28.04.09

Presença de Robin humaniza Batman em histórias de 1940

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Primeiras parcerias da dupla de heróis são relançadas em álbum, que começa a ser vendido neste fim de mês

 

 

 

 

 

 

 

 


Havia um quê do perfil sombrio do Batman de hoje nas primeiras histórias do homem-morcego, de 1939. Mas, no ano seguinte, ele já começava a perder esse ar misterioso.

O motivo foi a criação de Robin, seu parceiro-mirim. A transição do ethos do personagem fica mais evidente quando se leem as aventuras em sequência.

Isso pode ser comprovado no segundo volume de "Batman Crônicas", álbum de luxo que começa a ser comercializado neste fim de mês (Panini, 228 págs., R$ 54).

Em lojas especializadas em quadrinhos de São Paulo, a obra já está à venda.

                                                           ***

A mudança do modo de agir de Batman já podia ser percebida no volume anterior, lançado em outubro de 2007. O álbum terminava com a estreia de Robin, o menino-prodígio.

Até então, prevalecia o silêncio e a frieza com que o herói enfrentava o crime.

Numa das aventuras, ele dizia que o vilão, após ter caído num tanque de ácido, tivera um fim perfeito para a laia dele.

A presença de Robin, nas tramas seguintes, começou a exercer um efeito humanizante no personagem-título, criado por Bob Kane.

                                                           ***

Há dois bons sinais dessa transição de composição do herói. Um é observar o texto de abertura das histórias que iniciam este segundo álbum, com material de 1940.

Na primeira aventura, de maio daquele ano, Batman é apresentado ao leitor como uma "intrépida figura sombria". Nas duas tramas seguintes, o adjetivo muda para "poderoso".

Seguiu-se um destemido no início de outra história. Até que fosse apresentada somente como Batman, acompanhado de seu parceiro Robin. Sem adjetivos.

O lado sombrio se tornava paulatinamente iluminado. E, com a luz, vinha o bom humor, expresso no rosto sorridente dele.

                                                          ***

Nas histórias de estreia de Batman, imperava o silêncio. Nas lutas, ele pouco conversava.

Já nas aventuras compiladas neste segundo número de "Batman Crônicas", ele dialoga com os vilões, enaltecendo seus feitos.

"Este é o fim da linha para vocês! Feliz Aterrissagem!", diz o herói após chutar dois capangas para fora de um trem.

E se diverte sozinho também. Em outro trecho, de outra aventura, grita um "Iupii! Não faço isso desde que era criança!" ao escorregar por corrimão.

                                                           ***

Há um inegável valor histórico nessas histórias. São os primórdios de um dos personagens dos quadrinhos mais populares no mundo.

Há muita ingenuidade nas aventuras, extraídas das revistas "Detective Comics", "Batman" e "New York World´s Fair Comics", lançadas entre maio e novembro de 1940. 

Pode-se observar que é o início da trajetória da composição do personagem, que culminaria, décadas depois, na forma como foi levado para a TV em seriado próprio.

A versão interpretada por Adam West foi combatida nos quadrinhos nos anos seguintes. Buscou-se, de novo, o lado sombrio de 1939. É o perfil que tem predominado desde então.

Escrito por PAULO RAMOS às 00h37
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27.04.09

Aqui jaz - de novo - a linha Vertigo no Brasil

Lamentamos informar o falecimento da mais recente tentativa de publicar a linha Vertigo no Brasil.

A editora Pixel, que pertence à carioca Ediouro, confirmou com atraso que não vai mais lançar revistas do selo adulto da norte-americana DC Comics, de Batman e Super-Homem.

A informação da morte veio a público nesta segunda-feira. O atestado de óbito foi divulgado pelo jornalista Sidney Gusman, do site "Universo HQ".

Ele ouviu diretamente do responsável pelo caso, Luiz Fernando Pedroso, diretor-geral da Ediouro, a confirmação sobre a falência múltipla.

                                                           ***

Pedroso diz na reportagem que a cirurgia na paciente não obteve sucesso. "A operação dava um prejuízo razoável", relatou ele, que acompanha a falecida há mais de três anos.

