30.11.09

Atenção autoridades do ensino! Novo livro de Will Eisner à venda

 

Assunto de Família. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Assunto de Família", obra do quadrinista norte-americano que começou a ser vendida neste mês

 

 

 

 

 

 

Prezadas autoridades de educação.

Ocupo este espaço para alertar os senhores que começou a ser vendido neste mês em lojas de quadrinhos o livro "Assunto de Família", de Will Eisner.

O autor norte-americano é o mesmo das obras que, neste ano, causaram escândalo em escolas brasileiras, em particular de cidades do sul do país.

Uma delas - vejam só - trazia alusão a cenas de sexo.

A editora que publica este álbum, a Devir, de São Paulo, também é a mesma que lançou os outros cinco trabalhos do desenhista incluídos no PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), do governo federal.

O programa, desnecessário lembrar aos senhores, compra lotes de livros e de quadrinhos para formar bibliotecas em escolas de todo o país.

A exemplo dos demais, "Assunto de Família" aborda temas delicados da realidade.

Neste livro, vejam, o tal assunto são discussões familiares em torno da herança do patriarca, à beira da morte, preso a uma cadeira de rodas.

É ele mostrado no canto esquerdo da capa. Os filhos aparecem à direita, discutindo. Numa das cenas, uma personagem dá até uma explícita bofetada no marido, bêbado.

Ah, antes que me esqueça: há sexo também.

Contei as cenas, para facilitar o trabalho dos senhores e da imprensa, ávida por usá-las como pauta de matérias: há três cenas assim ao longo das 80 páginas da obra (nas páginas 32, 33 e 48).

Uma delas sugere uma relação incestuosa. Outra, relação entre um homem com a cunhada. A terceira mostra seios.

Dado o teor da narrativa, percebe-se que é um tema real.

Por isso, acredito que os senhores queiram deixar de fora do universo educacional brasileiro, ainda baseado na visão utópica do mundo.

Para encerrar, gostaria de registrar que o livro custa R$ 23, caso alguém queira analisar.

Sem mais, Paulo Ramos.

Escrito por PAULO RAMOS às 16h12
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24.11.09

Qual é a graça? O humor na imprensa escrita - I

Fui convidado a fazer nesta terça-feira a conferência de abertura da 3ª Jornada do Grupo de Pesquisas Discursos na Mídia Escrita, realizada na PUC-SP.

Achei interessante registrar também por aqui o conteúdo da conferência. Segue o texto, intitulado Qual é a graça? O humor na imprensa escrita:

                                                         ***

A entrada do século 21 pôs em discussão o papel do jornal. O debate se baseia na migração real de leitores para a plataforma virtual. Um exemplo disso pode ser visto na Folha de S.Paulo, periódico de maior circulação no país nesta década. O jornal reduziu em 35 mil o número de exemplares impressos entre 2002 e 2008. Passou de 346.333 em 2002 para 311.287 no ano passado. Os dados são da ANJ, Associação Nacional de Jornais.

Apesar da circulação menor, estima-se que o número de jornais diários no Brasil tenha aumentado no mesmo período. Passou de 523, em 2002, para 673, em 2008, uma vez mais de acordo com informações da ANJ. São exatos 150 periódicos a mais.

O impacto do jornalismo virtual ante a tradição do impresso, como dito, está em processo de discussão. Discussão, inclusive, dentro das próprias empresas jornalísticas. Folha e Estado de S. Paulo já consolidaram a leitura das páginas de suas edições impressas na tela do computador. O acesso é permitido mediante assinatura, como na versão em papel.

Mas, independentemente da perda de leitores e de volume de impressão, e ante à real reavaliação de seu papel, vê-se que os jornais ainda cumprem hoje uma função importante na sociedade e no processo de circulação de informações, como os números ainda evidenciam. A manutenção do jornal representa também a permanência do rol de gêneros que a publicação agrega em suas páginas, do editorial às reportagens, da charge às tiras cômicas.

