30.06.08

Livros de bolso trazem tiras de personagens da Turma da Mônica

Em cada editora por onde passou (leia-se Abril e Globo), Mauricio de Sousa lançou livros de bolso com coletâneas de tiras de seus personagens.

O empresário e desenhista seguiu essa tradição na Panini, editora que publica a Turma da Mônica desde janeiro do ano passado.

A nova encarnação da coleção "As Melhores Tiras" traz cinco livros, todos produzidos em formato de bolso (ou "pocket", como se chama no mercado).

Mônica, Cebolinha, Chico Bento, Bidu e Penadinho protagonizam as obras (132 págs., R$ 9,90 cada uma).

Os livros começam a ser vendidos nesta semana.

Mas já podem ser encontradas em lojas especializadas em quadrinhos de São Paulo.

Há dois pontos de vista que devem ser destacados nessa nova safra de coletâneas: um é o mercadológico e outro, o conteúdo.

É sempre bem-vinda uma coletânea de tiras dos Estúdios Mauricio de Sousa.

Ele e sua equipe têm o mérito de criar uma das mais duradouras tiras nacionais.

No ano que vem, as criações de Mauricio de Sousa completam jubileu de ouro.

A primeira tira, de Bidu, é de 1959.

Foi publicada na "Folha da Manhã", hoje "Folha de S.Paulo".

Além do mérito histórico, que já justificaria uma coletânea, há que se reconhecer a qualidade das tiras, melhores que as produzidas atualmente.

Elas obedecem à estrutura clássica da tira: personagens fixos e uma piada no final.

Simples, diretas, bem-feitas.

As de Bidu, em especial, trabalham muito bem o elemento metalingüístico.

Os livros de bolso não dizem a data de publicação das tiras, o que seguramente enriqueceria o teor histórico das obras.

Há apenas uma pequena frase no canto esquerdo de cada uma das capas, registrando que se trata de "histórias clássicas publicadas em jornais".

A leitura mostra que não se trata das primeiras tiras, produzidas na primeira metade dos anos 1960.

O traço dos personagens é mais moderno.

Mas também não são as mais recentes. 

Chico Bento é um bom exemplo.

O personagem não fala de modo caipira, como ocorre hoje em suas tiras e histórias em quadrinhos (e alvo de críticas de professores mal-informados).

A fala dele, nas tiras do livro, é mais próxima da variante culta da língua.

No máximo, lêem-se termos como "carça", "que bão" ou "´fessora".

Mas todos devidamente marcados com aspas ou negritos.

O lado mercadológico das cinco obras é elas sugerem ser uma resposta à linha de "pockets" da L&PM.

A editora gaúcha também tem publicado coletâneas de tiras nacionais.

A Panini publica as obras no mesmo formato.

A leitura das tiras -duas por página e lidas de baixo para cima, com o livro virado- também é idêntica à das publicações da L&PM.

A multinacional Panini tem dado sinais claros de que quer disputar mercado em todas as frentes de venda de quadrinhos.

Já domina as bancas, com linhas infantis, de super-heróis e mangás.

Passou a investir em livrarias no começo ano passado.

Faltava o flanco dos "pockets", ainda dominados pela L&PM. Não falta mais.

Restam apenas as áreas de livros sobre quadrinhos e de produção de álbuns nacionais.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h08
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25.06.08

Local mostra histórias no interior dos Estados Unidos

 

 

 

 

 

 

 

 

Álbum começou a ser vendido neste mês e traz os seis primeiros capítulos da série

 

 

 

 

 

 

 

Quando se pensa num país, a tendência é que se ponham luzes nas principais cidades.

O escritor norte-americano Brian Wood ajusta a mira do holofote narrativo em outro ponto.

Ou melhor: outros pontos.

Ele ilumina as pequenas cidades dos Estados Unidos. E as histórias locais que elas podem proporcionar. Não é por acaso que chamou a série de "Local".

As primeiras seis histórias foram reunidas num álbum, "Local - Ponto de Partida", lançado este mês no Brasil (Devir, 200 págs., R$ 32).

                                                            ***

A série mostra a migração da jovem Megan McKeenan (mostrada na capa do álbum) por seis cidades dos Estados Unidos. 

O motivo da peregrinação é um problema de relacionamento, mostrado na primeira história, ambientada em Portland. Mochila nas costas, ela ruma a Minneapolis, sua segunda parada.

Encerra este primeiro álbum em Park Slope.

