17.09.10

Bando de Dois traz história de ação à brasileira

 

Bando de Dois. Crédito: editora Zarabatana

 

 

 

 

 

 

 

Álbum de Danilo Beyruth tem lançamento neste sábado à tarde em São Paulo

 

 

 

 

 

 

 

 

Os leitores que já somam muitas milhas nas viagens narrativas sabem da importância do começo de uma obra. Se agradar, ganha o leitor. Se não, corre o risco de perdê-lo de vez.

A se pautar por isso, "Bando de Dois" vai fisgar quem comprar o álbum, que tem lançamento neste sábado à tarde em São Paulo (Zarabatana, 96 págs., R$ 36).

As primeiras páginas da obra formam um dos inícios mais instigantes e bem narrados desde que o quadrinho nacional enveredou pelo caminho das histórias mais longas.

É como um plano sequência do cinema, com sucessivos movimentos de câmera, até encontrar o personagem no cenário árido. Quando se dá conta, o leitor já está inserido na trama, escrita e desenhada por Danilo Beyruth.

                                                          ***

O álbum mostra dois cangaceiros - Tinhoso e Cavera di Boi - à caça do pelotão que matou, numa emboscada, todo o bando de que faziam parte.

Mais do que o extermínio, o grupo cortou todas as cabeças das vítimas e perambula com elas pelo sertão brasileiro.

O líder do bando aparece a Tinhoso e pede a ele que dê fim às cabeças do bando. Só assim, os mortos (vivos?) encontrariam a paz no pós-vida.

A dupla parte para a empreitada. Na falta dos demais, formam o tal bando de dois que dá título à obra.

                                                         ***

O trabalho de Beyruth envereda por uma trilha pouco explorada nas narrativas gráficas nacionais mais longas, a da ação. Ora mais, ora menos, ela está presente em toda a obra.

Não por acaso o autor e a editora rotularam o álbum como um bangue-bangue à brasileira. Há, de fato, os elementos centrais do gênero. Mas o brilho está no modo de narrar.

Os desenhos de Beyruth casam com a ambientação que ele se propôs a criar para a trama. E ele constrói pelo menos um segundo momento que ajuda a dar aquele algo a mais à obra.

O autor estabelece um novo uso para as onomatopeias nos quadrinhos. Revelar por que estragaria parte da cena. Pode-se dizer que apenas que ocorre perto do final.

                                                         ***

"Bando de Dois" foi um dos dez projetos selecionados em 2009 pelo edital do governo paulista de incentivo à publicação de quadrinhos. O álbum marca a estreia do quadrinista com as histórias mais longas.

Até então, ele era mais conhecido pelas aventuras de Necronauta, publicadas desde 2007, primeiro de forma independente, depois reunidas em volume único no fim do ano passado.

O personagem já trazia um tratamento diferenciado, mais autoral. Com este novo álbum, Beyruth mostra que é capaz de muito mais. Ele criou um dos principais álbuns do ano.

No atual mercado de quadrinhos brasileiro, há obras que conquistam fama no grito e outras que se firmam por méritos próprios. "Bando de Dois" se enquadra no segundo caso.

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Bando de Dois", de Danilo Beyruth. Quando: sábado (18.09). Horário: das 14h às 18h. Onde: loja Comix. Endereço: alameda Jaú, 1.998, São Paulo. Quanto: R$ 36.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h28
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Yeshuah 2 dá maior foco a pregações e milagres de Cristo

 

Yeshuah - O Círculo Interno o Círculo Externo

 

 

 

 

 

 

 

 

Álbum de Laudo Ferreira Jr. inicia nesta sexta-feira série de lançamentos em São Paulo e no Rio de Janeiro 

 

 

 

 

 

 

 

A proximidade das festas de final de ano ofuscou para muita gente - leitores e críticos - o lançamento do primeiro volume de "Yeshuah" em 2009.

Um erro, como comprova a segunda parte da obra, que inicia nesta sexta-feira à noite uma série de lançamentos em São Paulo e no Rio de Janeiro (Devir, 136 págs., R$ 22,50).

O trabalho do paulista Laudo Ferreira Jr. mantém a premissa da etapa anterior, a de reconstruir a trajetória de Jesus tomando como base textos canônicos e apócrifos.

Assim como no volume anterior, revela um olhar pessoal sobre o tema, com maior foco em suas pregações e milagres. E acrescenta mais um tijolo naquela que é a obra mais autoral do quadrinista.

                                                         ***

"Yeshuah - O Círculo Interno o Círculo Externo", título do álbum, mostra a fase adulta de Cristo e o início da peregrinação milagrosa dele.

