28.12.09

Zoo põe humanos como vítimas de maus-tratos dos animais

 

Zoo, capa um. Crédito: divulgaçãoZoo, capa dois. Crédito: divulgação

 

 

 

Álbum de Nestablo Ramos Neto foi lançado neste mês e tem duas versões de capa 

 

 

 

O subtítulo do álbum "Zoo" resume com precisão a proposta da obra: "em um mundo onde os humanos são os animais, ainda há quem lute por eles".

Lançado neste mês (HQM, 136 págs., R$ 34,90), Zoo se passa num espaço ficcional geograficamente não revelado. Lá, os animais são racionais e estão no poder.

Nesse mundo invertido, são os humanos que estão à merce dos bichos. São mantidos em cativeiro, criados pelos animais e até vítimas de maus-tratos.

A troca de papeis é a forma que Nestablo Ramos Neto, autor da obra, encontrou para demonstrar que é necessário proteger a vida animal em nosso mundo nada ficcional.

                                                         ***

A preocupação como esse lado de conscientização é expressada logo nas primeiras páginas. Uma das dedicatórias é a "toda vida animal, nossos irmãos e maior riqueza".

Também no início da obra, o autor dá destaque a uma lista de cinco páginas virtuais de grupos de de proteção da vida animal. Só então é que a história realmente começa.

A metáfora ancorada na inversão de papeis é o que pauta toda a narrativa. Os personagens e as situações criadas são o instrumento para alcançar essa meta.

Na trama, há dois grupos antagônicos. Num lado, uma equipe formada por animais que se preocupam com o bem-estar dos humanos. Do outro, bichos que abusam da vida humana.

                                                          ***

Os abusos aos humanos, uma vez mais, procuram lembrar como parte destes age com os bichos no nosso mundo real.

Não é por acaso que a história começa com um "Zoo Fashion Week", evento em que algumas das modelos desfilam com polêmicos adereços humanos, como dentes e orelhas.

Por mais incômoda que pareça ser a cena, há sempre a pulga atrás da orelha de que nossos Fashion Week têm top models com peles de animais.

Entender o Zoo ficcional é nos lembrar de como se age no mundo real.

                                                          ***

Nestablo Ramos Neto cria uma narrativa de mistério e aventura, mas preocupada em alertar sobre os maus-tratos recebidos pelos animais, vistos na metáfora aos humanos.

Produzido com duas versões de capa - uma com o nome da obra escondido atrás das imagens -, o álbum termina com um gancho para uma sequência, ainda sem confirmação.

Carioca de nascimento e hoje morando em Brasília, o autor tem na manga outro álbum, "Zona Zen". São histórias sobre relacionamentos humanos, que publica em seu blog.

A obra deveria ter sido publicada neste ano pela editora Bossa Nova, que adiou o projeto de títulos nacionais de quadrinhos. Tudo indica que deva sair pela HQM.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h45
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25.12.09

Yeshuah faz relato humanizado da vida de Cristo

 

Yeshuah - Assim em Cima Assim Embaixo. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 


Obra foi escrita e desenhada por Laudo Ferreira Jr. e começou a ser vendida neste mês 

 

 

 

 

 

 

 


É uma dupla coincidência resenhar numa data como hoje o álbum "Yeshuah - Assim em Cima Assim Embaixo", lançado neste mês (Devir, 160 págs., R$ 23).

A primeira coincidência está na data em si. O dia 25 de dezembro marca o nascimento de Jesus Cristo, que tem a trajetória narrada no álbum nacional, feito por Laudo Ferreira Jr.

O segundo ponto comum é a proximidade do final do ano, época propícia para reavaliar quais foram as melhores publicações.

Num ano rico de bons títulos nacionais, a obra de Laudo traz uma história madura e pesquisada, que a põe no topo da lista dos trabalhos nacionais lançados neste 2009.

                                                          ***

O projeto de Yeshuah começou a ser pensado em 2000. O autor buscava um novo desafio, um projeto que permitisse ousar mais no processo de criação.

