31.03.09

Mutts traz humor ingênuo para todas as idades

 

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Primeira coletânea da série de tiras começou a ser vendida neste fim de mês

 

 

 

 

 


Os desenhos animados criaram alguns construtos sociais. Um deles - fartamente utilizado - é o da relação de briga entre cães e gatos. Tom e Jerry são apenas um exemplo.

"Mutts - Os Vira-Latas" desmonta essa construção. Na série, gato e cachorro são companheiros e dividem uma relação fraternal. O ingênio dia-a-dia deles é o mote do humor.

As tiras ainda não são muito conhecidas no Brasil. Falha que pode ser corrigida. A primeira coletânea da série começou a ser vendida neste finzinho de mês (Devir, 128 págs., R$ 23).

O álbum já está à venda em lojas especializadas em quadrinhos de São Paulo. Chega às livrarias nesta virada de mês.

                                                            ***

Os personagens centrais da tira são o cachorro Duque e o gato Chuchu. Cada um é criado por pessoas diferentes. Duque, por um homem; Chuchu, por um casal de idosos.

Os donos são vizinhos. O que facilita a visita dos dois animais de estimação à casa do outro. As primeiras tiras do álbum mostram os primeiros contatos entre ambos.

O humor é construído na relação que se estabelece entre os dois bichinhos. Situações simples, que ganham imediata empatia do leitor.

Parte da proximidade está na ingenuidade de Duque e Chuchu. Parte nos desenhos com ar clássico e nas sacadas do norte-americano Patrick McDonnell, autor da série. 

 

Crédito: divulgação

 

McDonnell sabe transformar ideias simples em inteligentes piadas. Retoca o texto com um tom meigo, próprio da personalidade dos dois animais.

O resultato é uma daquelas histórias raras, que podem ser lidas tanto por adultos quanto por crianças. E com forte chance de encantar a ambos.

Esta coletânea foi lançada nos Estados Unidos em 1996. As tiras foram criadas dois anos antes. Têm sido publicadas desde então, tanto nos jornais como em álbuns.

A série chega com atraso ao Brasil. É de esperar que a Devir lance outros volumes, a exemplo do fez na filial portuguesa. Ótimo. A tira é das melhores. Que venha mais.

                                                           ***

Este é o segundo álbum de tiras norte-americanas lançado neste ano pela Devir.

A editora paulistana publicou em janeiro uma coletânea de "Baby Blues".

Leia mais aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h26
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28.03.09

Mad completa um ano com mais espaço para quadrinho nacional

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

12º número da revista, à venda nas bancas, satiriza o programa "Big Brother Brasil"

 

 

 

 

 

 

 


Uma festa na tarde deste sábado, em São Paulo, marca o primeiro ano de publicação da "Mad". E há o que comemorar. A revista de humor está melhor do que a lida em 2008.

O diferencial é que o título tem ampliado, mês a mês, o espaço ao quadrinho nacional.

Este 12º número (Panini, 48 págs., R$ 6,50), já apresenta mais material brasileiro do que estadunidense. O processo de nacionalização ajudou a reinventar a revista.

E obteve um resultado curioso. Apesar de ser estrangeira, a "Mad" se tornou a principal publicação de humor adulto brasileira disponível nas bancas.

                                                           ***

O novo rumo editorial começou a ser consolidado ainda no ano passado, após a saída de Ota. O editor havia integrado todas as versões anteriores da publicação no Brasil.

Não se desmerece o trabalho de Ota. Muito pelo contrário. Mas a troca ajudou a dar novo ânimo ao título. Raphael Fernandes passou a coordenar toda a edição.

Se a revista, hoje, é melhor do que as primeiras edições, o mérito é dele.

Fernandes disparou convites a jovens desenhistas e a antigos colaboradores, que há anos não publicavam trabalhos de humor em papel. Caso de Marcatti, para ficar num exemplo.

                                                            ***

Essa mescla de gerações deu novo ritmo à obra e a tornou mais interessante ao leitor nacional. Há mais identificação temática e estilística com o que se vê nas páginas.

Duas tiradas deste número reforçam isso. Uma das piadas, feita por Marcio Baraldi, brinca com o 1º de abril, nosso tradicional Dia da Mentira.

Outro caso é uma história de quatro páginas - escrita por Gian Danton e desenhada por Raphael Salimena - que ironiza o "Big Brother Brasil", com direito até a Pedro Bial.

O contrato com a editora norte-americana DC Comics exige conteúdo estrangeiro. Pena. A nacionalização fez bem à revista. O ideal seria se tornar ainda mais brasileira.

