24.08.09

Ragu se reinventa e se torna antologia em formato de luxo

 

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Capa de Eloar Guazzelli para o sétimo número da publicação, que passa a ser feita em formato de livro de luxo, com 240 páginas

 

 

 

 

 

 

 

Quando o leitor da "Ragu" saiu de casa e foi comprar a edição mais recente da obra em quadrinhos, viu que ela havia se metamorfoseado. E não era sonho.

O título recifense abandonou os limites da revista e abraçou outro formato, o do livro.

O sétimo número, lançado na noite desta segunda-feira em São Paulo, é uma obra de luxo, com capa dura, papel especial e 240 páginas. Custa o que oferece: R$ 40.

O conteúdo também é proporcional à pompa do formato. Há uma clara intenção de a publicação alcançar um outro nível qualitativo. E consegue.

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O formato difere dos números anteriores, mas a proposta básica se mantém: reunir histórias em quadrinhos de autores de diferentes partes do país.

Esta sétima edição traz trabalhos de Eloar Gazzelli, Rodrigo Rosa, Marcelo D´Salete (uma história forte), Daniel Caballero, Fábio Zimbres, João Lin, Christiano Mascaro.

Os dois últimos acumulam também a função de editores da obra. E de manter contato com autores de outros países, da Espanha e da América do Sul, unidos pelo castelhano.

A presença deles realça ainda mais a relevância da obra. Não é sempre que quadrinistas sul-americanos publicam pelas bandas de cá. E numa antologia tão destacada.

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Olhando no retrovisor do tempo, percebe-se com maior nitidez a metamorfose da "Ragu". Nos dez anos de existência, passou de fanzine a revista, de revista a livro de luxo.

O conteúdo melhorou, aprimorou-se, abriu as páginas para autores de fora. E para análises, como a de Daniel Bueno sobre a passagem de Steinberg em Recife, neste número.

A "Ragu" - que perdeu o acento agudo, outra metamorfose - tem se mantido por meio de incentivos públicos. Esta edição foi produzida com verba do governo de Pernambuco.

O dinheiro nubla um pouco o tom independente, mas não o teor autoral. Quiçá todos vertessem verba pública em produtos como esta "Ragu", que reinventou, como este volume, o modo de fazer antologias de quadrinhos aqui no Brasil. 

Escrito por PAULO RAMOS às 22h12
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23.08.09

Censura a quadrinhos dá tom político a entrega do HQMix

Houve dois temas recorrentes nos discursos de agradecimento dos premiados do 21º Troféu HQMix, entregue na noite de sexta-feira, no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo.

O primeiro foram os dotes físicos de Mirza, personagem de Eugênio Colonnese que serviu de molde para a estátua dada aos vencedores. Foi assunto da maioria das falas.

O outro tópico teve um verniz político, motivado pela presença do ministro da Educação, Fernando Haddad. É a primeira vez que uma autoridade federal participa da festa.

Haddad compareceu para receber o troféu de contribuição à área, por incluir desde 2006 obras em quadrinhos na lista do PNBE, Programa Nacional Biblioteca da Escola.

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A escolha do programa federal foi feita pela comissão organizadora do prêmio e teve duas funções na prática: uma de reconhecimento; outra de resposta a atos de censura.

A primeira explicita qualidades do programa, que leva obras a bibliotecas escolares de todo o país e que tem ajudado a oficializar a presença de quadrinhos no ensino.

A segunda função, não tão evidente quanto a anterior, serviu justamente para marcar posição sobre a necessidade de uso de histórias em quadrinhos nas escolas.

Foi uma espécie de resposta aos atos de censura a obras de Will Eisner realizados em junho por autoridades educacionais dos estados de Santa Catarina e Paraná.

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O caso pautou o discurso de Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva, secretária de Educação Básica do MEC e responsável pela área que cuida das listas do PNBE.

"Não podemos ceder à pressão de falsos moralismos, de politicamente corretos", disse, no palco, sob aplausos, no início da cerimônia.

Antes da festa, foi ainda mais contundente, em entrevista ao blog: "Foi uma posição hipócrita e moralista."  No entender dela, houve despreparo de quem abordou a obra.

O principal foco da polêmica foi o livro "Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço", de Eisner. O álbum foi reeditado pela Devir em 2008 e  incluído na lista do PNBE.

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Segundo a secretária, uma biblioteca escolar não é uma estante de livraria. Caberia ao bibliotecário restringir o acesso do título aos alunos mais maduros, diz.

