28.11.08

Mônica Jovem: mudanças e novas versões de antigos personagens

 

 

 

 

 

 

 

Quarto número da versão adolescente de Mônica e companhia traz alterações de nomes e retorno de personagens até então não mostrados, como Bidu

 

 

 

 

 

O beijo entre Mônica e Cebolinha -ou Cebola, como é chamado na fase adolescente- é o principal chamariz do quarto número de "Turma da Mônica Jovem", que começou a ser vendido nesta semana (Panini, 132 págs., R$ 6,40).

O beijo acontece? 

Sim, acontece, como a grande imprensa virtual já noticiou ontem após ser informada por e-mail pela assessoria de imprensa de Mauricio de Sousa.

O beijo ocorre no final da revista, de forma delicada e sutil.

Mas a compra da revista na banca e a leitura da obra revelam outras duas informações -não repassadas à imprensa- que merecem tanto destaque quanto a beijoca entre os dois.

                                                             ***

A primeira é a volta de antigos personagens, com nova roupagem.

Nesta quarta aventura da série mensal, iniciada em agosto (mais aqui), as versões adolescentes de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali interagem com as turmas do fantasma Penadinho e do elefante Jotalhão.

O homem das cavernas Piteco também reaparece, bem mais troncudo e barbudo.

E há algumas pontas de Bidu, primeiro personagem de Mauricio de Sousa.

No universo da revista, a explicação para a longevidade do cãozinho, criado em 1959, é que tomou uma "super-ração vitaminada", que o rejuvenesce.

                                                              ***

O segundo ponto da revista a ser destacado é que Mauricio de Sousa parece ter acatado alguns dos comentários feitos à nova publicação.

Pelo menos duas das críticas foram reavaliadas e assimiladas na história desta edição.

Uma é sobre o nome do vilão destes primeiros quatro números, que contam uma história só. O antigo Capitão Feio tinha sido rebatizado de Poeira Negra.

Toda a revista brinca com isso. No fim da publicação, os autores dão a entender que ele decide assumir o título original, "Meu nome é Capitão Feio!!"

Outra das alterações também tem a ver com o nome de um dos personagens.

                                                             ***

Anjinho foi rebatizado de Céuboy na nova versão. Agora, muda para Ângelo.

O personagem acata o comentário de três meninas. Uma delas diz "esse seu nome não pega, querido". Outra acrescenta: "Vai queimar seu filme! É tão out...".

Há muito de metalinguagem, não só nesse trecho como também em toda a revista.

As mesmas três garotas dão outro exemplo desse recurso. Duas delas estranham o nome de Poeira Negra.

A terceira responde: "Poeira Negra é o Capitão Feio. Vocês não lêem blog, não é?". 

                                                             ***

Olhar com atenção a reação dos leitores ao projeto -talvez o mais ousado dos Estúdios Mauricio de Sousa- era algo previsto desde o início, segundo o empresário e desenhista tem dito nas várias entrevistas que concedeu sobre o assunto.

Isso, inclusive, é explicitado num editorial no fim da publicação. Ele diz que se sente com "adrenalida pura" na condução da equipe de produção.

"Sem saber onde chegar. Nem quando. Nem de que jeito. Mas o início da viagem está tenso e divertido. Com os leitores reagindo das mais diversas maneiras ao que estamos criando nos nossos estúdios."

E encerra o texto com um convite: "Topa ir conosco sem saber onde chegar, nem quando, nem em que estado?"

                                                             ***

Independentemente de qual seja a resposta do leitor, a nova versão dos personagens -que não exclui a linha infantil, publicada normalmente nas bancas- já é seguramente o principal fenômeno dos quadrinhos neste ano.

Do ponto de vista do leitor, conseguiu atrair ferrenhos elogios e fervorosas críticas, sem meio termo, em igual intensidade.

