25.06.09

Histórias de guerra se destacam em coletânea de Neal Adams

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

"O Universo DC Ilustrado por Neal Adams", já à venda, traz seis histórias de guerra feitas pelo desenhista norte-americano 

 

 

 

 

 

 

 

 


Foi feliz a escolha do título do álbum "O Universo DC Ilustrado por Neal Adams", à venda em lojas de quadrinhos desde a virada da semana (Panini, 196 págs., R$ 28,90).

O acerto foi o ajuste do foco no que o álbum realmente tem de melhor. Ou seja, os desenhos do norte-americano Neal Adams em histórias criadas pela DC Comics.

Note que a expressão "histórias criadas" não é sinônimo de aventuras de super-heróis.

Elas aparecem na obra. Há material do Homem-Elástico, da Turma Titã e do Super-Homem, publicadas entre 1967 e 1972. Mas perdem o destaque para as tramas de guerra.

                                                           ***

As narrativas de guerra apresentam outro apelo. Não há o vilão da vez a ser derrotado. A história se centra no drama pessoal de algum soldado durante a Segunda Guerra.

Em geral, o enredo se ancora em como o conflito será superado. Segundo Adams relata no álbum foram escritas numa época de suavização da abordagem dada nos quadrinhos.

"Nada de sangue, nada de ferimentos, nada de explosões... mas foram algumas das melhores histórias de guerra já escritas." O álbum reúne seis delas, de 1967 a 1972.

                                                           ***

As tramas de guerra foram escritas por Howard Liss, Robert Kanigher, Hank Chapan e Bob Haney para as revistas "Our Army at War" e "Star Spangled War Stories".

É curioso que sejam elas as melhores de uma coletânea de histórias de Neal Adams. Isso porque a passagem dele pela DC Comics é mais lembrada por conta dos super-heróis.

Ele foi um dos principais desenhistas de Batman nos mais de 70 anos da editora. Trabalhou em revistas do herói entre o fim da década de 1970 e o início da seguinte.

É dele também a arte da parceria entre Lanterna e Arqueiro Verde. A série, escrita por Denny O´Neil, trazia para os quadrinhos temas delicados da atualidade, como as drogas.

                                                          ***

A Panini tem feito um resgate da passagem de Adams pela DC. Não tão longa assim, mas marcante e que influenciou mais de uma geração de autores.

A editora lançou em 2006, em dois volumes, as histórias de Lanterna e Arqueiro Verde. No ano passado, um álbum com as primeiras histórias de Batman desenhadas por ele.

Agora, estas 14 narrativas com outros personagens. É de esperar que outros álbuns sejam lançados pela editora. De Batman, pelo menos, há muito mais material.

Cada nova publicação tem sido um convite a (re)ver a arte realista e dinâmica de Adams. E para nos surpreendermos, como mostram as tramas de guerra deste lançamento.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h36
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Saudosismo dá tom de álbum de Jornada nas Estrelas

 

Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Obra mostra o que teria ocorrido no inexistente quarto ano do seriado, cancelado em 1969 

 

 

 

 

 

 

 


A abertura do seriado "Jornada nas Estrelas" prometia algo que não cumpria.

A narração introdutória dizia que se tratava das viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para pesquisar novos mundos, vidas e civilizações.

A tripulação foi audaciosamente onde nenhum homem jamais esteve. Mas o telespectador acompanhou a missão até o terceiro ano. Foi quando a série foi cancelada, em 1969.

É essa a premissa do álbum "Star Trek - Ano Quatro", lançado nesta semana (Devir, 152 págs., R$ 39,95). O que teria ocorrido num eventual quarto ano do seriado? 

                                                           ***

Os fatos inéditos foram imaginados nas seis histórias da obra, publicada nos Estados Unidos em forma de minissérie.

O conteúdo não supera o da série. Mas há um inegável tom saudosista, que o roteirista David Tischman soube captar com precisão. A começar pelos diálogos.

