19.07.11

Moebius inédito no Brasil

 

  • "Arzach" traz histórias de experimentalismo gráfico e temático do desenhista
  • Trabalho do autor francês é o primeiro lançamento estrangeiro da Nemo
  • Editora programa mais trabalhos dele e de outros quadrinistas europeus

  

Arzach. Crédito: Moebius 

 

Moebius é daqueles autores que são mais comentados e elogiados do que propriamente lidos. Relação contraditória, acentuada pela fragmentada publicação dele no Brasil.

Os trabalhos dele passaram nas últimas três décadas pela L&PM, Globo, Abril, Panini e Devir, que lançou somente em 2006 uma de suas principais obras, "Incal".

Ter uma coleção de produções do desenhista francês, proposta da estreante editora Nemo, ajuda a compreender melhor a trajetória do autor.

Ainda mais com um trabalho inédito e igualmente comentado, o até agora enigmático "Arzach", lançado no início deste mês (56 págs., R$ 42; capa aqui).

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É preciso contextualizar a obra para entender o papel histórico dela. Como o próprio autor explica na introdução, viviam-se dias conservadores nos quadrinhos franceses.

Em dado momento, os responsáveis pela "Pilote", revista voltada a adolescentes, resolveram dar uma mexida no conteúdo e arriscar algumas inovações gráficas.

Uma delas é a que abre o álbum da Nemo. "Desvio" é uma história de realismo fantástico, mesclada com elementos autobiográficos. Moebius aparece na trama com a família.

Todos rumam de carro, em férias, para uma ilha. Decidem por um caminho alternativo. Alternativo mesmo: há gigantes, luta contra um enorme exército e outros desafios afins.

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O restante do álbum reúne as experimentações que deram sequência a essa inovação inicial. É aí que surge "Arzach", sempre acompanhado de seu pterodáctilo voador.

Não há propriamente uma história clara, com começo, meio e fim bem delineados. O que existe são desenhos minuciosos, detalhados, buscando produzir algo novo.

Lançadas na revista francesa "Metal Hurlant", uma das principais da época no mundo, as narrativas foram comparadas por Moebius, nas palavras dele, a uma espécie de surto.

"Eu tinha como projeto expressar o nível mais profundo da consciência, nas franjas do inconsciente. Esta história pulula, então, de elementos oníricos", diz, na introdução.

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De "Arzach", Moebius migrou para outros trabalhos, dentro e fora do meio impresso, e se firmou justamente como um dos grandes nomes da ficção científica quadrinizada.

Mais do que isso, tornou-se uma referência a novas gerações de autores. A importância deste álbum é mostrar como se deu o início desse processo, inédito por aqui.

A Nemo pretende agregar outros trabalhos do autor a esta coleção. E somar a ela títulos de outros autores europeus. Um já havia sido anunciado: "Corto Maltese", de Hugo Pratt.

A editora confirmou mais alguns, também para este semestre: "A Trilogia Nikopol", de Enki Bilal, reunida num só volume, e "Era a Guerra de Trincheiras", de Jacques Tardi.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h27
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17.07.11

Dias de Angoulême no Brasil

 

  • Gibicon, encerrado neste domingo, em Curitiba, estreia com pé direito
  • Toda a cidade respirou o encontro, algo comum ao Festival de Angoulême
  • Se depender da repercussão desta edição-piloto, evento terá reprise em 2012

 

Entrada do Paço da Liberdade, um dos locais do Gibicon. Crédito: Coletivo.50

 

Já havia pistas de que havia um quê diferente no Gibicon logo na saída do aeroporto Afonso Pena, que fica em São José dos Pinhais, cidade vizinha a Curitiba.

No balcão de informações, havia um enorme cartaz afixado na mesa de vidro.

Os dizeres anunciavam o encontro de quadrinhos na capital paranaense, iniciado na sexta-feira e encerrado neste domingo.

O trajeto até Curitiba comprovou que não se tratava apenas de impressão. Toda a cidade estava pontuada pelo evento, algo atípico de ser ver no Brasil.