Ele disse também que os danos atingiram outros órgãos. A crise econômica afetou a desvalorização cambial e aumentou a taxa do organismo a ser paga.

"Como a editora não demonstrou interesse, chegou-se a um acordo e o contrato foi cancelado."

O contágio da doença terminal atingiu também dois outros pacientes adultos da DC, ambos lançados pela Pixel: as linhas ABC, de Alan Moore, e Wildstorm.

                                                           ***

A Pixel apresenta problemas de saúde desde dezembro do ano passado. Foi quando tornou público um enigmático câncer, que impedia a reprodução das células impressas.

A última - chamada "Fábulas Pixel" - foi gerada em janeiro deste ano. Depois dela, nada.

Embora os responsáveis pelo caso tenham optado pelo silêncio, desconfiava-se que o quadro havia piorado. Um dos motivos eram sinais de confusão entre ficção e realidade.

No início do ano, pessoas que cuidam do relacionamento da Pixel na internet informaram, no site Orkut, que nada tinha mudado e que era apenas um mal-estar passageiro.

                                                          ***

Já nessa época, comprovou-se que se tratava de delírio, mitomania ou outro mal similar.

O selo editorial não era mais visto nas bancas e nas livrarias, lugares que costumava frequentar, em geral bem vestido. Tinha sumido nos dois meses anteriores.

Este blog vinha tentando saber, mês a mês, informações sobre melhoras ou pioras.

A última cobrança foi feita, sem sucesso, no início deste mês.

                                                           ***

A doença contraída pela Pixel não é rara e já acometeu muitas outras vítimas editorias na história deste país. Infelizmente, ainda não foi encontrada uma cura.

A própria Ediouro tem insistido num modo de vida que, revela-se agora, não é muito saudável.

Ela tem comido muitos selos editoriais, todos de uma vez. E está tendo dificuldade na digestão de todos.

Partes dos ingredientes nutritivos da Desiderata e da Agir, duas editoras deglutidas pela Ediouro, tiveram rejeição e foram eliminados por conta própria.  

                                                          ***

Os familiares mais próximos da Pixel defendem a tese de que ela não morreu e que ainda permanece viva na mente dos entes queridos. Por isso, o enterro ainda não foi marcado.

Colegas que conheceram os selos adultos da Vertigo não foram encontrados para serem informados sobre o falecimento.

Um dos motivos é que Sandman, Preacher, Y - O Último Homem, John Constantine, Ex-Machina e tantos outros profissionais já não dão as caras no Brasil há alguns meses.

Nem mesmo os personagens de Fábulas, ligados ao mundo da fantasia, foram encontrados. Se fossem, é possível que desejassem um final feliz.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h41
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17.04.09

Álbum com reedições de Samurai faz homenagem póstuma a Seto

 

Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

"Flores Manchadas de Sangue", nome da obra, começou a ser vendida nesta semana 

 

 

 

 

 

 

 

Era para ser uma homenagem em vida.

Claudio Seto selecionou as cinco histórias da edição, fez textos de apresentação para cada uma, reviu o material antes de ser impresso.

Mas o desenhista não viu a versão final, que começou a ser vendida neste final de semana em lojas de quadrinhos de São Paulo (Jacaranda / Devir; 128 págs., R$ 28).

O álbum com as histórias de samurai feitas por ele no Brasil há quase 40 anos transformou-se involuntariamente numa lembrança póstuma à memória do artista.

                                                          ***

Por isso, há duas leituras deste álbum em preto-e-branco. Uma são as histórias fictícias que ele traz. Outra são as histórias reais que a obra também apresenta.

As narrativas ficcionais reunidas em "Flores Manchadas de Sangue" foram produzidas entre 1970 e 1972. Todas foram publicadas em revista da extinta editora Edrel.

Foi pela editora que Seto estreou suas sagas de samurai, em 1968. As histórias ganharam título próprio, "O Samurai", embora não houvesse personagem fixo.

O escritor e desenhista se preocupava em narrar situações vividas por samurais. Cada conto em quadrinhos ajustava o foco em um deles.