Tischman consegue recriar a bem-humorada interação que existia o Capitão Kirk, o senhor Spock e o doutor McCoy. O trio formava a espinhal dorsal da nave estelar Enterprise.

Estão lá também frases famosas. Como "ele está morto, Jim", dita à exaustão por McCoy.

                                                          ***

O roteiro retoma também situações comuns da série. Ao serem teletransportados a um planeta, os protagonistas sempre dividiam a cena com um tripulantes desconhecido.

A função dele era morrer tão logo chegasse àquele mundo desconhecido.

Há isso logo na história de abertura. Pretexto para mais um "ele está morto, Jim".

Outro enredo comum era usar temas comuns ao final da década de 1960, época em que a série foi exibida, e moldá-los à realidade das viagens da Enterprise.

                                                            ***

Esse mecanismo é usado em mais de uma das histórias do álbum, só que ajustado a temas este início de século. Inclusive na mais interessante, intitulada "Reality Show".

Como o nome já sugere, o trio vai parar num planeta pautado pela concorrência entre emissoras de televisão. A chegada de Kirk e companhia atiça a guerra pela audiência.

Não demora para serem usados em programas aos moldes de "Big Brother Brasil" e do recente "A Fazenda". É um enredo simples. Mas o brilho dele está nas referências.

A participação deles no show é uma forma de brincar com o cancelamento da própria série. "Minha tripulação não pode ficar presa a um programa de TV de cinco anos", diz Kirk.

                                                          ***

O tom das histórias é de saudosismo. Os desenhos ajudam no déjà-vu. Reproduzem as feições exatas do elenco, ora mais fielmente, ora menos.

Mas não espere muito mais do que isso. É uma obra feito para agradar aos fãs da série. Se você não entendeu as referências desta resenha, não tenha dúvida, não é para você.

A Devir já havia lançado um primeiro álbum de Jornada nas Estrelas em novembro passado. Outros dois estão programados, como o blog havia noticiado em agosto de 2008.

O próximo vai ser "Star Trek - Jornada nas Estrelas, A Nova Geração: Interlúdios". O foco será nos personagens do segundo seriado da franquia, retomada neste ano no cinema.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h53
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23.06.09

Carta aberta às autoridades brasileiras de educação

Temos visto com muita ressalva atitudes recentes de retirada de obras em quadrinhos do norte-americano Will Eisner de bibliotecas de escolas. Entendemos tratar-se de um exemplo de desconhecimento sobre o conteúdo do material.

 

Levar tal material à escola corrige um equívoco histórico no Brasil. Houve uma época no país em que os quadrinhos eram nocivos somente por serem quadrinhos. A censura a eles escondia motivos de ordem política e comercial.

 

Retomar tais discursos, calcados na falta de argumentos sólidos, revive o fantasma de 60, 70 anos atrás.

 

Assim como a literatura, os quadrinhos são forma de leitura autônoma, com forte eco entre os alunos, como confirma a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2008.

 

O argumento de que os livros de Eisner são inadequados ao estudante do ensino médio, a quem foram direcionados, é frágil e revela uma leitura equivocada e parcial do conteúdo, resumido a poucas cenas.

 

“Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço”, “O Sonhador” e “O Nome do Jogo” mostram histórias de vida, ambientadas nos EUA nas décadas iniciais do século 20.

 

As situações que podem agredir a uns integram a realidade vivida pelo autor, que passou a infância e a juventude na mesma época, nessas situações.

 

Apesar das dificuldades, Eisner, falecido em 2005, tornou-se um dos mais respeitados autores de quadrinhos do mundo.

 

São dele alguns dos primeiros romances gráficos produzidos nos Estados Unidos. O gênero encontra em 2009 várias publicações produzidas por autores brasileiros.

 

A escola tem a função de levar o mundo ao estudante por meio de leituras e de práticas de letramento, inclusive visual.