Ela também teme que as recentes polêmicas possam interferir no processo de seleção das demais obras do programa, feitas por meio de uma comissão.

"Eu temo por um excesso de politicamente correto", disse ao blog, antes da festa.

O tema voltou ao palco no meio da cerimônia, quando o ministro chegou ao teatro. Ele teve uma fala mais morna. Vê nos quadrinhos uma forma de "chacoalhar" o ensino.

                                                          ***

O excesso do politicamente correto foi tema também da fala de Rogério de Campos, diretor da editora Conrad e premiado como melhor articulista de 2008.

Campos fez alusão ao medo que algumas editoras estariam tendo após as recentes polêmicas envolvendo obras em quadrinhos. Segundo ele, o clima é de censura.

"As editoras não querem estar coladas com a imagem de obras que tragam, por exemplo, cenas de pedofilia." Pedofilia foi uma das acusações à obra de Eisner.

"Com todo o respeito ao ministro, é preciso abandonar os programas de governo e estimular o fazer quadrinhos. Nós estamos nos sentindo oprimidos."

                                                         ***

Minha fala, ao receber o prêmio, também fez referência ao tema. Mas dividi o foco com outra polêmica, a vista em São Paulo com "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol".

O álbum, adulto, foi comprado pelo governo estadual para ser dado a crianças de nove anos.

Na minha leitura, o equívoco esteve na seleção feita pelo governo e na visão estreita e antiga de enxergar nos quadrinhos um veículo direcionado apenas ao leitor infantil.

Defendi, no palco, que a mídia independente de quadrinhos contribuiu para mostrar um outro lado, que conseguiu mudar um pouco o discurso visto e lido na imprensa tradicional.

                                                          ***

Veja nas postagens abaixo como foi a cerimônia de entrega do 21º Troféu HQMix.

Escrito por PAULO RAMOS às 16h29
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20.08.09

Whiteout perde ritmo de mistério na sequência da série

 

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Capa de "Whiteout - Ponto de Fusão", segundo volume da série norte-americana que começou a ser vendido neste meio de mês 

 

 

 

 

 

 

 

Há uma máxima na indústria artística de que a sequência é pior do que o original. Já há exemplos que derrubam essa frase.

Mas a afirmação se encaixa perfeitamente para a continuação da série "Whiteout", que chegou ao Brasil neste meio de mês (Devir, 112 págs., R$ 21,50).

"Whiteout - Ponto de Fusão" retoma a protagonista, a agente federal Carrie Stetko, e a põe de novo para desvendar um crime na Antárdida.

Desta vez, não se trata apenas de um assassinato. O problema que ela tem de solucionar é quem explodiu uma base russa cheia de armamentos pesados.

                                                          ***

O mistério - ponto alto do primeiro volume, "Whiteout - Morte no Gelo", lançado no Brasil em novembro de 2007 - se perde nesta sequência.

Ele até existe. Mas é diluído em meio aos conflitos pessoais da protagonista e ao atraente cenário do gelo, que se torna mortal na caça aos autores do crime.

Quem já leu algum roteiro do escritor Greg Rucka, criador da série e também desta história, sabe que ele se ancora em personagens femininas e no tom policial.

Há, aqui, a condutora narrativa feminina. Mas ele não consegue repetir o suspense rumo ao necessário desfecho da trama.

                                                          ***

Este álbum nacional reúne as quatro partes da minissérie, lançada nos Estados Unidos pela editora Oni Press. Os desenhos são de Steve Lieber, o mesmo da parte anterior.

"Whiteout - Melt", nome original da história, venceu como melhor série, em 1999, o Eisner Awards, espécie de Oscar da indústria norte-americana de quadrinhos.

Não era para tanto. Rucka já fez tramas muito mais bem construídas, como comprova o primeiro volume de "Whiteout". O prêmio serve mais como apelo para vendas.

O prêmio e a adiada versão para o cinema, "Terror na Antárdida". O longa deveria ter chegado aos cinemas daqui em 2008. O lançamento foi remarcado para outubro.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h11
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18.08.09

Tese vencedora do HQMix mostra que quadrinhos estimulam leitura

Embora defendida em maio de 2008, a tese de doutorado premiada no Troféu HQMix deste ano conserva uma pertinente atualidade.