Ao contrário da primeira parte, que esmiúça um lado desconhecido de Maria, este novo volume se pauta em situações mais familiares ao leitor, herança da cultura cristã.

Das tentações no deserto à pescaria em mar sem peixes, os fatos são recontados com pauta nas pesquisas feitas pelo autor - a literatura consta no final da obra.

O trabalho também revela as primeiras aproximações com os discípulos, em particular com Simão, convertido de pescador em um de seus seguidores.

                                                          ***

Apesar de familiares, as situações são narradas sob a leitura pessoal do autor, tanto no texto quanto nos desenhos.

A arte pode incomodar quem está mais acostumado às representações tradicionais de Cristo. João Batista, por exemplo, é mostrado sem parte dos dentes.

No texto, algumas situações podem fugir ao que convencionalmente se prega. A multiplicação dos pães, no álbum, tem mais ares de divisão que de milagre.

E os nomes são os da versão hebraica. Jesus é Yeshu, Maria é Miriam, Simão é Shimon, Herodes é Hordus, Deus é Adonai. O "yeshuah" do título significa salvação.

                                                         ***

Uma lista, no final da obra, traduz para o leitor esses e outros nomes do hebraico. Outro sinal da farta pesquisa de Laudo Ferreira Jr., que começou a pensar o trabalho há dez anos.

Laudo Ferreira Jr. transformou o projeto em uma história madura, que, se feita no exterior, causaria um rebuliço muito maior - vide o impacto de "Gênesis", de Robert Crumb.

O planejamento do autor inclui uma terceira e última parte. Já em produção, está programada para o ano que vem e abre uma nova fase profissional do quadrinista.

Além de "Yeshuah", ele produz outros dois álbuns, um sobre os músicos mineiros do Clube da Esquina e outro sobre uma adaptação de obra de Gil Vicente.

                                                          ***

O senão desta segunda parte é algo que não depende propriamente da obra em si.

Por mais qualidades que tenha - e tem -, ela fica na incômoda posição editorial de ser a sequência de uma narrativa já iniciada e o gancho para a seguinte.

Para ser mais bem compreendida, há de se ver o volume final e verificar de que maneira será contado o calvário de Cristo. O ideal seria ler as três partes em sequência.

É algo parecido com o que ocorreu com a série "Persépolis", de Marjane Satrapi. Publicada inicialmente em quatro volumes, funcionou melhor quando lançada em edição única.

                                                          ***

Leia a resenha do primeiro volume de "Yeshuah" na postagem do blog de 25.12.09.

                                                          ***

Serviço/lançamentos de "Yeshuah - ) Círculo Interno o Círculo Externo"
Hoje (17.09). Horário: 19h30. Onde: HQMix Livraria. Endereço: Praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo.
28.09. Horário: 19h. Onde: Fnac Paulista. Endereço: Avenida Paulista, 901, em São Paulo (antes vai haver um bate-papo com o autor).
08.10. Horário: 19h. Onde: Livraria Travessa de Ipanema. Endereço: rua Visconde de Pirajá, 572, Rio de Janeiro.
Quanto: R$ 22,50.

Escrito por PAULO RAMOS às 09h53
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12.09.10

Álbum inglês faz crônica sobre papel do herói

 

O que Aconteceu ao Homem Mais Rápido do Mundo? Crédito: Gal Editora

 

 

 

 

 

 

 


Capa de "O que Aconteceu ao Homem Mais Rápido do Mundo", obra que começa a ser vendida nesta semana

 

 

 

 

 

 

 

 

Há um dilema ético na premissa de "O que Aconteceu ao Homem Mais Rápido do Mundo", álbum que chega nesta semana às lojas de quadrinhos (Gal Editora, 64 págs., R$ 22).

Se você tivesse o poder de parar o tempo, usaria a habilidade para salvar as vidas de outras pessoas? Outra pergunta: e se o resgate dos outros implicasse abrir mão da própria vida?

As respostas pautam a decisão que o jovem Bobby Doyle tem de tomar. O protagonista da história possui tal poder e se vê diante de uma situação-limite que o põe à prova.

Uma bomba está a uma hora de explodir em Londres. Doyle decide parar o tempo para tentar desligar o poderoso artefato. Descobre, então, que isso não seria tão simples assim.

                                                          ***

De tão sofisticada, a bomba não pôde ser desarmada. O mecanismo explosivo foi armado no subsolo de um prédio com arquitetura retrô, chamado Prometheus. 

O impacto atingiria um raio de três quilômetros, todo rodeado por prédios. Doyle descobre que a única solução seria carregar cada um dos moradores para longe do epicentro.