Em cada uma das paradas, enfrenta as dificuldades de uma nova vida. E tem um desses momentos relatados em cada uma das histórias. 

Megan funciona como uma espécie de guia turístico do leitor, o ponto focal dele na narrativa.

                                                            ***

Os dramas fictícios vividos por ela variam muito.

Há desde situações mais leves e românticas a momentos tensos, como quando é feita refém durante uma discussão entre dois irmãos (uma das melhores do álbum).

São relatos simples, uns mais interessantes, outros menos.

Mas todos narrativamente bem conduzidos por Brian Wood, mais conhecido do leitor brasileiro por ser o escritor da série "DMZ, publicada na revista "Pixel Magazine".

                                                             ***

O primeiro relato sobre Megan, em especial, traz uma curiosidade para quem aprecia o uso inovador da linguagem dos quadrinhos.

Para marcar um momento de tensão da protagonista, o desenhista Ryan Kelly dá um close em seu rosto num quadrinho.

No quadro seguinte, elimina todo o cenário de fundo, mantendo apenas a face de Megan, com a mesma expressão e posição.

Há uma explicação para isso. Mas cabe à história revelar a quem a lê.

                                                            ***

"Local", que teve mais seis histórias publicadas nos Estados Unidos, é potencialmente mais interessante ao leitor norte-americano do que ao brasileiro.

A descoberta do interior estadunidense dialoga melhor com vive no país.

Para nós, seria mais empático acompanhar uma peregrinação do Oiapoque, no Amapá, ao Chuí, no Rio Grande do Sul.

Mas isso não compromete a leitura, nem tira o mérito do roteiro de Brian Wood.

É um autor que começa a ter mais trabalhos publicados no Brasil. E a ser descoberto.

Como ocorre com as cidades do interior estadunidense que ele retrata em "Local". 

Escrito por PAULO RAMOS às 22h35
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23.06.08

O Cabeleira faz roteiro de cinema na forma de quadrinhos

 

 

 

 

 

 

 

Álbum nacional inspirado no romance de Franklin Távora foi lançado neste mês pela editora Desiderata

 

 

 

 

 

 

O fim do ano passado sinalizava para um maior investimento editorial em álbuns nacionais. Parte deles de adaptações literárias. Outra parcela em histórias inéditas.

"O Cabeleira", lançado neste mês (Desiderata, 136 págs., R$ 39,90) fica na fronteira entre essas duas tendências.

Não é só uma adaptação literária.

É um exercício de roteiro de cinema na forma de quadrinhos.

A história surgiu em razão de um laboratório de roteiro, promovido pelo Sesc.

Leandro Assis e Hiroshi Maeda inscreveram uma primeira versão de "O Cabeleira".

Publicitário e engenheiro, respectivamente, os dois tinham em comum o interesse pelo cinema.

O roteiro foi sabatinado e remoldado. O resultado final não foi filmado. Foi vertido para a linguagem dos quadrinhos, no álbum lançado pela Desiderata.

 

 

A versão de Leandro Assis e Hiroshi Maeda mostra a trajetória do personagem central em dois momentos, na fase adulta e na infância dele (como mostrado no desenho acima).

A base do roteiro foi o romance de Franklin Távora (19842-1888).

O escritor cearense foi o primeiro a relatar em letras as histórias orais do Cabeleira, uma espécie de Lampião que percorreu Pernambuco no século 18. O livro é de 1876.

É do primeiro capítulo da obra o dito "Fecha a porta, gente / O Cabeleira aí vem / Matando mulheres / Meninos também". 

José Gomes, nome do Cabeleira, fez fama por roubar e assustar os moradores da região. Nem igrejas e crianças poupava.

Nos saques e matanças, era acompanhado pelo pai, Joaquim Gomes, de quem herdou o tino pelo estilo de vida violento.

 

 

A "câmera" de Assis e Maeda foi o traço do carioca Allan Alex.

A escolha dele foi um dos acertos da editora Desiderata, que propôs o projeto aos dois.

O desenho de Alex soube captar os enquadramentos e, principalmente, os cortes cinematográficos da proposta original. E sem perder a necessária expressividade da obra.

Em vários momentos, cria-se a sensação de leitura de um storyboard, que serve de base para muitas filmagens cinematográficas.

É como se fosse um longa-metragem moldado em quadrinhos.

 

 

"O Cabeleira" é o segundo álbum nacional com histórias longas lançado pela Desiderata.

