26.10.09

Títulos de ontem, novos números de hoje, perspectivas para amanhã

 

Resenhas Independentes 5

 

Quadrinhópole. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Revistas do Quarto Mundo têm tendência de trazer histórias curtas, como na curitibana "Quadrinhópole", lançada neste mês

 

 

 

 

 

 

 

Quando se vê uma dose concentrada de lançamentos independentes numa tacada só, como ocorreu neste mês no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em Minas, é possível perceber com mais clareza coincidências na produção do Quarto Mundo.

Há o ponto comum de partida mais evidente, que é o compartilhamento do mesmo selo - Quarto Mundo -, grupo que reúne há dois anos quadrinistas de diferentes partes do país.

Integrar o grupo permite inserir a revista num modelo autônomo de distribuição, que consegue levar os títulos da diferentes cidades e estados. É algo a não ser ignorado.

Mas há afinidades em pelo menos outro ponto. Há uma tendência de as produções impressas do selo se pautarem em narrativas mais curtas, gerando contos em quadrinhos.

                                                          ***

Como em quase tudo, há exceções. A revista "Nanquim Descartável" serve de exemplo para justificar essa premissa. Os álbuns produzidos pelos mineiros da Graffiti também.

A maioria dos lançamentos do grupo vistos no FIQ, no entanto, seguia a regra. Ora em coletâneas, ora em produções solo ou em duo, eram coletâneas de histórias.

O segundo número de "Pieces" (36 págs., R$ 6), de Mário Cau, traz mais narrativas pessoais, a exemplo da edição de estreia, publicada no primeiro semestre.

A proposta de "Duo" (40 págs., R$ 4) é resumida logo na capa: "três histórias, dois autores, uma antologia". Os dois autores, no caso, são Pablo Casado e Felipe Cunha.

                                                          ***

Nas publicações mais conhecidas, que já tiveram outros números lançados, o molde de apresentar narrativas em quadrinhos curtas já se tornou a marca editorial das revistas.

É o que se vê nas novas edições de "Café Espacial" (60 págs., R$ 6, quinto número), "El Fanzine" (20 págs., R$ 2, segundo número), "Camiño di Rato" (48 págs., R$ 5, pulou do número um para o cinco) e "Quadrinhópole" (48 págs., R$ 5, oitavo número).

Um parêntese sobre a curitibana "Quadrinhópole": o editor dela, Leonardo Melo, havia dito em 2008 na entrega do Troféu HQMix que não iria produzir mais a revista.

Este oitavo número prova que a frase não se sustentou. E que a premiada publicação antologia de grupo voltou. Com narrativas curtas, todas pautadas em ficção científica.

                                                           ***

O Quarto Mundo completa dois anos neste mês. Há até uma festa programada para a próxima sexta-feira, às 19h30, na HQMix Livraria, em São Paulo (na Praça Roosevelt, 142).

A data é propícia para reavaliar a produção do grupo. Há mais pontos positivos que deméritos. Publicar quadrinhos na raça já deveria ser motivo de reconhecimento. E é.

Dizer que há coincidências na forma de produção editorial das histórias, priorizando narrativas mais curtas, não significa que as histórias não sejam bem escritas e desenhadas.

São, sim, embora com nuances entre elas, como é de se esperar. Qualidade o grupo tem.

                                                         ***

O ponto é que o grupo já domina bem esse molde, que deve continuar sendo produzido. Mas já há maturidade profissional para tatear outras áreas, tentar outras experiências.

Uma das áreas que poderiam ser exploradas são as tramas mais longas. É um pouco do que já faz a Graffiti, que produziu quatro álbuns, um deles lançado também no FIQ.

Há a questão do custo, do tempo, da divisão da produção com outros afazeres profissionais. Pesares reais. Afinal, são pouquíssimos os que vivem só de quadrinhos no país.