Do ponto de vista da imprensa, tem rendido um interesse acima da média para assuntos ligados a quadrinhos. E tem gerado um círculo vicioso: quanto mais a imprensa noticia, mais repercussão a série conquista.

E, quanto maior a repercussão, maiores as chances de nova matéria sobre o assunto.

                                                             ***

Do ponto de vista do mercado, gostem ou não da série, tem atraído a atenção de pessoas que normalmente não lêem quadrinhos. E atraído atanção também às bancas de jornal.

A próxima notícia não estará tanto nos volumes seguintes da série, e, sim, no impacto que a revista trouxe ao mercado e se cumpriu o desafio de agregar um novo público leitor.

Uma leitura superficial sobre o tema sugere que sim. Mas é algo a ser mais bem estudado.

                                                              ***

Merece registro uma informação que a assessoria de imprensa de Mauricio de Sousa enviou ontem à imprensa.

Essa versão em mangá da Turma da Mônica vai ser vendida também por assinatura.

O pacote inclui a série "As Primeiras Histórias da Turma da Mônica - Coleção Histórica", que reedita as revistas iniciais dos personagens de Mauricio de Sousa.

A linha histórica -inicialmente mensal e, agora, bimestral- tem sido lançada de forma irregular e com atraso desde o fim de 2007.

O último número, sete, apareceu nas bancas em outubro sem nenhum aviso prévio ao leitor.

                                                             ***

Na ocasião, o blog entrou em contato com a Panini.

A resposta foi que "A Coleção Histórica e outros títulos estão passando por reformulações. Assim que alinharmos esta reestruturação entre a Panini e a Mauricio de Sousa, entraremos em contato." (leia mais aqui)

A editora não entrou em contato. Nem avisou os leitores, que agora descobrem a reativação da série a partir do oitavo número.

A informação também não consta no site oficial da editora (acessei a página às 15h31).

                                                             ***

A pergunta não é descabida: dado o histórico de atrasos, será que a Panini vai manter a regularidade da Coleção Histórica com o serviço de assinaturas? 

Escrito por PAULO RAMOS às 14h58
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26.11.08

Biografia de João Cândido se destaca em obra da Revolta da Chibata

 

 

 

 

 

 

Cearenses Hemeterio e Olinto Gadelha narram a trajetória do líder do movimento nas 224 páginas da obra, à venda desde o mês passado

 

 

 

 

 

 

O álbum sobre a Revolta da Chibata teve o lançamento adiado mais de uma vez.

Deveria ter saído em 2007, foi remarcado para junho deste ano, começou a ser vendido há pouco mais de um mês (Conrad, 224 págs., R$ 39,90).

Houve contratempos internos na Conrad e problemas na primeira impressão, segundo a editora informou há alguns meses.

"Demorou mais tempo do que esperávamos", disse Hemeterio, o desenhista da obra, em notícia veiculada no blog em junho (leia mais aqui).

A espera, pelo menos, foi compensada. Já se pode dizer que esta descrição em quadrinhos do fato histórico é um dos principais lançamentos do ano.

                                                             ***

A revolta dos marinheiros -que reclamavam das chibatadas que levavam à bordo dos navios- completou 98 anos no último sábado.

O movimento foi liderado por João Cândido, um filho de escravos que é caracterizado no álbum como um líder nato e bem-intencionado.

Ele organizou a tomada de diferentes embarcações da esquadra do país.

O movimento durou dias e subjugou o governo de Hermes da Fonseca.

                                                             ***

Embora mescle elementos ficcionais e romanceados na condução da narrativa, escrita por Olinto Gadelha, o relato se ancora nos momentos históricos que levaram à revolta.

E a conseqüente prisão dos envolvidos, traídos pela promessa de um acordo de anistia.

O fato, no entanto, perde importância ante a trajetória de João Cândido (1880-1969). 

