18.12.10

Um jornalismo - e não o jornalismo - em quadrinhos

 

Notas sobre Gaza. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

Capa de "Notas sobre Gaza", trabalho mais recente de Joe Sacco, autor que constrói reportagens em quadrinhos

 

 

 

 

 

 

 

 

Há um senso comum em torno do trabalho do jornalista e desenhista maltês Joe Sacco. Costuma-se apregoar a ele o surgimento do diálogo entre jornalismo e quadrinhos.

O assunto costuma vir à tona em congressos de comunicação, anualmente em trabalhos de conclusão de curso de jornalismo ou quando há um novo trabalho dele.

É o que ocorre com o lançamento de "Notas sobre Gaza" (Quadrinhos na Cia., 420 págs., R$ 55), reportagem sobre o passado da relação tensa entre israelenses e palestinos.

Sacco, na obra, busca esclarecer um massacre de civis por tropas israelenses na década de 1950. O assunto se resumia, até então, a notas de rodapé nos livros de história.

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"Notas sobre Gaza" é seguramente um dos melhores do autor. Ele se enfronha na região da Faixa de Gaza de hoje para recuperar relatos dos fatos de ontem.

Mescla uma narrativa que transita entre o presente e o passado e que reproduz o estilo de reportar desenvolvido pelo desenhista, radicado nos Estados Unidos.

Para contornar a dificuldade de expor os fatos na linguagem dos quadrinhos, Sacco se torna um dos protagonistas da reportagem.

Os bastidores da apuração se confundem com a matéria em si. Intencional e assumidamente subjetivo, ele impregna a exposição com suas impressões e sentimentos.

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Esse processo de condução da reportagem aproxima o trabalho de alguns gêneros caros ao jornalismo. O mais evidente é a grande reportagem, no caso a narrada no suporte livro.

Outro é o chamado jornalismo gonzo, popularizado pelo norte-americano Hunter Thompson (1937-2005).

Thompson se envolvia a fundo com as fontes da história e contava os fatos da forma mais subjetiva e pessoal possível. Como faz o autor de "Notas sobre Gaza".

O uso da imagem, característica dos quadrinhos, aproxima o jornalismo de Sacco de algumas matérias de TV, em que o repórter se mostra tanto quanto a notícia em si.

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Híbrido de tudo isso, o jornalismo feito por Joe Sacco não deixa de ser inovador. Foi o primeiro a narrar um fato - em quadrinhos - ao longo de páginas e páginas de um livro.

Por estar umbilicalmente vinculado a esse modo de reportar, do qual é o principal representante, costuma-se atribuir a ele o pioneirismo da relação jornalismo e quadrinhos.

Trata-se de um dogma que, de tão reproduzido, adquire ares de fato. Não é. As charges, que para alguns constituem gêneros jornalísticos, já serviriam como contraponto.

A relação entre jornalismo e quadrinhos vem de muito longe. Pelo menos, desde o século 19. Inclusive no Brasil.

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Os jornais brasileiros ainda encontravam um rumo dois séculos atrás. Sabia-se que a caricatura funcionava bem. Delas para as charges foi um passo.

Mas limitar o diálogo entre os dois campos apenas às charges seria outro equívoco. Uma investigação aos jornais da época confirma isso.

Um recurso usado então era o de desenhar os fatos, como uma história em quadrinhos. Um dos que faziam isso era o ítalo-brasileiro Angelo Agostini (1843-1910).

Um exemplo foi quando reproduziu um acidente com um trem. O leitor podia ver, no(s) dia(s) seguinte(s), a cena por meio da representação visual do desenhista.

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Esse método de desenhar cenas persistiu no século 20 e foi (re)descoberto pela imprensa brasileiro nas últimas décadas.

Julgamentos famosos que proíbem a entrada de fotógrafos costumam ser reportados com a presença de um ilustrador do jornal na plateia, pondo no papel os momentos chave.

Casos de crimes ou acidentes também são narrados em quadrinhos.

Os jornais e revistas usaram o recurso à exaustão no crime da menina Isabella Nardoni, assassinada pelo pai e pela madrasta em março de 2008.

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Especialistas na área gráfica, inclusive de outros países, têm recomendado aos jornais o uso da linguagem dos quadrinhos para tornar os fatos mais acessíveis aos olhos do leitor.

Parte da imprensa brasileira tem se valido do recurso nos últimos anos. Sites noticiosos também. Isso, não custa reforçar, é fazer jornalismo em quadrinhos.

O que Joe Sacco faz é um jornalismo em quadrinhos, e não o jornalismo em quadrinhos. Mas ele guarda o mérito de ter popularizado o recurso e a forma de narrar em livro.

Trata-se de um reportar, assumidamente subjetivo. É um molde. Há outros, inclusive no Brasil. São fazeres do jornalismo. No plural mesmo, e não no singular.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h21
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15.12.10

Bonjour: a descoberta das primeiras tiras de Liniers

 

Bonjour, de Liniers. Crédito: editora Zarabatana

 


No princípio, era "Bonjour". Depois, veio "Macanudo". No Brasil, ocorreu o inverso. Primeiro os leitores daqui conheceram a série argentina "Macanudo". E , só agora, "Bonjour".