                                                           ***

O motivo da escolha das histórias é justificado por Seto antes de cada uma delas. A de abertura, por exemplo, "O Sósia", é por ter definido o estilo de desenho das demais.

Mais do que expor motivos para a seleção, ele esmiúça como as espadas eram espiritualmente nomeadas e revela um profundo conhecimento sobre a cultura japonesa.

Essa bagagem de referências era transposta para as aventuras, algo que muito provavelmente passou despercebido de quem as leu quando foram lançados décadas atrás.

As histórias eram adultas, violentas, produzidas na forma do que hoje conhecemos como mangá, o quadrinho japonês. Era algo que destoava do que era produzido à época.

                                                           ***

Nesse ponto, destacam-se as histórias reais que o álbum traz.

Uma delas é Seto ter sido o pioneiro na produção de mangás no Brasil.

Embora as histórias se assemelhem muito às da série japonesa "Lobo Solitário", já lançada no Brasil, o samurai de Seto foi criado dois anos antes.

A associação de que teria copiado o trabalho de Kazuo Koike e Goseki Kojima seria uma das mágoas que o desenhista guardava. O álbum corrige isso, mesmo que postumamente.

                                                          ***

Há outras histórias, contadas por quem conviveu com Seto. O jornalista Franco de Rosa relata o espanto que teve ao ler na infância a violência nos quadrinhos da série.

O editor deste projeto, Toninho Mendes (o mesmo da revista "Chiclete com Banana"), descreve o primeiro encontro que teve com o desenhista para discutir a seleção.

O encontro foi na casa de Seto, em Curitiba, cidade que adotou como morada nas décadas finais de vida.

O texto de Mendes é tão saboroso quanto as histórias de bastidores de Seto.

                                                           ***

Diversos revezes levaram Claudio Seto a abandonar os quadrinhos nos anos 1980. 

Na última edição do HQMix, principal premiação de quadrinhos do país, seu samurai serviu de molde para o troféu entregue aos vencedores.

A cerimônia ocorreu no dia 23 de julho no teatro do Sesc, em São Paulo. Seto, no palco, emocionou-se. Foi a última homenagem que teve em vida.

A morte brusca em 15 de novembro, após tanta vitalidade, supreendeu a todos. Foi vítima de AVC, acidente vascular cerebral.

                                                          ***

A cerimônia do HQMix e este álbum trouxeram Seto de volta ao circuito dos quadrinhos.

A maioria não o conhecia. As revistas de samurai e suas outras publicações em quadrinhos são raras. Estão guardadas em coleções imprenetráveis ou nas memórias de poucos.

O desenhista produziu mangás no Brasil quando o gênero ainda era algo vago em todo o Ocidente. Hoje, o mercado tem nos quadrinhos japoneses um de seus pontos fortes.

Dizer que Seto estava na vanguarda ainda é pouco para fazer jus a seu trabalho. Era um visionário. Fez o que se lê hoje nos mangás com 40 anos de antecedência.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h55
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16.04.09

História de Cebolinha e Cascão brinca com intertextualidade

 

Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 


Cebolinha e Cascão são desenhados em diferentes personagens dos quadrinhos, como Calvin e Haroldo, Charlie Brown e Asterix

 

 

 

 

 

 



Há diferentes acepções para o termo "intertextualidade". Duas delas: 1) diálogo explícito com outros textos; 2) diálogo estilístico com trabalhos de outros criadores.

Existem essas duas visões na história de abertura da edição deste mês da revista "Cebolinha" (Panini, 68 págs., R$ 3,20).

A narrativa é vivida por Cebolinha e Cascão. Eles usam um lápis mágico para entrar em outras realidades dos quadrinhos e das animações. É aí que surge a intertextualidade.

A cada passagem, há um diálogo com outros personagens. Isso é percebido por meio do estilo do autor em questão, mostrado na forma como a dupla é desenhada.

                                                           ***

Logo na primeira transição, Cebolinha e Cascão são redesenhados à forma e semelhança de personagens da tira cômica Snoopy. Inclusive com a tradicional casinha do cão.

Novo salto e eles entram nas tiras de Calvin e Haroldo, mostrados no mesmo estilo do traço de Bill Watterson. E no dos Simpons. Dos Flintstones. De Asterix. De Luluzinha.

