17.02.09

Trecho de "A Comadre do Zé", de Luciano Irrthum, obra que tem lançamento nesta quinta-feira em Belo Horizonte
Liam-se não apenas histórias curtas ou de humor. Via-se também o ensaio de trabalhos com mais páginas, de maior fôlego, compondo álbuns ao estilo europeu de se fazer quadrinhos. A tendência, que se acentua no mercado, traz consigo também uma responsabilidade. A de aproveitar esse momento tardiamente propício à produção nacional e mostrar, a editores e, principalmente, a leitores, que é possível produzir quadrinhos brasileiros de qualidade. Com bons desenhos e, o mais difícil, bons textos. *** Nesse aspecto, a "Coleção 100% Quadrinhos" tem cumprido a pauta. Os dois primeiros volumes produzidos pelo grupo de editores independentes da Graffiti – "Um Dia, Uma Morte" e "O Relógio Insano" – traziam ideias inovadoras e roteiros bem conduzidos. Este terceiro álbum se espelha nos anteriores. Trata-se de um "causo", daqueles que se ouve no sertão, bem ao estilo das narrativas de um Guimarães Rosa ou de um Ariano Suassuna. Cabe ao leitor se deliciar com a história. Mas, caso prefira iniciar por estas palavras, antecipo o cardápio, apenas para dar sabor ao prato servido por Irrthum. *** Zé Honofre (com "h" mesmo, o que, registre-se, não tem nada a ver com a nova reforma ortográfica da língua portuguesa) é um morador de uma cidade interiorana, daquelas bem simples. É casado com Maria e, com ela, tem uma penca de filhos. Mais um está em vista, fruto do tempo livre causado por uma televisão quebrada. Com tantos rebentos, o casal já usou todos os possíveis padrinhos conhecidos para batizar os filhos. Tinha, agora, a missão de encontrar alguém que aceitasse a missão. Um visitante é "escalado" para ser o padrinho. A madrinha, surpresa, é a própria Morte, que esbarra na vida de Zé. E dele se torna comadre. *** Falar mais pode tirar o gosto do prato. E, como sabe o bom gourmet, deve-se saborear a comida por conta própria, aos poucos. O paladar lembra muito a literatura sertaneja brasileira, tanto oral quanto escrita. A aparência, elementos dos desenhistas Jô Oliveira e Flávio Colin. O cardápio tem também aspectos do traço dos quadrinistas paulistas da virada dos anos 1980 para os 90. Há os rostos expressivamente exagerados de Lourenço Mutarelli e a escatologia assumida de Marcatti. *** Com tantos ingredientes díspares, a receita teria tudo para não dar liga. Mas o jeitinho do mineiro Irrthum possui um segredo que consegue dar sabor e um estilo próprio ao que serve ao leitor. Ele produz quadrinhos desde 1994. É tempo suficiente para ensinar alguns macetes na arte. Os responsáveis por esta coleção já disseram que têm verba para um quarto volume. Se for pautado neste e nos demais, merece um voto antecipado de confiança. *** Como já comentado, não basta ter um momento propício à produção nacional, por mais que o cenário ainda esteja muito longe do ideal. É necessário aproveitar esse período fértil e oferecer produtos à altura. Como esta divertida "A Comadre do Zé". *** Nota: este texto consta no prefácio do álbum. Os editores, merece registro, deram total liberdade para que criticasse ou elogiasse a obra. O resultado foi a resenha acima, reproduzida com autorização da equipe da Graffiti 76% Quadrinhos, grupo mineiro que está à frente da publicação independente. A obra tem dois lançamentos agendados, um em Belo Horizonte, na próxima quinta-feira, e outro em São Paulo dia 6 de março. "A Comadre do Zé" é o primeiro álbum nacional do ano. Esperam-se outros, como o blog noticiou no último dia 12. Leia mais aqui. ***
O biênio que antecede o lançamento deste "A Comadre do Zé", de Luciano Irrthum, foi particularmente fértil no tocante à produção de obras nacionais.
Serviço - Lançamentos de "A Comadre do Zé", de Luciano Irrthum. Em Minas Gerais. Quando: 19.02. Horário: 22h. Onde: Velvet Club. Endereço: rua Sergipe, 1492, Savassi, Belo Horizonte. Quanto: ingresso mais álbum saem por R$ 15. Em São Paulo: Quando: 06.03. Horário: a partir das 19h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro da capital paulista.









Escrito por PAULO RAMOS às 19h39