Está nos dois últimos, nas charges e nas tiras cômicas, o interesse deste nossa exposição. Os dois gêneros humorísticos têm e tiveram nos jornais um suporte histórico de fixação de seus modos de produção e de circulação entre um público geralmente ignorado quando se trata de história em quadrinhos: o adulto, e não a criança, vista ainda como sinônimo de leitora de quadrinhos aqui no Brasil.

A proposta neste espaço é rever, de forma sucinta, a trajetória das charges e das tiras nos jornais brasileiros, de modo a recontar uma outra história da história em quadrinhos no país, a que dialoga diretamente com o suporte chamado jornal. 

Antes de avançar a discussão, ou melhor, de retroceder os exemplos até os jornais do século 19, é necessário esclarecer o que entendemos por história em quadrinhos, charge e tira cômica. Em A Leitura dos Quadrinhos, livro de nossa autoria publicado neste ano pela Editora Contexto, temos postulado que diferentes gêneros utilizam recursos comuns de uma linguagem própria da qual bebem suas produções. A saber: 

  • como dito, diferentes gêneros utilizam a linguagem dos quadrinhos
  • predomina nas histórias em quadrinhos a seqüência ou tipo textual narrativo
  • as histórias podem ter personagens fixos ou não
  • a narrativa pode ocorrer em um ou mais quadrinhos, conforme o formato do gênero
  • em muitos casos, o rótulo, o formato, o suporte e o veículo de publicação constituem elementos que agregam informações ao leitor, de modo a orientar a percepção do gênero em questão
  • a tendência nos quadrinhos é a de uso de imagens desenhadas, mas ocorrem casos de utilização de fotografias para compor as histórias 

Vemos que diferentes gêneros – entendidos aqui na definição clássica do russo Mikhail Bakhtin, de que "são tipos relativamente estáveis de enunciado" – dividem características comuns, sem, com isso, perder sua singularidade. Ocorre comportamento semelhante ao que o linguistica Dominique Maingueneau nomeou de hipergênero. O termo é visto pelo autor como um rótulo que daria as coordenadas para a formatação textual de vários gêneros, que compartilhariam tais elementos. Maingueneau cita o caso do diálogo, que estaria presente em vários e diferentes gêneros autônomos.

Entendemos que exista o mesmo comportamento com os quadrinhos, lidos aqui como um hipergênero que teria elementos comuns compartilhados por diferentes gêneros. Vemos as charges e as tiras cômicas entre eles, posto que ambas utilizam os elementos comuns pontuados há pouco. Unidas pela linguagem, singularizam-se pelo processo e modo de produção e de recepção. 

A charge é um texto de humor que aborda algum fato ou tema ligado ao noticiário. De certa forma, ela recria o fato de forma ficcional, estabelecendo com a notícia uma relação intertextual. Os políticos brasileiros costumam ser grande fonte de inspiração. Não é por acaso que a charge costuma aparecer na parte de política ou de opinião dos jornais, espaço privilegiado dessas publicações. Um exemplo:

 

 

A charge em questão foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo na edição de sábado passado, dia 21 de novembro. O humor dialoga com a notícia do lançamento do filme "Lula, o Filho do Brasil", que está às vésperas da estreia. Para construir o sentido pretendido pelo autor, o leitor tem de acionar uma série de informações: que o homem de barba caricaturado no desenho é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ele está numa sala de cinema, que a pessoa que o repreende com um puxão de orelha é a atriz Glória Pires, que interpreta a mãe dele no longa-metragem e que, por isso, teria, em tese, autoridade para castigá-lo por alguma malandragem que tivesse feito. Cabe ao leitor e ao noticiário recente sugerirem o motivo da repremenda.