Em dado momento, a brincadeira é com eles próprios. Após uma das transições, adquirem o traço de como eram nas primeiras histórias desenhadas por Mauricio de Sousa.

Seria uma forma de auto-intertextualidade. Caberia ao leitor acionar o baú mental de referências, o que pode interessar mais às crianças de ontem do que às de hoje.

                                                           ***

A intertextualidade não é um recurso novo nas histórias criadas pelos Estúdios Mauricio de Sousa. É usada há décadas, em geral com bons resultados.

O mesmo pode ser dito da metalinguagem, vista desde as primeiras tiras feitas pelo desenhista e empresário. É muito usada como gancho para piadas.

Apesar de não ser novo, o instrumento pode render bem se usado com criatividade.

"A Fuga pelos Infinitos Gibis", nome dado à história intertextual, é um bom exemplo disso.

                                                           ***

Ainda sobre os personagens da Turma da Mônica, merece menção o lançamento do "Almanaque Piteco & Horácio", dois personagens que costumam atrair os leitores adultos.

Doze histórias das duas criações pré-históricas de Mauricio de Sousa foram relançadas na revista, programada para ser semestral (Panini, 76 págs., R$ 3,80).

Faz tempo que os dois personagens - Horácio em particular - não têm um tratamento tão diferenciado. É caso de aproveitar. Nova chance só daqui a seis meses.

Isso se a edição não atrasar, como ocorreu com este almanaque. O expediente traz data de março. A revista começou a ser vendida nesta semana.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h48
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15.04.09

Álbum faz diário de viagem em quadrinhos sobre Myanmar

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Capa da edição nacional de "Crônicas Birmanesas", que mostra passagem do desenhista Guy Delisle pelo país asiático 

 

 

 

 

 

 

 

Não é a primeira vez que este blog comenta que a realidade faz bem aos quadrinhos. O uso de fatos não ficcionais costuma gerar trabalhos acima da média.

Ou bem acima da média, como é caso de "Crônicas Birmanesas", à venda em livrarias e lojas especializadas em quadrinhos (Zarabatana, 272 págs., R$ 48).

O álbum mostra a passagem do autor, o desenhista e animador canadense Guy Delisle, por Myanmar, nome adotado pela Birmânia após 1989.

O resultado se aproxima do gênero dos diários de viagem, que relatam o passeio em primeira pessoa. Só que, neste caso, feito com a linguagem dos quadrinhos.

                                                            ***

Não é a primeira vez que Delisle faz isso. Ele usou o recurso em "Pyongyang - Uma Viagem à Coreia do Norte", lançado no Brasil em 2007, também pela Zarabatana.

Na ocasião, havia ido ao país para trabalhar com animação, área em que, por enquanto, deixou de atuar.

Nestas "Crônicas Birbanesas", o mote da viagem é outro. Ele vai acompanhar a esposa, Nadège, que vai a trabalho. O casal e o filho Louis ficam um ano em Myanmar.

Nedège atua na Médicos sem Fronteiras. A organização presta serviço a regiões pouco assistidas. Enquanto a esposa trabalha na entidade, ele cuida do filho e conhece o país.

                                                           ***

O álbum mostra as diferentes experiências presenciadas por ele em pequenos capítulos.

São pílulas reais que podem ser lidas uma a uma, em sequência, ou em doses esparsas. As duas leituras levam ao desconhecido e curioso dia a dia da nação asiática.

Descobre-se, por exemplo, que os moradores têm costumes próprios, como mascar uma semente chamada noz de bétel (os dicionários registram o sinônimo noz-de-areca).

Segundo o desenhista, é um hábito nacional. Mascar, cuspir. E ter como efeito colateral o escurecimento dos dentes.

                                                            ***

Outra descoberta é o clima, quente em excesso. Vive-se com o ar condicionado ligado todo o tempo. Ou quase. É que há constantes quedas de energia.

Isso afeta não só o sistema de refrigeração, como o uso de equipamentos eletrônicos. O computador corre o risco de ter o sistema desconectado a qualquer momento.