Encontrou na vida de Jesus Cristo o foco de sua história em quadrinhos. Dividiu os anos seguintes entre os trabalhos profissionais e a pesquisa para a  narrativa.

"A idéia desse quadrinho é contar uma versão da história de Jesus sem uma tendência religiosa e nem satírica, crítica ou qualquer coisa assim que é comum acontecer", disse o autor ao blog, em entrevista em agosto de 2008, primeira vez em que o projeto foi noticiado.

"A história é apresentada dentro de uma versão livre, porém baseada numa extensa pesquisa que venho fazendo ao longo desse tempo."

                                                          ***

A pesquisa incluiu de obras canônicas a textos apócrifos. As fontes bibliográficas foram listadas no fim do livro. Vistas em conjunto, revelam uma investigação ecumênica.

O Cristo mostrado em suas páginas é ancorado nesses estudos. Mas é também objeto de um olhar pessoal, em particular nos diálogos criados e nas reações dos personagens.

Cristo e as demais figuras bíblicas também são mostrados de forma intencionalmente humanizada, tanto no vestiário, sujo e diferente da visão católica, quanto nas atitudes.

Maria, por exemplo, se questiona ao saber que está grávida do salvador. A dúvida seria própria da juventude. Na visão católica, ela teria dito "eis aqui a serva do Senhor".

                                                         ***

O álbum é o primeiro de uma trilogia, que chegou a ser anunciado por outra editora, a HQM. O livro narra a história de Cristo até ele se descobrir filho de Deus, após ser batizado. 

Este volume inicial está mais centrado nos nascimentos de Maria, de João Batista e, por fim, de Cristo.

Ou melhor: de Miriam, de Yohanán, de Yeshu, como os três são chamados na obra, respectivamente. O autor optou por usar os nomes do hebraico. Yeshuah, título do álbum, significa "salvação". Deus é Adonai.

Os termos e seus correlatos ocidentais aparecem num glossário ao final do álbum. As versões foram feitas com a ajuda de uma tradutora.

                                                         ***

Ironicamente, Laudo Ferreira Jr. pensou a obra sacra no mesmo ano em que criou a fogosa Tianinha, personagem que publicou até este ano em revistas eróticas.

Há dois anos, o quadrinista tem direcionado seus projetos para trabalhos mais pessoais. Um deles são quadrinhos com histórias dos músicos do Clube da Esquina.

"Yeshuah - Assim em Cima Assim Embaixo" é, sem dúvida, sua obra mais autoral. Laudo conseguiu verter nela o amadurecimento que buscava, tanto no texto quanto nos desenhos.

A obra revela um Cristo diferente do mostrado, o que, por si só, já justificaria o interesse pela obra. É um trabalho que faz por merecer o topo da lista dos melhores de 2009.

                                                          ***

Nota: aproveito para desejar a todos um feliz e santo Natal.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h24
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22.12.09

Fracasso de Público faz crítica ao mercado editorial dos EUA

 

Fracasso de Público - Heróis Mascarados e Amigos Encrencados. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do primeiro volume da série, escrita e desenhada pelo norte-americano Alex Robinson  

 

 

 

 

 

 

 

Rotular o álbum "Fracasso de Público - Heróis Mascarados e Amigos Encrencados" (Gal, 240 págs., R$ 38) como um romance gráfico implica que o conteúdo dialogue com conflitos pessoais de alguma ordem. De fato, há tais conflitos.

Mas a obra tem uma outra preocupação. Usa os frustrados personagens centrais para fazer uma ácida crítica ao mercado editorial dos Estados Unidos, em particular o de quadrinhos.

Há na voz protagonistas traços autobiográficos do autor, o norte-americano Alex Robinson. Abandonou um emprego numa livraria para se dedicar à criação de quadrinhos.

A vida na livraria é o trauma de Sherman Davies, um dos personagens, um escritor sem vez nas editoras. Ed Velasquez, seu melhor amigo, é um quadrinista sem sucesso.