 

Os três quadrinhos em pauta oferecem tais conteúdos, acentuados se direcionados aos alunos por meio de práticas pedagógicas afins.

 

Reiteramos a qualidade das três obras do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) e defendemos que podem, sim, ser levadas aos estudantes do ensino médio.

 

E devem integrar bibliotecas escolares, e não serem retiradas dela. O simples controle de empréstimo das obras resolve as questões de acesso a alunos das séries iniciais.

 

Os argumentos em contrário têm se mostrado infundados, fruto de receio e não de fatos. Dos pontos de vista do conteúdo e pedagógico, oferecem rico material a ser usado com os alunos.

 

Assinam a carta os doutores

 

Elydio dos Santos Neto, docente-pesquisador do mestrado em Educação da Universidade Metodista de São Paulo.

 

Gazy Andraus, professor da Unifig (Centro Universitário Metropolitano de São Paulo) e vencedor do Troféu HQMix, em 2007, na categoria melhor doutorado.  

 

Paulo Ramos, jornalista e professor adjunto do curso de Letras da Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo). É autor de “A Leitura dos Quadrinhos” (2009) e co-autor de “Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula” (2004).

 

Roberto Elísio dos Santos, professor de comunicação da USCS (Universidade de São Caetano do Sul). É autor de “Para Reler os Quadrinhos Disney” (2002) e um dos organizadores de “Mutações da Cultura Midiática” (2009).

 

Waldomiro Vergueiro, livre docente em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da USP e um dos organizadores do livro “Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula” (2004).

 

                                                           ***

 

Os autores convidam os leitores interessados em também assinar a carta que o façam no espaço abaixo, destinado aos comentários. 

Escrito por PAULO RAMOS às 12h57
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10.06.09

Álbum mostra lado menos glamoroso de Copacabana

  Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

Obra, escrita por Sandro Lobo e desenhada por Odyr Bernardi, mostra vida de prostitutas na noite carioca

 

 

 

 

 

 

 

Restava à carioca Desiderata um último projeto pensado por Sandro Lobo, editor de quadrinhos que se desligou da empresa no meio do ano passado.

Ironicamente, o trabalho final é de autoria dele. Os desenhos, outra ironia, são de Odyr Bernardi, que também integrava a equipe do selo editorial da Ediouro.

A história, que serve de divisor de águas na carreira de ambos, por outro lado, não tem nada de irônico. "Copacabana" (208 págs.; R$ 39,90) mostra um lado pouco lembrado do famoso bairro carioca.

Nada de sol, nada de boemia, nada de cartão postal. Os personagens centrais do álbum são prostitutas e figuras urbanas, que se destacam na noite de Copacabana.

                                                           ***

A história convida o leitor a acompanhar alguns dias na vida de de Diana. Ela vive do sexo e, com a atividade, tenta se manter e ainda enviar dinheiro à mãe.

Entre um programa aqui, um bico ali, tem a oportunidade de dar um golpe num gringo cheio da grana. Mas leva a pior. E é vista como a pessoa que teria ficado com o dinheiro.

A trama é contada em pílulas escritas em 14 capítulos. Diana vai ganhando importância aos poucos. Ora é ela que está em evidência.

Ora são as figuras noturnas do bairro, mas nem por isso menos interessantes. É, no fundo, uma história de relacionamentos, com interesses pessoais ou não.

                                                          ***

Mas talvez o que roube a atenção do leitor seja mesmo o cenário. Quem já passou por Copacabana vai enxergar no traço denso de Odyr fragmentos do bairro carioca.

E vai ser convidado a repensar a passagem pelas ruas de lá. Há mesmo essa vida escondida em meio ao lado turístico, que atrai gente de todo o mundo?

Na leitura de Lobo, há, sim. Está na cidade há 20 anos. A ideia de criar a trama surgiu enquanto andava à noite pelas ruas de Copacabana. Buscava sono. Encontrou um roteiro.

Decidiu criar a história sem pressa. Diz que escreveu o roteiro entre 1994 e 1998.