                                                           ***

Serviço - Festa de um ano da revista "Mad". Quando: hoje (28.03). Horário: a partir das 15h. Onde: HQMix Livraria. Endereço: praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo. Quanto: a revista custa R$ 6,50.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h48
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27.03.09

L&PM perde chance de relançar Garfield em ordem cronológica

 

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Livro - lançado neste mês - traz 2.582 tiras do personagem; 
material é reedição dos livros de bolso da editora gaúcha 

 

 

 

 

 

 


Uma das funções do jornalismo é fazer uma leitura crítica da notícia. No caso dos quadrinhos, isso inclui ter sempre dois pés atrás ao que as editoras informam.

Os textos de divulgação - como devem ser - omitem os pontos negativos das obras. É o caso de "Garfield - Série Ouro", que começou a ser vendido neste mês.

A L&PM, editora do livro, dá destaque aos superlativos da publicação: são 2.582 tiras distribuídas em 624 páginas. O preço também é superlativo, registre-se: R$ 85.

O que a editora gaúcha não informa ao leitor é que as mais de 2.500 tiras já foram publicadas pela mesma L&PM na forma de livros de bolso, linha conhecida como "pocket".

                                                          ***

Do ponto de vista do comprador, essa informação é bastante relevante. Se ele já tinha os dez livros de bolso da editora, vai desembolsar R$ 85 para comprar as mesmas tiras.

E vai ler na mesma ordem. A L&PM manteve a sequência vista nos pockets. Ou seja: as tiras do primeiro livro de bolso, publicado em janeiro de 2005, abrem o novo álbum.

Depois, vem o material do número dois. Em seguida, do três. Do quatro. Até chegar às tiras do volume dez, lançado em janeiro deste ano. A tradução também foi mantida.

Essa colagem de livros anteriores, sem nenhuma adaptação editorial, fez com que a editora gaúcha perdesse a chance de lançar a melhor coletânea de Garfield no Brasil.

                                                           ***

O motivo disso é que os "pockets" não seguiram a mesma ordem de publicação das tiras nos Estados Unidos. E, como se trata de "ctrl c", "ctrl v", o  mesmo ocorreu no novo livro.

As tiras que abrem a obra são de 1978, as primeiras feitas pelo norte-americano Jim Davis. Seguem até 1979. Depois, começa o vai-e-vem de anos.

De 1979, pula para 1993, como ocorreu no segundo livro de bolso. Depois, 1994. 1995. Novo pulo, agora de volta para o passado: 1979. 1980. Salto para 1983 e 1984.

Além de perder a oportunidade de fazer uma compilação cronológica, a editora não usou material de determinados anos, como 1981 e 1982.

                                                           ***

"Garfield - Série Ouro" é, sim, uma obra superlativa, possivelmente a mais ousada que a L&PM lançou desde a década de 1970, quando começou a publicar quadrinhos.

O tamanho maior, com mais de 600 páginas, revela que a editora já fez caixa suficiente com as centenas de "pockets" para voltar a investir em álbuns com outros formatos.

Mas, desta vez, faltou transparência à empresa gaúcha. Ela não informa ao leitor que se trata de reedições dos livros de bolso e também demonstra  falta de cuidado editorial.

Pôr as tiras em ordem cronológica não mudaria em nada o custo da edição. E tornaria o produto um livro superlativo absoluto sintético. Aí, sim, justificaria o "ouro" do título.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h12
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24.03.09

Desenhista argentino lança no Brasil álbum de Gaturro

 

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Álbum, lançado no Brasil por editora argentina, traz 89 histórias de humor do personagem

 

 

 

 

 

 


A passagem do argentino Nik por São Paulo é para integrar a semana em homenagem a Ziraldo. O evento teve início na segunda-feira e vai até o fim da semana.

A programação previa Nik em uma mesa-redonda na noite desta terça e uma oficina na quarta. E, nas duas ocasiões, lançamentos de um álbum de sua mais famosa criação.

"Gaturro Grandão" (Catapulta, 96 págs., R$ 39,90) traz 89 histórias humorísticas do personagem. Cada uma ocupa uma página, como sai no "La Nacion" aos domingos.

Nos demais dias da semana, o jornal portenho publica o gato bagunceiro no formato equivalente ao de duas tiras. Essas histórias foram compiladas em mais de um álbum.

                                                          ***

Nik - forma como assina Cristian Dzwonik - ocupa um espaço privilegiado no "La Nacion". Maior até do que Liniers e suas tiras de "Macanudo", outro sucesso do jornal.