Note que o efeito de humor está ancorado numa informação atual, do noticiário, veiculada ou não pelo jornal onde a charge foi impressa. Essa data de validade, por assim dizer, que a atrela ao discurso jornalístico, é o que singulariza o gênero charge em relação aos demais. Observe que teríamos maior dificuldade para entender outra charge, publicada em outra época, por conta da falta de detalhes da época. Um casso assim:

 

 

A figura representada é o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, candidato à sucessão ao primeiro mandado de Lula em 2006. Perdeu justamente para Lula. A charge faz alusão à queda nas pesquisas e à distância, cada vez maior, de ele conquistar a vaga presidencial. Alckmin é mostrado como um tucano, ave símbolo dos partidários do PSDB, a qual era e é filiado. O político olha para o céu e faz um pedido a uma estrela vermelha, justamente a marca do partido de Lula, o PT. "Oba! Uma estrela, vou fazer um pedido". O inusitado da situação – Alckmin ter de fazer um pedido à estrela do Partido dos Trabalhadores – é o que levaria ao efeito de humor pautado na corrida presidencial.

Voltando ainda mais no tempo, será que conseguiríamos recuperar as informações que pautaram este desenho?

 

A volta ao passado parou entre os anos 1926 e 1930, período em que Washington Luís esteve à frente do cargo de presidente da República. Para bem compreender a charge, o leitor deve reconhecer a figura dele no canto esquerdo do desenho, feito por J. Carlos, um dos mais proeminentes autores da primeira metade do século 20 no Brasil. O texto verbal escrito, abaixo do desenho, está um pouco apagado. Traz o seguinte diálogo:

  • Washington Luís – O que é que vocês estão fazendo?
  • Os ministros Lara Castro, Otávio Mangabeira, Viana de Castelo, Adolfo Konder, Pinto da Luz, Serzedelo Passos e Oliveira Botelho – Nós estamos pensando.
  • Washington Luís – Não é preciso. Deixem isso comigo. Eu penso.

A charge foi publicada no jornal O Malho, em 27 de novembro de 1926. A data precisa ajuda o leitor deste século 21 a afunilar um pouco mais o sentido. Trata-se do primeiro ano do mandato de Washington Luis, 12 dias após sua posse. É possível que o fato a que faz menção o desenho de humor seja a centralização que ocorreu na época, vista como uma forma de pôr a casa em ordem após um período político instável no país. Uma leitura mais precisa deveria estar atrelada aos exemplares dos jornais da época. Quanto aos ministros, é necessária uma pesquisa iconográfica para confirmas os rostos de cada um mostrados na charge.

Agora, a tira cômica.

O formato é tão presente na composição da tira que foi incorporado ao nome do gênero. A mais conhecida e publicada é a tira cômica, também chamada por uma série de outros nomes: tira diária, tirinha, tira de humor. Por ser a mais difundida, muitas vezes é vista como sinônimo de tira. É a que predomina nos jornais brasileiros – e também da maioria dos países.

A temática atrelada ao humor é uma das principais características do gênero tira cômica. Mas há outras: trata-se de um texto curto (dada a restrição do formato retangular, que é fixo), construído em um ou mais quadrinhos, com presença de personagens fixos ou não, que cria uma narrativa com desfecho inesperado no final. Alguns jornais têm fixado também um formato um pouco alargado, equivalente a "dois andares" de tira.

Em outro estudo, feito em doutorado defendido 2007 na Universidade de São Paulo, procuramos mostrar que o gênero usa estratégias textuais semelhantes a uma piada para provocar efeito de humor. Essa ligação é tão forte que a tira cômica se torna um híbrido de piada e quadrinhos. Por isso, muitos a rotulam como sendo efetivamente uma piada. Um caso: 

 

 

A tira de Angeli, Chiclete com Banana, foi publicada em junho deste ano no jornal Folha de S.Paulo. Mostra a divagação de um autor, que vive um "vácuo criativo", por não escrever há meses nenhuma produção literária. Ele conclui: "O vazio também é literatura". E, assim, surge um novo movimento literário. O final inesperado, pautado na contradição de um movimento literário ser baseado no vazio, é o que leva ao efeito de humor.

