30.09.09

Indicação de Alienista ao Jabuti revela um outro olhar sobre HQs

A adaptação em quadrinhos do conto "O Alienista", de Machado de Assis (1839-1908), não levou o Prêmio Jabuti deste ano. Os vencedores foram divulgados nessa terça-feira.

Mas a própria escolha da obra numa premiação da Câmara Brasileira do Livro revela muito mais do que a conquista do primeiro lugar, que ficou com o "O Matador", de Odilon Moraes.

Mostra como parte das editoras e dos não-leitores de quadrinhos têm enxergado esse novo momento da área no país, com adaptações aos montes e conquista de espaço em livrarias.

A adaptação não concorreu como obra em quadrinhos. Foi indicada para a categoria "ilustração de livro infantil ou juvenil", um indício de como foi recebida no meio editorial.

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Não se pode obrigar alguém que não lê quadrinhos a entender esse meio, às vezes tão difícil de ser compreendido até por quem está acostumado às leituras sequenciais.

Por isso, é uma visão que deve ser respeitada. Isso, no entanto, não tira o fato de que lê de forma nublada o que seja uma adaptação. Ou até mesmo quadrinhos.

Parte-se de dois pressupostos. Primeiro: uma história quadrinizada é produzida por um roteirista e um desenhista (ou um profissional que acumule os dois encargos).

Segundo pressuposto: por ser uma adaptação, ela transpõe o conteúdo original para uma outra linguagem, de uma outra forma. Não precisa ser, necessariamente, a mesma obra.

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Seguindo essa linha de raciocínio, a versão de "O Alienista" pode seguir - e o fez - o texto machadiano o mais fielmente possível. Mas não deixa de ser uma versão do conto.

No caso em pauta, a leitura que o roteirista Luiz Antonio Aguiar e o desenhista Cesar Lobo - indicado ao Jabuti - fizeram do conto. A obra é mais deles do que Machado.

É aí que entra a visão editorial. É mais interessante destacar, inclusive na capa, o nome do romancista, e não de quem adaptou a obra. Aguiar e Lobo aparecem em letras menores.

Isso quando aparecem. Há casos de outras adaptações, como a de "A Luneta Mágica", de Joaquim Manuel de Macedo, que nem creditam na capa os autores.

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O recurso é compreensível em termos mercadológicos. Machado de Assis e outros romancistas têm um nome mais conhecido, por isso mais atraente para vendas.

E o objetivo, não custa registrar, pauta-se exatamente nas vendas, em particular para as listas governamentais, atual febre entre editoras que nunca publicaram quadrinhos.

Mas a estratégia editorial acaba influenciando o outro extremo do processo: a pessoa que lê tais obras, que não necessariamente está acostumada com quadrinhos.

O mesmo vale para o rótulo "ilustrador" dado a Cesar Lobo no Jabuti. Naquela adaptação, ele não foi ilustrador. Foi desenhista, co-autor do processo de criação.

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Registre-se que não são todas as editoras que fazem isso. A própria Ática, que publicou esta versão de "Alienista", pôs na capa o termo "arte" para o trabalho de Cesar Lobo.

Mas a indicação de ilustrador de livro infantil ou juvenil num prêmio do porte do Jabuti sugere que a obra foi vista como livro infantil, e não como quadrinhos.

Outro caso assim: a mais recente adaptação lançada no mercado, "Iracema em Quadrinhos", também destaca na capa o desenhista, Jão, como "ilustrador".

É uma visão nublada do que seja tanto história em quadrinhos quanto livro infantil. Embora, sabe-se, a fronteira entre as duas áreas esteja cada vez menor.

                                                           ***

Ver tantas adaptações, apesar de nelas haver um claro interesse comercial, não deixa de ser bom. 

Pode ampliar no país o número de leitores, inclusive de quadrinhos, e até fomentar um ensaio de mercado para os autores.

Mas não deixa de ser importante registrar como tais produções têm sido recebidas e lidas por parte do mercado editorial. O lado "quadrinhos" é posto num segundo plano.

