25.12.08

Biografia de Che marca a adiada estréia de Oesterheld no Brasil

 

Crédito: reprodução 

 

 

 

 

 

 

 

Obra argentina começou a ser vendida na semana passada e é desenhada por Alberto e Enrique Breccia

 

 

 

 

 

 

A proximidade da versão cinematográfica sobre a vida de Ernesto Che Guevara - produção de mais de quatro horas de duração dirigida por Steve Sordenberg - é um dos atrativos editoriais para pôr no mercado a biografia do guerrilheiro publicada há exatos 40 anos na Argentina.

Que seja esse o pretexto.

O relevante é que o lançamento marca a estréia no Brasil do escritor argentino Hector G. Oesterheld, inexplicavelmente adiada por mais de meio século.

O "inexplicável" é por ele ser visto como o principal roteiristas de quadrinhos do país vizinho e um dos mais destacados da Américas. Mesmo assim, permanecia inédito por aqui.

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"Che - Os Últimos Dias de um Herói" (Conrad, 98 págs., R$ 34,90) foi lançada na Argentina três meses após o assassinato do líder guerrilheiro, em 9 de outubro de 1967, na Bolívia.

A obra é narrada alternando diferentes momentos da vida de Che.

Da infância ao surgimento das idéias de igualdade social, do idealismo ao engajamento armado. 

Uma parte relata como teriam sido os bastidores do golpe que pôs Fidel Castro à frente do governo cubano. Guevara teve importante papel nesse processo de tomada de poder.

 

 

O relato visual é feito por dois desenhistas, Alberto e Enrique Breccia.

O Breccia pai era parceiro de Oesterheld em outros trabalhos. Criaram juntos séries como "Sherlock Time" e "Mort Cinder" na virada das décadas de 1950 e 60.

O desenhista era conhecido pelo uso do preto e do branco em suas produções. O estilo influenciou outros profissionais de quadrinhos, não só argentinos.

O norte-americano Frank Miller -autor da série "Sin City"- é um dos que assumem publicamente a herança de Breccia.

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O Breccia filho talvez seja mais conhecido dos leitores de quadrinhos por ter desenhado séries norte-americanas já publicadas no Brasil, como a do Monstro do Pântano.

Hoje com 63 anos, revelou ao jornalista Pedro Cirne, em matéria da "Folha de S.Paulo", que ele e o pai desenharam roteiros diferentes. Só depois viram a obra reunida.

"Nenhum de nós leu o roteiro do outro até termos terminado o livro. Na realidade, nos vimos apenas uma ou duas vezes no decorrer do trabalho", disse, na reportagem da Folha.

"Acho que ele [Oesterheld] agiu assim para diferenciar completamente as duas partes da história, sem que por isso perdessem a unidade."

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Enrique Breccia é o único dos três autores ainda vivo. O pai morreu em 1993.

E tem -o Braccia pai- no currículo o fato de ter enterrado uma dos exemplares originais da obra, proibida pelos militares.

Foi dessa versão que foram feitas as republicações. A última é de 2007.

Integrou o último volume da "Nueva Biblioteca Clarín de la Historieta", coleção com clássicos dos quadrinhos universais vendida e publicada pelo jornal portenho "Clarín".

 

 

Oesterheld morreu supostamente em 1977. A incerteza é porque não se consegue precisar a data exata. Sabe-se apenas que foi vítima dos militares. Ele, as quatro filhas, os genros.

Tal qual a figura real que biografa, Oesterheld tinha um lado militante e crítico à ditaduta. A biografia de Che já fazia parte de uma segunda fase das obras dele, bem mais politizada.

Um ano depois de Che, produziu em quadrinhos a história de Evita Peron.

Na década seguinte, uma continuação nitidamente politizada de "El Eternauta", sua principal obra e ainda o maior clássico argentino. Completou neste ano 51 anos.

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O filme de Sordenberg - que tem o porto-riquenho Benício del Toro no papel de Che o brasileiro Rodrigo Santoro como Raul Castro - pode ser o pretexto que faltava.

