27.01.09

Onimbo e os Vermes do Inferno mostra esquizofrenia do horror

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Mangá, lançado neste mês, mostra um ser que se alimenta de vermes hospedados dentro do corpo das pessoas 

 

 

 

 

 

 

 


Há uma espécie de cadeia alimentar no mundo apresentado em "Onimbo e os Vermes do Inferno", mangá que começou a ser vendido neste mês em lojas de quadrinhos (Zarabatana; 192 págs., R$ 29).

Vermes do inferno se desenvolvem dentro das pessoas e delas se alimentam. Surgem a partir de traumas vividos no passado.

E Onimbo, um ser poderoso com jeito de menino malandro, alimentar-se dos tais vermes.

Fecha-se, assim, o ciclo alimentar que sintetiza o enredo do álbum, escrito e desenhado por Hideshi Hino, que fez fama com seus quadrinhos de horror.

                                                            ***

Onimbo tem a habilidade de extrair os vermes das pessoas. Não que esteja interessado no bem estar delas. Nada disso. O interesse do pequeno ser é apenas digerir os tais monstros.

Tanto que, ao invés de simplesmente tirar os "encostos" de dentro das vítimas, ele espera pacientemente até que os vermes cresçam e se tornem um aperitivo mais suculento.

Até que isso aconteça, o portador sofre de fortes ataques de esquizofrenia. Vê tornarem-se reais os traumas do passado.

Um pesadelo é pior que o outro. E é o que dá o tom de horror ao mangá.

                                                           ***

Este álbum traz quatro contos de Onimbo. Ele se alimenta de diferentes vermes, em diferentes pessoas.

Os relatos podem ser lidos de forma autônoma. E vão se encerrar num segundo volume da série. Segundo a Zarabatana, a sequência está programada para março.

Onimbo é o terceiro trabalho de Hideshi Hino lançado pela editora de Campinas, cidade no interior de São Paulo. Os outros também eram mangás de horror.

"A Serpente Vermelha" mostrava um garoto seguido pelo animal que dava título à obra.

E "O Garoto Verme" - o melhor dos três - apresentava a transformação de um menino em verme. O álbum foi lançado em agosto do ano passado.

                                                            ***

Nota: dois outros mangás começaram a ser vendidos neste mês, lançados por diferentes editoras. Ambos são voltados ao leitor adolescente.

"Tenjho Tenge" (JBC; R$ 10,90) mostra a luta entre grupos rivais dentro de uma escola de segundo grau. O grau de violência - pontuado por algumas cenas de nudez - fez com que a capa incluísse o selo de "proibido para menores de 18 anos".

"Vampire Kisses - Laços de Sangue" (NewPOP; R$ 6,90) mostra a relação entre uma adolescente "normal", Raven, e seu namorado vampiro, Alexander.

Neste número de estreia, descobrem a existência de um primo de Alexander, também vampiro, pessoa que terão de enfrentar. O enredo lembra muito o que se vê no cinema no filme "Crepúsculo", também sobre a dificuldade do namoro entre um vampiro e uma jovem.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h57
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26.01.09

Um curioso passeio pelas adaptações de Benjamin Button

 

Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do álbum "O Curioso Caso de Benjamin Button", que mostra em quadrinhos conto de F. Scott Fitzgerald 

 

 

 

 

 

 

 

 

A curiosidade sobre o caso de Benjamin Button não está apenas no nome do conto do norte-americano Francis Scott Fitzgerald (1896-1940).

O dado curioso é que as resenhas sobre a história do homem que nasce velho e rejuvenesce ao longo dos anos têm de se ater às adaptações.

Pelo menos até as livrarias brasileiras receberem os exemplares de "Seis Contos da Era do Jazz", o que deve ocorrer em questão de dias. A obra inclui a narrativa sobre Button.

Na falta do texto original, resta comparar as duas adaptações existentes, a do cinema e a feita em quadrinhos, lançada no fim da semana passada (Ediouro, 128 págs., R$ 29,90).

                                                            ***

A comparação traz outra curiosidade. As duas histórias mostram o mesmo enredo. Benjamin Button nasce velho e se torna jovem ano após ano.

Mas há sensíveis diferenças entre o que se vê na tela e o que se lê em quadrinhos, produzidos por Nuncio De Filippis, Christina Weir (textos) e Kevin Cornell (desenhos).