Os jornais brasileiros já tiveram também outros gêneros de tiras, as seriadas ou de aventuras, as cômicas seriadas e, mais recentemente, um modo de produção novo, não baseado no humor. Mas, dada a predominância das tiras cômicas, ajustaremos o foco nelas nesta exposição.

                                                          ***

Continua na postagem abaixo.

Escrito por PAULO RAMOS às 03h16
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Qual é a graça? O humor na imprensa escrita - II

 

Continuação da postagem anterior.

                                              ***

Tanto a charge quanto as tiras cômicas permanecem em circulação nos jornais brasileiros, em maior ou menor grau. Há quem priorize tiras nacionais, quem circule apenas material estrangeiro (mais barato), quem nem isso faz, caso do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, que cortou todas as tiras em dezembro do ano passado por contenção de gastos. Outros jornais publicam apenas charges. E há que as ignoram por completo.

Mas, numa observação em perspectiva dos gêneros presentes nos jornais, charges e tiras são costumeiramente evidenciadas. É o que faz, por exemplo, Luiz Antônio Marcuschi em Produção Textual, Análise de Gêneros e Compreensão, livro de 2008. Marcuschi vê nos jornais um dos casos de suporte, que abrigaria em suas páginas uma gama de gêneros, entre os quais cita história em quadrinhos e charge, que seriam usados também pelas revistas. O linguista define suporte como um locus físico ou virtual com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do gênero materializado como texto.

Tanto tiras como charges têm no jornal um suporte privilegiado, que dialoga com leitores de maior poder aquisitivo (pelo preço do exemplar ou da assinatura) e, em tese, mais críticos. Os dois gêneros têm acompanhado os jornais desde seu surgimento no país, no século 19. Costuma-se credenciar a primeira charge a uma edição do Jornal do Commercio, de 1837. Desde então, tem passado, edição após edição, jornal após jornal, por um processo de cristalização do gênero como o conhecemos hoje.

Esse processo de consolidação geralmente não é incluído entre as obras que recuperam o surgimento dos quadrinhos no país. Se entendemos que charge é um dos gêneros de um hipergênero quadrinhos, pelos motivos expostos há pouco, temos de inseri-la obrigatoriamente nessa trajetória. E essa inclusão traz um consequência direta: a formação de um leitor adulto. Configura-se, então, o que Maingueneau, uma vez mais citado aqui, chamou de estabelecimento de parceiros legítimos.

Maingueneau defende que um gênero do discurso (termo usado por ele) não se limita apenas à organização textual, embora seja um de seus elementos. Há outras características, igualmente pertinentes e definidoras: finalidade, lugar e momento onde ocorre, suporte material ou mídium (televisão, diálogo, rádio, jornal), o estabelecimento de parceiros coerentes com a situação (o autor chama de "parceiros legítimos"). Neste último caso, acrescenta que o locutor e o interlocutor travam um contrato comunicativo, uma espécie de jogo, e que exercem papéis definidos na situação comunicativa.

Trava-se então, desde o século 19, um contrato entre autores das charges e seus leitores de que se trata de um texto adulto, em particular pela temática abordada. Tem sido assim até hoje. Ou seja: a história da história em quadrinhos não foi formada apenas por leitores juvenis, discurso que também tem sido herdado até este século, em particular na imprensa, nas escolas e entre autoridades de ensino.

As causas da "infantilização" dos quadrinhos passam pelas tiras cômicas, mas não são causadas exclusivamente por elas. A exemplo do que ocorreu com as charges, elas surgiram e se consolidaram nas páginas dos jornais. Se Bakhtin via nos gêneros uma estabilidade relativa, na virada dos séculos 19 para o 20 as tiras buscavam um norte que as tornasse estáveis. Isso pôde ocorreu nos periódicos norte-americanos do começo do século passado.