Mas dois anos autoriza uma reflexão mais aprofundada. Hoje, predominam os contos curtos. Amanhã, quem sabe, narrativas longas. Seria algo tão  revolucionário quanto.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h03
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24.10.09

Revistas Peiote e Beleléu começam com pé direito

 

Resenhas independentes 4


 

Peiote. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

Capa do número de estreia de "Peiote", revista independente mineira que começou a ser vendida neste mês 

 

 

 

 

 

 

 

"Peiote" e "Beleléu" foram produzidas por grupos distintos, de estados diferentes. Mas, coincidentemente ou não, as duas revistas independentes têm pontos comuns.

As duas trazem histórias de diferentes autores. Outra convergência: ambas estrearam no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), realizado neste mês em Belo Horizonte (MG).

Tanto uma quanto outra publicam em papel tiras que destacaram virtualmente: uma nacional, "Desvio", e outra argentina, feita por Kioskerman, um dos seguidores de Liniers.

O principal elo entre as duas publicações, no entanto, é também o principal: tanto uma quanto outra começam com o pé direito, embora se destaquem por caminhos diferentes.

                                                          ***

"Peiote" (64 págs, R$ 10) foi produzida em Belo Horizonte. A revista mineira reúne trabalhos de autores de lá e material de de quadrinistas de outras cidades também.

A lista inclui alguns nomes familiares entre leitores da área, como Jaum - autor da maior parte das narrativas -, Luciano Irrthum, A. Moraes e Jean Okada, criadores de "Desvio".

As tiras ocupam um lugar de destaque: aparecem em duas das 16 páginas coloridas. 

De temática variável, o trabalho da dupla ajuda a compor o tom fantástico da publicação, tema autoproposto por Jaum, que encabeçou o projeto.

                                                          ***

Quem definiu muito bem o papel da "Peiote" foi Wellington Srbek, roteirista do álbum "Estórias Gerais" e um dos autores de destaque no estado.

Na leitura dele, veiculada numa postagem em seu blog, o "Mais Quadrinhos", a publicação sintetiza um momento de renovação do quadrinho mineiro.

De Ziraldo e Henfil até os nomes atuais, as Minas Gerais têm contribuído de diferentes formas para a produção nacional.

Hoje, além da "Peiote", há outro grupo de destaque em Belo Horizonte: o que mantém os álbuns e a revista independente "Graffiti 76% Quadrinhos".

 

Beleléu. Crédito: divulgação

 

 

 

 

Capa de "Beleléu", álbum produzido por autores do Rio de Janeiro 

 

 

 

 

 

 

 

"Beleléu" (84 págs.) tem uma pegada diferente da vista em "Peiote". Sai o fantástico, entre o humor. Às vezes surreal. Mas, ainda assim, cômico.

O álbum carioca é encabeçado por quatro autores: Daniel Lafayette, Eduardo Arruda, El Cerdo (Tiago Lacerda) e Stêvz. É o quarteto que produz a maioria das histórias.

Eles se dividem entre as tiras, cartuns e narrativas curtas apresentadas na publicação, feita toda em cores. O conteúdo é unido pelo humor, mas díspar na temática. 

Apesar disso, o grupo tentou criar dois pontos de contato. Dividiu a obra em duas partes: 1) "a morte é um estado de espírito"; 2) "viver é freestyle".

                                                          ***

O resultado é um produto gráfico bem cuidado, embora divergente no efeito de humor criado.

Além dos quatro autores, o grupo convidou dois quadrinistas argentinos para integrar a edição: Berliac e o já citado Kioskerman, que já sua estreia numa revista brasileira.

Dos dois, Kioskerman é sem dúvida o destaque. Ele ganhou projeção com um blog. Neste mês, parte do material foi reunida em sua primeira coletânea, "Éden".

Assim como ocorreu com "Desvio" em "Peiote", as tiras de Kioskerman captam bem a essência do humor de "Beleléu". Situações cômicas soltas, diferentes umas das outras.

                                                          ***

Há quem defenda que nem tudo o que se produz de forma independente é, de fato, bom. Mas, seguindo esse raciocíonio, o volume aumentariam as chances de qualidade.