                                                          ***

É de lamentar que este seja o projeto derradeiro de Lobo e Odyr na Desiderata. 

A passagem de ambos pela editora rendeu alguns dos melhores álbuns nacionais produzidos nos últimos anos. A saída deles descaracterizou a linha editorial do selo.

O consolo é que pretendem estar por perto, agora na não menos desafiadora função de autores de histórias em quadrinhos.

"Copacabana" é uma boa estreia na difícil tarefa de escrever narrativas mais longas. A dupla tem histórico profissional que credita a espera por outros trabalhos deles.

                                                           ***

Serviço - Lançamentos de "Copacabana".
Rio de Janeiro. Quando: segunda-feira (15.06). Horário: 19h. Onde: Livraria Dona Laura, na Casa de Cultura Laura Alvim. Endereço: av. Vieira Souto, 176, Ipanema.
São Paulo. Quando: quarta-feira (17.06). Horário: 19h. Onde: loja Cachalote. Endereço: rua Ministro Ferreira Alves, 48.
Curitiba. Quando: quinta-feira (18.06). Horário: 19h. Onde: Itiban. Endereço: av. Silva Jardim, 845, centro.
Porto Alegre. Quando: segunda-feira (22.06). Horário: 19h. Onde: Café Oca. Endereço: rua João Teles, 512, Bonfim. 

Escrito por PAULO RAMOS às 17h57
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07.06.09

Revista de Luluzinha adolescente recria personagem do zero

 

Crédito: Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Primeiro número da revista com versão adolescente da personagem já está nas bancas 

 

 

 

 

 

 


Parte-se da premissa de que uma adaptação, qualquer que seja ela, conserva elementos do texto fonte, em maior ou menor grau.

Não é o que ocorre com a versão adolescente de Luluzinha, como se vê no primeiro número de "Luluzinha Teen e Sua Turma", à venda desde sexta-feira (Pixel, 100 págs., R$ 6,40).

A personagem norte-americana foi recriada do zero em formato mangá. O leitor não verá na protagonista nem uma sombra da menina sapeca e ingênua de vestido vermelho.

A ausência de elementos das antigas histórias é tão gritante que os personagens poderiam ter até outros nomes que a história seria entendida do mesmo jeito.

                                                          ***

O cenário criado para Luluzinha jovem se parece com o da novela "Malhação", da TV Globo.

Ela e os amigos - Bolinha, Alvinho, Glorinha, Aninha e mais alguns personagens novos, todos adolescentes - vivem numa cidade fictícia litorânea chamada Liberta.

O grupo frequenta um colégio, o Escola Unida. O "point" deles é um lugar chamado "Livre". Bolinha agora é ex-gordinho e integra uma banda de rock.

A qualidade da história de estreia poderia contornar o inevitável estranhamento entre esta e a antiga Luluzinha. Mas não é o caso.

                                                          ***

Há dois problemas centrais nesta história de estreia. O primeiro é o roteiro em si. Fica clara a interferência da editora no projeto. O que se lê é um vai-e-vem de situações.

A trama central são os casos de vandalismo de que a escola é vítima. Lulu tenta descobrir quem são os autores. O mistério da história é descobrir quem são.

Em meio a isso, a banda de Bolinha procura um vocalista para abrir o show da cantora Pitty. Esta aparece em mais de um momento dando conselhos ao grupo.

Além disso, há o cuidado de mostrar Lulu postando mensagens em seu blog. Em dois momentos, ocorre um explícito convite para o leitor visitar a página virtual.

                                                           ***

O blog de Luluzinha existe e faz parte do projeto editorial. A Pixel, selo da carioca Ediouro, quer que o leitor migre do papel para a internet.

Não há nada de mal nisso. Nem na tentativa de a Ediouro pensar a revista como projeto visando lucro. As editoras, como toda empresa, querem e precisam ganhar dinheiro.

