15.03.11

 Casos como o do Japão comportam charges?

 

Charge de Xalberto. Crédito: site Charge Online

 

A provocativa pergunta que intitula esta postagem foi pinçada da carta de um leitor do jornal "Folha de S.Paulo", publicada na edição de segunda-feira. No texto, ele questionava:

"... penso ser importante rir da tragédia humana. Mas rir inclusive das que não foram causadas por outro homem? Ou das que morrem centenas de inocentes?"

E conclui: "Momentos como este não comportam essas charges". O pronome "essas" remetia à charge publicada pelo jornal no sábado, de autoria de João Montanaro.

O desenho mostrava o tsunami arrastando casas, carros e árvores. Ao fundo, uma usina nuclear. O título dado foi "Xilogravuras Japonesas - A Onda".

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Havia um toque crítico e de humor na charge, características próprias do gênero. No entender do leitor, tais elementos não seriam propícios a determinados assuntos.

A leitura feita por Montanaro, e endossada pelo staff do jornal, é que o principal assunto do noticiário dos últimos dias é passível, sim, de um olhar crítico, com verniz de humor.

A mesma interpretação fizeram pelo menos outros 16 chargistas, que nesta terça-feira publicaram seus desenhos sobre a tragédia no Japão em diferentes jornais do país.

Pelo menos é o que se conclui após a leitura do site "Charge Online", que reúne trabalhos de todo o país. O assunto é o mais abordado na manhã de hoje.

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Quem também compratilha dessa leitura é o cartunista Laerte Coutinho. Em texto publicado hoje na seção de cartas da Folha, ele sai em defesa do colega de jornal.

Na leitura de Laerte, "talvez tenha havido pressa no julgamento que alguns leitores fizeram, condenando o trabalho por um suposto desrespeito à dor humana num momento de tragédia. No entanto, João revelou audácia, e não insensibilidade".

"Usando um ícone da cultura japonesa, ele nos remete a uma reflexão sobre contrastes: o milenar, permanente, sólido; e o instantâneo, devastador."

Segundo Laerte, "o autor se preocupou em não colocar nenhuma figura humana no desenho, sinal de que percebeu a gravidade do tema e a necessidade de localizar o comentário na esfera da relação entre a cultura humana com o meio ambiente." E conclui: Isso é um alerta, e não um sinal de zombaria".

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Em situações-limite como essa, torna-se, de fato, ainda mais desafiador o papel do chargista. Como bem sintetiza o desenho de Xalberto acima e lido no "Charge Online".

Por ser um fato que choca, há o sério risco de ser mal-interpretado, lido como zombaria, e não como crítica. É nesses casos que fica evidente quem de fato entende o papel da charge e quem não.

Leitores habituais de jornais, de quadrinhos e de charges tendem a aceitar sem problemas tais abordagens, mesmo que limítrofes, como a do Japão.

Parte dos demais tende a enxergar na charge apenas a piada, o humor, e não o papel da crítica. E verão apenas o texto visual, equivocadamente, apenas como uma chacota.

 

Preto no Branco, de Allan Sieber. Crédito: reprodução da edição on-line da Folha de S.Paulo

 

É a mesma desinformação que pautou outra carta publicada na edição desta terça-feira da Folha. Uma leitora classificava como "lamentável" a tira acima, de Allan Sieber.

No entender dela, o desenhista estaria "depreciando o teatro para crianças". Para ela, Sieber deveria se informar mais sobre o tema antes de "debochar" de forma "preconceituosa".

Embora a opinião deva ser respeitada, ela ignora o fato de o humor da tira ter se pautado num senso comum, evidenciado e reforçado pela contundente resposta escrita pela leitora.

A carta sugere também que, mesmo o teatro infantil sendo de qualidade, ele estivesse fora de uma abordagem cômica e crítica. Seguindo o raciocínio, haveria um "filtro" para o humor.

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De todo modo, o caso da tira de Sieber e a abordagem sobre o Japão não foram o primeiro - e nem serão o último - caso a pôr à prova o papel da charge.