Ao mesmo tempo em que sugere um fortalecimento dos quadrinhos, cria uma nova visão sobre eles, bem diferente de como realmente são.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h12
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29.09.09

Ranma 1/2 ganha nova chance no Brasil

 

Ranma 1/2. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mangá voltou a ser publicado neste mês pela editora JBC 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A sobrecarga de mangás nas prateleiras das bancas de jornal brasileiras não significa que todos valham os reais e a atenção do leitor.

Mas há, de quando em quando, um ou outro título que merece uma atenção especial. É o caso de "Ranma 1/2", que começou a ser vendido neste mês (JBC, 186 págs., R$ 10,90).

O mangá ganha uma nova chance no Brasil. A série havia sido iniciada, mas não encerrada, pela Animangá.

A editora publicou as histórias no chamado formato americano, como o das revistas de super-heróis, e com um terço do número de páginas. A JBC relança a trama do início, nos moldes originais.

                                                          ***

"Ranma 1/2" se pauta num dos pilares de muitos contos de fadas: o protagonista é vítima de uma maldição ou feitiço. No caso, maldição.

Ranma Saotome, o personagem-título, cai numa fonte chinesa que fez fama por conta de uma lenda. A água dela transforma os homens em mulheres.

O pai do jovem,  Genma Saotome, também passa por uma mutação ao entrar na fonte ao lado. Sai sob a forma de um panda gigante.

Para pai e filho voltarem ao normal, precisam se molhar com água quente.

                                                          ***

Por mais que os dois personagens tomem cuidado, a autora, Rumiko Takahashi, faz questão de criar situações para que a água fria cruze o caminho de ambos.

A estratégia ajuda a criar um tom humorístico para a série, acentuado pelas situações em que Ranma tem de enfrentar.

Ele é prometido como noivo para a jovem Akane, exímia lutadora de artes marciais, como Ranma. A troca de sexo, iniciada neste primeiro número, cria boas situações cômicas.

Outra parte da graça é criada quando um aluno da escola dos dois jovens, Kuno,  se apaixona pela versão feminina de Ranma.

                                                          ***

A primeira tentativa de publicação da série no Brasil não deu muito certo, tanto que o título foi cancelado.

Pode ser que, na época, não houvesse todo esse ambiente propício para a circulação de mangás no país. Mas merece uma segunda chance.

É um título voltado para adolescentes, que traz uma leitura despreocupada. Despreocupada, mas que diverte e cria boas situações de humor.

A JBC pretende publicar a série todos os meses. Segundo o site da editora, estão programadas 38 edições.

Escrito por PAULO RAMOS às 19h23
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27.09.09

Morte de Super-Homem dificilmente seria a mesma neste novo século

 

A Morte do Superman - Volume 1. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

Série norte-americana é reeditada no Brasil; livro de quase 400 páginas foi lançado neste mês em lojas de quadrinhos 

 

 

 

 

 

 

 

 


A leitura de "A Morte do Superman - Volume 1", relançada neste mês em um livro de capa dura (Panini, 396 págs., R$ 92), esconde muito mais do que a história de fato é.

Houve uma combinação de fatores que ajudaram a tornar a série uma das mais comentadas do início da década de 1990, dentro e fora dos Estados Unidos, Brasil inclusive.

A época em que a sequência de histórias foi lançada , entre dezembro de 1992 e janeiro de 1993, havia um clima editorial pró-personagens mais violentos e menos certinhos.

Também não iam tão bem as vendas das quatro revistas mensais do herói, "Superman", "Superman: The Man of Steel", "The Adventures of Superman" e "Action Comics".

                                                          ***

A soma desses elementos ajudou a criar no público a impressão de que a editora não via futuro num personagem tão politicamente correto. Daí a decisão da morte.

Sabe-se, hoje, que não é verdade. Mas a DC Comics, que publica o herói nos Estados Unidos, soube alimentar tal sensação na mídia pré-internet.

Não demorou para o assunto tomasse as imprensas escrita, televisiva e radiofônica. As matérias, em geral, davam voz à decisão de a editora matar o Super-Homem.

No Brasil, mais de uma publicação abordou o tema, com maior ou menor ceticismo. Chegou a haver disputa acirrada e até briga para conseguir um exemplar original aqui no país.

                                                           ***

O ponto é que o assunto saiu do âmbito do leitor tradicional e chegou até pessoas que normalmente não tinham o hábito de ler quadrinhos, incluindo os do herói, criado em 1938.