Além de Gaturro, o argentino, de 37 anos, produz também charges. E uma seção chamada "la foto que habla". Ele usa uma fotografia e acrescenta balões de fala, irônicos.

Em geral, o alvo das "fotos que falam" são os políticos do país vizinho.

Nik é muito melhor chargista do que tirista. Tanto que Gaturro - personagem muito popular na Argentina - surgiu nas charges.

                                                            ***

Nik estreou no jornal jovem, aos 21 anos. Suas charges pegaram em cheio a passagem de Carlos Menem na presidência. O político ficou no cargo de 1989 a 1999.

Logo que tomou posse, o ex-presidente tinha um generoso penteado. O topete escuro era o que sobressaía. O desenhista viu no cabelo a figura de um gato.

O animal começou a frequentar as charges. O cabelo de Menem era mostrado com dois olhos, às vezes com um rabo. Depois, o gato ganhou forma e acompanhava o político.

Por fim, ganhou o formato e as grossas bochechas de Gaturro, que passou a ter falas ou pensamentos nas charges. Não demorou para ganhar espaço fixo nas tiras.

                                                            ***

Nas tiras cômicas, Nik teve de definir uma vida própria para o gato. O resultado ficou um pouco com o personagem Garfield, de Jim Davis. Mas com diferenças na personalidade.

Assim como Garfield, Gaturro vive numa casa com humanos. Divide o espaço com uma família. Mas, diferentemente da criação norte-americana, não é nada passivo.

Pelo contrário. Gaturro peca por ser hiper-ativo, sempre aprontando alguma, dentro ou fora de casa. E é romântico. Morre de amores por Ágata. Mas não é correspondido.

As situações giram em torno desses temas. E apresentam um humor mais voltado para o público infantil, leitor a quem se dirigem preferencialmente as tiras.

                                                           ***

"Gaturro Grandão" é a terceira obra do personagem a sair no Brasil. No ano passado, a V&R publicou dois livros de tiras. A editora diz que outro está planejado para o meio do ano.

Este novo álbum é lançado pela editora Catapulta, que tem sede na Argentina. É a primeira experiência do grupo com quadrinhos traduzidos para o português.

É possível que, se este projeto-piloto vingar, outros trabalhos argentinos migrem para cá. Por enquanto, pelo menos, Gaturro não goza de tanta popularidade por aqui.

Pena que será difícil ler as charges de Nik em versão nacional. Como é próprio do gênero, o humor está atrelado ao noticiário político argentino, o que dificulta a compreensão.

                                                            ***

Nota: é possível ler na internet a trajetória de 15 anos de humor político de Nik.

O material está disponível neste link. Está em castelhano, é justo avisar.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h39
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20.03.09

 
O Spirit dos cinemas

 

Crédito: site The Spirit - O Filme 

 

Um exercício rápido de imaginação. Suponhamos que o quadrinista Frank Miller tivesse carta branca para repaginar o herói Spirit, criado em 1940 por Will Eisner (1917-2005).

Como se trata de imaginação, podemos ir aos extremos. Miller (im)poria seu estilo narrativo ao personagem mascarado. Aplicaria um visual noir, escuro, tal qual fez com "Sin City".

Não deixaria de pontuar a história com pensamentos introspectivos do personagem-título.

Algo como "Tenho de superar os obstáculos. Esta é a minha cidade... e eu sou seu herói".

                                                           ***

A importância da cidade para o protagonista, aliás, não poderia faltar.

É o que o desenhista norte-americano fez em "Sin City" - a cidade do pecado, uma vez mais - e na minissérie "O Cavaleiro das Trevas", dois de seus trabalhos mais lembrados.

Fim do exercício de imaginação. De volta à realidade.

Por mais caricata que seja a descrição acima, é exatamente isso o que Miller fez na adaptação do personagem para o cinema, que estreou nesta sexta-feira no Brasil.

                                                           ***

Frank Miller dirigiu e escreveu o longa. E, pelo que se viu na tela, teve total liberdade de criação. Deu-se até ao luxo de fazer uma ponta. É um policial que perde a cabeça (literalmente).

Que fique bem claro: não se trata de objetar uma recriação de um personagem dos quadrinhos ou da exigência de uma adaptação fiel dele para a tela grande.

Se houvesse mudanças e elas rendessem uma boa história, as alterações seriam mais do que justificadas. "Homem de Ferro", exibido em 2008, é um bom exemplo disso.

Mas, infelizmente, não é o caso de Miller neste seu primeiro trabalho solo no cinema. 

