25.03.10

Álbum narra fuga de escravos no Brasil do século 19

 

Quilombo Orum Aiê. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Quilombo Orum Aiê", de André Diniz, obra que deve chegar às livrarias nos próximos dias 

 

 

 

 

 

 

 

 


Na Salvador de 1835, três escravos aproveitam uma rebelião da classe para fugir de seus donos. Eles se unem a um senhor de meia idade, branco, e partem rumo a um quilombo de que ouviram falar, um lugar de paz, sem doenças, guerras e violência.

A tal Pasárgada dos escravos se chama Quilombo Orum Aiê, nome que também intitula o álbum escrito e desenhada por André Diniz (Galera Record, 112 págs., R$ 32,90).

A editora da obra, Galera Record, selo juvenil da Record, informa em seu site que a publicação já está à venda. Busca em livrarias revela que ainda não chegou. 

O trabalho, no entanto, já foi impresso. Quando chegar aos pontos de venda e, por consequência, ao leitor, este verá que se trata da história mais bem narrada do quadrinista.

                                                          ***

O carioca André Diniz tem uma predileção por temas históricos. Suas tramas já passearam por diferentes épocas, do período imperial à truculência da ditadura militar (1964-1985).

Este "O Quilombo Orum Aiê" se soma a essa tendência. O autor constrói no álbum o que se espera de qualquer narrativa: um relato eficiente, criativo, bem amarrado.

A busca pelo quilombo prometido é conduzida por meio dos diálogos entre os quatro fugitivos, cada um com uma personalidade própria. A sonhadora Sinhana, o bravo Abul, o enigmático Antero, que aproveitou o tumulto para fugir da cadeia.

O destaque entre todos é o jovem Vinícius - que todos apelidam de capivara, por ele não comer carne. O moço é um filósofo nato, mesmo sem se dar conta disso.

                                                         ***

André Diniz não desenha todas as obras que produz. Neste caso, assumiu também a arte. É, seguramente, o seu melhor trabalho. Alterna o traço conforme o ritmo da ação narrativa.

Dizer que "O Quilombo Orum Aiê" seja sua obra mais autoral talvez não seja bem verdade. Nesse quesito, o autobiográfico "7 Vidas", sobre vidas passadas, ainda se destaca.

Mas a história dos escravos é a mais bem construída. Tanto que pode ser lida sem problemas pelos jovens - público-alvo do selo editorial - quanto pelos adultos.

Há um pouco de história, de defesa da filosofia, mas sem cair no caminho fácil das obras paradidáticas. E a trama cresce no final que, evidentemente, não será revelado aqui.

                                                          ***

O livro reúne qualidades suficientes para falar por si, sem que a editora tivesse de apelar para o recurso - cada vez mais comum - de se apoiar na credibilidade de frases de jornalistas e especialistas para vender a obra ao leitor.

A Galera Record preencheu a contracapa com opiniões pinçadas de sites de quadrinhos.

Pelo menos um dos autores citados ali não leu o livro e não opinou sobre ele. Mesmo assim, apareceu elogiando o álbum. A frase dele foi tirada de outra matéria, fora do contexto. Atitude questionável da editora, para dizer o mínimo.

É uma postura menor, no pior sentido do termo, que contrasta com o trabalho maior de André Diniz, no melhor sentido da expressão.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h13
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21.03.10

Álbum ajuda a entender trajetória editorial de Gasparzinho

 

Gasparzinho, o Fantasminha Camarada. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Gasparzinho - O Fantasminha camarada", obra que começou a ser vendida nesta virada de semana 

 

 

 

 

 

 

 

Há uma curiosa contradição sobre Gasparzinho. O fantasma bonachão é uma figura mundialmente popular, conhecida por mais de uma geração. Mas, ao mesmo tempo, pouco se sabe sobre sua gênese ou seus criadores.

“Gasparzinho – O Fantasminha Camarada” corrige tais lacunas de informação e (re)apresenta as primeiras histórias em quadrinhos dele, criadas há mais de 60 anos.

O álbum começou a ser vendido em lojas de quadrinhos nesta virada de semana (Devir, 192 págs., R$ 26,90) e traz 40 aventuras, produzidas pouco depois da estreia dele nos cinemas.

O primeiro desenho de Gasparzinho foi exibido pela primeira vez em 1945.