O que as particularizou inicialmente foi a temática cômica – nos Estados Unidos, os quadrinhos são chamados até hoje de comics – e o formato fixo, que permitia que uma mesma história fosse vendida a mais de um jornal. O sistema comercial permitia aos autores e, principalmente, às empresas distribuidoras, chamadas Syndicates, faturar com base num mesmo produto. Do ponto de vista dos diagramadores dos jornais, bastava deixar um espaço fixo para ser preenchido pela tira.

O modelo de produção foi consolidado pelos jornais e proliferou nos Estados Unidos, na América do Sul e na Europa. Pelos preços baixos, os donos da imprensa escrita brasileira optaram durante décadas pelas produções estrangeiras.

Na década de 1930, Adolfo Aizen e Roberto Marinho descobriram no filão uma leitura que agradava aos mais jovens. A estratégia era reunir o maior número de tiras estrangeiras – cômicas e de aventuras – e publicá-las nas páginas de um tablóide, tamanho equivalente ao de um jornal dobrado no meio. Foi uma febre. As vendas ajudaram o jornal carioca O Globo, de Marinho, a se manter firme no mercado pelas décadas seguintes.

Criava-se, por meio dos suplementos que tinham nas tiras um de seus principais gêneros, um segundo pacto entre parceiros legítimos: o leitor, agora, eram as criançase os mais jovens. Muitos passaram a ver essa forma de leitura como algo "nocivo" (reforço o uso das aspas no termo). Discursos vindos das escolas, da Igreja e de autoridades procuraram vincular, a partir da segunda metade da década de 1940, os quadrinhos à marginalidade, criminalidade, à preguiça mental.

Gonçalo Júnior, no livro O Mocinho do Brasil – A história de um Fenômeno Editorial Chamado Tex, publicado neste ano, reproduz pesquisa do Ibope realizada em 1954 no Rio de Janeiro e em São Paulo. O instituto fez a seguinte pergunta: 

  • na sua opinião, as histórias em quadrinhos são prejudiciais ou, pelo contrário, são inofensivas à educação das crianças? 

Respostas. No Rio de Janeiro, 58% disseram que sim, que são prejudiciais.

Em São Paulo, o índice foi maior: 75%.

Detalhe: a própria pergunta já traz o pressuposto de que quadrinhos seriam leitura apenas de crianças.

Mas já estavam estabelecidos nesse momento histórico do país dois públicos leitores de quadrinhos: o adulto, que acompanhava as charges e algumas tiras esporádicas nos jornais diários, e o infantil, que tinha nos suplementos e, depois, nas revistas em quadrinhos os suportes para seus diferentes gêneros, entre eles as tiras cômicas. Geralmente, os resgates históricos deixam de lado esse leitor adulto.

As revistas, que se consolidaram na década de 1950, passaram a priorizar histórias mais longas, algumas organizadas a partir de uma sucessão de tiras seriadas. Com isso, as tiras cômicas voltaram-se uma vez mais aos jornais. Em 1959, um delas começava uma trajetória de sucesso junto ao público infantil. A Folha da Manhã, hoje Folha de S.Paulo, estreava as tiras de Bidu e Franjinha, de Mauricio de Sousa. Nos anos seguintes, surgiram Cebolinha, Cascão e, por fim, Mônica. A série ganhou também as bancas a partir de 1970 e se consolidou também como tira em diferentes jornais brasileiros.

As produções underground norte-americanas e a ditadura militar ajudaram a lembrar a todos, uma vez mais, que os quadrinhos tinham feito um pacto de leitura com os adultos. Os títulos alternativos influenciaram alguns autores daqui e instigaram revistas independentes durante a década de 1970. A maior influência, no entanto, é creditada ao jornal O Pasquim, um das vozes mais eloquentes de resistência ao período ditatorial.

