30.10.10

Álbum erótico de Gilbert Hernandez marca estreia de editora

 

Birldand - Uma Aventura dos Sentidos. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Obra de um dos autores de "Love and Rockets" inaugura entrada Arte Sequencial no mercado de quadrinhos

 

 

 

 

 

 

 

 

Não há meio termo sobre as histórias em quadrinhos de "Love and Rockets", criadas desde 1982 pelos irmãos Gilbert, Mario e Jaime Hernandez. Ou a pessoa se encanta ou repudia.

Ocorre algo semelhante com as obras eróticas. O gênero não é para todos os gostos.

Se superadas essas duas resistências, o leitor pode se enfronhar nas páginas de "Birdland - Uma Aventura dos Sentidos", obra de estreia da Arte Sequencial (104 págs., R$ 34,90).

O álbum traz uma história erótica, escrita e desenhada por Gilbert Hernandez e ligada ao universo ficcional de "Love and Rockets".

                                                          ***

O que aproxima esta narrativa das demais da série é a fogosa psiquiatra Fitz Herrera, meia irmã de Luba, personagem-chave de outras tramas.

A médica hipnotisa seus pacientes para se aproveitar sexualmente deles. A quantidade de consultas recomendada a eles depende do interesse sexual dela pelo cliente.

Se ficasse apenas nisso, não seria mais uma história de "Love and Rockets", marcada pela abordagem das relações humanas. E como há relações no álbum...

Fitz é casada com Mark. Ele a ama, ela não. E todas amam Mark, que contorna a ausência sexual da esposa com todas as parceiras possíveis, até a apaixonada cunhada.

                                                           ***

Mais do que uma obra erótica, "Birdland - Uma Aventura dos Sentidos" se assemelha muito aos roteiros das produções pornográficas. Tudo é pretexto para sexo.

São pouquíssimas as páginas da obra que não mostram relações sexuais explícitas e com toques exagerados. Perto do final, o enredo tem uma reviravolta. Mas mantém o sexo.

Por ter dois motores de resistência - "Love and Rockets", que ainda não se adaptou ao mercado brasileiro, e erotismo como tema, que restringe significativamente o público leitor -, trata-se de uma aposta de risco para a estreia da Arte Sequencial.

Apesar disso, o tratamento gráfico dado à obra, com capa feita com uma imagem "vazada", credita a espera por um segundo lançamento da editora, criada por Ricardo Kozesinski, dono do sebo de quadrinhos Rika, de São Paulo.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h51
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19.10.10

Fábulas 6 revela quem é o enigmático vilão da série

 

Fábulas: Terras Natais - Crédito: editora Panini

 

 

 

 

 

 

 

Mistério é mostrado no sexto volume da série, "Fábulas - Terras Natais", à venda nas bancas e lojas de quadrinhos 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A internet modificou muito a entrada do leitor em alguma obra em quadrinhos - o raciocínio vale também para os filmes e as séries de TV.

A pessoa querendo - ou às vezes não querendo - é faceada a uma série de informações que antecipam parte ou quase todo o conteúdo da obra. Mata-se, assim, a surpresa.

Há uma dessas novidades escondida nas páginas de "Fábulas - Terras Natais" (Panini, 196 págs., R$ 24,90), sexto volume da série norte-americana.

O álbum revela quem é o enigmático vilão da história, informação mantida em sigilo desde o início do título. É para ser uma surpresa. Pelo menos em tese.

                                                         ***

Uma busca no Google ou em outro site afim já revela(ou) aos mais curiosos de quem ou do que se trata o misterioso Adversário, ser que expulsou as fábulas do reino encantado.

Mas, partindo do princípio de que se trata mesmo da revelação de um suspense, esse é o principal atrativo deste novo volume, escrito pelo criador da série, Bill Willingham.

O enigma é mostrado após o Garoto Azul invadir o reino inimigo e perenigrar por aquelas terras até encontrar o vilão. Sua missão é matar o líder dos exércitos contrários.