Verdadeira ou não, a premissa pode ser perfeitamente aplicada a estas duas novas publicações. Com um adendo: elas se destacam logo na edição de estreia.

Mas há outra máxima sobre a publicação independente. Não basta ter um bom começo. É necessário também dar sequência ao trabalho, de forma regular.

O raciocínio também vale para "Peiote" e "Beleléu". Ambas iniciam com o pé direito, como dissemos linhas acima. O desafio é seguir em frente, sem perder a qualidade.

                                                          ***

Leia nas postagens abaixo resenhas de outros lançamentos independentes do mês.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h58
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23.10.09

Ato 5 faz conto sobre amizade em meio à ditadura militar

 

Resenhas Independentes 3

 

Ato 5. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Revista independente, lançada neste mês, foi produzida pela dupla André Diniz e José Aguiar 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há diferentes formas de mostrar os reflexos que a ditadura militar (1964-1985) teve no país. Uma delas é observar o impacto que o regime teve na vida dos brasileiros.

Foi o caminho percorrido em "Ato 5", revista independente produzida por André Diniz e José Aguiar. A história se centra num trio de amigos: Juan, Gabriel e Lorena.

Os três participam de uma companhia de teatro, obrigada a enfrentar a resistência imposta pela autoridade militar. Em meio a isso, constroi-se um triângulo amoroso entre eles.

Mais do que uma relação de amor, o foco está nos laços de amizade estabelecidos. Amizade que resiste ao período ditatorial e ao tempo.

                                                          ***

A revista foi lançada neste mês no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos). Foi finalizada pouco antes do evento, realizado em Belo Horizonte (MG).

É a segunda parceria entre os dois autores publicada no último ano. A dupla fez "A Revolta de Canudos", que integra uma coleção de clássicos históricos da Escala Educacional.

Fatos históricos são um dos temas predominantes na produção em quadrinhos do eclético André Diniz, que também desenhou alguns de seus trabalhos.

Outro tema é a ditadura brasileira, assunto que pautou parte de suas histórias feitas para o selo Nona Arte, que tinha nele um dos cabeças. É agora retomado em "Ato 5".

                                                         ***

A revista mostra como o regime militar pode afetar diretamente a vida de um grupo de pessoas. Mas é também um relato de superação e da importância do valor da amizade.

Há um pouco disso também na própria concepção da história. Os dois autores produziram a obra do próprio bolso, como tantos outros têm feito no país nos últimos anos.

Mesmo à distância - Diniz no Estado do Rio de Janeiro e Aguiar no Paraná -, conseguiram superar os obstáculos físicos e engrenaram a parceria.

Há diferentes nomes que podem ser dados a todo esse esforço. Um deles é justamente superação. Como a lida na ficção que criaram a quatro mãos.

                                                          ***

Uma curiosidade: a revista, de 32 páginas, custa Cr$ 5. O valor é em cruzeiros mesmo, apesar de cobrado em reais. A brincadeira é para captar o clima monetário da época. 

                                                          ***

Leia resenhas de outros lançamentos independentes do mês:

  • "Foices & Facões - A Batalha do Jenipapo", de Bernardo Aurélio e Caio Oliveira (link);
  • "Saída 3", de Guga Schultze (link).

Escrito por PAULO RAMOS às 16h03
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22.10.09

Ficção científica com final surpresa pauta álbum nacional

 

Resenhas Independentes 2

 

Saída 3. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

Capa de "Saída 3",  obra escrita e desenhada pelo artista plástico e quadrinista Guga Schultze

 

 

 

 

 

 

 

 

Há algumas narrativas que dizem a que vieram nos minutos finais. Um caso recente é o filme "Arraste-me para o Inferno", de Sam Raimi. O longa renasce no encerramento.

Há um quê disso em "Saída 3" (108 págs., R$ 20), quarto álbum da "Coleção 100% Quadrinhos", produzida pelo grupo da revista independente "Graffiti 76% Quadrinhos".