A pesquisa de Valéria Bari se debruça sobre um tema antigo, o de que quadrinhos tirariam o interesse dos jovens pela leitura.

Ela desmonta a premissa e a reconstrói, ancorada em dados, e não discursos vazios. E o que descobriu foi exatamente o contrário.

Os quadrinhos não só estimulam a leitura, como também levam a pessoa a migrar para outros gêneros de escrita.

                                                          ***

Bari acompanhou durante seis anos os hábitos de leitura de estudantes da USP (Universidade de São Paulo), onde fez o doutorado.

Depois, confrontou os dados com a realidade da Espanha, para verificar se não se tratava de uma característica apenas dos alunos daqui.

O resultado final do estudo confirma a importância das histórias em quadrinhos como fomento à leitura e dá uma novo significado, agora positivo, à expressão "quadrinhos são coisa de criança".

O tema ganha ainda mais atualidade após as sucessivas resistências de governos estaduais à inclusão de quadrinhos no ensino, vistas em maio e junho deste ano.

                                                         ***

"Como a linguagem dos quadrinhos sempre foi representativa na leitura infantil e das camadas populares, sua validade cultural é questionada por aqueles que preferem privilegiar linguagens, discursos e obras inacessíveis", disse Bari ao blog, em junho de 2008, um ano antes das polêmicas.

No entender da pesquisadora, a leitura de quadrinhos deve ser estimulada, inclusive, dentro de casa, pelos pais.

"Uma criança adquire o gosto pela leitura em um ambiente no qual sua infância é respeitada, os seus gostos pessoais são respeitados e as atitudes dos adultos que o rodeiam denotem que a leitura é fonte de prazer e alegria", diz.

                                                          ***

A dissertação de mestrado e o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) premiados neste 21º Troféu HQMix abordaram aspectos de dois desenhistas diferentes.

O TCC estudou a arte de Alberto Breccia, uruguaio que fez carreira na Argentina.

Breccia se caracterizou pelo uso de sombras nos quadrinhos que fazia, algo que veio a ser repetido, décadas depois, pelo norte-americano Frank Miller.

O trabalho foi feito por Pedro Fraz Broering para o curso de design gráfico da Universidade Federal de Santa Catarina.

                                                           ***

O mestrado vencedor, de autoria de Liber Paz, lançou um olhar literário à produção de quadrinhos do brasileiro Lourenço Mutarelli.

A pesquisa – feita na Universidade Tecnológica do Paraná – investigou o período entre os primeiros trabalhos dele, nos idos dos anos 1980, e o álbum final.

A última obra em quadrinhos de Mutarelli foi o autobiográfico “Caixa de Areia (Ou Eu Era Dois em Meu Quintal)”, lançado em 2006 pela Devir.

Paz concluiu que o trabalho do quadrinista reflete e refrata elementos sociais e tecnológicos, que há uma tendência a abordar temas como solidão e melancolia e que existe uma fixação do autor por figuras deformadas.

                                                         ***

A entrega do prêmio aos estudos vencedores deste HQMix será na próxima sexta-feira, às 20h, no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo.

O blog noticiou as pesquisas de Liber Paz e de Valéria Bari no ano passado, pouco depois da defesa deles.

(Re)Leia as entrevistas com os dois pesquisadores nas postagens de 31.03.08 e de 11.06.08, respectivamente.

E veja na postagem abaixo quem foram os outros premiados nesta edição do troféu.                                                        

Escrito por PAULO RAMOS às 16h23
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14.08.09

Revista reúne encontros da Turma da Mônica com Michael Jackson

 

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"Turma da Mônica - Maico Jeca" reedita cinco histórias e traz outra inédita, em homenagem ao cantor 

 

 

 

 

 

 

 

 


A morte de Michael Jackson, no dia 25 de junho, ecoou imediatamente na internet. O assunto passou a dominar os temas de sites e páginas de relacionamento.

Um dos que abordaram o tema foi Mauricio de Sousa. O empresário disponibilizou rascunhos de uma história em quadrinhos em homenagem ao cantor norte-americano.

Não demorou para que o trabalho ecoasse virtualmente em sites, blogs e Twitter, rede de comunicação muito usada pelo criador da Turma da Mônica.

Criou-se, então, uma expectativa virtual sobre o lançamento da narrativa, publicada nesta semana nas bancas na revista "Turma da Mônica - Maico Jeca" (Panini, 52 págs., R$ 5,50).