Falar mais estragaria a surpresa. Claro, se se trata de uma supresa ao leitor destas linhas.

                                                         ***

O álbum reúne essa sequência principal de histórias e outras, sobre outros personagens: João, aquele do pé de feijão, e Mogli, agora adulto.

Fazer uma releitura adulta dos personagens dos contos infantis é o mote da série. Nem sempre a imagem que se tem de uma fábula corresponde ao modo como ela é mostrada.

O Príncipe Encantado, por exemplo, é o ambicioso rei das fábulas. Fera, de a Bela e a Fera, é o xerife. Lobo Mau teve filhotes após um relacionamento com Branca de Neve.

O enredo pode soar estranho numa primeira olhada. Mas a série convence e é uma das melhores publicadas pela Vertigo, selo aduto da editora DC Comics, a mesma de Batman.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h48
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17.10.10

Pequenos Heróis relembra a criança de ontem no adulto de hoje

 

Pequenos Heróis. Crédito; editora Devir

 

 

 

 

 

 

 

Álbum brasileiro faz homenagem a super-heróis da editora norte-americana DC Comics, a mesma de Super-Homem e Batman

 

 

 

 

 

 

 


Uma primeira passada de olhos em "Pequenos Heróis" pode sugerir que o álbum seja direcionado ao público infanto-juvenil.

O leitor mais jovem pode até gostar. Mas o alvo é outro. É direcionado àquela pessoa que cresceu acompanhando as histórias de super-heróis e o fascínio criado por elas.

O álbum nacional - lançado neste fim de semana em São Paulo (Devir, 104 págs., R$ 29,90) - faz uma homenagem aos personagens da editora norte-americana DC Comics.

A proposta geral é mostrar como cada um dos superseres pode interferir na vida dos mais jovens. Ao mesmo tempo, dialoga com a criança de ontem, escondida no adulto de hoje.

                                                         ***

A ideia partiu do quadrinista Estevão Ribeiro, criador da série de tiras "Os Passarinhos". Foram dele os roteiros das oito histórias da obra.

Cada uma das narrativas aborda um superser diferente: Super-Homem, Batman, Flash, Lanterna Verde, Mulher-Maravilha, Aquaman, Arqueiro Verde e Ajax, o Marciano.

Os heróis não aparecem. Pelo menos não explicitamente.

As narrativas curtas se ancoram em alguma característica deles, manifestada em situações cotidianas de crianças e jovens - cenas alimentadas pela memória das leituras de ontem. 

                                                         ***

O projeto se tornou viável por meio de parcerias. A primeira entre Ribeiro e Mário César, coeditor do álbum e responsável pela arte de uma das histórias.

As demais ficaram a cargo de um desenhista diferente: Raphael Salimena, Jaum, Emerson Lopes, Vitor Cafaggi, Leo Finocchi, Fernanda Chiella, Ric Milk e Dandi.

Os autores já sinalizam a intenção de alçar voos maiores, como o do mercado internacional. As narrativas não usam balões e os textos explicativos estão em português e inglês.

Tem qualidades para se tornar um produto made in Brasil na terra do Tio Sam - e baseado em personagens do Tio Sam, não custa registrar.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h12
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16.10.10

Quem é Lucas da Feira?

 

Lucas da Vila de Sant´Anna da Feira. Crédito: blog dos autores

 

 

 

 

 

 

Resposta é mostrada no álbum "Lucas da Vila de Sant´Anna da Feira", baseado no personagem histórico

 

 

 

 

 

 

 

 

É bem provável que o leitor nunca tenha ouvido falar de Lucas da Feira, figura histórica do interior baiano. Confesso que também não o conhecia.

A proposta do álbum "Lucas da Vila de Sant´Anna da Feira" (48 págs., R$ 12) é justamente essa, a de apresentar o polêmico personagem a outros terrenos do país.

O adjetivo polêmico se justifica pela trajetória dele. Longe de ser um herói, vivia de ataques a tropeiros na região de onde hoje fica a cidade de Feira de Santana.