                                                          ***

“The Frindly Ghost”, título do desenho de estreia, dava forma a uma idéia dos animadores Seymour Reit e Joe Oriolo.

Os dois imaginaram o personagem pouco antes de irem para a Segunda Guerra Mundial. Quando voltaram aos Estados Unidos, venderam o projeto à Paramount.

A animação foi feita pelo Famous Studios, da Paramount Pictures. O estúdio era o mesmo que produzia desenhos com músicas.

Foi outra animação que marcou a geração que hoje tem 30, 40 anos. Uma bolinha acompanhava as palavras da canção, mostradas numa legenda, na parte de baixo da tela.

                                                          ***

Gasparzinho ganhou outros dois filmes animados, um em 1948 e o outro um ano depois. A exibição da terceira animação coincidiu com o lançamento do fantasminha nos quadrinhos.

As histórias foram criadas pela editora St. John e repetia no papel os enredos da tela. O protagonista procurava fazer amigos, mas sempre assustava involuntariamente as pessoas.

A primeira aventura, de 1949, é a que abre o álbum - a primeira página é mostrada abaixo. Cansado de afugentar todos com quem conversa, o personagem tenta se suicidar, pulando de um penhasco – sim, o público-alvo eram crianças.

Como é um fantasma, não morre. Mas isso o ajuda a encontrar um príncipe, de quem, enfim, fica amigo e passa a ajudar.

 

 Primeira história em quadrinhos de Gasparzinho, de 1949

 

A fase mais marcante do fantasminha nos quadrinhos teve início em 1952, com o lançamento de “Casper, the Friendly Ghost”.

A revista foi publicada por outra editora, a Harvey, que iria comprar em definitivo da Paramount, poucos anos depois, os direitos do personagem.

O álbum traz a primeira aventura pela Harvey. A coletânea, que vai até 1954, marca também o início de uma transição nos temas abordados – Gasparzinho não se limitava mais aos sustos involuntários que causava.

 As duas histórias inaugurais – a estreia na St. John e na Harvey – são as únicas da reeditadas em cores. Segundo Leslie Cabara, responsável pela reunião de histórias, a opção pelo preto-e-branco nas demais é para manter a qualidade do traço dos desenhos originais.

                                                         ***

Os quadrinhos da Harvey tinham o diferencial de serem produzidos por animadores do Famous Studios. Isso dava às aventuras um toque de desenho animado.

Todos esses detalhes são explicados numa longa introdução, assinada por Jerry Beck, que a edição nacional acerta em reproduzir e que pauta as informações desta resenha.

O senão do álbum é justamente esse, o de ficar extremamente ancorado na versão norte-americana, lançada pela editora Dark Horse.

Faltou à obra um texto que recuperasse a trajetória brasileira de Gasparzinho, o que aproximaria ainda mais o personagem às memórias dos leitores daqui.

                                                          ***

O fantasminha teve revista própria, publicada pela extinta editora da revista “O Cruzeiro”. Na década de 1970, migrou para a Vecchi e, depois, para a Globo - a partir de 1987.

Os antagonistas de suas histórias, como a bruxinha Luísa e o sarnento Lelo, também encabeçaram revistas em quadrinhos direcionadas ao leitor infantil.

Este novo álbum, ao contrário, alarga o público-alvo. Crianças podem até ler as aventuras ingênuas do fantasminha, mas o foco são mesmo os adultos, mesmo perfil de quem comprou os recentes livros de Luluzinha.

A Devir lançou a primeira coletânea da menina travessa em 2006, com boa repercussão entre os adultos. O fantasminha é um personagem com trajetória muito parecida à dela. A obra tem os quesitos para atingir o mesmo público.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h53
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14.03.10

Imprensa dá a Glauco tratamento à altura da importância dele

 

Geraldão e Geraldinho, personagens de Glauco

 

 

 

 

Geraldo de Geraldinho, personagens do desenhista

 

 

 

 

 



O desenhista Jean assinou a charge da edição deste domingo da “Folha de S.Paulo”. O humor se ancorava na disputa entre os pré-candidatos presidenciais Dilma Roussef e José Serra, mediados por Lula, na hora de inaugurar uma obra.