Mas corrige uma injustiça de longa data, que é a ausência dos trabalhos de Oesterheld em solo brasileiro. Há muito, muito mais da mesma fonte. E que jorra qualidade.

Uma dos discursos prontos sobre a história dos quadrinhos é que a Europa deu um olhar mais adulto aos quadrinhos a partir dos anos 1960.

Oesterheld já fazia isso na Argentina na metade da década anterior. 

Que seja, enfim, tardiamente descoberto pelos brasileiros.

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Post postagem (28.12, 18h22): preciso corrigir um dado da matéria. A última obra de "Che" publicada na Argentina é da Doedytores, e nao da Biblioteca do Clarín, como informo na postagem.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h20
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Antes de o ano terminar, é preciso registrar duas leituras obrigatórias

 

     

 

Por conta do atropelo da pauta, tenho adiado já há alguns meses as resenhas de duas obras que figuram entre os melhores lançamentos do ano.

Antes deste 2008 dizer adeus, preciso corrigir a injustiça de não tê-las noticiado.

Uma é "Diário de um Banana" (R$ 29,90). A obra foi uma das apostas da editora V&R na área de quadrinhos ao longo do ano (outra foram dois álbuns com tiras de Gaturro).

Se bem que "quadrinhos" talvez não seja o rótulo mais preciso para definir a obra, escrita e desenhada pelo norte-americano Jeff Kinney. Ela transita entre diferentes gêneros, formando um produto híbrido.

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A base é o formato de um diário, com linhas até, escrito por Greg Heffley, um garoto que relata nas páginas o dia-a-dia em casa e na escola.

Mas "Diário de um Banana" bebe também de outra fonte. Em meio à narrativa, o menino faz desenhos em quadrinhos de momentos vividos por ele.

São cenas que não redundam o conteúdo do texto e devem ser lidas à parte.

Além do domínio das linguagens escrita e dos quadrinhos, Kinney consegue reproduzir nas palavras do protagonista uma imagem exata de um autor mirim, num texto criativo e envolvente, tanto para o leitor juvenil (real público-alvo) quanto para adultos.

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"Pedro Malasartes em Quadrinhos" (R$ 26,50) coincidentemente também atinge leitores de diferentes gerações.

A obra adapta para a linguagem dos quadrinhos diferentes "causos" vividos por Pedro Malsartes, figura folclórica brasileira, que tem relatos contados oralmente em diferentes partes do país.

Outros livros já compilaram em prosa escrita muitas dessas histórias orais.

Mas, até onde a vista alcança, é a primeira experiência em quadrinhos.

                                                            ***

A tarefa - bem cumprida - ficou a cargo de Stela Barbieri e do desenhista e artista plástico Fernando Vilela.

Vilela já havia feito em 2006 uma produção que ficava na fronteira entre os quadrinhos e o livro ilustrado: "Lampião e Lancelote".

O obra imaginava um suposto encontro entre as duas figuras míticas (leia mais aqui).

A arte da obra foi feita toda por meio de carimbos, criados por ele para a composição gráfica de cada uma das cenas.

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Na ocasião, Vilela havia comentado que pensava em trabalhar futuramente com uma obra apenas em quadrinhos.

A adaptação de Pedro Malasartes cumpre a meta. Os desenhos dele são simples, mas não no sentido pejorativo do termo.

Captam a mesma simplicidade das tramóias criadas pelo protagonista folclórico, que usa da esperteza para enganar os outros e se dar bem.

Para encerrar, uma curiosidade: é o primeiro trabalho em quadrinhos produzida de acordo com o Novo Acordo Ortográfico, que começa a vigorar oficialmente a partir de 1º de janeiro.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h29
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22.12.08

Guerra dos Anéis se destaca entre revistas de super-heróis

 

Fonte: divulgação 

 

 

 

 

 

 

 

Fim da saga é publicado no quarto número da revista "Dimensão DC: Lanterna Verde", à venda nas bancas 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em meio a sucessivas crises e guerras - megassagas das editoras Marvel e DC Comics que continuamente mudam o status de seus personagens -, é possível encontrar algumas histórias que se destaquem não pelo lado comercial, mas pela qualidade do roteiro.