                                                          ***

O fracasso privado, e de público, de Sherman e Ed pontuam o tom crítico ao mercado editorial. Nenhum dos dois encontra lugar ao sol no acirrado mundo dos publishers.

Há, ao menos neste primeiro volume, uma atenção especial do autor em cutucar as grandes editoras de quadrinhos. A crítica se dá via Ed e do rabalho que conseguiu arrumar.

Ed se torna assistente de um ex-autor de quadrinhos, o idoso Irving Flavor, criador do super-herói Nightstalker. É uma espécie de Batman, criado décadas atrás.

Nightstalker se tornou a galinha dos ovos de ouro da editora que o publica. Teve até bem-sucedidas versões para o cinema. O senão é que Flavor não recebe nada por isso.

                                                          ***

Um editor de uma revista sobre quadrinhos voltada a fãs - algo como a norte-americana "Wizard" - descobre a história e se propõe a contar.

A entrevista concedida por Flavor ganha destaque natural nas páginas finais do álbum. E funciona como uma caricatura do que muitos autores reais viveram nos Estados Unidos.

Para quem gosta de quadrinhos, essa sequência é saborosa, está cheia de referências. A dúvida é se o não leitor da área - um dos públicos-alvo da obra - vai entender os diálogos.

Mas tanto um leitor quanto outro vão perceber que estão nos fracassos editorias de Sherman, Ed e Flavor o real alvo das críticas da obra, que está  apenas no primeiro volume.

                                                          ***

Independentemente de quem seja o leitor, há na obra alguns recursos narrativos que a singularizam e, por si só, justificariam um olhar mais acurado na publicação.

Dois deles, a título de exemplificação. Os personagens centrais são apresentados logo na primeira página. Cada um diz quem é antecipa, de forma vaga, seu papel na trama.

Outro recurso são as sucessivas sobreposições de vozes, com um balão cobrindo o outro. O recurso não é novo. Mas é próprio da linguagem e de difícil reprodução num romance.

A editora anuncia nas páginas finais do álbum o segundo volume, intitulado "Fracasso de Público - Desencontro de Titãs". O texto diz que será publicado em breve.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h22
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Necronauta traz contos maduros sobre herói do além

 

Necronauta. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Coletânea de histórias do personagem brasileiro começou a ser vendida na virada da semana 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Houve um momento, na década de 1980, em que as histórias de super-heróis deram um salto qualitativo e se tornaram mais maduras, voltadas também ao leitor adulto.

São dessa época minisséries como "Batman - O Cavaleiro das Trevas", de Frank Miller, e "Watchmen", de Alan Moore e Dave Gibbons, adaptada para o cinema neste ano.

Esse amadurecimento foi um caminho sem volta no mercado norte-americano. Foi oficializado em selos editorais próprios - como o Vertigo, da DC - e se mantém até hoje.

Todo esse preâmbulo é para contextualizar a coletânea de histórias de Necronauta, personagem brasileiro que transita justamente nesse universo adulto dos super-heróis.

                                                         ***

"Necronauta - O Soldado Assombrado e Outras Histórias - Volume 1" (HQM, 88 págs., R$ 29,90), lançado no fim de semana, reúne os cinco números da revista do herói.

São contos curtos, em preto-e-branco, publicados de forma independente entre novembro de 2007 e setembro de 2008.

A obra traz também uma história inédita no Brasil, publicada em abril deste ano em uma antologia da Image Comics, nos EUA. É a única narrativa em cores do personagem.

Criado por Danilo Beiruth - inexplicavelmente creditado apenas em uma discreta assinatura na capa do álbum -, Necronauta tem a função mórbida de levar os mortos ao além.

                                                          ***

Mas não são quaisquer mortos. São pessoas que, por um motivo ou outro, permanecem em uma espécie de limbo, uma região transitória do pós-morte.

Cada história funciona como um conto. Um conto maduro, ao estilo do que se passou a ver nas tramas de super-heróis adultas do mercado norte-americano.