A obra, escrita e desenhada por Guga Schultze, constroi uma trama de ficção científica, tema raro em produções brasileiras mais longas, como esta.

Mas é no final, nas duas últimas páginas, que o autor dá o recado da história e revela o surpreendente motivo de tudo o que o leitor acompanhou até então.

                                                          ***

Claro que o desfecho não será revelado aqui. Omitir a conclusão da narrativa faz parte do acordo não declarado entre leitor e jornalista, algo inerente às resenhas.

O que se pode adiantar é que a história se passa numa região fictícia, dominada por uma força poderosa e maligna, mantida em segredo.

O assunto corre o risco de vir à tona quando um grupo de soldados cai numa armadilha e é obrigado e investigar uma enigmática e mística construção, mantida no deserto.

O contato da equipe armada com o que há nos escuros corredores do local leva aos fatos que serão trabalhados no final.

                                                          ***

"Saída 3" é o primeiro álbum em quadrinhos de Schultze. Antes, havia feito quadrinhos para a mineira Graffiti e outra obra independente, "A Guerra dos Imundos", de 1998.

A visita dele uma narrativa de mais fôlego marca uma boa estreia, tanto no texto quanto nos seus desenhos marcantes, que evidenciam o lado artista plástico dele.

A obra mantém a qualidade vista nos três títulos anteriores da coleção: "Um Dia, Uma Morte", "O Relógio Insano" e "A Comadre do Zé", lançado no início do ano.

O grupo da Graffiti tem acertado na escolha de seus autores e mostra um caminho a ser seguido pelas editoras, que começam a olhar com mais cuidado para produções assim. 

                                                          ***

Leia na postagem abaixo a resenha de "Foices & Facões - A Batalha do Jenipapo", outro lançamento independente deste mês.

                                                          ***

Post postagem (às 22h16): leitores me informam, corretamente, que o preço do álbum é R$ 20, e não R$ 30, como informava. Esta versão da resenha já traz o valor correto.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h06
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20.10.09

Livro resgata episódio histórico pouco lembrado

 

Resenhas Independentes 1

 

Foices & Facões - A Batalha do Jenipapo. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Foices & Facões - A Batalha do Jenipapo", obra produzida por autores do Piauí 

 

 

 

 

 

 

 

 

A leitura de "Foices & Facões - A Batalha do Jenipapo" (200 págs., R$ 30) revela uma série de surpresas. A primeira é a própria obra em si, lançada neste meio de mês.

É uma produção nacional, que ajuda a reforçar a máxima de que há muito mais quadrinhos fora do eixo Rio-São Paulo, principais polos de concentração editorial do país.

Produzida no Piauí, recupera um episódio histórico vivido no estado em 1823: a Batalha do Jenipapo, que dá título ao trabalho.

Pouco lembrado, o conflito ajudou a consolidar a Independência do Brasil, proclamada um ano antes por Dom Pedro no Ipiranga, em São Paulo.

                                                          ***

A Batalha do Jenipapo envolveu piauienses, maranhenses e cearenses. Moradores dos três estados improvisaram instrumentos de luta para barrar o avanço de tropas portuguesas.

O exército era comandado por João José da Cunha Fidié. O objetivo era forçar os brasileiros da região a manterem, à força, o apoio à Coroa e a Dom João.

O sangrento conflito e os motivos que levaram a ele são relembrados em detalhes na narrativa em quadrinhos. O assunto é esmiuçado com calma, o que dá profundidade à obra.

O livro - outra surpresa - consegue, com isso, diferenciar-se de outras produções do gênero, que se preocupam mais com o aspecto didático para vendas a listas governamentais.

                                                          ***

A história em quadrinhos foi produzida com verba do governo estadual e demorou quase um ano e meio para ficar pronta. 

Os autores do projeto e da obra são dois irmãos: Bernardo Aurélio e Caio Oliveira. Este fez a arte; aquele, o roteiro. Ambos integram um núcleo de quadrinhos mantido no estado.