O primeiro -"A Boa Sorte de Solano Dominguez"- foi publicado em novembro do ano passado (mais aqui). O roteiro de Wander Antunes também se diferenciava nesse projeto.

Os dois trabalhos seguem a proposta da editora carioca de produzir álbuns nacionais.

Há pelo menos outros três em produção: "Mesmo Delivery", de Rafael Grampa, "Menina Infinito", de Fabio Lyra, e "Copacabana", de Odyr e de Sandro Lobo, editor de quadrinhos da Desiderata (leia mais aqui).

                                                           ***

Ver obras bem produzidas como "O Cabeleira" leva ao questionamento, ainda sem uma resposta definitiva, de por que as editoras brasileiras não investiram antes nesse filão.

Já há exemplos concretos de que desponta um grupo de roteiristas e desenhistas capaz de criar boas histórias, uma das críticas que existiam até então.

Faltou coragem?

Então, que se reconheça, de público, a meritória coragem editorial da Desiderata e de poucas outras -entre elas a HQM- que têm investido e desbravado essa área.

                                                           ***

Nota: A obra de Franklin Távora está em domínio público e pode ser lida na internet (aqui). 

Escrito por PAULO RAMOS às 21h54
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17.06.08

Relançada luta do Homem de Ferro contra o alcoolismo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Álbum, que já está à venda, mostra a fase em que o herói tem de superar dependência à bebida

 

 

 

 

 

 

 

A recente repercussão do Homem de Ferro no cinema pode ofuscar a trajetória do personagem nos quadrinhos. 

Justiça seja feita, o herói metálico não tem tantas histórias memoráveis quanto muitos de seus colegas de aventura.

Curiosamente, uma das sagas mais lembradas -meritoriamente- foge do padrão convencional das histórias do gênero.

O vilão são as garrafas de bebida alcoólica.

A luta do empresário Tony Stark, alter-ego do herói, é para superar a dependência.

É essa seqüência de histórias que começou a ser vendida neste mês ("Os Maiores Clássicos do Homem de Ferro", Panini, 172 págs., R$ 22,90).

                                                            ***

A bebida camufla uma série de fracasssos vividos ao mesmo tempo pelo empresário.

O controle acionário de sua firma corre o risco de escapar de suas mãos.

Vive um clima de idas e vindas com Beth, envolvimento sentimental dele na época (as histórias são de 1979 e saíram por aqui na década seguinte, na extinta revista "Heróis da TV", da editora Abril).

Para piorar, perde parte do controle sua armadura, o que o leva a demonstrar diferentes fragilidades nas brigas contra os vilões tradicionais (os de uniforme e com superpoderes).

                                                            ***

A trama sobre o (des)controle da armadura é interessante.

Mas é outro (des)controle, o da bebida, o âmago desta fase do herói, escrita por Bob Layton e David Michelinie e que tem a maior parte desenhada por John Romita Jr.

Romita Jr. -filho de John Romita, um dos veteranos dos quadrinhos norte-americanos- estava em início de carreira na editora Marvel Comics.

Hoje, mudou o estilo do traço e é uma das estrelas da companhia.

                                                            ***

Os quadrinhos de super-heróis costumam agregar valor quando dialogam com temas reais.

Foi o mesmo caminho, para ficar em um exemplo, que garantiu a reedição das histórias de Arqueiro e Lanterna Verde produzidas na primeira metade da década de 1970.

Na ocasião, o parceiro do Arqueiro, Ricardito, enfrentava dependência de drogas.

É claro que o motivo do lançamento destas nove histórias do Homem de Ferro é menos nobre e mais comercial. Pauta-se nos ecos da popularidade midiática provocada pelo filme.

Que seja esse o pretexto.

Das poucas boas fases do herói, é uma das melhores. Justifica a (re)leitura.

                                                            ***

A editora Panini lançou neste início de mês outra obra com o Homem de Ferro.

É um álbum de luxo com as primeiras histórias do herói, publicadas nos Estados Unidos na primeira metade da década de 1960. Custa R$ 49.

A publicação integra a coleção "Biblioteca Histórica Marvel", que se pauta em relançamentos de histórias clássicas dos super-heróis da Marvel.

Leia mais sobre o álbum aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 19h34
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13.06.08

Novo filme de Hulk prepara terreno para próximos longas da Marvel

 

O novo filme do Incrível Hulk tem uma sabor especial para a platéia brasileira.