Mais do que um simples fora-da-lei, bem ao estilo dos cangaceiros, a atitude dele é interpretada pelos autores como a de um negro que se rebelou contra a escravidão.

                                                          ***

"Tornar-se um assassino cruel foi opção dotada de forte capacidade de se erguer e reagir ante as adversidades, antes de tudo uma maneira de se permitir o impensável para um escravo: possuir autoestima para cuidar de si e da própria vida", explicam Marcos Franco e Marcelo Lima, os dois roteiristas, na introdução da obra.

"De qualquer modo, sendo ele considerado algoz ou vítima, a sua influência na cultura feirense é algo inquestionável, como um forte valorizador, sobretudo, da cultura afro-brasileira", acrescentam.

O trabalho foi viabilizado por meio de leis de incentivo cultural. O projeto, na verdade, é maior que a obra. Prevê também exposições e visitação a escolas.

Uma estratégia interessante e louvável. Os quadrinhos narram parte da história da região e ajudam a apresentar a polêmica figura no processo educacional.

                                                         ***

Nesse processo de entrada nas escolas, formam-se também novos leitores, numa região que, segundo os autores, carece de atividades culturais.

Para a obra, a dupla de roteiristas pesquisou o pouco que foi estudado sobre o personagem em livros e dissertações de mestrado. As fontes constam no final do álbum.

Isso ajuda a dar maior seriedade à história que, mesmo fictícia, ancora-se em elementos reais. Os diálogos coloquiais e os desenhos de Hélcio Rogério ajudam a ambientar a região.

Este álbum pode ser o início de um movimento de quadrinhos por lá. Trabalha-se com a ideia de que esta seja apenas uma primeira história. Nesta estreia, cumpre o que promete.

                                                          ***

Uma informação final: a obra é vendida por intermédio dos autores, via e-mail: lucasdafeirahq@gmail.com 

Escrito por PAULO RAMOS às 14h06
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13.10.10

Mondo Urbano: do circuito independente ao comercial

 

Mondo Urbano. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

Álbum reúne quatro volumes da série, lançada inicialmente no circuito independente 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É peculiar a trajetória editorial de "Mondo Urbano", álbum nacional que tem lançamento nesta sexta-feira em Porto Alegre (Devir, 128 págs., R$ 25).

A obra teve início no circuito independente. Teve quatro números, "Powertrio", "Overdose", "Cabaret" - cada um abordava um ponto da expressão "sexo, drogas e rock´n´roll" - e o epílogo "Encore", os mesmos agora reunidos na forma de livro.

Passar da produção alternativa para a editorial trouxe dois benefícios à série, criada pelo trio Eduardo Medeiros, Mateus Santolouco e Rafael Albuquerque.

Um é ganhar uma janela maior, com mais pontos de venda, em particular as livrarias. O sistema de distribuição comercial também permite uma difusão mais abrangente do produto.

                                                          ***

O segundo benefício independe de ser publicado pelos autores ou por uma editora. A história flui melhor se lida em sequência, algo que o livro viabilizou.

No formato revista, a distância temporal entre um número e outro tende a tornar a leitura mais fragmentada. Com isso, perdem-se nuances agora recuperadas.

Há uma costura nos dez capítulos da trama - somando o epílogo - que fica bem mais nítida com a leitura corrida, na forma de álbum.

Fica bem mais claro, por exemplo, que toda a narrativa se passa em torno de um show do grupo De-Mo, observado sob diferentes ângulos narrativos.

                                                         ***

A trama principal gira em torno do líder da banda e dos dois mistérios sobre o músico.

Ele teria feito um pacto com o demônio para alcançar a fama? Outro mistério é sobre sua morte, ocorrida após o show. Ele teria cometido suicídio ou sido assassinado?

Em torno da tragédia, os autores pontuam fragmentos da vida de diferentes personagens antes, durante e depois da apresentação da banda.