Mike Carlin, editor das revistas do herói na época, diz na introdução desta reedição que a ideia inicial não era uma jogada de marketing. Era apenas contornar uma trama abortada.

O grupo de autores - três roteiristas, três desenhistas e um, Dan Jurgens, que acumulava as duas funções - queria casar Clark Kent, alter-ego do herói, com a repórter Lois Lane.

Os dois já haviam iniciado um namoro e firmado noivado em edições anteriores. O plano, no entanto, foi cancelado a pedido da empresa. O motivo: o seriado que começaria na TV.

                                                          ***

"Lois & Clark - As Novas Aventuras do Superman" - nova traduzido no Brasil - estrearia em 1993 e tinha como mote o relacionamento dos dois personagens centrais.

A ideia da empresa seria prorrogar o enlace até que casasse com o momento da série mais propício para isso, o que, de fato, ocorreu poucos anos depois, na TV e no papel.

Uma das alternativas, dada pelo roteirista Jerry Ordway, foi matar o personagem. Ideia aceita, foram traçadas as linhas gerais das sete histórias que culminariam na morte.

Super-Homem iria enfrentar um ser indestrutível, Apocalypse, criado especificamente para a trama. A cena final, mostrada em "Superman" número 75, mostrada a queda de ambos.

                                                          ***

Se a série não tinha de início um interesse marqueteiro, se valer a descrição de Carlin, o desfecho seguramente teve. E foi acentuado pela editora, não só nas entrevistas à mídia.

À morte se seguiu uma nova série, "Funeral para um Amigo", também nas revistas mensais. As oito partes foram reunidas neste livro da Panini, porém com cortes.

Para acentuar o clima de "o herói morreu mesmo", a DC deixou de circular as quatro revistas mensais por dois meses e meio. Isso, claro, atiçou dúvida nos leitores.

A circulação foi retomada em junho de 1993, com a edição 500 de "The Adventures of Superman". As quatro revistas mensais traziam uma versão diferente baseada no herói.

                                                          ***

Uma versão meio homem e meio máquina, um clone adolescente, um negro de armadura com o "s" do homem de aço e um ser enigmático, com um novo visual do uniforme.

A estratégia da editora era cliar um clima de dúvida: Qual dos quatro seria o verdadeiro?

Essas primeiras histórias também foram reunidas no livro. O desfecho da série fica para o segundo volume, sem data de lançamento informada pela Panini.

Mas, de um jeito ou de outro, já se sabe como terminou a história: Super-Homem voltou, como normalmente ocorre no gênero super-heróis, por mais que as editoras neguem.

                                                          ***

A série foi lançada no Brasil pela primeira vez pela Abril, que detinha então os direitos de publicação dos personagens da DC Comics. Saiu num especial, em novembro de 1993.

Esta nova edição traz outra tradução e usa o formato original norte-americano. A revista da Abril foi lançada no chamado formatinho, semelhante ao das revistas infantis.

Ocorreu com a série algo que dificilmente seria repetido hoje com a velocidade da internet. Houve algo assim há pouco com a "morte" do Capitão América, mas em menor escala.

Apesar do marketing, a morte do Super-Homem rendeu uma boa história e um caso editorial que merece ser registrado. Pontos que mais do que justificam uma reedição.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h12
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24.09.09

Realidade e ficção dão tom da melhor coletânea da Allan Sieber

 

 

 

 

 

 

 

 

"É Tudo Mais ou Menos Verdade", que tem lançamentos hoje, no Rio de Janeiro, reúne trabalhos publicados em diferentes jornais e revistas 

 

 

 

 

 


O desenhista Allan Sieber já conta com um pequeno catálogo de coletâneas, a maioria de tiras. Sua nova reunião de trabalhos não desmerece, mas  supera as anteriores.

"É Tudo Mais ou Menos Verdade - O Jornalismo Investigativo, Tendencioso e Ficcional de Allan Sieber" (Desiderata, 128 págs., R$ 49,90), que tem lançamento nesta quinta-feira à noite no Rio de Janeiro, apresenta um diferencial em relação às demais.