Os e-mails são vigiados pelo governo, comandado por uma junta militar. A censura é vista na imprensa também. Há o jornal oficial, só com notícias sobre conquistas nacionais.

As publicações estrangeiras também passam pelo crivo censor. Reportagens contra o país são recortadas antes de chegarem aos leitores.

                                                           ***

Apesar do clima de censura e de pobreza, na leitura de Delisle reina a pacividade entre os moradores. E a simplicidade.

O cenário traçado pelo desenhista ajuda o leitor a construir uma clara imagem de como é o país. Conhecem-se seus costumes, sua cultura, muito mais do que o véu oficial esconde.

Um diário de viagem em quadrinhos é uma narrativa difícil de ser construída, ainda mais por ser em primeira pessoa.

Mas o canadense é hábil em usar os ilimitados recursos da linguagem dos quadrinhos. Encontra soluções mais criativas até do que as vistas no trabalho anterior.

                                                          ***

Delisle, hoje, vive em Israel com a esposa. Ela novamente foi a serviço. O desenhista pensa em elaborar um álbum sobre uma história ouvida lá, a de um estrangeiro sequestrado.

O autor é um dos nomes esperados para o próximo FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), a ser realizado no semestre que vem em Belo Horizonte (MG).

É um convidado que tem muito a contar. E a mostrar, como prova mais este diário de viagem. Delisle se tornou o principal representante desse gênero de quadrinhos.

O ano não terminou e seria precipitada uma classificação dos "melhores álbuns". Mas não é incorreto dizer que já é um dos lançamentos mais destacados deste 2009.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h48
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11.04.09

Lançado álbum de luxo com primeiras histórias de Demolidor

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Volume integra a coleção "Biblioteca Histórica Marvel" e publica as 11 aventuras iniciais do herói cego 

 

 

 

 

 

 

 

O primeiro volume da coleção "Biblioteca Histórica Marvel" dedicado ao Demolidor começou a ser vendido nesta semana nas livrarias e lojas de quadrinhos (252 págs., R$ 57).

A obra foi lançada um pouquinho depois do previsto. A editora, Panini, havia anunciado o álbum de luxo para março. Mas, pela primeira vez, esse atraso foi providencial.

É que casou com o exato mês da publicação da primeira história do herói cego. A estreia ocorreu em revista própria, lançada nos Estados Unidos em abril de 1964.

Ao longo desses 45 anos, o personagem foi sendo sucessivamente reinventado e vivendo tramas mais profundas e adultas. O contrário do que se lia nas aventuras iniciais.

                                                            ***

As histórias, como as demais da época, eram voltadas ao público juvenil. Os heróis tinham de derrotar supervilões e realizar feitos incríveis. E bota incríveis no caso de Demolidor.

Para começar, o herói é cego. Ainda jovem, teve um líquido radioativo derramado sobre o rosto enquanto salvava um pedestre de ser atropelado.

O produto tirou a visão de Matt Murdock, mas ampliou os demais sentidos dele. Tanto que, vestido com o super-uniforme, consegue se portar como se nem parecesse cego.

E o roteirista Stan Lee, pai de tantos outros personagens da Marvel Comics, parecia fazer questão de mostrar nessas primeiras tramas que o herói podia fazer tudo o que os demais faziam. Ou até mais.

                                                           ***

Na segunda aventura, o Demolidor é enviado ao espaço. Consegue adaptar os controles da nave para retornar à Terra, a tempo de bater no vilão que o havia mandado para fora.

Na mesma história, anda a cavalo, pendura-se num helicóptero e salta. A queda livre foi milimetricamente calculada para cair exatamente no prédio onde o inimigo estava.

No sétimo número, sai num mano a mano com Namor, o Príncipe Submarino. Detalhe: Namor voa e tem força equivalente à do Incrível Hulk.

Como dito, bota incrível nessas aventuras.

                                                           ***

Mas pode-se ler também nas histórias iniciais do Demolidor a construção dos alicerces que acompanhariam o enredo do personagem nos anos seguintes.

Muitos desses elementos perduram até hoje, embora reinventados.