Para ele, isso significaria mudar a própria existência. O tempo é interrompido apenas para os outros, e não para ele.

O resgate de todos demoraria décadas e o obrigaria a trocar a juventude pela velhice. O que você faria? A solução de Doyle é o mote do restante da história do álbum.

                                                          ***

"O que Aconteceu ao Homem Mais Rápido do Mundo?" foge do caminho editorial dos demais álbuns que chegam ao Brasil, a maioria norte-americana.

A obra foi produzida na Inglaterra pela editora Accent UK. São de lá também os dois autores, o roteirista Dave West e a desenhista Marleen Lowe.

O trabalho da dupla conseguiu uma indicação no Eagle Awards, principal premiação de quadrinhos inglesa, na categoria de melhor produção do país feita em preto-e-branco. 

É um roteiro simples, porém inteligente, que justifica a indicação. A solução visual para indicar o tempo parado também é criativa. Não é um álbum revolucionário, mas bastante correto naquilo a que se propõe.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h02
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08.09.10

Experimentalismo livre, resultado à altura

 

Sic. Crédito: editora Conrad

 

 

 

 

 

 

Capa de "Sic", coletânea de tiras de Walmir Orlandeli que começou a ser vendida neste mês

 

 

 

 

 

 

 

Tive a oportunidade de fazer prefácio de "Sic", coletânea de tiras de Walmir Orlandeli, que começou a ser vendida neste início de mês (Conrad, 72 págs., R$ 19,90).

Em textos assim, costumo fazer mais uma resenha do que um prefácio propriamente dito. Por isso, pedi ao autor se me autorizava reproduzir aquelas palavras aqui.

Permissão concedida, segue o prefácio/resenha da obra. Só acrescentaria duas informações. A primeira é que o álbum é da Conrad, tem 72 páginas e custa R$ 19,90.

A outra informação é que é o segundo projeto selecionado pelo edital paulista incentivo à produção de quadrinhos de 2009 a ser publicado. O primeiro foi "O Astronauta". 

                                                          ***

Tive o privilégio de ser um dos primeiros a ler as histórias de Sic.

As tiras de Orlandeli passaram pelas minhas mãos durante o processo de escolha dos trabalhos do Salão Internacional de Humor de Piracicaba de 2008, ano em que participei do júri de seleção.

Tinha sido convidado especificamente para fazer o primeiro crivo da categoria tiras.

Minha função era definir quais deveriam ser encaminhadas ao júri de premiação, que se reuniria na semana seguinte e que daria a palavra final sobre o vencedor.

Vi em Sic atributos mais do que suficientes para ser levada à próxima etapa do salão de humor. Havia algo de inovador no trabalho.

As histórias pareciam fazer pequenas crônicas bem-humoradas sobre diferentes temas, de relacionamentos a voyerismo.

Cada uma trazia um personagem diferente, construído quadrinho a quadrinho durante a leitura.

Ajudava o formato, maior, equivalente ao de duas tiras. O final, inesperado, garantia a tradicional piada, comum às tiras cômicas – como as de Grump, personagem mais famoso do desenhista.

Não era uma impressão exclusivamente minha que aquelas duas páginas, com um par de tiras cada uma, tinham um quê diferenciado.

O júri, uma semana depois, escolheu a tira como a melhor do salão daquele ano.

Foi apenas o início. A série ganhou espaço fixo no jornal “Diário da Região”, de São José do Rio Preto, cidade do interior paulista onde Orlandeli mora.

Depois, as histórias eram reproduzidas no blog dele e podiam ser descobertas por uma gama mais ampla de leitores.

Se lida em sequência, como nesta antologia, fica claro que a tira amadureceu.

Nem todas as histórias podem ser rotuladas como tiras cômicas. Muitas passam a integrar um novo modo de produção, que ganhou mais destaque no Brasil com os trabalhos de Laerte na série “Piratas do Tietê”.

São histórias que conservam o molde da tira, mas apresentam ao leitor temas livres, marcados pela experimentação gráfica, sem a piada final. O tom de crônica das narrativas de estreia ficava ainda mais evidente.

Com Sic, Orlandeli se soma ao grupo de autores brasileiros que tem reinterpretado a tira e dado a ela uma nova cara, diferente de como vinha sendo feita até então.

Alguns dos resultados que ele obtém são excepcionais, tanto em conteúdo quanto no aspecto gráfico.

São tiras que mereciam uma antologia como esta, obra que ajuda a dar a real dimensão de tudo o que elas apresentam.