O jornal alternativo começou a circular em 1969 e tinha um time até hoje de destaque na área: Jaguar, Henfil, Paulo Francis, Ziraldo, Millor, entre outros. O suporte priorizava gêneros do humor. Figuravam charges, tiras, quadrinhos. Todos dialogavam, não custa reforçar, com o leitor adulto. A maior parte das revistas em quadrinhos de então, com crianças.

Fora da imprensa alternativa, leia-se fora do Pasquim, alguns jornais de diferentes partes do país também publicaram tiras voltadas ao leitor mais crítico. Parte delas trazia questionamentos à situação social e política do país, entre as quais podemos citar Rango, As Cobras (mostradas abaixo), O Pato e Zeferino.

 

 

O Pasquim e o movimento underground são vistos como dois dos fatores que influenciaram a produção de tiras e de outros quadrinhos pouco antes da abertura política e também depois dela. No caso específico das tiras nacionais, elas encontraram nos cadernos de cultura um locus de publicação que permanece até hoje. O Jornal do Brasil e, principalmente, a Folha de S.Paulo ajudaram a tornar mais críticos e sociais os temas por elas abordados, outro sinal de diálogo com o público mais maduro.

No caso da Folha, um dos propulsores da mudança foi a inclusão das tiras de Chiclete com Banana, de Angeli, em 1983. Depois vieram Geraldão, Níquel Náusea, Piratas do Tietê, Aline. No caso específico de Geraldão, houve um exemplo peculiar para medir o nível de liberdade editorial pós-ditadura. O personagem, de início, usava uma cueca samba canção de bolinhas. Aparecia quase sempre segurando a cueca para que não caísse. Depois, passou a ser desenhado com uma tarja preta para cobrir seu sexo. A tarja, em dado momento, foi eliminada. É como mostram as três tiras a seguir:

 

 

 

 

Começo a fechar as idéias recuperando o que pautou esta exposição. Os jornais têm servido de suporte histórico para dois gêneros dos quadrinhos que dialogam diretamente com o humor: as charges e as tiras cômicas. A relação entre elas e os periódicos é tão enraizada que surgiram nas páginas do jornal e até hoje se expõem nelas.

Outro ponto que procuramos demonstrar é que ambas, por serem publicadas em um suporte lido por leitores adultos, dialogam com pessoas mais críticas e maduras, e não com crianças. A estas restam, não custa registrar, os cadernos infantis e alguns casos publicados na seção de tiras entre o material adulto. Isso exige uma correção na história da história em quadrinhos e traz ao menos uma consequência prática: quadrinhos são lidos por adultos, aqui no Brasil, pelo menos desde o século 19. Ainda hoje é assim, embora geralmente se esqueça disso.

O discurso que tem predominado na sociedade brasileira é justamente aquele visto nas décadas de 1940 e seguintes, o de que quadrinhos são voltados ao leitor juvenil, com ou sem conteúdo "nocivo" (nocivo, aqui, lido uma vez mais entre aspas). Foi esse discurso o visto na imprensa em maio deste ano, quando o livro em quadrinhos Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol, voltado ao leitor adulto, foi selecionado e comprado pelo governo estadual paulista para ser levado a alunos de nove anos. O governo assumiu a falha e a obra foi recolhida.

Mas a imprensa e o governo circularam um discurso de estranheza sobre o fato de a obra ter conteúdo adulto, como palavrões. Trecho de reportagem do telejornal SPTV 2ª Edição da Rede Globo: a obra é em quadrinhos, mas o conteúdo não tem nada de infantil. O mesmo comportamento foi percebido, semanas depois, com a obra Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço, do norte-americano Will Eisner. Voltada ao leitor adulto, foi selecionada pelo governo federal para ser incluída em bibliotecas escolares destinadas a alunos do ensino médio. O jornal Agora, do grupo Folha, estampou na capa que a obra trazia cenas de pedofilia. Uma menina se insinuava ao zelador do prédio onde mora para, depois, envenenar seu cachorro e roubá-lo. O zelador se mata. Nada disso foi dito nas reportagens. O livro chegou a ser recolhido em escolas de diferentes cidades do sul do país.