As seqüências iniciais do longa-metragem, que estreou nesta sexta-feira nos cinemas, foram produzidas na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

É lá que o alter-ego do Hulk, Bruce Banner, tenta se esconder do exército norte americano.

As tropas do Tio Sam o caçam por julgarem que a experiência que o transforma no monstro verde pertencem ao governo dos Estados Unidos.

E é lá também que o Exército invade o morro e faz uma perseguição à la Tropa de Elite.  

Embora um olhar sobre este segundo filme do personagem passe obrigatoriamente pelo Brasil, a leitura da produção ficaria limitada se se restringisse apenas a isso.

Há pelo menos três outros pontos do filme que merecem registro.

O primeiro é o fato de ser bem diferente do primeiro longa, dirigido por Ang Lee. Há menos uso da linguagem dos quadrinhos e muito mais ação.

O resultado é um filme bem mais comercial e despretensioso, feito para agradar grandes platéias. E agrada. É melhor e mais ritmado que a produção anterior. 

 

 

O segundo ponto a ser destacado são as referências.

Há a tradicional ponta do criador do personagem, Stan Lee.

Com mais de 80 anos, ele participou de todas as adaptações recentes dos heróis da editora norte-americana Marvel Comics.

A Marvel publica, além de Hulk, personagens como Homem-Aranha, e X-Men.

Os mais atentos perceberão outras referências.

Lou Ferrigno, o Hulk do seriado de TV dos anos 1970, participa de uma cena. E Bill Bixby (1934-1993), o Bruce Banner da série televisiva, é homenageado logo no início.

É numa cena rápida. O Banner atual -interpretado por Edward Norton- assiste a Bixby no seriado "Meu Marciano Favorito", estrelado pelo ator na década de 1960.

A transformação de Banner no monstro também é inspirada na série. Tensão no rosto, olhos verdes e pronto: no feio Hulk virou (faço aqui outra referência).

 

 

O terceiro aspecto é que o filme de Hulk segue o mesmo caminho do de Homem-de-Ferro, ainda em cartaz. Usa na telona a chamada cronologia Marvel.

Como nos quadrinhos, o que ocorre numa história repercute em outra.

Em "Homem-de-Ferro", uma cena após os créditos mostrava um encontro entre Tony Stark, alter-ego do herói de metal, com Nick Fury, diretor da agência secreta SHIELD.

A pauta da conversa era a criação de um grupo de super-heróis.

Em "Hulk", é o próprio Stark, na pele de Robert Downey Jr., quem aparece para colocar mais um tijolo na construção do grupo, chamado nos quadrinhos de "Os Vingadores".

A equipe conta também com a presença do Capitão América e do Poderoso Thor, que devem ganhar um filme cada um nos próximos anos, pelo que se lê. 

É de se esperar que haja mais capítulos dessa interligação.

Nos quadrinhos, a tal da cronologia cria histórias sem fim, como se fossem novelas mantidas no ar por décadas.

No cinema, há uma vantagem. Dados os altos custos de cada um desses filmes, o leitor -ou melhor, a platéia- deve ver um desfecho para essa costura narrativa nos próximos anos.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h36
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09.06.08

Leões de Bagdá mostra outro olhar sobre a Guerra do Iraque

 

 

 

 

 

 

 

Álbum, vendido em bancas e lojas de quadrinhos, mostra bombardeio em Bagdá sob o olhar de quatro leões

 

 

 

 

 

 

 

 

Há diferentes modos de relatar uma mesma história. Depende muito do olhar de quem narra. Cada visão pessoal traz uma carga de subjetividade ricamente distinta.

É exatamente o olhar o que mais singulariza "Os Leões de Bagdá", álbum que começou a ser vendido na virada da semana (Panini, 140 págs., R$ 19,90).

O escritor Brian k. Vaughn ajusta o foco narrativo em quatro leões, que pensam e externam seu pensamento por meio da fala.

Um leitor desavisado pode imaginar que animais falantes aproximem a obra de uma espécie de Rei Leão em formato de quadrinhos.

E que, por isso mesmo, seja um trabalho mais "ingênuo", voltado a um público juvenil.

Não é. E que seja colocado um grifo nesse "não é".

Os animais viviam em um zoológico de Bagdá, no Iraque. Um bombardeio destrói o lugar e dá a eles a liberdade extra-muros. 

O que encontram é uma cidade destruída pela Guerra do Iraque, promovida pelos EUA.

Tal qual crianças, vêem em tudo uma novidade.

E, da novidade, enxergam-se a tragédia e o caos trazidos pelo conflito bélico.

