30.11.10

100 anos de Nássara, o melhor caricaturista brasileiro do século 20?

 

Juscelino Kubitschek, por Nássara   Cartola, por Nássara

 

Por Cláudio de Oliveira, especial para o Blog dos Quadrinhos

                                                       *** 

O caricaturista carioca Antônio Nássara, o Nássara,  completaria 100 anos no último dia 11 de novembro. Morreu no dia 11 de dezembro de 1996, aos 86 anos , enquanto cochilava na sua cadeira da sala. Teve um infarto.

Seu primeiro trabalho foi publicado em "O Globo", em 1927.

Nos anos 1930, passou por vários jornais e revistas. O auge de sua carreira foi nos anos 1940 e 1950, quando trabalhou na mais importante revista brasileira de então, "O Cruzeiro", de Assis Chateaubriand, e na "Última Hora", o moderno diário de Samuel Wainer.

Depois de um certo ostracismo nos anos 1960, Nássara é resgatado por Jaguar, que o convida a publicar no "Pasquim", colaboração que vai de 1974 até o fechamento do semanário de humor, no início dos anos 1960.

Seria exagero considerar Nássara o melhor caricturista brasileiro do século passado?

Se não é o melhor, certamente está entre os grandes da caricatura nacional. Seu mérito maior está em radicalizar a economia de traços de uma caricatura.  

Para Nássara, a caricatura deveria ser uma logomarca da face do caricaturado. Desenvolveu tal estilo, segundo dizia, de uma maneira prosaica: publicava seus desenhos em pequenos espaços do jornal, o que lhe exigia um grande poder de síntese. 

Henfil era admirador de Nássara e criticava a caricatura-retrato ou mera destorção fotográfica. Sem entrar na polêmica e sem deixar de reconhecer os méritos artísticos daquelas escolas, na linha da caricatura-síntese Nássara foi o grande mestre, ao lado do também carioca J.Carlos e do paulista Belmonte. 

Nássara influenciou vários caricaturistas e, entre seus discípulos mais próximos, podemos destacar dois: Emílio Damiani, ilustrador da "Folha de S.Paulo", e Alvim, ilustrador de "O Globo" [imagens abaixo]. 



Amy Winehourse, por Emílio Damiani   César Maia, por Alvim




Quem quiser conhecer mai sobre Nássara, tanto como caricaturista, como também como compositor de sambas e marchas de carnaval de sucesso, pode procurar nas bibliotecas, sebos e livrarias as seguintes obras:
 

  • "Nássara, desenhista", de Cássio Loredano, edição da Funarte de 1985;
  • "Nássara, o perfeito fazedor de artes", Isabel Lustosa, edição da Relume Dumará, de 1999. 

Ou acessar a Enciclopédia Itaú Cultural das Artes Visuais neste link.

                                                         ***
 

Cláudio de Oliveira é jornalista, cartunista do jornal "Agora São Paulo" e autor do livro de charges "Pizzaria Brasil, da Abertura Política à Reeleição de Lula", da editora Devir. Site: http://chargistaclaudio.zip.net.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h08
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24.11.10

Minhas guerras, nossas conversas, minhas memórias

 

A Guerra de Alan - As Memórias do soldado Alan Ingram Cope. Crédito: editora Zarabatana

 

 

 

 

 

 

Capa de "A Guerra de Alan", álbum que narra a história real do ex-soldado norte-americano Alan Ingram Cope

 

 

 

 

 

 

 

 


Há um fascínio, próprio do ser humano, que é se envolver com os relatos das pessoas, sejam elas próximas ou não. A convivência se ancora muito nisso.

O francês Emmanuel Guibert encontrou esse fascínio na história de vida do norte-americano Alan Ingram Cope. O interesse foi tão grande que decidiu verter o relato em quadrinhos.

O resultado rendeu três volumes, agora compilados no Brasil num livro só, "A Guerra de Alan - As Memórias do Soldado Alan Ingram Cope" (Zarabatana; 336 págs.; R$ 49).

A arte narrativa de Guibert ajuda a valorizar a peculiar trajetória, acentuando até os pontos mais comuns. Mas cumpre o que promete, expor em quadrinhos as memórias do amigo.

                                                         ***

Na leitura, fica evidente que Cope passou por diferentes guerras. A primeira, e mais evidente, foi a participação na Segunda Guerra Mundial.

Alistou-se ainda jovem. Subiu de posto de forma rápida. Logo, estava na Europa. França, Alemanha. Seguindo o relato, a presença dele no front não foi das mais marcantes.

O fim do conflito, próximo, contribuiu para tornar a passagem bem menos bélica. Mas uma participação numa guerra, mesmo que mínima, ainda é algo que se leva para toda a vida.

Isso fica claro no relato. A maior parte das memórias se ambienta no conflito. O primeiro capítulo mostra o treinamento. O segundo, a vida na guerra. São os mais interessantes.