O uniforme vermelho escuro foi adotado na edição sete, mostrada no álbum da Panini. Nas seis aventuras anteriores, o traje dividia o vermelho com o preto e o amarelo.

A justificativa para a mudança editorial quem dá é o próprio herói: "Trabalhei em segredo por meses pra redesenhar meu traje... torná-lo mais confortável... inconfundível!"

                                                           ***

Há também todo o universo em torno do personagem. A criação do escritório de advocacia, uma sociedade entre os advogados Murdock e Foggy Nelson, seu melhor amigo.

Os primeiros flertes com Karen Page, a secretária. O surgimento do bastão que acompanha o personagem nas lutas. Os vilões: Coruja, Touro, Homem-Púrpura, Metaloide.

Este volume de "Biblioteca Histórica Marvel" - série que relança as histórias clássicas dos heróis da editora Marvel Comics - reúne as 11 primeiras histórias de Demolidor.

O material foi lançado em edições bimestrais entre abril de 1964 e dezembro do ano seguinte. Os desenhos são de Bill Everett, Wallace Wood, Joe Orlando e Bob Powell.

                                                           ***

Quem lê as aventuras do Demolidor publicadas atualmente no Brasil - também pela Panini - não espere neste álbum o mesmo conteúdo dramático.

O herói narra mentalmente cada ação que vai tomar. Chega até a cansar a leitura. O bordão "isso só pode significar que...", após alguma dedução, é usado à exaustão.

Vale mais como curiosidade e valor histórico. E pela briga com Namor, a melhor da obra.

A Panini pretende lançar ainda neste ano outros álbuns da coleção, entre eles novos volumes de Homem-Aranha, X-Men, Vingadores e Quarteto Fantástico. Saiba mais aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h18
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08.04.09

Big Guy & Rusty: arte de Darrow se sobrepõe a texto de Frank Miller

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Álbum, à venda desde o início do mês, mostra luta de dois robôs contra monstro que ataca o Japão

 

 

 

 

 

 

 

Houve uma época em que o nome de Frank Miller na capa de um álbum ou minissérie em quadrinhos era motivo de furor entre os leitores. E sinal de vendas para as editoras.

Miller já não tem mais esse toque de Midas. Perdeu o ar áureo por conta própria. Fez uma sucessão de histórias fracas, que nem mesmo sua reputação conseguiu contornar.

"Big Guy & Rusty, o Menino-Robô", álbum que começou a ser vendido no Brasil neste início de mês (Devir, 80 págs., R$ 38,50), não é um dos piores trabalhos de Miller.

Mas também não figura entre os melhores. É uma narrativa simples em tom de homenagem, que só cresce e se destaca por conta da qualidade da arte de Geof Darrow.

                                                           ***

Miller e Darrow já haviam feito uma parceria na minissérie "Hard Boiled", lançada em volume único no ano passado pela mesma Devir. O tom deste novo álbum é bem menos violento.

"Big Guy & Rusty", um dos poucos trabalhos de Miller ainda inéditos no Brasil, faz uma homenagem aos antigos seriados japoneses e aos desenhos norte-americanos.

As referências vão depender da memória de cada leitor. Há quem possa ver, por exemplo, as figuras de Frankstein Jr. e de Bob Conroy, da animação da Hanna-Barbera.

No desenho, um robô gigante e "do bem" vivia salvando o dia ao lado do jovem Conroy. Por anos, foi exibido à exaustão aqui no Brasil, dublado pela  AIC-SP na década de 1960.

                                                           ***

Tal qual o personagem de Hanna e Barbera, Big Guy é um robô. É uma arma do governo norte-americano a ser usada em situações extremas.

O herói de metal é acionado quando um monstro destrói o Japão. A relação intertextual, aí, é mais explícita. O leitor pode enxergar qualquer um dos seriados dos heróis japoneses.

Antes de Big Guy, outro robô, o pequeno Rusty, mantido pelo governo nipônico, não conseguiu deter o monstro. O cartunizado Rusty seria a versão Bob Conroy da história.

O tom da narrativa é visivelmente construído para homenagear as antigas produções. Conserva a mesma ingenuidade, apesar de apresentar cenas de destruição explícita.

