24.01.11

Uma história sobre Bone, por ora sem final feliz

 

Bone 1. Crédito: reprodução

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa do primeiro volume de Bone, lançado no Brasil em dezembro de 1998 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Tudo indica que não será em 2011 o adiado final da série Bone. A editora da série no Brasil, Via Lettera, informou que não tem quadrinhos programados para este ano.

A informação foi passada via Twitter, na sexta-feira passada, pelo jornalista Jota Silvestre, do blog "Papo de Quadrinho". Silvestre havia sondado a editora sobre lançamentos.

A série norte-americana foi iniciada pela Via Lettera em dezembro de 1998. Com o passar dos anos, aumentou o espaçamento entre um volume e outro. O último, 14, saiu em 2010.

Mais de uma vez, inclusive neste blog, a editora havia dito que as histórias seriam retomadas. Pelo que se lê, não será bem assim. Pelo menos não neste ano.

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Bone foi criada em 1991 pelo norte-americano Jeff Smith e foi uma das séries mais premiadas dos Estados Unidos nas duas últimas décadas.

As histórias giram em torno dos primos Fone Bone, Smiley e Phoney. O trio enfrenta diferentes aventuras num vale coberto de situações místicas.

Os três se perderam na região. Ficam por lá na esperança de encontrarem o caminho de volta à cidade de onde vieram, Boneville.

Jeff Smith encerrou a série no número 55, lançado em junho de 2004. Desde então, as histórias vêm sendo sistematicamente reeditas em diferentes formatos editoriais.

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As histórias integram o raro grupo de quadrinhos que podem ser lidos tanto por adultos quanto por leitores juvenis.  

Por ter essa peculiaridade, tornou-se o principal presente que dei a vários amigos e colegas em festas de aniversário e comemorações de final de ano desde a virada do século.

Somava-se o fato de haver poucos álbuns em quadrinhos, o que reforçava ainda mais a escola. Era uma época em que o setor de livrarias ainda era pouco explorado.

Os presenteados tinham pouco contato com quadrinhos. Em geral, surpreendiam-se com Bone. Um deles costumava sempre me agrader por tê-lo apresentado à série.

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Não sei se todos os amigos e colegas deram segmento à leitura da série. O intervalo entre o lançamento de um volume e outro é um argumento forte para dizer que não.

Desde o começo do século, optei por acompanhar as histórias de Bone no original, tanto nos encadernados quanto na série regular. Foi uma das poucas em que fiz isso.

Li a edição final, ainda em 2004. Mas sempre continuei comprando as versões nacionais, à espera de (re)ler uma vez mais o desfecho da série. Lamento pelos demais leitores.

Fica a esperança de que a Via Lettera reveja a decisão, neste ou no próximo ano. Ou que outra editora se interesse pela série. A se pautar pelo presente, melhor outra editora.

Escrito por PAULO RAMOS às 09h24
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10.01.11

Álbum faz dupla homenagem: a Spirit e a Eisner

 

The Spirit - As Novas Aventuras. Crédito: Devir

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "The Spirit - As Novas Aventuras", que traz histórias do herói feitas por diferentes autores 

 

 

 

 

 

 

 

O Spirit sempre foi um herói diferenciado. Suas histórias traziam contos em quadrinhos, que não raras vezes punham o protagonista em segundo plano.

Ele também não era propriedade de uma grande editora, que, nas décadas seguintes, alternaria o grupo de escritores e desenhistas para manter a linha de produção narrativa.

Não. Spirit, como dito, era diferente. Os direitos pertenciam a seu criador, o quadrinista Will Eisner (1917-2005). Por isso mesmo, custou a trocar de mãos. Eisner não queria.

O tempo tornou a regra flexível e o pai do personagem aceitou deixar o filho passear com outros autores. O resultado chega agora ao Brasil em "The Spirit - As Novas Aventuras".

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O álbum, lançado em dezembro (Devir, 128 págs.), reúne os quatro primeiros números da revista "The Spirit - The New Adventures", publicada nos Estados Unidos durante 1998.

A proposta da série era entregar o personagem à nova safra de autores da indústria norte-americana de quadrinhos: Neil Gaiman, Kurt Busiek, Eddie Campebell, David Lloyd.

Logo na história de estreia, que também abre o álbum, reunia Alan Moore e Dave Gibbons, criadores da badalada minissérie "Watchmen".

A dupla recontou a origem do personagem, mas do ponto de vista dos personagens secundários da história.

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A primeira história de Spirit foi publicada nos Estados Unidos em 2 de junho de 1940. A história de estreia mostrava como o detetive Denny Colt se tornou o herói. O vilão da vez era o Dr. Cobra. O cientista era procurado pela polícia. Colt descobre onde está escondido.

Quando tenta capturá-lo, é atacado e dispara contra um enorme frasco. O tiro libera um líquido, que atinge o detetive. Imediatamente, entra em estado de animação suspensa. Dado como morto, é enterrado no cemitério Wildwood, em Central City.

Danny Colt, surpreendentemente, acorda, foge do túmulo e captura Cobra. Prefere que todos pensem que está morto Adota a persona de Spirit e passa a ajudar a polícia.

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Eisner conseguiu dar uma cara própria à série, que sempre iniciava com o nome do herói apresentado de forma estilizada na cena de abertura. O recurso é repetido no álbum.

