman e Spirit só reforça qualidade de Will Eisner

 

 

 

 

 

 

 

 

Edição especial que mostra parceria entre os dois heróis começou a ser vendida neste mês

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Há a tendência de haver uma certa resistência quando a obra se trata de uma releitura de algum dos clássicos dos quadrinhos.
 
A pulga atrás da orelha é porque é inevitável a comparação com a versão original.
 
Cabe à nova história mostrar a que veio e convencer o leitor de que tem qualidades suficientes para agradar a ele. Não é este o caso do especial "Batman & Spirit", lançado este mês (Panini, 52 págs., R$ 5,90).
 
A história erra na concepção. Batman e Spirit, embora tenham sido criados na mesma época (1939 e 1940, respectivamente), tinham tramas muito díspares.
 
As aventuras do uniformizado homem-morcego, de Bob Kane, pautavam-se no combate a criminosos surreais em lutas dosadas com toques de violência.
 
Spirit, por outro lado, tinha em suas páginas muito da alma de seu criador, Will Eisner. O desenhista fazia contos escondidos na roupagem de histórias de ação.
 
Não importava muito o uniforme do protagonista. Uma singela máscara compunha o visual dada a realidade das demais produções da época.
 
O escritor deste encontro, Jeph Loeb, teve de pender a construção da história para um dos lados. Optou por tornar a reunião entre os dois heróis numa aventura de super-heróis, sua especialidade.
 
Loeb procurou ambientar a trama na ingenuidade que permeava as aventuras do gênero na década de 1940. O resultado é um enredo fraco, meio bobo até.
 
Os comissários Gordon e Dolan -ligados a Batman e Spirit- são seduzidos por P´Gell e Hera Venenosa -vilãs dos dois heróis- para participarem de um encontro de oficiais no Havaí.
 
Tratava-se, na verdade, de um plano maior, imaginado por outros vilões, para destruir o local com todos dentro.
 
A virtude da edição especial são os desenhos de Darwyn Cooke, que procura captar o estilo marcante de Eisner. E é bem-sucedido em muitos momentos.
 
Cooke foi o responsável por outra releitura de Spirit, que será publicada pela Panini na forma de uma minissérie em seis edições. Segundo a editora, começa a ser vendida neste mês.
 
Esse encontro, por contar com a presença de Batman, pode funcionar como um chamariz para a minissérie, principalmente porque os leitores mais novos desconhecem Spirit.
 
Deveriam conhecer. Mas no traço de Will Eisner.
 
Esta releitura só serviu para reforçar que o trabalho dele era muito, muito superior.
 
E serviu também para instigar a pergunta: entre uma releitura piorada e a versão original, por que não relançar no país a versão original?
 
Não tenho resposta. Mas antecipo pelo menos a resposta de outra pergunta: segundo a Panini, os clássicos de Spirit não estão nos planos da editora neste momento.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h41
[comente] [ link ]

08.03.08

Reedições da Turma da Mônica: atrasos e pouca informação ao leitor

Há uma mudança nos créditos finais da terceira leva de reedições da coleção "As Primeiras Revistas da Turma da Mônica – Coleção Histórica", que começou a ser vendida discretamente nesta virada de semana (Panini, R$ 19,90).

Cada uma das revistas –reunidas numa caixa- diz nas páginas finais que se trata de uma "publicação especial".

Nas duas edições anteriores, vendidas no trimestre final de 2007, os mesmos créditos diziam que a coleção era mensal.

A mudança, embora sutil, justifica o atraso no lançamento desta terceira parte da coleção.

A série reedita as primeiras revistas "Mônica" (capa acima), "Cebolinha", "Cascão", "Chico Bento" e "Magali".

Nesta nova caixa, há os terceiros números de cada uma dessas publicações.

O blog havia entrado em contato com a assessoria de Mauricio de Sousa há algumas semanas para ter informações sobre o sumiço da série.

A resposta é que tinha havido alguns contratempos, mas que continuava de pé a proposta de dar continuidade à série.

É fato. E está aí o terceiro volume para comprovar.

Mas faltou a editora avisar ao leitor, alheio aos bastidores do processo de produção.

O site da Panini, que publica a coleção, também não ajuda muito. As informações estão desatualizadas.

A página virtual registra apenas o primeiro número, mas não o segundo e nem este terceiro, já lançados (o blog acessou o site da Panini às 17h43 deste sábado).

O mesmo problema ocorre com outra coleção, "As Tiras Clássicas da Turma da Mônica", que teve a primeira edição lançada com atraso no ano passado.

No site da Panini, consta apenas esse primeiro número das tiras clássicas. Não há informação sobre o segundo.

Mas, na revista "Cebolinha" da caixa de "As Primeiras Revistas da Turma da Mônica", aparece um anúncio do segundo número da coleção de tiras. O anúncio está na página 42.

O texto traz os dizeres: "O volume 2 já está à venda. Reserve o seu exemplar!"

Não é verdade. Não está à venda. Não neste sábado, pelo menos.