Um desses casos - cada vez mais raros - se destaca entre os lançamentos de super-heróis deste final de ano.

Trata-se de "A Guerra dos Anéis", que tem a última parte lançada na edição deste mês da revista "Dimensão DC: Lanterna Verde" (Panini, 116 págs., R$ 8).

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A última parte da história foi lançada nos Estados Unidos em janeiro deste ano no número 25 da revista "Green Lantern", que foi produzida com mais páginas. 

Como geralmente ocorre nas séries de super-heróis, vai entender melhor o que se passa neste quarto número da revista quem acompanha a publicação desde o primeiro número.

Em linhas bem gerais, a saga se ancora no surgimento da Tropa Sinestro, formada por pessoas de má índole vindas de diferentes planetas.

Neste final, o grupo chega à Terra para reordenar o universo. Acompanha os vilões uma versão jovem e maligna do Super-Homem, chamada de Primordial.

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Na Terra, claro, encontra a resistência de todos os superseres da editora DC Comics, dos principais, como Super-Homem e Batman, aos menos destacados.

O foco, no entanto, está nos Lanternas Verdes, já que é nas revistas mensais deles que passa a saga. A principal revista, "Green Lantern", é desenhada pelo brasileiro Ivan reis.

Os heróis integram a antípoda dos vilões, a Tropa dos Lanternas Verdes. Juntos, formam uma barreira para impedir os planos dos oponentes.

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Lendo a sinopse, o roteiro soa até simples e semelhante a de muitas outras aventuras.

O diferencial é que há uma química entre Reis e o roteirista Geoff Johns, um dos principais da DC atualmente.

A dupla cria um ritmo frenético de ação em todas as páginas, dosado com situações em que os heróis não teriam - ao menos em tese - como escapar.

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Se há o filme-pipoca, aquele em que o que mais importa é a diversão, tem-se, aqui, um exemplar similar na forma de história em quadrinhos de super-heróis. É superior a muitas das recentes megassagas de super-heróis.

Tem tudo para agradar a quem já está acostumado a ler aventuras do gênero. Nos Estados Unidos, pelo menos, agradou.

A série venceu a maior parte dos principais prêmios dados pela revista norte-americana "Wizard", especializada em produções da indústria estadunidense.

Um deles foi para o brasileiro Ivan Reis.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h46
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16.12.08

Editoras brasileiras enfrentam diferentes "sapatadas" de leitores

 

 

 

Os chargistas deitaram e rolaram nos jornais desta terça-feira. Havia na pauta uma daquelas piadas prontas.

Durante uma coletiva à imprensa, um jornalista atirou um sapato em George W. Bush. O presidente dos Estados Unidos desviou a cabeça e evitou uma sapatada em público.

"Este é seu presente do povo iraquiano, seu beijo de despedida, cachorro! Pelas viúvas, órfãos e assassinados do Iraque!", gritou o agressor, Muntadar al-Zaidi, preso em seguida.

Na cultura iraquiana, dominada por tropas norte-americanas, apresentar a alguém a sola do calçado é tido como ofensivo. Significa que a pessoa é inferior à sujeira do calçado.

Arremessar -infere-se- é simbolicamente pior em todos os sentidos.

                                                            ***

Não durou muito para que os sapatos se tornassem uma metáfora do sentimento anti-americano. Nesta terça, pelo que informa a Folha Online, houve mais um dia de protestos entre os árabes.

No Iraque, manifestantes foram às ruas para pedir a libertação do jornalista, alçado à posição de herói nacional.

Ontem, as reivindicações tiveram momentos em que os sapatos foram erguidos, como símbolo do protesto.

As imagens, em seus diferentes ângulos, estamparam as capas dos jornais de hoje, além de facilitar o trabalhos dos chargistas brasileiros.