O diferencial do trabalho é que reproduziu o estilo que marcou Glauco nas últimas três décadas, inclusive no privilegiado espaço de charges do jornal. Jean dedicou o desenho ao colega. Até intitulou como “Casal Neuras”, alusão a uma das criações de Glauco.

Na véspera, a Folha, jornal onde Glauco trabalhava desde o final da década de 1970, fez uma homenagem histórica ao quadrinista. O espaço de todas as ilustrações não foi preenchido. Charge, ilustrações, todas as tiras, tudo ficou vazio, num branco que fez as vezes do negro no luto.

A Folha produziu, também no sábado, um caderno especial, de seis páginas. A convite do jornal, autores gráficos fizeram desenhos para marcar a morte do colega. O de maior destaque foi o assinado em conjunto por  Angeli e Laerte, órfãos do amigo com quem compunham a série "Los Três Amigos".

A ilustração de Angeli e Laerte representou em desenho o sentimento da perda. Mostrava um fragmento de uma escura metrópole. Os prédios traziam placas com os nomes motel, sex, drive thru, cartel, próprios do universo de personagens criado por Glauco. No centro, em primeiro plano, havia uma árvore branca, com o rosto de um Geraldão atônito. 

O solteirão neurótico foi o personagem de Glauco mais usado nas várias homenagens visuais que tomaram conta da internet e de telejornais desde a sexta-feira, dia 12, data da morte do desenhista, então com 53 anos.

Os trabalhos foram a forma encontrada por muitos quadrinistas de expressar o que as palavras dificilmente poderiam explicar. Habituados a acompanharem Glauco nas seções de humor, acordaram com o rosto e os personagens dele em destaque na pauta policial.

Glauco Vilas Boas havia sido assassinado na madrugada daquela sexta-feira, pouco depois da meia-noite, na fazenda onde morava, em Osasco, na Grande São Paulo. Os tiros fatais atingiram também o filho dele, Raoni, de 25 anos.

Desde então, a imprensa tem dado ao caso um destaque digno da importância do desenhista, algo incomum na mídia brasileira quando o assunto é quadrinhos.

Os sites noticiosos já punham o assunto como a principal manchete do dia na manhã da sexta. Os telejornais de fim de noite iniciaram as edições com a morte e a vida de Glauco.

Os principais jornais do país estamparam na capa das edições de sábado fotos de Glauco e desenhos de Geraldão, alguns com maior espaço do que a Folha, caso do “Jornal da Tarde”, ligado ao grupo do concorrente “O Estado de S. Paulo”.

Os depoimentos de colegas e de pessoas ligadas direta ou indiretamente à área ajudaram a construir uma imagem de como o desenhista era por trás dos quadrinhos que fazia. Pessoa tímida, doce, inteligente, desapegada, inclusive dos prazos de entrega dos trabalhos.

Houve também – sempre há – alguns oportunistas que se aproveitaram do caso. Como certa autoridade que analisou com suposta propriedade o traço do desenhista menos de um ano depois de classificar como “um horror” o estilo de autores que dividem com Glauco a página de tiras da Folha.

Alguns dos depoimentos, por mais bem intencionados que fossem, externavam um profundo desconhecimento sobre a área. Mais de uma pessoa viu no desenho de Glauco um estilo infantilizado. Confusão entre traço pueril com simplificado e, por isso mesmo, rico.

Quem corrigia era o próprio desenhista, em entrevista de 2003, num diálogo póstumo com esses autores: “Tentei usar o computador para desenhar, mas meu desenho sai como se fosse de uma criança”. Não era, portanto, um estilo infantilizado.

No geral, no entanto, a morte de Glauco – injustificável por todos os ângulos por onde se olhe – pôs em evidência para a sociedade – inclusive para quem nunca o tinha lido – a importância que ele teve para a consolidação do humor e dos quadrinhos nacionais no passado recente do país.  

Glauco se destacou nacionalmente nos salões de humor de Piracicaba de 1977 e de 1978, premiado em primeiro e segundo lugares, respectivamente, com desenhos que criticavam, com seu tradicional humor, a falta de liberdade no período militar (1964-1985).

Na mesma década, começou a fazer trabalhos eventuais para a Folha, até que estreou Geraldão no espaço de tiras do jornal. A retrospectiva de sua morte ajudou a precisar a data da primeira história: 4 de outubro de 1983, e não 1984, como se imaginava antes. Em abril de 1985, criou Geraldinho, versão infantil do personagem.