 

 

 

 

 

Representação de João Cândido no traço de Hemeterio 

 

 

 

 

O leitor é apresentado a três Joões Cândido. O da infância, o de 1910, ano do movimento dos marinheiros, e a fase idosa dele.

As duas últimas faces do líder do movimento, que se alternam entre no tempo narrativo, é que conduzem a história, com cortes cinematográficos.

É do ponto de vista dele que a revolta é contada. Conflito e o Almirante Negro -como Cândido ficou conhecido- confundem-se no relato.

Por isso, não é de estranhar o destaque que ele obtêm na obra, que pode ser vista também como uma biografia do personagem histórico.

                                                              ***

Os cearenses Hemeterio e Olinto Gadelha estão no projeto há pelo menos dois anos, quando este blog noticiou a preparação da obra (leia mais aqui).

Também não foi a primeira parceria da dupla, que se conhece desde 1992.

Eles fizeram em conjunto trabalhos para o mercado publicitário e uma história em quadrinhos, "Garatujas", publicada em 2004 por conta própria.

Segundo eles, um dos 500 exemplares foi levado à Conrad. Teria surgido aí o projeto.

                                                              ***

Os quadrinhos, quando saem da ficção e migram para a realidade, tendem a obter bons resultados.

"Chibata! João Cândido e a Revolta Que Abalou o Brasil" é um desses casos.

O mercado ganharia -e o leitor mais ainda- se outras descrições de momentos importantes da história do país fossem narrados com o mesmo cuidado autoral e editorial.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h17
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20.11.08

Novo número da Mad mescla duas gerações de desenhistas

 

 

 

 

 

 

 

Revista, que começou a ser vendida neste mês, traz trabalhos de novos e de antigos autores nacionais

 

 

 

 

 

 

 

 

Havia uma certa expectativa não declarada neste oitavo número da revista de humor "Mad", lançado neste mês (Panini, 44 págs., R$ 5,90).

A curiosidade era saber se mudaria algo na publicação. Este novo número é o primeiro feito sem nenhuma participação de Otacílio D´Assunção, o Ota.

Ota -que havia participado de todas as fases da revista no Brasil desde que foi lançada, em 1974- se desligou da publicação no fim de agosto (entenda o caso aqui). O assunto veio a público no início do mês seguinte.

Ele argumentou que houve interferência em seu trabalho, o de preparar todo o conteúdo nacional. Raphael Fernandes, com quem dividia a edição, ficou responsável por toda a obra.

                                                              ***

É essa a expectativa: ver como ficou o resultado após a saída de Ota.

Este oitavo número apresenta mais conteúdo nacional, embora ainda predomine o material norte-americano. Das 44 páginas da edição, 15 são daqui.

A título de comparação: o primeiro número, lançado em março deste ano, trazia 11 páginas com conteúdo de autores nacionais (aqui).

                                                              ***

Nestes -nos autores nacionais- está o outro resultado do número. Houve uma mescla de desenhistas de diferentes gerações.

Os novos artistas dividem espaço com nomes conhecidos de quem lia quadrinho nacional desde a década de 1970 e nos 20 anos seguintes. 

É um rol de autores que produzia em fanzines e publicações que arriscavam a vida nas bancas, sempre sem o retorno esperado de vendas.

É o caso de Flávio, Amorim, Xalberto, Bira Dantas, Marcio Baraldi.

                                                             ***

E há um fato raro: um trabalho de Marcatti, que passou de autor escatológico para respeitado adaptador literário (levou aos quadrinhos o romance "A Relíquia", do português Eça de Queirós).

Marcatti faz um pôster de duas páginas da cantora Amy Winehouse, a mesma ironizada na capa da edição. 

Há também uma biografia "autorizada" dela, escrita por dois representantes da nova geração, Raphael Salimena (desenhos) e João Pinho (texto).

                                                              ***

O novo número da "Mad" está longe de ser o ponto de convergência dos diferentes autores de quadrinhos nacionais.