O aprofundamento no assunto, perceptível durante a leitura, possivelmente teve ajuda do lado historiador de Aurélio, formado na área pela Universidade Estadual do Piauí.

Mesmo assim, ele optou por mesclar os fatos com alguns aspectos ficcionais. Parte da narrativa se passa numa fazenda e mostra como se dá a luta entre seus moradores.

                                                          *** 

Numa época editorial em que editoras publicam adaptações literárias e obras históricas como pretexto para gordas vendas ao governo, "Foices & Facões" se diferencia.

A obra mostra que é possível fazer obras assim com qualidade e com o aprofundamento necessário. É um caminho que poderia servir de espelho para futuras produções do gênero.

O conteúdo é acessível, mas não simplificado a tal ponto que transforme a narrativa num retalho fragmentado e vago do episódio histórico e de seus motivos.

E ajuda a relembrar o episódio a brasileiros e, em particular, os do Piauí, que tem na data um dos alicerces históricos do estado.

                                                          ***

A obra é vendida em algumas lojas de quadrinhos de São Paulo e do Piauí. Outra forma de comprar é pelos e-mails: bernardohq@hotmail.com / nucleodequadrinhos.pi@gmail.com

Escrito por PAULO RAMOS às 11h48
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18.10.09

Não é só Mauricio: Bidu também completa 50 anos de carreira

 

Bidu 50 Anos. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Capa do livro "Bidu 50 Anos" foi inspirada no primeiro número da revista do personagem...

 

 

 

 

 

 

 

 

  Bidu 1, da Editora Continental. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

... publicada em 1960 pela Editora Continental; publicação é reeditada na obra comemorativa 

 

 

 

 

 

 

 

 

A comemoração dos 50 anos de carreira do criador da Turma da Mônica convergiu para o livro "MSP 50 - Mauricio de Sousa por 50 Artistas", vendido desde setembro.

A obra - que traz olhares de diferentes desenhistas sobre os personagens de Mauricio de Sousa - acabou ofuscando um outro lançamento feito para marcar a data.

"Bidu 50 Anos" (Panini, 160 págs., R$ 39,90) também foi pensado para celebrar um cinquentenário. No caso, o do primeiro personagem fixo do desenhista e empresário.

O álbum, produzido em capa dura, traz 22 histórias de diferentes momentos do cachorrinho azul: de quando foi criado até os dias atuais. A última narrativa foi feita em mangá.

                                                          ***

A leitura em sequência ajuda a ver como se deu a evolução visual do personagem ao longo das décadas. 

De início, o rosto era mais retangular e do tamanho do corpo. Com os anos, a cabeça ganhou ares proporcionais e um contorno mais arrendondado. 

A estreia de Bidu - e de seu dono, Franjinha - ocorreu em 18 de julho de 1959 no jornal "Folha da Manhã", mesma empresa que hoje publica a "Folha de S.Paulo".

Mauricio dividiu a produção da série com as reportagens policiais, função que tinha no jornal. Aos poucos, surgiram os outros personagens. E os crimes foram abandonados.

                                                         ***

Na introdução da obra, o desenhista diz que o cãozinho foi inspirado em um cachorro que teve na infância, parte dele vivida em Mogi das Cruzes, cidade do interior de São Paulo.

Mas o animal de estimação tinha outro nome: Cuíca. Segundo ele, Bidu surgiu após uma consulta feita entre os colegas da redação.

"Passei uma folha de papel pelas mesas, entre os jornalistas, para que dessem uma sugestão de batismo. O prêmio seria uma garrafa de bom vinho", diz, no texto introdutório.

"O nome Bidu foi indicado por um colega chamado Petinatti. Que não me lembro bem se recebeu o prêmio. Naquele tempo, até uma garrafa de vinho pesava no orçamento."