A coletânea traz as primeiras tiras feitas por Liniers e já está à venda em lojas especializadas em quadrinhos (Zarabatana, 128 págs., R$ 51).

O "bom dia" gráfico era lido logo cedo pelos argentinos no suplemento "No", que circulava uma vez por semana no jornal "Página/12", de Buenos Aires.

A estreia, em setembro de 1999, mostrava um homem especializado em fazer traduções de filmes. O inusitado eram os nomes que escolhia, pouco fieis aos originais.

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A tira inicial já dava o tom de como seria "Bonjour". Ao contrário da maioria das séries argentinas de então, não trazia personagens regulares. Havia uma situação nova a cada vez.

O recurso - novo no país - era acentuado pelo próprio autor, que desenhava a si próprio em algumas das narrativas.

Ele brincava que a piada daquele dia não tinha funcionado e que os dias dele no jornal estariam contados. E estavam mesmo. Mas de uma outra maneira.

Liniers encerrou a série em 27 de junho de 2002. Trocou de casa. Passou a integrar o rol de autores diários do concorrente "La Nacion". Lá, criou "Macanudo". E estourou no país.

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"Macanudo" tem ganhado desde então uma coletânea por ano. Todas, com tiragens altas e vendas fartas. Os últimos números se esgotaram em questão de dias.

O fenômeno Liniers - hoje o quadrinista contemporâneo mais badalado da Argentina - ganhou força com a nova série de tiras. Mas os primeiros ensaios estavam em "Bonjour".

A arte de se autoretratar - ainda não na forma de coelho de óculos -, os pinguins, as aves, os homens de chapéu, as situações cotidianamente surreais. Tudo já aparecia lá.

O diferencial entre as duas séries está em outro aspecto. Há, nesse trabalho inicial, um diálogo mais forte com elementos da cultura pop, dos seriados ao universo musical.

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"Bonjour" ganhou uma coletânea lá, reproduzida fielmente nesta edição nacional, só depois da reunião das primeiras tiras de "Macanudo". Nesse ponto, foi como cá.

Desde 2008, já saíram três livros de "Macanudo", o último neste ano. Todos foram lançados pela Zarabatana. A série é publicada também no jornal "Folha de S.Paulo".

Para quem aprecia o trabalho do desenhista, a curiosidade de "Bonjour" está na (re)descoberta de suas primeiras tiras e dos temas que seriam retomados por ele anos depois.

Quem não conhece a série pode encontrar no livro uma porta de entrada para as criações de Liniers. Algumas das tiras são ainda melhores que as de "Macanudo".

Escrito por PAULO RAMOS às 23h33
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01.12.10

A volta da genitália desnuda de Geraldão

 

Geraldão, de Glauco. Crédito: versão on-line da Folha de S.Paulo

 


A edição desta quarta-feira do jornal "Folha de S.Paulo" republicou um momento histórico das tiras no Brasil: a exibição da genitália desnuda de Geraldão, de Glauco Villas Boas.

A importância é pelo fato de o personagem aparecer completamente sem roupa na seção de quadrinhos de um dos jornais de maior circulação do país.

A tira cômica foi impressa pela primeira vez na edição de 12 de junho de 1992 e, até onde a vista alcança, foi a primeira vez que isso ocorreu no Brasil.

Mais do que um sinal claro de ousadia, a atitude do autor foi um contundente murro contra a parede da censura militar, que ainda fazia sombra nos meios de comunicação.

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Hoje, fica mais fácil de perceber os passos dados por Glauco no sentido de testar até onde poderia ir com seu personagem drogadito - as drogas já eram outro sinal de ousadia.

Como um malabarista, testava os movimentos para verificar se a liberdade que dividia com Angeli e Laerte nas revistas da Circo Editorial poderia ser aplicada também na imprensa.

Geraldão começou vestido na tira de estreia, em 4 de outubro de 1983. O vestuário, depois, foi reduzido a uma samba-canção, que ele ficava sempre segurando para não cair.

Glauco, por fim, tirou toda a roupa do personagem. A ousadia - porque era uma ousadia, ainda mais num jornal diário - foi contornada com uma tarja preta na genitália.

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O que os leitores da Folha puderam (re)ler nesta quarta-feira é o fim da tarja e o surgimento, enfim, depois de anos, do bimbolover de Geraldão, como o personagem batizou a área.

Hoje, talvez uma tira assim ainda choque os mais conservadores ou os politicamente corretos, entre os quais estão incluídas algumas autoridades ligadas à educação.

Mas, sem dúvida, é algo bem mais comum de se ver, inclusive na grande imprensa. É algo que tem de ser creditado a Glauco na história das tiras e dos quadrinhos no Brasil.

As tiras dele têm sido reeditadas na Folha desde 17 de março deste ano, cinco dias após o assassinato dele em Osasco, na grande São Paulo. 

                                                          ***

Nota: estava marcada para as 19h desta quarta-feira, na Câmara Municipal de São Paulo, uma cerimônia para conceder a Glauco o título póstumo de cidadão paulistano.

Escrito por PAULO RAMOS às 19h29
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