14.05.11

De moedinha em moedinha, fez-se um Naruto

 

Naruto

 

Tenho uma rotina nos sábados de manhã: ida a alguma banca ou loja de revistas para comprar as publicações semanais de notícias.

Foi numa dessas compras que presenciei uma cena que há muito tempo não via: o esforço feito para comprar uma revista em quadrinhos.

Explico. Na fila para pagar, havia um garoto na minha frente. Via que minha vez demorava a chegar. O motivo era simples: a vendedora estava somando moedinhas, uma a uma.

O menino levou vários saquinhos de papel, cheios de moedas. À caneta, escreveu quanto havia em cada um: R$ 3, R$ 2,50... Eram para comprar o mangá "Naruto".

                                                          ***

A contagem das moedas demorou a chegar aos R$ 9,90 cobrados pela revista da editora Panini. Mas quase não percebi o tempo passar.

Vi no menino quieto e ansioso um pouco do muito que vivi na infância, ainda um ingressante na leitura. Uma das primeiras compras de quadrinhos que fiz foi juntando moedinhas. 

Entreguei todas ao jornaleiro na esquina de casa e comprei um número de "Edição Extra".

O título da editora Abril destava a cada edição histórias de algum personagem da Disney. Aquele número trazia os Irmãos Metralha. Guardo a revista em minha coleção até hoje.

                                                          ***

Os anos trouxeram empregos e, com eles, maior poder aquisitivo. As compras de quadrinhos, hoje, tornaram-se mais rápidas, quase automáticas.

Por isso, é bom ser relembrado sobre a dificuldade que era levar uma revista em quadrinhos para casa. Dava-se mais valor ao produto e ao esforço em chegar até ele.

Bom saber também que ainda há crianças que economizam para comprar quadrinhos (apesar de estes estarem hoje bem mais caros do que eram em minha infância).

O garoto da banca e a criança que fui ontem têm muito a ensinar ao adulto de hoje.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h24
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06.05.11

Três sombras, uma metáfora e muitas dualidades

 

  • Álbum mostra enigmáticas sombras que querem tirar criança de sua família
  • História é inspirada em casal de amigos do autor, que conviveu com perda do filho
  • Desenhista francês Cyril Pedrosa virá ao Brasil no segundo semestre

 

Três Sombras. Crédtio: Quadrinhos na Cia.

 


Há um ar tradicional, já visto em muitos filmes, nas páginas iniciais de "Três Sombras", à venda em livrarias e lojas especializadas em HQ (Quadrinhos na Cia., 272 págs., R$ 39,50).

Uma família tem a vida resumida à casa no campo e ao entorno dela. As tarefas diárias são a busca por alimento ou o desfrute das belezas naturais. Tudo na mais perfeita harmonia.

A tranquilidade do pequeno Joachim e dos pais, Louis e Lise, é quebrada quando avistam ao longe três enigmáticas sombras. Descobrem depois serem três cavaleiros.

Mais do que aparentes seres humanos, trata-se de um trio de entidades que vieram para buscar o menino. Incapaz de lutar contra elas, o pai decide fugir com o menino.

                                                          ***

A superfície do enredo criado pelo francês Cyril Pedrosa esconde, tal qual suas sombras, outras intenções.

Muitas delas são calcadas numa grande metáfora, a da sombra, e em dualidades: segurança e medo, união e separação, presente e futuro, e a principal delas, vida e morte.

O tema da morte, de certa forma, pauta toda a história, inspirada numa situação real, como o desenhista revelou neste mês em entrevista a Telio Navega, do blog "Gibizada".

A busca por Joachim estabelece um diálogo com a morte do filho de um casal de amigos.

                                             ***

"Não consigo encontrar palavras para expressar o trauma que foi para eles. É a pior coisa que pode acontecer com um ser humano", diz Pedrosa, na entrevista ao "Gibizada".

Anos depois, teve a ideia de verter a experiência em imagens e palavras.

"Por um tempo, lutei contra a ideia, mas, no fim, admiti que seria importante realizá-la. Talvez pareça estúpido, mas pensei que poderia ser um presente para eles."

O resultado teve boa repercussão. A obra esteve entre as premiadas do Festival Internacional de Quadrinhos de Angouleme, um dos mais importantes da Europa.

                                             ***

Há méritos na premiação. Pedrosa soube trabalhar nas páginas o drama vivido pelos amigos. Os desenhos, em particular, constroem a necessária sensilibidade exigida na obra.

Isso ajuda a enriquecer o roteiro que, a bem da verdade, é bastante simples. Simples, mas correto, bem conduzido.

De todo modo, como o lado emocional em geral fala mais alto durante o processo de recepção, pode ser que "Três Sombras" seja mais lembrado justamente por isso.

O burburinho em torno do álbum deve aumentar no segundo semestre, quando o autor virá ao Brasil para participar do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em Minas Gerais.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h10
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