Mas, se há esse espaço, ainda que restrito, por que não usá-lo?

Para registro: parte dos autores da revista vai autografar a publicação nesta sexta-feira à noite, a partir das 19h30, em São Paulo.

Vai ser na HQMix Livraria, no centro da cidade (Praça Roosevelt, 142).

                                                              ***

Nota: começou a ser vendido nesta semana o sétimo número da "Antologia Chiclete com Banana" (Devir, Sampa, 52 págs., R$ 7,90), que reedita material produzido por Angeli entre o fim da década de 1980 e a primeira metade da seguinte.

As Skrotinhas são o destaque da capa e da parte interna.

A revista costuma ser vendida nas bancas, na mesma prateleira destinada à "Mad".

Escrito por PAULO RAMOS às 23h20
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Coletânea traz primeiros trabalhos de Marcio Baraldi

 

 

 

 

 

 

 

"Vale-Tudo", que começa a ser vendido neste mês, reúne histórias raras das décadas de 1980 e 1990

 

 

 

 

 

 

 

Tive a oportunidade de escrever um dos prefácios do álbum "Vale -Tudo", que começa a ser vendido neste mês (Opera Graphica/Grrrr!, 52 págs.).

O outro texto introdutório do desenhista Marcio Baraldi foi feito pelo jornalista Gonçalo Junior.

Nesses casos, costumo fazer uma espécie de resenha da obra. Ocorreu o mesmo com o álbum "Quadrinhofilia", de José Aguiar, lançado no início deste ano.

Por causa disso, o texto de abertura fica muito parecido com o que veicularia aqui no blog.

Pedi ao autor, então, se poderia reproduzir o prefácio/resenha neste espaço virtual.

Autorização gentilmente concedida, segue o texto.

                                                             ***

Escrevi certa vez que não dá tempo de procurar o Marcio baraldi para noticiar algo sobre ele. Bem antes de entrar em contato com ele, o desenhista já sobrecarregou de e-mails sua caixa postal weletrônica detalhando as informações que você queria saber e até as que não queria também.

Mas isso não é nenhum demérito, muito pelo contrário. Baraldi esconde do grande público um eficiente lado marqueteiro. Lembra um pouco aquele ditado "água mole em pedra dura tanto bate até que fura". Uma hora, alguma dessa informações dele "fura" o bloqueio da mídia cultural aos quadrinhos, e não só aos dele.

Com este "Vale-Tudo" não foi muito diferente. Recebi as histórias pelo correio (sim, Baraldi também ataca a imprensa pelo correio). Dentro do envelope, havia cópias xerocadas e grampeadas de cada uma das histórias, agora impressas neste álbum.

Antes que eu questionasse do que se tratava, uma folha sulfite seguia o "modus operandi" do desenhista e antecipava todos os detalhes que eu tentava saber e também os que que não esperava (como o gentil convite para prefaciar esta obra).

Baraldi começava a carta assim: "Paulão, este meu novo livro vai se chamar "Vale-Tudo"! Ele vai resgatar todas as minhas HQs soltas, sem personagens fixos, desde os anos 80!!! Ele resgata desde minha adolescência até hoje!"

Quem lê esse trecho da carta talvez não perceba, mas ele revela exatamente como é Baraldi fora dos quadrinhos. Aqueles que tiveram a oportunidade de conversar com ele pelo menos uma vez sabem do que eu estou falando. Inquieto, bem-humorado, elétrico, como bem sugere o excesso de pontos de exclamação em suas frases.

Esse seu jeito de ser, que se soma a um lado contestador e questionador, migra para as histórias que faz. E este álbum mostra muito bem isso, melhor até do que seus álbuns anteriores, "Roko-Loko e Adrina-Lina", "Tattoo Zinho" e "Humortífero", ligados ao mundo do rock e da tatuagem, algumas de suas paixões.

