29.07.08

"Menina Infinito" mostra relatos de amizade com pitadas de cultura pop

 

 

"Menina Infinito", de Fábio Lyra, inicia com uma história curta, de seis páginas. É um convite ao leitor para que conheça a protagonista do álbum. É ela quem se apresenta ao leitor.

Logo de cara, faz um esclarecimento: "Meu nome não é Menina Infinito. Me chamo Mônica. Menina Infinito é só o nome de minhas histórias".

O leitor vai descobrindo, quadrinho após quadrinho, que ela gosta de cinema, de ler livros pela metade e, principalmente, de música.

E já prepara quem lê para as referências à chamada cultura pop que vão pautar as três histórias curtas do álbum, que começou a ser vendido neste mês (Desiderata,  120 págs., R$ 39,90).

Desse jeito meio como não quer nada, autor e personagem fisgam a atenção do leitor. Quando este percebe, já entrou no mundo de Mônica e das amizades dela.

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A amizade e as dificuldades nos relacionamentos são os principais temas das três histórias seguintes do álbum, que funcionam como microcontos da juventude contemporânea.

O foco metonímico é Mônica. Tudo e todos circundam seu universo particular. Dos dois melhores amigos, Pedro e Malu, aos envolvimentos amorosos dela e deles.

É como se sofre aberta uma grande janela e nos fosse permitido ficar parados, apenas observando as vidas dos personagens e como um se apóia no outro para superar os obstáculos.

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A série Menino Infinito surgiu na extinta revista independente carioca "Mosh!".

Um dos responsáveis pela publicação, premiada mais de uma vez, era Sandro Lobo, que também editou este álbum da Desiderata (ele recentemente se desligou da editora).

A obra, inédita, funciona como se fosse uma extensão da parceria entre ele e Lyra.

A passagem pela "Mosh!" marcou de outra forma a carreira do quadrinista.

Ajudou a dar destaque a Lyra em âmbito nacional.

No ano passado, ele foi escolhido desenhista revelação no Troféu HQMix, principal premiação da área de quadrinhos no país.

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Podem-se fazer associações entre o álbum com esta ou aquela obra em quadrinhos, a maioria de outros países. Pode-se, é verdade. Mas não tira a originalidade do álbum nem o mérito de seu autor.

"Menina Infinito" fala de dois temas universais: amizade e relacionamentos.

E, em meio a isso, pontua referências cavalares à cultura pop, principalmente do meio musical.

São histórias simples. Mas bem narradas e envolventes.

Merecia um segundo número, lançado pela Desiderata ou por outra editora.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h02
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18.07.08

Filme é de Batman. Mas é o Coringa de Ledger quem rouba a cena

 

 

 

Há um fato difícil de ser contornado antes de assistir a "Batman - O Cavaleiro das Trevas", segundo longa-metragem da nova safra de filmes do homem-morcego.

Trata-se da morte prematura do ator Heath Ledger, intérprete do vilão Coringa.

Ledger foi encontrado morto num apartamento em Nova York em 22 de janeiro deste ano. Causa: uso abusivo e acidental de medicamentos. Estava com 28 anos.

A produção milionária -custou 180 milhões de dólares- ganhou um involuntário e mórbido interesse: ver a última atuação de Ledger.

E, de forma póstuma, o ator australiano não decepciona.

O Coringa criado por ele é o grande destaque do longa, que estreou nesta sexta-feira.

E por méritos próprios, não por um apelo sentimental causado por sua morte.

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A atuação do ator australiano é uma das versões mais assustadoras do palhaço do crime, como também é conhecido o vilão.

Ele conserva os traços de humor, imprevisibilidade e loucura, como sua persona dos quadrinhos, mas com um grau de violência acima da média.

Essa combinação, difícil de ser conjugada, torna-se o foco do telespectador nos 158 minutos de projeção do filme.

O fio narrativo é conduzido pelo herói, Batman, como deveria mesmo ser.

Mas a expectativa da platéia é pela próxima aparição do Coringa.

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Esta seqüência da revitalização da franquia -o primeiro longa é de 2005, também dirigido por Christopher Nolan- está vinculada aos movimentos de bastidor do crime organizado da fictícia cidade de Gotham City.

Um triunvirato formado por Batman (Christian Bale retorna ao papel), Gordon (na fase pré-comissário, como ficou conhecido) e o promotor público Harvey Dent se une para combater a máfia municipal.