                                                         ***

A capa desta edição comemorativa é uma releitura do primeiro número da revista "Bidu", de 1960. Foi a primeira publicação de Mauricio de Sousa nas bancas.

A revista é reproduzida em "Bidu 50 Anos", com a mesma ortografia e tratamento editorial de quando foi lançada pela primeira vez pela Editora Continental.

O livro de luxo marca bem como se deu o início da trajetória do desenhista e empresário na área. O que veio depois todo mundo sabe, seja leitor de quadrinhos ou não.

Mais do que um registro comemorativo, a obra é um documento histórico. E, como tal, deveria ter registrado as revistas e o ano de publicação de cada uma das histórias. Faltou.  

Escrito por PAULO RAMOS às 16h54
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14.10.09

Pixu mostra experiência de Bá e Moon no gênero terror

 

Pixu. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Álbum da editora Devir traz nova parceria dos desenhistas brasileiros com os estrangeiros Vasilis Lolos e Becky Cloonan 

 

 

 

 

 

 

 

 

O álbum "Pixu" tem dois fortes cartões de visita: uma indicação ao Eisner Awards, principal premiação dos quadrinhos nos Estados Unidos, e a recente vitória de um dos autores, o paulistano Gabriel Bá, como melhor desenhista norte-americano no Harvey Awards.

Mas, para o leitor brasileiro que acompanha a trajetória dos trabalhos de Bá e do irmão dele, Fábio Moon, a obra da Devir (128 págs., R$ 18,50) tem um outro atrativo.

A publicação mostra uma incursão por um gênero pouco explorado por eles, o terror. Até então, a dupla se pautava em narrativas ancoradas nas pessoas e em seus relacionamentos.

A temática nova mostra que ambos conseguem transitar bem e sem receio por outros terrenos quadrinísticos. Consequência de um amadurecimento profissional, conquistado ao longo dos anos por méritos próprios.

                                                           ***

Já faz alguns anos que Bá e Moon flertam com o mercado norte-americano de quadrinhos. Os dois têm galgado um gradativo destaque, refletido nas várias premiações e indicações conquistadas por lá.

"Pixu" é outro reflexo desse novo momento profissional. A obra foi lançada de forma independente primeiro nos Estados Unidos, em 2008. Agora, chega ao Brasil.

É uma nova parceria com a italiana Becky Cloonan - que vive no Brooklyn - e do grego Vasilis Lolos.

Os quatro - com o brasileiro Rafael Grampá - ja haviam trabalhado juntos na revista "5", premiada no Eisner de 2009 na categoria antologia.

                                                            ***

Esta história de terror é ambientada num enorme casarão, que abriga diferentes pessoas. Aos poucos, todas percebem manchas escuras no entorno de onde estão.

As enigmáticas marcas, aos poucos, começam a afetar a vida delas. E o modo como vivem e agem. Os quatro autores se alternam nos desenhos durante toda a trama.

"A Becky e o Vasilis gostam de Lovecraft, de monstros e vampiros. O Fábio e eu temos medo do escuro, daquilo que você não vê, não sabe o que é, mas imagina. O terror do inomimável", explica Bá em seu blog, o "10 Pãezinhos".

"Foi diante deste suspense em relação aos monstros invisíveis que se escondem nas sombras da nossa imaginação que nasceu o "Pixu"."

                                                           ***

A palavra que dá título à série, como explica a página inicial do álbum, quer dizer "a marca do mal que prenuncia a morte iminente".

O termo sintetiza exatamente o que a trama oferece ao leitor. Mas, por mais que se paute no medo, a obra revela coragem.

Coragem dos autores brasileiros de fazer uma produção diferente da que estão acostumados, buscando experimentar novos caminhos na área.