Enquanto isso, em meio à polêmica, os mesmos jornais que noticiaram o caso circulavam charges e tiras em suas páginas e desconsideravam os dois gêneros nessas reportagens. O suporte jornal funcionou como uma espécie de escudo para barrar a reação social, como se não fossem gêneros dos quadrinhos. Muito disso foi apoiado no prestígio de que os jornais ainda gozam, cmomo expusemos no início desta exposição.

Temos dito em outras oportunidades que é necessário iniciar nas universidades brasileiras um adiado e já tardio estudo linguístico-discursivo das histórias em quadrinhos. Há muitas perguntas ainda e poucas respostas científicas. Um ponto que temos defendido é que é necessário fixar a idéia de que há quadrinhos infantis e quadrinhos não infantis. É uma distinção feita pela literatura infantil na década de 1980, quando esta era rotulada de leitura marginal (termo usado por Marisa Lajolo e Regina Zilberman).

Outro ponto é entender os diferentes gêneros que compõem o que temos chamado de hipergênero quadrinhos, ancorados em Maingueneau. Tal clareza é necessária para não incorrer em imprecisões como a vista na prova do vestibular da Fuvest, realizada no último domingo. Os organizadores de uma das questões do maior vestibular do país chamaram uma tira cômica de Calvin e Haroldo de charge, termo usado duas vezes no enunciado: 

 

 

A confusão não comprometia a resposta do vestibulando. Mas evidencia desconhecimento da área dos quadrinhos e de seus gêneros. Assim como é fruto de desconhecimento a associação dos quadrinhos somente ao leitor infantil. Não é, como procuramos demonstrar. A solução para tais discursos, ainda sólidos na sociedade brasileira, passa pela academia e pelas pesquisas que dela resultarem.

Espero que estas palavras tenham trazido alguma contribuição nesse sentido.

Escrito por PAULO RAMOS às 03h14
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17.11.09

Novo álbum de Asterix prioriza homenagem e esquece aventura

 

O Aniversário de Asterix & Obelix - O LIvro de Ouro. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

"O Aniversário de Asterix & Obelix - O Livro de Ouro" marca os 50 anos de criação da série francesa 

 

 

 

 

 

 

 

 


Uma das marcas dos álbuns de Asterix é estamparem no título o tema da aventura vivida pelo corajoso gaulês e seu parceiro Obelix. Ironicamente, a obra que comemora os 50 anos de criação do personagem deixa de lado justamente essa característica da série francesa.

"O Aniversário de Asterix & Obelix - O Livro de Ouro" (Record, 56 págs., R$ 25,90) abandona a narrativa temática e divide a história em pílulas de homenagens. É o que une os diferentes momentos desenhados, apresentados de forma fragmentada ao leitor.

O álbum começa, por exemplo, imaginando como seriam os gauleses se tivessem envelhecido nesses 50 anos. A ideia, depois, é abandonada após um encontro com Albert Uderzo, um dos criadores da série e autor deste álbum.

A partir daí, tem início uma sucessão de homenagens isoladas, com algumas referências a personagens secundários que apareceram nos outros 42 livros da coleção, todos já publicados no Brasil.

                                                          ***

Este álbum chegou às livrarias brasileiras na última semana, um mês depois de ser lançado na França e em outros países. A escolha da data não foi aleatória. Foi em outubro de 1959 a estreia da primeira aventura de Asterix.

A história inaugural começou a ser publicada na revista "Pilote". Foi escrita pelos criadores da série, os franceses René Goscinny e Albert Uderzo. Goscinny, responsável pelos textos, morreu 18 anos depois.