No álbum, Button inicia a vida como um adulto de 70 anos, barbudo, alto e corcunda. Domina a língua, dialoga com o pai e é tratado por ele como se fosse uma criança de fato.

A incongruência de ser visto como criança embora seja adulto é a tônica do restante da história. Ninguém na sociedade o vê como realmente é.

                                                           ***

A versão cinematográfica ameniza o modo como as pessoas que rodeiam Button o enxergam. Ele nasce e vive os primeiros anos em um asilo, fato inexistente na versão quadrinizada.

Outras diferenças: nasce como um pequeno bebê, sem o domínio da fala e tem o comportamento típico de uma criança. Brinca e se diverte, apesar de ter corpo de um idoso.

É abandonado pelo pai - o que não ocorre no álbum - e é criado por uma mãe adotiva. Tem participação mínima na guerra, ao contrário do que se lê na adaptação quadrinizada.

E, principalmente, não conhece seu grande amor durante a infância, como se vê na tela grande. E também não passa parte da vida adulta com ela. 

                                                            ***

O álbum - pelo que noticia a Ediouro - se baseia no texto original de Fitzgerald.

O que o cinema mostra é algo diferente. É uma história curiosa, sim, mas também um conto de amor. Esse talvez seja o principal ponto que distingue as duas adaptações.

Fora a cativante interpretação de Brad Pitt no papel de Benjamin Button, papel que o indiciou ao Oscar de melhor ator (o filme teve 13 indicações, incluindo a de melhor filme).

Entre ir ao cinema e comprar o álbum, o bilhete garante uma diversão melhor.

Depois, se a história agradar, vale um passeio pelas páginas da adaptação em quadrinhos, a título de comparação. E pelo conto original, a ser lançado pela editora José Olympio.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h47
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19.01.09

Quadrinhos dos EUA reproduzem discurso pró-Obama

 

Fonte: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa da revista norte-americana do Homem-Aranha, que mostra o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama 

 

 

 

 

 

 

 

Os olhos do mundo todo nesta terça-feira vão estar em Washington. A capital norte-americana vai sediar a posse do 44º presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

O primeiro presidente negro na história do país assume o cargo em meio a duas conturbadas heranças da gestão de George W. Bush: uma guerra inacabada e uma instabilidade financeira interna.

Por maiores que sejam os desafios - e são -, 79% veem sua administração com otimismo, a maior vista na posse dos últimos seis presidentes. Outra pesquisa dá a ele 60% de aprovação.

Os quadrinhos de super-heróis ecoam essa popularidade já há alguns meses.

                                                            ***

A obamamania foi vista e revista em "Savage Dragon", da Image Comics. O título, escrito e desenhado por Erik Larsen, deu apoio explícito ao então candidato democrata.

Definida a disputa, a Marvel Comics preparou um encontro entre Obama e o Homem-Aranha. "Obrigado, parceiro", diz ele ao super-herói, após ser salvo.

A onda é vista, agora, na revista "Youngblood", de Rob Liefeld.

O presidente eleito é desenhado de forma positiva em todos esses casos.

                                                           ***

O que os quadrinhos fazem é uma reprodução acrítica do discurso dominante no país.

No momento, é pró-Obama. Afinal, de cada dez norte-americanos, seis o apoiam e dois o veem com otimismo.

É o mesmo mecanismo visto após o ataque do 11 de Setembro e na Segunda Guerra Mundial, para ficar em dois exemplos. 

Ambos já foram abordados em outro momento por este blog.

 

Fonte: reprodução

 

O ataque às Torres Gêmeas, em 2001, criou nos Estados Unidos um discurso de profunda lamentação, inicialmente, e de necessidade de represália, depois, ambos alimentados pelo governo Bush.

Os dois discursos foram reproduzidos pela imprensa interna e externa, inclusive brasileira.

Usavam-se termos ocos de significado - e necessariamente negativos -, como "medo", "eixo do mal" e "terror". Era parte da estratégia federal para criar um sentimento pró-conflito.

A outra parte da argumetação de Bush foi ancorada na afirmação de que existiam armas de destruição em massa. Não havia, como se comprovou anos depois.

                                                              ***

Esse discurso foi reproduzido ípsis-líteris nos quadrinhos de super-heróis.

A Marvel, a exemplo do que faz agora com Obama, correu para lançar uma edição da revista do Homem-Aranha abordando o tema. O herói se sentia impotente ante a tragédia.