Mas o diálogo entre mídias não pode se sobrepor à qualidade do produto. O projeto peca em outros aspectos. O primeiro é  usar o nome Luluzinha apenas como chamariz.

A personagem empresta o nome a uma estratégia de marketing. A história em si ignora por completo os elementos visuais e de personalidade da  versão norte-americana.

                                                          ***

Esta Luluzinha teen tenta copiar o sucesso de "Turma da Mônica Jovem", que também peca nos roteiros. O formato é o mesmo e a capa também registra a frase "em estilo mangá".

As histórias também são feitas por autores nacionais, o que não deixa de ser um aspecto positivo. Mas a escolha de Luluzinha talvez seja o principal equívoco do projeto.

Ela é um dos raros casos de história em quadrinhos que pode ser lida em qualquer idade. Inclusive os pré-adolescentes. Há uma ingenuidade cativante que atinge a todos.

Para recriar a personagem do zero, de modo a atingir determinado público específico, só se fosse para oferecer algo melhor. E, como já dito, não é o caso.

Melhor esperar pelos álbuns da Devir, que desde 2006 tem relançado as histórias antigas da personagem, em ordem cronológica. A editora programa mais dois para este ano.

                                                          ***

Nota: Renato Fagundes, roteirista desta primeira história, comenta críticas ao projeto e detalha a concepção da série no blog "Gibizada", de Telio Navega. Para ler, clique aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h23
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05.06.09

Álbum faz documentário com versões caricatas de animações

 

Crédito: divulgação

 

Há um dado na concepção de "Três Dedos: Um Escândalo em Quadrinhos" que ajuda a singularizar o álbum: trata-se de um documentário feito na forma de quadrinhos.

Os depoimentos lidos no álbum - à venda em livrarias e lojas de quadrinhos (Gal, 144 págs., R$ 39,90) - abordam um fictício mistério que pauta o título do livro.

Há também outro fato que contribui para particularizar a obra. Os entrevistados são versões caricatas dos primeiros personagens dos desenhos animados norte-americanos.

O enredo do álbum parte da premissa de que esses personagens eram atores reais, que atuavam nas animações das décadas de 1930 em diante.

                                                           ***

A ideia do escritor e desenhista Rich Koslowski refaz toda a trajetória dos pioneiros dos desenhos animados nos Estados Unidos, com fatos que realmente aconteceram.

O foco está na trajetória de Walt Disney. Ou Dizzy Walters, como é mostrado no álbum.

As entrevistas com as animações, que ajudam a conduzir a narrativa do documentário ficcional, reconstituem os primeiros projetos dele. E o encontro inicial com Mickey Mouse.

Mickey Mouse, não. Correção. Na obra de Koslowski, é o ator Rickey Rat. Mas o visual, a exemplo de Disney/Dizzy, é o mesmo que marcou o personagem.

 

Crédito: divulgação

 

Rickey Rat é mostrado em dois momentos. No passado, é mostrado como o camundongo feliz e sorridente que todos conhecem, que firmou parceria com Disney/Dizzy.

No presente, fuma, está barrigudo e deprimido. Aperece na entrevista em que relembra o início da carreira e o sucesso que alcançou, a ponto de ser copiado por outros atores.

O mesmo ocorre com outras versões caricatas de animações da época. E não só da Disney. Há várias menções aos personagens dos Estúdios Warner Bros (ou Warmer Bros.).

São mostrados como eram nos desenhos e como estão hoje, vistos nos depoimentos.

                                                           ***

"Três Dedos: Um Escândalo Animado" conquistou nos Estados Unidos, em 2002, o prêmio Ignatz de melhor graphic novel. O prêmio é dedicado a obras em quadrinhos.

É curioso que um trabalho tão singular tenha demorado tanto para ser publicado no Brasil. Ainda mais num mercado tão ávido por novidades estrangeiras.

A ideia é singular, em todos os aspectos. E tem referências de sobra para quem aprecia as animações da época. O único senão é o desfecho que, claro, não será revelado aqui.