Neste novo trabalho, há histórias sobre Aids, sobre o papel dos sindicatos na defesa das greves e dos trabalhadores, sobre a violência urbana e, principalmente, sobre o quão incoerentes somos e representamos ser.

Há, claro, outros temas menos "sociais", que buscam apenas a diversão pura e simples. Em todas, o que há em comum é o humor característico do desenhista, que pode aqui ser visto em perspectiva, do início da carreira aos anos que se seguiram.

São histórias raras, publicadas aqui e acolá ao longo das últimas duas décadas. Tão raras quanto as parcerias feitas por Baraldi, mais conhecido por ser um cavaleiro solitário do desenho. Aqui, há registros de quadrinhos feitos em conjunto com Bira Dantas e Marcatti, outros dois autores que transitaram entre as produções ditas "underground" nos anos 1980 e 1990.

E, com certeza, o nome desta obra é coerente com a trajetória do autor. É coerente na temática das histórias, nas críticas com abordagens sociais, no humor agressivo e, não raras vezes, devastador. É coerente também com o processo de divulgação que, arrisco dizer, deve ter sobregarregado o circuito jornalístico, especializado em quadrinhos ou não.

Mais do que marketing, a atitude do desenhista é um gesto de coragem e de "vou à luta", num país que, como todos sabem, não tem um histórico de valorização do quadrinho nacional. Mas Baraldi felizmente não espera algo acontecer, ele procura fazer acontecer.

Se hoje você lê este modesto prefácio, certamente se deve ao espírito inquieto dele. Afinal, para sobreviver de quadrinhos no Brasil... vale tudo.

                                                              ***

O álbum já é vendido em pelo menos uma das lojas de quadrinhos de São Paulo.

O lançamento oficial, no entanto, será numa festa no dia 29, das 14h às 19h, também na capital paulista. Vai ser no Bar Blackmore (alameda dos Maracatins, 1317, atrás do Shopping Ibirapuera).

Na festa, vai haver também a entrega do Troféu Bigorna, premiação de quadrinhos iniciada neste ano.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h33
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08.11.08

Revista reacende debate se quadrinhos são literatura

 

 

 

 

 

 

 

"Discutindo Literatura", lançada nesta semana, dedica edição especial às histórias em quadrinhos

 

 

 

 

 

 

 

 

A discussão é antiga: quadrinhos são literatura?

A questão, que já caminhava para um consenso entre os pesquisadores da área, volta à pauta por conta da edição especial da revista "Discutindo Literatura" (Escala Educacional, 68 págs., R$ 7,90).

A publicação literária, que começou a ser vendida nesta semana nas bancas, aborda especificamente o universo das histórias em quadrinhos.

                                                              ***

Antes de avançar a discussão, é preciso registrar que a revista tangencia a questão. 

Os doze artigos da publicação especial, assinados por diferentes profissionais da área, preocupam-se mais em dar uma visão geral dos quadrinhos do que se enfronhar no teor literário deles.

Mas o tema aparece aqui e ali, ora nos textos, ora em algum dos títulos. A capa, por exemplo, destaca os "quadrinhos literários de Alan Moore e Neil Gaiman".

                                                              ***

A discussão sobre o caráter literário dos quadrinhos data de, pelo menos, fins de 1960 e início dos 70, época em que iniciaram os estudos teóricos a respeito da linguagem.

Vítimas do preconceito social e acadêmico que pairava sobre os quadrinhos, os pesquisadores brasileiros procuravam destacar em suas obras argumentos que autorizassem o estudo do tema.

Era muito comum ler que determinado escritor renomado gostava de quadrinhos -eram citados sempre os mesmos nomes- ou que a linguagem tinha uma verniz literário.

Alguns arriscavam dizer que era uma "forma de literatura", sem perceber que a expressão só ajudava a pôr os quadrinhos num segundo plano, à sombra do literário.

