30.04.11

Thor repete fórmula de Homem de Ferro

 

  • Filme, que estreou neste fim de semana, procura dar toques de humor a protagonista
  • Reconstrução do super-herói integra estrátégia para dialogar com diferentes públicos
  • Estratégia funcionou com Homem de Ferro, outro personagem secundário da Marvel

 

Thor

 


Assistir a uma sessão de "Thor" ajuda a entender não só a megaprodução que estreou neste fim de semana, mas também o público que ela tenta atingir. Basta observar com cuidado.

Vi o filme nessa sexta-feira, num shopping de São Paulo. Sessão das 18h30. Versão dublada, por opção minha. Apesar do horário, sala com mais da metade das cadeiras ocupadas.

Trailers. A maioria dava um tira-gosto das novas adaptações de super-heróis: "X-Men - Primeira Classe", da mesma Marvel Comics de Thor, e "Lanterna Verde", da concorrente DC Comics.

Terminada a entrada, o cardápio principal. As cenas iniciais já sinalizavam que um dos protagonistas do filme seriam não os atores, mas os efeitos especiais.

                                                          ***

A história inicia em Asgard, reino além da visão humana onde moram os deuses nórdicos. Cenário impressionante de ser ver, independentemente do gênero do filme.

As divindades são comandadas pelo poderoso Odin (Anthony Hopkins).

Os minutos iniciais mostram o conflito dele com os homens de gelo e apresentam seus dois filhos-herdeiros: o orgulhoso Thor (Chris Hemsworth) e o ardiloso Loki (Tom Hiddleston).

Já adulto, foi a impulsão de Thor que  levou a uma retomada do confronto com os seres de gelo. E que acarretou sua expulsão de Asgard. O confinamento seria na Terra.

                                                          ***

É aí que se percebem bem claramente as semelhanças com a adaptação de outro personagem do segundo escalão da Marvel Comics, Homem de Ferro.

De tão bem-sucedida, a produção ganhou uma sequência e projetou o personagem para um público muito diferente do dos quadrinhos de super-heróis.

A fórmula de Homem de Ferro era ter efeitos especiais de primeira, um elenco afiado, um protagonista carismático, que mescla momentos de humor e de ação.

Assim como o Tony Stark vivido por Robert Downey Jr., este Thor dirigido por Kenneth Branagh põe o poderoso herói em situações inesperadas e, por isso, cômicas.

                                                         ***

O humor nas histórias em quadrinhos de Thor, quando havia, era restrito a personagens coadjuvantes.

Criado em 1962 por Larry Lieber, Jack Kirby e Stan Lee (sim, ele faz a tradicional ponta no filme), o herói sempre foi representado de forma nobre, inclusive na fala.

O personagem passou por vários escritores ao longo das décadas. O protagonista do filme é uma amálgama de vários deles, inclusive no visual, baseado numa versão mais recente.

Mas o humor é novo. E torna o Thor do cinema um personagem mais interessante que o dos quadrinhos, assim como o Homem de Ferro.

                                                         ***

Mas não se pode esperar muito mais que isso. Trata-se de um roteiro simples, camuflado pelo roteiro simples e por rostos de alguns atores conhecidos.

Nem a presença da oscarizada Natalie Portman sobressai. Constrói-se um forçado interesse do deus nórdico por ela, que se torna mais um rosto na produção, como os demais.

É daqueles filmes para não pensar muito. É para sentar e deixar se envolver pelos efeitos especiais, o humor e os efeitos. E só.

A fórmula funcionou com Homem de Ferro. Tem tudo para ser repetida com "Thor". A recepção junto à grande massa é quem dirá.

                                                         ***

A plateia comum de filmes de ação era a maioria, pelo menos na sessão a que assisti. Como dito no início destas linhas, basta observar com cuidado.

Terminado o filme, a maioria se levantou para sair. Permaneciam nas sala uns poucos casais de namorados, como de praxe, e um grupo de oito pessoas, eu entre elas.

Eram os leitores de quadrinhos, que sabiam que as adaptações da Marvel dialogam entre si, como nos quadrinhos, e que haveria pistas após os créditos.

Dito e feito: aparecia o Nick Fury de Samuel L. Jackson para indicar o caminho do roteiro de "Vingadores", com Thor e Homem de Ferro. Não falo o que é para preservar a surpresa.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h54
[comente] [ link ]

17.04.11

Fidel Castro em quadrinhos

 

  • Álbum narra trajetória do líder cubano, da revolução aos dias de hoje
  • História foi feita pelo alemão Reinhard Kleist, especializado em biografias
  • Obra mescla acontecimentos reais com elementos ficcionais

 

Castro. Crédito: editora 8Inverso

 


É tentador, porém impreciso, rotular o álbum "Castro" como uma biografia ipsis literis.