Os demais super-heróis e vilões se uniram para resgatar as vítimas dos escombros. O inescrupuloso Doutor Destino chegou a derramar lágrimas.

Nos meses seguintes, o título do Capitão América foi repaginado para que ele combatesse o novo mal norte-americano: o terror, mesmo termo oco cunhado por Bush.

 

Fonte: reprodução

 

Hoje, George W. Bush deixa a administração com 20% de aprovação, índice visto apenas na depressão da crise de 1929 dos Estados Unidos.

Ele tem sido mostrado em textos e fotos jornalísticas como uma caricatura, sintetizada agora na figura de um sapato jogado contra ele pouco tempo atrás.

Não há sombra da aprovação vista na época do início da invasão ao Iraque. O olhar norte-americano sobre o tema mudou. O discurso também. Inclusive nos quadrinhos.

A série "Os Supremos", também da Marvel, é um indício disso. Na segunda fase do título, o mundo se une para atacar o poderio bélico norte-americano.

                                                            ***

Na Segunda Guerra Mundial, houve nos Estados Unidos um incentivo à propaganda contra os países do eixo. 

Mas, mais que isso, houve condescendência dos autores na produção de histórias assim. Reproduzia-se o discurso dominante na época.

Foi assim que o Super-Homem enfrentou os nazistas. Que Flash Gordon retornou à Terra para lutar na guerra. Que o Capitão América foi criado.

                                                            ***

Barack Obama toma posse nesta terça-feira no auge de sua popularidade.

Os quadrinhos de super-heróis evidenciam essa aprovação. E capitalizam com ela.

Basta ver o número de manchetes pautadas sobre a presença de Obama na revista do Homem-Aranha.

Trata-se de um discurso predominante na maioria dos textos sobre o novo presidente produzidos na imprensa e nos quadrinhos de super-heróis. 

                                                            ***

Bush, há não muito tempo assim, gozava de popularidade, vista também nos quadrinhos.

Hoje, é uma caricatura de si mesmo. Não foi o presidente quem mudou. Foi o discurso sobre ele.

Identificar tal discurso é uma forma de tornar a leitura mais crítica para, a partir daí, concordar com ela ou dela discordar.

Mas nunca a reproduzir, de maneira acrítica, como temos visto, inclusive nos quadrinhos.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h14
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17.01.09

Série ligada a Incal narra história dos metabarões

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Primeiro volume de "A Casta dos Metabarões", de Alejandro Jodorowsky e Juan Gimenez, começou a ser vendido nesta semana 

 

 

 

 

 

 

Embora a manchete seja esta, pode soar incompreensível a quem não conhece o assunto dizer que "série ligada a Incal narra história dos metabarões".

O título se refere ao álbum "A Casta dos Metabarões - Tomo Um", que começou a ser vendido nesta semana em lojas especializadas em quadrinhos (Devir, 128 págs., R$ 49).

Por isso, antes de a resenha avançar, são necessárias algumas "traduções" em nome do didatismo jornalístico.

                                                            ***

"Incal" é uma série de ficção científica francesa escrita pelo chileno Alejandro Jodorowsky e desenhada pelo francês Moebius, um dos principais artistas do país.

A história mostra um detetive particular, John Difool, que é tomado por uma entidade poderosíssima, o Incal. Caberia a ele, junto com o Incal, dar um novo destino ao planeta.

"Incal" foi publicado pela primeira vez em 1980 no número 58 da revista francesa "Metal Hurlant". Teve seis volumes - ou tomos, como se chama na Europa -, lançados até 1988.

No Brasil, foi publicado pela Devir em três álbuns. O primeiro é de maio de 2006.

                                                            ***

A série teve duas sequências. A primeira foi "Antes do Incal", que narra os momentos que antecederam a história. Também já foi publicada pela Devir a partir de agosto de 2007.

A segunda sequência é este "A Casta dos Metabarões", que lança o foco em um dos personagens da ficção científica, o Metabarão. Ou melhor, na linhagem dele.

O que se lê neste novo trabalho escrito pelo também diretor de cinema Jodorowsky é como se deu a linha sucessória dos metabarões, título nobre atribuído nesse universo futurista.