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Os pontos de ônibus tinham um enorme cartaz, aos olhos de todos, com parte do uniforme do Homem-Aranha. E, claro, uma chamada para o Gibicon.

Outros anúncios foram colocados em praças. Em alguns cafés e restaurantes, havia flyers. Até quando não se esperava, viam-se alusões ao encontro.

Os jornais e emissoras locais encamparam o evento com reportagens. Até veículos nacionais deram atenção. O "Jornal da Globo" exibiu matéria na madrugada de sexta-feira.

Um bom destaque, apesar de a repórter iniciar o texto com um antigo chavão: "foi só aparecer o desenho no papel para marmajo voltar a ser moleque".

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Ao contrário do que a reportagem da TV Globo procurou mostrar, a programação era voltada ao público adolescente e adulto.  Que compareceu. E não só de Curitiba.

O que o público viu foram dias de Angoulême, cidade francesa que hospeda anualmente um festival homônimo, tido como um dos principais do mundo.

A comparação foi ouvida em mais de uma roda de conversas. Assim como a cidade europeia, Curitiba tocou uma orquestra afiada, envolvendo todos os seus músicos.

O som agradou, impressionou. Até são Pedro, um músico inesperado, ajudou. A temperatura inesperadamente subiu dez graus. Foram dias quentes e ensolarados.

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A orquestra quadrinizada foi tocada em diferentes pontos do atraente centro histórico curitibano, revistalizado e que , por si só, já justificaria uma visita.

Apesar de espalhada, a programação contou com boa plateia. O menor público visto no sábado, por exemplo, foi pouco menos da metade das cadeiras vazias.

A diversidade de locais e de mesas em paralelo foi talvez a maior dificuldade vista no encontro. Havia uma escolha de Sofia na hora de optar para onde ir.

Por isso, é possível que se forem ouvidas cem pessoas que visitaram a Gibicon, ouçam-se cem roteiros distintos, tal qual a teia construída por um passeio na internet.

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Posso dividir com o leitor o roteiro que fiz, já estava definido antes mesmo de chegar, na sexta. Iria participar de uma mesa sobre produção argentina e mediar outras duas.

Já havia ficado impressionado com a galeria de arte, que concentrou parte das exposições na abertura oficial do evento.

Impressionado porque, num mesmo espaço, dava-se tratamento à altura a desenhos de Tex feitos por autores italianos e brasileiros. Estes deram sua leitura do personagem.

Paralelamente, uma ala apresentava ao público quais eram os autores da região. Nomes de Curitiba, de projeção nacional, dividiam as paredes com colegas locais.

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Os quadrinhos curitibanos foram tema de mais de um debate. Tive a oportunidade de mediar uma delas, sobre o humor feito na região.

Participaram Solda, Benett, Pryscila Vieira e Marco Jacobsen. Os quatro puderam falar, sem autocensura, as restrinções a que muitas vezes têm de se sujeitar.

Solda comentou pela primeira vez a uma plateia sua demissão de um jornal local por conta de uma charge sua mal-interpretada.

Talvez uma frase de Jacobsen dita no dia resuma bem a questão: "o politicamente correto é o câncer do humor".

                                                          ***

Mediei também uma mesa sobre a importância das gibitecas, possivelmente a de cunho mais político do evento. Isso porque envolveu diretamente políticas de governo sobre o setor.

Uma possível conclusão é que não basta ter quadrinhos nas escolas: é preciso orientar o professor. E até estimular movimentos para discutir os quadrinhos junto às autoridades.

Estiveram presentes Maristela Garcia, coordenadora da pioneiro Gibiteca de Curitiba, a especialista em quadrinhos Sonia Bibe Luyten, e Afonso Andrade.

Andrade é um dos organizadores do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), outro encontro da área, que será realizado em novembro, em Belo Horizonte.

                                                         ***

Com debatedor, e não como mediador, estive com o editor da Zarabatana, Claudio Martini, e com o desenhista argentino Salvador Sanz, autor do álbum "Noturno".