                                                               ***

Por mais bem-intencionados que fossem esses escritos -e eram-, tais registros só buscavam na literatura um rótulo socialmente aceito para justificar a pesquisa em pauta.

E a literatura, historicamente, é uma área bem vista socialmente, pela mídia, pela academia.

Há décadas as faculdades de Letras credenciam com destaque os estudos literários, tanto na graduação quanto na pós-graduação.

                                                              ***

Escorar-se na literatura sugeria um apelo a um primo próximo e mais rico e famoso, o literário, para que usasse seu prestígio para permitir que os quadrinhos, o primo pobre, transitassem pelo mesmo espaço.

A duras penas, as pesquisas resistiram aos anos 1970. Tiveram uma rápida retomada nas duas décadas seguintes e registram neste século um significativo aumento no volume de estudos.

Esses novos trabalhos acadêmicos têm convergido para a leitura de que quadrinhos não são literatura.

Quadrinhos são quadrinhos, uma linguagem artística autônoma, tal qual o são o teatro, o cinema, a dança e tantas outras formas de manifestação, a literatura entre elas.

                                                              ***

Os quadrinhos tendem a ter textos narrativos, como a literatura.

Possuem personagens, narrador, espaço, tempo, enredo, tal qual a literatura.

Mas representam visualmente os elementos narrativos por meio de personagens e cenários, encapsulados em quadrinhos. Os diálogos, na maioria das vezes, são mostrados por meio de balões.

Essas características são os elementos fundamentes da linguagem autônoma dos quadrinhos. E a diferencia da literária.

                                                              ***

Claro que há pontos em comum. A presença dos elementos narrativos é um deles. A escrita de uma história na forma impressa é outra semelhança.

Mais um ponto comum são as adaptações literárias em quadrinhos, que ganharam fôlego de 2006 para cá, muito por causa da lista do PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola).

O programa do governo federal compra anualmente lotes de livros e quadrinhos e os distribui a escolas dos ensinos médio e fundamental de todo o país.

Em 2009, serão levadas 600 obras aos estudantes, 19 delas em quadrinhos.

                                                              ***

As adaptações -que compõem um gênero autônomo, a literatura em quadrinhos- permitem um diálogo mais próximo entre os dois campos artísticos.

Mas não se deve perder de vista que se trata de um diálogo.

Assim como ocorre entre quadrinhos e cinema (há fartura de exemplos), quadrinhos e teatro, quadrinhos e televisão.

                                                               ***

Essa leitura é pautada em estudos acadêmicos, realizados aqui no Brasil nos últimos anos.

O porém é exatamente esse: é pautada em estudos acadêmicos.

E o que se discute dentro da universidade nem sempre é o que se conversa fora dela.

É o caso.

                                                             ***

Vejamos o mesmo caso do ponto de vista do não-leitor de quadrinhos.

O professor recebe na escola um lote de livros para serem utilizados em práticas pedagógicas em sala de aula. No meio do montante de obras, algumas são em quadrinhos.

Esse professor está autorizado a pensar, por uma inocente ignorância do tema, que aqueles álbuns desenhados com quadrinhos sejam uma espécie de literatura.

O próprio governo federal via os quadrinhos como forma de literatura nos últimos três anos.

                                                              ***

Nas livrarias, local conhecido por vender livros, os leitores encontram obras em quadrinhos nas estantes, produzidas em formato de livro.

Esse leitor também está autorizado a aproximar o livro que tem em mãos daquele produzido com o auxílio de imagens.

Para ele, ambos seriam literatura. Ou uma forma de literatura, na falta de termo melhor.

                                                              ***

As adaptações literárias são as mais fáceis de serem assemelhadas à literatura tradicional. Afinal, nela se pautam.

Tal visão é compartilhada por alguns dos chamados "formadores de opinião" de cadernos de cultura brasileiros.

Sem terem uma visão completa da área dos quadrinhos, surpreendem-se com tantas obras literárias em quadrinhos e álbuns nacionais produzidos no formato de livro.