É de grão em grão, de pista em pista, e com boa vontade e paciência, que o leitor fiel aos relançamentos da Turma da Mônica vai formando sua coleção.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h10
[comente] [ link ]

07.03.08

Álbum reúne trajetória quadrinística de José Aguiar

 

 

 

 

 

 

 

 

"Quadrinhofilia", nome da obra da editora HQM, começa a ser vendida neste fim de semana

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O desenhista curitibano José Aguiar reuniu 14 histórias curtas feitas ao longo dos últimos anos e as agrupou em "Quadrinhofilia" (HQM, 96 págs., R$ 29,90).
 
A coletânea começa a ser vendida neste fim de semana na Fest Comix, feira de quadrinhos que acontece em São Paulo (leia mais aqui).
 
Em novembro do ano passado, Aguiar convidou este jornalista para prefaciar o álbum.
 
O resultado final ficou mais próximo de uma resenha do que de um prefácio propriamente dito, talvez por causa do vício jornalístico.
 
Como não faria uma resenha muito diferente aqui no blog, pedi à editora HQM se eu poderia reproduzir o texto nesta página virtual.
 
Concessão gentilmente dada, segue o prefácio/resenha.
 
                                                             ***
 
Se o seu cartão de visitas para esta obra de José Aguiar foi "Folheteen", álbum lançado no começo de 2007 pela editora Devir, esqueça o que leu. As páginas deste livro não têm quase nada a ver com o trabalho anterior dele. Parece até outro desenhista.
 
"Quadrinhofilia" reúne histórias publicadas por ele aqui e ali. Na verdade, o lugar onde foram veiculadas, seja impresso ou virtual, não importa muito. O que vale é observar o traço de Aguiar em cada uma das histórias curtas.
 
O desenhista curitibano produziu tramas mais convencionais, quase contos urbanos, como o que aborda o Carnaval. Mas passeia também por gêneros dos mais variados, de terror à ficção científica, do humor a um flerte rápido com o erótico.
 
Há também, é importante que se registre, a boa análise biográfica sobre o mercado de quadrinhos europeu, fruto de viagem dele à França e à Alemanha. É um gênero em que ele deveria investir mais futuramente.
 
Mais do que histórias em quadrinhos, a obra revela um artista com pleno domínio do que faz, o que permite diálogos mais ousados com a experimentação e com o surreal.
 
A sensação que se tem ao fim da leitura é que Aguiar escondia um lado artístico esteticamente criativo, desconhecido de boa parte do público de quadrinhos. É esse lado que vem à tona nesta obra.
 
José Aguiar, nem todos sabem, foi uma espécie de guru de uma nova geração de desenhistas do sul do país, geração da qual ele também faz parte, separado dos demais por apenas alguns anos de experiência a mais.
 
Vê-se em "Quadrinhofilia" que o professor tinha muito a ensinar.
 
                                                            ***
 
Nota: há uma prévia da obra no site de Aguiar. Acesse neste link.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h27
[comente] [ link ]

03.03.08

Fotógrafo 2 mostra sem rodeios as tragédias da guerra

 

 

 

 

 

 

 

Álbum mescla fotos e quadrinhos para mostrar atendimento dos Médicos sem Fronteiras no Afeganistão

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O segundo volume de "O Fotógrafo - Uma História no Afeganistão", lançado há um mês (Conrad, R$ 46, 82 págs.), perde um pouco do ar inovador presente na primeira parte.
 
O foco não está tanto na linguagem, que mescla fotos com quadrinhos na condução da narrativa real. O recurso, embora presente e relevante, fica num segundo plano durante a leitura. O que se destaca é o que as fotos trazem ao leitor.
 
E o que se vê na lente do fotógrafo Didier Lefèvre é uma realidade cruel, nua, necessariamente incômoda, às vezes difícil de ser observada.
 
No álbum, que se passa em 1986, ele acompanha uma equipe do Movimento dos Médicos sem Fronteiras no Afeganistão.
 
O objetivo do grupo é chegar a um hospital improvisado, atender pacientes e preparar moradores locais para o serviço.
 
Milícias do país estavam em guerra contra a União Soviética. O interesse de Lefèvre era registrar tudo. E registrou.
 
Há pacientes sem a parte de baixo da boca (cena impressionante), com tiro na cabeça (o homem da capa do álbum, mostrada acima), crianças com mãos queimadas.
 
Além dos registros, Lefèvre reporta o que vê, o que ouve das pessoas com quem convive, emociona-se (literalmente) com algumas das histórias que presencia.
 
O que as imagens não captam, os relatos detalham. E os desenhos Emmanuel Guibert ligam uma foto à outra, tornando o álbum um misto de história em quadrinhos, ensaio fotográfico e jornalismo em quadrinhos.
 
Tal qual ocorreu na primeira parte, lançada no Brasil em novembro de 2006 (leia aqui).
 
Lefèvre saiu ileso dos perigos que enfrentou no Afeganistão. Mas a ironia da vida pregou-lhe uma última peça.
 
Em janeiro do ano passado, dias depois de ser premiado no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, pela terceira parte da série, morreu em casa, de ataque cardíaco (leia mais aqui).
 
Estava com 49 anos. As fotos dele ficaram.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h22
[comente] [ link ]

[ ver mensagens anteriores ]