Há nas histórias - ou ao menos em parte delas - a presença de um olhar mais pessoal e bem-humorado do autor sobre assuntos dos mais diferentes.

De um safári às favelas cariocas aos desfiles do Fashion Rio. De uma noite no camarote carnavalesco da Brahma às palestras da Flip, em Paraty (a mais recente, feita em agosto).

                                                          ***

A maior parte das histórias curtas da coletânea é de situações ficcionais, previstas no título do álbum. Mas o destaque da obra está na outra parte do título: no jornalismo tendencioso.

A bem da verdade, não se trata de jornalismo. Ou, se for, aproxima-se mais do jornalismo gonzo, modo de narrar popularizado pelo norte-americano Hunter Thompson (1937-2005).

Thompson ia além dos relatos. Participava das histórias que reportava. Registrava suas impressões, sentimentos. Desmontava o mito da objetividade jornalística em favor do eu.

É o que faz Sieber ao registrar suas impressões pessoais - e por isso tendencioso - a respeito do que era pautado. Está aí o sabor dos relatos feitos por ele.

                                                           ***

A proposta dos relatos é transformar Sieber numa espécie de estranho no ninho. Ele tem de registrar situações das quais não faz parte. A contradição em geral é divertida.

Cabe a ele reproduzir no papel fragmentos do que vê e de como vê os momentos presenciados. Com um detalhe: ele explicita o que normalmente fica guardado na memória de cada um.

Um exemplo durante desfile do Fashion Rio: "De repente, um peito de uma modelo escapa do vestido. Ela se mantém impassível. Grande momento. Foi o primeiro desfile que aplaudi".

O tom pessoal pode, às vezes, estar no título, como no relato sobre a Festa Literária de Paraty deste ano. Sieber chamou a história de "A Feira das Vaidades".

                                                           ***

Esta nova coletânea reúne histórias feitas em diferentes publicações, de jornais a revistas como "Playboy", "Sexy", "Trip" e "Piauí". Há também algumas inéditas, feitas aqui e ali.

Nem todas, não custa reforçar, enquadram-se nos relatos pessoais de Sieber. Há material estritamente ficcional e outros, mais autobiográficos, como sua infância religiosa.

Conteúdos tão divergentes ajudam a tornar esta a mais completa coletânea de trabalho do desenhista e, por isso, a melhor. Mas vale avisar as autoridades: é para adultos.

Tanto que uma das histórias é da coletânea "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol", obra adulta levada em maio pelo governo de São Paulo a crianças de nove anos.

                                                         ***

Allan Sieber está envolvido em dois outros projetos: uma adaptação de contos de João do Rio e um piloto para TV da série "Vida de Estagiário". Leia mais na postagem de 14.07.

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "É Tudo Mais ou Menos Verdade - O Jornalismo Investigativo, Tendencioso e Ficcional de Allna Sieber". Quando: hoje (24.09). Horário: das 19h30 às 22h30. Onde: Cinemateque. Endereço: rua Voluntários da Pátria, 53, Botafogo, Rio de Janeiro. Quanto: R$ 49,90.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h38
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14.09.09

Umbigo sem Fundo acentua diálogo entre literatura e quadrinhos

 

Umbigo sem Fundo. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

Capa do livro escrito e desenhado pelo norte-americano Dash Shaw, à venda nas livrarias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há um inevitável estranhamento no primeiro contato com "Umbigo sem Fundo", obra do selo Quadrinhos na Cia. que começou a ser vendido neste mês nas livrarias (R$ 59).

O incômodo inicial é por conta do tamanho do livro: 720 páginas, algo incomum no mercado brasileiro. Fica até a dúvida o produto de 1,1 kg é mesmo um trabalho em quadrinhos.

Assimilada a ideia de que as páginas trazem, sim, quadrinhos, começa um outro - louvável - estranhamento: entender exatamente qual é a proposta da obra.

Tal qual um trabalho literário, traz uma narrativa sobre relacionamentos humanos, pronta a ser descoberta, página após página. E ajuda a instigar o diálogo entre literatura e HQ.

                                                          ***

Sabe-se - ou defende-se - que quadrinhos e literatura compõem linguagens distintas e autônomas. Mas nunca se negou que exista uma forte relação entre as duas áreas.