                                                             ***

Essa mistura de olhares já gerou situações inusitadas nos últimos meses.

A adaptação literária de "O Alienista", de Machado de Assis, feita por Gabriel Bá e Fábio Moon, venceu uma das categorias do Prêmio Jabuti, o mais prestigiado da área de literatura no país.

Neil Gaiman, autor da série em quadrinhos "Sandman", foi à Flip (Festa Literária de Parati), na qualidade de romancista.

Mas foram os fãs do mestre dos sonhos que garantiram uma das mais longas filas de autógrafos desde que o evento foi criado. E Gaiman desenhava um Sandman em suas assinaturas.

                                                               ***

É preciso respeitar o olhar de quem não lê quadrinhos. Isso é conseqüência de décadas de uma associação dos quadrinhos a uma leitura meramente infantil e, por isso, desqualificada ou de baixo teor informativo e estilístico.

A edição especial da revista "Discutindo Literatura" mostra a esse público que há muito mais por trás da superfície infantil da área.

Mas, ao mesmo tempo, tende a sugerir aos leitores que quadrinhos sejam literatura.

                                                             ***

Quadrinhos não são literatura. Pelo menos, do ponto de vista de muitos acadêmicos.

Esse olhar é compartilhado por este jornalista, que também é pesquisador da área.

Cabe agora a aos acadêmicos encontrarem formas de evidenciar esse ponto de vista à sociedade atual, tão assustada com a presença de quadrinhos nas escolas e nas livrarias e, ao mesmo tempo, tão carente de respostas, historicamente adiadas.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h52
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07.11.08

Novo número da Graffiti reforça aproximação com Argentina

 

 

 

 

 

 

 

Edição 18 da revista independente mineira tem festa de lançamento neste sábado em Belo Horizonte

 

 

 

 

 

 

 

O mais recente número da independente "Graffiti 76% Quadrinhos" reforça uma tendência percebida já na edição anterior, lançada há três meses.

Por mais que a inspiração da revista mineira tenha vindo da Europa, ela dialoga cada vez mais com a argentina "Fierro", principal publicação do gênero no país vizinho.

A aproximação, neste 18º número, deixa de ser apenas no formato, semelhante ao das revistas semanais jornalísticas, com páginas grampeadas ao centro.

Há também a mescla de quadrinhos e textos. E o conteúdo de todas as histórias foi traduzido para o castelhano ao pé da página, o que facilita o acesso aos leitores de lá.

                                                              ***

A inclinação portenha tinha sido sinalizada de forma mais clara na revista anterior.

Parte do número 17 foi dedicada à Argentina e à sua capital, Buenos Aires (leia mais aqui).

A edição também marcou a estréia no Brasil de Liniers, atualmente um dos principais e mais populares desenhistas de quadrinhos da Argentina.

Autor da série "Macanudo", ele esteve no fim do mês passado no Brasil para lançar o primeiro encadernado de suas tiras, editado pela Zarabatana (mais aqui).

                                                              ***

O tema das histórias deste novo número também une os dois países: o futebol.

O esporte é mostrado de diferentes formas em 14 histórias em quadrinhos, umas mais longas, outras de apenas uma página.

Todas se personalizam ou pelo estilo, ou pela temática proposta.

Mas uma delas merece registro, pela criatividade do enredo.

 

 

O gaúcho Eloar Guazzelli criou um conto que explica ficcionalmente o motivo da derrota –real- do favorito Brasil para o Uruguai na Copa de 1950. Foi dois a um.

O resultado amargou a perda do título, em pleno Maracanã, para a seleção uruguaia.

Na criativa leitura de Guazzelli, premiado neste ano com um Troféu HQMix, a derrota tem a ver com a singela tradição de comer nhoque (como mostrado na seqüência acima).