O solteirão foi sua criação mais famosa, popularidade reforçada pelo uso dele na maioria dos desenhos feitos em homenagem a Glauco nos dois últimos dias. Foi um personagem que deu o tom dos demais seres com quem iria dividir o espaço diário de tiras nos anos e décadas seguintes.

Glauco era hábil em encarnar as neuroses sociais em seus personagens. De uma funcionária tarada – Dona Marta – ao problemático relacionamento conjugal – Casal Neuras, que assume a neurose no nome. De um homem obcecado pelo fim do mundo – Zé do Apocalipse – a um  drogadito – Doy Jorge.

A tendência em representar a neurose, embora não fosse regra, sintetizava o modo de ser de muitas de suas criações, ao mesmo tempo em que as distinguia das do amigo Angeli, vizinho da parte nacional das tiras da Folha. O autor de “Chiclete com Banana” moldava tipos urbanos. Glauco, as neuroses urbanas.

Geraldão ganhou revista própria pela Circo Editorial. Pela mesma editora, Glauco dividiu trabalhos com os parceiros Angeli e Laerte. O livro “Três Mãos Bobas”, lançado pela Devir em 2006, reúne algumas dessas parcerias feitas a várias mãos.

O ápice, no entanto, se deu com “Los Três Amigos”, sátira dos filmes de faoreste. Laerte era Laerton; Angeli, Angel Villa; Glauco; Glauquito. Riam deles mesmos nos desenhos que faziam de si. Não por acaso, Angeli declarou que, com a morte do amigo, perdia parte de sua história.

O trio ajudou a redefinir o humor brasileiro no período pós-ditadura, época em que as liberdades eram postas à prova. E Glauco a pôs, justamente com sua criação mais conhecida. Geraldão, que de início andava pela casa com uma cuecona de elástico solto, foi mostrado completamente nu, com a genitália desnuda, como ficou conhecido o caso.

Para dar a justa medida do caso: foi a primeira vez que um protagonista de tiras cômicas brasileiras passou a ser representado sem roupa, maneira provocadora de testar a liberdade democrática. O caso é histórico e precisa ser relembrado em futuras obras que se proponham a explicar a trajetória das tiras no Brasil.

Geraldão, os demais personagens de Glauco e também os de Angeli ajudaram a tornar as tiras cômicas brasileiras definitivamente adultas, terreno que já vinha sendo trilhado, na década de 1970, por Edgar Vasques, Henfil e Ciça.

No plano pessoal, como foi tão noticiado nos últimos dias, Glauco se tornou um dos fundadores e dirigentes da igreja Céu de Maria, ligada à filosofia do Santo Daime. No plano profissional, continuou com os trabalhos da Folha.

Nas charge para o jornal, seu estilo cartunizado ajudava a fazer um contraponto mais leve e humorístico, sem perder a criticidade, aos trabalhos ácidos do amigo Angeli. Nas tiras, Glauco continuou alternando os personagens antigos com outros, novos, com suas neuroses peculiares.

As tiras dele neste século já não tinham o mesmo impacto provocador das duas décadas anteriores. Isso não tira a importância delas, nem seu valor. Ao contrário do colega Laerte, vizinho de página, que abandonou os personagens fixos e se reinventou no gênero – e o gênero em si –, Glauco se manteve fiel ao uso de suas criações.

Os corpos de Glauco e de seu filho foram enterrados no sábado de manhã no Cemitério Parque Gethsemani Anhanguera, em Osasco. Com o enterro, o noticiário tende a deixar de equilibrar a importância do quadrinista com as informações sobre sua morte.

As investigações sobre o suspeito do crime – inocente até que seja julgado, não custa registrar – vão nortear o noticiário policial, como já vem ocorrendo desde a tarde deste domingo. É de se esperar também pautas sobre o entorno do caso: drogas, comportamento errático, cultos religiosos.

Do ponto de vista do leitor, tais notícias não irão preencher o vácuo deixado na página de tiras da Folha, espaço que Glauco ajudou a tornar tão popular na imprensa brasileira. Mesmo que seus personagens já não tivessem o mesmo impacto de antes, era como se fossem pessoas próximas, que costumamos ver todos os dias. E que, abruptamente, não veremos mais.