"Umbigo sem Fundo" ajuda a aproximar essas fronteiras. O modo de narrar a história é semelhante ao lido nos romances ou contos um pouco mais longos.

Há também uma intenção editorial nesse sentido. A lombada do livro, escrito e desenhado pelo norte-americano Dash Shaw, registra que a obra reúne "vários tipos de gêneros".

São listados seis: família, comédia, drama, horror, mistério (este, sublinhado) e romance. Há muito de família e de romance. Pouco do restante.

                                                          ***

A história relata o encontro da família Loony. A reunião foi marcada na casa de praia dos pais, Maggie e David, que decidem se separar após 40 anos de união.

A separação permeia o reencontro com os três filhos - Dennis, Jill e Peter - e com os netos, mas serve também como forma para cada um reavaliar a si próprio e(m) seus relacionamentos.

Não é uma narrativa excepcional, assim como não era "Retalhos", uma das obras que inauguraram o selo de quadrinhos da Companhia das Letras.

Mas ambas apresentam bons relatos ao leitor, acentuados pela forma como são narrados. Ou, como acertadamente queria Will Eisner, tornam-se novelas ou romances gráficos.  

                                                          ***

O debate se quadrinhos são literatura pode avançar se for mudado o foco da análise. Embora autônomas, as duas manifestações artísticas apresentam diálogos.

O que resulta, então, dessa aproximação? Quais são os elementos literários presentes nos quadrinhos e - questão geralmente esquecida - como estes os recriam?

A obra de Dash Shaw ajuda a trazer algumas respostas. Uma delas, a título de exemplo, está em Peter, caçula dos Loony, desenhado com dedos de Mickey Mouse e rosto de sapo.

Seus traços revelam de imediato que ele destoa dos demais familiares. É uma resposta visual à personagem plana - menos complexa - imaginada por E. M. Foster para o romance.

                                                         ***

Há outras soluções próprias, que os quadrinhos recriam a partir do literário, inclusive na temática, mas que ganham outra cor e forma na linguagem em que estão abrigados.

Sístole e diástole, aproximação e fronteira, romance e quadrinhos. Há dualidades entre o literário e o quadrinístico que já passou da hora de serem investigadas.

Os autores de quadrinhos já criaram um catálogo suficiente que justifica um madurecimento entre os dois campos, ora com contribuições estéticas maiores, ora menores.

As páginas criadas por Dash Shaw se enquadram nas contribuições maiores. É um bom exemplo para entender melhor como se dá a aproximação - e a recriação - entre as áreas.

                                                          ***

Nota: Dash Shaw lançou o livro na Bienal do Livro do Rio de Janeiro e participa de um bate-papo sobre a obra em São Paulo nesta terça-feira.

O encontro terá a participação dos brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon. Será às 19h30 na Saraiva Megastore do shopping Pátio Paulista (rua Treze de Maio, 1.947).

Escrito por PAULO RAMOS às 19h10
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13.09.09

Livro relança violência urbana das histórias de Questão

 

Questão - Zen e a Arte da Violência. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

Obra reúne seis primeiras aventuras do herói, publicadas pela primeira vez há 22 anos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu era um adolescente que cursava o segundo ano do colégio quando li pela primeira vez uma história do personagem sem rosto Questão numa das revistas de Batman, da Abril. 

Uma das tramas resistiu ao tempo e ficou colada na memória. Foi publicada no sexto número do título do homem-morcego, de fevereiro de 1988.

O que diferenciava a história era a forma como foi contada. O protagonista era um personagem secundário. O foco narrativo estava em diferentes moradores de Hub City.

Um deles pensava em se matar. Subiu no topo de um prédio e ensaiava pular. Uma lufada de vento acelerou a decisão. Silêncio. Texto do último quadrinho: "ele mudou de ideia".

                                                          ***

Há um inegável convite de nostalgia a releitura da história, relançada no livro "Questão - Zen e a Arte da Violência" (Panini, 176 págs., R$ 49,90), à venda em lojas de quadrinhos.

Aquela narrativa que me marcou é uma das seis da obra, as primeiras do herói Questão, publicadas nos Estados Unidos entre fevereiro e julho de 1987.