Há o grupo de amigos que compra o ingresso para o show, o jovem que tem fobia de andar de ônibus, um vendedor de drogas que tem um usuário morto em casa.

                                                          ***

Ocorrem diálogos entre cada um dos blocos narrativos. Mas não parece ser essa a intenção inicial de Alburquerque, Medeiros e Santolouco.

O trabalho do trio sugere que a intenção é resolver a trama central - e resolve, no epílogo - e apresentar os demais personagens, pessoas comuns, com a vida como narrativa.

Tanto que os autores lançam sementes de fatos que não são concluídos no álbum. É de se esperar que este seja apenas o primeiro volume, como a lombada da capa indica.

No final, como na versão em revista, há outra pista bem clara disso, com uma espécie de prévia de uma sequência, intitulada "Edu em Apuros".

                                                         ***

O rótulo "Mondo Urbano" parece funcionar como o "Dez Pãezinhos", usado pelos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon. É um título que abriga a história que os autores quiserem.

Há outra semelhança com os dois desenhistas. A exemplo de Bá e Moon, os autores tiveram a obra publicada no meio do ano no mercado norte-americano, onde também atuam.

O périplo percorrido por Santolouco, Medeiros e Albuquerque pode ser uma forma viável de produzir quadrinhos no país, que não espera para acontecer.

Do circuito independente para o comercial, do nacional para o estrangeiro. Com uma parada em Porto Alegre para lançar a obra, como ocorre nesta sexta-feira à noite.

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Mondo Urbano". Quando: sexta-feira (15.10). Horário: 19h. Onde: Quanta Academia de Artes. Endereço: rua Coronel Camisão, 100, Higienópolis, Porto Alegre. Quanto: R$ 25.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h59
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11.10.10

A lição que Tropa de Elite 2 dá aos quadrinhos nacionais

 

Tropa de Elite 2. Crédito: divulgação

 

"Tropa de Elite 2" estreou nos cinemas na sexta-feira passada com tratamento de arrasa-quarteirão norte-americano. Entrou, de cara, em 696 salas do país.

A resposta das bilheterias também foi superlativa: 1,25 milhão de espectadores até agora.

Comparando: a arrecadação é superior à estreia do terceiro longa da série "Crepúsculo", segundo informa hoje o site "G1".

O sucesso da produção tende a engordar os números e se tornar um dos maiores sucessos do ano. E tem algo a ser ensinar ao atual momento vivido pelos quadrinhos no Brasil.

                                                          ***

A lição que "Tropa de Elite 2" dá não é pela temática do filme, dirigido por José Padilha, o mesmo da primeira parte, exibida em 2007.

O longa retoma o Capitão Nascimento, vivido pelo ator Wagner Moura. Nesta sequência, o policial do Bope tem como alvo a corrupção do sistema político e a formação de milícias policiais no Rio de Janeiro.

A crítica é um soco no estômago dos políticos brasileiros. O telespectador sai do cinema com a impressão de que o filme deveria ter estreado antes do primeiro turno das eleições, realizado no último dia 3.

Apesar da crítica, que também pode ser vista como uma forma de lição, o ensinamento que a tropa cinematográfica dá é se ordem qualitativa. É possível fazer um bom filme no Brasil.

                                                         ***

Antes de as primeiras imagens do longa aparecerem na tela, a plateia tem de aguardar a longa exibição de todas as empresas que ajudaram a bancar a produção. É rotina comum a outros filmes nacionais.

Sabe-se o quão difícil é custear cultura no Brasil e a discussão, aqui, não é por esse viés. A questão é que, por mais difíceis que sejam, há situações de estímulo a tais longas.

Assim como há para a produção de histórias em quadrinhos nacionais, por mais que as condições não sejam as ideias - e, que fique claro, não são.

Apesar das dificuldades, o atual momento brasileiro é um dos mais propensos a publicar quadrinhos na forma de livros. E é aí que "Tropa de Elite 2" serve de parâmetro.