                                                         ***

A terceira parte da obra mostra a vida pós Segunda Guerra. O fim do conflito levou Cope a alguns trabalhos burocráticos e à decisão de sair dos Estados Unidos e viver na França.

O gosto pela Europa, ironicamente, teve sua raiz justamente no período de combate nas terras do Velho Continente.

Apesar da decisão, o relato toma o cuidado de se centrar nos pontos que o ex-soldado queria. Muito do lado pessoal, como os diferentes casamentos, são pouco abordados.

Não é algo que comprometa. Mas é algo deixado de lado, não aprofundado. Nesse sentido, a amizade de ambos parece ter sido a voz mais presente na forma de compor o relato.   

                                                         ***  

Os dois se conheceram em 1994 na França, país que Cope adotou após combater na Segunda Guerra Mundial. O ex-soldado tinha, então, 69 anos.

O desenhista diz no prefácio que se encontraram por acaso, num pedido de informações. Foi a fagulha da amizade, que durou até 1999, data da morte do ex-soldado.

Foi nas conversas de ambos que Guibert descobriu o passado de guerras plurais de Cope. Convidou o amigo para transpor as memórias em imagens impressas. 

Os contatos entre os dois foram a base da narrativa, relatada em primeira pessoa. Houve uma apropriação consentida das memórias do amigo, pautadas nas conversas comuns. 

                                                          ***

Guibert explica que foram vários os contatos até que as palavras dele se vertessem na história em quadrinhos. O resultado ora se aproximava mais das memórias, ora menos.

"Algumas vezes meus desenhos guardavam uma vaga semelhança com o que ele havia vivido; o ambiente ou as pessoas não eram representações da realidade", diz no prefácio.

"Outras vezes, ele ficava admirado que uma cena que ele havia descrito para mim apenas em linhas gerais se encaixava até nos mínimos detalhes com suas lembranças."

Segundo o desenhista, Cope gostou do resultado "em todos os casos". Menos na terceira e última parte, feita postumamente, com base nos relatos já colhidos.

                                                         ***

Um dos recursos usados pelo artista francês para contornar a falta de precisão foi optar por cenários de fundo completamente brancos - durante o dia - ou pretos - à noite.

Guibert já havia se valido da estratégia em outro relato real levado para os quadrinhos: a experiência de Didier Lefèvre no Afeganistão, narradas nos três álbuns de "O Fotógrafo".

O trabalho, no entanto, tinha o diferencial de se pautar nas imagens tiradas por Lefèvre. Em "Guerra de Alan", houve um menor detalhamento visual, mas é nítido o esforço de pesquisa.

As memórias de Cope são o ponto central do álbum. Mas o sabor do relato só é conseguido graças ao eficiente tempero narrativo de Guibert. A arte dele cresce o passado do amigo.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h00
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16.11.10

Álbum narra cicatrizes físicas e psicológicas do autor

 

Cicatrizes. Crédito: Leya Cult

 

 

 

 

 

 

Obra de David Small mostra infância do desenhista, que foi vítima de um câncer e que, por isso, perdeu a voz 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há um modismo em torno das autobiografias em quadrinhos. Editorialmente, parece ser uma boa aposta. Tais narrativas têm um ar dramático, próprio para chegar a outros públicos.

A tendência tem ganhado corpo no exterior e pautado editoras daqui também, com alguns bons resultados. Caso de "Cicatrizes", lançado neste mês (Leya Cult, 336 págs., R$ 39,90).

O autor, o norte-americano David Small, descreve na obra a infância diferenciada que teve.

Vítima de um câncer no pescoço, passou por uma série de cirurgias que lhe retiraram o tumor e parte das cordas vocais. Sem voz, limitou-se por anos a sussuros para se comunicar.

                                                          ***

O teor da narrativa aproxima o livro a um drama. É o que justifica a escolha certeira do título, no plural. Não se trata apenas da cicatriz física, mas psicológica também.

A superação, segundo o autor descreve no álbum, veio apenas aos 15 anos. Foi quando começou a consultar um psicólogo, que o ajudou a enfrentar seus fantasmas pessoais.

E não foram poucos os traumas. O câncer só foi revelado a ele anos depois da cirurgia. O cisto no pescoço, indicador do mal, foi administrado sem muito cuidado pelos pais.

O pai, especificamente, teve a ver com a moléstia. Outra descoberta tardia, como se revela no final do livro.

                                                          ***

"Cicatrizes" alia o drama pessoal do autor com o entorno familiar. Relação difícil, vivia numa casa em que o diálogo era tímido. Ao contrário dos segredos, eloquentes.

Como em outras obras autobiográficas em quadrinhos, o álbum retoma o que parecer ser um tema recorrente no gênero: a convivência difícil com os pais e com a família.

E também a coragem de expor tais relacionamentos numa narrativa gráfica, técnica que o autor domina muito bem.

A falta de diálogo em casa, por exemplo, é representada pelo silêncio nos quadrinhos, quebrado apenas pelas onomatopeias próprias a cada um dos familiares.