Sanz apresentou seu trabalho e espantou a plateia ao dizer que demora dois dias - no mínimo - para fazer uma página em quadrinhos.

Martini, um dos poucos editores presentes no encontro, apresentou a capa de "Dora", obra argentina de Ignacio Minaverry que irá lançar neste segundo semestre.

Ele também surpreendeu os jornalistas, na manhã de sábado, ao dizer que irá publicar "Necronauta 2", de Danilo Beyruth. A surpresa é porque havia sido anunciado pela HQM.

                                                         ***

No domingo, a programação teve sequência, com as tradicionais mesas, debates e sessões de autógrafos (muitas com uma gorda fila).

A proposta de José Aguiar e Fabrizio Andriani, coordenadores do Gibicon, é que esta seja uma edição-piloto. A ideia é mostrar ao município que algo assim pode ser feito na cidade.

A média e longo prazos, o interesse é que o evento integre o calendário anual de atividades culturais da capital paranaense. A se pautar por este, terá reprise no ano que vem.

Sondei antes de ir embora qual foi a impressão que as autoridades de lá tiveram. Ouvi como resposta que "eles estão sorrindo". Bom sinal. Sorrimos também todos nós.

                                                          ***

Nota: participei do Gibicon a convite da coordenação do encontro.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h39
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12.07.11

A batalha, ao que tudo indica, chegará ao fim

 

  • Depois de quatro anos e meio, Conrad retoma mangá "Battle Royale"
  • 13º número começou a ser vendido neste mês; série tem 15 volumes
  • História mostra disputa entre jovens; vencedor é quem mata todos os outros

 

Battle Royale # 13. Crédito: editora Conrad

 

Numa das muitas passagens por Buenos Aires nos últimos anos, comprei o 15º e último número de "Battle Royale", publicado lá pela editora Ivrea, especializada em mangás.

Na Argentina, a série havia sido encerrada alguns meses antes. Eu acreditava ser uma oportunidade rara de ler o desfecho da saga, interrompida no Brasil a três edições do fim.

Na época, não havia muita esperança de retomada do mangá aqui neste país vizinho.

Divido esta impressão pessoal porque creio ser a mesma vivida por vários outros órfãos do mangá, que, só agora, descobriram que os pais, na verdade, não estavam desaparecidos.

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Quatro anos e meio depois do último número lançado no Brasil, o 12º da coleção, a Conrad retomou a série do ponto onde havia parado.

O novo volume já está à venda em bancas e lojas especializadas em quadrinhos (R$ 13,90).

A edição mostra a tensão entre os cinco últimos sobreviventes da matança iniciada logo no primeiro número do mangá, feito por Koushun Takami e Masayuki Taguchi.

Na história, o governo seleciona uma sala de aula e isola os alunos numa ilha. Só um sairá de lá vivo. Para isso, tem de vencer a disputa imposta: matar todos os outros.

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Desnecessário registrar que a série concentra doses cavalares de violência, tanto temática quanto explícita. Não por acaso é recomendada para maiores de 18 anos.

A história foi feita inicialmente em livro, escrito por Takami em 1999. Um ano depois, ele levou a ideia para os quadrinhos.

A estreia ocorreu um mês antes da versão cinematográfica. Houve uma sequência, "Battle Royale: Requiem", lançada em 2003.

O vídeo do longa-metragem chegou ao Brasil. Um final, ao menos, a saga já teve. Se não houver outros revezes, espera-se que o desfecho, agora, ocorra também nos quadrinhos.

                                                          ***

A volta de "Battle Royale" se soma à de "Cavaleiros do Zodíaco - Episódio G", também retomado do ponto onde havia parado. Mas são as exceções.

A editora, que tinha a dianteira do segmento, parou todas as séries orientais nos últimos três, quatro anos. Muitas séries ficaram pelo caminho.

A Conrad oficializou no começo de maio o fim das negociações com a Shueisha, principal editora de quadrinhos no Japão. Não é o cenário ideal, se visto do ponto de vista do leitor. Mas, justiça seja feita, este retorno cumpre o que a Conrad sempre disse sobre o assunto.