                                                          ***

O filme de José Padilha estreou com tratamento de longa-metragem internacional e correspondeu à expectativa.

Há alguns anos, não muito distantes assim, havia entre os brasileiros uma resistência a assistir a filmes nacionais no cinema. Houve uma retomada na produção a partir da metade da segunda década de 1990.

Mas de nada adiantaria ter as condições propícias - ou a oportunidade de fazer a produção - se o longa não correspondesse em qualidade.

"Tropa" teve as condições financeiras de ser viabilizado. E correspondeu em qualidade.

                                                         ***

A retomada do cinema nacional de 15 anos atrás se assemelha, em menor grau, ao atual momento visto nos quadrinhos no país.

Editoras sérias e políticas de governo passam a apostar nas histórias mais longas, em formato de livro, filão em que o Brasil não tinha tradição.

Tinha vários casos, sim, mas não tradição. Ainda mais em doses plurais.

Tais investimentos já vêm surtindo efeito. O país nunca teve tantos álbuns nacionais como neste ano e em 2009. A perspectiva para 2011 é ainda mais generosa nesse sentido.

                                                          ***

O aumento de volume não significa necessariamente aumento da qualidade, embora já tenhamos lido bons trabalhos, que não ficam atrás dos tão propalados estrangeiros.

As condições de produção, como já mencionado, estão longe de serem as ideias. Mas, ao menos, há um momento mais favorável para criar quadrinhos no país.

Pode-se, com isso, criar um ensaio de mercado. Cabe aos autores aproveitar as poucas oportunidades para transformá-las em histórias que primem pela qualidade.

Assim como ocorreu com o cinema nacional na última década e meia e como bem ilustra "Tropa de Elite 2": surgiu a oportunidade, e não foi despediçada. Qualitativamente falando.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h33
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05.10.10

Livro uma antologia - e não a antologia - de As Cobras

 

As Cobras - Antologia Definitiva. Crédito: Editora Objetiva

 

 

 

 

 

 

 

Obra da Editora Objetiva reúne 470 tiras criadas pelo escritor Luis Fernando Verissimo 

 

 

 

 

 

 

 

 

O dicionário ajuda a ajustar melhor o que se entende por "definitivo". Do Houaiss:

  • 1. que define; decisivo, determinante; 2. que leva a conclusão; decisivo, cabal; 3. que não volta atrás; categórico, inapelável; 4. tal como deve permanecer; final, ultimado.

Especificamente sobre o texto, o verbete traz também esta acepção:

  • que não tem mais conserto ou jeito; final, total

Posto isso, já se pode questionar o sentido do seria uma "antologia definitiva", subtítulo de uma reunião de tiras de "As Cobras" (Objetiva; 200 págs.; R$ 49,90).

A obra faz uma antologia, e não a antologia, da série criada e desenhada pelo escritor Luis Fernando Verissimo.

                                                         ***

O livro reúne 470 tiras e as agrupa por temas, uma das características de uma antologia (uma vez mais de acordo com o "Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa").

A divisão temática ajuda a organizar melhor os temas que se tornam alvos da leitura crítica do escritor, do existencialismo às viagens ao espaço, das pesquisas de opinião à política.

(Difícil não observar o quão atuais as piadas continuam...).

A reunião de tiras, no entanto, deixa de lado muitas outras histórias da série, o que não justifica o adjetivo que acompanha a palavra antologia.

                                                         ***

Brincadeiras com alguns políticos, por exemplo, ficaram de fora. Em particular um deles, incluído na lista dos ficha-sujas, reeleito para deputado federal até prova em contrário.

Sob esse aspecto, a série já teve coletâneas melhores, mesmo que com produção editorial mais acanhada.

Uma delas foi publicada pela gaúcha L&PM em 1997 ("As Cobras em se Deus Existe que Eu Seja Atingido por um Raio").

Apesar de ser mais uma antologia, é sempre bem-vinda. A criação de Verissimo marcou época na história gráfica do país e justifica esta e outras reedições.