 

Crédito: divulgação

                                                      

 

 

 

 

 

 

Metabarões mutilam partes do corpo dos herdeiros; característica da linhagem é passada de pai para filho

 

 

 

 

 

 

 

 

O início se dá com Othon. Guerreiro nato, ele é levado a um outro mundo após o segredo de seu planeta ser descoberto - um óleo que tira a gravidade de qualquer objeto ou pessoa.

Na nova vida, Othon é mutilado. Tem a região genital destruída numa luta.

Passa a usar, então, uma prótese mecânica e inicia a linhagem, passada de pai para filho, de mutilar partes do corpo de cada um dos herdeiros e substituí-las por componentes tecnológicos.

Seu filho, Aghnar, perde os dois pés após uma sessão de resistência à dor.

                                                            ***

Este primeiro álbum reúne os dois primeiros tomos, "Othon le Trisaïeul" e "Honorata la Trisaïeule" (Honorata é a mãe de Aghnar).

Foram lançados na Europa em 1992 e 1993, respectivamente.

A série teve oito volumes ao todo. O último é de 2004.

Todos tiveram desenhos do argentino Juan Gimenez, que tem vários álbuns publicados na Europa e um estilo próprio de arte.

                                                            ***

Esse estilo de Gimenez permite que a obra tenha uma cara visual própria e se distancie do traço inconfundível - e seguido por muitos - de Moebius.

Outro diferencial é que a narrativa é bem menos filosófica que "Incal". E, por isso, bem mais fácil de compreendida. Não há a necessidade de ter lido os trabalhos anteriores.

É pura ficção científica. Deve agradar a quem gosta do gênero.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h00
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16.01.09

Baby Blues mostra lado cômico de ser pai pela primeira vez

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

Primeira coletânea das tiras norte-americanas começou a ser vendida nesta semana

 

 

 

 

 

 

Há algumas histórias em quadrinhos que conseguem ultrapassar os leitores tradicionais e alcançam outros públicos, que normalmente acompanham a área à distância.

"Baby Blues - O Bebê Chegou... E Agora" (Devir, 128 págs., R$ 23) tem tudo para se somar a essa rol de publicações. 

A primeira coletânea da série de tiras norte-americana começou a ser vendida nesta semana, um mês depois do programado pela editora.

O apelo ao público não habituado com quadrinhos é o tema trabalhado nas tiras. Trata-se do lado cômico das dificuldades de um casal ao lidar com o primeiro filho.

                                                            ***

As histórias mostram a rotina de Darryl e Wanda - os pais - com a chegada de Zoe, a filha recém-nascida.

Como trocar as fraldas? Como fazer o bebê parar de chorar? Que fralda usar?

Por mais traumáticas que fossem as respostas a essas perguntas, são situações necessariamente vividas por quem já foi pai um dia.

E é isso o que tende a atrair um espectro mais amplo de leitores. Alimentado pelo toque de humor dado pelos autores, Rick Kirkman e Jerry Scott.

 

 

Embora seja novidade no Brasil, a tira existe desde 1990, quando estreou nos EUA.

"Baby Blues" já teve, desde então, 30 coletâneas de histórias. Esta é de 1991.

Hoje, é lida em mais de 1.100 jornais no mundo todo, segundo informações da distribuidora da série, a King Features Syndicate.

E traz um detalhe curioso: Zoe cresce à medida que os anos passam. Neste início de 2009, já é uma garotinha. A família também cresceu.

 

 

A tira agrada por ser bem trabalhada e por encontrar humor numa situação comum a todos os casais que já tiveram filhos.

Pode ser lida por qualquer leitor. Mas terá, sem dúvida, identificação maior por quem é pai.

Ou tio, caso deste jornalista, que ganhou três sobrinhos - inclusive gêmeos - nos últimos três anos e seis dias (não que esteja contando, claro).

Vi nas tiras da série várias situações vividas por meus irmãos e cunhadas. E não serei o único. Não tenho dúvidas de que há outros pais, avós e tios saudavelmente corujas, que também vão se enxergar nas situações de "Baby Blues".

                                                           ***

Post postagem (17.01, à 1h35) - Leitores me corrigem, com toda a razão, que "Baby Blues" é publicada há alguns anos no Brasil sob o título "Zoé e Zezé". Não se trata, portanto, de uma novidade no país, como escrevi equivocadamente na resenha. A tira circula nos jornais "O Globo", do Rio de Janeiro, e "Agora", de São Paulo.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h52
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