É algo inovador. E uma merecida janela aos quadrinhos de Orlandeli, autor talentoso, que tem nesta coletânea uma forma de reconhecimento ao seu trabalho.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h03
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05.09.10

Tiras livres: um gênero em processo de consolidação - I

Divido com o leitor deste blog artigo apresentado no 33º Intercom (Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação), realizado neste feriado prolongado em Caxias do Sul.

                                                        ***

Costuma-se creditar aos norte-americanos o surgimento e a consolidação das tiras. Nos primeiros anos do século 20, os autores de então ainda tateavam os recursos dos quadrinhos em busca dos melhores caminhos para se expressar na vindoura forma de arte, pautada na articulação da palavra com o desenho. Eram dias de experimentação. As descobertas mais eficientes foram repetidas e ajudaram a formar o que hoje conhecemos como linguagem dos quadrinhos.

O uso de um formato fixo foi uma das descobertas. Muitos dos quadrinhos passaram a ser produzidos num mesmo tamanho, horizontal, que se convencionou chamar de tira. O estabelecimento de um molde padrão havia se pautado em interesses comerciais: autores poderiam produzir uma mesma história e vender para mais de um jornal, principal locus de então para os quadrinhos. Empresas, os syndicates, se formaram para distribuir as tiras, inicialmente nos Estados Unidos, depois em outros países, Brasil entre eles.

Os temas variavam entre o humor e a aventura. Com o passar dos anos e o surgimento de outros personagens e séries, começou-se a haver um assentamento do mdo de produção desses quadrinhos, consolidando-os como gêneros, entendidos aqui como tipos relativamente estáveis de enunciado, construídos numa situação sociocomunicativa, tal qual define Bakhtin (2000). Muitas das narrativas curtas – por conta do formato – apresentavam um desfecho inesperado no final, tal qual uma piada, como defendemos em outros dois estudos (RAMOS, 2007, 2009).

Outro gênero que começou a ser tateado na década de 1920 e, principalmente, a partir da de 1930 foi a tira seriada, também chamada por muitos autores como “tira de aventuras”. Tais histórias tinham como singularidade a narrativa relatada em capítulos diários, como se fosse uma novela. A cena que encerrava a ação era retomada, desse ponto, no dia seguinte. E assim sucessivamente. Uma mescla das duas formas de produção gerou um terceiro gênero, que temos chamado de tira cômica seriada. Trata-se de uma tira com desfecho inesperado, mas inserido em uma narrativa maior, se a história for lida episódio após episódio.

Com maior ou menor variação, os três gêneros pautaram a produção de tiras nos Estados Unidos e nos países sul-americanos ao longo das décadas seguintes, com visível preferência pelas cômicas. É a que predomina nos jornais brasileiros, tanto que o senso comum tende a enxergar as tiras como sendo exclusivaente de cunho humorístico. Uma eventual fuga desse molde de produção significaria quebrar esse acordo textual implicitamente estabelecido com o leitor. Este tende a esperar a piada no desfecho da história que lê nos jornais. Mesmo nos novos suportes virtuais usados para veiculação de quadrinhos, como os blogs, a maioria dos autores daqui procura reproduzir o formato horizontal e o humor que popularizou as tiras.

Há autores brasileiros, no entanto, que romperam com a tradição herdada do século 20 e têm produzido, neste início de século 21, algo diferente dos gêneros de tiras vistos até então. São produções de temática livre, não humorística, quase pensatas ou crônicas construídas no limitado espaço da tira. O novo modo de produção ganhou força e destaque com “Piratas do Tietê”, de Laerte, publicada na “Folha de S.Paulo”, série que, poucos anos depois, influenciou outros autores a trilharem o caminho da experimentação gráfica, tal como ele. 

Assim como
no início do século passado nos Estados Unidos, há a consolidação de algo novo e, por isso, ainda pouco explorado. O número de casos surgidos desde então já justifica um olhar mais detalhado sobre o tema, algo necessário para entender as características que singularizam o gênero em relação aos demais.

Seguramente há quadrinistas que já produziram tiras sem humor, com temas mais sérios e reflexivos. Mort Walker, criador de Recruta Zero, deixou o humor de lado para homenagear, em uma de suas tiras, soldados norte-americanos mortos. Charles M. Schulz desenhou o cãozinho Snoopy redigindo uma comovente carta de agradecimento aos leitores ao decidir encerrar a produção da série. É muito provável que os jornais brasileiros tenham registrado exemplos semelhantes, mas em décadas anteriores, mas é algo que tendia a ser pontual.