                                                             ***

Símbolos de protesto são construídos quando menos se espera.

Busca-se algo palpável, concreto, para representar metaforicamente um sentimento de descontentamento ou de esperança.

Há algo disso neste mês de dezembro no mercado editorial brasileiro. Mas, no lugar de sapatos, ponham-se no lugar duas editoras brasileiras.

Ambas se tornaram, no mesmo dia, símbolos da esperança e da queda dos quadrinhos publicados no Brasil.

                                                            ***

Na quinta-feira passada, o editor-chefe da Pixel, Cassius Medauar, tornava pública sua saída da editora, mantida pelo grupo Ediouro.

O desligamento dele e o silêncio da Ediouro evidenciam mudanças nos rumos editoriais.

Independentemente de quais sejam elas -da manutenção dos atuais títulos ou do cancelamento de todos-, o passado editorial brasileiro ensina que é motivo, sim, para o leitor ficar cauteloso.

Pixel, Ediouro e Desiderata -outra editora do grupo- tornaram-se o ponto focal de quem vê um momento de fragilidade no atual mercado brasileiro de quadrinhos.

                                                            ***

Enquanto a Ediouro -por atos próprios- faz as vezes de pedra no sapato, a Companhia das Letras calça sandálias claras e limpas.

A editora paulista oficializou -também na quinta-feira passada- a criação de um selo exclusivo para histórias em quadrinhos, o "Quadrinhos na Companhia".

Ao contrário da Ediouro, a editora atraiu a esperança dos leitores e de muitos quadrinistas para dias melhores que, no fundo, acredita-se que todos desejem.

O movimento da Companhia das Letras é algo, sim, para ser observado com atenção.

                                                            ***

O fato de uma das cinco editoras mais influentes do país -inclusive entre os chamados "formadores de opinião"- aumentar o valor da aposta na área de quadrinhos tende a chamar a atenção.

Chamar a atenção da imprensa, de novos leitores, das livrarias, de outras editoras.

É possível -embora ninguém tenha bola de cristal para prever o futuro- que a iniciativa paute outras editoras.

"Se eles estão investindo nisso", pensariam alguns dos concorrentes, "é bom eu também entrar nesse jogo".

                                                            ***

O símbolo da sapatada levada por Bush vale também para este irônico e contraditório momento vivido pelos quadrinhos no Brasil.

Troca-se o calçado por editoras. Numa, calça-se o sapato delicadamente e se põe um tapete para que pise com mais segurança. Noutra, atira-se o sapato.

Qual vai caminhar melhor? Só os próximos meses e anos dirão qual é o sapato mais resistente para percorrer o solo brasileiro. Por ora, fica o registro.

                                                            ***

Crédito: a charge que abre esta postagem é de Dálcio Machado e foi publicada no jornal "Correio Popular", de Campinas (SP).

Escrito por PAULO RAMOS às 17h10
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13.12.08

O sifu, o Pasquim e os 40 anos do AI-5

Este sábado, 13, marca os 40 anos da implantação do Ato Institucional número 5, o mais duro do regime militar brasileiro (1964-1985).

O AI-5 ampliava os poderes dos militares no poder ao mesmo tempo em que limitava a liberdade democrática e individual. 

Meses depois, já em 1969, surgiu no Rio de Janeiro o "Pasquim".

O jornal alternativo -berço de escritos, cartunistas e quadrinistas- tornou-se uma das vozes mais contundentes de resistência à ditadura.

A convite do blog, o desenhista e doutorando em ciência política na UFF (Universidade Federal Fluminense) Márcio Malta preparou um artigo articulando todas essas datas.

Autor de uma biografia sobre Henfil, um dos integrantes do "Pasquim", Malta viu nas datas elos com o "sifu" dito em público pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início do mês.

Segue a análise dele, que deve ser publicada de forma mais detalhada em revista científica.