O novo editor-executivo da “Folha de S.Paulo”, Sérgio Dávila, que assume o cargo nesta segunda-feira, disse em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” que a página de tiras será remanejada. A última história foi publicada neste domingo. Dávila reforçou, acertadamente, que Glauco é insubstituível.

Como disse Laerte, “perde-se uma pessoa maravilhosa e doce, mas o trabalho dele fica”.

Fica mesmo, Laerte.

O que a imprensa noticiou nos últimos dias ajudou a relembrar à sociedade a importância do desenhista e deu a ele o merecido destaque histórico que sempre teve.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h08
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09.03.10

O triste fim de Policarpo marca o feliz retorno de Edgar Vasques

 

Triste Fim de Policarpo Quaresma. Crédito: reprodução do blog do autor

 


A adaptação de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” marca o feliz retorno do desenhista Edgar Vasques às histórias em quadrinhos mais longas.

Mesmo que a concepção da história não seja dele – o livro de Lima Barreto foi adaptado por Flávio Braga –, percebe-se a presença do artista gaúcho na resolução visual dada a trechos do romance.

A recriação da narrativa e imagens – processo subjetivo, portanto – é o que singulariza ao mesmo tempo em que distancia uma adaptação se comparada ao texto fonte.

E, nas mãos de um Edgar Vasques, as chances de o resultado final serem atraentes são sempre maiores.

                                                          ***

A obra se limita aos principais trechos narrativos do romance, processo semelhante ao de muitos outros adaptações literárias em quadrinhos.

O militar Policarpo Quaresma é tido como louco por conta do nacionalismo exacerbado, mas sai da reclusão para defender a pátria que tanto ama.

Diante da simplificação em fragmentos centrais da trama, é justamente a presença do desenhista que dá o sabor desta versão quadrinística, à venda desde fevereiro (Desiderata, 72 págs., R$ 44,90).

Muito do interesse nessa versão é saber – e ver – as soluções visuais dadas por ele aos diferentes trechos quadrinizados.

                                                          ***

Vasques vive a área de quadrinhos desde a década de 1970, quando criou o esfomeado Rango, retrato da pobreza brasileira.

As tiras do personagem, fartamente editadas e relançadas pela L&PM, são ainda sua criação mais conhecida.

Mas há outras, mais longas, em que a veia autoral de Vasques fica mais à mostra.

São dele trabalhos como a pouco conhecida história do Rio Grande do Sul e “Sottovoce, a Morte Fala Baixo”, lançado há 12 anos e já merecedor de ser redescoberto editorialmente.

                                                          ***

Ter Edgar Vasques numa adaptação é uma sombra do que ele pode produzir.

As editoras veem em autores como ele a oportunidade de produzir, com um pouco mais de qualidade, obras literárias em quadrinhos sob medida para listas governamentais, criadas com base em autores em domínio público – bebe-se da popularidade deles a custo zero.

As empresas editoriais, não custa registrar, estão no direito delas. Uma venda dessas é um bom negócio.

                                                          ***

Houve sensíveis avanços na inclusão de quadrinhos na escola via governo federal. Isso não se discute.

Mas alguém precisa lembrar às autoridades do Ministério da Educação que álbuns como este “Triste Fim de Policarpo Quaresma” não são iguais à obra original, nem a substituem.

Também não há ainda nada que comprove a premissa imaginária de que vá instigar a leitura do romance.

Não custa registrar também que custa três vezes mais do que o livro de Lima Barreto. Do ponto de vista da uso de verba pública, é algo, no mínimo, questionável.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h54
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08.03.10

Invasão dos Mortos mostra epidemia do além na Terra

 

Invasão dos Mortos. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Álbum escrito por Phil Hester e desenhado por John McCrea e Will Volley começou a ser vendido neste mês 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagine que os falecidos encontrassem um jeito de voltar à Terra, ocupando o corpo dos vivos. É a premissa de "Invasão dos Mortos", álbum que começou a ser vendido em lojas de quarinhos neste mês (Gal, 112 págs., R$ 29,90).

Na história, a tal invasão tomou posse de tantos corpos que se tornou epidemia. As autoridades norte-americanas logo entram em ação, alertadas por dois comportamentos.