O desenhista Laerte Coutinho seguiu por anos o molde do humor e do uso de personagens regulares desde que passou a integrar o grupo de autores da “Folha de S.Paulo”. O espaço do caderno de cultura tinha como vizinhos os amigos Angeli e Glauco, responsáveis pelas tiras de “Chiclete com Banana” e “Geraldão”, respectivamente. Ambas seguiam a tradição das tiras cômicas. Laerte se valeu de uma gama variada de personagens. Batizou o espaço diário com uma de suas criações, os truculentos “Piratas do Tietê”.

Mais ou menos na metade da década inicial deste século, a produção de Laerte começou a passar por uma transição. Primeiro, com personagens não regulares, criados especificamente para aquela tira, depois com mudanças temáticas, em que o foco estava em assuntos mais introspectivos, muitos deles levando o leitor a uma interpretação aberta do que texto em quadrinhos. A tira abandonou os personagens fixos e o humor e se transformou num espaço de experimentação, como se vê nos dois exemplos a seguir:



Piratas do Tietê, de Laerte.

 

 Piratas do Tietê, de Laerte


 

O desenhista revelou, em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo” publicada em 29 de agosto de 2008, que a mudança no modo de rumo se deveu à perda do filho num acidente de carro, dois anos antes. Desde então, passou a não ver mais o humor do mesmo jeito. Nas palavras dele: 

- P
assei a ver e pensar as coisas de outro jeito, uma série de procedimentos começou a perder o sentido ou ganhar outros. Muito do que consistia a natureza das minhas tiras era um tipo de prestação de contas, como se eu estivesse fazendo para algum juiz, era um modo extenuante de trabalhar. Passei a não achar mais graça no tipo de humor que fazia, não me identificava mais com aquele modo de fazer, então resolvi deixar de lado os personagens.

Houve leitores que receberam as tiras dele com estranhamento. Dois outros jornais onde Laerte publicava os trabalhos – “Zero Hora”, do Rio Grande do Sul, e “A Tribuna”, do Espírito Santo – cancelaram a série, atitude que reforça dois aspectos. O primeiro é a tendência de as tiras serem vistas estritamente como cômicas no Brasil, como se somente esse gênero fosse possível. O segundo aspecto é consequência do anterior: a inovação feriu o pacto implícito estabelecido entre autor e leitor. Este passou a não encontrar nos textos diários as piadas que costumava ler habitualmente. 

Em outras palavras, instaurou-se um processo de instabilidade dentro de um gênero até então estável, a tira cômica. Iniciava-se um ensaio de algo novo, em processo de construção. Apesar do estranhamento de leitores de outros jornais, a “Folha de S.Paulo” manteve a tira e a liberdade dada a Laerte. O novo modo de produzir as tiras ecoou pouco depois no trabalho dos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon. Os desenhistas inauguraram uma série no jornal paulista intitulada “Quase Nada” – segundo Moon,  porque é “exatamente o que dá para contar em uma tira”.  

A declaração do quadrinista foi dada ao jornal paulista numa matéria publicada no dia em que a série estreou, 14 de setembro de 2008. Na ocasião, Moon assumiu a influência exercida pelo novo caminho trilhado pelo vizinho de página. “Gostamos de todas as tiras do Laerte, incluindo as atuais, que estão menos fáceis, mas são geniais”, disse Moon. “Essa liberdade que tem na ´Folha´, de poder fazer tiras assim, que não sejam piadas, nos estimulou a tentar.”  

Não ser calcada no humor, base da tira cômica, já sinalizava que a série semanal destoava das demais publicadas pelo diário, tal qual a produzida por Laerte. “Quase Nada” trazia ao menos outros dois diferenciais em relação aos outros quadrinhos do jornal. O primeiro era temático, dando prioridade a assuntos ligados a relacionamentos cotidianos. O segundo diferencial era o uso de um formato maior, equivalente ao de duas tiras, como se pode ver a seguir:

 

Quase Nada, de Gabriel Bá e Fábio Moon



A internet também começou a registrar casos de experimentação no processo de criação de tiras. Um dos casos mais evidentes disso são os trabalhos veiculados por Rafael Sica em seu blog a partir de meados de 2009. As histórias, imaginadas sem palavras, apresentavam um nítico experimentalismo, gráfico e temático:



Quadrinho Ordinário, de Rafael Sica



Quadrinho Ordinário, de Rafael Sica



A exemplo do que ocorreu com Laerte em jornais do sul do país, houve leitores que manifestaram inquietação sobre o que acompanhavam na página virtual, eleita em 2009 a melhor da categoria no Troféu HQMix, principal premiação da área de quadrinhos no Brasil. O desenhista reuniu alguns dos comentários deixados no blog e criou uma história sobre o tema, intitulada “Situação Crítica – Teorias, Conceitos, Divagações, Certezas e Chutes sobre a Obra de Rafael Sica (Extraído de Forma Literal da Seção de Comentários do Blog do Autor)”.

