28.06.10

Cachalote faz aproximação entre quadrinhos e literatura

 

Cachalote. Crédito: Quadrinhos na Cia.

 

 

 

 

 

 


Capa do álbum nacional, que começou a ser vendido neste fim de mês 

 

 

 

 

 

 

 


Uma das mudanças mais sensíveis na adaptação de um romance para os quadrinhos é a perda da profundidade dos personagens. Na troca de linguagem, há a tendência de fixação nas cenas mais relevantes da trama. A imagem tende a suprir ou resumir muitos das descrições ou reflexões feitas pelo narrador.

"Cachalote", que começou a ser vendido neste fim de mês (Quadrinhos na Cia, 280 págs., R$ 45), navega contra essa corrente. Consegue levar para os quadrinhos justamente o que as adaptações deixam de lado: a minuciosa construção dos personagens, elemento caro à linguagem literária.

O ethos dos protagonistas é formado devagar, ao longo das páginas, muitas delas silenciosas, levando o leitor a inferir por meio da imagem o momento vivido pela pessoa.

De tão trabalhada, essa forma de narrar é o que desponta do álbum, mais até do que as histórias em si, criadas pelo escritor Daniel Galera e pelo desenhista Rafael Coutinho.

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"Cachalote" conta paralelamente seis histórias ao longo de três capítulos. A que abre e fecha a obra, enigmática, envolve uma senhora idosa. As demais têm homens como protagonistas.

Apesar de não se cruzarem, as tramas têm em comum o fato de os personagens lidarem com distintas formas de decadência pessoal. Cada um procura, então, encontrar um rumo para a vida.

O ator chinês beberrão e relapso, acusado do assassinato de um colega. O escultor que vê no cinema uma válvula de escape para o marasmo. O escritor deprimido que mantém uma relação de amizade com a ex-esposa.

O funcionário de uma loja de ferragens que se apaixona e tem pudores de fazer com a namorada o mesmo sexo masoquista de antes. O playboy que deixa de viver às custas do dinheiro do tio.

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A parceria entre Galera e Coutinho funciona. As imagens falam por si, são autônomas às palavras em vários momentos, fruto do minucioso trabalho do desenhista, que se dedicou à tarefa por dois anos e meio.

Coutinho deixa sua marca na obra e dissocia de vez sua imagem profiisional da do pai - é filho do cartunista Laerte. A leitura sugere que ele pensou com cuidado cada um dos quadrinhos das quase 300 páginas, muitos com bons resultados de experimentação narrativa.

A dupla procurou fazer finais abertos a cada um dos seis contos. Isso cria uma sensação de incompletude, uma não-correspondência à expectativa do leitor, que passou páginas e páginas acompanhando a construção e o desenrolar dos personagens.

O mesmo vale para a baleia que intitula a obra. Aparece em poucos momentos, mais sugerindo do que articulando sua presença no título.

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"Cachalote" teve um primeiro lançamento no sábado passado, em São Paulo, na loja que tem o mesmo nome do álbum e que tem o desenhista como um dos sócios. Os autores farão outros dois lançamentos nesta semana, um no Rio de Janeiro e outro em Porto Alegre (leia serviço no fim da postagem).

O lançamento, enfim, diz a que veio a obra. O eficiente marketing da Companhia das Letras ajudou a construir uma expectativa em torno do álbum, que teve matérias de destaque em mais de um veículo de imprensa e uma prévia na revista "Piauí".

Houve até quem rotulasse o trabalho como o "lançamento do ano", burburinho que a editora sabiamente soube alimentar. Exagero (até porque estamos apenas no meio do ano).

"Cachalote" tem qualidades, muitas delas em torno do trabalho ímpar de Rafael Coutinho. Mas não é a obra revolucionária que se apregoa. Mesmo a apropriação da forma de narrativa literária já foi vista em outros projetos quadrinísticos.

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O que é revolucionário, isso sim, é a proposta da RT Features, empresa que bancou a parceria entre Galera e Coutinho.

A proposta é dar a prioridade do projeto à Companhia das Letras. Se aceito, a editora publica e a RT fica com os direitos de adaptação para outras mídias.

A empresa já patrocina outras parcerias de escritores e quadrinhistas, como as de Angélica Freitas e Odyr Bernardi, em "Guadalupe", e Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco, em "V.I.S.H.N.U.", para ficar em dois exemplos já noticiados por este blog.

A se pautar por "Cachalote", o resultado tende a dialogar com um público não leitor de quadrinhos e ajuda a construir um novo mercado para a produção nacional. É algo novo, que pode render bons resultados.