                                                                   ***

Em discurso para uma platéia de artistas no último dia 4, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se valeu do termo "sifu" para manifestar a sua concepção otimista diante da crise econômica que ameaça invadir o país. A reação da imprensa e de setores da oposição foi a de criticar o discurso e o qualificar o "Você (como médico) diria ao paciente: Meu, sifu? " como extravagante. Ao ser transcrito e publicado pelo órgão governamental responsável, o discurso foi editado e onde entraria o suposto palavrão foi inserido o termo "inaudível".

Buscamos situar a fala do presidente em um contexto mais amplo e localizar as origens da expressão sifu, associadas ao surgimento de uma nova forma de se falar, proporcionada principalmente pelo jornal alternativo "Pasquim". Aproveitamos desta forma para relembrar duas datas significativas de nossa história nacional: os 40 anos da edição do Ato Institucional de número 5 -marcados neste sábado- e os 40 anos de publicação do primeiro número do jornal "Pasquim", a acontecer no dia 26 de junho de 2009.

A título de contextualização, podemos definir o regime militar brasileiro como um dos momentos mais dramáticos da história nacional, no que pese o não-reconhecimento dos direitos mais elementares do cidadão. A marca de tal regime foi o rompimento da legalidade jurídica, suprimindo direitos por meio da promulgação de diversas leis de exceção denominadas Atos Institucionais (AI).

O Ato Institucional número 5 foi baixado no dia 13 de dezembro de 1968. A edição do AI-5 foi caracterizada pelos estudiosos do período como um golpe dentro do golpe. Representou um fechamento do regime, especialmente em termos de censura e controle da imprensa.

Como foi editado no fim de 1968, o ano de 1969 foi o primeiro sob o signo do AI-5. Apenas seis meses após sua edição, surgia o jornal O Pasquim. Em princípio mais voltado para o humor, com o tempo o jornal foi se politizando, principalmente por conta das pressões que culminaram na prisão de boa parte da redação.

A publicação se enquadra em um tipo de imprensa que ficou conhecida como "alternativa". Durante a ditadura esses jornais cumpriram destacada função ao permitir que - mesmo sob censura - os descontentes dessem vazão aos seus anseios. O Pasquim permitia a seus leitores um sopro de esperança, servindo de porta-voz para aqueles que tinham a fala embargada pelas limitações impostas.

Um dos responsáveis por introduzir um comportamento que se tornaria anos depois a marca do jornal Pasquim, o cartunista Henfil usava e abusava de palavras estigmatizadas pela sociedade, como cocô, meleca, além de criar novas, que se tornaram nacionalmente conhecidas, como o indefectível gesto obsceno (o top-top) do fradim Baixim.

Na redação do jornal, existia uma espécie de competição interna para ver quem inventava mais expressões a partir de junções ou corruptelas de palavrões que, suavizados, poderiam ser assim publicados, dando um "chapéu" na censura. O historiador Lincoln de Abreu Penna, em "Auto História - A Intervenção no Social", credita o sifu como uma "expressão cunhada pelo Pasquim para ludibriar a censura, que não admitia palavrões. Sendo assim, essa expressão sintetiza o se fodeu".

Apontamos em termos de colaboração, os indícios e conversas com pessoas mais velhas demonstram ser o termo mais antigo, encontrando-se em uso há bastante tempo nas rodas de conversa cariocas. Aliás, nem sequer no âmbito do "Pasquim" temos o poder de definir exatamente o criador do sifu, pois, como relatado, existia uma espécie de competição interna ao jornal para ver quem inventava mais expressões desse tipo.

Cabe destacar que ainda no primeiro ano de publicação do jornal, o cartunista Ziraldo já catalogava em suas páginas um novo dialeto, o Spasquinglish. Por meio de ilustrações, o cartunista definiu em 15 quadros o significado de cada síntese de palavrão. Na compilação já constam variantes do sifu: o sifo, o mifo e o nosfu.