                                                         ***

David Small tem um currículo largo. Divide os quadrinhos com ilustrações de livros, inclusive infantis. Mas "Cicatrizes" é, seguramente, seu trabalho mais pessoal.

A obra foi lançada nos Estados Unidos em 2009. Concorreu neste ano ao Eisner Awards e ao Harvey Awards, dois dos principais prêmios de quadrinhos dos Estados Unidos.

A repercussão no exterior - justificada - reforça a opção de usar o livro para estrear os lançamentos estrangeiros da Leya Cult, parceria entre as editoras Leya e a Barba Negra. 

A editora entrou no mercado de quadrinhos neste segundo semestre e tinha no catálogo, até então, livros de bolso com tiras nacionais - casos de "Vó" e "Mundinho Animal".

Escrito por PAULO RAMOS às 15h58
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04.11.10

Memória de Elefante faz reality comic autobiográfico

 

Memória de Elefante. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

Álbum de Caeto mostra a trajetória do quadrinista e a difícil relação mantida com o pai

 

 

 

 

 

 

 


Associar algo a um reality show pode soar pejorativo, dada a resistência de muitos ao gênero televisivo. Não é o caso e não é esse o ponto que interessa aqui.

O ponto que parece relevante é que tais programas usam a mediação eletrônica - TV, internet - para expor a vida de um grupo de pessoas a uma gama enorme de brasileiros.

Há um quê desse processo em "Memória de Elefante", álbum nacional à venda em livrarias e lojas de quadrinhos (Quadrinhos na Cia., 232 págs., R$ 37,50).

O autor, Caeto, faz uma autobiografia em que expõe muito mais do que a própria vida. Parentes e amigos são mostrados também. Tudo mediado pela linguagem dos quadrinhos.

                                                          ***

Trabalhos autobiográficos em quadrinhos não são algo novo. O fato de haver uma superexposição pessoal e familiar também não.

"Fun Home - Uma Tragicomédia em Família", de Alison Bechdel, já havia se enfronhado na vida da autora e da relação dela com o pai. A obra foi lançada no Brasil em 2007. 

O que há de novo é o fato de o gênero ser explorado por um quadrinista brasileiro, e numa obra de fôlego - a narrativa passa das 200 páginas.

É um realitty comic autobiográfico, feito sem concessões. Tudo está à mostra. Como um selo colado na capa já avisa, a vida de Caeto é assunto "só para adultos". 

                                                         ***

No álbum, o autor rememora fragmentos de suas três décadas de vida. O nível de detalhamento faz jus ao título da obra. O quadrinista, de fato, revela precisão nos fatos.

Caetano Melo dos Santos, real nome do autor, divide a autobiografia em dois momentos bem nítidos. No primeiro, mostra a difícil arte de ser quadrinista e de morar em São Paulo.

Nascido em Assis, no interior paulista, migrou para a capital e passou a depender apenas de si. No processo, criou uma banda e participou do fanzine "Sociedade Radioativa".

Nos bastidores, fazia bicos para ganhar dinheiro e a vida. E gastava muito do que recebia com bebida, vício que o acompanhou por anos, segundo relata.

                                                          ***

O segundo momento autobiográfico talvez seja o ponto nevrálgico da obra: a difícil e distante relação com o pai. Homossexual, o pai contraiu HIV e vivia sozinho no interior paulista.

A temática da relação pai/filho ganha corpo do meio do álbum para o fim, mesmo que o autor não tivesse planejado isso inicialmente.

Caeto dá a entender que construiu o relato sem saber direito o final e que narrava enquanto vivia. Isso fica claro num diálogo com a então namorada, Luana, mostrado na página 142.

Na sequência, reproduzida a seguir, o quadrinista apresenta a ela o esboço do álbum.

                                                          ***

- "Essas são as três primeiras páginas do álbum de quadrinhos que estou escrevendo sobre a minha vida. Acho que vai ter mais de cem páginas", diz Caeto.

- "Legal. Você já escreveu toda a história? Sabe como vai terminar?", pergunta Luana.

- "Não escrevi toda a história, nem sei como vai terminar. As coisas ainda estão acontecendo..."

- "Legal!"

- "Quem sabe você não vira uma personagem do livro?"

                                                          ***

Luana virou personagem. Ela e o entorno das pessoas que conviviam com Caeto. E o pai, promovido a ator coadjuvante ao longo da narrativa, com papel central no poético desfecho.

Embora autobiográfica, parte das situações da obra foi adaptada, até com toques ficcionais, de modo a tornar mais interessante e bem-humorado o relato.

Um caso disso é o cachorro Júlio, mascote que mantinha com o colega de quarto, Ulisses Garcez. Em muitas das passagens, Caeto mostra o que o cão estaria pensando.

Mas isso não fragmenta o pacto narrativo autobiográfico firmado com o leitor. Caeto cumpre a meta de se expor por completo via quadrinhos. E torna sua vida interessante de ser lida.

Escrito por PAULO RAMOS às 16h08
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