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Serviço - Lançamentos de "Cachalote". No Rio de Janeiro. Quando: terça-feira (29.06). Horário: 19h. Onde: Livraria da Travessa. Endereço: r. Visconde de Pirajá, 572, Ipanema. Em Porto Alegre. Quando: quinta-feira, 1º.07. Horário: 19h. Onde: Palavraria Livros & Cafés. Endereço: r. Vasco da Gama, 165, Bom Fim. Preço: R$ 45.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h33
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24.06.10

Os Sousa recupera memórias de uma infância não esquecida

 

Os Sousa: Desventuras em Família

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do livro de bolso da série de Mauricio de Sousa, que há anos não era reeditada no Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

Os Sousa. Crédito: editora L&PM

 

Difícil manter a objetividade jornalística em se tratando de Os Sousa, série criada por Mauricio de Sousa e agora resgatada em uma coletânea (L&PM, 144 págs., R$ 11).

A dificuldade é pelo fato de as tiras estarem umbilicalmente ligadas a recordações de outros tempos, que guardo com carinho na memória. Lembranças que a (re)leitura automaticamente ativou.

Na infância, quando tinha meus oito anos, mais ou menos, meu pai costumava comprar todos os domingos o jornal da região, o "Diário do Grande ABC" - nasci e ainda moro no "C", São Caetano do Sul.

Era o dia em que saía o "Diarinho", suplemento infantil do jornal, com brincadeiras e quadrinhos. E, no caderno de cultura, podia ler as histórias de Os Sousa, há muito não reeditados e agora relembrados.

                                                         ***

A série tinha um quê mais adulto, que destoava com o que Mauricio de Sousa produzia até então. Mostrava cenas - o formato da tira não permitia muito mais que isso - entre dois irmãos, os tais Sousa.

As piadas giravam em torno deles, ora em dupla, ora individualmente. Mano, o irmão folgado, solteirão e mulherengo, não raras vezes tornava-se o centro das atenções do leitor.

Naquele início dos anos 1980 - a série foi publicada até o final daquela década -, não tinha noção de alguns detalhes, agora mais claros na releitura. A começar pelo sobrenome dos protagonista, o mesmo de Mauricio.

O empresário e desenhista inicialmente se baseou em sua própria realidade para constituir as histórias, segundo informa o texto da contracapa do livro de bolso da L&PM.

                                                          ***

Outro dado que não tinha como perceber à época é que a tira, mesmo que não fosse intencional, dialogava fortemente com a Família Trapo, programa de TV protagonizado por Golias na década de 1960.

A série em quadrinhos, criada em 1969, é contemporânea. E também tinha em Mano o seu Carlos Bronco Dinossauro, papel interpretado por Ronald Golias (1929-2005).

O que também não tinha como saber à época era o poder que essas tiras teriam na memória décadas depois. Lembranças que estavam adormecidas desde que a série deixou de ser publicada.

A reedição de parte das tiras traz à tona aqueles momentos da infância em família. Acredito que papai, hoje falecido, também teria gostado de (re)ler algumas dessas piadas. 

Escrito por PAULO RAMOS às 11h18
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21.06.10

Quanto vale conhecer a história de Kick-Ass?

 

Kick-Ass: Quebrando Tudo. Crédito: editora Panini

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "Kick-Ass - Quebrando Tudo", álbum que começou a ser vendido no mesmo dia da estreia do filme

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há um custo para conhecer a história "Kick-Ass - Quebrando Tudo", que estreou nos cinemas, nas livrarias e nas lojas de quadrinhos na última sexta-feira.

Banquei os valores neste fim de semana. O custo faz jus ao nome do personagem: sai por volta de R$ 76, a depender do valor gasto nas sessões de cinema.

O valor é a soma do ingresso para o longa, R$ 16, e o preço do álbum em capa dura da Panini, R$ 60 - é possível encontrar em alguns pontos de venda por 20% de desconto.

A história entretém, muito por conta das cenas de ação e das referências às histórias de super-heróis. Mas, analisando friamente, não vale R$ 76.

                                                          ***

Como vem sendo cada vez mais frequente, o filme se baseou numa história em quadrinhos. As oito partes de "Kick-Ass", base para o longa, foram publicadas nos Estados Unidos entre abril de 2008 e março deste ano.

A narrativa mostra a mudança na vida do adolescente Dave Lizewski após ele decidir se tornar um super-herói - mesmo sem ter nada de super.

O que mais faz é apanhar. Foi assim que foi parar no YouTube e se tornou famoso.

"Por que todo mundo quer ser a Paris Hilton e ninguém quer ser o Homem-Aranha?", ele se questiona, logo no início da primeira parte. 

                                                          ***

As referências a elementos da mídia, da cultura pop e do universo dos super-heróis são a tônica dos diálogos do protagonista com seus amigos, todos fãs de quadrinhos como ele.

No álbum, são várias as referências aos heróis da Marvel Comics, editora de Homem-Aranha e X-Men e responsável pela publicação de "Kick-Ass" pela Icon, um de seus selos.

A diferença do selo editorial é que os direitos da série ficam com os autores. No caso, o o roteirista Mark Millar e pelo desenhista Jonh Romita Jr.