Com o título de "Abaixo o palavrão!!!", o texto de Ziraldo - uma defesa do uso do palavrão através de eufemismos - é sucinto e vai direto ao ponto: "O palavrão é tão vital que é o único substantivo (ou interjeição) que já contém ponto-de-exclamação. Nós reconhecemos que uma boa empolgação ou uma emoção maior não pode viver sem um palavrão adequado."

Segundo o método da Análise de Discurso, corrente ligada à área da Lingüística, um dizer é elaborado pelo sujeito a partir de sua expectativa construída em relação a seu interlocutor. Nestes termos, o presidente Lula possuía perfeita ciência de quem era a sua platéia ao proferir o sifu: artistas, que em geral costumam ter um comportamento mais despojado e liberalizante.

De acordo com o historiador Carlo Ginzburg, a investigação científica deve ser focada em resíduos e dados marginais que a princípio poderiam soar irrelevantes, mas seriam dotados de grande valor na interpretação dos contextos analisados.

Sustentamos que a fala do presidente está ancorada na transformação dos costumes proporcionada pelo O Pasquim. O semanário se caracterizou pela resistência à ditadura militar, transformando-se em uma referência obrigatória para os oposicionistas ao regime, seja por seu posicionamento ousado no campo do comportamento, seja pelo combate permanente à censura.

Assim, localizamos algumas pistas da identificação de Lula com o jornal O Pasquim. Por meio de um silogismo, podemos inferir que o presidente Lula, enquanto membro da oposição ao regime militar, era leitor do tablóide. Da categoria de simples leitor, Lula chegou a ser entrevistado em março de 1978, como sindicalista, denominado na capa como "o líder metalúrgico".

Na entrevista ao semanário, em resposta à pergunta de Ziraldo de quantos anos de batalha tinha, Lula afirmou que iniciou a sua militância no mesmo ano de criação do jornal O Pasquim: "Comecei no sindicato em 69, levado por meu irmão".  

Somado à coincidência de datas, está o reconhecimento do próprio presidente na contribuição em sua formação política de um dos colaboradores de primeira hora de O Pasquim, Henfil.

Em entrevista, Lula utilizou-se de outros palavrões - desta vez sem eufemismos - para declarar a importância de um dos membros do Pasquim em sua trajetória: "Eu achava o Henfil do cacete! As páginas dele eram um sarro! (...) em 74, 75, em plena repressão, ler as críticas do Henfil nos desenhos era uma coisa fantástica. Contribuíram para a minha formação política."

A imprensa se posicionou de forma contrária ao uso do termo por parte do presidente Lula, tendo jornal O Globo (05/12/08) creditado a ele a utilização de uso de expressão de baixo calão. No campo da política, os setores da oposição, capitaneados pelos partidos PSDB e DEM, receberam a notícia com acusações, sendo até mesmo ventilada a hipótese da criação de uma CPI do Sifu.

Destacamos que o próprio Ziraldo em seu texto citado vaticinou que o uso do dialeto criado pelo Pasquim servia justamente para evitar constrangimentos e permitir o diálogo entre diferentes: "Entretanto há que se respeitar aqueles a quem o palavrão choca ou confunde. Somos a favor da convivência pacífica e aqui estamos para propor uma solução para o impasse: acabe-se o palavrão mas que a língua adote palavras novas tão precisas quanto necessitem a exteriorização de nossas emoções mais vigorosas."

Longe de fazer apologia ao governo em questão, refletimos que os altos índices de popularidade do presidente Lula podem ser creditados em parte aos seus pronunciamentos coloquiais, tirando - assim como fez o "Pasquim" com o jornalismo - o paletó e a gravata dos discursos presidenciais.

Mesmo tendo superado os tempos negros da censura ditatorial, o que assistimos por ora é uma censura moral, que insiste em tradicionalismos e artificialismos que não reproduzem os verdadeiros movimentos e costumes da sociedade nacional.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h14
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04.12.08

Série Starman ganha mais uma chance no Brasil

 

Reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

Produção norte-americana é uma das principais revistas em quadrinhos de super-heróis da década de 1990

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O leitor brasileiro tinha tudo para não ler mais as histórias de Starman. Pelo menos não em uma edição nacional.