Tal qual Sandman, de Neil Gaiman - outro exemplo desse amadurecimento -, Necronauta é quase um personagem secundário nas narrativas. O foco está em quem ele vai ajudar.

Pode ser um ex-soldado preso ao batalhão, uma garotinha mantida pelo pai, também morto, um escalador de montanhas preso ao sonho de chegar ao topo.

                                                          ***

Beiruth assina três dos seis contos. Os outros foram escritos por Stephen Lindsay, Marcelo Briseno Melo e Luiz Costa Pereira Junior, editor da revista "Língua Portuguesa".

O quadrinista planeja um segundo volume. Falta apenas criar mais material. Mas não é a meta para os próximos meses. A prioridade é finalizar outro álbum, "Bando de Dois".

"Bando de Dois" será publicado pela editora Zarabatana e foi um dos dez selecionados deste ano do edital paulista de incentivo à produção de histórias em quadrinhos.

Este e os futuros álbuns ajudam a dar a merecida visibilidade ao autor, até então restrito ao circuito independente. E dá a ele a chance de ser descoberto por novos leitores.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h11
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21.12.09

Álbum de Ex-Machina finaliza história iniciada pela Pixel

 

Ex-Machina - Fato vs. Ficcção. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Obra marca volta da série norte-americana à editora Panini, a primeira a lançar o título no Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Há um dito no país que sugere ser pertinente, às vezes, dar um passo para trás para avançar dois à frente. Foi um pouco disso o que a editora Panini fez com Ex-Machina.

"Ex-Machina - Fato vs. Ficcção" (146 págs., R$ 19,90), à venda em lojas de quadrinhos desde a virada de semana, reedita parte da história para dar sequência a ela.

Explico melhor: uma das tramas do título norte-americano, "Fato vs. Ficção", havia sido iniciada no ano passado pela Pixel, última editora a publicar a  série no Brasil.

O porém é que a aventura ficou sem fim com o cancelamento da revista "Pixel Magazine", que lançava Ex-Machina. Faltava um capítulo para encerrar a história. A Panini corrige isso.

                                                         ***

Ex-Machina integra a Wildstorm, um dos selos adultos da norte-americana DC Comics, a mesma de Batman e Super-Homem, linha que a Panini começou a publicar neste ano.

A série mostra um ex-super-herói, a Grande Máquina, que desistiu da carreira de aventuras para assumir a prefeitura de Nova York. O dia-a-dia político é o mote das histórias.

Em "Fato vs. Ficcção", Mitchell Hundred, o prefeito, é selecionado para integrar um júri popular. Ele deveria usar a oportunidade para mostrar que segue a lei. Mas dá errado.

Outro dos selecionados quer que Hundred use seus poderes - manipular qualquer tipo de máquina - para curá-lo de um mal que só ele enxerga. Do contrário, mata uma vítima.

                                                          ***

Em paralelo, um fantasiado se passa pela versão heroica do prefeito. A Pixel publicou as histórias até esse ponto, correspondente ao número 13 da revista norte-americana.

A Panini finaliza a sequência e avança até a edição 16, que mostra o encontro de Hundred com a mãe. O roteiro é de Brian k. Vaughan e os desenhos, de Tony Harris.

A obra, na verdade, marca uma volta de Ex-Machina à Panini. Foi a editora que publicou a série pela primeira vez no Brasil, num álbum lançado em outubro de 2005.

A Pixel continuou do ponto onde a série havia parado, primeiro numa minissérie em três partes, depois na revista "Pixel Magazine", cancelada no fim do ano passado.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h46
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20.12.09

Ponto de vista do fã pontua biografia sobre Michael Jackson

 

Eternamente Michael. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

"Eternamente Michael", lançada neste mês, foi produzida por autores brasileiros em estilo mangá 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É muito tênue a linha que separa o tributo do fã da exploração pura e simples quando o assunto é Michael Jackson. Morto em 25 de junho,  continua vivo. Ao menos na mídia.

Equilibra-se nessa linha o álbum "Eternamente Michael - Biografia em Mangá", lançado neste mês (Seoman, R$ 26,90).