Num dia determinado, a degustação do prato autorizaria a concretização de um desejo nos dia 29 de junho. Não é difiícil imaginar qual foi o desejo.

                                                              ***

A Graffitti 76% Quadrinhos tem conquistado espaço e se firmado como uma das mais duradouras publicações independentes brasileiras.

A confiança na publicação se pauta também na conquista, por anos seguidos, de apoio financeiro na Prefeitura de Belo Horizonte.

A verba paga a obra e projetos de álbuns mais longos.

Dois já foram lançados. Um terceiro está em produção.

                                                             ***

Este 18º número –que tem capa pintada pelo também mineiro Lelis- teve um primeiro lançamento no fim do mês passado em São Paulo.

Os autores fazem agora um segundo lançamento neste sábado, em Belo Horizonte, em formato de festa. Há, sim, o que comemorar.

                                                              ***

Serviço – Festa de lançamento da "Graffiti 76% Quadrinhos". Quando: Sábado (08.11). Onde: Recanto da Seresta. Endereço: Praça Duque de Caixas, 120, Santa Tereza, Belo Horizonte (MG). Quanto: o ingresso de R$ 12 dá direito a um exemplar da revista.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h42
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03.11.08

X-Men de Joss Whedon e John Cassaday chega ao fim

 

 

 

 

 

 

 

 

Última história feita pela dupla foi publicada no Brasil no número 82 da revista "X-Men Extra", lançada no fim da semana passada 

 

 

 

 

 

 

 

Os leitores dos X-Men costumam rotular as histórias de Chris Claremont e John Byrne, feitas no fim do 70 e início dos 80, como as melhores do grupo de mutantes da editora Marvel Comics.

O escritor Joss Whedon e o desenhista John Cassaday conseguiram burburinho semelhante entre os que acompanham os heróis ou que voltaram a lê-los por causa deles.

A última história deles à frente da revista "Surpreendentes X-Men" foi lançada no fim da semana passada, no número 82 da revista "X-Men Extra" (Panini, 100 págs., R$ 6,90).

                                                              ***

A aventura foi publicada nos Estados Unidos em julho deste ano num especial do supergrupo: "Giant-Size Astonishing X-Men". Ela encerra a trama construída nas edições anteriores. 

Uma espécie de bala em tamanho gigante é lançada rumo à Terra. Dentro dela, presa, está Kitty Pride, uma das integrantes do grupo.

Salvar a Terra e também a heroína são duas das tarefas a serem resolvidas pela equipe.

Outra é impedir que o planeta onde o restante do grupo está preso seja destruído.

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Para fazer jus ao título da série, o final é surpreendente. Assim como foi a passagem de Whedon e Cassaday pela revista.

A dupla iniciou os trabalhos em julho de 2004 (no Brasil, em outubro do ano seguinte). Desde então, tinha pautado as histórias com reviravoltas e surpresas.

Uma delas foi a volta de Colossus. O herói que transforma o corpo em metal, até então, estava morto.

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Fazer sombra ao trabalho de Claremont e Byrne, até então tidos como intocáveis quando o assunto é X-Men, não é pouca coisa.

Há uma inegável química entre o texto de Whedon -outro dado surpreendente- e os detalhados desenhos de Cassaday, que ajudam, por si só, a crescer um roteiro.

Mas talvez estejam na redução do número de integrantes do grupo -bem mais enxuto- e na simplificação da narrativa as principais chaves do acerto da série.

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Não era preciso ter acompanhado anos e anos das intermináveis tramas principais e secundárias dos X-Men para entender esta seqüência de aventuras.

Elas eram narradas em si mesmas. Conseguiram, com isso, atrair novos leitores.

E fizeram a parte deles ao oferecer histórias bem contadas. Isso deveria, aliás, ser regra.

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As 12 primeiras histórias feitas pela dupla foram reunidas num encadernado, lançado pela Panini em agosto deste ano. Leia mais neste link.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h41
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