As frases, reproduzidas nos balões, sinalizavam uma certa dificuldade em extrair o sentido das tiras. A história em quadrinhos, mostrada na página a seguir, foi veiculada no dia 2 de outubro de 2009 no blog do autor. Até o dia 17 de julho de 2010, 234 leitores haviam se manifestado sobre ela no espaço do blog reservado a comentários. Boa parte defendia o trabalho diferenciado do desenhista, como evidenciam estes três depoimentos (registro do mesmo modo como foram veiculados no espaço de comentários do blog): 

- Isabela: Fantástico, mesmo. Admiro o seu trabalho, toda a atmosfera suja e realista que você cria não são nada mais do que reflexos da realidade. Palavras são mais simples de compreender do que desenhos, acho que vem daí toda a ignorância das pessoas nos comentários, nada mais ignorante do que ditar como ruim algo, somente por não entendê-lo. Parabéns, um belo blog. :)

- Alberto: A partir do momento que você expõe seu trabalho, seja ele tirinha textos pinturas ou o caralho a 4, você não é mais dono dele, ele está livre pra mais de 1000 interpretações (ou só uma, no caso de todo o povo que chama seu trabalho de lixo, o q eu não concordo)

- Rodrigo: Não preciso nem comentar. Quem não entende que vá procurar legenda no Google. O Sica é um dos quadrinistas brasileiros mais originais, sem discussão - quem não entende, provavelmente confunde humor com piada.



Quadrinho Ordinário, de Rafael Sica



Tal qual Laerte, Gabriel Bá e Fábio Moon, Rafael Sica reforçou o grupo de autores que passaram a extrair das tiras outros caminhos, diferentes dos tradicionais, e ajudando a dar um pouco mais de estabilidade à instabilidade desse modo de criação. Isso ajuda a enxergar algumas recorrências, que permitem olhar com mais claridade o que temos defendido ser um novo gênero, ainda sem nome definido, dado seu caráter prematuro.

                                                         ***

 

Continua na postagem abaixo.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h04
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Tiras livres: um gênero em processo de consolidação - II

(Continuação da postagem anterior)

Em janeiro de 2010, outros dois desenhistas, o também escritor e ator Lourenço Mutarelli e o quadrinista Marcello Quintanilha, estrearam tiras no caderno de cultura do jornal “O Estado de S. Paulo”. A exemplo do que fizeram Gabriel Bá e Fábio Moon, Mutarelli e Quintanilha ocuparam um espaço equivalente ao de duas tiras e também produziram histórias sem o humor tradicional dos demais gêneros de tiras. 

Mutarelli definiu sua tira, chamada “Ensaio sobre a Bobeira”, como um espaço de experimentação. “Nem eu sei o que quer dizer”, disse o desenhista, em entrevista ao jornal paulistano. “Não é pensado, não tem uma imagem, uma mensagem. É uma experimentação gráfica.  Às vezes eu faço um desenho e, a partir do desenho, eu crio algum diálogo, algum texto não é pensado.”



Ensaio sobre a Bobeira, de Lourenço Mutarelli



Marcello Quintanilha preferiu usar o espaço da tira semanal para criar contos em quadrinhos, marca de seu trabalho. Uma vez mais, a série se pautou na exploração de uma liberdade temática e criativa:



Marcello Quintanilha




Percebe-se que há nesses trabalhos algumas recorrências, que os afastam dos demais gêneros de tiras: não uso do humor com piada, como nas tiras cômicas; histórias narradas em uma lufada só, ao contrário das histórias seriadas. Além disso, tendem a ter na liberdade temática, na ausência de personagens e situações fixas e na experimentação três de suas marcas centrais. Em relação aos demais gêneros, mantém a utilização do formato, mesmo que no tamanho equivalente ao dobro de uma história como as outras da página – caso das séries de Bá e Moon, Mutarelli e Quintanilha. 

Apesar do relativo pouco tempo de produção de tais histórias em quadrinhos, parecem ser essas as recorrências apresentadas por elas. O diferencial está pautado na liberdade, temática e gráfica. Daí a proposta de intitular o novo gênero como “tira livre”. O termo é pautado em pesquisa de Martignone e Prunes (2008) sobre tiras publicadas na Argentina. Os dois autores usaram a expressão para se referir aos trabalhos criados por Rep, forma como o desenhista Miguel Repiso assina suas tiras publicadas diariamente no jornal “Página/12”, de Buenos Aires. 