A repetição estilística ajuda a recriar o ambiente das narrativas originais. Isso dá ao álbum um ar de homenagem. Dupla homenagem: ao herói em si e ao criador dele.

A série teve outros quatro números até ser cancelada com o fim da editora, a Kitchen Sink Press. A história é recontada pelo editor, Denis Kitchen, no prefácio da obra.

São histórias interessantes, sem dúvida. Mas não substituem as originais, que não são reeditadas no Brasil há mais de uma década.

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Nota: a Devir publicou a obra em dois formatos. Um, em capa dura, custa R$ 53. Outro, com capa cartonada e um pouco menor, sai por R$ 41. O conteúdo é o mesmo.

Escrito por PAULO RAMOS às 08h42
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04.01.11

Ao coração da tempestade editorial de hoje

 

No Coração da Tempestade (Abril, 1996) Ao Coração da Tempestade (Quadrinhos na Cia, 2010)

 

"Ao Coração da Tempestade" se ancora em uma metáfora. A tempestade do título é o ponto de chegada do trem que leva soldados norte-americanos ao campo de batalha.

Na trajetória que leva o grupo à Segunda Guerra Mundial, em 1942, a janela do vagão funciona como uma válvula de escape para a chegada no conflito.

As cenas externas observadas durante a viagem ajudam a rememorar fatos passados da vida do protagonista, Willie. O soldado é o próprio autor, Will Eisner (1917-2005).

Ele relembra a infância, a adolescência, o interesse pelos desenhos, a decisão de ingressas no conflito, o modo de ser do pai e da mãe, o preconceito por serem judeus.

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A intolerância presenciada por ele e pelos pais, em diferentes situações e épocas, são vistas pelo autor como pequenos movimentos do que se tornaria o grande conflito mundial.

A autobiografia de Eisner foi relançada pelo Quadrinhos na Cia. (216 págs., R$ 42). Ironicamente, começou a ser vendida no fim da primeira década deste século.

A ironia é porque a obra guarda em si outra metáfora, distinta da vista na narrativa em si. O álbum tem papel semelhante à janela do trem retratada pelo desenhista norte-americano.

O trabalho é uma das âncoras que ajudam a perceber o quanto o mercado editorial brasileiro mudou em comparação com a década anterior, a última do século 20.

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O álbum foi produzido para ser vendido prioritariamente em livrarias. As grandes redes hoje possuem um farto e destacado espaço reservado às histórias em quadrinhos.

É um cenário bem distinto do visto quando o álbum foi publicado no Brasil pela primeira vez, em 1996, pela Editora Abril.

A obra foi direcionada na época às bancas de jornal, então o principal ponto de venda de quadrinos no país. Para baratear o preço, a história foi dividida em dois volumes quinzenais.

As capas eram as mesmas. Para distinguir um volume do outro, a editora mudou a cor do título da obra, então chamada de "No Coração da Tempestade".

                                                           ***

A Abril produziu mil exemplares de uma outra versão, em capa dura, volume único e autografada por Eisner, que era vendida apenas sob encomenda e enviada pelo correio.

A editora paulista vivia naquele 1996 um momento mais tímido no tocante às publicações adultas. A redação destas havia sido unificada com a infanto-juvenil, vítima do Plano Collor.

"De repente, as vendas de revistas despencaram e nossas apostas, que eram custosas em comparação com os títulos da Marvel, da DC, da Disney e de outros licenciantes, deixaram de ser viáveis do ponto de vista de faturamento", diz Marcelo Alencar, na época editor-chefe da área de quadrinhos.

"Estamos falando de uma época em que, se uma revista vendesse menos de 50 mil exemplares, era sumariamente cancelada. Hoje as expectativas, de modo geral, são bem mais modestas."

                                                          ***

Alencar havia sido contratado pela Abril em 1989 para cuidar da publicação de graphic novels, nome que ainda era novo no Brasil.

A editora Globo também havia criado na mesma época uma redação para cuidar de obras assim. É dessa época a publicação das minisséries "V de Vingança" e "Moonshadow".

Até o Plano Collor, houve uma ebulição de obras, voltadas ao leitor adulto. Todas direcionadas para bancas e, no máximo, a lojas de quadrinhos que então surgiam.

A Abril, nesse período, chegou a publicar dois outros trabalhos de Will Eisner: uma revista mensal do "Spirit" e a graphic novel "Um Sinal do Espaço".

                                                          ***

Alencar hoje edita livros educativos para a Fundação Padre Anchieta. Mas ainda mantém vinculo com os quadrinhos. Colabora para a Abril e integra a comissão do Troféu HQMix.

O jornalista acredita que, hoje, seria difícil vender o álbum em bancas. "Por um lado o fato me entristece, pois muita gente dos rincões do país deixa de ter acesso ao material."

"Por outro, me alegra, pois boa parte dos fãs de gibis, que antes só frequentavam jornaleiros, hoje são habituées de livrarias e têm o costume de consumir quadrinhos mais sofisticados."

Tal qual a janela do trem criada por Eisner, o mercado de hoje pode ser rememorado por meio da reedição de uma de suas obras e comparado com o de ontem. Muita coisa mudou. E não foi só a preposição do título do álbum do quadrinista. Vive-se hoje uma outra tempestade editorial. Diferente, mas não necessariamente pior.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h38
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