A dupla participa da produção do longa-metragem. A presença deles pode justificar a fidelidade canina a algumas das sequências da série em quadrinhos. Mas não todas, se comparadas as duas versões.

                                                          ***

Há divergências pontuais aqui e ali - a maioria desnecessária, a bem da verdade. O final - que não será revelado aqui, por motivos óbvios - também é diferente. Mas uma mudança parece ser mais gritante: os uniformes dos heróis secundários.

Quando assumiu o papel de Kick-Ass - com um uniforme de mergulho comprado via E-bay -, Dave Lizewski descobriu que havia outras pessoas que se vestiam como heróis e atuavam como tal.

Dois deles eram Big Daddy e sua parceria e filha, Hit-Girl. Big Daddy, interpretado por Nicolas Cage, transformou numa versão caricata de Batman no filme, com uma assumida semelhança no uniforme.

O longa-metragem também dialoga mais com os super-heróis da DC Comics, de personagens como Super-Homem e Batman. Um motivo possível é que eles dialogam melhor com o público do cinema, não iniciado na área.

                                                         ***

Tanto o filme quanto o álbum entretêm. Na tela, há uma interpretação inspirada da jovem atriz Chloe Moretz, que faz a violenta Hit-Girl. As melhores cenas são com ela, algumas à la Matrix ou longas do diretor Quentin Tarantino.

No álbum, a história mescla violência e referências aos quadrinhos, numa arte inspirada de John Romita Jr. que desenhou por muito tempo as aventuras do Homem-Aranha.

Mas as duas versões não resolvem a contradição de se propor a discutir como seriam os super-heróis num mundo em que eles não existem por meio de uma história como muitas outras do gênero.

A edição da Panini, em capa dura e com 212 páginas, cobra um preço alto para uma obra assim, por mais qualidades que tenha. Por R$ 60, o leitor pode comprar nove revistas mensais de heróis da editora - e ainda sobra R$ 1,50 para um café. 

Escrito por PAULO RAMOS às 17h28
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07.06.10

Xampu recupera clima cultural dos anos 80 e 90

 

Xampu! - Lovely Losers. Crédito: divulgação

 

 

 

 

 

 

 

Álbum do brasileiro Roger Cruz traz histórias de diferentes personagens ambientadas na cidade de São Paulo  

 

 

 

 

 

 

 

Muitos apocalípticos criticavam na década de 1990 a integração de alguns desenhistas brasileiros no mercado norte-americano.

O discurso, em linhas bem gerais, dizia que os autores haviam se vendido e dado as costas ao país de origem. Exagero, como se sabe hoje.

Mas o tiroteio verbal sugeria ao menos um ponto pertinente: se o mercado daqui fosse consolidado como o de lá, que quadrinhos esses mesmos desenhistas fariam?

O paulistano Roger Cruz, um dos autores que fez o percurso Brasil/Estados Unidos, faz um ensaio de resposta no álbum "Xampu - Lovely Losers" (Devir, 80 págs., R$ 29,50).

                                                         ***

Cruz começou a desenhar no mercado estadunidense na década de 1990. Trabalhou e ainda trabalha com super-heróis, em particular os da Marvel, de Homem-Aranha e X-Men.

Foi na pausa entre um serviço e outro que ele esboçou o álbum nacional, uma nostálgica volta à São Paulo dos anos 1980 e 90.

A obra tem um sabor especial para quem divide a mesma faixa etária do autor - o quadrinista nasceu em 1971.

São muitas as referências: as festas ao som dos long plays, as tribos, as bandas de garagem - há mais, a ser descobertos nos detalhes de cada quadrinho.

                                                          ***

Em meio à ebulição de referências, o autor narra a história de um trio de personagens, construídos com um tom biográfico - seja ele real ou não.

A bem da verdade, não se trata de uma história, mas de histórias, no plural. Sombra, Max e Nicole têm fragmentos da vida entreleçados ao longo dos sete contos curtos.

O leitor descobre o passado, o presente e o futuro deles. E a ligação entre os três, na amizade e num improvável triângulo amoroso - ou quase isso.

As narrativas diferem-se umas das outras na escolha do personagem central e no estilo. Destaque para a que mostra a vida de Max, construída por meio de um diálogo com um subentendido  entrevistador.

                                                         ***

A concepção dos personagens não é nova. Vem de agosto de 1997, data em que Cruz publicou a primeira história da série no número três da extinta revista "Metal Pesado", que trazia só autores nacionais.

O autor, então, assinava como Rock. A trama da revista, contada em três páginas, foi redesenhada e redimensiada para o álbum. É a que abre a obra.

Max, Sombra e companhia se mantiveram. Mudou o estilo, menos cartunizado, mais realista. Comparativamente, com resultado melhor.

O lado autoral de Cruz faz uma nostálgica volta a um passado não tão distante assim. O álbum é o primeiro de uma trilogia. A se pautar por este, vale esperar pelos outros.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h33
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