Nas várias vezes em que o blog questionou a respeito da interrupção dos mangás, a editora respondia que estava em negociação e que pretendia retomar. Não retomou tudo. Mas, é fato, retomou.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h43
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11.07.11

Dois olhares sobre a vida na favela

 

  • Álbum faz biografia de fotógrafo que cresceu em meio à violência de morro carioca
  • História de Maurício Hora é narrada sob o olhar do quadrinista André Diniz
  • "Morro da Favela" tem lançamento nesta terça-feira à noite, no Rio de Janeiro

 

Morro da Favela. Crédito: editora Leya/Barba Negra

 

Às favas com o politicamente correto. Nada do termo "comunidade", tão cunhado pela mídia de uns tempos pra cá. Favela é favela no novo trabalho de André Diniz. Sem eufemismo.

Tanto que o autor faz questão de explicar, logo na página inicial, a evolução da palavra. De árvore sertaneja a conjunto de moradias. Ou uma delas em particular, no Rio de Janeiro.

O "Morro da Favela", que dá nome ao álbum (Leya/Barba Negra, 128 págs., R$ 39,90), é também onde se ambienta a história real do fotógrafo Maurício Hora.

Ele foi criado desde 1968 onde hoje fica a região da Providência. Antes de polícias pacificadoras, presenciou o melhor e o pior dos meandros do morro.

                                                         ***

São dois olhares sobre o mesmo objeto. As memórias do fotógrafo serviram de base para a história, conduzida pelo ângulo narrativo de André Diniz, que acumula roteiro de arte.

Hora retoma as lembranças da infância e da difícil vida no morro. Difícil por ter de conviver com os ecos do mercado paralelo, dos primórdios do jogo do bicho ao tráfico de drogas.

O pai dele, segundo o relato, teria sido um dos primeiros a mexer com essa área. A atividade rendeu idas e vindas à prisão e sucessivas batidas policiais em casa.

Foram tantas "visitas" da polícia que o fotógrafo lembra de desisitir de arrumar os armários. Pra quê, se seriam revirados mesmo a cada batida?

                                                         ***

Assistir à história do privilegiado ponto de vista do leitor permite perceber que, com o passar dos anos, a violência no local deixa de ser apenas física. Passa a ser armada também.

A partir da metonímica história de Maurício Hora, o álbum constrói um fragmento da realidade contemporânea, que começou a receber atenção apenas recentemente.

Tal qual "Cidade de Deus", filme que ajudou a dar voz ficcional à vida na favela carioca, vê-se o que de pior os morros têm a oferecer (e de forma não ficcional, nesse caso).

Mas, ao contrário do longa-metragem, a obra se distingue por apresentar também o que a favela tem de bom a oferecer. Como já dito, trata-se do melhor e do pior do morro.

                                                         ***

O lado positivo, por assim dizer, teve início quando Hora descobriu a vocação para a captura de imagens. Foi a descoberta também de que havia cenas boas a serem registradas.

As fotografias - muitas tiradas apenas com autorização dos chefes do tráfico - obtiveram repercussão dentro e fora do Morro da Favela. E muito fora. Chegaram à Europa.

Esses dois lados antagônicos é que pautam as memórias dele. O que por si só não seria suficiente se não estivessem casadas com a eficiente narrativa construída por Diniz.

Do circuito independente ao comercial, ele tem sistematicamente aprimorado seus trabalhos. Ele já havia demonstrado maturidade na obra anterior, "O Quilombo Orum Aiê". Conseguiu se superar com este novo trabalho. É  o melhor que ele produziu até aqui.

                                                         ***

Serviço - Lançamento de "Morro da Favela", de André Diniz. Quando: terça-feira (12.07). Horário: 18h. Onde: Livraria da Travessa. Endereço: rua 7 de setembro, 54, centro do Rio de Janeiro. Quanto: R$ 39,90.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h50
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