                                                           ***

A história não se encontra. Tenta sem caricata, mas não é. Quando parece ser, torna-se intimista. E, quando se acha que é intimista, volta a ser caricata.

Spirit - ao contrário dos quadrinhos - tem dons de cura, como o mutante Wolverine, da editora Marvel Comics, outro levado para os cinemas.

O fator de cura o aproxima constantemente da morte. Tanto que, a cada nova luta, ele vê a imagem de uma pirotécnica Morte. "Você está mais perto de mim", diz ela.

Spirit demonstra uma obsessão em encontrar e enfrentar o vilão Octopus. A fixação é porque o bandido saberia os motivos de o herói mascarado ter tais poderes.

                                                           ***

A história toda, registre-se, é carregada dos mesmos efeitos especiais utilizados na adaptação de "Sin City", de 2005, filme co-dirigido por Miller e Robert Rodriguez.

Há vários cromaquis, tons de cor compondo o cenário, mescla de efeitos e imagem.

E as sensuais beldades - Eva Mendes, Paz Vega, Scarlett Johanson - perdidas nisso tudo.

O mais curioso de tudo isso é que o resultado visto na tela contradiz a trajetória de Miller.

                                                           ***

Reza a lenda de que Miller só foi convecido a adaptar "Sin City" no cinema após o diretor Robert Rodriguez apresentar, na tela de um laptop, o visual de como o filme ficaria.

A sequência mostrava efeitos especiais que reproduziriam, fielmente, os desenhos de Miller. Foi a fidelidade, temática e estilística, que o teria seduzido a dizer sim.

Situação invertida, agora é Miller o diretor. Ele ignorou o que o havia convencido antes nessa adaptação de Spirit. Recriou o herói à sua imagem e semelhança. E ficou um desastre.

E, pena, Eisner não está mais vivo para dizer ao amigo que os contos em quadrinhos que produzia na década de 1940 estão longe, muito longe, do que Miller fez. Ou tentou fazer.

                                                           ***

Leia na postagem abaixo a trajetória de Spirit nos quadrinhos.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h48
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19.03.09

O Spirit dos quadrinhos

 

Crédito: reprodução

 

A partir desta semana, o cinema vai levar Spirit a um rol enorme de pessoas que nunca ouviram falar do personagem mascarado.

Isso vai levar a um comportamento semelhante ao visto em outras adaptações para a tela grande. Criam-se dois Spirits: um em forma de filme, outro em quadrinhos.

Para a grande massa, que até então ignorava a existência do herói, a que versão que irá valer será a cinematográfica.

Para quem já leu as histórias impressas, a referência serão os comics norte-americanos.

                                                           ***

"Spirit - O Filme" estreia nesta sexta-feira. A se pautar pelo trailer, a caracterização visual tem um ar noir, carregado de cromaquis, repetindo "Sin City", longa de 2005.

O déjà-vu tem razão de ser. "Sin City" foi co-dirigido pelo criador da série em quadrinhos, Frank Miller. É o mesmo Miller que está à frente desta adaptação de Spirit.

O filme tem de ser visto para, só então, ser emitido um juízo sobre ele. É o difícil método do crítico: só opinar sobre a obra após dar a ela a chance de ser apreciada.

Até lá, não custa recuperar o Spirit original, o dos quadrinhos, até para dar a oportunidade ao grande público, que ora passa a ter acesso ao herói, de conhecê-lo melhor. 

                                                            ***

A primeira história de Spirit foi publicada nos Estados Unidos em 2 de junho de 1940. Saiu num suplemento dominical, distribuído a jornais de todo o país. 

O caderno tinha 16 páginas. Trazia três histórias em quadrinhos completas. Spirit era o carro-chefe. Cada aventura dele era contada em sete páginas.

Will Eisner (1917-2005) foi convidado a tocar o projeto. Criaria a história principal e editaria as demais. Foi assim que imaginou Spirit.

O resultado foi um herói mascarado, sem poderes, que lutava contra o crime.

                                                           ***

A história de estreia mostrava como o detetive Denny Colt se tornou o espírito, nome usado em algumas das aventuras dele publicada no Brasil.

O vilão da vez era o Dr. Cobra. O cientista era procurado pela polícia. Colt descobre onde está escondido. Quando tenta capturá-lo, é atacado e dispara contra um enorme frasco.

O tiro libera um líquido, que atinge o detetive. Imediatamente, entra em estado de animação suspensa. Dado como morto, é enterrado no cemitério Wildwood, em Central City.