Produzido por brasileiros, narra a trajetória do cantor com o olhar do fã, lado assumido pelos dois roteiristas, os paulistas Ledo Vieira e Joice Castilho (não creditada na capa). 

Por mais bem intencionada que seja a proposta, ela não deixa de beber da mesma fonte explorada por tantos após a morte do astro norte-americano.

                                                          ***

A leitura mostra que é trabalho de fã para fã. Ou, no máximo, vale a quem se interesse em conhecer um pouco mais sobre a vida do cantor. Mas com os fatos simplificados.

O álbum recria - os diálogos ficcionais provam isso - os pontos focais que marcaram sua trajetória musical, iniciada na infância com o Jackson Five, formado com os irmãos.

Destaque natural do grupo, ele passa gradativamente a tatear a carreira solo, até se firmar fora da trupe. A obra sugere músicas dele para ouvir em cada etapa da leitura.

A publicação procura recriar todas essas etapas, inclusive mostrando a relação tensa com o pai e empresário. Termina com a descoberta de que é portador de vitiligo.

                                                         ***

Tal qual os quadrinhos japoneses, o final em aberto cria o suspense para o número seguinte, que deverá vir no ano que vem. A capa já anuncia que este é o "volume um".

O recurso de produzir a história em mangá  - os desenhos são de Fabio Shin e Rafael Kirschner - ajuda a aproximar o trabalho do lado comercial.

O estilo tem tido boa aceitação no mercado brasileiro e foi usado até por Mauricio de Sousa na composição da "Turma da Mônica Jovem", que mostra seus personagens na adolescência.

Apesar do aspecto mercadológico, é trabalho de fã. Essa opção atenua os erros cometidos pelo cantor. Ou, quando muito, os filtra. E leva a história para o mundo de Neverland.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h30
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15.12.09

Minami Keizi sabia que tinha pouco tempo de vida

O jornalista e pesquisador Gonçalo Júnior conhece como poucos a vida e a trajetória profissional de Minami Keizi, morto na segunda-feira.

Nos contatos regulares que mantinha com ele, Gonçalo ficou com a impressão de que o editor de quadrinhos sabia que tinha pouco de vida. Mostrava-se debilitado a cada conversa.

O blog convidou Gonçalo a comentar um pouco dessa relação dele com Minami.

O relato, gentilmente aceito, transformou-se nesta preciosa descrição sobre o editor.

                                                         *** 

Conheci Minami em 1992, quando eu morava em Salvador e o contatei por telefone para que me respondesse um longo questionário, pois meu trabalho de conclusão do curso de jornalismo que fiz na Universidade Federal da Bahia seria sobre a Edrel e a Grafipar, duas editoras que se destacaram por publicar quase exclusivamente material nacional e de sexo durante a ditadura militar e que, na minha opinião, foram projetos editoriais de vanguarda.

Em pouco tempo, recebi um calhamaço datilografado com longas respostas, no qual ele revelava em detalhes a história de sua até então esquecida editora. Eu soubera da Edrel por Antônio Cedraz (criador das tiras da Turma do Xaxado). Minami publicara seus primeiros cartuns em "Garotas e Piadas" por volta de 1964 e me encantara com seus gibis.

Trocamos cartas e nos falamos por telefone durante três anos. Quando me mudei para São Paulo, em 1997, procurei-o para uma longa entrevista ao vivo, pois pretendia transformar meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) em livro - que resultaria no "Guerra dos Gibis" 2.

Passei um dia inteiro em sua casa. Seus filhos estavam fora e ele, gentilmente, fez um delicioso almoço para nós, mostrou-me seu arquivo, falou dos mais de 1,5 mil livros que escrevera com dezenas de pseudônimos, principalmente sobre astrologia. Falava disso sem queixa, com a elegância de quem não olha para trás e chora o leite derramado. Não se achava vítima de ninguém.