 

As Cobras, de Luis Fernando Verissimo

 

O escritor criou a série na década de 1970, época em que o país gritava como podia contra o Regime Militar. Desenhar duas cobrinhas foi uma forma de contornar a censura.

"Uma das razões para fazer as Cobras era que, na época em que elas nasceram, você podia dizer mais com desenho do que com texto", disse Verissimo ao jornal "O Globo" na edição de domingo, em entrevista concedida à jornalista Cora Rónai.

"Desenho tinha aquela conotação de coisa lúdica, infantil, e era conveniente para driblar a censura. Não que as Cobras fossem grandes contestadoras, mas elas sempre passavam alguma coisa."

Elas continuaram dizendo até até 1997, quando deixaram de ser publicadas. Verissimo dizia que não ficava bem para um senhor de 60 anos ficar desenhando cobras.

                                                         ***

O escritor ensaiou um retorno há quatro anos no site "Terra Magazine". Namoro rápido, logo substituído por histórias antigas, que vão ao ar até hoje na página virtual.

Entre o fim da série e as reedições, Verissimo criou outra tira, Família Brasil, publicada uma vez por semana em "O Estado de S. Paulo" e também já reunida em livro pela Objetiva.

A editora tem centralizado as obras bem-humoradas do escritor, um dos mais importantes da literatura contemporânea brasileira.

Tardou para a empresa resgatar As Cobras. A edição é a mais bem cuidada que a série teve no país. Mas é mais uma antologia. Não a antologia definitiva anunciada no título. Pena.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h11
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03.10.10

Livro ajuda a entender melhor tiras de Muchacha

 

Muchacha. Crédito: Quadrinhos na Cia.

 

 

 

 

 

Obra de Laerte reúne série publicada pela primeira vez no jornal "Folha de S.Paulo" 

 

 

 

 

 

A opção de reunir as tiras de Muchacha em livro fez bem à série de Laerte, à venda nas livrarias e lojas de quadrinhos (Quadrinhos na Cia., 96 págs., R$ 29). 

O novo suporte ajuda a compreender melhor a história, antes publicada semanalmente no caderno de cultura jornal "Folha de S.Paulo".

O espaço de sete dias, reduzido agora à página seguinte, torna mais fluida e coerente a passagem de uma cena à outra e permite ao leitor entender melhor a trama como um todo.

O formato livro - ou álbum, rótulo usado quando se trata de quadrinhos - também contribui para que se percebe por completo os cortes narrativos feitos pelo cartunista.

                                                         ***

Nem sempre a tira seguinte dá continuidade à anterior. Algumas funcionam como uma espécie de digressão à história lida até então.

Mas há uma relação temática, que vai sendo construída pouco a pouco. A trama de humor dialoga com os bastidores dos programas de TV da década de 1950.

O protagonista é Capitão Tigre, estrela de um dos seriados de então. Com o desenrolar da narrativa, ele começa a incorporar a personalidade do herói de máscara que interpreta.

A confusão de quem ele realmente é acentua com a troca de patrocinador e a substituição do programa por uma animação, encabeçada pelo revolucionário Morcego Frederico.

                                                         ***

A Muchacha do título é em encarnada pelo ator Djalma, que também atuava no programa. Desempregado, Djalma vê na criação da cantora latina uma forma de continuar trabalhando.

A coletânea traz como extra uma história de oito páginas, que conta a origem do Capitão Tigre. O trabalho foi feito por Rafael Coutinho, filho de Laerte.

Mas o diferencial do livro é possibilitar o intervalo curto na leitura de uma tira à outra, o que ajuda a entender melhor o emaranhado narrativo de Laerte. Por isso, a série funciona melhor do que quando foi publicada no jornal, uma vez por semana.

Não são poucas as nuances narrativas construídas por Laerte, merecidamente premiado neste ano com um Troféu HQMix na categoria "grande mestre".

Escrito por PAULO RAMOS às 15h06
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