 

Crédito: divulgação

 

O que torna a trama mais atraente são os desenhos de Darrow. Detalhista, dá ao roteiro o realismo não imaginado pelo texto de Miller. E transforma o irreal em algo convincente.

As cenas de destruição do monstro nas ruas japonesas são para serem observadas com calma, dado o volume de minúcias visuais ali representadas.

Costuma-se dizer que um bom roteiro consegue se salvar mesmo se tiver um desenhista aquém do conteúdo. E que a recíproca não seria verdadeira.

Este "Big Guy & Rusty, o Menino-Robô" consegue provar o contrário. A arte de Geof Darrow é que se destaca. Cresce e dá mais vida ao texto simples assinado por Frank Miller.

Escrito por PAULO RAMOS às 00h01
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03.04.09

Edital do PNBE 2010 sinaliza preferência por adaptações literárias

As editoras brasileiras têm até as 18h desta sexta-feira, dia 3, para inscrever obras na lista do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), do governo federal.

O programa tem o objetivo de democratizar o acesso a livros. A cada ano, compra lotes de títulos e os distribui a escolas dos ensinos fundamental e médio.

Este novo edital seleciona exemplares a serem levados às escolas em 2010. O interesse é em obras literárias. Inclusive adaptações de clássicos em quadrinhos.

O texto sinaliza uma clara preferência pelo gênero literatura em quadrinhos. Isso indica um passo atrás na forma como o Ministério da Educação enxerga os quadrinhos.

                                                           ***

Antes de seguir a argumentação, é preciso dar um rápido passeio por algumas questões.

O enfoque do PBNE é na literatura. No entender do MEC, "a literatura é um patrimônio cultural a que todos os cidadãos devem ter acesso".

A iniciativa é elogiável, principalmente se os acervos puderem ser consultados não só pelos alunos, mas também pela comunidade onde a escola está inserida.

Também não se questiona a oportunidade de os estudantes brasileiros terem acesso a obras literárias. É algo necessário e insubstituível, sob diferentes aspectos.

                                                           ***

Em 2006, o programa incluiu obras em quadrinhos na lista de livros selecionados. A visão do governo era a de que esses títulos poderiam servir de estímulo à leitura.

A premissa é válida. Mas traz subentendida uma visão instrumental.

Os quadrinhos não seriam vistos como leitura per si. Seriam, por outro lado, uma ferramenta para outras formas de leitura, entre as quais se destaca a literária.

Essa interpretação não aborda os quadrinhos como leitura autônoma e válida, como efetivamente são, por mais bem-intencionada que fosse a intenção de incluí-los na lista.

                                                           ***

Seguramente foi por esse mesmo motivo que adaptações literárias em quadrinhos figuraram entre os títulos selecionados naquele ano.

O próprio texto do edital enxergava os quadrinhos como uma "forma de literatura". O uso do termo "forma" explicita e evidencia um desconhecimento sobre a área.

Essa preferência acentuou a corrida editorial por clássicos em quadrinhos. Chegou-se até ao exagero de adaptar quatro vezes em dois anos o conto machadiano "O Alienista".

Uma consequência é que ajudou o mercado a "descobrir" os quadrinhos. Mesmo que parte das grandes editoras não faça muita ideia do que está publicando.

                                                          ***

Os mesmos problemas foram percebidos no edital do PNBE do ano seguinte. Um avanço ocorreu no texto de 2008, que selecionou obras para serem distribuídas neste 2009.

O governo pedia obras literárias e obras em quadrinhos, sem uso de qualquer outro adjetivo.

Essa visão sinalizava dois pontos:

  1. quadrinhos estavam dissociados da literatura;
  2. quadrinhos eram vistos como leitura autônoma.

A seleção confirmou isso.

                                                           ***

Os quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá são um bom exemplo. Eles tiveram duas obras incluídas na lista: uma adaptação de "O Alienista" e um álbum de autoria deles.

Não se priorizou apenas a literatura narrada em quadrinhos. Priorizou-se também as histórias narradas em quadrinhos, como manifestação artística autônoma.