Danny Colt, surpreendentemente, acorda, foge do túmulo e captura Cobra. Prefere que todos pensem que está morto e adota a persona de Spirit e passa a ajudar a polícia.

 

Crédito: reprodução Crédito: reprodução

 

Poucas pessoas sabem a identidade de Colt. Duas delas: o Comissário Dolan, da polícia, que o vê como filho, e Ébano Branco, jovem e ingênuo parceiro do herói.

Na primeira história, Spirit não usava máscara. O pano sobre os olhos surgiu por conta da popularidade dos super-heróis. O gênero havia surgido dois anos antes, com Super-Homem.

A máscara, segundo Eisner, foi uma exigência de quem bancava o suplemento dominical.

"A máscara era um pouco boba, tanto eu como o 'Spirit' nos sentíamos inseguros, mais isto impediria o desenrolar da história e eu deixei ficar assim", disse o quadrinhista.

                                                           ***

A imposição da máscara não foi a única mudança nas histórias seguintes. Aos poucos, Eisner dividiu o espaço dado ao herói com outros personagens.

Eram figuras secundárias, algumas criadas apenas para aquela narrativa, mas que alcançavam status de protagonistas. Pelo menos naquela trama.

O desenhista começou a fazer contos nas sete páginas de que dispunha. Foi - hoje se vê - um ensaio do que consolidaria no fim da década de 1970 com as graphic novels.

O formato das graphic novels era a forma que Eisner encontrou para produzir histórias em quadrinhos autônomas, adultas,  como se fossem romances.

                                                           ***

Graphic novels, na verdade, foi o nome que os norte-americanos popularizaram para o que a Europa e a Argentina já faziam anos antes na forma de álbuns.

Mas o nome colou e Eisner ajudou a abrir um caminho até hoje explorado pelo mercado editorial estadunidense. Ele mesmo criou vários trabalhos assim, bastante autorais.

Spirit foi publicado na década de 1940 e no começo da seguinte. Eisner deixou o personagem para se dedicar a outras tarefas empresariais. Mas a marca ficou.

Ficaram também as inovações. Temáticas, de uso da linguagem, de construção narrativa.

 

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No Brasil, Spirit fou publicado por muito tempo na revista "Gibi", publicada pelo grupo "O Globo", de Roberto Marinho (1904-2003).

A publicação - que completa 70 anos agora em 2009 - teve o herói mascarado nas duas fases da revista. "Duas" porque a revista voltou a ser editada em 1974.

Nas bancas, houve também algumas edições especiais, lançadas pela Rio-Gráfica Editora. E outras iniciativas, todas de curta duração.

A NG Editorial lançou entre 1987 e 1988 seis números de uma revista homônima.

                                                           ***

A Abril publicou outra revista mensal entre junho de 1990 e setembro de 1991. Foi cancelada no número 16. Em nota, a Abril disse que a revista voltaria reformulada.

Voltou. Mas não pela Abril, mas, sim, pela Metal Pesado/Tudo em Quadrinhos. Foi uma edição única, intitulada "Will Eisner´s Spirit Magazine", lançada em 1997.

Outra tentativa ocorreu numa parceria entre as editoras Acme e Devir. A nova revista foi lançada entre 1999 e 2000. Teve oito números.

Paralelamente às bancas, a L&PM lançou em livrarias cinco álbuns do personagem. O primeiro saiu em 1985 - teve pelo menos quatro edições - e o último, em 1991.

                                                          ***

A pessoa que vir Spirit no cinema e se interessar pelo personagem vai encontrar várias graphic novels de Will Eisner. Mas não Spirit.

No máximo, pode encontrar algum álbum perdido da L&PM, material hoje esgotado. Ou álbuns de luxo do personagem, importantes, publicados em inglês.

O Spirit descrito acima não dá as caras por aqui há um bom tempo.

Nas bancas, há um encadernado da Panini com novas aventuras do personagem, feitas por outros quadrinistas. Não se engane. Não é o mesmo Spirit. Prefira os sebos.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h26
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18.03.09

Salon põe pintores famosos em aventura surreal

 

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Protagonistas da história são pintores como Picasso, Braque e Matisse 

 

 

 


Há um ar de "As Aventuras da Liga Extraordinária" no álbum "Salon", que começou a ser vendido no fim de fevereiro (Desiderata, 192 págs., R$ 39,90). 

A semelhança com a obra de Alan Moore está no uso de figuras conhecidas na mesma trama. Moore se apropriou dos protagonistas da literatura fantástica inglesa.