A obra mescla aspectos ficcionais aos dados reais sobre Fidel Castro e o povo cubano.

Seria, então, uma biografia ficcional. Ou algo próximo a isso.

E está aí o acerto deste novo trabalho do alemão Reinhard Kleist, à venda em livrarias e lojas de quadrinhos (8Inverso, 288 págs., R$ 51).

                                                         ***

Para transpor uma biografia à linguagem dos quadrinhos, é necessário imaginar como se deram algumas das cenas e dos diálogos narrados.

Por essa aparente limitação, é difícil ser cem por cento fiel ao que está representado nos quadrinhos, por mais exato que se tenha pretendido ser.

Kleist derruba essa restrição ao assumir a mescla ficcional com os dados reais. Daí o acerto: ele diz ao leitor que algumas situações provavelmente ocorreram daquela maneira.

O recurso narrativo - que assume a imprecisão - ajuda a lançar o foco no ponto que realmente interessa: a trajetória de Castro e de Cuba e a rica história por trás deles.

                                                        ***

Boa parte dos fatos é relatada pelo olhar de um jornalista alemão, Karl Mertens.

O personagem criado por Kleist é uma forma inteligente de aproximar a obra ao leitor da Alemanha, país onde o quadrinista concetra sua produção.

O jornalista desembarca em Cuba em 1960 com a missão de entrevistar o então enigmático líder revolucionário.

Consegue realizar a matéria e se aproxima dos ideiais revolucionários. Decide deixar a Europa e se instalar no país sul-americano.

                                                         ***

O que o jornalista vê são os acontecimentos que, de fato, ocorreram e marcaram a história de Cuba e da relação do país com as grandes potências.

Usar o personagem alemão ajuda a narrar os acontecimentos sob o ângulo de um estrangeiro, como o autor, e a filtrar o olhar dado a Castro. Mas sem perder a criticidade.

Fidel é representado como uma figura carismática no período pré-revolução. Depois, já no poder, tem seus ideais adaptados à nova realidade do país.

A mudança política dialoga com atitudes autoritárias, de cerceamento à liberdade de expressão, aspectos não escondidos ao longo da obra. Mostra-se um outro Fidel.

                                                         ***

As fontes pesquisadas sobre o tema, elencadas no final da obra, revelam que houve uma real intenção de Kleist em ser o mais fiel possível aos fatos.

O autor também passou quatro semanas em Cuba, aprimorando a pesquisa. Inclusive da parte visual. Contou ainda com a consultoria de um biógrafo de Castro.

Mesmo com esses cuidados, é possível que o livro desperte emoções díspares em quem que o lê, a depender de como cada um enxerga o papel político de Fidel.

Afora a discussão ideológica, trata-se do melhor trabalho de Kleist publicado até o momento no Brasil. Especializado em biografias, já narrou as histórias de Jonhy Cash e de Elvis.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h24
[comente] [ link ]

16.04.11

O segredo de seus olhos, descobertos via blog

Recebi nesta semana o e-mail de um leitor. Ele dividia comigo uma história pessoal, que envolvia tanto este blog quanto o filme argentino "O Segredo de Seus Olhos".

Achei o relato tão saboroso de ser lido que pedi autorização ao autor, o advogado Pedro Fialho, de 28 anos, morador de Vitória da Conquista, no interior baiano, para postar aqui.

Autorização concedida, segue o registro encaminhado por ele.

                                                        ***

Olá, Paulo.
 
Me chamo Pedro e acompanho seu blog a uns dois ou três anos, não sei ao certo. 

Essa é uma historia que tem "certa participação" de uma informação do blog, fica de registro pra ilustrar a história do blog.
 
Há mais de um ano eu passeava por suas postagens quando te vi comentando de um filme argentino que você tinha assistido e gostado muito. Era "O Segredo de Seus Olhos".

Àquela altura, não se falava tanto assim do filme, era por volta de janeiro de 2010.

As conversas do Oscar não estavam muito latentes, pelo menos não no meu "campo de visão" (virtual, diga-se, moro em Vitória da Conquista, no interior da Bahia, onde não há um grande círculo cultural, sobretudo pra cinema latino-americano.)
 
Pois bem, da sua informação eu resolvi procurar e assistir ao filme. O fiz. Gostei demais.
 