Foi um avanço em relação aos editais anteriores e no tocante à seleção das obras. Tanto que as adaptações foram minoria entre os 21 quadrinhos selecionados.

O edital deste ano, por outro lado, indica um retrocesso. É como um bumerangue jogado longe. Avançou no ar. Mas fez uma curva voltou ao ponto de partida.

                                                           ***

Este texto do PNBE seleciona obras para o ensino fundamental - inclusive pré-escola - e médio - parte do acervo é para educação de adultos. O edital inclui:

  • "livros de imagens e livros de histórias em quadrinhos, dentre os quais se incluem obras clássicas da literatura universal, artisticamente adaptadas ao público de educação de jovens e adultos (ensino fundamental e médio)".

O fato de destacar que entre as obras em quadrinhos incluem-se as adaptações indica uma atenção especial a esse gênero.

Soma-se o fato de que há uma explícita preferência por obras literárias em todo o texto do edital e uma generalização no critério de seleção de quadrinhos.

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O PNBE adota três critérios de seleção do material inscrito:

  1. qualidade do texto literário;
  2. adequação temática;
  3. projeto gráfico.

Ponderações, item por item.

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Qualidade é um termo abstrato e subjetivo. Quem determina que um livro seja qualitativamente melhor que o outro?

A crítica e a academia - partindo do princípio de que ambas gozem de autoridade social para determinar o que seja bom ou não - já se debruçaram sobre todas as obras inscritas, inclusive as contemporâneas?

Quem selecionar - seja quem for - lerá todas os livros?

Outro ponto: texto literário, em tese e em teoria, exclui os textos não literários, entre os quais os quadrinhos se incluem.

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No tocante aos quadrinhos especificamente, o texto diz:

  • "Nos livros de imagens e quadrinhos, também será considerada como critério a relação entre texto e imagem e as possibilidades de leitura das narrativas visuais"

Trata-se de uma generalização, fruto de desconhecimento.

As histórias em quadrinhos se fundamentam na relação entre imagem e palavra. Por isso, compõem narrativas visuais.

Esse critério é amplo e óbvio demais. Todos os títulos inscritos, por esse raciocínio, deveriam ser aceitos.

Reitera-se: isso evidencia desconhecimento sobre a área de quadrinhos.

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É correto o critério de adequação temática.

Desde que não enxergue os quadrinhos como forma de leitura apenas para crianças.

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O projeto gráfico é válido para quem inicia o ensino fundamental. Obras mais atrativas podem chamar a atenção das crianças.

O manuseio do livro por mais de um aluno exige também uma edição reforçada.

Isso traz uma consequência difícil de ser contornada: exclui as revistas em quadrinhos e dita às editoras um forte investimento em quadrinhos no formato de livro.

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O PNBE é um programa iniciado na gestão Fernando Henrique Cardoso e continuado na do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Levar literatura a jovens da rede pública democratiza a leitura e torna universal um patrimônio restrito a poucos até então.

Também é válida a política de incentivo à leitura. E a literatura deve ser estimulada. Ao máximo.

Mas hoje o próprio governo entende que as obras literárias não são as únicas manifestações de leitura. Os Parâmetros Curriculares Nacionais, do governo, registram isso.

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O resultado deste edital sai no segundo semestre deste ano. Por isso, não se pode dizer quais serão as obras em quadrinhos incluídas. A torcida é para que haja surpresas.

Mas, a se pautar pelo texto seletivo, há uma hierarquia entre obras literárias e as feitas em quadrinhos, sendo estas vistas a reboque daquelas.

Esse olhar sugere o discurso de que quadrinhos não sejam uma forma de leitura qualitativamente autônoma, passível de prestígio, ao contrário do edital passado.

Só seriam válidas se adaptassem clássicos literários. Um retrocesso, portanto.

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E - pior - o edital explicita uma generalização nos critérios de seleção, resultado de claro desconhecimento sobre a área. E isso de quem dita a política de ensino.

Escreve-se o óbvio. Mas não se enxerga o óbvio.

Não no tocante aos quadrinhos e a seu papel no ensino e como manifestação válida e autônoma de leitura.

Escrito por PAULO RAMOS às 00h01
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