O norte-americano Nick Bertozzi foi ainda mais ousado: pôs na narrativa pintores reais.

A história é conduzida por Georges Braque (1882-1963), Pablo Picasso (1881-1973), Henri Matisse (1869-1954), entre outros.

                                                           ***

O ponto de partida de Bertozzi possivelmente foi o livro "Autobiografia de Alice B. Toklas", escrito por Gertrude Stein (1874-1946), outra das personagens do álbum.

Stein mostrava nas páginas da obra que a Paris do começo do século 20 funcionava como um epicentro de artistas talentosos, vindos de diferentes partes.

Nascida nos Estados Unidos, ela é também um exemplo disso ao optar por viver na capital francesa. Foi onde conheceu Alice B. Toklas, com quem viveu um quarto de século.

A escritora mantinha na vida real um círculo de amizades com nomes hoje importantes da área cultural. São esses contatos que o quadrinista reproduz na narrativa surreal.

                                                           ***

O grupo de artistas tinha Paris como cenário e a residência de Stein como ponto de encontro. O ano é 1907, data do contato real entre Braque e Picasso, criadores do cubismo.

A sacada de Bertozzi foi imaginar um enredo ficcional para essa convivência real. Na trama, os pintores e escritores dividem um segredo e um medo, um consequência do outro.

O segredo: compartilhavam um absinto que permitia migrarem para qualquer tela. Após beberem o líquido azul, viam-se ao lado dos personagens e dos cenários pintados.

O medo: uma mulher azul, possivelmente vinda de uma das telas, começa a assassinar pessoas nas ruas de Paris. O receio é que ela mate os artistas também.

                                                           ***

É esse o mote central da trama. Mas o sabor do texto está nos detalhes. Há inúmeras referências. É saboroso ver Picasso lendo tiras de "Os Sobrinhos do Capitão".

A cor também é explorada à exaustão. Cada uma das páginas mescla o preto e o branco com outras duas cores. Isso dá novo ritmo à leitura e à visualização da história.

A cor tem papel fundamental na narrativa por outro motivo: há predomínio do azul quando os personagens estão dentro da tela, sob o efeito do absinto.

É o azul quem avisa o leitor sobre a presença dos efeitos do líquido.

                                                           ***

"Salon" tem um quê de recomeço para a Desiderata. A editora carioca tinha direcionado seu catálogo, até agora, a obras nacionais.

O álbum é o primeiro lançamento estrangeiro. Também inaugura uma nova fase editorial, que corta o cortão umbilical que ainda havia com Sandro Lobo. 

O ex-editor, que se desligou da empresa no meio do ano passado, havia deixado alguns trabalhos encaminhados.

Um deles, "Copacabana", é assinado pelo próprio Lobo e deve ser lançado, segundo a editora, até meados de abril. 

                                                           ***

A Desiderata - um dos selos editoriais da Ediouro - diz que vai manter as obras nacionais e que a próxima é um álbum de André Dahmer, criador das tiras da série "Malvados". 

E haveria outros em vista.

A se pautar por "Salon", o recomeço tem sido feliz na seleção do material a ser publicado.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h26
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12.03.09

Valsa com Bashir atrai atenção dos não-leitores de quadrinhos

 

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Versão em quadrinhos do longa-metragem indicado ao Oscar começou a ser vendida neste mês no Brasil 

 

 

 

 

 

 

 


O álbum "Valsa com Bashir" - que começou a ser vendido neste mês (L&PM,  118 págs., R$ 46) - integra estabelece um duplo diálogo, um consequência do outro.

O primeiro diálogo é com o cinema. A animação israelense venceu neste ano o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e concorreu na mesma categoria no Oscar.

A premiação e a indicação ajudaram a atrair olhares para a produção, até então desconhecida. Essa é a segunda interlocução, com a pessoa interessada no filme.

É aí que está o dado curioso da obra. E que põe os quadrinhos em evidência a quem tradicionalmente não lê histórias da chamada arte sequencial.

                                                            ***

O cinéfilo ou o interessado pelo longa descobre que a animação ainda não estreou no Brasil. Teve exibição apenas na mostra de cinema de São Paulo do ano passado.

Essa mesma pessoa encontra, então, a versão em quadrinhos do filme. Mais: escrita pelo roteirista e diretor Ari Folman e desenhada pelo diretor de arte, David Polonsky.

Em vez de um livro, há a versão em quadrinhos.

O mesmo ocorreu em janeiro com o filme "O Curioso Caso de Banjamin Button", indicado a vários Oscar.