O parceiro passou a assumir também a escrita da série desde então. Costuma-se dizer que essa nova fase teve uma sensível perda de qualidade nos roteiros.

Mesmo com as críticas, os álbuns continuaram a ser produzidos com sucesso, dentro e fora da França. Algumas das histórias foram adaptadas em filmes e animações.

                                                          ***

O sucesso da série esteve muito pautado no carisma da dupla central, Asterix e o gorducho Obelix, e na criatividade dos desenhos e dos roteiros. A estrutura inicial criada por Goscinny foi tão marcante que permaneceu após sua morte.

Essa estrutura tinha como marca uma aventura que pautava a ação dos gauleses. Característica que se perdeu neste álbum comemorativo.

Priorizar as homenagens a Asterix e Obelix tornou este "livro de ouro" um estrangeiro em meios aos demais. Ou, nos termos da série, um romano dentro da vila dos gauleses.

Asterix é o principal personagem do quadrinho francês e um dos principais do mundo. Dada a importância, merecia comemoração à altura, o que este álbum não faz. Nas homenagens de 50 anos marcadas neste 2009, o nosso Mauricio de Sousa se deu melhor.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h43
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02.11.09

Mangá de Caça-Fantasmas mantém clima do desenho animado

 

Os Caça-Fantasmas - Ghostbusters. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Obra é inspirada na franquia iniciada no cinema e está à venda em lojas de quadrinhos 

 

 

 

 

 

 

 


"Os Caça-Fantasmas  Ghostbusters" não é o primeiro caso de releitura de filme ou de história em quadrinhos vertida em mangá. Mas é o caso mais recente lançado no Brasil.

A obra chegou nas últimas semanas às lojas de quadrinhos (NewPOP, 180 págs., R$ 14) e é mais um produto baseado na franquia iniciada no cinema.

A base são os personagens dos dois longas-metragens dirigidos por Ivan Reitman, exibidos em 1984 e 1989. O clima do mangá, no entanto, é da versão animada da série.

Os desenhos - já exibidos pelas TVs daqui, também com sucesso - traziam versões cartunizadas de Peter, Ray, Egon e Winston, o quarteto central dos filmes. 

                                                          ***

Não há na versão em quadrinhos o fantasma verde Geleia, personagem que se tornou tão popular quanto os protagonistas. Tanto que ganhou, depois, série própria.

Mesmo assim, as situações criadas para os quatro caçadores de fantasmas lembram muito o que era visto na animação. Um primeiro ponto de diálogo é ver os heróis desenhados.

Outro ponto de contato é um ar mais ingênuo e bem humorado que segue as três histórias da obra, divididas em diferentes capítulos e por autores distintos.

Na primeira, eles têm de participar de uma peça teatral mal-assombrada. Na última, enfrentam o mundo da moda.

                                                          ***

A história intemediária é a que mais destoa das anteriores. E, talvez por isso, a melhor das três. Os caça-fantasmas são capturados, um a um, por um antigo adversário.

Um dos heróis consegue driblar a captura e fica com a tarefa de resgatar os demais. Essa fórmula de aventura é antiga, inclusive nos quadrinhos. Mas funciona no mangá.

O apelo da obra, no entanto, é outro: reviver a memória das crianças de ontem adultos de hoje, que assistiram aos desenhos e ficaram cantarolando por um tempão a música tema dos filmes, cantada por Ray Parker Jr (se não sabe do que se trata, a obra não é para você).

É o mesmo apelo que a editora usou no mangá de "Speed Racer", com as histórias que pautaram a série. O interesse é esse, o saudosismo. Não muito mais do que isso.

                                                         ***

Nota: a NewPOP também pôs à venda um outro mangá. "El Alamein e Outras Batalhas" (244 págs., R$ 14,90) traz diferentes histórias ambientadas na Segunda Guerra.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h04
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