Koslowski antecipa no meio do álbum qual é o escandaloso mistério que dá título à obra. Isso tira um pouco o interesse do que vem na sequência. E o ar de novidade se perde.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h21
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04.06.09

Livro faz homenagem tímida aos 40 anos do Pasquim

 

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Obra da editora Desiderata, já à venda, traz capas do jornal e quatro artigos sobre a publicação alternativa

 

 

 

 

 

 

 

Há exatos 40 anos, em junho de 1969, o leitor brasileiro tinha contato com a primeira edição de "O Pasquim". Não demorou para que se tornasse um dos instrumentos de resistência do regime militar (1964-1985).

Hoje, a sábia distância do tempo permite afirmar com mais certeza o que já se percebia na época: o jornal deixaria sua marca. No país, no jornalismo, nos quadrinhos nacionais.

Por isso, e por muito mais, é justificável e até desejável uma edição para marcar as quatro décadas de vida da publicação.

O que não era de se esperar é que a obra fizesse uma acanhada homenagem.

                                                           ***

"O Pasquim 40 Anos! - Edicão Comemorativa" (Desiderata, 40 págs., R$ 39,90) traz 31 capas originais do jornal. Outra, inédita, foi feita por Millôr especialmente para a obra.

Millôr, um dos integrantes da trupe original, assina um dos quatro textos do livro. Os outros são do desenhista Jaguar, do jornalista Sérgio Augusto (também equipe original) e do chargista Chico Caruso.

E só. Não há uma contextualização maior do jornal. Ou de sua importância para a linguagem jornalística. Ou aos quadrinhos. 

O acanhamento aumenta se visto que os textos de Augusto e Jaguar aparecem espremidos, lado a lado na primeira orelha da capa.

                                                           ***

Melhor homenagem faz a mesma Desiderata com outro livro, lançado ao mesmo tempo.

Trata-se da terceira antologia do jornal (376 págs., R$ 79,90), organizada, uma vez mais, pela dupla Sérgio Augusto e Jaguar.

O contato com os textos originais de "O Pasquim" apresenta o que a publicação representou e revela, curiosamente, que muitos dos temas permanecem atuais.

Violência urbana, crescimento desordenado das cidades, até quedas de avião. Tudo é (re)lido com os olhos de hoje. Mas com o contexto de ontem. E o humor de sempre.

                                                           ***

Ao leitor de quadrinhos há um interesse especial. Ziraldo, Henfil e companhia influenciaram e serviram de molde inicial a vários desenhistas que surgiam na década de 1970.

O jornal, para os quadrinhos, funcionava como um suporte privilegiado de publicação. E ajudou a levar os diferentes gêneros quadrinísticos ao leitor adulto.

Os cartuns - em particular os de Ziraldo - são a maioria desta terceira antologia, que reedita os jornais dos números 201 a 250 (de maio de 1973 a abril de 1974).

Mas há também os quadrinhos tradicionais. E os de Henfil (1944-1988), autor singular que sempre merece menção à parte.

                                                           ***

Os dois livros marcam uma volta da carioca Desiderata às antigas edições de "O Pasquim".

As duas antologias do jornal, lançadas a partir de 2006, tiveram forte repercussão na imprensa e nas vendas. Tornaram-se rapidamente a galinha dos ovos de ouro da editora.

E foi o que cacifou a empresa a ser vendida ao grupo Ediouro na virada de 2007 para 2008.

Desde então, as reedições do jornal continuavam apenas nas estantes de colecionadores e na memória de uns poucos privilegiados.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h39
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01.06.09

Quadrinhos na Cia. tem desafio de conquistar novos públicos

 

Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Retalhos", do norte-americano Craig Thompson, um dos lançamentos do novo selo da Companhia das Letras 

 

 

 

 

 

 

 


Os primeiros lançamentos do selo Quadrinho na Cia. já estão à venda nas livrarias e lojas especializadas. Mais do que quatro álbuns, podem ser o início de uma mudança.