Em 2005, um desenho que mostrava Maomé com um turbante explosivo gerou uma série de violentos protestos de seus seguidores na Europa e no Oriente Médio.

Vale o bom senso, claro, mas dizer que um assunto não cabe numa charge está no limite da censura.

Em tese, tal decisão deve caber apenas ao chargista, pautada na necessária liberdade dada a ele.

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Mas temas delicados são, de fato, desafios para os quadrinistas, que, mesmo assim, podem obter resultados primorosos.

Um exemplo foi a charge do desenhista Jean, na edição de domingo da mesma Folha e também sobre a tragégia no Japão.

O trabalho mostrava a bandeira do Japão com uma lágrima vermelha.

Sensível, não deixou de ser crítico e de abordar o tema.

Escrito por PAULO RAMOS às 08h32
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11.03.11

Nanquim (nada) Descartável

 

  • Quarto número é o melhor da série criada por Daniel Esteves
  • Parceria com editora permite venda do álbum em livrarias
  • Festa neste sábado faz mais um lançamento da obra

 

Nanquim Descartável 4. Crédito: imagem cedido pelo autor

 


Há que se concordar com um trecho do prefácio do novo número de "Nanquim Descartável", à venda desde o fim de janeiro e que tem novo lançamento neste sábado, em São Paulo.

Daniel Esteves, roteirista da obra, diz no texto que "mesmo com todos os atropelos, essa será a melhor revista que já editei". De fato, este quarto número é o melhor da série.

Não porque tenha o diferencial de ter sido produzido com mais páginas e no formato álbum - ficou 96 páginas (R$ 15) -, mas, sim, pelo conteúdo e pela história bem amarrada que traz.

E, nesse ponto, há de se concordar uma vez mais com Esteves. No mesmo prefácio, resume a série como um lugar "onde nada acontece, mas muita coisa é dita".

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Como nos demais números, a trama gira em torno da vida das protagonistas Ju e Sandra, duas amigas que dividem o apartamento e confidências.

Neste número, ambas têm de enfrentar casos mal resolvidos do passado. Dois relacionamentos com ex-namorados que terminaram pontas soltas e, por isso, não encerrados por completo.

É esse o tema central do álbum. Situação comum, mas, justamente por isso, de fácil identificação por parte do leitor. E diferenciado aqui pela criativa condução narrativa de Esteves.

Ele consegue criar situações e diálogos - uma das marcas da série - que ligam de forma peculiar os dois confrontos das personagens com os amores do passado.

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Um dos confrontos se dá na mente de Ju, após uma queda em seu quarto.

O trabalho gráfico feito por Mário Cau nas cenas imaginadas por ela é um dos diferenciais do álbum. Cada situação rememorada é mostrada com um estilo distinto do outro.

A impressão que a arte de Cau cria é que se trata de diferentes desenhistas, embora se saiba ser apenas um.

Como nos números anteriores, a arte é dividida entre vários autores. Participam também Wanderson de Souza, Alex Rodrigues, Fred Hildebrand, Wagner de Souza, Julio Brilha e Mário César.

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Uma parceria com a editora Via Lettera permitiu que a obra independente chegasse nas últimas semanas às livrarias também. Outra peculiaridade  deste quarto número.

A obra, por si só, já se diferencia por ser a melhor da série e por ser produzida no formato álbum, apesar de bancada pelo autor, que faz uma ponta no final da história.

Mas, a se pautar por este resultado, é um caminho a ser explorado. Seria prematuro dizer em março que se trata de um dos melhores trabalhos nacionais do ano.

Mas não seria incorreto registrar, ainda neste primeiro trimestre, que a obra se diferencia pela qualidade e que está, sim, entre os destaques deste 2011.

                                                         ***

Serviço - Festa de lançamento de "Nanquim Descartável 4". Quando: sábado (12.03). Horário: a partir das 18h. Onde: Estúdio HQEMFOCO. Endereço: av. álvaro Ramos, 404, sala 11, São Paulo. Quanto: o álbum custa R$ 15.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h22
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