As três tentativas anteriores de publicação da série norte-americana não deram certo.

Além disso, o momento em que a história se passa foge do visto nas demais revistas em quadrinhos da DC Comics, editora que publica heróis como Super-Homem e Batman.

Mas, para surpresa de quem apreciava a série e a forma madura como era escrita, eis que Starman ganha mais uma oportunidade nas estantes brasileiras.

E em formato de luxo, com direito a capa dura.

                                                           ***

O álbum começou a ser vendido na virada do mês (Panini, 360 págs., R$ 62).

A obra compila as nove (e não oito, como informa a contracapa da obra) primeiras aventuras do herói.

Inicia com a história de estréia, publicada numa edição zero, de outubro de 1994, e encerra com o oitavo número da revista norte-americana "Starman".

                                                            ***

O diferencial da série, escrita pelo norte-americano James Robinson, é que não põe o foco nos poderes do protagonista, o jovem Jack Knight.

O interesse está no lado humano dele e nas situações que é obrigado a enfrentar após o assassinato do irmão.

Davi Knight -o irmão era quem vestia o uniforme do super-herói- leva um tiro à distância na terceira página da aventura inicial.

Após a morte dele, tem início uma perseguição a Jack e a seu pai, o Starman original.

                                                            ***

O assassinato força Jack -um colecionador que vive de comprar e vender objetos raros e curiosos- a assumir o encargo de Starman.

Mas a seu jeito: sem uniforme. Basta uma jaqueta e um óculos que inibe a luz do bastão de força que usa.

Esse lado meio "cool", para usar um empréstimo da terra da série, tornou o personagem por si só diferente dos demais publicados pela editora.

                                                           ***

Ajudaram também as referências, o texto de Robinson, voltado ao leitor mais maduro.

Em poucas páginas, a busca pelo mistério do assassinato pelos olhos de Jack levaram o leitor a uma quase automática empatia pelo protagonista.

Essas histórias já haviam sido publicadas no Brasil. Por diferentes editoras, registre-se.

                                                           ***

A série é uma das que sofreram com o confuso vai-e-vem editorial e que ainda não tiveram o final publicado por aqui (embora "Preacher", do selo adulto da DC Comics, ainda esteja no topo da lista).

Starman começou a ser publicado em revista própria em outubro de 1997 pela extinta editora Magnum.

O título durou quatro números. Foi cancelado em março do ano seguinte. As quatro edições, depois, foram vendidas de forma encadernada.

                                                           ***

Houve nova tentativa em fevereiro de 1999. Uma minissérie da editora Tudo em Quadrinhos deu continuidade à série do ponto onde havia parado na Magnum.

Foram outras quatro edições, cada uma com duas histórias. A última saiu em maio daquele ano. A série foi até o número 11 norte-americano.

A editora Brainstore continuou a publicar Starman a partir do número 12 na extinta revista "Dark Heroes", de outubro de 2002. Cada número trazia uma história do personagem.

A revista foi cancelada no número cinco. lançado em julho/agosto de 2003.

                                                            ***

Talvez seja um exagero a opção da Panini de dar tamanho luxo editoral à reedição da série (luxo que é transferido para o preço sugerido, R$ 62).

Mas o tratamento editorial faz jus à qualidade da série, desenhada por Tony Harris, mais conhecido dos leitores mais novos pelo trabalho no título "Ex-Machina".

Starman se destacou nos Estados Unidos numa época em que as histórias de super-heróis não primavam pela qualidade. O título era um oásis nesse deserto.

                                                           ***

Ver Starman reeditado é algo bem-vindo, embora seja uma daquelas surpresas que o atual mercado editorial tem proporcionado.

Mas resta saber se a nova vida do herói no Brasil vai ter continuidade.

E se o leitor daqui vai, finalmente, poder ler a seqüência da série sem ter de apelar para os encadernados norte-americanos.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h40
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