A revisão de hoje da leitura de ontem revela que aquela trama que marcou - a quinta da série - continua sendo a melhor desta coletânea. Não por saudosismo. Pela qualidade mesmo.

O atrativo dela permanece: é narrada por fragmentos da vida dos moradores da fictícia cidade norte-americana, envolta em caótica violência por conta da fragilidade do prefeito.

                                                          ***

Hub City tem no prefeito uma marionete. Quem efetivamente comanda é o reverendo Jeremiah Hatch, que procura acentuar a violência para instigar intervenção divina.

Questão e o repórter investigativo Vic Sage, que são a mesma pessoa, exercem em seus diferentes papéis sociais um contraponto à corrupção municipal.

O subtítulo da obra - "zen e a arte da violência" - também se pauta no herói. Derrotado e dado como morto no fim da trama, ele encontra na fiolosofia  marcial um renascimento. 

E volta a enfrentar a truculência urbana de Hub City, com a mesma marca registrada: uma máscara que esconde seus traços faciais e o torna um enigmático homem sem rosto.

                                                          ***

As primeiras histórias do Questão - estas e outras que vieram - foram publicadas no Brasil nas revistas "Batman" e "Caçadores", ambas da Abril, entre 1987 e 1991.

A arte é de Denys Cowan e o texto, de Denny O´Neil, escritor conhecido pelos roteiros de Batman e de Lanterna e Arqueiro Verde na primeira metade da década de 1970.

É um material que justifica relançamento. Pela qualidade e pelo apelo de apresentar o personagem aos novos leitores, que o viram morrer há pouco na minissérie "52", da Panini.

São boas tramas. Mas nada que justifique uma edição tão luxuosa - em capa dura - e, por consequência, cara. As lembranças poderiam ser recuperadas de forma mais modesta.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h45
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09.09.09

Ziraldo vence de goleada partida do Corinthians em quadrinhos

 

Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Todo-Poderoso Timão em Quadrinhos", que relembra fatos e jogadores marcantes nos quase cem anos do Corinthians 

 

 

 

 

 

 

 

Na partida quadrinística entre Ziraldo e a versão em estilo mangá disputada no campo de futebol corintiano, o pai do Menino Maluquinho venceu. E de goleada.

A leitura feita por ele - ou pelo estúdio dele - sobre o time paulista é mais completa e qualitativamente superior ao álbum em mangá lançado em julho, também sobre o clube.

"Todo-Poderoso Timão em Quadrinhos" (Globo, 112 págs., R$ 25), já à venda, traz pequenas crônicas vividas por dois fanáticos pelo time, Mosquete e Mosquetinho, pai e filho.

Este aprende com as memórias daquele sobre o passado de glórias do Corinthians, da fundação em 1910 à conquista dos títulos recentes. O relato ficcional se mescla ao real.

                                                           ***

E, em meio aos passeios nostálgicos, entram no campo dos quadrinhos uma seleção de jogadores que já passaram pelo clube e que marcaram época.

Sócrates, Marcelinho Carioca, Gilmar, Casagrande, Ronaldo. Cada um surge por meio dos relatos, lembrados por conta de feitos ou de títulos que ajudaram a vencer.

O formato narrativo - o do pai corintiano ensinando o histórico do time ao curioso filho - ajuda a aproximar a obra dos leitores mais jovens, que descobrem hoje os feitos de ontem.

E torna mais dinâmica a maneira de apresentar o passado do time ao torcedor, não só o infantil, verdadeiro público-alvo da publicação. Pode agradar até quem prefere outro time.

                                                         ***

O álbum foi planejado para marcar o centenário de criação do time, que será comemorado no ano que vem. Cumpre a pauta, sem dúvida.

E acerta em tudo o que a obra "Timão em Estilo Mangá" errou. A história imaginada pela equipe de Ziraldo tem ritmo, desenho, estrutura narrativa, referências explicadas.

Até no número de páginas e no preço é mais atraente. A forma em estilo mangá foi lançada em dois formatos. O de luxo custava R$ 59,90. O com capa cartonada, R$ 29,90.

Se fosse uma partida, Ziraldo teria ganhado com placar dilatado, de goleada. E o juiz teria dado cartão vermelho para o concorrente em estilo mangá. Por má fé contra o torcedor.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h27
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