                                                         ***

A história, de dez páginas, encerra a edição especial. Mostra a expectativa da Turma do Penadinho para a chegada do cantor após ter morrido.

A trama imagina pelo roteirista Paulo Back consegue captar o tom de homenagem que havia nos dias que sucederam o falecimento do artista.

Talvez por isso, pela qualidade da história, abriu-se uma exceção. Os autores - Back e o desenhista José Cavalcante - foram creditados, algo que não ocorre nas demais revistas.

E que não ocorreu também nas outras cinco histórias da revista, reeditadas de títulos da Turma da Mônica. Elas trazem encontros com outros personagens.

                                                          ***

Lidas em sequências, as narrativas refletem as mudanças físicas pelas quais o cantor passou ao longo dos anos. Os desenhos só registraram como ele era na época.

É por isso que seria importante a revista pôr o ano em que as histórias foram publicadas pela primeira vez. Ajudaria a situar melhor o leitor em relação ao artista.

Há apenas uma exceção, numa nota de rodapé, que indica ser de abril de 1997 uma das histórias. Mas não é algo que compromete a leitura.

O título deve agradar a quem gosta da Turma da Mônica e do cantor. A obra preserva o tom de homenagem, apesar de ter sido pautada por uma oportunidade comercial.

Escrito por PAULO RAMOS às 16h22
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03.08.09

Álbum francês faz roteiro de cinema ambientado na 2ª Guerra

 

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"Eu Sou Legião" usa narrativa próxima à dos longas-metragens; álbum mostra arma secreta dos nazistas, que controla mentes humanas 

 

 

 

 

 

 

 

O desenhista argentino Alberto Breccia disse, certa vez, que parte dos autores de quadrinhos não haviam se inspirado na linguagem do cinema, mas, sim,  copiado.

A frase é uma das que atesta a tênue fronteira que existe entre as diferentes formas de narrativa: cinema, teatro, literatura, histórias em quadrinhos.

A discussão é antiga, porém sempre atual. E rememorada de quando em quando por conta de alguma história que reduza ainda mais a fronteira entre as linguagens.

Uma delas começa a ser vendida no Brasil. O álbum "Eu Sou Legião" (Panini, 180 págs., R$ 49). Trata-se de um bom exemplo de um thriller feito na forma de história em quadrinhos.

                                                          ***

A sensação durante a leitura é a de estar assistindo a um filme. Contribui para isso a falta de balões de pensamento, o uso do silêncio, os cortes ágeis entre os quadrinhos.

Outra fator que enriquece o tom cinematográfico é o traço realista de John Cassaday, uma das marcas do desenhista norte-americano.

Cassaday é mais conhecido do leitor brasileiro pelos trabalhos feitos nas editoras Marvel e DC Comics, nos Estados Unidos. "Eu Sou Legião" é a estreia dele no mercado europeu.

O álbum foi lançado pela francesa Humanïdes Associés em três volumes - ou tomos, como se chama por lá - entre 2004 e 2007. A versão nacional compila as três partes.

                                                          ***

O roteiro imaginado pelo francês Fabien Nury - pouco conhecido aqui no Brasil - se passa na Segunda Guerra Mundial. Ele cria uma mescla de mistério com ficcção fantástica.

Os nazistas mantêm uma arma chamada Legião. É uma garota - a mesma mostrada na capa do álbum - que consegue controlar mentalmente outros seres, vivos ou não.

Diferentes frentes começa a se organizar para eliminar a menina. Não só dos Aliados, mas também de facções nazistas dissidentes, ligadas à Operação Valquíria.

A operação foi uma das tentativas de derrubar Adolf Hitler. A estratégia se tornou popular no ano passado ao ser abordada em um filme estrelado por Tom Cruise.

                                                           ***

Os eventos do álbum se passam antes da operação real, realizada em 1944. Os acontecimentos ocorrem entre o fim de dezembro de 1942 e os primeiros dias de 1943.

Mas conseguem, mesmo que ficcionalmente, captar o clima da Segunda Guerra e criar uma interessante obra de mistério, construído aos poucos, como no cinema.

A Panini fala deste álbum há bem mais de um ano. Mas, no mercado editorial brasileiro, o leitor já sabe que há de se ter cautela entre os anúncios e a concretização deles.

"Eu Sou Legião" marca uma nova visita da editora pelos materiais europeus. A multinacional havia apostado no setor em 2006. Mas não tinha dado sequência.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h38
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