Rep começou a ocupar o espaço de tiras na segunda metade da década de 1980 com “Mocosos”, série que tinha crianças como protagonistas. Na década seguinte, trocou os personagens. Passou a enfocar, então, um ex-revolucionário, Gaspar, que precisa se adaptar à vida capitalista para sustentar a família. Pouco antes da virada do século, Rep radicalizou o espaço diário e passou a criar situações cômicas ora sem personagens fixos, ora com suas criações tradicionais. Foi a essa liberdade no trato com a série que Martignone e Prunes chamaram de tira livre. 

Entendemos que, apesar de ser pautada na escolha individual do que irá produzir, as tiras de Rep ainda mantém o humor e o desfecho inesperado, tal qual as tiras cômicas tradicionais. A liberdade, por assim dizer, seria a de manter ou não personagens fixos, algo que Laerte já fazia na série “Classificados”, publicada na “Folha de S.Paulo” na segunda metade da década de 1990 e, depois, compilada em três livros, e por onde outro brasileiro, Paulo Caruso, enveredou na década de 1980 na série “Mil e Uma Noites”, tiras que circularam no carioca “Jornal do Brasil”. 

O termo tira livre, no entanto, parece-nos o mais apropriado para se referir aos novos trabalhos realizados pelos autores brasileiros. Nesses casos, há, de fato, uma liberdade nos temas e na abordagem, algo que os distingue do que vem sendo feito até então e torna tais criações singulares, inclusive em termos de gêneros.

Concluindo sobre as tiras livres.

U
m grupo de autores brasileiros vem produzindo neste século, em dois jornais paulistas e em pelo menos um blog, um conjunto de tiras que compõe algo novo no modo como elas vinham sendo produzidas até então. As novas histórias se pautam numa liberdade temática, na ausência do humor, em tentativas nítidas de experimentação gráfica. Por isso, distinguem-se dos demais gêneros afins e já se pode dizer que consolidam um gênero novo, autônomo, peculiar da produção nacional de histórias em quadrinhos.

São produções que já encontraram a estabilidade em seus enunciados. Ter registros de reações de estranheza por parte de alguns leitores só reforça a premissa de que se trata de algo efetivamente novo, diferente do que vinha sendo produzido até então, em particular nas tiras cômicas.

Exatamente por se centrar na liberdade de produção, entendemos que o termo “tira livre” seja o mais apropriado para se referir ao novo gênero. Sabemos, no entanto, que cunhar um nome é apenas o primeiro passo para entender tais produções, que precisam de outras investigações para serem bem compreendidas.


Referências bibliográficas 
BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 
Dois jornais cancelam tiras de Laerte. Disponível em http://blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br/arch2008-06-01_2008-06-30.html#2008_06-13_11_10_26-135059040-27 Acesso em 17 jul. 2010. 
Gabriel Bá e Fábio Moon estréiam tira semanal em jornal. Disponível em http://blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br/arch2008-09-01_2008-09-30.html#2008_09-14_15_43_43-135059040-27 Acesso em 17 jul. 2010. 
Lourenço Mutarelli e seus cadernos libertários. Disponível em http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,lourenco-mutarelli-e-seus-cadernos-libertarios,498847,0.htm Acesso em 15 jul 2010. 
Mais uma explicação de Laerte. Agora, sobre as tiras filosóficas. Disponível em http://blogdosquadrinhos2.blog.uol.com.br/arch2007-08-01_2007-08-31.html#2007_08-29_17_12_22-128224777-27 Acesso em 17 jul. 2010. 
MARTIGNONE, H. & PRUNES, M. Historietas a diário – Las tiras cômicas argentinas de Mafalda a nuestros dias. Buenos Aires: Libraría, 2008. 
Os cadernos libertários de Lourenço Mutarelli. Disponível em
http://tv.estadao.com.br/videos,os-cadernos-libertarios-de-lourenco-mutarelli,85427,253,0.htm Acesso 15 jul 2010. 
Rafael Sica ordinário. http://rafaelsica.zip.net/ 
RAMOS, P. A leitura dos quadrinhos. São Paulo: Contexto, 2009. 
_____. Tiras cômicas e piadas: duas leituras, um efeito de humor. 424f. Doutorado (Letras, Faculdade de Filologia, Letras e Ciências Humanas). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h45
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04.09.10

Melhor história de Namor pouco mostra o personagem

 

Namor: As Profundezas. Crédito: editora Panini

 

 

 

 

 

 

 

 

"Namor - As Profundezas" compila as cinco partes da minissérie de suspense

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um mês na Espanha e mais um mês pondo a pauta em dia adiaram a resenha de "Namor - As Profundezas", álbum lançado em junho pela Panini e uma das gratas surpresas do ano.