                                                          ***

O espectador interessado na adaptação do conto de F. Scott Fitzgerald (1896-1940) não encontrou a narrativa nas livrarias. O livro com o conto ainda não havia sido lançado.

O que havia era a versão em quadrinhos, diferente do filme, próxima da história escrita pelo autor norte-americano. A edição nacional foi lançada pela Ediouro.

E a editora carioca soube explorar esse novo leitor, que tradicionalmente não acompanha quadrinhos. Pôs um papel em torno da capa com a frase "o livro que inspirou o filme".

Na verdade, não é bem isso. É uma adaptação do conto que, aí sim, inspirou o longa-metragem. Mas, na prática, levou o leitor a manter contato com um álbum em quadrinhos. 

                                                            ***

Puxando o novelo temporal um pouco mais, viu-se o mesmo com "Persépolis".

A animação também havia sido indicada ao Oscar de 2008. Não venceu, mas a Companhia das Letras capitalizou com uma reedição em volume único das quatro partes da história.

"Valsa com Bashir" segue essa linha de diálogo com quem normalmente não acompanha quadrinhos e que só vai ver a estreia da produção em abril.

E o que o álbum mostra vai convencer esse público de que "não é apenas coisa de criança".

                                                            ***

A trama é autobiográfica. Ari Folman procura entrevistar pessoas que, como ele, participaram a invasão israelense ao Líbano em 1982.

O roteirista e diretor não consegue relembrar especificamente o momento mais marcante do conflito, o massacre de Sabra e Shatila.

Refugiados protegidos por Israel foram assassinados. Estima-se a morte de 3.500 pessoas. Com base no que ouve, Folman vai rememorando.

E, nas duas páginas finais, reproduz com fotos o que estava escondido em sua mente. É de calar o leitor, quer acompanhe quadrinhos, quer não.

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A publicidade em torno da obra tenta pôr "Valsa com Bashir" no mesmo patamar de "Maus", de Art Spiegelman, outro álbum em quadrinhos que aborda os reflexos da guerra de forma biográfica (no caso, trata-se da Segunda Guerra Mundial).

A questão não é essa, se é melhor ou pior. Pelas características próximas e pela temática, o trabalho de Folman e Polonsky figura naturalmente na mesma estante de "Maus".

O ponto é a qualidade da história, feliz na mescla das lembranças pessoais com depoimentos em forma de documentário. É nisso que mais se aproxima de "Maus".

A valsa em quadrinhos ocupa a mesma pista de dança das obras que dialogam com o real e com as pessoas que normalmente não seriam chamadas para acompanhar a dança. 

Escrito por PAULO RAMOS às 20h33
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11.03.09

Watchmen funciona muito melhor nos quadrinhos do que no cinema

 

Crédito: UOL Cinema

 

Passado o furacão publicitário em torno da estreia de "Watchmen - O Filme", pode-se observar com maior nitidez a adaptação da minissérie norte-americana para a tela grande.

Indo direto ao ponto: o longa-metragem não funciona tão bem no cinema quanto nos quadrinhos. O mais curioso é que não foi por falta de fidelidade ao original.

O filme do diretor Zack Snyder - o mesmo de "300 de Esparta" - se atém à essência da trama e reproduz com precisão o visual dos heróis, como mostra a foto acima.

O espectador vê ângulos narrativos e posições corporais quase idênticas às feitas no papel pelo desenhista Dave Gibbons. Mas faltou um detalhe importantíssimo: Alan Moore.

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O filme transpõe para a tela o visual de Gibbons, e não o estilo narrativo desenvolvido pelo polêmico escritor britânico, que ganhou fama no mercado norte-americano de quadrinhos.

Não é por acaso que apenas Gibbons é creditado no início do longa-metragem. Moore, que já processou a editora DC Comics por direitos autorais, fica à margem do processo.

A ideia central da história criada por ele é mantida. Um herói é brutalmente assassinado. Os demais passam a sentir os reflexos disso, direta ou indiretamente.

O mais obstinado em encontrar o culpado é o enigmático e violento Rorschach, que vê no crime a ponta de um emaranhado novelo. O fio leva ao fantasma do conflito nuclear.

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Nos quadrinhos, Moore viu a oportunidade de criar uma história do zero, sem as amarras dos prazos de uma revista mensal. Foi algo que já tinha feito em "Monstro do Pântano".

Foi assim que surgiu "Watchmen", minissérie publicada pela primeira vez entre 1986 e 1987, em doze edições mensais .

A oportunidade se tornou um exercício de narrativa, impregnado de um estilo próprio.