Na época, uma então amiga me pediu uns filmes emprestados. Eu, logo na segunda-feira seguinte de ter assistido, emprestei para ela.

Depois pedi de volta, pois iria assistir o filme com uma outra amiga de Salvador que veio me visitar.

Ela – a primeira a quem eu havia feito o empréstimo - disse que queria ficar com o filme porque tinha gostado muito, mas me devolveu.
 
Na hora devolver, entreguei o DVD do filme que eu havia baixado e copiado junto com um cartão que redigi em uma máquina de escrever do meu trabalho, cartão escrito sem as letras "a".
 
Bem... de lá pra cá... um ano e tanto de namoro, de um relacionamento que, pra encurtar, pretende-se vire casamento em breve.
 
Pode parecer forçado incluir o blog como algo "responsável" por meu encontro com ela, mas por motivos de ambas as partes o período em que tudo aconteceu foi determinante pra que as coisas se desenvolvessem.

Seguramente eu acabaria esbarrando no filme, sobretudo depois que venceu o Oscar, mas me custa crer que qualquer coisa viesse a acontecer tão "bem acontecido" como ocorreu.
 
E devo ao blog ter visto o filme naquele exato momento da minha vida e dali ter determinado coisas que hoje se apresentam como a própria vida em si.
 
Sem falar que é sempre bom olhar pro passado e poder contar uma boa história, pois fica bem mais divertido contá-la falando que colhi aquilo de um blog sobre quadrinhos que eu conhecia.

É assim que gosto de me referir a todos esses acontecimentos, que são absurdamente surreais, inesperados e perfeitos pra mim.
 
Fica aí uma historia do seu blog pra ser contada um dia. 

E eu finalmente te digo "muito obrigado".
 
Algo que queria fazer há tempos, mas nunca me livrara de uma timidez quase tacanha de mandar este e-mail. 
 
Pedro Fialho

                                                        ***

Em tempo: Pedro e Analyz, sua noiva, já arranjam os detalhes para o casório. Por vontade deles, seria em 2012. Mas precisam, antes, aguardar o arranjo de detalhes profissionais.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h46
[comente] [ link ]

14.04.11

Do Orum ao Ayê, do ProAC às livrarias

 

  • "Orixás - Do Orum ao Ayê" narra surgimento do homem do ponto de vista africano
  • Obra de Alex Mir, Caio Majado e Omar Viñole tem lançamento nesta quinta em SP
  • Álbum foi um dos projetos selecionados por edital de incentivo à produção de HQs

 

Orixás - Do Orum ao Ayê. Crédito: editora Marco Zero

 


O roteirista Alex Mir despontou no circuito independente paulista com histórias de super-heróis nacionais. Mas ficava um quê de que ele poderia render mais em outro gênero.

"O Mistério da Mula sem Cabeça", lançado em janeiro do ano passado, já sinalizava um flerte dele com a narrativa em quadrinhos mais longa.

É desse flerte que vem este "Orixás - Do Orum ao Ayê", álbum escrito por ele que tem lançamento nesta quinta-feira à noite em São Paulo (Marco Zero, 80 págs., R$ 19,90).

Desenhado por Caio Majado e arte-finalizado por Omar Viñole, ambos também do meio alternativo paulista, a obra narra o surgimento do homem do ponto de vista africano.

                                                         ***

A grande curiosidade da obra é justamente essa, a de apresentar ao leitor brasileiro como foi vista e narrada a criação do homem pelos Orixás, figuras tidas como semideuses.

O álbum reconstroi o surgimento do primeiro Orixá, Oxalá, e o modo como os deuses foram incumbidos de sair do Orum (moradia divina) para gerar o ser humano no Ayê (a Terra).

Essa transição de planos é antecipada pelos nomes escolhidos como subtítulo da obra. Só não explica tudo, como por que os homens seriam idiferentes uns dos outros.

Curiosidades relatadas de uma maneira bastante acessível e divididas ao longo de cinco capítulos, cuja ligação poderia ter sido mais bem arquitetada.

                                                          ***

Por ser uma narrativa dividida em capítulos, "Orixás - Do Orum ao Ayê" deveria tornar fluida a ligação entre uma etapa e outra. Pelo menos, é o pressuposto que se cria no leitor.

É isso que causa certa estranheza em haver dois prólogos no início do terceiro capítulo. Outro incômodo é ler a palavra "fim" na última página do capítulo quarto (o total são cinco).