Merece registro porque é possivelmente a melhor história de Namor, o Príncipe Submarino, personagem criado em 1939 pelo norte-americano Bill Everett.

O dado curioso é que o super-herói pouco aparece na trama, que recria, no fundo do mar, todo o ambiente de uma trama de suspense. Namor é justamente o motivo do mistério.

Um cientista desaparece ao encontrar o que possivelmente seria a Atlântida, cidade submersa, lar do herói aquático. Uma equipe é convocada para descobrir o paradeiro dele.

                                                          ***

A expedição é liderada pelo cientista Randolph Stein. Cético, ele tem por princípio acreditar que a ciência é a viga mestra para desvendar mistérios.

A tripulação, por outro lado, mantém viva a tradição ouvida de tantas outras viagens, a de que existe um vingativo e protetor Príncipe Submarino, sempre à espreita para atacar embarcações que se aproximem de seu habitat.

O submarino onde Stein e os demais tripulantes estão passa a ser cercada de estranhos eventos. Para os marujos, trata-se de Namor. Para Stein, fenômenos explicáveis.

A contradição entre crença e ciência marca ajuda a aumentar a tensão e o clima claustrofóbico - a obra, como dito, é ambientada no fundo do mar.

                                                         ***

A presença de Namor é mais temática que física. Apenas o vulto e uma silhueta escura do herói aparecem, en passant, em alguns quadrinhos.

Apesar de não ser mostrado explicitamente, a história sobre o herói faz o que as narrativas do herói não fizeram por décadas: apresentam um roteiro atraente, que prende o leitor.

O texto é do inglês Peter Milligan e a arte, de Esad Ribic. Dono de um estilo hiperrealista, o trabalho do desenhista ajuda a tornar mais crível a trama de suspense.

A obra passou pelas bancas de jornal e, hoje, pode ser encontrada nas lojas de quadrinhos (Panini, 132 págs., R$ 22,90). O álbum integra uma coleção em capa dura com outras abordagens adultas das histórias dos heróis da norte-americana Marvel Comics.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h46
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01.09.10

Álbum marca retorno tímido de Liga Extraordinária

 

A Liga Extraordinária - Século 1910 - Crédito: editora Devir

 

 

 

 

 

 

 

Terceiro volume da série dá sequência a história escrita pelo inglês Alan Moore

 

 

 

 

 

 

 

É impreciso resenhar uma obra em quadrinhos apenas pelo primeiro volume. Mas é o que se tem à mão, até porque os dois próximos estão programados para 2011.

Feita a ressalva, o que se pode registrar são apenas impressões sobre a terceira sequência de "A Liga Extraordinária", álbum vendido desde o mês passado (Devir, 96 págs.).

Nesta primeira parte, o que se lê é uma narrativa tímida se comparada às edições anteriores. O grupo tem de enfrentar uma ameaça à Inglaterra no ano de 1910.

A publicação chama mais atenção pelo nome que a série criou e pelo fato de ser escrita por Alan Moore - há também repetição do desenhista, Kevin O´Neill.

                                                          ***

Os roteiros do escritor inglês costumam ser acima da média. Ter o nome dele em alguma obra é um apelo a mais ao leitor. Mas não é o caso deste álbum.

A trama repete a fórmula base dos volumes anteriores, já publicados pela Devir. Os personagens centrais da liga são figuras conhecidas da literatura inglesa.

A cabeça da equipe continua sendo Mina Murray, extraída do "Drácula", de Bram Stocker. Ao lado dela, um rejuvenescido Allan Quatermain, de "As Minas do Rei Salomão".

Outros nomes integram a trupe: a filha do Capitão Nemo, Thomas Carnacki, Arthur James Raffles e um enigmático, embora carismático, Orlando, pinçado da obra de Virginia Woolf.

                                                          ***

Este número inicial procura apresentar os novos personagens, retomar características dos antigos e construir a tal ameaça à Inglaterra.

Mas ainda não é possível dizer a que veio este terceiro capítulo da série. Uma avaliação mais justa e precisa terá de aguardar os volumes dois e três, no ano que vem.

Ao contrário do que ocorreu com as duas primeiras partes, produzidas como minisséries e lançadas em volumes únicos, esta sequência chegará ao leitor parte por parte.

A Devir fez duas versões da obra, uma em capa dura e mais cara (R$ 46), outra em capa mole e mais em conta (R$ 35). A escolha fica por conta do leitor. O conteúdo é o mesmo.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h27
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