A presença do Coringa desestabiliza a atuação tanto dos criminosos quanto do trio.

E influencia na transformação de Dent no vilão Duas-Caras (interpretado por Aaron Eckhart, bem no papel).

Com o surgimento dele, o filme ganha um novo fôlego, com novas situações e mais ação.

                                                            

 

A história do longa-metragem foi inspirada na minissérie "O Longo Dia das Bruxas", já lançada no Brasil pela Editora Abril em oito edições quinzenais, entre outubro de 1998 e fevereiro do ano seguinte.

A minissérie -escrita por Jeph Loeb e desenhada por Tim Sale- também mostra a união entre Batman, Gordon e Dent e o combate dos três ao crime organizado.

Mas continha uma trama de mistério, ignorada no filme. Era a dúvida em saber quem era o assassino serial Feriado, que matava vítimas ligadas à máfia nos feriados norte-americanos.

A trama nos quadrinhos se passa no intervalo de um ano, de um Dia das Bruxas a outro.

Nesse período, Batman enfrenta uma série de vilões de Gotham, também deixados de lado no longa.

À exceção de Duas-Caras, do Espantalho -numa rápida aparição no começo- e do Coringa, este em doses bem menores e com bem menos importância que no filme.

                                                             ***

A editora Panini estrategicamente relança nesta semana a minissérie, numa edição de luxo, em capa dura (R$ 95, 404 págs.).

A história em quadrinhos ainda é melhor que o filme.

Mas isso não significa que o longa -que bem fique claro- seja ruim. Pelo contrário. Agrada e supera o anterior, muito pautado na origem do herói.

E tem a derradeira atuação de Heath Ledger. 

Depois de sua encarnação do Coringa, não será lembrado apenas como o caubói gay de "Broke Back Mountain", papel que rendeu a ele indicação ao Oscar.

Teria uma carreira promissora.

                                                            ***

Quem pretende ver "Batman - O Cavaleiro das Trevas", prepare-se para enfrentar fila.

Na sessão das 18h desta sexta-feira, já havia sala cheia num shopping de São Paulo.

Na saída, por volta de 20h45, uma fila enorme.

Nos Estados Unidos, parece ocorrer o mesmo. Segundo noticia o UOL, a pré-estréia lá bateu recorde. Arrecadou 18,5 milhões de dólares antes da estréia oficial.

O recorde anterior era do terceiro Guerra nas Estrelas, com 16,9 milhões de dólares.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h26
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15.07.08

Cicca Dum-Dum: mistura eficiente de erotismo e bom-humor

 

 

 

 

 

 

 

 

Álbum, escrito pelo argentino Carlos Trillo e desenhado pelo espanhol Jordi Bernet, começa a ser vendido nesta semana

 

 

 

 

 

 

 

É difícil dar uma rotulação a "Cicca Dum-Dum- Desafiando Al Capone", álbum que começa a ser vendido nesta semana (Zarabatana, 68 págs., R$ 30).

Numa primeira passada de olhos, inclusive na protagonista, trata-se de uma obra erótica.

O fato de a editora ter incluído a publicação na "Coleção Mondo Fetish" ajuda a corroborar essa leitura.

A coleção da Zarabatana já tem dois outros álbuns eróticos: "Chiara Rosenberg" e "Clara da Noite" (leia mais aqui e aqui).

Mas a leitura das páginas dá outra impressão. Há, sim, erotismo explícito. Mas dosado com muito bom-humor. É esse lado cômico, na verdade, o grande destaque da obra.

                                                             ***

Cicca Dum-Dum era estrela de um clube noturno de Chicago, mesma cidade do poderoso gângster Al Capone (1897-1947).

Ela se envolve com um fotógrafo, que rouba muito dinheiro de Capone para dar uma vida luxuosa à amada. Jurados de morte, fogem para Nova York. Detalhe: sem o dinheiro. 

Na nova cidade, tentam refazer o caixa casando Cicca com um capanga de lá, que a vê como uma moça pura e virginal.

O que ela não sabe é que o apaixonado bandido é ligado a Capone.

                                                            ***

A confusão é divertida e, em meio a ela, são pautadas as situações mais inusitadas para Cicca mostrar seus "dotes" (e ela não tem o menor pudor disso).

Uma das cenas mais engraçadas é observar Zózimo, capanga do gângster que quer casar com a protagonista. Toda vez que tenta fazer sexo é interrompido bruscamente pelo chefe.