O primeiro é o fato de os alvos serem pessoas jovens. O segundo comportamento é os mortos, agora vivos, se dirigirem à cidade de Winnipeg, no Canadá.

Por quê? Está lançado o mistério, que conduzirá os quatro capítulos da série, compilados em forma de livro.

                                                         ***

O caso passa a ser capitaneado pela agente Melissa Nguyen e pelo cético Antoine Sharpe, consultor chamado em casos de difícil explicação, como este.

A incredulidade de Sharpe e a dureza com que lida com a situação são elementos que ajudam a dar carisma ao personagem e, por consequência, à narrativa de Phil Hester.

Para quem acompanha histórias de super-heróis, o nome de Hester talvez seja familiar. Foram dele os desenhos de muitas histórias do Arqueiro Verde, personagem da editora DC Comics, já  publicadas no Brasil pela editora Panini.

A novidade é vê-lo no roteiro. Ele se sai bem. Constrói uma história bem amarrada, que consegue deixar o leitor curioso.

                                                         ***

Os desenhos do álbum foram divididos entre John McCrea - outro nome conhecido dos títulos de heróis - e Will Volley, que possui um estilo bem diferente do colega.

"Invasão dos Mortos" é a primeira obra do ano lançada pela Gal, que tem somado bons títulos em seu catálogo.

Este trabalho é interessante, mas não excepcional, como apregoam as citações extraídas da imprensa, lidas no verso e até na capa da obra - recurso muito usado pela editora.

É mais ou menos como "Guerra ao Terror", vencedor do Oscar de melhor filme, no último domingo. É correto, bem feito e entretém. Mas você já viu produções melhores.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h46
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01.03.10

Welcome back, Preacher. Again

 

Preacher - Salvação. Crédito: reprodução do blog da editora

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Preacher - Salvação", álbum que marca o retorno da série norte-americana no Brasil 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esperança e frustração. As duas palavras, semanticamente opostas, sintetizam a trajetória de Preacher no Brasil.

A série norte-americana estreou no século passado, ganhou revista própria, cancelada a poucos números do final da saga. 

Reestreou em 2006 em outra editora, novamente do início, na forma de coletâneas.

Teve alguns álbuns, trocou de editora, ganhou mais obras, outra mudança editorial e se chega a este "Preacher - Salvação", à venda em lojas de quadrinhos desde a semana passada (Panini, 260 págs., R$ 62).

                                                         ***

A nova casa optou - acertadamente - em dar sequência à série do ponto onde a editora anterior, Pixel, havia parado.

O álbum compila os números 41 a 50 do título, publicado nos Estados Unidos pela Vertigo, selo editorial da DC Comics, mesma empresa de Batman e Super-Homem.

Para quem não conhece a série, é um bom ponto de entrada. O protagonista, o durão Jesse Custer, procura um tempo para si mesmo na pequena Salvation, no Texas.

Lá, torna-se xerife, reencontra sua mãe, tida como morta, e enfrenta um poderoso empresário local, Odin Quincannon.

                                                          ***

Quincannon repete uma característica do escritor Garth Ennis, impregnada em Preacher do início ao fim da série: o uso de antagonistas mentalmente problemáticos, narrados de forma politicamente incorreta e irônica.

O empresário de Salvation - a forma traduzida "salvação" aparece apenas no título da obra - é um racista de marca maior. Luta com todas as forças para destruir Custer e sua assistente, negra.

Paralelamente, sua advogada é uma sadomasoquista que adora Hitler e o nazismo.

Como dito, ironia politicamente incorreta. Mas são as marcas da série e o que a singularizam. E que dão o sabor da série, que deve ser apreciada como se fosse um bom filme de aventura.

                                                           ***

Essas histórias, desenhadas por Steve Dillon, já haviam sido publicadas no Brasil. A qualidade da série justifica uma reedição.

A Panini optou por um formato de luxo, em capa dura, o que encarece o preço final. A estratégia pode tornar as vendas mais tímidas.

Resta a esperança - sempre acionada quando o assunto é Preacher no Brasil - de que o retorno das vendas estimule a publicação dos dois álbuns que faltam para o desfecho da trama - "Às Portas do Inferno" e "Álamo".

Afinal, o leitor brasileiro já pagou caro, muito caro, durante anos seguidos para, uma vez mais, ver a esperança vertida em frustração.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h28
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