O olhar dos leões revela mateforicamente que tudo é guerra, tudo é violência.

Todos, de uma forma ou de outra, tornam-se vítimas daquele conflito.

Vaughan -autor conhecido por trabalhos adultos da linha norte-americana Vertigo- afirma ter se baseado em uma história real.

Mas é no teor ficcional o ponto alto da história, cruel e cativante ao mesmo tempo, que coube ao desenhista Niko Henrichon dar vida.

"Os Leões de Bagdá" é daquelas obras que espantam o leitor distante dos quadrinhos.

Quando a descobre, substitui o desgastado rótulo -mas ainda presente- de "quadrinhos é coisa de criança" por uma reação de espanto.

Como isso pode ser quadrinhos?

Ele, o leitor, tenta encontrar rótulos socialmente aceitos para classificar o que leu.

"É literatura, não é quadrinhos". Ou: "trata-se de um livro".

Ocorreu esse fenômeno neste ano quando se descobriu que a animação "Persépolis", indicada ao Oscar, era, na verdade, uma biografia em quadrinhos.

"Os Leões de Bagdá" é muito mais do que aparenta.

É outro olhar sobre a guerra, mas metaforicamente cruel.

Faz por merecer cada espanto de leitores desavisados.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h37
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08.06.08

Novo álbum de Mortos-Vivos traz sucessão de reviravoltas

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do terceiro volume da série, que começou a ser vendido neste início de mês

 

 

 

 

 

 

 

 

Há um clima de "tudo será pior" no terceiro volume de "Os Mortos-Vivos", que começou a ser vendido neste início de mês em lojas de quadrinhos (HQM, 144 págs., 29,90).

A situação dos personagens da série norte-americana já não era das melhores.

Eles estão entre os que ainda permanecem sãos num mundo povoado por zumbis.

Mas neste "Os Mortos-Vivos - Segurança Atrás das Grades", uma sucessão de reviravoltas consegue deterior ainda mais a vida do grupo, liderado pelo ex-policial Rick Grimes.

O início deste terceiro álbum até inicia com um sopro de esperança.

O grupo de sobreviventes encontra um centro penitenciária, envolto por grades.

Ali pode estar a segurança contra os mortos-vivos (situação que intitula o álbum).

Mas a esperança inicial é logo substituída por uma cena nova pior que a outra.

E, quando o leitor percebe, já chegou ao fim do álbum. E quer ler logo o outro.

O ritmo da narrativa repete a ação vista no primeiro álbum, lançado no Brasil em 2006.

O mérito da fulidez da leitura -e das reviravoltas- é de Robert Kirkman, o criador da série.

A cada nova seqüência de histórias, ele parece mais seguro do que faz e íntimo do mundo inumano que criou, mostrado em cores preto e cinza.

Um termômetro disso pode ser medido pela aceitação da série.

Ganhou um dos prêmios Eagle, na Inglaterra. E um HQMix, aqui no Brasil. 

"Os Mortos-Vivos" sinalizam um retorno da HQM a um dos carros-chefes da editora, criada há dois anos pelos mantenedores do "HQManiacs", site especializado em quadrinhos.

O termo "retorno" se justifica porque é o segundo lançamento estrangeiro da HQM neste ano. O primeiro foi "Violent Cases", de Neil Gaiman, publicado em fevereiro (resenha aqui).

Todas as demais publicações eram nacionais, filão que a editora passou a investir (aqui).

É louvável o investimento em trabalhos nacionais, política que deveria ser seguida também por outras editoras.

Mas a qualidade de uma série como Mortos-Vivos também merece vaga nas prateleiras, tão carentes de lançamentos de terror.

Escrito por PAULO RAMOS às 16h10
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02.06.08

Fim de Death Note mantém clima de final inesperado

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do último número da série, que começa a ser vendido nas bancas nesta semana

 

 

 

 

 

 

 

 

Já temos no Brasil alguns anos de convivência com os mangás, nome como ficou conhecido o quadrinho japonês. 

Esse tempo de leitura ajudou a constatar que há no gênero, em particular no adulto, uma tendência à imprevisibilidade narrativa.

Os personagens -até então ilustres desconhecidos- cativam, como deve ocorrer. Mas não se sabe que fim eles terão.

No quadrinho de super-heróis, para ficar em um caso, o Super-Homem vai vencer o supervilão no fim da história. Você, leitor, sabe que isso vai acontecer. O que interessa é saber como.