O novo selo que a Companhia das Letras inaugurou no fim de maio pode dar uma chacoalhada no mercado brasileiro de quadrinhos produzidos em forma de livro.

E por vários fatores. O primeiro é o que investimento é feito por uma das principais editoras do país e uma das que mais conseguem penetrar pautas nos cadernos de cultura.

Os jornais ainda são o principal termômetro para medir a influência de uma obra no leitor, mesmo com a cada vez mais acentuada presença da internet.

                                                           ***

Uma resenha impressa e outra virtual têm pesos diferentes no Brasil.

A crítica lida num jornal ou revista tende a gozar de mais prestígio e funciona como formadora de opinião, inclusive para outros veículos midiáticos.

Os livros da Companhia das Letras são assíduos frequentadores desses espaços. Pela qualidade, pelo volume mensal de novos títulos e pela estratégia de marketing.

O mesmo processo deve ser repetido com o selo dedicado exclusivamente a quadrinhos.

                                                            ***

A divulgação da Companhia já trouxe um resultado. A edição de domingo da "Folha de S.Paulo" trouxe resenha de "Retalhos", de Craig Thompson, um dos lançamentos do selo.

Resultado: há a chance de pessoas que normalmente não liam quadrinhos passarem a saber da existência deles. E serem convidadas a ver os álbuns de modo mais sério.

Esse é o segundo ponto que pode movimentar o meio editorial, a conquista de novos leitores. O perfil é o da pessoa que frequenta livrarias, mas não as estantes de quadrinhos.

Tanto que a editora fez na semana passada uma manhã de palestras a livreiros para explicar o tema. Fui um dos convidados. Havia cerca de cem pessoas na plateia.

                                                           ***

Quadrinhos em forma de livro não são algo novo no país. O que tem ocorrido é a entrada em massa deles nas livrarias, fenômeno que aumentou de 2005 para cá. A própria Companhia das Letras criou um catálogo com quadrinhos nesse período.

Com o cuidado de escolher obras aceitas pelos não leitores de quadrinhos, como "Tintim", "Maus", de Art Spiegelman, e "Persépolis", de Marjane Satrapi.

Há um pouco disso nos novos títulos, que tiveram tiragens entre 4 mil e 5 mil exemplares.

Além de "Retalhos", há um álbum de Will Eisner "Nova York - A Vida na Grande Cidade" (440 págs., R$ 55), "O Chinês Americano" (238 págs., R$ 47,50), de Gene Luen Yang, e o nacional "Jubiabá de Jorge Amado" (R$ 33), de Spacca. 

                                                           *** 

O terceiro ponto que pode mexer com o mercado é o próprio fato de a Companhia das Letras investir de forma mais explícita no ramo de quadrinhos.

É possível que outras editoras de médio e grande porte passem a apostar no setor, mesmo sem saber direito o que publicar. Seria uma forma de responder à concorrência.

Por enquanto, editoras que não investiam em quadrinhos têm se dedicado a adaptações literárias. São obras feitas sob medida para vender às listas educacionais do governo.

Investir apenas em listas governamentais é uma aposta lucrativa. Mas tênue. Se a política educacional, afunda as obras pautadas pelo governo.

                                                          ***

A Companhia das Letras já teve obras em quadrinhos incluídas na relação do governo federal e deve ter outras. É um mercado não ignorado pela editora.

Mas a diversidade e a aposta em obras nacionais sugere uma trajetória mais autônoma e sustentável, pautada na criação e formação de um público leitor.

São as editoras e os autores que devem pautar o governo, e não o contrário. Se bem-sucedida, a estratégia causará impacto no mercado editorial brasileiro. 

O principal louro a ser colhido seria a conquista de um novo perfil de leitor. Estaria formado, assim, um sistema mais sólido de produção e consumo de obras em quadrinhos.                                                                            

Escrito por PAULO RAMOS às 18h17
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