O resultado é um terror mais psicológico, que tem um lançamento paulista nesta quarta-feira à noite, em São Paulo, na Fnac Pinheiros. A primeira sessão de autógrafos foi na semana passada no FIQ, Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h43
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13.10.09

Tocaia mostra lado quadrinista de Gilberto Maringoni

 

Tocaia e Outros Quadrinhos. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

"Tocaia e Outros Quadrinhos" reúne 14 histórias feitas pelo desenhista entre 1989 e 2002

 

 

 

 

 

 

Gilberto Maringoni é um profissional eclético. Professor de jornalismo, pesquisador, autor de livros-reportagem, arquiteto por formação, doutor em história.

Outra das habilidades dele é a de autor de histórias em quadrinhos. É essa faceta que pauta "Tocaia e Outros Quadrinhos", que ele lança nesta terça-feira à noite em São Paulo (Devir, 112 págs., R$ 45).

O álbum é uma coletânea de 14 narrativas feitas por ele entre 1989 e 2002. A maior parte foi publicada no Brasil. Algumas, em países europeus.

Mais do que uma reunião de histórias, a obra tem uma segunda função: a de apresentar a uma nova geração quem foi Gilberto Maringoni, autor que merece ser (re)descoberto.

                                                          ***

Maringoni é da geração de Lourenço Mutarelli, Marcatti, André Toral. Autores que viveram a duras penas a tarefa de publicar quadrinhos nacionais no país na década de 1990.

Esta coletânea é uma metonímia desse processo. Basta observar algumas das revistas onde as histórias foram publicadas: "Kyx-93", "Lúcifer", "Panacéia", "Metal Pesado".

São publicações que tiveram uma saúde editorial diferenciada, umas duraram mais, outras menos. Mas todas tiveram o mesmo fim terminal, como em geral ocorria na época.

Mas, em meio à UTI editorial que eram os quadrinhos nacionais adultos de então, conseguiam-se resultados muito bons. As histórias de Maringoni comprovam isso.

                                                          ***

O autor faz contos em quadrinhos. Narrativas curtas, porém pontuais, críticas, atuais apesar da distância de tempo de quando foram publicadas.

Maringoni tentou agrupar as histórias por temas, de modo a dar uma espécie de unidade à leitura. Não precisava. O tema urbano, às vezes biográfico, domina o conteúdo delas.

Talvez por influência da formação de arquiteto, formado pela Universidade de São Paulo, o cenário urbano aparece com maior ou menor destaque em seus contos.

Nas de maior destaque, tornam-se o tema central do conto. Como no de abertura, em que o viaduto do Minhocão, em São Paulo, cruza o apartamento de um dos moradores.

                                                         ***

Chargista, Maringoni tem centrado seus últimos trabalhos em quadrinhos nesse gênero. Por isso, ainda é pouco conhecido por uma nova geração.

"Tocaia e Outros Quadrinhos" ajuda a trazer as histórias dele a novos leitores e também a pessoas que normalmente não costumam ler histórias em quadrinhos.

Mesmo para quem já leu as produções dele aqui e ali, todas esparsas, a leitura em sequência ajuda a revelar nuances comuns entre os roteiros, agora redescobertos.

Maringoni é um autor acima da média, como revelam estes contos. O momento editorial é mais tranquilo que o dos 90. Quem sabe ele resolva apostar novamente na área.

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Tocaia e Outros Quadrinhos". Quando: hoje (13.10). Horário: das 18h30 às 21h30. Onde: livraria Martins Fontes. Endereço: Avenida Paulista, 509.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h00
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05.10.09

MSP 50 lança novo olhar aos antigos personagens de Mauricio

 

MSP 50 - Mauricio de Sousa por 50 Artistas. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

Capa do livro em homenagem ao pai da Truma da Mônica, obra que tem um segundo lançamento nesta semana em Belo Horizonte 

 

 

 

 

 

 

 

Se você tivesse carta branca para fazer uma leitura pessoal dos personagens criados por Mauricio de Sousa, o que você faria? E o principal: como faria?

Essas duas perguntas sintetizam a proposta de "MSP 50: Mauricio de Sousa por 50 Artistas", livro feito para homenagear o meio século de carreira do criador da Turma da Mônica. A publicação tem lançamento nesta quarta-feira, em Belo Horizonte (MG).