No mangá, não. Há outro pacto narrativo entre autor e leitor.

Se a pessoa conseguir escapar das versões animadas e das informações que proliferam aqui e ali na internet, consegue realmente se surpreender com o desfecho da trama.

É essa sensação que teve quem acompanhou a série "Death Note", de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata. Há um clima real de querer saber como vai terminar a história. 

O décimo segundo e último número da série começa a ser vendido nas bancas nesta semana (JBC, R$ 10,90).

O que ajuda a aumentar a dose de imprevisibilidade é a forma como a história foi narrada.

A começar do protagonista, um jovem ambíguo, que é mais anti-herói do que herói propriamente dito.

Light Yagami -o personagem central- recebe um caderno de um ser chamado Shinigami.

Qualquer pessoa que tiver o nome escrito ali morre posteriormente.

Com o caderno, Light parte para uma cruzada para eliminar pessoas más e tornar o mundo um lugar utopicamente mais seguro.

Ele adota o título de Kira e passa a ser temido mundialmente.

Com o tempo, passa a integrar e liderar um grupo da polícia japonesa, especializado na captura de Kira. A função ajuda a despistar sua atuação mortal.

Os anos passam e ninguém o detém. O mais perto disso é um jovem chamado Near. Super-dotado, trava jogos de lógica com Kira. Este despista. Near desvenda.

Este último número do mangá traz o clímax dessa disputa pautada na estratégia.

Ambos marcam um encontro definitivo, cara a cara, para dar um fim a Kira. 

Near defende que Light Yagami é o assassino serial. Yagami nega.

Aos olhos do leitor, a situação é tão imprevisível que não se sabe, de antemão, se o desfecho vai valorizar os planos do protagonista ou se vai prevalecer o princípio da justiça.

É uma sensação que se tinha muito na fase pré-internet, seja no cinema, na literatura, nos seriados de televisão, nos quadrinhos.

Quem acompanhou os 12 números de "Death Note" e driblou o que as animações e o mundo virtual antecipam sabe exatamente a qual sensação me refiro.

Essa parece ser uma das grandes qualidades dos mangás.  

Escrito por PAULO RAMOS às 17h55
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01.06.08

Novo trabalho da autora de Persépolis mostra calvário familiar

 

 

 

 

 

 

 

 

"Frango com Ameixas" relata história real do tio-avô da autora, músico que decide deixar de viver

 

 

 

 

 

 

 

Não é exato dizer que "Frango com Ameixas" seja uma biografia.

A apuração biográfica exige precisão na exposição dos detalhes retratados.

Não há essa exatidão no novo trabalho da iraniana Marjane Satrapi, obra que começou a ser vendida nas livrarias na segunda metade de maio (Cia. das Letras, 88 págs., R$ 32).

Percebe-se isso pela forma como a autora de "Persépolis" (informação que um adesivo na capa faz questão de evidenciar) mostra o calvário real vivido por um tio-avó, o músico Nasser Ali Khan, em 1958.

Nasser Ali decide deixar de viver. Tranca-se no quarto e lá fica até morrer, oito dias depois.

Nesse período, não come nada. Nem mesmo seu prato preferido, frango com ameixas, feito pela esposa, Nahid (cardápio que dá nome à obra).

Aceita conversar com os irmãos e com os filhos. Mas ninguém o demove da idéia suicida.

Marjane Satrapi -que faz uma "ponta" na história- mostra no livro os momentos finais do tio-avó. Cada dia é mostrado num capítulo.

Aos poucos, descobre-se que o desgosto pela vida se dá após a esposa ter quebrado seu tar, instrumento musical semelhante a um violão e que era tocado diariamente por Ali.

Mas a inutilização do tar, na verdade, esconde outras mágoas, mais profundas, relevadas somente no fim de seu calvário pessoal.

A autora se baseia no relato familiar e dá a ele um toque biográfico. Mas romanceado.

Como Satrapi poderia saber, por exemplo, o que pensava o tio-avô, sozinho num quarto, como ela mostra na obra? Simples: não saberia.

Mas o tom romanceado e, por isso, ficcional, não tira o tempero da história.

O lado literário ajuda a dar sabor à leitura do singular drama real.

E a receita final deste "Frango com Ameixas" tem tudo para satisfazer o paladar apurado dos fregueses. Em especial do seleto grupo que ainda acha que quadrinhos só são vendidos em restaurantes infantis.  

Escrito por PAULO RAMOS às 19h48
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