Esse contato resultou em mais dois almoços – um deles, no centro de São Paulo. Trocávamos livros, revistas. E sempre deixávamos numa loja de ponta de estoque na Luz, que pertencia a uma amiga sua. Sempre nos falávamos por e-mail e telefone. Pelo menos uma vez por semana. Às vezes, dez vezes num único dia.

Cuidei para a Opera Graphica da edição do livro que tanto gostaria de publicar sobre a pornochanchada no Brasil e que não conseguiu ver pronto. Afinal, Minami fora o editor da revista "Cinema em Close-UP", que circulou de 1974 a 1979 e é considerada a bíblia do gênero.

Nos comunicamos assim até o começo do ano, quando comecei a receber e-mails melancólicos e com longos espaços de tempo. Minami sabia que tinha pouco tempo de vida. Falava dos amigos que tinham partido e dizia que sua hora estava próxima, que perdera o interesse pela vida, que estava cansado. Ficara muito debilitado por causa de um derrame que o deixara parcialmente paralisado em 2004. Estava arrasado com a morte de Cláudio Seto no ano passado.

Em agosto deste ano, Thyago Mendonça, diretor do curta-metragem "Minami em Close-Up", vencedor do Festival de Brasília do ano passado, ligou-me
para perguntar sobre ele. O filme ia ser lançado - na mesma noite da entrega do Troféu HQMix - e ele queria muito convidá-lo. Estava preocupado
com seu silêncio. Só muitos dias depois, soubemos pelo filho que ele tinha passado um longo tempo internado por causa de problemas renais.

Em setembro, falei com ele e fiquei deprimido. Sua voz não passava de um fio de som distante, tristonho, sem esperança. Ele se esforçava para explicar que estava com sérios problemas de saúde. Ofegante, muito ofegante.

Vou sentir muita falta dele, dos conselhos, das sábias observações sobre o comportamento humano, das maravilhosas histórias que contava da Boca do Lixo, das batidas que a Polícia Federal fazia em seu apartamento em busca de pornografia – como rotulavam suas revistas.

Eu não conseguia acreditar que pudesse haver um ser humano tão generoso. Um dia, Minami me ligou e pediu para “maneirar” no livro com um ex-sócio, o mesmo que lhe tomara a Edrel em 1972. Disse que eram coisas do passado e que mágoas não deveriam ser guardadas, fazia mal ao coração. Depois, confessou que o mesmo o havia procurado em busca de perdão, arrependido. O sujeito estava em dificuldades financeiras e Minami produziu uma série de revistas, sem remuneração, para ajudá-lo.

Chamava-me de mestre e cada palavra sua expressava um imenso carinho, atenção e respeito. Confiou-me sua vida, sua história, suas confissões, seus documentos de vida. Jamais quis saber o que eu estava escrevendo. E ligava para contar alguma história nova que havia se lembrado. E eu dizia: “Mas, Minami, vou ter de reescrever o capítulo de novo. Por favor, não me conte mais nada”. E ríamos.

Eu estava empenhado em conseguir um advogado para requerer junto ao Ministério da Justiça uma aposentadoria para ele como vítima da ditadura que foi. Ele deixou comigo papéis que mostram como 28 revistas suas foram canceladas por ordem da censura, o que o levou à falência. Todo este material estará no livro. Consegui dois advogados, mas estava à espera de uma reunião com ele. Minami adiou várias vezes porque não conseguia mais se locomover.

Por causa da ditadura, perdeu tudo. Inclusive seus imóveis. Vivia muito modestamente, tinha de continuar escrevendo, mesmo com as limitações físicas causadas pelo derrame. Não foi pior porque contou com a ajuda de queridos amigos como Carlos Casamata, Carlos Mann, Franco de Rosa e Fausto Kataoka, que nunca o abandonaram.

Não quero aqui aproveitar a morte de Minami para falar do meu livro. O propósito é exclusivamente usar a oportunidade para lembrar que este sim foi um cara importante para os quadrinhos brasileiros e merece ser citado dessa forma e sua morte lamentada. Minami não apenas introduziu o mangá no Ocidente vinte anos antes dos americanos.