Closes se abriam lentamente, quadrinhos apresentavam simetria, a cor passava informação, havia uma constante coesão visual entre os cortes de quadros.

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Os recursos narrativos se articulavam com uma eficiente construção dos perfis de cada um dos personagens. Mesmo os secundários tinham papel relevante. 

Pouco disso foi mantido na versão para o cinema. A composição do ethos dos heróis foi reproduzida de maneira pouco crível e, por isso, também pouco verossímil.  

Outra perda foi a opção de deixar de lado as narrativas paralelas. A metáfórica história de "Os Contos do Cargueiro Negro" foram vertidos numa animação para DVD.

Os diálogos entre o jornaleiro e o leitor não foram usados. A construção da relação de confiança de Rorschach no jornal "New Frontiesman" inexiste. Há parca menção ao final.

                                                            ***

O tema da clonagem - tão familiar aos leitores de ficção científica - é uma boa metáfora para explicar o que ocorreu com "Watchmen" no cinema.

Produziu-se um clone semelhante em quase tudo à sua contraparte em quadrinhos.

Mas faltou a alma do novo ser cinematográfico. E a alma atende pelo nome de Alan Moore.

Entre assistir ao filme e (re)ler a obra original, (re)leia a obra original.

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Mas a ida da minissérie à tela grande teve frutos em outro campo. Instigou uma reedição da obra, lançada no Brasil na sexta-feira passada, mesmo dia da estreia nos cinemas.

A edição de luxo da Panini, feita em capa dura, é a melhor que a série teve no Brasil, apesar de cara (R$ 120). Apresenta nova colorização e material extra. 

A editora produziu também uma segunda versão, com capa cartonada, em dois volumes. Somados, saem pela metade do preço do álbum de luxo. Cada um sai por R$ 28,90.

O primeiro está à venda nas bancas e lojas de quadrinhos. Traz as seis partes iniciais.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h26
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05.03.09

Pieces mostra microcontos sobre o relacionamento humano

 

Crédito: site de Mario Cau

 

 

 

 

 

 

 

Capa da edição de estreia de "Pieces", revista de Mario Cau que tem lançamento nesta sexta-feira em São Paulo

 

 

 

 

 

 

 

"Pieces" é o nome dado pelo desenhista Mario Cau aos quadrinhos que faz. Como o rótulo sinaliza, são relatos curtos de fragmentos do relacionamento humano.

Dez "pieces" narrativos foram reunidos numa revista homônima, que tem lançamento nesta sexta-feira à noite, em São Paulo.

As histórias deste primeiro número - ligado ao selo independente Quarto Mundo - não têm personagem fixo. Na verdade, pouco se sabe deles.

O enfoque central é o momento de vida deles, representado curtas narrativas das 36 páginas da edição. Algumas têm apenas uma página.

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O molde narrativo, segundo o autor, surgiu na época de faculdade. Cau cursou Artes Plásticas na Unicamp, Universidade Estadual de Campinas, cidade paulista onde nasceu.

O autor diz, na introdução da obra, que percebeu que as histórias que queria contar não eram as que produzia. ´Foi assim que surgiu a ideia de "Pieces".

"Com histórias que não têm um começo ou fim definidos - ou definitivos - convida a uma reflexão sobre o relacionamento entre as pessoas... ou a falta dele", diz na introdução.

O quadrinista mantém outras narrativas de "Pieces" na internet (podem ser lidas aqui). Há 13 disponíveis para leitura. Estas dez, no entanto, são mostradas pela primeira vez.

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"Pieces" não é a primeira experiência de Mario Cau com os quadrinhos. Ele participou de coletâneas da "Front", da Via Lettera, e da independente "Café Espacial".

Colaborou ainda com a revista "Nanquim Descartável", também independente e outra ligada ao Quarto Mundo.

Mas esses pedaços da vida humana em forma de quadrinhos são seu trabalho mais autoral. E criativo. Ele sabe contar a história e explorar a linguagem em que a narra.

Cau faz de "Pieces" um rótulo para abrigar suas narrativas, assim como fazem Gabriel Bá e Fábio Moon com o selo "Dez Pãezinhos".

E, como Bá e Moon, mostra-se um bom contador de histórias. "Pieces" começa bem.

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Serviço - Lançamento de "Pieces", de Mario Cau. Quando: sexta-feira (06.03). Horário: a partir das 19h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo. Na mesma data, local e horário, vai haver lançamento paulista do álbum independente "A Comadre do Zé", de Luciano Irrthum.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h31
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