A obra traz cartuns, tiras e quadrinhos feitos por um rol plural de desenhistas e roteiristas nacionais. Tão plural que dificilmente seriam reunidos num outro projeto em quadrinhos.

Mas é exatamente esse raro tom eclético um dos sabores da publicação. O outro é ver como cada um dos autores interpretou as criações de Mauricio.

                                                           ***

A ideia de mesclar diferentes autores, cada um com uma versão pessoal de dado grupo de personagens, na verdade, não é nova, como já lembra a introdução de "MSP 50".

"Asterix e Seus Amigos" e "25 Anos do Menino Maluquinho", para ficar em dois exemplos, já haviam usado o recurso. Mas o interesse não está na ideia, e, sim, no resultado.

E o resultado apresentado no livro faz jus à - merecida - homenagem a Mauricio de Sousa. É o único autor nacional que criou um mercado próprio e o manteve por décadas.

Além de criador, é um empresário bem-sucedido, que tem demonstrado novo fôlego editorial após a troca da Globo pela Panini. "Turma da Mônica Jovem" é uma das provas disso.

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Como toda reunião de histórias, vai haver quem goste mais de determinada história e menos de outra. Por isso, destacar uma delas esbarra necessariamente na subjetividade.

Mas podem-se encontrar duas tendências entre os trabalhos: ou a narrativa faz uma homenagem explícita a Mauricio ou ajusta o foco em situações dos personagens dele.

Em comum, o fato de serem leituras pessoais pautadas nas criações dele. Parte dos desenhos já havia circulado pela internet antes mesmo da finalização da obra.

Blogs de desenhistas - amplificados pelo megafone virtual chamado Twitter - já traziam os primeiros esboços de como fariam suas histórias. Isso acentuou a expectativa pelo projeto.

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O homenageado do álbum é um dos motivos para comprar a obra. Mas a publicação tem outros 50 motivos para atrair a atenção do leitor. São eles:

Laerte, Rodrigo Rosa, Flávio Luiz, Gilmar, Daniel Brandão, Lélis, Antônio Éder, Cau Gomez, Laison Cavalcanti, Fido Nesti, Julia Bax, Orlandeli, Ivan Reis, Baptistão, Mascaro...

... Fábio Yabu, Jean Galvão, Raphael Salimena, Benett, Fábio Moon, Gabriel Bá, João Marcos, Jean Okada, Otoniel Oliveira, José Aguiar, Angeli, Samuel Casal, Fábio Lyra...

... Osmarco Valladão, Manoel Magalhães, Antonio Cedraz, Erica Awano, Luciano Félix, Gustavo Duarte, Fernando Gonsales, Vinicius Mitchell, Fernandes, Rafael Sica, Spacca...

... Wander Antunes, Fabio Cobiaco, Ziraldo, Christie Queirza, Dalcio Machado, Jô Oliveira, Guazzelli, Laudo, Marcelo Campos, Renato Guedes, Vitor Cafaggi.

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Como dito, um grupo eclético e plural, de diferentes gerações, que dificilmente seria reunido numa obra em quadrinhos, ainda mais num mercado que ainda não estimula tal encontro.

Além de a obra servir de homenagem, funciona também como cartão de visitas para autores ainda desconhecidos do grande público.

Seria interessante reunir todos num mesmo lugar para um lançamento. A obra já teve uma primeira sessão de autógrafos no mês passado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

Mauricio faz um segundo lançamento na próxima quarta-feira, às 17h, no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em Belo Horizonte. O FIQ tem início nesta terça-feira.

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Serviço - Lançamento de "MSP 50 - Mauricio de Sousa por 50 Artistas". Quando: quarta-feira (07.10). Horário: 17h. Onde: FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos). Endereço: Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG). Endereço: Avenida Afonso Pena, 1.537. Quanto: capa dura (R$ 98); capa cartonada (R$ 55).

Escrito por PAULO RAMOS às 11h40
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