A Edrel foi um laboratório para uma brilhante geração de jovens artistas, a maioria descendentes de japoneses, que exploraram todas as potencialidades dos mangás no auge da contracultura, capitaneados por Minami, Claudio Seto, Fernando Ikoma e Paulo Fukue.

E quero aqui também expressar, no espaço oferecido por este Blog, o sentimento pela partida de um querido amigo do qual não me afastarei jamais. Mesmo que pela lembrança e pela saudade.

                                                          ***

O livro a que Gonçalo Júnior se refere no texto é "Maria Erótica e o Clamor do Sexo - Gibis, Pornografia e Censura na Ditadura Militar (1964-1985)", programado para 2010.

A obra pretende contar a trajetória das editoras Edrel e Grafipar e terá Minami Keizi e Cláudio Seto, morto no ano passado, como personagens centrais.

A publicação será uma sequência de outro livro do jornalista, "A Guerra dos Gibis - A Formação do Mercado Editorial Brasileira e a Censura aos Quadrinhos (1933-64)".

Escrito por PAULO RAMOS às 19h44
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12.12.09

Álbum recria Fausto, de Goethe, na Estação da Luz

 

Estação Luz

 

 

 

 

 

 

 

Obra de Guilherme Fonseca e Renoir Santos começa ser vendida neste fim de semana 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Estação da Luz é uma das tantas contradições paulistanas. Ao mesmo tempo em que dialoga com a cultura, é palco dos passos frenéticos de quem toma diariamente os trens.

A estação ferroviária conserva uma arquitetura do fim do século 19 e hospeda o Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em 2006. Mas mantém a antítese social de quem pouco tem e consegue superar a constrangedora barreira do pedir.

Foi nesse cenário de opostos que foi criado o roteiro de "Estação Luz", álbum nacional que começa a ser vendido em lojas de quadrinhos neste fim de semana (Devir, 80 págs., R$ 25).

A história faz uma recriação livre do Fausto, de Goethe (1749-1832). Tal qual a obra clássica do escritor alemão, há um pacto demoníaco em prol de perspectivas melhores na vida.

                                                          ***

O Doutor Fausto, culto e douto no livro alemão do começo do século 19, é atualizado para a figura de Wagner, catedrático em Semiótica e História da Arte.

Nos arredores da estação título da obra, ele encontra um mendigo inesperadamente culto e que sabe seu nome, mesmo sem que o tenha dito.

Não demora para perceber que se trata de um suposto mendigo. A curiosidade leva o professor universitário a retornar à Luz em busca do misterioso homem.

O estranho contato se estreita até seja firmada uma amizade e um pacto em nome do desejo de "ter tudo o que quiser".

                                                          ***

Embora tenha o enredo central baseado em Fausto, trata-se de uma adaptação livre da obra alemã. A começar pela ambientação, passada na conhecida estação paulistana.

Há outros pontos que irão divergir do livro de Goethe, mas cabe ao leitor descobri-los.

A ideia do álbum é do ilustrador Guilherme Fonseca. Ele conta que teve a fagulha para a história após ler Fausto. A Luz surgiu após chegar a São Paulo, em 1990, vindo de Curitiba.

"Passando um dia pela Estação da Luz, imaginei um demônio que morasse dentro do relógio, situação que remetia à dualidade luz e trevas", diz Fonseca no final da obra.

                                                         ***

"Estação Luz" é um dos dez projetos selecionados pelo Proac, programa de incentivo cultural patrocinado pelo governo paulista.

Cada um dos autores recebeu R$ 25 mil para tornar real a ideia da história em quadrinhos.

Este é o segundo trabalho fruto do edital publicado neste mês pela Devir. O outro álbum, "Fractal", mostra a investigação sobre um serial killer na cidade de São Paulo.

Os autores das duas obras participam de uma mesa com outros quadrinistas, seguida de autógrafos, neste sábado, às 22h, na loja da Devir (rua Teodureto Souto, 624, São Paulo).

Escrito por PAULO RAMOS às 13h01
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