Apesar disso, preserva-se o interesse, muito pelo desconhecimento do conteúdo, baseado na cultura africana. A obra se propõe a apresentá-lo ao leitor. E cumpre a meta.

O álbum foi um dos dez trabalhos selecionados em 2010 pelo ProAC, programa paulista de incentivo à produção de quadrinhos. O governo já anunciou um novo edital para este mês.

                                                         ***

Serviço - Lançamento de "Orixás - Do Orum ao Ayê". Quando: hoje (14.04). Horário: das 19h às 21h30. Onde: Livraria da Vila. Endereço: alameda Lorena, 1.731, São Paulo. Quanto: R$ 19,90.

Escrito por PAULO RAMOS às 00h10
[comente] [ link ]

10.04.11

O segundo retorno da verdadeira Luluzinha

 

  • Pixel põe nas bancas revista com histórias antigas de Luluzinha e Bolinha
  • Até o meio do ano passado, personagem era publicada pela Devir
  • Antiga editora lançou oito álbuns, direcionados a lojas de HQ e livrarias

 

Luluzinha. Crédito: editora Pixel

 


É preciso olhar com mais criticidade o marketing em torno do primeiro número da revista "Luluzinha", à venda nas bancas desde a virada do mês (Pixel, 52 págs., R$ 3,10).

Do contrário, corre-se o risco de comprar apenas o discurso capitaneado pelo marketing da editora. O primeiro ponto, pouco alardeado, foi o anúncio premeditado do lançamento.

Durante semanas, a editora inseriu uma chamada nas seções de palavras cruzadas dos jornais registrando que a publicação já estaria "nas bancas e livrarias".

A venda de fato teve início nos últimos dias de março. Um lançamento oficial foi realizado no último dia 2 na livraria de um shopping de São Paulo, com a presença de atores mirins.

                                                         ***

Apesar de a sessão de autógrafos ter ocorrido numa livraria, a publicação foi direcionada às bancas, e não aos dois pontos de venda, como informava a publicidade antecipada.

Também não se tratava de uma volta, como a assessoria informou à imprensa.

Tratava-se, a bem da verdade, de um segundo retorno. A retomada das histórias antigas da personagem ocorreu em 2006, pela Devir.

A editora lançou oito álbuns, direcionados às livrarias e lojas de quadrinhos. O último data de 2010, menos de um ano até esta "volta". Houve, na verdade, uma troca de casa.

                                                          ***

O que é correto é o retorno ao formato revista. A última experiência nesse molde editorial havia sido feita pela Abril. A publicação havia sido cancelada no meio da década de 1990.

Vale também aí uma leitura mais crítica. Nenhuma retomada de personagens clássicos dos quadrinhos nas bancas, na forma de revista, foi bem sucedida nos últimos cinco anos.

Recruta Zero, Fantasma e Hagar são três dos exemplos. Alguns dos títulos mal passaram do primeiro número. 

"Luluzinha" deve chegar a outras edições, muito por conta do marketing em torno desta edição inaugural. Mas, a se pautar pelos outros casos, é dúvida para o futuro.

                                                         ***

Não se quer dizer que a revista já é, desde agora, fadada ao fracasso. Nem se deseja isso. O conteúdo, ingênuo sem deixar de ser inteligente, vale ser lido em qualquer formato.

Mas é para pensar se a estratégia da editora foi a mais certeira. Os exemplos de ontem são desanimadores. E o que mantinha a boa circulação da personagem era o molde do álbum.

Álbum que permitia o conteúdo chegar ao público adulto, que lia as histórias durante a infância e encontrava nelas memórias guardadas em algum canto da memória.

Este primeiro número deixa claro que o público-alvo são as crianças. Sinal disso é a presença, ao final das sete histórias, de um passatempo (jogo dos erros).

                                                         ***

Os passatempos tomam também metade de um almanaque, em tamanho maior, vendido com este número inaugural.

A outra metade procura fazer uma ponte entre a versão original da personagem com a adolescente, criada pela Pixel especialmente para o Brasil e vendida também nas bancas.

Não deixa de ser estranho ver a Luluzinha jovem apresentando como ela era na infância, nas histórias publicadas a partir da metade da década de 1940. Deveria ser o contrário.

É bom ter Luluzinha publicada. Ainda mais as histórias antigas. Mas é um projeto de risco, que precisa ser lido com criticidade. Ao contrário do que propõe o discurso do marketing, comprado cegamente e com destaque por alguns veículos da grande imprensa.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h32
[comente] [ link ]

[ ver mensagens anteriores ]