O resultado híbrido -e eficiente- de erotismo e comicidade é mérito do escritor argentino Carlos Trillo, um dos mais talentosos do país vizinho.

É algo já feito por ele, embora com tramas mais curtas, em "Clara da Noite".

Outro ponto que aproxima os dois álbuns é a presença do desenhista espanhol Jordi Bernet, que fez a arte das duas obras.

                                                            ***

A Zarabatana programa lançar o segundo álbum da voluptuosa personagem: "Cicca Dum-Dum 2: Belo e Querido México". A editora não tem ainda uma data de publicação.

Ao todo, Cicca Dum-Dum protagonizou cinco obras.

Se mantiverem a mesma qualidade de texto deste volume de estréia, também serão bem-vindas em território brasileiro.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h13
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03.07.08

Groo comemora aniversário de criação com discurso politizado

 

 

 

 

 

 

 

 

Edição especial marca jubileu de prata do atrapalhado personagem criado por Sergio Aragonés

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem acompanha de longa data as histórias de Groo, o Errante, sabe de antemão que uma das marcas do personagem é ser desastrado. Outra é a pura falta de inteligência.

As duas características levam naturalmente ao humor, outra marca das histórias do guerreiro, uma versão atrapalhada e caricata de Conan, o Bárbaro.

Apesar de tudo isso, o álbum que comemora o jubileu de prata do personagem traz nas entrelinhas um inesperado e atual discurso político.

                                                             ***

"Groo - 25 Anos de Desastres" (Mythos, 164 págs., R$ 34,90), que começou a ser vendido na virada do mês, traz histórias de duas obras inéditas no Brasil.

A primeira é de "Groo 25th Aniversary  Special", de agosto de 2007, ano em que o personagem efetivamente comemorou 25 anos de criação (a primeira aventura é de 1982).

Groo visita uma aldeia em que há uma epidemia de gripe. Os médicos indicam remédios paleativos aos pacientes. O atrapalhado herói vai em busca de uma cura e a encontra.

O problema é que o remédio, feita a partir de frutas silvestres, é dado apenas para quem tem mais posses. Os pobres continuam com a doença.

A crítica que fica nas entrelinhas é que há tratamento diferenciado no sistema médico dos Estados Unidos, onde a história foi produzida. Mas a cutucada vale para o Brasil também.

                                                             ***

A segunda aventura do álbum especial é de uma minissérie, "Groo: Hell on Earth". As quatro partes da aventura foram publicadas entre outubro de 2007 e abril deste ano.

Desta vez, a crítica é bem mais explícita. Ecologicamente explícita.

Um reino chamado Uslip -uma paródia dos Estados Unidos- é conhecido por construir armas em larga escala.  A produção gera poluentes, lançados na atmosfera e em países vizinhos.

A fumaça é o estopim de uma série de mal-entendidos -ajudados pela presença sempre desastrosa de Groo- que geram uma guerra entre os diferentes reinos.

Afinal, como é dito no álbum, nada como uma boa guerra para camuflar os reais problemas de uma nação (leia-se Guerra do Iraque).

Paralelamente ao conflito, tem início um movimento de buscar soluções por meio de uma conferência global, em que todas os reinos assinariam um protocolo (como o de Kyoto).

                                                             ***

É curioso observar as metáforas produzidas pelo desenhista Sergio Aragonés, criador do personagem, e Mark Evanier, fiel parceiro de Aragonés e escritor das histórias.

Mas elas estão presentes, mais ou menos evidentes, conforme o momento da trama.

Mas não escondem a real estrela, Groo, e suas tradicionais atrapalhadas em busca de novas pelejas.

                                                             ***

Os brasileiros conheceram o personagem há 19 anos. Ele estreou um especial da editora Abril em 1989. A história foi lançada na coleção "Graphic Novel".

Um ano depois, ganhou revista própria, publicada mensalmente. Teve 27 números. O último foi lançado em julho de 1992.

Após o cancelamento, Groo iniciou uma peregrinação editorial, tal qual ocorreu nos EUA. Passou pela extinta Pandora, migrou para Opera Graphica e aportou agora na Mythos.

Foi a Opera Graphica a editora que tinha publicado o último álbum do personagem no Brasil, "Groo Odisséia", lançado em junho do ano passado (leia mais aqui).

Escrito por PAULO RAMOS às 19h58
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